domingo, 20 de novembro de 2016

Uma lei do mundo

Salvador Dali - Rostro de la guerra (1940-41)

O reaccionário Joseph de Maistre, esse inimigo jurado da revolução francesa e do Iluminismo, talvez seja o pensador que, nos dias conturbados de hoje, mereça ser lido e meditado com mais atenção. Não apenas pelo seu pendor autoritário, mas pelas suas considerações sobre a guerra. Há uma célebre citação do conde saboiano que tem escandalizado muita gente, mas que deve ser pensada. Diz Maistre: A guerra é, em si mesma, divina, pois é uma lei do mundo.

O problema não é se nós gostamos ou não da guerra. O próprio Joseph de Maistre achava-a um horror e uma derrota da razão e da civilização. O problema é se a nossa pobre espécie tem em si o poder de construir uma paz perpétua ou se a guerra é mesmo uma lei metafísica inexorável a que estamos submetidos. Se olharmos para o actual panorama geopolítico temos todas as razões para temer que Joseph de Maistre tenha razão.

E a possível razão de Maistre não advém só do flagelo que o fundamentalismo islâmico espalha pelo mundo. É nas próprias nações marcadas pelo Iluminismo – isto é, as nações ocidentais – que parecem emergir as ervas daninhas que antecedem os tempos de confrontação militar e os grandes rituais sacrificiais da guerra. A intolerância religiosa, política e moral que se espalha pelo mundo ocidental é um dos sintomas.

O pior sintoma, porém, é a aceitação em parte cada vez mais exuberante da intelligentsia e da própria população a normalidade da eleição de Trump, da vitória de Farage e do Brexit, do crescimento dos fenómenos ditos populistas pela Europa fora. Por detrás destes fenómenos pulsa visivelmente, para quem não for distraído, um desejo enorme de confrontação e de esmagamento de tudo o que os contraria.

Não são tanto as personagens políticas que são problemáticas – apesar de o serem – mas aquilo que as constitui em personagens políticas com peso. O rancor de enormes máximas sociais é apenas a face visível da pulsão de morte e de um desejo insaciável de fazer correr o sangue pela terra que a espécie humana traz consigo. É aqui que a leitura e a meditação do velho inimigo da contra-revolução faz todo o sentido. Ele torna claro um limite do Iluminismo e da própria razão. Mostra-nos para onde caminhamos, plenamente inconscientes, cada vez mais depressa.