quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Mobilização e desenraizamento

Camilo Egas - Trabajadores sin hogar (1933)

Havia que atrair os homens às novas ocupações e, se eles se revelassem inicialmente imunes à atracção e sem vontade de abandonar o seu modo de vida tradicional, a tanto teriam de ser obrigados. (Eric Hobsbawm, A Era das Revoluções, p. 58)

Desde a sua origem, em Inglaterra na transição do século XVIII para o XIX e durante este, que o capitalismo possui duas características que chocam com a longa história da experiência humana. Por um lado, a mobilização; por outro, o desenraizamento. O capitalismo desenvolve-se assente em processos de mobilização totalizante. Mobilização de recursos financeiros, de matérias primas e de seres humanos. A esta conscrição fáctica corresponde um processo de desenraizamento das pessoas, de abandono das sociedades tradicionais e, nos dias de hoje, dos lugares em que nasceram e onde criaram raízes familiares e sociais.

Na história da humanidade foi longo o caminho percorrido para inventar sociedades sedentárias e criar o sentimento de lar e de pertença a um lugar. Mas a experiência deve ter sido de tal forma enriquecedora que, um a um e com raras excepções, os povos foram-se tornando sedentários e ao ganhar raízes num local chamaram-lhe pátria. Numa pátria pensa-se menos o aparelho polítco do que a ligação entre um povo e o território que é o seu. Subjacente à ideia de pátria está a ideia de enraizamento. Foi e é isto que as sociedade de mercado não podem tolerar. Os indivíduos devem estar mobilizados e, para que não se atenham a zonas de conforto, devem continuamente ser desenraizados.

Quando se estuda de perto a Revolução Industrial raramente se dá atenção à longa tragédia, quase sempre silenciosa, daquelas pessoas que foram obrigadas a deixar os campos e o mundo que era o delas para se tornarem operários. O brilho do néon que fulgura na epiderme das sociedades de mercado esconde uma tragédia de infinitos desenraizamentos, de perda de sentido, de redução da vida à servidão mais dura e menos esperançosa que poderia existir. Saliente-se, para os mais distraídos, que isso não é uma coisa do século XIX. É assim na China de hoje, é assim em muitos lados, e também é assim, cada vez mais assim, em Portugal do século XXI.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Poema 49 - As Quatro Estações: Inverno

Edvard Munch - Invierno en Kragerö (1912)

49. As Quatro Estações: Inverno

Sonho sempre o inverno como um fruto,
a pele banhada por uma luz sublime,
pequenos cristais de gelo,
a astúcia da neve prometida no horizonte.

Depois componho a vida
e deixo crescer algumas folhas mortas
nos ramos exaustos das árvores.
Ainda não é o inverno da infância,
a proliferação de rios sob as ervas,
a chuva a gritar nas janelas cariadas.
 
O amor ao inverno é um exercício lento,
requer a simplicidade de uma longa aprendizagem,
o desvario de olhar as chamas
para sentir as águas frias da intempérie.

Sento-me neste canto da casa
e espero por quem amei.
Descaco o fruto invernoso
e uma súbita luz derrama 
perfumes de romã sobre o teu olhar.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Contra a privatização do ensino

Stanley Spencer - Christ Overturning the money changers' table (1921)

Não podia estar mais de acordo com este artigo de Paulo Guinote, no Público. Está a preparar-se, a coberta de um relatório encomendado pelo governo e mal feito pelo FMI, uma nova revolução na educação. Esta revolução, porém, não visa a melhoria do sistema de ensino, mas pura e simplesmente transformá-lo em mercadoria e aos seus agentes, isto é, aos professores, em mera mão-de-obra descartável. Não se trata de outra coisa, pois os estudos internacionais têm mostrado que o sistema público português - apesar das intervenções disparatadas dos ministros da Educação, digo eu - tem, considerando a sua evolução, um desempenho acima do expectável. Isto, para além de preparar melhor para o ensino superior que as escolas privadas, como o veio demonstrar um estudo da Universidade do Porto (estudo que deve ter feito muita azia). Só quero referir dois argumentos contra a privatização do ensino. Diria, para usar o jargão da filosofia, que é um argumento ontológico e outro de filosofia política.

Argumento ontológico. O bem fornecido pela educação não é uma mercadoria que possa estar sujeita às leis do mercado. Imaginemos que nenhum pai queria que os seus filhos frequentassem a escola. Isto significaria que, pelas leis do mercado, elas deveriam fechar. Sabemos que isso não é possível, pois a educação é compulsiva, uma obrigação determinada politicamente. Mas este é apenas um argumento secundário. Tanto o saber - e a verdade que o orienta - como as relações de transmissão e aquisição desse saber não se podem regular pelas trocas comerciais. As escolas não podem vender diferentes físicas ou diferentes matemáticas como os stands de automóveis vendem diferentes carros. Por outro lado, a relação entre um professor e os alunos não é a relação entre um fornecedor de conhecimento e os seus clientes. O estudo da Universidade do Porto é muito interessante porque deixa compreender algumas coisas que são invisíveis. Ele mostra que as escolas privadas preparam melhor para a realização de um teste de papel e lápis (o exame). É uma preparação para o curto prazo. Mas o estudo mostra que esses alunos são pouco competitivos quando chegam ao ensino superior. A escola pública, pelo contrário, desenvolve um conjunto de capacidades a longo prazo, um trabalho invisível, mas que torna os seus alunos melhores nas universidade e, por certo, na vida activa. O trabalho de um professor tem componentes invisíveis, que não se compaginam com uma visão mercantil do ensino. É mais rentável para os alunos e para o país um certo, embora aparente, desperdício do que a eficência mercantil das escolas privadas. Esse aparente desperdício, que na verdade é investimento, deve ser uma preocupação da comunidade e como tal suportado e controlado politicamente por ela. Só as escolas públicas podem ser controladas politicamente pela comunidade.

Argumento político. Embora não seja reconhecida, a instrução e a educação públicas têm uma função de soberania. São um pilar mesmo da soberania, ao lado do corpo político, judicial e militar. O grande trabalho da escola pública é, através da transmissão de um conjunto de conhecimentos seleccionados politicamente, criar continuamente a comunidade política. A escola pública, ao formar os estudantes, está a formar também os cidadãos que permitirão que a comunidade política persista no tempo. Mais, devido ao carácter transclassista da escola pública, ela fomenta a amizade cívica, a vontade de pertencermos a uma mesma comunidade política e partilharmos um conjunto de valores em que reconhecemos a nossa identidade. Como as outras tarefas de soberania, esta também não deve ser privatizada.

Era bom que os vendilhões do templo pensassem no que querem fazer e na destruição que estão a preparar.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Meditações taoistas (11)

No governo do homem, no serviço do céu,
nada como temperança.
Lao Tse, Tao Te King, LIX

Durante meses meditou, olhando a balança suspensa do tecto. Observava o mecanismo perfeito, a figura com que a exactidão se adornou, o sentido que nascia do equilíbrio dos pratos. Que mistério se esconderia naquele artefacto que os homens um dia, para regularem as suas trocas, teriam inventado? Por vezes, se a meditação se prolongava, caía num estado de sonolência e estranhas visões perpassavam por si. O céu e a terra abraçavam-se e, com um ardor desmedido, entregavam-se a singulares jogos de amor.

Foi assim que viu nascer Thémis, a deusa que, filha do céu e da terra, pertencia à estirpe titânica. Uma visão mostrou-lhe que da mãe, Geia, recebeu o corpo terrestre com que, na sua longa meditação, a tinha sonhado e do pai, Urano, sem que alguém compreenda o mistério da herança, veio-lhe um espírito de equilíbrio e de moderação. Quando, numa longa noite de insónia e recolhimento, a viu adulta e bela, descobriu-lhe na mão a balança que ele próprio contemplara durante meses. Sim, a balança que caía do tecto de sua casa abriu-lhe o espírito para essa outra balança que trazia a justiça aos homens.

Então decidiu contar a história dos deuses, deixar testemunho sobre a terra como os imortais vieram à existência e que tesouros escondiam as suas imagens. Nas praças, ele falava acima de tudo do equilíbrio da balança, de como o mais leve sopro enlouquecia os pratos e introduzia o caos na vida dos homens e das cidades, um caos sulfuroso que aquele belo mecanismo, na mão da deusa, media sem parar. O importante, dizia então, é descobrir o limite, saber com precisão o tamanho do passo a dar, a cor e a textura da palavra a dizer, a firmeza com que a mão fechada deve castigar o excesso e a arrogância.

Nos dias mais quentes, o poeta sentava-se, solitário, debaixo de um árvore e meditava longas horas sobre o poder do Sol e a força do calor. Depois, ao retornar ao contacto com os outros, dizia: um mundo vulcânico habita sob o império da harmonia e é preciso que, a cada instante, aquele que é sábio equilibre os pratos da balança para que a lava incandescente, que dorme no fundo do homem, não encontre uma porta de saída e destrua o mundo.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Sándor Márai, A Ilha


A pergunta sobre a identidade de si mesmo é um topos recorrente da literatura ocidental. Um romance é o dispositivo tecnológico que se inventou para se observar o homem em busca daquilo que é, em busca da sua identidade. Não se trata, claro, de especular sobre o self, mas de o ver em acção, de observar a gesta que conduz ao reconhecimento. Raramente, porém, reconhecimento e reconciliação vão a par. É o que se passa também em A Ilha, um romance do escritor húngaro Sándor Márai publicado em 1934 e traduzido em 2012 para português.

Viktor Henrik Askenasi é um professor do Instituto de Estudos Orientais de Paris que levava uma existência burguesa com um casamento convencional. Esta vida pautada pelo reconhecimento dos pares, no entanto, não era suficiente para o apaziguar. Desde sempre que uma dissonância existencial lhe corroía a alma e semeava uma certa intranquilidade espiritual. Procurava qualquer coisa que o casamento não lhe dava. Para escândalo da boa sociedade a que pertencia, trocou a mulher por uma bailarina russa. Uma mudança radical. Askenasi, porém, rapidamente percebeu que não alterava em nada a sua situação interior. A dissonância não desaparecia na vida pouco convencional que agora levava.

É este o ponto de partida da narrativa. Nem a mulher nem a bailarina eram a solução para o problema que o atormentava. Aconselhado pelos amigos, que o criticavam e, ao mesmo tempo, o invejavam pela despudorada aventura com a bailarina russa, Askenasi empreende uma viagem pelo Mediterrâneo. Pára em Ragusa (actual Dubrovnik) e instala-se no equívoco hotel Argentina. Uma onda de calor transtornava os hóspedes e propiciava “uma atmosfera de sensualidade quase palpável e impúdica”. É neste ambiente que uma hóspede diz a palavra chave que desencadeia os acontecimentos, que levarão à revelação que Askenasi procurara toda a vida. Zwoundvierzig (quarenta e dois) na pronúncia berlinense (e não zweiundvierzig). Ela pede, desse modo, a chave do seu quarto, mas é também um convite que, tomado por uma certa vertigem, o professor Askenasi decide aceitar.

Que o resultado da sua autodescoberta gere a revolta contra Deus percebe-se, pois aquilo que ele descobre de si está longe de ser interessante e de corresponder aos anseios que o levavam à sua busca. Se a bailarina russa lhe indicou um caminho, se lhe permitiu a ruptura com a convenção e o mundo burguês das aparências, a hóspede do quarto quarenta e dois foi a alavanca que possibilitou erguer o véu e descobrir a verdade tenebrosa que residia em si. No fim do livro, tomado pelo desvario, Askenasi pergunta-se “o que é o erotismo?” E responde: “Poucas vezes o encontrei… Uma vez estava sentado no hall  de um hotel, depois do almoço. Uma mulher jovem  levantou-se da cadeira ao lado e dirigiu-se ao elevador, fazendo sinal ao marido para que a seguisse. Entraram juntos no elevador, e eu só vi uma mão e o braço dela ao fechar-se a porta devagar antes de começarem a subir. Acho que é o único gesto erótico que recordo.” Depois, acrescenta: “Nem mais tarde, nada do que experimentei na cama. Excepto hoje à tarde, talvez, quando a agarrei pelo pescoço… Sabes, ela não entendia o que eu queria.”

No lugar de um reconhecimento reconciliador, Askenasi descobre-se na obscuridade que o habita, descobre-se num eros que o conduzirá à perdição. O que cabe interrogar, com a leitura de A Ilha, é a relação entre eros e o espírito. Como poderá a experiência erótica ser integrada na descoberta espiritual do homem? Como poderá este evitar que o erotismo o conduza à degradação e seja motivo de corrupção de si mesmo? Contrariamente ao que, hoje em dia, se tornou opinião corrente, a sexualidade está longe, talvez muito longe, de ser um lugar de comunhão entre dois seres humanos. Talvez em casos excepcionais isso possa acontecer. Na generalidade, não passará de um lugar de prazer, se o houver, em que dois se acompanham, se vigiam e saciam as exigências que o corpo lhes impõe. Noutros casos, porém, como o de Viktor Henrik Askenasi ela é o sintoma do seu isolamento, a prova de que ele é uma ilha ou, para utilizar o velho conceito de Leibniz, uma mónada incomunicável, encerrada na escuridão de uma moradia onde não há janelas.

Sándor Márai (2012). A Ilha. Alfragide: D. Quixote. Tradução de Piroska Felkai.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Campanhas de terror

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

“O liberalismo económico propunha-se resolver o problema dos trabalhadores pelo habitual processo implacável de os forçar a trabalhar com salários de miséria ou a emigrar.”
Eric Hobsbawm, A Era das Revoluções

A citação de Hobsbawm, em epígrafe, refere-se à Inglaterra da década de trinta do século XIX e não a Portugal do século XXI. No entanto, não há qualquer diferença. No essencial, o liberalismo é uma doutrina estática, que adopta, com poucas variações no tempo e no espaço, as mesmas receitas. A aplicação destes receitas é antecedida por campanhas de puro terror. Primeiramente, através da violência física e da perseguição das pessoas, depois, quando a violência física se tornou mal vista, através da coacção psicológica e moral.

É no âmbito deste exercício de terror sobre as populações que deve ser entendido o famigerado documento que o governo português encomendou a um conjunto de técnicos do FMI. A sua função é lançar um sentimento de medo na sociedade portuguesa, em especial na função pública, para criar as condições para que as pessoas aceitem rescisões de contratos que o Estado não quer honrar e a degradação dos serviços públicos de saúde, educação e protecção social.

Muitos comentadores acham o documentam inexequível e feito por técnicos que não conhecem a história do país, que não percebem que Portugal foi um Estado antes de ser uma nação, que esse mesmo Estado, no último quartel do século XX cresceu para responder a problemas reais da sociedade e com vista a evitar uma perigosa ruptura social. Tudo isso é verdade, mas… O problema é que o liberalismo é uma doutrina racional abstracta, que não toma em consideração a história das sociedades e as suas tradições. Para o liberalismo, o fundamental é a destruição das tradições e dos mecanismos de solidariedade que a história dos povos foi institucionalizando. História, tradições, solidariedades, tudo isso deve ser destruído em nome da eficiência económica, da mercardorização dos bens sociais e da competição no mercado.

Quando as doutrinas liberais se apoderam, sem contrapesos, de um Estado, como acontece neste momento em Portugal, a única coisa que se poderá esperar são salários miseráveis para a generalidade da população, direitos sociais mínimos e, como salienta Hobsbawm, a emigração, essa forma pouco subtil de matar tradições e destruir solidariedades. Para se alcançar esse fim, não se olha a meios. Se preciso for, deita-se mão ao medo, transformando muitos actos e discursos políticos em puras campanhas de terror contra a população.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Poema 48 - A penumbra que vem de outrora

Thomas Cole - Cruz ao entardecer (1848)

48. A penumbra que vem de outrora

A penumbra que vem de outrora
chega ao entardecer.
Reverberação de musgo e seda,
corpos imprecisos,
algum sonho jamais sonhado.

Há mais passados 
do que aqueles que podemos suportar.
Na sua imperfeição, são uma cruz,
um horizonte de cinza e poeira,
a luz perdida no esquecimento.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

No melhor dos mundos

Andrés Nagel - ¡Oooh, Dios mío! (1990)

Talvez me falte talento para analista político e não tenha nascido com o dom da profecia. Isso explicará a estranha sensação que me acomete de que o governo, apesar de ser constituído por quem é, está a ganhar a guerra que, a coberto do memorando, está a travar contra o denominado Estado social. A sociedade portuguesa está a interiorizar algumas das declarações governamentais e haverá muita gente que, mesmo contrariada, acabará por concordar com os cortes que o documento encomendado pelo governo ao FMI propõe. Estes cortes prometem - não sei se cumprirão - um alívio da carga fiscal, e parte substancial da sociedade portuguesa está sufocada pelos impostos. Os cortes na função pública e nas despesas sociais - educação e saúde - terão como alibi o alívio da tributação. Aliás, uma das razões porque o governo aumentou os impostos foi essa mesmo, criar condições para destruir os mecanismo sociais dependentes do Estado. O princípio utilatista da felicidade do maior número será invocado para justificar o que se prepara.

Uma das razões para esta percepção da vitória do governo reside na ausência de alternativas credíveis junto da opinião pública. De facto, a esquerda, perante a hecatombe que se aproxima, continua os seus jogos florais. O PS, agora com ar assacristoado, diz coisas balofas como é preciso haver crescimento (todas a gente sabe disso), mas não diz como. Por outro lado, o PCP e o BE estão na sua habitual zona de conforto, isto é, fora do sistema. Podem assim dizer o pior possível sem nunca sujar as mãos naquilo que é possível ou não realizar. Esperam apenas que nas próximas eleições umas dezenas de milhares de votos de descontentes lhes aumente a representação. Enquanto as instituições são demolidas, enquanto os bens sociais são dilapidados, enquanto as pessoas sentem o mundo a desabar, as esquerdas não acham que têm de fazer, umas às outras, cedências, grandes cedências, e construir um programa comum credível, não utópico, que consiga a quadratura do círculo: defender as pessoas e as instituições e manter Portugal no sistema internacional em que vivemos, isto é, pagar aquilo que deve. Mas talvez seja eu que não tenha talento para a análise política e tudo esteja no melhor dos mundos.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O bom caminho

Buenaventura Aumatell Tarradellas - Utopia de la libertad (1987)

O que deve ser feito em relação à economia mundial? A globalização contemporânea é inevitável? É desejável? Durará para sempre? Sabemos agora que a percepção que se tinha do capitalismo de 1900 era enganosa. À aparente estabilidade do início do século XX, seguiram-se décadas de conflitos e de grandes mudanças. Hoje, a ordem económica internacional também parece segura, mas dentro da perspectiva histórica isso pode significar apenas um breve interlúdio. (Jeffry Frieden, Capitalismo Global)

Uma das coisas que o livro citado de Friden ensina é a fragilidade daquilo que parece eterno e imutável. Na transição do século XIX para o XX, o capitalismo global parecia inamovível. Ganhara parate substancial da Europa, da América e, muitas vezes a tiro de canhão, abrira os mercados por esse mundo fora. O liberalismo só tinha um destino, tornar-se dominante no mundo. Mas catorze anos depois, com início da Grande Guerra de 1914-1918, vai-se assistir a uma poderosa reacção antiliberal na própria Europa. A vitória do comunismo na Rússia, a ascenção dos fascismos europeus e do nazismo, a crise de 1929, uma nova Grande Guerra, de 1939-1945, para não falar da Guerra Civil de Espanha e outros acontecimentos menos relevantes.

Quando a segunda Guerra Mundial termina, a Europa, ensinada pela experiência histórica, só de forma muito mitigada se liberaliza. É preciso chegar à decada de 90 do século passado para o liberalismo retomar o caminho que tinha sido interrompido em 1914. As almas cândidas - ou aquelas que acham que a história é uma irrelevância - podem julgar que, por fim, estamos de novo no bom caminho. Esquecem que esse bom caminho, no século XX, gerou duas guerras mundiais, o comunismo, o fascismo e o nazismo, tudo filhos bastardos do radicalismo liberal.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Um sintoma

Isidre Nonell Monturiol - Pobres esperando la sopa (1899)

A reconstrução das sociedades europeias à luz do modo de vida do século XIX não será tão fácil quanto o pensam os sacerdotes do culto liberal e os técnicos do FMI e do BCE. Aquilo que tem sido até aqui um exercício relativamente pacífico, apesar das escaramuças havidas, pode estar num ponto de viragem. Na Grécia parece estar a emergir uma onda de terrorismo, com vandalizações de sedes do PASOK, atentado contra a sede da Nova Democracia, bem como outros ataques a pessoas conotadas com a situação. A conduta absolutamente irresponsável da troika está a criar condições objectivas para que haja uma escalada de terror ou, como sublinha o jornalista grego Kostas Vaxevani: "A Grécia está no limite e é impossível as coisas continuarem como estão. Não podemos ter metade da população a procurar comida no lixo e a outra metade a não pagar impostos. Sem mudanças, vamos para a guerra civil". Eis o que dá o fanatismo que governa a Europa. É preciso encontrar pontos de equilíbrio e de justa medida, antes que seja demasiado tarde. Este é um exemplo que o governo português deveria acompanhar com atenção e perceber, pois nós somos mais parecidos com os gregos do que com os alemães (e mesmo estes, tiveram ainda há pouco um dos grupos terroristas mais sanguinários).

domingo, 13 de janeiro de 2013

Meditações taoistas (10)

Quem conhece o outro é sábio,
quem conhece a si mesmo é iluminado.
Quem vence o outro tem força,
quem vence a si é forte.
Lao Tse, Tao Te King, XXXIII

Não foi quando, sobre o amor, escutou a lição de Diotima, nem quando o oráculo de Delfos o proclamou o mais sábio entre os homens, que a luz brilhou no coração de Sócrates e ele descobriu quanto era forte. Muitos foram os combates em que participou. Fez a guerra e afrontou a arrogância dos atenienses. Em cada batalha saiu vencedor, criando inimigos implacáveis e uma corte de jovens aduladores sedentos de o seguir. Ao envelhecer, começou a rir da sua sabedoria e achou caricata a força que dele fizera um combatente digno de louvor. Para que lhe serviu ser herói de guerra ou ter mostrado aos outros que os conhecia melhor do que eles a si mesmos se conheciam?

A família, a cidade de Atenas, a vaidade do mundo cansavam-no e nem o teatro de Eurípides o animava. Deixou então o espírito vogar no desconsolo da vida, escondeu de Platão o cepticismo que lhe corroía o coração, semeou aqui e ali um sinal do que lhe ia na alma, uma incongruência que o discípulo, inconsciente e fascinado pela aura do mestre, registará nos diálogos, e que a posteridade nunca saberá interpretar, seduzida pelo brilho da lógica, pela novidade da personagem. Nem quando, dirigindo-se a Críton, pediu que pagasse um galo em dívida a Asclépio compreenderam a dor que o tinha atormentado e da qual o deus o libertava.

O processo que lhe moveram foi a sua salvação. As intrigas da cidade e a inveja dos mortais levaram os atenienses a condená-lo à morte. Os motivos eram fúteis e a culpa inexistente. Nesse instante, porém, Sócrates respirou aliviado. Encontrara um caminho, o sentido definitivo. Uma coisa sabia agora. Pouco faltava para que o corpo pesado e incapaz se desligasse, pela vontade dos seus concidadãos, da alma. Esperou, firme e esperançado, que os peregrinos retornassem de Delos. Quando chegaram, conversou o dia inteiro com os amigos. Depois, à hora marcada, tomou banho, despediu-se de todos e olhou a morte, que entretanto chegara. Nos olhos desta, descobriu-se forte e sorriu. Pegou na taça e, como o determinado pelos arcontes, tomou o veneno. Enquanto a vida se ia retirando do corpo, uma luz cresceu na alma que, iluminada e silenciosa, entrou no além.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Da corrosão moral


Joaquín Mir - Pobres (1899)


Este diagnóstico de Pacheco Pereira pode ser facilmente constatado. Basta ouvir as pessoas, ver os comportamentos, ler o que escrevem, sob anonimato, nas caixas de comentários de jornais e blogues online. Durante muito tempo, cresceu a sensação de que a riqueza e o triunfo na vida se deviam, na generalidade dos casos, a truques, para não dizer coisas mais desagradáveis. O efeito disto no tónus moral da sociedade era já devastador. Reduzia as pessoas, tolhidas por escrúpulos ou princípios morais, a uma atitude defensiva na vida, à procura de uma situação que, não sendo brilhante, lhes permitia levar a vida com dignidade, sem esquemas e aventuras que, para além de imorais, se inscrevem, muitas vezes, na ilegalidade. 

O problema que a actual situação coloca, porém, é ainda mais grave. Não apenas porque aqueles que viveram de truques continuam a sua marcha gloriosa, mas os que viveram, com a dignidade preservada, vidas anónimas, sem grandes pretensões, vêem-se agora enxotados dos lugares onde se encontravam, acusados de serem  um peso-morto para a sociedade e de estarem instalados em zonas de conforto. A lição dura que este governo, até pelas personalidades que o compõem, não consegue perceber é que a única coisa que vale a pena em Portugal é viver de truques, ser mais safado que o vizinho do lado, estar pronto para qualquer coisa que traga vantagem, independentemente da moralidade do acto ou, mesmo, da sua legalidade (logo, se achará maneira de vergar a lei, quando esta não é imoral). Não é apenas pela falta de energia social que a pobreza é problemática. O trabalho, o esforço, a dedicação, a honestidade tornaram-se valores risíveis. Ninguém que trabalhe honestamente está a salvo de um qualquer truque governamental. O pior que este governo está a fazer é tornar o trabalho e a honestidade das pessoas uma coisa negativa, uma zona de conforto de onde devem ser expulsas. Está a criar um caldo cultural onde a anomia e a amoralidade irão crescer.

Esta corrosão do carácter, por outro lado, manifesta-se no crescimento de sentimentos mesquinhos. A inveja, o despeito, a raiva, o ódio às elites políticas, o desejo de vingança, todo esse mundo de negatividade cresce desmedido no coração e na alma de milhões de portugueses. E isto tem um efeito potenciador. Alimenta e intensifica o desgaste do tónus moral da sociedade, que por seu turno alimenta e intensifica esta corrosão do carácter dos indivíduos, numa espiral que, a continuar assim, levará ao paroxismo e a tremendas explosões. Explosões individuais, mas também das multidões. Há dias, alguém me dizia que se vive numa enorme calmaria, mas isso alarmava-o, pois é a bonança que antece as grandes tempestades.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Construir pontes

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Portugal vive uma crise que ultrapassa em muito o problema das contas públicas. Se a crise não afecta a nossa identidade, põe em causa a nossa viabilidade enquanto nação autónoma. Reduzir todos os nossos problemas à questão económica é não perceber o essencial. Aquilo que nos está a suceder é o resultado de uma atitude complacente para com a realidade, de uma falta de exigência para com as elites políticas e para connosco, de uma ausência de rigor com que fazemos as coisas e encaramos as situações. É este modo de agir, transversal a toda a sociedade, que nos conduziu ao sítio onde estamos. 

Somos um pequeno povo com uma longa história, uma história que tem muito para nos orgulhar. Mas também somos um povo com poucos recursos, tanto financeiros como de matérias-primas. Estes factores deveriam ser motivo de profunda coesão social. A história dá-nos um suplemento de orgulho para afirmarmos um patriotismo constitucional e não xenófobo, o sermos poucos e pobres apresenta-nos o desafio que nos deveria unir para assegurar o futuro da comunidade.

Vivemos, na prática, uma situação de economia de guerra, tal a devastação que o problema da dívida soberana está a causar no tecido social. Ora é nestas ocasiões que uma comunidade precisa de dirigentes à altura que a consigam unir e mobilizar para a tarefa de superação dos problemas que enfrenta. Unir a comunidade não é fazer uma união nacional ou um bloco central. Unir a comunidade significa, em primeiro lugar, esclarecer com verdade e claramente a situação, aquilo que levou a ela, responsabilizar quem a provocou e explicar um caminho de saída. Em segundo lugar, unir a comunidade significa adoptar políticas em que se perceba que os sacrifícios são partilhados por todos e que os benefícios futuros também o serão. 

Ora em vez de se adoptar um caminho de partilha das dificuldades e de solidariedade, o que se descobre, a cada momento, são truques e golpes para maximizar os lucros de uma pequena parte, para impor um programa ideológico extremista, para desapossar a generalidade da população dos seus direitos. Em vez de unirem os portugueses, as elites governativas têm utilizado a situação para destruírem as classes médias e tornarem as classes populares ainda mais pobres. Portugal c}orre o risco de se desagregar e desaparecer. Precisamos de alguém que construa pontes entre os portugueses e que saiba indicar um caminho que todos nós possamos aceitar e empenharmo-nos nele. O amadorismo e fanatismo político que nos governam, incapazes de construir essas pontes, são o prenúncio de uma grande desgraça.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Um sorriso nos lábios

Markus Luepertz - Diez cuadros sobre la sonrisa mecánica - Edipo (1985)

A posição do presidente da Câmara de Cascais e dirigente do PSD, Carlos Carreiras, sobre os comentários do secretário de Estado Carlos Moedas acerca do documento do FMI (melhor, do documento do governo encomendado ao FMI) não mostra apenas o desconforto que existe dentro do partido relativamente à destruição do país e do Estado a que estamos a assistir. Mostra uma outra coisa muito mais importante. "Eu, enquanto social-democrata, não gostei de ver um secretário de Estado de um Governo liderado pelo meu partido... e confesso que, do ponto de vista simbólico, também me chocou porque havia um sorriso nos lábios".

Parece haver no governo e nos pequenos núcleos que o apoiam um prazer enorme na vaga de sofrimento que estão a espalhar pelo país fora. Há muito que deixámos o terreno da política para entrarmos num cruel exercício de ajuste de contas com a História e de vingança contra as pessoas. Sei que sou suspeito, pois, enquanto professor do ensino público, ao qual dediquei a minha vida (uma vida vivida em função dos outros e não dos meus interesses particulares e privados), faço parte dos inimigos deste governo e sou, como todos os meus colegas, um alvo a abater. Mas julgo ter a lucidez suficiente para ser objectivo e perceber que aquilo que me parece ser maldade é mesmo maldade, um desejo incontrolável de trucidar as classes médias, de criar exércitos de proletários e de lúmpen, de fracturar a sociedade criando um nicho de gente rica e instalada e um oceano de pobres. Nota-se, neste governo, prazer em executar esta tarefa e, entusiasmados pelo sucesso que estão a alcançar, não conseguem já reprimir o sorriso nos lábios, mesmo que, por vezes, a Laura e o Pedro venham choramingar para o facebook. Esta gente é o que é, e parece que há uma fábrica para a produzir que nunca pára de trabalhar.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O novo Kyrie Eleison

Aurelie Nemours - Axel (1979)

FMI, tende piedade de nós;
Governo, tende piedade de nós;
FMI, tende piedade de nós.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O caso da jovem indiana violada


O caso da jovem estudante de medicina indiana violada num autocarro mostra uma sociedade à procura de uma vivência democrática que ultrapasse a liberdade política e eleitoral. No entanto, os sinais são ambíguos. Por um lado, o movimento popular que pretende uma mais clara criminalização da violação das mulheres constitui um passo muito importante na defesa de um valor central da humanidade, o do respeito pela liberdade e integridade das mulheres. A revolta popular, embora partindo do caso da jovem violada no autocarro, desde logo se tornou um movimento com objectivos políticos e jurídicos que ultrapassam o caso particular para se focar na questão central da defesa do bem jurídico da liberdade e integridade das mulheres e da criminalização dos comportamentos que o põe em risco. A jovem estudante tornou-se heroína e mártir de uma causa que merece a maior das considerações.

A ambiguidade da situação resulta da posição da Ordem dos Advogados e que faz do advogado Manohar Lal Sharma um herói dos direitos humanos. A Ordem dos Advogados ao tentar demover os seus membros de defender os suspeitos do crime deu um péssimo exemplo ao país e um contributo negativo para a consolidação de uma ordem jurídica civilizada. Por horrendo que seja o crime que é imputado aos réus, a defesa no processo em que são acusados é um direito central. A tentativa de impedir que os réus tivessem um advogado devido ao crime de que são acusados não é apenas a sonegação de um direito humano, mas também uma incoerência jurídica. Ninguém é culpado antes do processo estar concluído e o direito ter sido expresso através da sentença proferida pelo tribunal. Por isso, o advogado que aceitou a defesa de três dos acusados deve merecer a maior admiração pelo contributo que dá ao processo e à justiça indiana.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Do retorno aos clássicos

Lawrence Alma-Tadema - A Reading From Homer (1885)

Nos séculos XVIII e XIX, como reacção ao Barroco e Rococó, já em fase de desagregação, surgiu, ao nível estético, o neoclassicismo, um retorno a uma arte de inspiração clássica grego-latina. Este retorno aos clássicos - nomeadamente, aos gregos - é recorrente na cultura ocidental. O primeiro momento de retorno aos gregos é, na verdade, uma apropriação e dá-se com os romanos. A cultura romana absorve e adequa à índole latina os autores gregos. As grandes crises da vida ocidental geram, normalmente, um retorno à pátria originária da nossa cultura. Agostinho de Hipona (Santo Agostinho) que vive já no período de desagregação do Império Romano é um neoplatónico. Na parte final da Idade Média, o período que vai do seu apogeu à sua crise no século XV, a filosofia e a teologia medievais centram-se no pensamento de Aristóteles. Com o Renascimento, é ainda um retorno aos gregos que se assiste, agora um retorno mais generalizado, que ultrapassa largamente o campo da filosofia. A Querela dos Antigos e dos Modernos, iniciada nos finais do século XVII, sublinha um movimento contrário, com a valorização das obras dos modernos relativamente aos antigos. O neoclassicismo é uma resposta a esta opção e, mais uma vez, um retorno aos clássicos. Este voltar aos gregos centra-se, na maioria dos casos, nos aspectos filosóficos e artísticos, embora a cidade-estado grega nunca deixasse de fascinar o mundo ocidental. 

Na profunda crise que atravessamos, será que ainda há lugar para retornar aos gregos?  E se sim, em que áreas? Uma crise representa sempre um questionamento da identidade. O questionar de uma identidade implica a busca de uma identificação e a necessidade de uma certidão de nascimento. Os clássicos gregos fazem parte dessa certidão de nascimento (juntamente com o cristianismo), atestam a nossa origem, são pais fundadores. Como tal, justifica-se, nesta hora conturbada, o retorno à Grécia e, de certa maneira, a Roma. Em que área? Duas áreas merecem a revisitação. A ética e a política. O que está em jogo na crise económica actual não é a economia, mas uma profunda crise política e uma crise ética. É aqui que faz todo o sentido reinterpretar e reler, à luz dos nossos dias, aquilo que os gregos pensaram sobre a justa medida, o equilíbrio, os ideias de vida e os regimes políticos. Não se trata como em outros épocas de tentar fazer renascer a cultura política e moral clássicas, mas de repensar conjuntamente os nossos problemas e os conceitos que fundamentam a nossa cultura política e as nossas práticas morais. Este retorno aos gregos e aos clássicos não se inscreve numa doutrina da salvação, num exercício soteriológico, mas de um reavivar das práticas do pensamento crítico, de análise dos ideias de vida e da forma como a política e a economia devem ser pensadas e estruturadas segundo os desígnios de uma vida boa. Por muito interessantes que sejam Adam Smith, Karl Marx, John M. Keynes, Ludwig von Mises ou Friedrich Hayek, é mais importante para compreender o que se está a passar e encontrar soluções ler Platão e Aristóteles.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Poema 47 - Retidos na pedra, os arqueiros esperam

Anónimo Prehistórico - Arqueros (Abrigo del Ciervo. Dos Aguas)


47. Retidos na pedra, os arqueiros esperam

Retidos na pedra, os arqueiros esperam.
Imóveis, ouvem o bronze de um sino a haver,
o lamento que perpassa pelos campos
e traça uma fronteira movediça,
negociada entre a vida e a morte,
sob o fulgor da eternidade.

Retidos na pedra, reconheço-os.
Ali vejo a minha face,
o brilhos dos meus olhos à espera da presa,
o arco dos anos que pesa sobre mim,
ao traçar uma corrente
que me ata àqueles dias,
ao passado sombrio e oracular,
a névoa do tempo que me chamou para a vida.

Olho para trás e vejo uma seta,
o rasto daqueles olhos,
o impulso feroz do braço que se soltou
e flutuando no tempo traça um círculo,
onde descubro a voz de uma estirpe,
o sangue frágil de uma herança,
a dívida que nunca pagarei.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O ano de 2013

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

O ano de 2013 não vai ser um bom ano. Este pessimismo persistente que evidencio nestas crónicas não se deve a um traço psicológico ou de carácter. A realidade não deixa que as ilusões se sobreponham às profundas preocupações com a situação social, económica e política. Para adensar o clima, acabo de ler uma entrevista antiga, de Fevereiro de 2012, dada por Toni Negri ao ionline. Negri esteve ligado à extrema-esquerda e chegou a estar preso acusado de terrorismo. Más credenciais, mas a sólida formação filosófica e o conhecimento da política global, bem como a perda de qualquer ilusão fazem dele um autor que merece ser lido e escutado, mesmo que não se partilhe, como é o meu caso, das suas soluções. 

Negri faz uma síntese dos elementos que estão na base desta crise (transformações tecnológicas ao nível da informática, mutações políticas, globalização da economia e o fim do modelo fordista de capitalismo e a transição para o capitalismo financeiro), para depois evidenciar a preocupação e o pessimismo com que analisa a situação e a possível saída para a crise. Conclui: ”Nestas condições, em que não há uma saída objectiva para a crise, a guerra tornou-se uma possibilidade”. Negri não fez uma profecia, apenas sublinhou que a guerra – nas actuais circunstâncias – se tornou uma possibilidade. Nada disto se alterou. 

Para além dos factores sublinhados por Negri, há ainda outros três que têm peso na actual situação. Por um lado, a crise ambiental e ecológica que afecta o planeta e não permite grandes ilusões sobre uma sociedade fundada no consumo de massas. Por outro, a crise demográfica. Para ser mais correcto, as crises demográficas, pois se há crises por defeito na Europa, noutros lugares haverá por excesso. Por fim, desemprego estrutural e que, com a robotização e informatização do trabalho, tenderá a consolidar-se e a aumentar. 

Demografia, ambiente, desemprego, fim da democracia (reduzida a um mero ritual), globalização e capitalismo financeiro desregulado (resta saber se seria, no quadro tecnológico actual, regulável) trazem em si uma certeza e uma possibilidade. A certeza é que seremos quase todos drasticamente mais pobres, cada vez mais pobres, enquanto um núcleo reduzido de seres humanos, à escala global, multiplicará a sua riqueza e o seu poder. Para além disto, parece restar-nos uma possibilidade e essa é a que assinala Negri, a guerra. Será isto a luz ao fundo do túnel? Boa sorte.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Das grandes narrativas

Hans Sebald Beham - The Anointing of David by Samuel (1533)

As grandes narrativas que até hoje conhecemos - a cristã, a liberal-progressiva, a hegeliana, a marxista, a fascista - podem muito bem revelar-se como tentativas inadequadas para nos apropriarmos da complexidade do mundo, mas tal conhecimento crítico não deslegitima nem a narração das coisas que se passaram nem dispensa o pensamento de buscar uma perspectiva luminosa para esclarecer as singularidades apreensíveis de um todo fugidio.  (Peter Sloterdijk (2008). Palácio de Cristal. Lisboa: Relógio d'Água, p. 14)

Na sequência da publicação, em 1979, de La Condition Postmoderne, de Jean-François Lyotard, tornou-se moda, nos meios intelectuais do Ocidente, falar na crise das grandes narrativas, no fim da pregnância destas narrativas para configurar um sentido para a vida dos homens. A resposta de Sloterdijk, porém faz todo o sentido. O facto de as grandes narrativas se terem mostrado, de uma forma ou de outra, inadequadas não significa que não se deva continuar a construir narrativas, as quais deverão permitir conferir um sentido às singularidades que compõem a vida.

Podemos encontrar, nas grandes narrativas, diversos elementos estruturais. Mas há um elemento que, podendo não estar presente em todas as grandes narrativas referidas, é aquele que, nos dias de hoje, reclama uma nova grande narrativa. Esse elemento é o sofrimento humano, o escândalo da dor, e antes do mais a injúria à consciência moral da dor inflingida pelo homem ao homem. O sofrimento apela à grande narrativa não apenas para ser contado, não apenas para ficar registado na gesta humana a dor que os homens infligem uns aos outros, não apenas para que essa dor adquira um sentido. O sofrimento apela à grande narrativa ainda para exprimir a esperança do fim desse sofrimento. 

Se se observar a grande narrativa cristã, ou a marxista, descobre-se de imediato o papel que o sofrimento imposto aos homens por outros homens tem nessa narrativa, e como nela se configura um princípio de esperança, se tece um véu de ilusão que torna a vida aceitável. O grande drama de hoje está em que a morte das grandes narrativas tradicionais não foi seguido pelo nascimento de uma nova narrativa. A consequência é terrível, pois se o sofrimento dos homens não diminuiu, a ausência de uma grande narrativa pregnante, ao roubar-lhes um princípio de esperança, intensifica o próprio sofrimento e acrescenta dor à dor que o homem sofre. Com a narrativa cristã, o homem sofria mas tinha a esperança na salvação. Com a marxista, o homem sofria mas tinha a expectativa de um mundo sem opressão. Nos dias de hoje, o homem sofre e a única expectativa é a continuação do sofrimento. As nossas sociedades não são apenas injustas. Ao desconstruirem as grandes narrativas, ao denunciá-las, juntaram à injustiça o sadismo.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Joe Wright, Anna Karenina


Segundo uma informação da Wikipedia, a versão cinematográfica de Joe Wright de Anna Karenina, de Tolstoi, é a décima terceira. Para além do cinema, o romance de Tolstoi tem sido adaptado para os mais díspares modos de espectáculo, desde a ópera à televisão, passando pela rádio e o teatro. Esta sobre-adaptação do texto torna qualquer nova tentativa um desafio desmedido ao talento e à capacidade de invenção do realizador, para que o produto final traga alguma coisa de novo. Talvez por isso, o realizador britânico tenha tentado um caminho muito discutível. Quem viu a Flauta Mágica, de Mozart, realizada por Ingmar Bergman, percebeu que o realizador sueco utilizou o seu talento para mostrar uma ópera, quase apagando os traços cinematográficos, dissimulando-os para criar a ilusão de que se estava a ver uma ópera. O que o realizador de Anna Karenina faz é montar um produto onde tenta fundir o teatro e o cinema, com o recurso, para um número importante de cenas, ao palco, sublinhando assim o carácter dramático dessas cenas. Este estratagema arrasta consigo uma retórica visual que introduz uma visão histérica da intriga romanesca. Há um efeito perverso nesta multiplicação dos modos de ficcionalização. A narrativa de Tolstoi é a primeira ficção, que agora é ficcionalizada cinematograficamente como se fosse ficcionada dramaticamente. A utilização da referência ao teatro como mediação entre a literatura e o cinema torna-se um elemento distractivo e que, contrariamente ao que acontece com Bergman na Flauta Mágica, nunca cria no espectador uma ilusão de que se está perante uma obra literária. 

Seja como for, vale a pena interrogar o que, naquilo que o filme mostra, se joga em Anna Karenina. Não se trata, claro, nem do amor nem do adultério. O que está em jogo é a questão da regra, a sua sobreposição à lei, e a oposição entre um mundo ordenado segundo a regra e aquele que segue uma determinada lei da natureza. Em última análise o que está em jogo é a verdade e a vida verdadeira. O erro de Anna Karenina, que a leva à exclusão da sociedade e ao suicídio, não reside em ter infringido a lei. A rejeição a que é votada pela sociedade a que pertence por direito natural não se deve a que tenha cometido um crime. Se isso tivesse acontecido, a rejeição seria, como é sublinhado a determinada altura, muito menor. Também não é a infracção, através do adultério, da lei moral ou da lei divina que se torna problemático. Tudo isso é aceitável, desde que não se infrinja as regras. Que regras são estas? São regras que não foram escritas, nem foram reveladas por Deus, nem resultam da razão moral. Estas regras desenvolveram-se experimentalmente através da história e permitem que uma determinada casta funcione e se perpetue enquanto tal. São modos de falar, de referir acontecimentos, de apreciar o mundo e, fundamentalmente, modos de comportar-se que mantenham as aparências. Não é o adultério, nem o amor e a paixão de Anna por Vronsky que são problemáticos, mas a sua visibilidade, a sua imposição aos outros, a sua manifestação pública. 

O espaço público é um espaço de aparências. Mas estas não são manifestações directas da intimidade, pelo contrário. A desordem das paixões íntimas precisa e exige a regulação da aparência exterior. Caso contrário, a ordem do mundo fica ameaçada e a casta corre o risco de entrar em dissolução. O que fez Anna Karenina, e de certo modo Vronsky, de grave foi não perceber a natureza do jogo, deixar o íntimo tornar-se público, quebrar a regra que mantém um mundo na existência. A regra é o suporte da arte da dissimulação. Ora a dissimulação é a essência da vida em sociedade, o substrato dos seus rituais, a finalidade do espírito e da arte de viver com os outros. A regra é, para a sociedade, mais importante que o direito, a moral e a religião. E estes só são importantes se participarem na regra que sustenta a dissimulação. Este é o centro de Anna Karenina, mas não é o seu fundamento.

A moralidade tolstoiana, digamos assim, reside na rejeição tanto do comportamento desregulado de Anna como no da sociedade que vive segundo a regra da aparência e da dissimulação. Há, percorrendo todo o filme, uma contraproposta social à sociedade regulada segundo o princípio da aparência. Uma espécie de sociedade natural onde as relações são verdadeiras e, entre os homens, existe uma efectiva fraternidade. Ao amor infeliz e desregulado de Anna por Vronsky contrapõe-se o amor feliz de Konstatin por Kitty, um amor fundado na natureza e na terra, na realização pelo trabalho e pela solidariedade para com os outros. A felicidade depende da verdade e esta não é um mero cálculo racional, mas um modo de vida. A vida do camponês é verdadeira e por isso é fonte de felicidade. A vida em sociedade, na sociedade aristocrática, é falsa, pois funda-se na regra da aparência, e gera a insatisfação (o caso de Stiva) e a infelicidade (o caso de Anna).

Se hoje em dia, depois da mecanização e da industrialização da agricultura, a crença numa vida verdadeira fundada no trabalho no campo perdeu o sentido utópico que Tolstoi ainda lhe encontrava, se a efervescência sentimental, mesmo que rompa certas regras, não gera mais do que um cansado encolher de ombros, aquilo que continua a ser pregnante é a importância da regra da aparência na vida social. Aquilo sobre o qual se devem guardar as aparências mudou desde o século XIX, mas a teia da aparência continua a ser o cimento que permite a coesão de um grupo. A arte da dissimulação é o bem mais precioso de uma vida em sociedade. Foi isto que Anna Karenina, pelo seu exemplo negativo, deixou como sabedoria e ensinamento, mais do que uma utopia de uma vida verdadeira centrada na mãe-terra.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Do mérito à Fortuna

William Blake - A deusa Fortuna

Um dos sintomas de que as nossas sociedades estão descristianizadas reside no peso crescente que a sorte, boa ou má, tem no imaginário das pessoas. Em contradição com o paganismo greco-latino, o cristianismo veio realçar o mérito das pessoas no seu destino. Claro que o destino a que o cristianismo se refere é no pós-vida e não depende apenas do livre-arbítrio da pessoa, pois a graça desempenha um papel importante. Mas a ideia de livre-arbítrio - a crença de que posso escolher, sem estar previamente determinado, um certo caminho para  a minha vida e não outro - ao secularizar-se veio permitir pensar a vida dos homens segundo a ideia de mérito, o mérito de fazer escolhas sensatas. As sociedades modernas capitalistas fundaram-se todas elas nesta ideia. O esforço e o talento, e não a circustância arbitrária do nascimento numa casta ou noutra, teriam como recompensa o êxito na vida social ou, em caso da sua ausência, o castigo. Repare-se que é este ainda o discurso do actual governo e do primeiro-ministro. Mas isto é apenas o sintoma do nosso atraso e do anacronismo da informação que é posta à disposição de Passos Coelho.

O que nós estamos a assistir é ao fim da ideia de mérito e à crença no livre-arbítrio. O paganismo que se introduziu nas sociedades cristãs a partir do Renascimento levou, num primeiro momento e com o protestantismo, à secularização, ainda travestida de tons cristãos, do livre-arbítrio na ideia de mérito, como se referiu em cima. Na fase actual, porém, a questão está ultrapassada e a ambiência que se vive, apesar da retórica de alguns governantes ignorantes ou sem vergonha, é que a vida de cada um não depende do mérito, não depende das boas ou más decisões que toma, mas da sorte. Digamos que o livre-arbítrio das pessoas e a graça divina foram substituídas pela Fortuna (Tiquê, para os gregos), a velha deusa romana. Como se sabe, esta era cega ou apresentava-se com a vista tapada, simbolizando a distribuição aleatória dos bens que distribui pelos mortais. Por muito que um Passos Coelho ou um Relvas gritem que somos responsáveis pela actual situação por, putativamente, termos vivido acima das nossas possibilidades, a verdade é que a generalidade das pessoas sente que o seu destino nada depende do seu mérito ou demérito mas da sorte. Isto é mais grave para o cristianismo do que a diminuição de pessoas que vão à missa ou do número de vocações pastorais. É a consumação de uma cosmovisão pagã de onde a liberdade da pessoa foi erradicada, apesar de se viver em sociedades aparentemente liberais.