sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Rumores de Maio - 8. Luz de Maio

Odilon Redon - Porto na Bretanha

8. Luz de Maio

A brancura da névoa
uma escuridão
na luz de Maio
um sonho sonâmbulo
erguido ao vento
a saudade de um barco
ao partir do cais.

(Rumores de Maio, 1977)

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Um árduo caminho


A proibição do uso de burkinis em algumas praias francesas, bem como o apoio que o primei-ministro Manuel Valls tem dado às decisões dos presidentes de câmara, torna evidente que a Europa – a França em particular – está perante um problema de enorme complexidade. Esta complexidade deriva de um choque entre duas visões culturais sobre o que é o comportamento adequado na vida social. O choque, todavia, não fica por aí, pois a situação leva a um conflito no interior dos próprios valores ocidentais. O caso dos burkinis é interessante porque torna a posição das autoridades francesas muito frágil, se se tiver um conta os próprios padrões ocidentais, e mostra bem que estamos numa situação onde não há soluções pré-fabricadas e prontas a aplicar.

Vale a pena ler a argumentação transcrita de Valls para perceber que ela omite duas questões essenciais. A primeira diz respeito ao facto de poderem existir mulheres que, sem qualquer coacção externa, queiram adoptar, por um acto livre, esse tipo de vestuário. Em segundo lugar, o uso do burkini não significa que as usuárias estejam a infringir o secularismo do Estado. Um Estado secular não implica que as pessoas não possuam crenças religiosas e que, em sociedade, se comportem em conformidade com as suas crenças, desde que essas pessoas não interfiram na liberdade das outras.

A França perante o problema posto pela presença do Islão poderia lidar com ele de dois pontos de vista. Valorizar a liberdade negativa. Cada um vive como entende, desde que não infrinja a liberdade de terceiros. Isto significaria valorizar o indivíduo e os seus direitos e liberdades. Significaria ainda que o Estado deveria punir todos os actos que atentassem contra essa liberdade negativa, incluindo aqueles que se passam nas comunidades e famílias muçulmanas. Isso exigiria pôr de lado o multiculturalismo e, acima de tudo, um longo e exaustivo trabalho policial, talvez impossível de realizar.

A França optou por manter-se fiel à sua tradição. Evoca a virtude republicana: o uso do burkini como da burka “não é compatível com os valores da França e da República”. E acrescenta Valls que “a República deve defender-se”. O problema é que as autoridades francesas agem segundo o princípio da suspeita. Suspeitam, como o diz a ministra para os direitos das mulheres, que se pretende “esconder os corpos das mulheres para que possam ser controlados”. Esta é a velha tradição que vem da época do Terror, da Revolução Francesa. Perante a suspeita da falta de virtude republicana, os jacobinos entretinham-se a decapitar pessoas. Hoje a França é civilizada, não usa a guilhotina, mas o princípio da virtude republicana é o mesmo, como é o mesmo o princípio de condenação: a mera suspeita.

Com isto não me estou a tornar advogado dos adeptos dos burkini e das burkas. Estou a mostrar que se chegou a uma situação paradoxal: para defendermos os nossos valores atacamos um dos nossos valores essenciais e raiz de todos os outros, a liberdade. Se permitirmos a liberdade de cada um vestir o que entende, uma parte dos cidadãos – as mulheres muçulmanas que não querem de livre vontade usar este tipo de indumentária – pode ser coagida a fazê-lo por familiares ou pela comunidade onde se insere, pois a República é virtuosa mas não tem meios para fazer cumprir a lei. Se se proíbe certo tipo de indumentária sem que ela ponha em causa a liberdade e a segurança de terceiros, então não respeitamos a própria liberdade. Seja qual for a solução adoptada, os valores ocidentais perdem sempre.

Esta situação remete-nos para o paradoxo do multiculturalismo referido em crónica de António Guerreiro, no Público. Stanley Fish defende que o “multiculturalismo é uma impossibilidade lógica”. A explicação pode ler-se no texto de António Guerreiro (para ler a argumentação de Fish ir para a jstor). O que me interessa sublinhar, porém, é o perigo que tudo isto representa. O perigo deriva da incapacidade da razão encontrar um caminho para a resolução destas situações de conflito cultural.  O paradoxo revelado por Stanley Fish mostra-nos um limite da razão. Quando a razão falha – e mesmo quando, por vezes, não falha – a saída para os problemas na vida em sociedade torna-se irracional, isto é, comprometida por emoções e sentimentos, os quais facilmente conduzem à violência.

Na actual situação, há todo um trabalho de pensamento - encontrar uma saída para o paradoxo - a fazer para evitar que as sementes de violência, já lançadas, não brotem vigorosas da terra. O que está a ser testado, em todo este processo, é a pretensão à universalidade dos princípios que o Ocidente tem sido porta-voz e a capacidade de encontrar um caminho para partilhá-los. Neste momento, a França enredou-se de tal modo que as soluções que adopta são aquelas que reforçam a posição identitária dos muçulmanos. O problema é de difícil solução. Nem a tarefa teórica nem a tarefa prática parecem fáceis, antes pelo contrário. A situação mostra que o caminho que está pela frente é árduo, muito árduo e de resolução intrincada, se a tiver. O pior, porém, que pode acontecer é entregar o assunto ao sentimento e à emoção, venham estes disfarçados de ideologia multicultural ou de devaneios identitários. É preciso pensar para agir. Fundamentalmente, é preciso não deixar que princípios e valores universais da razão se deixem arrastar, por inabilidade ou por impotência, para o particularismo identitário.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Diário de um banhista - VII

Eugene Louis Boudin - A praia de Trouville (1864)

Aviso: Caro leitor, tenha a bondade de reparar que o texto é de 2007 e que, portanto, não está a ter nenhum pesadelo com o retorno do engenheiro Sócrates como chefe do governo. Nem tudo é assim tão mau na vida.

Apesar da temperatura por aqui ter subido, continua a nortada. Olho a praia sentado numa esplanada, vejo veraneantes infelizes a segurar chapéus, a correr atrás disto e daquilo, a areia a borbulhar. O vento a tudo empurra, isto para escapar ao inevitável o vento tudo levou. As águas ainda estão bravias, a bandeira mais encarnada que a camisola do glorioso, imagino que saiba a quem me estou a referir. Mais um dia de glória, mais um dia sem pôr pé na areia. Como mortal, este triste banhista submete-se aos imperativos do corpo. Há que satisfazer os impulsos homeostáticos. Triste sorte a dos humanos. E lá me desloco ao hipermercado, que não é assim tão hiper, mas enfim, se temos de comer…

Foi assim que me vi mergulhado num mar de pessoas, a ulular em torno de prateleiras e bancas, os olhos vorazes e as mãos como garras a encher cestos e carros, numa orgia de sacos de plástico, dinheiro de plástico, chinelos de plástico, com sonhos de comida de plástico. Alumiou-se então o cérebro e percebi, nesse instante, o sorriso de plástico do nosso primeiro-ministro, o venerando e atlético Eng.º Sócrates. Numa democracia de sacos de plástico, num povo cada vez mais plastificado, quem melhor, para dirigir a plastificação geral, do que um engenheiro de plástico?

Vem uma pessoa a banhos para descansar das fadigas do ano e, sem qualquer meditação filosófica, acaba por descobrir, só por olhar, a essência da nação. Portugal é um país de plástico. O plástico é aquilo que faz com a pátria seja aquilo que ela é. Espero que tenham compreendido. Um dia até a água e a areia serão de plástico. É o plano tecnológico, cheio de inovações e projectos para desenvolver a paróquia. Haja engenheiros, pensei, enquanto passava o cartão de plástico no terminal da caixa. Recolho ao lar, extasiado pela descoberta, e oiço, ao fundo, o bater das ondas e o sopro do vento. Éolo continua indisposto, Posídon não está melhor. Não há plástico que sempre dure, penso comigo, mas sem grandes certezas. É duro ser um banhista numa pátria de marinheiros. Melhores dias virão. (averomundo, 2007/08/07)

J. D. Salinger, À Espera no Centeio


À Espera no Centeio (The Catcher in the Rye, 1951) é o romance mais conhecido de J. D. Salinger. Segundo a Time Magazine é a quarta obra mais interditada (presumo que pelas escolas) dos EUA. É lida como uma incursão no universo da adolescência. A adolescência é usada, porém, pelo autor como um dispositivo para contrapor a inocência da infância ao niilismo e à falsidade da vida adulta. A adolescência tem essa capacidade por dois motivos centrais. Por um lado, ela encontra-se na fronteira entre esses dois mundos. Por outro, pela a sua própria natureza, a adolescência, enquanto discurso, tem uma capacidade hiperbólica que permite, ao exagerar certas características, percebê-las na sua real natureza.

O romance narra-nos três dias da vida de Holden Caulfield, um adolescente de dezasseis anos que acaba de ser expulso, antes do Natal, de Pencey, um colégio frequentado pelos filhos de famílias pertencentes à elite norte-americana. Ao saber da sua expulsão, já a quarta no seu historial, o herói e narrador decide fugir do colégio antes de os pais serem informados. Vai para Nova Iorque, onde a família vive, mas começa por hospedar-se num hotel até que, por influência da sua irmã, ainda uma criança, volta para casa. Estes três dias são um confronto com a realidade da vida adulta e a permanente falsificação da existência que esta representa. O essencial, porém, é o olhar e o discurso do jovem Caulfield sobre esse mundo adulto.

O olhar é servido por uma linguagem hiperbólica que mistura o calão, os lugares-comuns da linguagem dos adolescentes e juízos que emanam de uma contínua generalização precipitada para configurar a vida falsificada dos adultos. A linguagem usada pelo teenager é central, não tanto como caracterização de uma juventude rebelde, embora o livro seja visto como um dos indutores da contracultura dos anos 50 e 60 do século passado, mas porque ela permite, na sua crueza e quase contra-senso, caracterizar a sociedade americana, onde, por exemplo, adultos discorrem longamente sobre quantos quilómetros conseguiram andar com um litro de gasolina. É a linguagem do adolescente que permite perceber o niilismo que se esconde na fachada falsa da vida adulta, uma vida marcada pelo logro, pela batota, por regras infringidas, pela manutenção das aparências. A hipérbole é a lente que dá a ver aquilo que o senso comum esconde.

O romance de Salinger não se limita a tornar patente o niilismo e a vida falsa da elite norte-americana, e, por extensão, da elite de qualquer parte do mundo. O romance retrata também, com a mesma linguagem e precisão, a fonte de onde brota esse niilismo e essa vida falsificada, os colégios privados frequentados pelos filhos-família. Estes colégios, com a artificialidade das suas regras e das suas tradições, com os jogos de subserviência e sobrevivência dos adultos que os dirigem e neles ensinam, são verdadeiras escolas de falsificação existencial. Olhar para o Pencey de Salinger permite-nos perceber como a educação escolar é uma das fontes do niilismo contemporâneo, tanto mais refinado quanto mais a instituição se dirige aos que estão mais acima na escala social.

O desprezo – na verdade, quase um ódio declarado – ao cinema por parte de Holden Caulfield, expresso directamente ou na crítica mordaz que ele faz ao irmão mais velho, um escritor que se foi prostituir, segundo o protagonista, para Hollywood ao escrever para cinema, é um elemento central na denúncia do niilismo e da falsificação da vida presentes na sociedade americana. Na verdade, é o cinema que populariza, entre as grandes massas, o modo de vida das elites. O niilismo e a falsificação existencial brotam dos grandes colégios e são disseminados pelo cinema, todo ele falsificação do real, pura montagem, onde aquilo que parece real não passa de artifício e fabricação.

A adolescência, porém, é um lugar de fronteira. Ela permite olhar, de forma hiperbólica, para dois países, o da idade adulta, que está mesmo à porta, e o da infância que acabou de se deixar. O que atormenta o protagonista é essa perda da inocência. Há no romance dois momentos simbólicos nessa luta pela preservação da inocência. Não da sua, mas a inocência dos que ainda não entraram na adolescência. Quando vai à escola ter com a irmã e se depara com vários foda-se grafitados nas paredes da própria escola, que ele tenta desesperadamente apagar, até que desiste, pois seria impossível apagar todos os grafitos semelhantes existentes no mundo. O segundo momento é aquele que dá o título ao livro. Instado pela irmã sobre o que queria mesmo fazer na vida, Holden Caulfield acaba por afirmar que queria estar num campo de centeio à beira de um abismo, no qual brincassem crianças. O seu papel seria de apanhar aquelas que poderiam cair no abismo. O campo de centeio é o locus da inocência, o abismo é o vazio que, através da queda, conduz à perdição do niilismo, da superficialidade e da falsificação da idade adulta.

A adolescência emerge assim como um posto de observação sobre o paraíso da infância e o mundo após a queda, o mundo da vida adulta. Ela, porém, não é apenas um ponto de observação ou uma fronteira. É ainda um lugar de enunciação. Ela é o lugar de um logos muito específico, um logos  que ainda não foi dominado pelas estratégias retóricas da persuasão. Com The Catcher in the Rye percebemos que a adolescência é, fundamentalmente, linguagem, enunciação, discurso, mas tudo isso no seu estado puro, como se a linguagem nascesse nesse momento na espécie humana, com tudo o que ela pode ter de terno e de selvagem, isto é, com tudo o que há de hiperbólico no acto da fala.


J. D. Salinger (2011). À Espera no Centeio. Lisboa: Quetzal Editores.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Diário de um banhista - VI

Georges Lemmen - Beach at Heist (1891-92)

Frívolo banhista, quem te manda a ti tentar os deuses? Mal sabes tu que eles concedem aos mortais aquilo que estes mendigam. Então, não foste tu que ontem falaste em tempo cinzento, aragens frescas, ventos a cortar a face? Então, toma, aí o tens. Hoje levantei-me decidido a cumprir o meu estatuto de banhista, homem que corta as ondas, lobo-do-mar. Feitas as abluções matinais, tomado o pequeno-almoço, logo exclamei: para a praia. Olharam-me com comiseração. Vi estampado nas faces um juízo irónico sobre a minha sanidade mental, mas ninguém disse o que quer que fosse. Se é para ir à praia, então toca a andar. E lá se foi…

O pior foi sair do carro. Uma nortada das antigas. Não cortava a face, não. Cortava o corpo todo, varria os banhistas da praia, levantava ondas de areia, acastelava as águas, semeava um reboliço que mais parecia um terreiro de feira corrido a varapau. Agora, vamos, sussurraram-me. Gaguejo, conto aquela história do anúncio da Sagres – ao mar, ao mar, ao mar; ao bar, ao bar, ao bar – mas ninguém acha graça. Para a praia, para a praia, exclamam, isto não é o Moledo, sugerem-me. A humanidade tem destas coisas.

Como quem paga uma promessa, ou como se fôssemos um cortejo de penitentes, lá marchámos em direcção ao santuário. Bandeira encarnada, alguns surfistas e uma solidão maior que o mundo. Está frio, comento. Olham-me com desprezo. Acrescento: ao menos vamos a casa vestir umas calças e uns corta-ventos. Sorriem. Qual o quê? Toca a marchar e lá me levam a dar uma volta pela ventania, até que alguém exclama: já chega. Chegou. Sinto risos nas minhas costas, olhares malévolos, desconfio de um pacto com Éolo. Gosto de vento, mas o vento norte podia ser menos frio e cortante, concedo. Amanhã, a saga do banhista continua, se tiver mesmo de ser… Que os deuses me protejam. (averomundo, 2007/08/06)

domingo, 14 de agosto de 2016

Rumores de Maio - 7. Abria a mão e no limiar

Paul Cézanne - House and Trees (1890-94)

7. Abria a mão e no limiar

Abria a mão e no limiar
da casa tudo adormecia
movido pelo silêncio
coberto pela mágoa.

A raiz da manhã
era centelha aberta
uma flor subterrânea
a florescer sob o céu.

(Rumores de Maio, 1977)

sábado, 13 de agosto de 2016

Uma verdade absoluta

Giorgio de Chirico - Árabe a Cavalo (1935)

O islão é universalista. O multiculturalismo — no sentido de um ideal de convivência de culturas, todas com mesmo valor — é um mal menor para os islamistas na Europa. Em minoria, o multiculturalismo é útil para expandir islão. Quanto ao actual relativismo europeu, não é partilhado pelo crente muçulmano. Pelo contrário, aceitá-lo seria negar o próprio islão. (José Pedro Teixeira Fernandes, Público)

Por que razão a questão islâmica é – para o mundo, em particular para a Europa – muito mais séria do que aquilo que parece ser a um olhar superficial? Não é por causa dos atentados terroristas, por muito dolorosos que, material e simbolicamente, eles sejam. O artigo citado em epígrafe ajuda a perceber essas razões. Vale a pena, contudo, sublinhar dois aspectos que convém ter em mente sempre que se aborda a questão islâmica.

Em primeiro lugar vem a natureza universalista do islão. Os seus adeptos, como em tempos os cristãos, não o vêem como uma religião particular ao lado de outras. O islão é a religião, a única verdadeira religião. Ela superou, à maneira hegeliana, as limitações tanto do judaísmo como do cristianismo, que são agora completados e suprimidos pela revelação islâmica. O islão não é concebida pelos crentes, pelas elites religiosas e políticas, como um particularismo cultural ao lado de outros particularismos. Esta vocação universalista – com o desprezo do multiculturalismo, a pobre panaceia tão ao agrado de certas correntes ocidentais – aliada à tradição político-militar inerente à história da emergência e expansão da religião do profeta é a fonte de todos os problemas. Existe a convicção de que se conhece e possui a verdade, que esta tem um valor absoluto e que é lícito impor essa verdade a quem quer que seja, pelos métodos consagrados pelo próprio islão, dos quais a violência não está arredada. Podemos todos olhar para o lado e fingir que isto não existe, mas muitos milhões de seres humanos acreditam nisso e não mexerão um dedo para defender o direito de outros a possuírem convicções diferentes.

Em segundo lugar vem a questão do nosso relativismo. A relativização que fizemos de todos os valores foi a forma de encontrarmos uma convivência pacífica entre nós. Isso permitiu, antes de tudo, a convivência entre as diferentes interpretações do cristianismo, e levou, de seguida, à possibilidade do pluralismo político e, não menos importante, a um pluralismo ético, onde projectos de vida completamente diferentes existem lado a lado, sem que se sinta a necessidade de se impor globalmente uma forma de vida verdadeira. Este relativismo, que caracteriza a modernidade e é visto pelos ocidentais como virtuoso e a fonte da sua força, é inaceitável pelo islão. Essa não aceitação, por outro lado, conjuga-se com a suspeita, por muitos sectores muçulmanos, de que essa é uma fraqueza do ocidente, fraqueza essa que, do ponto de vista estratégico, deve ser explorada, para que, num futuro mais ou menos próximo, a única religião verdadeira se possa impor.

O que está assim em jogo é o conflito entre aqueles que crêem estar na posse de uma verdade absoluta e aqueles que, pela experiência e pelos seus próprios fundamentos culturais, aprenderam a relativizar as suas crenças, ao instalar o princípio crítico-racional como motor de todas as crenças. O islão é um problema não tanto, como se disse atrás, por causa do terrorismo. Este – como outros terrorismos que já assolaram a Europa – é apenas a face mais ostensiva e violenta da crença ingénua (não criticada) de que se possui uma verdade absoluta, a qual deve ser imposta, custe o que custar. Temos um problema que provavelmente será, por muito tempo, irresolúvel.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Diário de um banhista - V

George Seurat - Bathers, Asnières (1883-4)

Domingo. Hoje não há saga do pobre banhista. Os banhos de mar, quer dizer, as visitas à praia, estão, cá por casa, proscritos nos dias que outrora eram os do Senhor e, hoje em dia, não se sabe bem de quem são. É questão de sanidade mental, oiço dizer. Concordo. Mas uma regra não é uma lei, e há que desconfiar: quando chegará o dia em que a regra dá lugar à malfadada excepção?

Curiosamente, hoje que me levantei tarde, deu-me um súbito desejo de ir à praia e fazer jus à minha condição de banhista ou de pré-banhista. Tempo cinzento, uma aragem fresca, ameaça de chuviscos. É em dias assim que o corpo me puxa para o mar. Sonho com praias vazias, o vento a bater as águas, a cortar a face, o sol oculto por nuvens escuras e o extenso areal libertado da presença humana. Mesmo para os humanos a humanidade começa por ser um cansaço e acaba por se tornar um problema, um problema que tem todas as condições de ser irresolúvel. Hoje, domingo e tempo incerto, será possível que vá à praia?

Comprar os jornais, tomar café, dar um giro e ver as praias desertas. Ingenuidade minha, a humanidade oferece-me o esplendor dos seus corpos sobre as areias, dentro de água, corpos que se agitam como se temessem a imobilidade eterna. Há dias que odeio Heraclito. Resigno-me à derrota de Parménides e, melancólico, penso que ainda não será hoje que a excepção toma o lugar da regra. Vou fotografar naturezas mortas, materiais inúteis, lixos, a sombra projectada pela humanidade, a sombra de uma natureza morta que julga estar viva. Olha-se para uma praia e vê-se logo que, apesar das aparências, não está. A humanidade morreu, penso, mas é demasiado dramático para servir de proclamação.

Balanço: oitavo dia junto ao mar, idas à praia = 1 (uma), banhos de mar = 0 (zero). Não há razão para queixas. Nada melhor que os tempos de praia. (averomundo, 2007/08/05)

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Livro do Êxodo 21. Morrendo morrerá

Paul Ackerman - Aubade sur la gondole

Eram tecedeiras. No vagar que era o delas, teciam longas horas, teciam-nas com dedos afilados e um murmúrio entre lábios. Obscuras sombras, ao serem tecidas por violentas e vorazes mãos, a tudo cobriam. Na voz rouca, voz era o que se ouvia, enchiam o lago do tempo, cobriam-no de suspeitas, de injúrias, a lama a crescer, num Inverno de dedos cruzados, para dentro do vazio que habitava cada casa. Os olhos já negros de tanto olhar abriam-se no fundo do rosto, caíam sobre o horizonte e cerravam-se. A vida, precária e sem esperança, era agora vendida a retalho, ao sabor das flutuações do mercado, do deve e haver, as mercearias fechadas e as tulhas vazias.

Não havia cerejas nem laranjas. Não havia vinho e pão. Os cereais tinham acabado e nada restava onde, naquelas tulhas do passado, os braços pudessem mergulhar as mãos, assim os terminavam. Pela noite, soltava-se um instinto mortal e elas, tecedeiras tão ferozes, vogavam pelas casas, cabelos soltos a tocar os seios descaídos, uma ânsia de assassínio no canto da boca, ou a solidão a aplanar o caminho do coração. Vinham à rua e uivavam, a montanha devolvia, num eco de língua lívida, o uivo, e a matilha de mulheres dispersava-se, cada uma para sua casa, limpavam o pó e, com cuidados sem fim, pegavam na tecelagem. Das suas mãos vinha o tecido do futuro, fresco, puro, quase luminoso.

Uma voz desceu dos céus e disse: o que ferir alguém que morra, morrendo morrerá. Elas encolheram os ombros e deixaram o dia escoar-se entre as pernas, coxas férteis dedilhadas lentamente, pele lustrosa no olhar que as olhava. A noite avançou incólume na escuridão sem estrelas, nas trevas primitivas onde tudo abrandava, e a morte cansada deixava a carne em frágil decomposição. Tudo caiu então para dentro da pátria do silêncio, arrastado pelo rio do esquecimento, dragado por uma linguagem nova, tão nova e tão incompreensível. De olhos desmesurados, as tecedeiras adormeceram. Sonhavam longamente, noites e dias sem parar, com impérios desfeitos, camisas de seda, o branco véu, à noiva no altar cobre.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Uma sociedade impotente


Uma país literalmente a arder. Mais uma vez. Sempre que S. Pedro se distrai, Portugal incendeia-se. O João Carlos Lopes (JCL) cita um estuda da União Europeia: Portugal teve mais incêndios que a Espanha, França, Itália e Grécia juntos no período entre 2000 e 2013. Este pequeno país registou, mais concretamente, 54% do número total de incêndios dos países mediterrânicos, quando a sua área total, no conjunto dos cinco, pouco passa dos 10%. Estes dados perturbadores são um espelho fiel da cultura cívica dos portugueses.

Ao começar a escrever este texto lembrei-me de uma passagem do primeiro capítulo de Sexual Personae, de Camille Paglia. Diz assim: A sociedade é uma construção artificial, uma defesa contra o poder da natureza. Sem a sociedade, estaríamos expostos ao mar bárbaro que é a natureza. A sociedade é um sistema de formas herdadas para reduzir a nossa humilhante passividade perante a natureza. (…) A natureza tem a sua agenda fundamental, a qual apenas fracamente podemos conhecer. A pergunta que se coloca é a seguinte: o que se passa com a nossa sociedade que é tão impotente para nos proteger da terrível agenda da natureza. A sua impotência ultrapassa largamente a dos países europeus mediterrânicos.

Há acusações para todos os gostos. A direita acusará a esquerda no governo. A esquerda acusará a direita que governou. Depois, como no texto de JCL, há a indústria do fogo posto, o que parece uma evidência, bem como, segundo outros, o desordenamento do território, o abandono do interior, embora o Funchal não seja propriamente o interior, os interesses da monocultura do eucalipto, etc., etc. Tudo isto, porém, são sintomas de um mal bem mais fundo, de um mal entranhado na nossa sociedade e que nos expõe, para utilizar a linguagem de Camille Paglia, a uma humilhante passividade perante a natureza.

O que a actual situação torna patente, mais uma vez, são três características da sociedade portuguesa e dos portugueses. Em primeiro lugar, uma sociedade débil, mal organizada e corroída na sua organização política, que perante qualquer catástrofe  mostra a sua impotência. Em segundo lugar, uma consciência cívica irrisória. Esta alimenta, por exemplo, a tal indústria do fogo posto. Por fim, uma relação superficial da generalidade dos portugueses com a realidade e com aquilo que têm de fazer. Na verdade, nada é levado até às últimas consequências. Tudo é tratado pela rama. O culto do desenrascanço – culto, pois é louvado como virtude – diz tudo sobre a nossa atitude. Diz tudo sobre a impotência da sociedade portuguesa perante a terrível agenda da natureza. E também ajuda a explicar a débil consciência cívica e, não tenhamos medo das palavras, a puerilidade das elites políticas.

Uma palavra final de gratidão aos bombeiros portugueses, os quais com a sua coragem, a sua tenacidade e a sua solidariedade minimizam as grandes tragédias que a natureza nos envia e a nossa cultura do desenrascanço alimenta fartamente.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Rumores de Maio - 6. O Rio

Kazimir Malevich - River in the Forest (1908 ou 1923)

6. O Rio

O rio que passa nos meus olhos é
um fogo-fátuo, uma pedra
desenhada no sono, a areia onde
te escondes, refúgio da meia-noite.

Nos meus olhos correm águas desse
rio vindo do norte para
se abrir na textura da tarde e
cantar na força hidráulica
com que te vejo passar.

Um sopro, um sorriso, um obscuro olhar
de animal impaciente, a luz
resplandecente do rio em que
despido e cantante mergulho
na vertiginosa voragem dos teus olhos.

(Rumores de Maio, 1977)

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Diário de um banhista - IV

Maurice Prendergast - Bathing, Marblehead

É dura a vida de um banhista. Estava ontem muito descansado quando um telefonema lançou o pânico. Para amanhã, a visita de uma amiga. O mundo turva-se, isto de mulheres e praia conjuga-se com tal perfeição que já estava a ver-me arrastado, em pleno sábado, imagine-se, para um areal pejado de corpos espojados pelo chão e alegres trinados das criancinhas. Sim, sim, dessas mesmas que o divino Mestre dizia para deixarem ir até Ele, mas Ele, sábio que era, não ia à praia. Mesmo aquilo no Jordão não foi um banho, mas um baptizado, leram bem, um baptizado, e esse só acontece uma vez na vida, pois uma pessoa não anda sempre a mergulhar nas águas para lavar pecados. Não haveria João Baptista que chegasse, e se querem lavar a alma que vão ao confessionário, não à praia. Estava a ver-me arrastado, dizia, para o espectáculo dos portugueses em roupa interior, há quem lhe chame fatos de banho, portugueses exuberantes, desejosos de mostrar o viço e a peitaça e o coxame e a celulite e o pneu. Era este programa audiovisual que já se desenhava no horizonte da pobre imaginação que me coube em sorte. A coisa foi de tal maneira impressiva que passei a noite a sonhar com praias cobertas de portugueses e eu entre eles a caminhar, como sonâmbulo, a exibir a tristeza da minha figura, metido nuns boxers vermelhos a que toda a gente teimava chamar calções de banho.

Quando me levantei, bem cedo e mal dormido, a coisa piorou. Estava um céu azul e um sol esplendoroso. Ergui as mãos ao alto e disse: Senhor tem piedade das pobres florestas, olha as ignições, ajuda este país malquisto, apieda-te da lavoura, das plantas e dos animais, manda nuvens e chuva e tempo fresco. Nada. Eis o verdadeiro sentido da derrelicção. Senti-me abandonado, desprezado, humilhado. É por estas e por outras que as pessoas deixam a Igreja, esquecem as missas, mandam ao diabo – salvo seja, t’arrenego, ó belzebu – os mandamentos. A manhã caminha por aí fora, toma-se café, compram-se os jornais, e uma voz insidiosa diz ó tanto calor, está mesmo bom para ir à praia, respondo ó tanto calor, está mesmo bom para ficar em casa. E ali se fica naquela indecisão, vai não vai, vais tu, fico eu, e eis que aquela amiga, a que haveria de vir, liga a dizer que sim, que vem, mas não está disposta para a praia. Respiro fundo, agradeço ao Senhor, sinto-me comovido. Talvez sejam incompreensíveis os caminhos do Altíssimo. Salvo in extremis. É dura a vida de um banhista. (averomundo, 2007/08/04)

domingo, 7 de agosto de 2016

O medo e a vida normal

Karl Weschke - Fear (1948)

Espalhar o medo entre as populações ocidentais é o objectivo táctico principal, no que se refere à Europa, do terrorismo islâmico. O medo lança a incerteza e a angústia entre as pessoas e, fundamentalmente, leva-as a desistir do seu próprio modo de vida, isto é, põe em causa a vida normal. Decisões até há pouco tempo inócuas - por exemplo, uma viagem - são agora ponderadas, por muita gente, a partir da ameaça terrorista. Duas notícias de ontem, onde o medo é o elemento central, merecem alguma atenção.

A primeira diz respeito ao atentado, em Charleroi, Bélgica, contra duas polícias belgas. Elas não morreram, ao contrário do atacante. Contudo, este tipo de atentados de baixa intensidade tem um enorme potencial para espalhar o medo, pois não necessita nem de grande preparação nem de meios técnicos que não estejam à mão de qualquer um. Se eles proliferarem, deixarão de poder ser considerados, como ainda parecem ser, questões de mera segurança interna, para se tornarem num dos elementos centrais do terrorismo em solo ocidental, uma forma de pôr em causa a vida normal.

A segunda notícia refere que as autoridades de Lille, França, anularam a edição deste ano da Braderie, a grande feira da ladra, no primeiro fim-de-semana de Setembro, que atrai ao centro da cidade cerca de 2 milhões de pessoas. Razões de segurança, o medo de um ataque terrorista. E este é apenas mais um evento que é anulado. A prudência manda agir assim, mas esta mesma prudência é a confissão de uma derrota e de uma desistência daquilo que é a vida normal.

As organizações terroristas não visam, neste momento e na Europa, um confronto militar com o Ocidente. Conhecem o enorme diferencial militar e tecnológico. Mas têm também uma perspectiva histórica, que recusamos a reconhecer e a reconhecer-lhes. Desarticular a vida normal, por incipiente que pareça ser do ponto de vista militar, pode ser o começo de algo que é pensado a longo prazo, algo que ultrapassa as gerações. O medo que se pretende espalhar não quer derrotar agora o inimigo, deseja apenas começar a prepará-lo para ser derrotável num futuro mais ou menos longínquo. A vida normal é, nesta hora, o bem político e estratégico mais importante, e é essa vida normal, que o medo desarticula, que esperamos ver defendida, custe o que custar.

sábado, 6 de agosto de 2016

O silêncio em Auschwitz

A minha crónica no Jornal Torrejano de 2016/08/05.

Nesta última crónica antes de férias, podia falar das sanções europeias a Portugal, que não houve, do terrorismo que continua a haver ou, como entrámos silly season, de um tema estival que estivesse à mão. Escolho, todavia, falar do silêncio. Do silêncio do Papa Francisco na sua visita ao antigo campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. O que significa o silêncio de um Papa no reino do terror nazi? Para muitos de nós, impregnados pela cultura moderna que hipervaloriza a acção em detrimento da contemplação, o gesto do Papa não é muito diferente dos minutos de silêncio que se guardam antes dos jogos, quando alguém importante do mundo do futebol morre. Um gesto simbólico, onde o símbolo, destituído do seu sentido profundo, é apenas entendido como mera homenagem dos vivos a quem morreu.

O silêncio do Papa em Auschwitz, porém, não é comemorativo nem rememorativo. Não é sequer uma homenagem. O silêncio do Papa é, antes de mais, a confissão da perplexidade perante o mysterium iniquitatis (mistério do mal), perante o horror que os homens – crentes, agnósticos e ateus – fazem a outros homens – também eles crentes, agnósticos e ateus. Na algazarra em que se transformou o mundo, na balbúrdia que a acção desenfreada lança sobre a Terra, é necessário que se faça silêncio para que o horror possa ser visto na sua própria natureza, para que os gritos dos que sofrem às mãos de outros homens possam ser escutados. As palavras e a as acções são sempre um analgésico que nos permite não ter de enfrentar o horrível que habita nos horrores que cometemos.

Auschwitz-Birkenau não é apenas o símbolo do terror nazi. É o símbolo de todo e qualquer terror, individual ou colectivo. É uma manifestação, e que manifestação, desse mysterium iniquitatis que assola a espécie humana, encontrando sempre novas razões para espalhar a dor sobre os homens. Na verdade, a única possibilidade perante aquilo que ali se passou – perante aquilo que se passa no mundo – é o silêncio. O silêncio de um velho Papa naquele lugar não é um gesto político, nem um condenação judicial, nem um acto ritual. É apenas a criação de um espaço de escuta. Escuta de quem? Escuta de todos aqueles que, antes de expirar e com voz forte, poderiam dizer: “Eloí, Eloí, lamá sabactâni, que significa “Meu Deus, Meu Deus! Por que me abandonaste?” (Mateus 27:46).

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Diário de um banhista - III

Paul Cézanne - Las grandes bañistas (1900-05)

Que venham as burkasburkas afegãs, daquelas que vão da cabeça aos pés. Não, não me converti ao Islão, mas começo a compreendê-los. Hoje, ó dia nefasto, quando me levantei, tudo estava ensolarado, fazia calor, e lá me arrastaram do café em direcção à praia, não sem antes, ainda em casa, note-se, me besuntarem de cremes por causa dos ultravioletas. Ele são cremes para a cara, cremes para o corpo, protector 30 e 40, numa conversa cabalística que mais parecia as deambulações esotéricas do Fernando Pessoa. O creme cai, olho-me ao espelho, apetece-me ulular e fazer a dança da chuva. Sinto-me um pele-vermelha. Contenho-me, haja decoro.

Lá vou, cantando e rindo, levado, levado, sim... Quando chego, piso a areia, os pés formigam. Anoto – mentalmente, não vá alguém pensar que levo o portátil ou aquele caderninho de capas pretas onde registo os ditos infelizes que me ocorrem – anoto, dizia, bandeira verde, maré baixa, pouca gente. A coisa não está completamente insalubre. Não sou banhista de barraca e lá se pousa o saco e toca a caminhar à beira-mar. Parece que faz bem aos músculos das pernas e da barriga e também à circulação. Melhor que os rebuçados do Dr. Bayard para a rouquidão. Uma pessoa caminha, caminha, os pés dentro de água, a areia molhada e dura, a água que vai e vem, como se não fosse esse o seu destino, e lá vou eu olhando os circunstantes, homens, mulheres, crianças, o sol bate-me no pescoço, nas costas não, pois o pólo é coisa que não dispo – há que poupar a humanidade à minha miséria – e continuo a anotar tudo, mentalmente, e sinto-me inclinado, cada vez com mais intensidade, para o Islão. Que venham as burkas, para homens, mulheres e crianças, que escondam os tristes espectáculos que ali se me apresentam. Desespero da humanidade.

Ao menos, penso contristado, fosse obrigatório o uso de fatos de banho do princípio do século passado, elegantes e frívolos, mas a esconder o excesso de humanidade que há em todos nós, mais nuns de que em outros. É isto que este pobre banhista pensa enquanto anda, anda, para fazer bem aos músculos e à circulação e à rouquidão. Paro, melhor, paramos. Vão ao banho e eu fico a ver, a olhar gaivotas, a contar barcos, a sonhar com sereias e a descobrir baleias. É nesse momento que alcanço a utilidade universal da burka, esse achado maior da humanidade, supremo conceito onde a igualdade se realiza e nos torna a todos menos infelizes.

Que coisa mais adorável é a praia. (averomundo, 2007/08/03)

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O espantoso caso dos secretários viajantes

Juan Botas - Traveller

Jorge Miranda afirma que é “espantoso que, ao fim de 40 anos de democracia, ainda exista um caso destes”. Será, porém, assim tão espantoso este caso dos secretários que viajam pagos pela GALP? O problema é que a nossa democracia e muitos dos seus agentes sempre mantiveram, após o Verão quente de 1975 e o arrefecimento global do 25 de Novembro, um persistente love-affair com o mundo dos negócios. Seja a transição de grandes empresas – nomeadamente de bancos – para o parlamento e governo, seja em sentido inverso, a ida de governantes para grandes empresas, a relação entre as elites políticas e os interesses económicos particulares sempre esteve longe da transparência que deveria existir. Este é apenas mais um episódio num mundo onde a promiscuidade é a regra (e a regra, como se sabe, não se confunde com a lei, embora esta seja produzida muitas vezes para proteger certas regras dadas pelos costumes, pelos maus costumes). Se há alguma coisa estranha neste acontecimento é não ter ocorrido, aos secretários de Estado em causa, que a viagem de borla lhes ia sair muito cara, mas isto só reforça a ideia de que estes são os costumes em vigor.

É evidente que estes secretários de Estado só têm uma saída, demitirem-se. A sua demissão será uma coisa boa, mas não alterará o ecossistema em que se vive. Este é o produto do bloco governamental e do mundo dos grandes negócios (e também dos médios e pequenos, se passarmos do nível central para o local). O grande problema é que existe na sociedade portuguesa a profunda convicção de que o sucesso nos negócios depende das relações com o poder. Esta convicção não é o efeito de coisa nenhuma ou da proverbial inveja lusitana, mas de práticas sustentadas durante décadas. Portugal é um caso daquilo a que se chama crony capitalism. O maior contributo que qualquer governo poderia dar ao país residiria na separação rigorosa entre a esfera da economia e a esfera do poder. Percebemos que isso será muito difícil para os habituais detentores do poder, PS, PSD e CDS, mas não poderá ser esse um desafio para aqueles que, como o BE e PC, sempre estiveram fora do poder? Não poderia ser esse o seu contributo, ao obrigar o PS a reformular um conjunto de leis e práticas, para a qualidade da democracia em Portugal? Se não servirem para isso, para melhorar a qualidade da democracia, servirão para quê?

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Rumores de Maio - 5. A Luz Azul

Karl Friedrich Schinkel - The Garden of Sarastro by Moonlight (1815)

5. A Luz Azul

Odor azul no anil de Maio,
a pele bravia sob o lençol,
a página fértil do pranto.

Tão ígnea, tão fulgurante,
a tua luz nasce na noite e
eleva-se azul na alvorada.

(Rumores de Maio, 1977)

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Livro do Êxodo 20. Visito a maldade dos pais na pele dos filhos

Henri Matisse - Large Landscape, Mont Alban (1918)

Veio, entre os cabelos havia nuvens, e da boca saíram palavras firmes e bravias como tronos e dominações. Visito a maldade dos pais na pele dos filhos, disse e depois partiu. A janela embaciada, a névoa a tocava, descerrou-se. No chão, estilhaços, restos de garrafas partidas, aqui um gargalo ainda sóbrio, guardanapos de papel ensebados pela boca, cascas desvairadas pelo trabalho das mãos. Ouvia-se uma melodia no saguão, mas os sonhos, ainda não pesadelos, eram trevos desfolhados, um caule, o sobejo da raiz a baloiçar ao vento da tarde, da janela o sopravam.

Toda a matéria da vida, um jornal rasgado ou uma rosa seca, era um rumor, palavras sussurradas, gestos inacabados, suspensos no último instante. No horizonte, um vórtice, mas a chama apagada não se reacendia e tudo era um barco esquecido, desprezado sobre a pálida areia, a quilha ao abandono, os remos carcomidos, restos de ferragens estranguladas pela oxidação, a madeira oca pelo sal, a tudo tão cedo infecta. Havia, tão perto, canaviais, o vento os tocava, e a luz, pois luz era, neles se escondia, sombreando as tardes onde o sol se punha.

Tomados pelo terror, cobriram-se de escuridão e deixaram os olhos vagabundear sobre as mesas cobertas de garrafas de cerveja. As mulheres despiam-se em plena rua e gritavam, esbugalhando os olhos, abrindo as pálpebras para que a luz negra nelas entrasse e as tomasse por dentro. Todos caminhavam, na ignorância do jardim, no esquecimento do bosque ameno onde, como uma anáfora, tinham ano após ano, aqueles que lhes cabiam em sorte, vindo, para agora, expulsos e com o coração a escorrer o óleo da dor, entregarem a memória à grande pátria do esquecimento, cantando visito a maldade dos pais na pele dos filhos, até que o silêncio desceu sobre as suas bocas e os calou.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Um Papa irritante


O Papa Francisco tem o condão de irritar uma certa direita e de agradar a uma certa esquerda. O que acontece com ele não é, porém, muito diferente do que aconteceu com João Paulo II, mas este agradava a uma certa direita e desagradava a uma certa esquerda. Na verdade, para além do estilo pessoal e das circunstâncias dos respectivos papados, não há diferenças, no essencial, entre eles. Como não há entre ambos e Bento XVI. Voltemos ao que irrita tanto certa direita. Em abstracto, o que a irrita é que Francisco não seja um chefe político, o seu chefe político global. De forma menos abstracta, o que a irrita não são sequer as questões de ordem moral, a abertura que o Papa tem ostentado para com os recasados e os homossexuais, ou a sua atenção aos problemas ecológicos. O que a irrita são as questões de ordem económica e a relação com o Islão.

Comecemos com as questões económicas e com uma longa citação de um artigo recente de Francisco Sarsfield Cabral: “O Papa Francisco é frontal e coerente, nas palavras e nos actos. No início do seu pontificado chocou algumas pessoas, nomeadamente com afirmações sobre problemas económicos e sociais. Depois, lendo com atenção o que o Papa dizia, verificou-se que ele falava segundo a Doutrina Social da Igreja (DSI) – algo que muitos católicos acham uma doutrina simpática, mas ignoram na prática. Francisco veio, afinal, lembrar que essa Doutrina é mesmo para aplicar.” Na verdade, a DSI está longe dos devaneios dos teóricos do liberalismo contemporâneo e isso irrita as elites que vêem como virtuosa a devastação social fomentada pelas políticas ditas neoliberais e ordoliberais (a versão alemã do liberalismo contemporâneo).

A posição da Igreja não nega a propriedade privada dos meios de produção, a iniciativa empresarial e o papel do mercado na economia. Em suma, não nega o liberalismo, mas tempera-o. A DSI aproxima-se das antigas perspectivas da democracia-cristã e da social-democracia. Valoriza a ideia de comunidade e de integração de todos nessa comunidade. Esta é uma perspectiva cristã, mas não é a perspectiva de muitos cristãos. E isso é irritante para as elites sociais – nomeadamente, as católicas – que usam a Igreja para se diferenciar, reafirmar o poder e reproduzir o seu estatuto social. A irritação subjaz na forma desdenhosa com que tratam o actual Papa: o Papa Chico.

Outro motivo de irritação emerge com o problema do Islão. Apesar dos atentados levados a cabo pelo radicalismo islâmico, Francisco recusa-se a aceitar a existência de uma guerra religiosa – apesar de defender que o mundo está em guerra – e de ver o Islão com uma religião inimiga da convivência pacífica entre os homens. Tenho escrito múltiplas vezes sobre o problema do Islão, um assunto para o qual fui despertado pela já longínqua Revolução Iraniana, em finais dos anos setenta do século passado. Há no Islão uma desconformidade com a Modernidade e o Iluminismo muito mais acentuada do que aquela que existia entre essas dinâmicas da História e o Cristianismo, até porque muitos valores da Modernidade e do Iluminismo têm a sua origem no próprio Cristianismo. Não tenho dúvidas sobre o facto de certos sectores do Islão quererem – e agirem em conformidade – um conflito intercivilizacional.

A questão que se coloca, contudo, é se o chefe da Igreja Católica deverá reconhecer a existência de uma guerra religiosa entre o mundo cristão e o mundo islâmico. O que significaria esse reconhecimento? Em primeiro lugar, significaria o corte com a trabalho de diálogo com o Islão iniciado por João Paulo II e continuado com Bento XVI. Depois, significaria que, de um momento para o outro e por iniciativa do Papa, o mundo islâmico (e este está presente por todo o Ocidente) e o mundo de origem cristã se tornariam, formal e materialmente, inimigos. Isso poderia, por exemplo, dar origem a guerras civis em certos países europeus, instabilizar ainda mais as fronteiras com o mundo muçulmano, a começar pela da Turquia e acabar com os nossos vizinhos de Marrocos. Julgo que os grupos islâmicos radicais agradeceriam o favor.

Francisco não é ingénuo nem alguém que está ao serviço do inimigo. É antes de mais um jesuíta. E esta característica não pode ser dissociada da sua idiossincrasia pessoal. E os jesuítas foram e são educados para defender a Igreja e o Papa. Como jesuíta, Francisco é um diplomata e diz aquilo que quer dizer e não diz o que não quer. Há nele frontalidade mas também diplomacia. Como Papa, como sumo pontífice (pontifex), ele é construtor de pontes. E é isso que ele faz. Construir pontes com o outro. Seja este outro alguém que não segue a moral católica, alguém que pertence ao mundo dos excluídos, alguém que é ateu, ou alguém que professa outra fé. Um Papa não é um capo político. A dimensão que é a sua é supra-política, mais abrangente e mais profunda. É por isso que os Papas têm essa capacidade persistente de irritarem umas vezes a direita, outras a esquerda, e, por vezes, as duas ao mesmo tempo. É para isso, porém, que eles são o que são.

domingo, 31 de julho de 2016

Na boca de Chronos

A minha crónica em A Barca.

Chronos, o deus grego do tempo, devorava os seus próprios filhos. Isso era um mito, dir-se-á com alívio, e, para tranquilizar o coração, sublinhar-se-á que os deuses dos antigos mitos greco-latinos estão mortos. Por que razão, num tempo estival a convidar à indolência e aos banhos de mar, trazer a sinistra figura à luz do dia? Talvez porque essa história da morte dos deuses esteja mal contada, e Chronos continue bem vivo e insaciável. Talvez mais insaciável que nunca. Veja-se o que o deus fez à velha União Soviética e aos regimes que ela tutelava. Devorou-os num abrir e fechar de olhos. Gente com 40 anos mal se lembra que o mundo estava dividido entre duas grandes super-potências, naquilo a que se chamava Guerra Fria.

Mas o deus, insensato, não parou por aí. Todos nos lembramos ainda como a União Europeia, então CEE, era uma promessa radiante que parecia oferecer civilização, bem-estar, tolerância. Nas últimas décadas, mesmo à frente dos nossos olhos, o deus, esfaimado, foi deglutindo tudo isso, sem pestanejar. Também aquela ideia – mais desejada que vivida – de que o Ocidente era um lugar de paz e tranquilidade, sob o império da lei, é mastigada, em cada atentado terrorista, pelo voraz Chronos. Os europeus e os americanos tinham-se esquecido da guerra de 39-45 e, seduzidos pelo apolíneo véu da aparência, pensavam que a paz tinha vindo por mil anos. Não veio, o deus trabalha incessantemente para mostrar que uma ilusão é uma ilusão.

Uma outra convicção, a que nos é mais querida, prepara-se para ser abocanhada pelo insaciável deus. Trata-se da crença de que a democracia é o regime do futuro. Observamos, atónitos, o deus a levá-la à boca na Turquia, como aconteceu na Rússia, na Ucrânia ou nas infelizes experiências das primaveras árabes. Dentro do clube democrático da União Europeia, vemo-la ser cortada às tiras, na Hungria ou na Bulgária, para ser servida como acepipe. Tudo o que a história (essa máscara de Chronos) produz, a história o leva. Sentados à beira-mar a olhar o mundo, assistimos, impotentes, ao florescimento dos Trump, das Le Pen e de todos os outros que parecem ser legião. Também a democracia irá ser tragada pela boca do tenebroso deus.

sábado, 30 de julho de 2016

Diário de um banhista - II

Cecilio Pla Gallardo - Bañistas

Continua a minha aventura no reino de Posídon. Hoje levantei-me cedo, olhei para o céu, um sol esplendoroso, fiquei em pânico. Será hoje? Uma volta por aqui e por ali, visita ao blogue, o post do dia. Propícios, os deuses cobrem o céu de nuvens. Respiro mais facilmente. O tempo melhora a olhos vistos, penso. Pego nas Metamorfoses, de Ovídio, acabadas de sair, na excelente colecção da Cotovia, em tradução de Paulo Farmhouse Alberto. Perco-me nas transformações. Ingénuo, ingénuo que sou. Os deuses são caprichosos, mas enviam-nos sinais. Metamorfoses não de humanos em aves ou vacas, mas transformações do tempo. O que tinha amanhecido ensolarado metamorfoseara-se em nuvens escuras e densas, mas nada neste mundo mutável é seguro. As nuvens dissiparam-se e lá veio o sol. Não tardou muito para me perguntarem, insidiosamente, se não ia à praia, a emoção tomou conta de mim. Fiz-me despercebido. Prefiro o Ovídio, mas calei-me. Lá foram pisar a areia e tomar banhos de sol e mar. Fiquei nas Metamorfoses e na música de Giovanni Pierluigi da Palestrina. Lá fora o silêncio deixa vir até mim o marulhar do mar. Adoro a praia. (averomundo, 2007/08/02)

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Rumores de Maio - 4. Memórias

Claude Monet - Sea Study

4. Memórias

Um canapé cansado e sem memória,
a pedra gasta e fria onde
sentado salmodiava.

Se um verso chegava, a maré
erguia-se no estuário do verão
e as ondas do mar eram saias, saias
vibrantes na vertigem do vento.

(Rumores de Maio, 1977)

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Um mártir da liberdade

Paul Gauguin - The Yellow Christ (1889)

A execução do padre Jacques Hamel, numa igreja de Saint-Étienne-du-Rouvray, perto de Rouen, França, não foi mais um atentado terrorista. Degolar um velho padre na Igreja perante os fiéis que ali se encontravam para a celebração da Eucaristia, foi um acto simbólico contra a fonte das nossas liberdades e dos valores ocidentais. Repito, o cristianismo – fundamentalmente, o cristianismo católico mas não só – é a fonte das nossas liberdades e dos nossos direitos, é a origem, juntamente com os valores clássicos greco-latinos e a ciência moderna, da nossa visão do mundo.

Recorro a uma autoridade insuspeita, a Jürgen Habermas, o filósofo alemão de esquerda, ateu e neo-marxista. No diálogo que manteve com Jospeh Ratzinger, Bento XVI, em 2004 e transformada em livro em 2005 (The Dialetics of Secularization), Habermas chama atenção para o facto do cristianismo ser o fundamento último da liberdade, dos direitos humanos e da civilização ocidental. E afirma que “não dispomos de opções alternativas. Continuamos a alimentarmo-nos desta fonte”. E acrescenta que os Estados liberais devem salvaguardar “os seus recursos culturais e morais, dos quais a religião faz parte”.

Tornou-se moda, nas nossas sociedades, desprezar o cristianismo, ridicularizar as Igrejas – em especial a Igreja Católica – e congratularmo-nos com o ocaso que parece atingir o cristianismo na Europa. Não se percebe que com isso estamos a minar o fundamento mais poderoso das liberdades ocidentais, a fonte dos grandes valores que são os nossos – e nos quais cabe a separação Igreja-Estado e a própria liberdade de não crer – e o cimento último que nos permite uma identidade e uma diferenciação no concerto das grandes culturas do mundo.

Nós não compreendemos ou não queremos compreender isto, mas há quem no mundo islâmico o tenha compreendido e parece não hesitar em abrir brechas num mundo que despreza as suas próprias origens. Há um velho sonho em certos sectores do Islão – e que não serão tão minoritários quanto nos queremos convencer – de uma comunidade única da espécie humana sob a lei do Profeta. O grande inimigo deste projecto foi sempre o cristianismo. Porquê? Por uma interpretação da relação do homem com Deus diametralmente oposta. No Islão, os homens são servos. Servos de Deus e submetidos aos seus representantes. No cristianismo, a relação com Deus não visa a servidão mas a liberdade. Foi esta liberdade que, ao longo de séculos, se foi descobrindo, desenvolvendo e que culminou no Estado de direito.

É por isso que a execução de Jacques Hamel o transforma não apenas num mártir da Igreja Católica, mas num mártir da liberdade. Alguém que não pode ser visto de forma diferente da daqueles homens que deram a sua vida no terrível desembarque nas praias da Normandia para que se pusesse fim ao terror nazi. Não sei se nós ocidentais compreendemos isso. Não sei se nós ocidentais percebemos que a destruição do cristianismo – um dos fins do radicalismo islâmico – arrasta consigo o conjunto de valores que sobre ele foram erguidos. Hoje em dia parece acreditar-se que se destruirmos os alicerces de uma casa esta ficará de pé. Não ficará, não sobrará pedra sobre pedra.