| Sebastião Salgado, Guatemala, 1978 |
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022
A persistência da memória (8)
terça-feira, 15 de fevereiro de 2022
Nocturnos 73
domingo, 13 de fevereiro de 2022
Simulacros e simulações (31)
domingo, 6 de fevereiro de 2022
A Garrafa Vazia 78
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022
A maioria absoluta e a situação da esquerda
A maioria
absoluta obtida pelo PS confirmou o instinto político de António Costa. Não
cedeu às exigências do BE e do PCP e não hesitou em correr riscos. Na sua
vitória confluem o reconhecimento pela governação e pelo combate à pandemia, a
necessidade de estabilidade, o cansaço com o tom do BE e com a incapacidade do
PCP alterar o seu tipo de discurso e, não menos importante, o medo de um
governo do PSD dependente do apoio do Chega e da Iniciativa Liberal. Em resumo,
derrotou os seus ex-parceiros, a direita e, de passagem, Marcelo Rebelo de
Sousa. Tem quatro anos para mostrar, definitivamente, que, para além de um
óptimo político, é um óptimo primeiro-ministro, com capacidade para fazer sair
o país do impasse em que se encontra.
Foi penoso assistir à declaração de Jerónimo de Sousa. Falou para os seus, entregou-se a uma interpretação esotérica dos resultados eleitorais e da situação política. Foi incapaz de assumir o erro de votar contra o orçamento. Também não mostrou que o partido tenha capacidade de rasgar horizontes para além da retórica habitual sobre os trabalhadores e o povo. Na verdade, o PCP não tem qualquer projecto para governar o país na situação onde este se encontra: pertença à União Europeia, ao Euro e abertura de mercados num mundo globalizado de elevada concorrência. Os portugueses reconheceram isso, retirando-lhe votos e representantes, entre eles o excelente deputado António Filipe.
Não menos penoso foi assistir ao discurso de Catarina Martins. Acusou António Costa de querer uma maioria absoluta e não foi capaz de reconhecer que o BE cometeu um erro estratégico ao chumbar o orçamento. O BE não percebeu que grande parte do seu eleitorado vinha do PS e que votaria no BE apenas se não houvesse perigo. Problema ainda maior é que o Bloco mostrou que não serve para encontrar soluções para o país, não tendo aproveitado a abertura dos socialistas para se transformar num partido de poder credível. Por outro lado, a liderança de Catarina Martins e o estilo que adoptou estão desgastados. Fora dos fiéis, começa a haver pouca paciência para a líder do BE.
Por fim, os ecologistas de esquerda. A ficção de “Os Verdes”, com a sua submissão ao PCP, parece ter acabado. Não deixam saudades nem, tão pouco, uma marca no país. A eleição de Rui Tavares, do Livre, depois do erro de casting de 2019, com Joacine Katar Moreira, pode marcar o início de uma reconfiguração da esquerda à esquerda do PS. Apesar do líder do Livre ter entoado a Internacional, na noite das eleições, não há nele traço de radicalismo, é um político muito bem preparado, sensato e europeísta. É, se não cometer erros, uma ameaça para o BE.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022
Ciência e pensamento crítico
Uma das formas mais insidiosas de superstição é aquela que se baseia num suposto pensamento crítico ou no direito de pensar por si mesmo, numa espécie de afirmação à outrance do lema kantiano ‘Pensar sempre por si mesmo’. A estratégia é colocar em pé de igualdade uma forma de conhecimento altamente estruturada, obedecendo a rigorosos protocolos de controlo, testagem e avaliação, isto é, a Ciência, com opiniões e conjecturas que não têm qualquer controlo. Aliás, nem se trata de colocar em pé de igualdade Ciência e estas opiniões. Pretende-se mesmo julgar a Ciência com base nessas opiniões, como se isso fosse uma atitude crítica altamente inteligente.
Não temos o dever de pensar por nós próprios? Temos, mas pensar por si próprio, de modo responsável, é avaliar, com base num método rigoroso, aquilo que nos é proposto. Isso, dir-se-á, levanta um enorme problema. Por exemplo, como posso avaliar se devo ou não ser vacinado contra a COVID-19? Não tenho conhecimento para fazer uma avaliação crítica da vacinação. Como eu está mais de 99% da humanidade. A única coisa que podemos fazer, para pensar criticamente, é confiar na autoridade científica dos cientistas. Não se trata, porém, de uma aceitação cega de uma autoridade. Há regras para aceitar argumentos de autoridade. São essas regras que permitem adoptar uma atitude crítica sobre certo assunto que não dominamos.
Só devemos aceitar um argumento de autoridade se aqueles que o propõem são efectivamente autoridades no assunto, se não existirem contra-exemplos credíveis que ponham em causa o que a autoridade afirma e se existir um forte consenso científico sobre esse assunto, por exemplo, sobre o benefício da vacinação. Ora, quando as pessoas, em nome de um suposto pensamento crítico e de um direito a pensar por si, rejeitam os resultados da Ciência, não estão a pensar criticamente. Estão a submeter-se à autoridade de pessoas que não dominam os assuntos, que emitem opiniões que ninguém controla nem avalia. Estão a trocar o conselho de autoridades competentes por crenças sem qualquer fundamento. Escolhem a superstição e não o pensamento crítico.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2022
Milagre e sacrifício
| Max Klinger, Sacrifício |
domingo, 30 de janeiro de 2022
Beatitudes (49) Imagens
| Albert Renger-Patzsch, River Rhine (backwater), 1950s |
quinta-feira, 27 de janeiro de 2022
Nocturnos 72
terça-feira, 25 de janeiro de 2022
Só um milagre
| Arthur Tress, Cards and Checkerboard in Abandoned Locker Room for Railroad Workers, c. 1970 |
sábado, 22 de janeiro de 2022
A futebolização da política
Um dos problemas desta abordagem do confronto político é que o resultado depende totalmente dos árbitros. No futebol, por muito que um árbitro possa distorcer o resultado através de más decisões, há ainda os golos que são marcados e os que são falhados. O que os jogadores fazem em campo tem, por norma, relevo para o resultado. No caso dos debates, o que conta são as paixões políticas dos árbitros-comentadores. Os resultados dizem mais daqueles que atribuíram classificação que do desempenho dos políticos. Este problema, apesar de tudo, tem pouco relevo.
Um problema mais grave é a transformação completa da política num confronto entre hooligans de várias cores. A hooliganização da política é interessante para a comunicação social, pois gera continuamente tempo de antena. Os políticos preocupam-se em marcar pontos – isto é, golos – através daquilo que um hooligan pode perceber, ideias simples e soluções simplistas. Os grandes problemas, devido à sua complexidade, são arredados da campanha eleitoral, tornam-se secretos. A ânsia da comunicação social em dominar a política conduz a que esta se torne cada vez mais obscura, pois o recurso a uma linguagem básica e ao fogo-de-artifício oculta as dificuldades que estão por detrás das várias soluções propostas.
Não menos grave é que esta futebolização da política instaura um caldo cultural propício para projectos populistas. O populismo é uma forma de hooliganismo político. Vive de ideias simples e de afirmações bombásticas. Actua no campo das emoções e dos sentimentos e progride pela eliminação do debate sensato e do exame racional dos problemas. A comunicação social, que em tempos teve um importante papel na vida democrática, está a criar condições culturais e psicossociais favoráveis a projectos autoritários. A lógica de mercado a que essa comunicação social está sujeita impede-a de reconsiderar a sua actuação. Ela vive não da informação, mas do desencadear das emoções, tal como o futebol.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2022
A Garrafa Vazia 77
segunda-feira, 17 de janeiro de 2022
Do moderno
| Autor desconhecido, A modern kitchen (stove), 1870s |
sábado, 15 de janeiro de 2022
O progresso moral da humanidade (4)
| Autor desconhecido, Ruined Richbourg cathedral during WW1, France, ca 1916 |
quinta-feira, 13 de janeiro de 2022
O combate de adolescentes
| Adolphe Braun, Propylées, Athens, c. 1889 |
terça-feira, 11 de janeiro de 2022
A persistência da memória (7)
| Antoine Claudet, Still Life in Attic, 1855 |
domingo, 9 de janeiro de 2022
A Garrafa Vazia 76
| Lucio Muñoz, 2-85, 1985 |
sexta-feira, 7 de janeiro de 2022
O equívoco dos homens fortes
Um chefe militar pode ser mais ou menos talentoso, mas a hierarquia, a disciplina e a eliminação da conflitualidade no seio da instituição militar não se podem comparar com o que se passa na vida política, toda ela fundada no conflito de interesses e na necessidade de os gerir, evitando rupturas drásticas no consenso mínimo que deve existir. Vejamos uma comparação. Enquanto o Vice-Almirante comandava o processo de vacinação fundado numa liderança que não era contestada, um Presidente da República ou um Primeiro-Ministro não podem – felizmente, acrescento eu – exercer os respectivos poderes do mesmo modo. A um militar, basta-lhe ser eficaz na missão atribuída. A um político não basta ser eficaz. Ele tem de saber conjugar interesses opostos, lidar com fortes oposições, adequar-se ao facto de possuir poderes limitados. Um político necessita de possuir uma plasticidade que um chefe militar pode dispensar.
Os portugueses, por vezes, deixam-se seduzir por homens fortes e soluções simples, coisa que um militar pode apresentar como currículo. Em política, porém, nada é simples nem se resolve com voz do comando. Governar um país – ou qualquer tipo de comunidade – não é a mesma coisa que cumprir uma missão militar. Os cidadãos não são soldados que estejam às ordens do Presidente da República e do Primeiro-Ministro, aos quais devam obediência. São iguais ao Presidente e ao Primeiro-Ministro. Todos devem obediência apenas à lei. O que significa isto? Ser um excelente militar não dá qualquer competência para ser um político minimamente razoável, capaz de gerir os conflitos legítimos que espontaneamente surgem entre cidadãos livres. Seria um equívoco eleger-se um Presidente baseado numa competência que nada tem a ver com a virtude política.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2022
Nocturnos 71
sábado, 1 de janeiro de 2022
Simulacros e simulações (30)
| Bruce Davidson, Clown and circus tent, Palisades, New Jersey, 1958 |
quinta-feira, 30 de dezembro de 2021
Beatitudes (48) Luz e sombra
| Josef Sudek, Promenade from Kolin island, 1923 |
terça-feira, 28 de dezembro de 2021
A Garrafa Vazia 75
domingo, 26 de dezembro de 2021
Descrições fenomenológicas 67. Rua com neve
| Juan Suárez Ávila, Panorama desde el puente, 1974 |
No fundo da rua, as casas da perpendicular que a termina, deixam que os olhos avistem os telhados. Cobrem-nos uma neve branca, pura, cintilante ao ser batida pelos raios de sol, se a névoa os deixa escapar. Nos muretes das varandas e nos parapeitos das janelas, a mesma neve persiste em equilibrar-se, numa harmonia difícil, num jogo que o vento, por vezes agreste, insiste em desfazer, arrastando para o chão pequenas bolas misteriosas na sua brancura imaculada. A rua, de tão sombria, contrasta com essa visão dos telhados. Também a neve a cobre, mas não passa de uma mistura de gelo, lama e água suja. Não se avistam carros, embora o chão retenha ainda o sulco da sua passagem. As paredes de um dos lados têm janelas com grossas grades de ferro, no rés-do-chão, mas as dos primeiros e segundos andares – é uma rua de casas baixas, indigna, dir-se-á, de fazer parte de uma grande metrópole – não têm defesas contra assaltantes. Os vidros parecem sujos, embora por eles perpasse a existência de vidas no interior dos apartamentos. Uma ou outra janela está aberta e, por vezes, alguém assoma por uma delas, deixa correr os olhos pela rua, abana a cabeça ou encolhe os ombros, enquanto flocos de neve descem para poisar nos candeeiros de iluminação pública, nos passeios, na estrada. Do outro lado, as janelas estão cobertas por tapumes, algumas fechadas com tijolos, outras apresentam vidros partidos, por onde sai, sem pressa, a escuridão que delas se apossou. Ao fundo da rua, um homem aproxima-se da perpendicular e corta à esquerda. Segue-o, a curta distância, outro que pára, hesita, olha para trás, por fim, opta por voltar à direita, com o passo indeciso de quem não sabe onde está nem para onde deve ir. A meio da rua, um casal, já não são novos, caminha indiferente à queda da neve. Vão vestidos com grossos casacos compridos de Inverno. Ele leva um guarda-chuva na mão esquerda, usa-o como se fosse uma bengala, enquanto ela lhe dá o braço, carregando na mão direita uma mala de senhora, talvez de dimensões excessivas para quem anda a pé. Fico a vê-los afastarem-se, em passo comedido para não escorregarem, percebo que trocam palavras. Passam indiferentes à vida de um dos lados da rua e à ruína que vai carcomendo o outro. Tudo neles tem a marca de um longo hábito e nada do que ali possa acontecer os surpreenderá. Depois, esqueço-me deles, da rua sombria, do destino das casas. Os olhos prendem-se, então, à brancura imaculada dos telhados, ao reverberar da neve, à luz cintilante que a ilumina.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2021
A persistência da memória (6)
| Elliott Erwitt, Confessional, Poland, 1964 |
quarta-feira, 22 de dezembro de 2021
Natal em pandemia
Talvez toda a realidade se tenha tornado ainda mais incerta e o Natal
tenha sido apanhado nessa onda. A realidade, aquela onde as comunidades humanas
levam a sua existência, nunca foi coisa despida de incerteza. A novidade, se é
que existe alguma, residirá no crescimento exponencial dos mecanismos de
segurança e de prevenção de riscos ter sido acompanhado pelo crescimento da
sensação de insegurança e de exposição indefesa perante as mais diversas
ameaças. A pandemia trouxe uma objectivação global a essa sensação de
incerteza. Um tornado, uma catástrofe, mesmo um conflito armado, todas essas
situações de grande risco são localizadas, parecem, se vistas de fora,
excepcionais. A pandemia tornou manifesto, a toda a gente, que os riscos e a
incerteza são presenças diárias e que não há lugares onde se esteja
completamente protegido.
A experiência do Natal do ano passado, acabadas as festividades, não deixou boas recordações, como se pode ver pelo que aconteceu nos primeiros meses deste ano. Todas as sociedades, mesmo aquelas em que a indiferença religiosa é acentuada, se estruturam em torno de tradições provenientes do seu fundo religioso. No mundo onde o cristianismo é ou foi um elemento base da cultura, o Natal é um desses momentos em que a quotidianidade profana se suspende para que a vida encontre um marco referencial e possa prosseguir. Perante a incerteza em que se vive, agora acentuada pela entrada em cena de nova variante do vírus, há duas atitudes perante o Natal que não seriam sensatas. Uma seria fingir que nada se passa e encarar o Natal como se não houvesse pandemia. Outra seria ceder por completo ao medo e fazer do Natal tábua rasa, passar por ele como se não existisse.
Haverá, pelo menos, uma terceira possibilidade. Perceber o Natal como um momento de diálogo com a incerteza que se apoderou da vida dos homens. O Natal é o lugar por excelência da incerteza, da precariedade, da pobreza constitutiva de toda a vida. A incerteza onde o Menino poderia nascer, a precariedade dos meios à disposição da família, a pobreza do presépio como lugar de acolhimento. Na tradição do cristianismo, é nesta simbólica da finitude humana que se manifesta o infinito da divindade, é ali mesmo que a vida triunfa sobre a morte. É neste núcleo simbólico do cristianismo que as sociedades cristãs e, ainda mais, as que se dizem pós-cristãs precisam de encontrar a chave para lidar com o que está a acontecer. O Natal nada nos diz sobre pandemias, mas diz muito sobre como devemos enfrentar a vida, da qual faz parte tudo aquilo que, por incerto, nos perturba.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2021
Nocturnos 70
| Francesc Català-Roca, Esperando la salida de la ópera, 1950 |
sábado, 18 de dezembro de 2021
A Garrafa Vazia 74
quinta-feira, 16 de dezembro de 2021
Regionalização, Espírito do Tempo e a bílis de Rui Rio
Espírito do tempo. Quem lidou com a filosofia do idealismo alemão conhece bem o conceito de Zeitgeist, o espírito do tempo. O palavrão germânico significa, em linhas gerais, um certo clima intelectual, cultural e social, uma maneira de interpretar o que acontece. Isto vem a propósito de terem ocorrido em 11 e 12 de Dezembro os congressos da Iniciativa Liberal e do Livre. Ambos os partidos elegeram um deputado nas últimas eleições. Quem consultar os jornais e os sites noticiosos descobrirá referência séria apenas à Iniciativa Liberal. Isso deve-se ao tal Zeitgeist. O espírito do tempo gosta daquele punhado de rapazes e – presumo – de raparigas que se dizem liberais e está a fazer com eles o que fez com o Bloco de Esquerda, dar-lhes tempo de antena. O Cotrim Figueiredo veste bem, já o Rui Tavares parece vestir-se de forma inadequada. O Zeitgeist é impiedoso com a forma como as pessoas se vestem.
O azar de Rendeiro e o de Rio. Rui Rio acha que a Polícia Judiciária se move pelo calendário eleitoral. Não houvesse eleições, e Rendeiro poderia estar descansado. Mesmo que Rio pensasse isto, não o deveria dizer. Em primeiro lugar, porque a acção da Polícia Judiciária é das poucas coisas que correram bem em todo este processo. Em segundo lugar, porque todo o aparelho de segurança – forças armadas e polícias – e toda a estrutura judicial são sectores muito sensíveis do funcionamento de uma comunidade. O interesse do país manda que aqueles que o querem governar evitem este tipo de comentários. Rui Rio despiu a pele de candidato a primeiro-ministro e vestiu a de cidadão que descarrega a bílis enquanto bebe uma cerveja. Um azar para Rui Rio ter a bílis perto da boca.
terça-feira, 14 de dezembro de 2021
sábado, 11 de dezembro de 2021
Sonhos numa noite de Verão 31
| André Kertész, Place Gambetta, Paris, 1929 |
quinta-feira, 9 de dezembro de 2021
O golpe de misericórdia
segunda-feira, 6 de dezembro de 2021
A Garrafa Vazia 73
sábado, 4 de dezembro de 2021
Resiliências, Rui Rio/PSD, BE e Futebol
Rui Rio e PSD. A vitória de Rui Rio nas eleições internas do PSD é o triunfo de uma visão moderada da política e da necessidade de estabelecer pontes com o outro lado. Uma parte da direita portuguesa, a exemplo do que acontece lá fora, está ansiosa por criar situações de grande polarização, em apostar numa lógica de amigos/inimigos, de nós ou eles. Nestas eleições, essa lógica saiu derrotada. É verdade que Paulo Rangel não é, nem de perto nem de longe, um político carismático. Se o fosse, talvez o resultado fosse outro. Pior para o país. A questão que fica é a de saber por quanto tempo o PSD resistirá à logica de polarização e ao lançamento do país numa onda de divisão e incomunicabilidade entre os actores políticos.
O BE e o Bloco Central. Catarina Martins anda preocupada com a possibilidade de António Costa, caso não consiga uma maioria absoluta, se entenda com o PSD de Rui Rio. Uma preocupação absurda porque tem todo o ar de ser uma falsa preocupação. Catarina Martins e o BE, assim como o PCP, tiveram na mão evitar essa aproximação. Ao chumbar o orçamento e dar oportunidade ao Presidente para dissolver a Assembleia, quebraram as pontes que existia entre o PS e os partidos à sua esquerda, colocaram-se fora das soluções possíveis. Tirando os militantes do BE, pouca gente haverá que leve a sério as preocupações da líder do BE.
Futebol. As acções das polícias e dos órgãos judiciais junto de uma série de clubes de futebol de primeira importância no país mostram aquilo que se sentia há muito. O mundo de futebol teria regras próprias e diferentes das regras que comandam o conjunto da sociedade. Parece que a Justiça acordou para esse problema. Veremos, porém, quem será mais forte. A ordem jurídica ou a irmandade do futebol?
quinta-feira, 2 de dezembro de 2021
Ministério do vício e da virtude
Quando são noticiados homicídios de mulheres ou outras situações de violência doméstica, nunca pensamos que a esses casos corresponde uma linha política e há neles um forte teor político. Esta ocultação, no Ocidente, deve-se à disseminação das ideias do Iluminismo e ao peso que esse tipo de ideias ainda possui nas nossas sociedades. Essa linha política oculta assenta na clara dominação das mulheres pelos homens, na sua subjugação e redução a um animal doméstico, no duplo sentido de o seu lugar ser a domus, a casa, e de estar domesticada, amputada da sua liberdade, a qual surge para os homens como manifestação do selvagem e do ameaçador. Para perceber que esta dimensão política da violência sobre as mulheres é real, o melhor é observar um caso extremado, pois os casos extremados manifestam aquilo que as situações moderadas ocultam.
No Afeganistão, as televisões foram proibidas de exibir dramas ou programas que tenham papéis desempenhados por mulheres. Esta é uma das medidas com que as mulheres afegãs foram agraciadas pelos talibans. Não é desprezível o facto de a proibição ter sido decretada pelo ministério do vício e da virtude. Para nós, vício e virtude, desde que não ponham em causa direitos de terceiros, são questões do foro íntimo. Queira eu ter uma conduta moralmente virtuosa ou viciosa, desde que não cometa crimes, o problema será meu. Contudo, a existência de um ministério do vício e virtude é um sinal poderoso de como a política se intromete duramente não apenas nas questões de igualdade de género, mas também nas questões de cama. O que atormenta os vigilantes da moral dos outros é, em última análise, o sexo. A homossexualidade, claro, mas, fundamentalmente, a sexualidade das mulheres, a sua liberdade.
Os casos de violência doméstica em Portugal, e no mundo Ocidental, são manifestações de nostalgia por um mundo político e social completamente dominado pelos homens, onde as leis eram feitas na pressuposição de que cabe ao homem dominar a mulher e a esta submeter-se, abandonar a sua liberdade e a sua personalidade. Pensarmos que os países ocidentais estão vacinados contra os ministérios do vício e da virtude é enganarmo-nos a nós próprios. O crescimento do radicalismo de direita não está ligado apenas a situações de xenofobia. No seu cerne há um problema com a igualdade e a liberdade das mulheres. Muita gente que se sente atraída por esses quadrantes políticos não se importaria nada que houvesse um ministério do vício e da virtude, um regime político que pusesse as mulheres no seu lugar, isto é, em casa. Um governo que produzisse leis que aceitassem os crimes de honra.
terça-feira, 30 de novembro de 2021
Simulacros e simulações (29)
domingo, 28 de novembro de 2021
Eça de Queiroz, Alves & C.ª
O tema da honra está presente no último romance de Eça de Queiroz
publicado em vida, A Ilustra Casa de Ramires, no qual o protagonista, um
aristocrata, confronta a sua lassidão moral com o culto bravio e sanguinolento da
honra dos seus longínquos antepassados. Em Alves & C.ª, romance
póstumo publicado em 1925, um quarto de século após a morte do autor, Eça
centra-se no mesmo tema, deslocando o ambiente social da velha aristocracia
para o seio da burguesia comercial ascendente na Lisboa dos finais do século
XIX. O caso gira em torno de um adultério e a questão da honra punha-se aos
olhos do marido traído. O sentimento de traição é levado ao paroxismo porque,
além da infidelidade conjugal, há também a traição de uma amizade e de uma
sociedade comercial, pois o amante de Ludovina, a mulher de Godofredo Alves,
era precisamente o Machado, rapaz mais novo, sócio talentoso da firma e amigo
íntimo de Godofredo, que o vira crescer e quase o educara.
A questão que Eça coloca no romance, ao fazê-lo girar em torno da honra, prende-se com a tensão entre uma sexualidade que transborda os limites do estipulado pelas convenções sociais e três instituições centrais da vida burguesa, o matrimónio, a amizade e a sociedade comercial, onde se conjugam os interesses materiais daqueles que se tornaram rivais. Serão as manobras de Eros, com a sua propensão para desestruturar o mundo e lançar a vida no caos, suficientes para pôr em causa instituições tão fundamentais para o mundo burguês triunfante? A expectativa seria que a descoberta por Godofredo, na sua casa e no dia do quarto aniversário do casamento, da sua Lulu nos braços do sócio Machado, levaria à destruição do casamento, ao fim de uma profunda e quase paternal amizade e, não menos importante, à desagregação da sociedade comercial.
Godofredo da Conceição Alves, o nome do personagem central do pequeno drama, é todo ele um programa narrativo. Aos banais apelidos, a mãe, senhora dada à leitura de romances, por certo românticos, antes de se dedicar ao culto do Senhos dos Passos, decidiu antepor um nome de outros tempos, um nome godo, como se ela quisesse ver no filho o aristocrata que ela não era. Esta ironia queirosiana é fundamental para a compreensão do romance. Perante o ultraje, Godofredo sente ânsias de lavar a honra em sangue, de matar o Machado ou de morrer ele, mas libertar-se assim do peso que o adultério da mulher lhe punha nos ombros. Depois de ideias e propostas bizarras, vai ter com dois amigos, um deles experiente em coisas da honra, para resolver o assunto. O que vai descobrindo, todavia, é que o caso não exigiria cometimentos tão drásticos. Os padrinhos de ambos os lados manobram até que se chegue à conclusão que nada há a fazer. Duelos relativos a questões de honra exigem mais que uma mera peripécia do deus Eros. Por exemplo, ser escarrado na face. Isso sim é grave para a honra de um homem.
A instituição da honra já não pertencia àquele mundo habitado por burgueses, era coisa de uma velha aristocracia que tinha desaparecido. Um qualquer Conceição Alves, mesmo que Godofredo, não tem honra a defender, até porque o motivo seria pura e simplesmente irrisório, num mundo em que as histórias de maridos traídos e mulheres adúlteras seria a norma. Eça liberta o Eros da sua relação com o sangue e a morte, mas não o faz como um pensador libertino. Pelo contrário, o importante é outra coisa. Importante é que o matrimónio não se desfaça, que as amizades permaneçam, apesar da intromissão da deslealdade, e que as sociedades comerciais prosperem. A honra, essa é uma coisa que não se deve intrometer no bom funcionamento das instituições burguesas. Godofredo, apesar do nome, não era um aristocrata. A vida, a sociedade, o Machado, a Ludovina e o seu coração exigem outra coisa dele, exigem que não tome a excepção como a regra e não desfaça o mundo laboriosamente tecido, um mundo apontado à prosperidade e às aparências, para que a vida decorra segundo a nova visão do mundo, a daqueles que já substituíram no comando das coisas a velha aristocracia, cujos valores são agora inúteis. A virtude central não é a honra, mas a prudência, pensada a partir do cálculo da utilidade dos actos.
sexta-feira, 26 de novembro de 2021
A Garrafa Vazia 72
quarta-feira, 24 de novembro de 2021
Nocturnos 69
segunda-feira, 22 de novembro de 2021
O progresso moral da humanidade (4)
![]() |
| Ernst Haas, Homecoming soldier, Vienna, 1946-1948 |





