sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Sentimento de revolta


Um filme de 2021, Ouistreham, do francês Emmanuel Carrère, coloca um problema político interessante, apesar de este acabar por ficar ocultado sob uma questão moral. Em linhas gerais, trata-se da história de Marianne Winckler, uma escritora, que decide escrever sobre as pessoas que vivem de trabalhos precários, no caso, os serviços de limpeza. Disfarça-se de trabalhadora de higiene e passa a trabalhar na limpeza de um ferryboat que faz a ligação entre França e Inglaterra. Ela não só acompanha a sorte desses trabalhadores, como a vive na sua plenitude. Faz, inclusive, amizade com duas dessas trabalhadoras. O problema moral diz respeito ao facto dessas amigas se sentirem traídas ao descobrirem quem ela é. Não é, porém, a moral que me interessa.

O filme mostra a vida de pessoas que são, para muitos de nós, completamente invisíveis. Sob a crosta de comodidade na qual decorre parte significativa da existência escondem-se autênticos exércitos constituídos por pessoas que vivem muito longe dos níveis de comodidade das classes médias. A sua característica fundamental é a invisibilidade, mesmo quando estão perante os outros, estes não as vêem A esta invisibilidade corresponde um trabalho duríssimo. Os ritmos da limpeza de quartos, casas de banho, etc. são elevadíssimos e a penalização para atrasos pode ser drástica, o despedimento. Toda esta gente – e no filme os trabalhadores são quase todos franceses de origem, digamos assim, embora também existam imigrantes ou descendentes destes – vive vidas sem sentido, destituídas de qualquer fantasia, a não ser a de poder abandonar aquele tipo de existência. Onde está o problema político?

Desde o século XIX até ao último quartel do século XX os trabalhadores reconheciam-se em determinados partidos políticos, os partidos sociais-democratas e os partidos comunistas, e possuíam, mais ou menos desenvolvida, aquilo que se denominava consciência de classe. Era esta que os orientava nas suas opções políticas e na própria vida. Ora, todos estes trabalhadores precários estão longe de possuírem uma consciência de classe e os velhos partidos operários implodiram ou abandonaram as causas originais. Estas pessoas invisíveis, como o filme mostra, têm sentimento da sua situação, mas este nem sequer é um sentimento de classe, mas de revolta contra o mundo que os deixa ali. São uma parte importante dos votos na extrema-direita e, se têm um sentimento político, é o de implodir o sistema democrático e liberal. O filme é francês, mas poderia ser realizado em Portugal ou em muitos países da União Europeia.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

A Garrafa Vazia 100

Ana Hatherly, sem título, 1970

Devolvo ao chão a poeira

de vidro, os despojos

do copo bebido

até à última borra,

o ácido do vinagre

a encrespar a garganta,

o esquecimento a dilacerar

a carne do coração,

a morte como um instante

feito de luz e pólen

roubado à garrafa vazia,

ao bramido de uma rosa.

 

Agosto de 2022 

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Sonhos numa noite de Verão 32

Rodney Smith, Gary Descending Stairs, 1995
Era uma canção que todos conheciam. Ouvia-a, e as palavras que dela deslizavam abriam-me o coração. Rumores vindos de longe ou ruídos metálicos nascidos na rua interrompiam-me o prazer da escuta. A canção terminava, mas logo recomeçava e com ela vinham novos rumores e outros ruídos. Sempre que a canção começava, uma mulher, a mais bela mulher, descia as escadas da casa em frente. Tinha um ritmo solene, mas mal os rumores ou os ruídos se interpunham, ela transformava-se numa harpia. Então o coração acelerava, e eu gritava: estou morto, ela vem comer-me a carcaça. A canção acabava e ela desaparecia, para voltar de novo, bela, até que uma sirene me acordou e o espírito voltou para esta casa solitária perdida no ermo dos campos. Pousado num penhasco, um velho grifo sondava a paisagem.

sábado, 27 de agosto de 2022

O problema colocado por Sanna Marin

Um vídeo onde se vê a primeira-ministra finlandesa, Sanna Marin, numa festa particular, com um comportamento exuberante incendiou as redes sociais. Defensores e detractores esgrimiram sentimentos mais do que argumentos. A visada defendeu-se dizendo “Dancei, cantei, festejei. Coisas perfeitamente legais”. Apesar do cargo político que ocupa, quer ter uma vida normal: “Tenho uma vida familiar, uma vida profissional e tenho tempo livre para passar com os meus amigos”. Existirá aqui um problema político ou apenas uma manobra rasteira da oposição? Caso se confirme a afirmação de Sanna Marin de que não consumiu drogas, subsiste mesmo assim um problema sobre como deve um governante conceber a sua persona.

Um dos valores políticos fundamentais, em Roma, era a gravitas (gravidade). É uma das virtudes que pertencia aos costumes dos antigos, isto é, à tradição. O campo de significação da gravitas remete para a ideia de peso, de dignidade, de contenção e de rigor moral, bem como de responsabilidade na acção. Esta visão implica uma concepção sacralizada do poder político e, também, a ideia de o governante não ser da mesma natureza que os governados. O governante é o pastor, os governados constituem o rebanho. Outra perspectiva pode ser derivada da visão moderna que vê o poder político como o resultado de um contrato entre iguais, pelo qual alguns desses contratantes são investidos de poder político. Nesta perspectiva, a da democracia liberal, não há sacralização do poder e o governante não é um pastor, mas um funcionário investido temporariamente num cargo.

Percebe-se que a forma como Sanna Marin entende o poder se inscreve na perspectiva contratualista. É uma funcionária e não uma pastora do rebanho finlandês. Cumpre um contrato político, não é agente de um poder sacralizado. Sendo assim, nada a dizer do seu comportamento. A gravitas é dispensável fora de funções. O problema, porém, é outro. Durante muito tempo, as democracias liberais viveram sob a cobertura da visão tradicional do poder. Os governantes democráticos deviam ostentar gravitas e eram reconhecidos como pastores que não se confundiam com o rebanho dos governados, como se possuíssem ainda uma aura sacral. A questão que o comportamento de Sanna Marin coloca é interessante: será que as democracias liberais subsistirão se os governantes perderem a gravitas e a aura sacral, se se tornarem meros funcionários, se se comportarem como os governados? Esta, devido ao confronto entre regimes autoritários, que apelam à gravitas e à sacralidade do poder, e regimes liberais, é, nos dias que correm, uma questão fundamental.

domingo, 21 de agosto de 2022

Nocturnos 86

Guy Le Querrec, Paris, Rue Louis Morard, 1989 (Magnum Photos)

A noite é um oceano de escuridão pontuado por breves arquipélagos de luz. Na fronteira, um gato balança em instável equilíbrio. Hesita entre a oferenda do calor luminoso e o mar de trevas onde se fundirá no silêncio nocturno para espiar a cegueira com que as presas se entregarão nas suas garras.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

A Garrafa Vazia 99

Mário Cesariny, Soprofigura, 1947

Observo as núpcias de sangue,

a inocência a deslizar

pelos trilhos

das noites de insónia.

Caminhos azedos,

ruas onde se debruçam

sobre descuidados transeuntes

putas pobres,

quase virgens na infecta

pulsação do desejo

 

Agosto de 2022

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Herta Müller, A Terra das Ameixas Verdes

 

Herztier (1996) é um romance da escritora alemã, nascida na Roménia, Herta Müller, prémio Nobel (2009). Literalmente, o título original significa coração animal. Em França, o título escolhido foi Animal du Coeur, em Espanha, La bestia del corazón, e em inglês, The Land of Green Plums. A tradução portuguesa (1999) seguiu a inglesa. O romance começa e acaba com as mesmas palavras: Emudecemos e tornamo-nos desagradáveis, disse Edgar, falamos e tornamo-nos ridículos. Esta estratégia confere à narrativa uma espécie de ciclicidade, de eterno retorno do mesmo, mas também o sentimento de um círculo fechado. Este cerramento não é um mero exercício de estilo, mas o modo como autora cria no leitor a sensação de opressão existente na Roménia sob a ditadura comunista. Ciclos contínuos de expectativas (a da sempre adiada morte do ditador), mais do que esperanças, e de desesperos, um ambiente fechado, controlado, de onde qualquer liberdade individual fora banida.

Um outro elemento estrutural liga-se ao anonimato da narradora num romance autodiegético. Ela é a principal personagem, mas nunca se sabe o seu nome, enquanto o das outras personagens – Lola, Edgar, Georg, Kurt, Tereza e o capitão Pjele – são conhecidos. Várias recensões da obra vêem nela um romance autobiográfico, devido à existência de traços biográficos comuns à autora e à narradora. O anonimato desta seria uma ocultação do nome da autora. Existe, todavia, uma outra possibilidade de leitura mais interessante. Essa ausência de nome da personagem principal, esse espaço em branco na trama narrativa, permite que ele fique em aberto e possa ser preenchido por qualquer um. Ao espaço fechado da narrativa corresponde o espaço aberto do sujeito da acção. Num mundo opressivo e fechado, num regime totalitário, o lugar da vítima está sempre em aberto, para que qualquer um, se for esse o desejo do poder, o ocupe. O anonimato da narradora significa que aquele lugar não é pessoal e intransmissível. Pelo contrário.

Contrariamente ao que se possa pensar, não se está perante uma obra de matiz ideológico nem perante um romance de tese. Dentro do espaço fechado da narrativa, o que Herta Müller faz é dar a ver o impacto do universo político sobre as pessoas, não apenas nas suas condições sociais, mas, fundamentalmente, nas suas condições psicológicas ou, melhor, na sua ipseidade, isto é, na forma como se constituem enquanto pessoas. Muitas vezes, talvez demasiadas vezes, pessoas que vivem sob regimes totalitários ou autoritários não percebem que a opressão se abate de forma muito insidiosa sobre a construção da personalidade de cada um, mesmo sobre a dos adeptos e sicários desses regimes. Não são apenas os corpos que são presos, torturados, violentados, ou o discurso que é censurado. O que qualquer regime opressivo faz é manietar os indivíduos não lhes permitindo desenvolver, muitas vezes sem que eles próprios percebam, as suas possibilidades mais fundamentais. Neste tipo de regimes, a política não é apenas a política, mas uma forma de rasurar a humanidade e de impedir a pessoa de se descobrir a si mesma. É uma prática sistemática de amputações, mesmo que os corpos pareçam ilesos.

Apesar de a narrativa ser fechada, ela parece pouco estruturada. Não há divisão por capítulos. O texto corre de princípio até ao fim, composto por pequenos parágrafos, quase como se fossem versos que não coubessem numa linha e tivessem de se expandir por várias. Esta sensação é intensificada pela própria natureza imagética da escrita. Por exemplo: Eu puxo o fio, escreve Lola, a coroa de espinhos vira-se para baixo. A mãe canta. Deus tende piedade de nós, e eu puxo para abrir o polegar da luva. Há uma clara preocupação de dar a ver os pequenos gestos, os acontecimentos insignificantes, tudo aquilo que constitui a vida. Há uma atenção hiperbólica ao real, como se essa atenção fosse o outro lado da opressão e, ao mesmo tempo, uma forma de fuga e afastamento do universo concentracionário.

O romance gira em torno de quatro amigos todos com a mesma origem. A narrador sem nome, Edgar, Kurt e Georg. São todos romenos de origem alemã e todos eles tinham pais que fizeram parte das SS nazis, tal como o pai da própria autora. Essa comunidade alemã presente na Roménia era o resultado de acontecimentos políticos, passados no século XIX, que envolveram o Império Austro-Húngaro e o Império Otomano. No romance, a opressão acentua também o conflito de nacionalidades, o choque de culturas, a exclusão dos romenos de origem alemã. O sonho de todos os quatro amigos, depois de terem concluído os cursos superiores, de terem entrado no mundo do trabalho e de dele terem sido excluídos por desagradarem ao regime, era emigrar para a Alemanha. A vida na Roménia tornara-se insuportável, embora eles não tivessem qualquer actividade política digna desse nome. Limitavam-se a cantar canções alemãs, ler livros que não faziam parte do cânone permitido pelo regime ou, no caso de um, de tirar fotografias, que ninguém via, aos autocarros que transportavam presos para os trabalhos de construção das obras do regime. É a insignificância destes gestos e as retaliações que eles suscitam que mostra a natureza totalitária da sociedade romena daqueles dias. Não havia aspecto da vida que não fosse vigiado.

Há, no romance, duas alegorias poderosas, ambas ligadas à morte. Os comedores de ameixas verdes e os tragadores de sangue. Na comunidade camponesa alemã, corria o mito de que se as pessoas comessem ameixas verdes morreriam. Ora, os quatro amigos ficaram espantados quando descobriram na cidade que os polícias, os defensores da ordem do regime, enchiam os bolsos de ameixas verdes e as comiam. Era como se comessem a própria morte e a trouxessem com eles, tornando-os agentes mortais. O poder heurístico da alegoria, porém, não fica por aqui. Uma ameixa verde que é comida não tem o tempo suficiente para desenvolver as suas potencialidades, e de se tornar uma ameixa no pleno sentido. As ameixas verdes são os próprios indivíduos que acabam tragados na boca dos polícias, isto é, nas mandíbulas de um estado policial. A outra alegoria provém da experiência profissional, acabada a universidade, de Kurt. Entra como engenheiro para um matadouro. Descobre, então, que os trabalhadores tragam o sangue dos animais mortos, o que o perturba profundamente. Essa vampirização das vítimas – os animais mortos tornam-se, como as ameixas verdes, uma imagem das pessoas perseguidas pelo estado policial – por parte dos trabalhadores do matadouro torna manifesto que o poder opressivo não se limita aos aparelhos de estado, mas que a própria população se torna uma roda no mecanismo da opressão. No processo, porém, o que mais horrorizava Kurt era a aceitação das famílias da situação. As próprias crianças eram já cúmplices dos pais e não almejavam outra coisa senão o matadouro. É este universo mortal que sustenta as primeiras e a últimas frases do romance: Emudecemos e tornamo-nos desagradáveis, disse Edgar, falamos e tornamo-nos ridículos. Num espaço concentracionário ninguém sabe o que fazer com o discurso, com a luz do logos.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Nocturnos 85

Nikias Skapinakis, De noite, 1964

Uma noite fêmea, uma noite onde canta o silêncio. Com o seu véu de azeviche, perfurado pela traça estelar, cobre a solidão. Tudo sob o seu império se confunde, para que descanse da azáfama da luz trazida pelo breve parêntesis do dia. Noite mercurial onde dança, como ménade arrebatada, a Terra ungida pelas trevas.

sábado, 13 de agosto de 2022

Crescer para melhorar o clima?


A entrevista, vinda a lume no Público online, de 6 de Agosto, a Alessio Terzi, economista na Comissão Europeia e professor na Universidade de Lille, a propósito da publicação do livro Growth for Good, tem pelo menos um mérito. Terzi diz abertamente que “Precisamos do crescimento para evitar um cenário de conflitualidade, algo que é uma possibilidade muito forte numa era de alterações climáticas”. Sublinha, desse modo, que qualquer alteração ao nosso modo de vida que conduza ao empobrecimento ou anule a expectativa de enriquecimento implicará uma grande conflitualidade, a qual porá em causa o próprio combate à degradação do planeta. Defende que o problema não está no capitalismo, mas no facto de este se apoiar, ao nível energético, em combustíveis fósseis. Será, em última análise, o modelo energético que terá de mudar.

Será que crescimento, no âmbito da economia capitalista, e combate às alterações climáticas são compatíveis? Em abstracto, não existe incompatibilidade entre uma coisa e outra. Os mercados movem-se segundo os interesses dos consumidores. Se estes passarem a comprar apenas o que não tem efeitos nefastos para o ambiente, então as empresas reorientam os seus produtos para satisfazer os compradores. Poder-se-á ainda acrescentar que a economia de mercado possui uma grande plasticidade e capacidade de adaptação à realidade. Contrariamente às economias planificadas, dependentes da burocracia e de decisões centrais, a economia de mercado age, ao mesmo tempo, aos níveis global e local, sendo a tomada de decisão completamente descentralizada ou, melhor, centrada nas empresas que estão no mercado e são sensíveis às suas flutuações. Contudo, esta visão enfrenta pelo menos três objecções.

Em primeiro lugar, os interesses das grandes multinacionais ligadas aos combustíveis fósseis e dos países cuja economia depende da sua exploração. Tanto uns como outros são demasiado poderosos e querem tudo menos uma transformação verde. Em segundo lugar, a inovação tecnológica, apesar de pujante e com grande capacidade de crescimento, não parece ser suficientemente rápida para permitir compatibilizar crescimento económico e protecção ambiental. Por fim, os próprios consumidores são pouco sensíveis à defesa do ambiente, se isso implicar uma alteração dos seus hábitos. O ideal seria um pujante capitalismo verde, num ambiente político de democracia liberal, com alguma regulação estatal, tal como defende Terzi. A realidade, porém, poderá ser bem menos agradável, uma miscelânea de catástrofes, conflitos e crescimento dos Estados autoritários.

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

A Garrafa Vazia 98

Manuel Viola, Batalla nocturna, 1975

Entre o espasmo e o vómito,

deixo o tempo correr

pelo matagal de urtigas

onde lacerado

repouso o corpo.

 

A vida dança sob a luz

porosa do poente.

Sonho, as casas arrasadas,

os dias perdidos,

a garrafa há muito vazia.

 

Agosto de 2022
 

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Michel Houellebecq, Aniquilação

Publicado, em França, no início de 2022, Aniquilação é o oitavo romance de Michel Houellebecq. Como se tornou hábito, o lançamento de um novo romance deste autor gerou uma enorme controvérsia entre defensores e detractores do romancista. No campo da detracção, é sublinhado com insistência o facto do romance ser composto por temáticas diversas que parecem não se encontrarem devidamente soldadas umas nas outras, para que façam sentido estarem presentes numa mesma obra. Aniquilação seria, então, uma obra descosida, e grande parte das páginas desnecessárias. Essas linhas romanescas sem real conexão seriam o terrorismo como ameaça ao mundo ocidental, um terrorismo não identificado e com recurso a uma simbólica satânica do século XIX. Isto aconteceria no período que antecederia as eleições presidenciais francesas de 2027, uma outra linha temática, onde o candidato da maioria actual seria um homem de mão do presidente ainda em funções. Neste ponto, estar-se-ia perante um romance de antecipação e um thriller político. Por fim, o destino do protagonista Paul Raison, o principal conselheiro político do ministro da Economia, um homem chave no triunfo do candidato da maioria perante um adversário do partido da senhora Le Pen. No caso de Paul Raison, o que estaria em jogo seria o seu confronto com o destino, isto é, com o amor e a morte. Para muitos, esta é a parte fundamental do romance, que dispensaria as outras linhas narrativas que, no seu entender, não contribuem para o desenlace romanesco.

Uma outra leitura é possível, começando por não aceitar que o protagonista principal do romance seja Paul Raison, mas a família Raison e seria esta a solda que une as diversas linhas que parecem sem ligação. Não deixa de ser estranho que a generalidade dos comentadores não tenham atribuído qualquer importância ao apelido Raison, a palavra francesa para razão. Falam, muitas vezes, de se estar perante um romance crepuscular, mas parecem não compreender onde está a essência desse crepúsculo, confundindo os efeitos do crepúsculo (o terrorismo, a eutanásia, a diluição dos valores, etc.) com aquilo que o provoca. Ora, é a crise da própria razão – encarnada na família Raison – que gera o imenso crepúsculo a que o mundo ocidental estaria sujeito, na perspectiva do romancista. Édouard Raison, um antigo quadro superior da segurança nacional, um homem que teria tido um importante papel nos serviços secretos franceses, é o pai de Paul, um alto quadro do ministério das Finanças e conselheiro político do ministro Bruno Juge, que procura devolver França à glória económica, de Cécile casada com um notário no desemprego, um casal católico tradicionalista e apoiante do partido da senhora Le Pen. Também Aurélien é um Raison, filho mais novo de Edouard, o mais próximo da mãe, já desaparecida no tempo da narrativa, e como ela restaurador de tapeçarias medievais.

Cada um dos Raison representa uma vertente da razão, tal como o Ocidente, no decurso da sua história intelectual, a entendeu. Edouard representa a razão de Estado marcada pela busca de segurança, uma razão inspirada, em parte, em Thomas Hobbes. Não deixa de ser sintomático que uma das suas leituras seja Joseph de Maistre, o principal pensador da contra-revolução e um defensor do Absolutismo, contra as pretensões do terceiro-estado e a visão liberal do mundo. Paul simboliza a razão económica, cujo protagonista no romance é Bruno Juge, considerado como o melhor ministro da Economia desde Colbert. A referência a Colbert não é um acaso, mas uma afirmação, no campo da Economia, da razão de Estado contra a razão liberal. O Colbertismo é marcado pelo dirigismo estatal da Economia, por políticas intervencionistas e proteccionistas. Tanto Edouard como Paul representam simbolicamente a afirmação da razão de Estado e do Estado-Nação. Aurélien encarna uma razão estética, percebida como incapaz de lidar com a própria existência e os problemas que ela coloca. Uma razão marcada, por outro lado, por laivos de romantismo, manifesto no interesse pela Idade Média. Por fim Cécile, simboliza uma razão prática, preocupada com a família, submetida ao império da fé católica.

O destino dos membros da família Raison fornece uma chave para compreender o que está em jogo. Torna também patente o motivo pelo qual muitas análises vêem em Aniquilação um romance crepuscular e, ao mesmo, tempo uma obra onde existe um sopro de esperança. Édouard, durante todo o romance, está num estado de saúde mais próximo da morte do que da vida, fruto de um AVC. Independente das peripécias que o envolvem, que passam pelo seu rapto, de uma instituição de saúde pública, por parte da família, o que transparece é a doença da própria segurança do Estado. Também a doença que atinge Paul é um sintoma da doença de uma razão económica que se furta ao liberalismo e adopta o proteccionismo em nome do Estado-Nação. Paul não era ministro, apenas um membro do staff, mas seria uma espécie de voz da razão económica. O caso de Aurélien que se suicida torna patente a fragilidade da razão estética que se apoderou de parte do discurso ocidental. Na visão que se desprende do romance de Houellebecq, essa razão é impotente para lidar com os problemas que a existência coloca. Resta Cécile Raison. Nela a razão submete-se à fé, a um catolicismo que não se nega a si mesmo nem se põe em causa. Ela é a única que sobrevive verdadeiramente na tormenta que atinge a família Raison. Só ela resistiu ao processo de aniquilação da família. Há no romance uma visão crepuscular da cultura ocidental, mas é preciso compreender que no crepúsculo existe ainda uma luz, embora ténue. Essa luz é Cécile.

Muitas leituras do romance apontam a existência, nesta obra de Houellebeca, de um princípio de esperança e que este se revelaria no amor entre Paul e a mulher, Prudence, um amor que esteve posto entre parêntesis durante 10 anos, mas que pouco antes de Paul saber do seu estado de saúde se reavivou e foi uma luz na vida dele. Contudo, esse amor não tem qualquer poder salvífico e é impotente para contrariar o destino de Paul. Se o romance é marcado por um princípio de esperança, este só poderá residir em Cécile, isto é, numa conexão entre fé e razão. Também neste romance de Houellebecq se pressente a influência de Joris-Karl Huysmans, o romancista do século XIX que começou no naturalismo, passou pelo decadentismo e acabou numa conversão ao cristianismo. A doença mortal que atinge, no romance, Paul Raison é a mesma que levou à morte Huysmans, uma espécie de sinal de reconhecimento de Houellebecq para com o escritor do século XIX. Raison não chega a dar o passo que deu Huysmans, embora, em certos momentos, o leitor fique com a ideia de que está próxima uma conversão. Contudo, o facto de Cécile ser a única Raison sobrevivente torna manifesto, de um modo claro, onde permanece ainda, para o autor, um sopro de esperança para o Ocidente e, em particular, para França. A salvação não se encontra nem nos delírios estéticos, nem numa razão de Estado que combine a segurança hobbesiana e o intervencionismo económico colbertista, mas nessa aliança entre fé e razão, que um dia deu vida ao Ocidente, mas que se lhe tornou completamente estranha com a vitória do liberalismo. Na verdade, um programa não muito diferente do de Joseph de Maistre.

domingo, 7 de agosto de 2022

Ensaio sobre a luz (94)

Lucien Clergue, Nu at Sam Wagstaff’s, New York, 1976

Nem sempre a luz acolhe a cintilação de um corpo. Nem sempre a nudez se entrega na clareira iluminada. Nem sempre os olhos encontram o objecto do seu desejo. Nem sempre a vida deixa a sombra e se entrega na transparência dos dias luminosos.

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Simulacros e simulações (36)

Berenice Abbott, Light through Prism, 1958-61

Os jogos de luz num prisma nunca deixam de ser um simulacro de uma operação mágica, talvez de um momento da obra alquímica. A realidade é de tal modo surpreendente que acaba sempre por suscitar na imaginação o desejo não apenas de a simular, mas de inventar uma outra realidade, ainda mais surpreendente.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

A Garrafa Vazia 97

Albert Bloch, Jordan, 1946

Em cada vigília tremo

ao beber o vinho

que me há-de derrotar.

 

Sobre a vertigem ergo

uma taça

de onde escorre o medo.

 

A vida é uma sombra

solitária

no coração da morte.

 

Agosto de 2022

 

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Degradação da linguagem e democracia


Foi no blogue Delito de Opinião (post de Pedro Correia, de 24/7/22) que encontrei a seguinte informação: Camões terá utilizados, em Os Lusíadas, 9160 palavras diferentes. Há um século, um português culto poderia conhecer cerca de 10 mil palavras. O léxico-padrão dos escritores actuais é metade disso e um português médio não domina mais de mil vocábulos. O autor da postagem conclui que a contínua compressão lexical empobrece o pensamento e torna-nos menos livres. A conclusão é verdadeira, mas não cobre as consequências que decorrem do empobrecimento vocabular que se assiste ao mesmo tempo que, paradoxalmente, sobe a escolaridade dos portugueses.

O filósofo John Searle chama a atenção, em Da Realidade Física à Realidade Humana, p. 240, para o seguinte facto: “O dinheiro, o governo, a propriedade e o casamento exigem todas a linguagem, mas a linguagem não exige qualquer uma delas”. Depois imagina duas situações. Na primeira, refere que se “um antropólogo volta da bacia amazónica e diz que estudou uma tribo que tem linguagem, mas que não tem dinheiro, propriedade privada ou governo, podemos aceitá-lo”. Essa aceitação não seria possível se ele afirmasse que esses seres humanos “têm sistemas bastantes elaborados de governo, de propriedade privada e dinheiro, mas não têm linguagem”. Uma afirmação absurda. Com isto, Searle demonstra que a linguagem é a instituição primária, da qual todas as outras dependem necessariamente.

No actual estado do mundo, parece haver uma correlação entre a afirmação dos populismos políticos e a compressão da linguagem dos cidadãos. Nas democracias liberais, tudo repousa na escolha feita pelos eleitores. Ora, se tanto as elites políticas como as pessoas comuns sofrem de uma linguagem pobre, então não será de admirar que os eleitores, perante os complexos problemas existentes, se deixem atrair pela linguagem estereotipada dos slogans e das frases feitas. A indigência da linguagem política significa, porém, muito mais que uma degradação estética do discurso.

A pobreza da linguagem política representa também uma corrupção das instituições democráticas. Estas assentam num complexo jogo de equilíbrios, o qual exige um apreciável domínio linguístico para ser entendido. Por exemplo, para se perceber coisas como a independências dos diversos poderes ou o facto de uma vitória eleitoral não dar aos vencedores todo o poder, mas antes um poder reduzido e vigiado. Quando se assiste a uma contínua erosão da linguagem, não podemos esperar senão que as instituições democráticas, que se fundam no discurso, se pervertam, abrindo o caminho que substituirá a palavra pela violência.

sábado, 30 de julho de 2022

Teixeira de Queirós, Os Noivos


O romance Os Noivos, de Teixeira de Queirós, foi publicado, originalmente, em 1879. A segunda edição, a de 1896, foi, segundo o autor, completamente refundida, sendo definitiva. Hoje em dia, exceptuando os iniciados na história da literatura portuguesa, ninguém conhece o autor. No entanto, desenvolveu uma importante obra literária no último quartel do século XIX e nas primeiras duas décadas do século XX. É um nome marcante do realismo naturalista português, tendo sido considerado por Óscar Lopes e António José Saraiva “o melhor realizador, em Portugal, do romance tal como o concebeu Balzac”. Os Noivos apresenta-se como um romance crítico, considerada a melhor forma literária para exprimir “a complicada vida moderna”. A obra é a primeira de um amplo conjunto de romances – oito ao todo – a que o autor deu o nome, de clara inspiração balzaquiana, de Comédia Burguesa. Tanto na edição de 1879 na de 1896, o romance é apresentado em dois volumes.

Há no título escolhido por Teixeira de Queirós uma aparente inconsistência com o próprio romance que acompanha a vida de casados de Arminda e Gustavo, os principais protagonistas desta Comédia Burguesa. Existe, contudo, nesta decisão uma avaliação dessa instituição social que é o casamento. No prólogo da edição de 1896, referindo-se às suas personagens, o autor escreve: Não eram bons, nem eram maus; mas não cumpriram com o seu dever como elementos sociais. Gozaram um fausto reles, e desuniram-se sem ódio. Nunca chegaram a conceber o que fossem virtudes com que se resistisse à adversidade; não tiveram abnegação, nem paciência, nem heroísmo na pobreza… tudo despreocupação e fatuidade. O romance mais do que uma crítica à instituição casamento é uma análise minuciosa dos motivos que conduzem à sua derrocada. O casamento é um dever social e não um mero direito dos indivíduos. Esse dever exige um conjunto de virtudes que provam a maturidade de mulher e homem que se empenham na sua realização. Um casamento exige capacidade de resistir à adversidade – na língua-de-pau do psicologês que invadiu a sociedade actual, dar-se-lhe-ia o nome de resiliência – exige abnegação, paciência e heroísmo, uma qualidade dos espíritos nobres. Tudo isto faltou na vida de casados de Arminda e Gustavo. Na verdade, nunca chegaram a ser, no pleno sentido da palavra, marido e mulher. Apesar de casados, não eram mais do que noivos incapazes de consumar um casamento, não no plano sexual, entenda-se, mas no plano da instituição social.

Há, em Os Noivos, duas linhas fundamentais que ajudam a compreender essa efectiva não consumação matrimonial. Por um lado, a desadequação de ambos à sua situação social e económica. Provenientes de uma pequena/média burguesia do funcionalismo, sem fortuna, eram tentados por uma vida de fausto que a sua realidade não suportava. Teixeira de Queirós faz um retrato desapiedado desses meios, daquilo que move homens e mulheres, tornando patente como, por exemplo, a inveja desencadeia comportamentos miméticos que levam à perda dos protagonistas. De certa maneira, muito antes de a dissolução do casamento se ter tornado uma banalidade, o autor faz um retrato preciso daquilo que está na base de um casamento destruído. Uma segunda linha de compreensão é a da influência de uma visão do mundo romântica. O amor romântico é agora alvo não de uma recepção apoteótica, mas objecto de uma crítica rigorosa. Isso torna-se patente durante a lua-de-mel do casal, passada em Sintra. Não apenas o romantismo do lugar é um sinal, como as sessões de leitura a que os noivos se entregavam e lhes enchiam a alma. Liam, melhor, Gustavo lia para Arminda o romance de Alphonse de Lamartine, Graziela, um dos expoentes do romantismo francês. A modelação dos sentimentos encontrava nesse romance a sua ideia reguladora. O facto de não ter contribuído, pelo contrário, para fortalecer a união dos dois é o sinal de que o autor considerava esse romantismo uma forma ideológica incapaz de produzir nos noivos a atitude virtuosa que lhes permitiria a levar a bom termo o compromisso que o casamento representaria à época.

Influenciado por Honoré de Balzac, Teixeira de Queirós empreende, com Os Noivos, um conjunto de estudos fisiológicos e sociais – A Comédia Burguesa – da classe actualmente dominante. Ele observa-a nas suas diversas manifestações. Desde o duro homem de negócios, passando por militares, por funcionários bem colocados e por pessoas que sendo burguesas pela sua condição de classe, não o são, como Gustavo e Arminda, pela fortuna, herdada ou adquirida. Em torno do drama conjugal, o autor mostra em acção essa gente que está já em fase adiantada de relegar a velha aristocracia – ainda reverenciada – para o lugar onde se coleccionam relíquias históricas. Não deixa de ser sintomático, porém, que o ciclo seja iniciado por um caso claro de fracasso, um fracasso de burgueses em consumarem não apenas o seu casamento, mas a sua própria condição social. Não será inútil, para uma interpretação do romance – e, porventura, de todo o ciclo – a distinção feita por Aristóteles entre tragédia e comédia. A tragédia imita a acção dos homens superiores, dos heróis; a comédia, a dos homens inferiores. Contudo, o filósofo acrescenta relativamente aos homens inferiores imitados na comédia: (imitação) não, todavia, quanto a toda a espécie de vícios, mas só quanto àquela parte do torpe que é ridículo. Gustavo e Arminda não eram bons nem maus. Não eram heróis e seres nobres. Eram apenas ridículos no modo como se relacionavam com a sua própria realidade.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Nocturnos 84

Thomas Joshua Cooper, Cabo de São Vicente (meia-noite), 1994

Noite e mar fundem-se numa pradaria de escuridão. Quem por eles entra enfrenta o dragão incendiado da loucura, onde os cheiros a mar se transmutam em trevas habitadas por anjos maléficos, também eles temerosos que o sol rasgue o horizonte e exponha à luz a amarga maldade que lhes nasce da solidão a que para sempre foram condenados.

terça-feira, 26 de julho de 2022

A Garrafa Vazia 96

Jesús de Perceval, Hasta que se aniquile, 1965

Garimpo a luz do dia

em busca

de prata ou ouro.

 

Encontro lama negra,

detritos,

pedras aguçadas

 

com que apedrejo

os sonhos

até o sangue escorrer

 

e a memória viva

se entregar

no porão da morte.

 

Julho de 2022

domingo, 24 de julho de 2022

Descrições fenomenológicas 68. Mulheres na praia

Pier Luigi Lavagnino, Estate, 1963

Uma das jovens mulheres, flectindo ligeiramente as longas pernas, inclinou-se sobre os pés. Soltava das fivelas as correias das sandálias, para que os pés, livres daquilo que os oprimia, pudessem enterrar-se ligeiramente na areia escura. A outra olhava o horizonte, na direcção de onde soprava o vento. O cabelo parecia querer fugir-lhe da cabeça e a toalha que segurava com ambas as mãos revolteava como se fosse uma bandeira açoitada pelo chicote da ventania. O sol trespassava a fina camada de nuvens e brilhava com uma luz esbranquiçada, anémica, incapaz de aquecer corpos e almas. Nenhuma delas trazia óculos escuros. O barulho do vento confundia-se com o rumorejo das ondas. Naqueles lugares, as águas do mar nunca são azuis ou verdes, mas cor de cinza, espalhando na paisagem uma melancolia difusa, uma tristeza que contrastava com o riso aberto e alegre daquelas mulheres, ainda tão novas. Tinham ambas a elegância do Norte, o corpo alongado, os seios nem pequenos nem grandes, como se aqueles corpos procurassem um equilíbrio, uma medida que lhes permitisse, em qualquer circunstância, evitar que a graça que deles emanava fosse posta em perigo. Condoído, o vento amainou por instantes, os cabelos delas repousaram sobre as cabeças, sem revoltear, sem insinuar fugir para longe dos corpos. Aproveitaram a condescendência dos elementos e estenderam as tolhas sobre a areia. Sentaram-se de imediato e tiraram as túnicas que as cobriam. Sobre o corpo, tinham um fato-de-banho preto, que lhes realçava a brancura da pele e lhes dava um ar sóbrio. O mar fora tomado por uma estranha placidez. As ondas formavam-se ainda longe da linha de rebentação, deslizavam lentamente e desfaziam-se como se estivessem exaustas, como se a energia lhes tivesse sido roubada. Não havia mais ninguém na praia. Elas deitaram-se nas toalhas. Falaram ainda alguns minutos. Palavras entrecortadas por um riso jovial, até que adormeceram. Um bando de gaivotas pousou não longe delas.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

A persistência da memória (16)

W. Eugene Smith, A Welsh town, 1950
Vinda de um passado remoto, a velha carroça atravessa-se diante de um carro que se dirige para o futuro. Puxada por um cavalo, roda com lentidão, como se ainda fosse possível deter o tempo, evitar que as coisas que povoaram a vida entrem no reino da obsolescência, desapareçam sem deixar vestígio no quotidiano e transponham a porta da triste categoria de objectos presos à reminiscência etnográfica.

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Ludmila Ulitskaya, Sonechka

O pequeno romance Sonechka, da escritora russa Liudmila Ulitskaya, foi publicado originalmente em 1992, na revista Novyi Mir (Novo Mundo). Como todas as boas obras de arte, esta abre-se a uma pluralidade de interpretações, que realçarão este ou aquele aspecto, organizando, a partir daí, uma estratégia hermenêutica para apropriação da obra. Aquela que se propõe aqui sublinha, como ponto fulcral do romance, a relação entre a vida e a literatura. Qual o lugar desta e como se relaciona com aquela? A ligação da protagonista – Sonechka (diminutivo russo de Sónia) – com a literatura – mais especificamente, a literatura russa – é o ponto fulcral deste primeiro romance de Ulitskaya.

Poder-se-á ler a narrativa a partir de uma perspectiva política, como uma denúncia do regime soviético. Poder-se-á sublinhar o questionamento do papel da mulher na sociedade russa. Poder-se-á, ainda, partir do confronto entre o espírito individualista do artista – o marido de Sonechka é um artista, um pintor – e a concepção soviética de arte subjugada ao estado, de arte ao serviço de uma causa que ocupou o poder político e se tornou uma perspectiva totalizante. Contudo, estes pontos – ainda que presentes no romance – são meramente instrumentais e não essenciais.

Liudmila Ulitskaya preocupa-se em contar uma história, melhor, em contar várias histórias que se entrelaçam, criando o enredo que conduz do ponto de partida, a situação em que se encontrava, no princípio, Sonechka e aquele aonde chegou, quando o romance acaba. A autora conta a história de Sonechka, mas também do seu marido, Robert Viktorovich, Tânia, a filha de ambos, e de Jasia, uma jovem polaca que acaba por se tornar amante de Robert e, ao mesmo tempo, protegida como uma filha por Sónia, que sentiu a vinda de Jasia como uma dádiva generosa do destino para a velhice do seu amado Robert.

Apesar de ser claramente uma autora pós-soviética, não foge, na concepção do romance, a uma estruturação dialéctica, talvez uma reminiscência de uma concepção do mundo proveniente da educação a que a juventude da URSS foi, durante décadas, submetida. Esta dialéctica da narrativa tem como primeiro momento a intensa relação da protagonista principal com a literatura russa. O segundo momento, o da negação do primeiro, acontece quando Sónia conhece, numa biblioteca onde trabalhava, Robert e casa com ele, constituindo uma família. O terceiro momento da dialéctica dá-se com a morte do marido, o que constitui a negação dessa negação e um retorno do primeiro momento, mas de modo completamente transformado.

A jovem Sonechka – movida por uma relação difícil com o corpo e a realidade envolvente – entrega-se a uma paixão devoradora pelos livros e pela literatura russa. As personagens dos grandes autores russos são, para ela, tão ou mais reais do que as pessoas com quem contacta. Para ela (Sonechka), o sofrimento de Natasha Rostova (personagem de Guerra e Paz, de Tolstói) à cabeceira do moribundo conde Andrei (idem) era tão autêntico como a dor lancinante da sua irmã mais velha, que perdera a filha de quatro anos por um descuido estúpido. Esta afirmação de si como grande leitora é feita por uma espécie de alienação, um estranhamento ao curso da realidade, uma imersão num universo simbólico e onírico, uma forma ligeira de loucura (reminiscência, por certo, desse leitor compulsivo de novelas de cavalaria conhecido como D. Quixote). É a partir desse lastro que consegue encontrar uma justificação e um sentido para a sua existência. O seu self constituiu-se pela absorção desse mundo de papel. Ali, ganhou elasticidade e capacidade de perceber a vida muito para além daquilo que poderia aspirar caso a paixão pela leitura não existisse.

O segundo momento dialéctico é o da vida real, com um inesperado amor, um casamento, uma filha e tudo o que isso supõe na Rússia da segunda guerra mundial e dos tempos que se lhe seguem. Este é um momento de negação daquela ligeira loucura que a levava a confundir a vida real e a ficcional. Esta negação, porém, não é uma aniquilação do self anteriormente construído no contacto com os livros, mas a oportunidade de o pôr à prova, de lhe dar carne no dia-a-dia. Sem esse self construído no mundo da ficção nunca teria casado com Robert Viktorovich, um artista plástico bem mais velho, que tivera grande êxito em Paris, mas que regressado à Rússia, acabou num campo de concentração. Esta negação dialéctica é uma reapropriação de si e um mergulho na torrente da existência, que a prepara para as peripécias que essa vida de casada lhe trará.

Quando o marido morre, dá-se a segunda negação, a negação dessa vida quotidiana e uma reafirmação do interesse pela literatura. Ela recusa sair da sua casa para se juntar, na Suíça, à sua filha Tânia, ou ir para Paris, para junto de Jasia, que para ela era como uma segunda filha. À noite, colocando uns óculos suíços no nariz em forma de pêra, ela mergulha nas profundezas doces, nas alamedas escuras, nas águas primaveris… Deste modo, Ulitskaya afirma a literatura como forma de dar um sentido final à existência. Não nega a vida, mas nega que esta tenha sentido fora da arte, que é esta, em última análise, que integra o heteróclito das vivências numa unidade da qual se pode contar uma história e, desse modo, retirá-la do sepulcro do esquecimento.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

A Garrafa Vazia 95

Jackson Pollock, Grayed Rainbow, 1953

A massa de sílica

turva-te

a linha do horizonte.


O puro quartzo,

montanha

diante dos olhos.


A tudo te curvas

e no cristal

descobres-te cego.


Logo, pegas na esponja

e bebes

o vinagre até ao fim.


Julho de 2022

sábado, 16 de julho de 2022

Os rankings e escolas públicas e privadas


Já com o calor de Julho saíram os rankings dos exames nacionais do ano anterior. Sempre que são publicados, geram uma árdua batalha entre os defensores da sua não publicação, argumentando que não se pode comparar o incomparável, e os que defendem que se deve tornar manifesto quais as escolas que tem mérito e aquelas que não o têm e, numa perspectiva liberal, argumentar sobre a superioridade do ensino privado sobre o ensino público.

A divulgação dos rankings é importante, pois é um indicador seguro da desigualdade social, dá-nos uma visão objectiva sobre quem tem mais oportunidades e quem tem menos, deixa-nos perceber quão longe a igualdade de oportunidades, a que todos os portugueses deveriam ter acesso. Existem múltiplos factores para explicar estas disparidades. Factores sociais, económicos, culturais. Factores ligados à organização e cultura das escolas.

O que raramente se tem em conta, como um factor diferenciador dos resultados entre o ensino público e o ensino privado, é o papel do Estado – através do Ministério da Educação – na promoção destas desigualdades. Se olharmos para algumas entrevistas a responsáveis dos colégios privados, perceberemos de imediato que estão concentrados numa única coisa: obter os melhores resultados possíveis nos exames nacionais. É para isso que estão organizados e é para isso que preparam desde muito cedo os seus alunos, eliminando tudo o que se torna obstáculo a esse objectivo.

À escola pública – e de forma mais acentuada desde que António Costa se tornou primeiro-ministro – são-lhe atribuídas tantas funções que a preparação dos seus alunos para exames é apenas mais uma e – no que parece ser o discurso ministerial – não das mais importantes. Com as actuais políticas educativas, acentuou-se o afastamento da escola pública em relação ao objectivo principal que anima os colégios privados: preparar os alunos para obterem grandes resultados nos exames nacionais e, desse modo, acederem aos cursos que lhes interessam.

Aquilo que seria importante estudar era o impacto das ideologias governativas no afastamento dos resultados entre escolas públicas e privadas. O Ministério da Educação acha que a escolarização da população está muito para além dos resultados obtidos em exame. Contudo, estes resultados são cruciais para o destino dos alunos. O que fará um pai que tenha disponibilidade económica e viva num lugar onde existam colégios privados que enxameiam os primeiros lugares dos rankings? Vai colocar o filho na escola pública? Todos sabem o que faria a maior parte dos pais.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Cadernos do esquecimento 47 Adicções

Chris Killip, Glue sniffers, Whitehaven, Cumbria, 1980

O peso da vida é de tal modo desmesurado que só através do recurso contumaz à adicção se torna possível viver. Gostamos, com a tendência com que somos educados para moralizar facilmente, de colocar a adicção no território das coisas malfazejas e que, para o bem de si e dos outros, convém evitar, custe o que custar. Esta técnica moral, todavia, esquece uma coisa. A existência de múltiplas adicções. Estas vão muito para lá das que são biológica e socialmente negativas. Há outras que, pelo contrário, são consideradas positivas, pois têm um efeito benéfico para o indivíduo ou para a sociedade. Condena-se o adicto ao jogo, mas não o que está viciado no trabalho. Condena-se o adicto a drogas ou ao álcool, mas não os que o estão ao desporto ou à comida saudável. A estas adicções, e são inumeráveis, dá-se o nome de hábitos, aos se atribui o qualificativo de bom. Oculta-se, todavia, a linha de continuidade que existe entre maus e bons hábitos, entre vícios e virtudes, entre más e boas adicções. Visam sempre um estado alterado de consciência que permita ao indivíduo suportar a existência. Para um animal dotado de pensamento, a vida só parece suportável se poder evitar enfrentá-la na sua crueza e nudez.

terça-feira, 12 de julho de 2022

Augusto Abelaira, A Cidade das Flores


Concluído em 1957 e publicado em 1959, o romance A Cidade das Flores é a primeira obra de Augusto Abelaira. A trama – melhor, as diversas tramas que compõem o discurso romanesco – desenrola-se em Florença, num período em que o regime fascista de Benito Mussolini estava consolidado e a Itália preparava-se para entrar na segunda guerra mundial. As personagens – jovens – pertencem à classe média de Florença e vivem o drama de uma consciência dilacerada perante a situação que o país vive, os seus valores morais e a sua impotência para agir. O autor terá deslocado o espaço romanesco para um lugar fora do território nacional para iludir a censura, naquilo que seria, também, um questionamento da situação portuguesa, do regime autoritário de Oliveira Salazar, e de uma geração de portugueses oposicionistas ao regime, provenientes da classe média, mas com um pathos muito diferente daquele que habita os protagonistas do romance neo-realista em voga desde a década de quarenta.

O que ocupa o espírito daqueles jovens não será tanto os problemas da igualdade e da justiça social, mas o da liberdade que lhes era negada. Esta questão orienta o romance para o problema das subjectividades, da sua construção e do confronto dessas subjectividades com o peso da realidade. São subjectividades questionadoras mais, muito mais, do que subjectividades actuantes ou militantes. Questionam-se sobre o sentido da vida, sobre o amor, sobre a acção política, sobre a moralidade e o dever fazer. Não têm certezas, mas dúvidas. Esta natureza das personagens conduz a uma situação paradoxal que está no centro do romance. Todos os protagonistas provêem de famílias burguesas, com conhecimento da arte, da literatura, da música erudita. Ora, o que marca a burguesia europeia – o terceiro estado – é o seu dinamismo, a iniciativa, o facto de terem elegido a acção para se afirmarem contra a aristocracia e, posteriormente, ocuparem o poder no mundo. Para compreender o romance não basta sublinhar a inércia dos resistentes, é necessário considerar o paradoxo central que atravessa os jovens burgueses. A tensão entre a acção (a não acção) e as preocupações morais e filosóficas que essas personagens encarnam. Essa tensão traz para o centro do romance o velho conflito entre a acção e a contemplação, entre a praxis e a theoria.

A solução que o romance de Abelaira oferece parece ser aquela que não agrada a ninguém, nem aos homens práticos, nem aos contemplativos. Naquele grupo de jovens, apenas um se engaja no combate político, vive na clandestinidade. O problema é que a sua acção é marcada por um terrível equívoco. Ao perpetrar um atentado contra um comboio, confunde aquele que transportava pessoas com o que transportava combustível para fornecer o exército nazi. Este facto não é uma mera peripécia na narrativa, mas um juízo cruel sobre o poder da acção na transformação do mundo, aproximando de forma perigosa um acto político e um acto meramente criminal. Por outro lado, os jovens contemplativos conduzem as suas existências a becos sem saída, como se tivessem absorvido um pathos ético que vem do spleen de Baudelaire, até à náusea de Sartre, passando pelo absurdo de Camus. Na economia romanesca, nenhum destes partidos – o da acção e o da contemplação – sai vitorioso.

Mais do que um libelo antifascista – ou anti-salazarista – o romance de Abelaira explora a situação extrema posta por um regime autoritário para testar a humanidade, os seus valores morais, a força das suas convicções e o poder das suas ilusões. Não toda a humanidade, mas aquela que se filia na tradição da subjectividade, da consciência de si, na afirmação do indivíduo. No fundo, é um questionamento daquilo a que se pode chamar a tradição liberal. Como é que os indivíduos que lhe pertencem podem lidar com situações de extrema opressão, como podem conjugar os seus valores morais e a realidade que lhes é adversa? Giovanni Fazio, a personagem principal do romance, tem uma solução. Escrever um romance utópico, precisamente A Cidade das Flores. Esta ideia nunca concretizada, apenas esboçada, permite, todavia, compreender uma outra questão, a denominada reterritorialização presente no romance.

Lisboa dos anos cinquenta, com o seu ambiente oposicionista, terá sido reterritorializada em Florença, dos finais dos anos trinta, um ardil para iludir os censores portugueses. Contudo a reterritorialização romanesca é mais do que um estratagema. É um momento de transição para a desterritorialização. Colocar a acção romanesca em Florença – numa Florença já inexistente – é um passo que ganha o seu sentido pleno no desígnio de Fazio de escrever uma utopia. Qualquer utopia é uma desterritorialização, um aniquilamento do espaço real em proveito de um não-espaço, de um não-território. Considera-se, muitas vezes, as utopias como uma abertura dos possíveis mais próprios da humanidade, mas não se atenta que elas são confissões da dificuldade – senão da impossibilidade – de lidar com esse território de que fazemos parte e dos caminhos que nele estão inscritos. O romance de Abelaira, marcado por um apuramento técnico e estético longe dos cânones do neo-realismo, coloca-nos nessa encruzilhada em que a grande tentação é não escolher qualquer caminho possível, mas desejar um território e um caminho que não existem e não poderão existir. Na verdade, é entregar-se a uma visão pessimista da acção e procurar um refúgio que sirva de colírio à alma dilacerada pelo conflito entre o real e o possível.

domingo, 10 de julho de 2022

A Garrafa Vazia 94

António Areal, sem título, 1962

Entrelaço palavras

nos fios da dor,

retrós de chumbo

no pescoço,

estilete de aço

abre o espírito

ao vómito,

à vil devastação.

 

Julho de 2022

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Meditações melancólicas (88) A origem da melancolia

Alois Wismeyer, Wolkenspiegelung, 1908

Por vezes, o jogo dos elementos - a água, o céu, as nuvens, as árvores, a terra e a luz - abre no peito uma inesperada melancolia. O espectador olha a paisagem e sente-a como um promessa, mas não sabe de quê, embora sinta, com uma certeza de que ignora a origem, que nunca será cumprida, que jamais chegará a hora em que o prometido se revelará na sua verdade. Pensa, então que toda a melancolia nasce desse sentimento em que se cruza uma esperança nebulosa e o saber da impossibilidade da sua realização.