quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

A essência da história

Goerge Seurat - Gray Weather

Que se suba até ao berço das nações, ou que se desça até aos nossos dias, que se examine os povos em todas as posições possíveis, desde o estado de barbárie até ao de civilização mais refinada, encontrar-se-á sempre a guerra. Por esta causa, que é a principal, e por todas aquelas que se lhe juntam, a efusão de sangue humano nunca está suspensa no universo: umas vezes ela é mais fraca sobre uma superfície maior, outras é mais forte numa superfície mais pequena, de maneira que ela é quase constante. Mas de tempos a tempos há acontecimentos extraordinários que a aumentam prodigiosamente, como as guerras púnicas, os triunviratos, as vitórias de César, a irrupção dos bárbaros, as cruzadas, as guerras religiosas, a sucessão de Espanha, a Revolução francesa, etc. Se houvesse uma tabela de massacres como há tabelas meteorológicas, quem sabe se não se descobriria, ao fim de alguns séculos de observação, a lei que os rege? [Joseph de Maistre, Considérations sur la France]


Para além de mostrar a essência da História universal, a guerra e a efusão de sangue humano, Maistre faz, meio ironicamente, uma curiosa sugestão. Construir tabelas de observação dos massacres em analogia com as tabelas feitas na meteorologia. Esta aproximação a uma certa cientificidade da História, feita em finais do século XVIII, é muito mais interessante do que a de Marx, feita posteriormente. Marx e Engels estavam fascinados pelo desenvolvimento da Física e da Química, e sonhavam com uma legalidade histórica idêntica àquela que determina os acontecimentos naturais. A irónica proposta de Maistre abre a História não à necessidade, presente nas leis da Física clássica de Newton, mas à probabilidade e à previsão, como acontece com a meteorologia. O que faz dele, epistemologicamente,  um contemporâneo. Um mistério, o facto de um reaccionário ser mais moderno do que os revolucionários posteriores. (averomundo 2009/10/14)

domingo, 14 de dezembro de 2014

Impressões (XII) - a quieta cor do dia

Diego Rivera - Casa sobre el puente (1909)

xii. a quieta cor do dia

a quieta cor do dia
desenha uma súbita
promessa de água

e nela ficamos presos
a sonhar gôndolas
onde as não há

nas paredes exaustas
a caliça anuncia
o charco do futuro

e nas janelas avista-se
um rasto de vida
o pássaro da morte

(14/10/2009 - recuperação do ciclo Impressões do meu antigo blogue averomundo)

sábado, 13 de dezembro de 2014

O anjo terrível

Edward Burne Jones - O anjo (1881)

Por causa do conto da minha vizinha da frente publicado na Egoísta, um conto rilkeano a ler pelo simples prazer da boa literatura, voltei às Elegias de Duíno, de Rainer Maria Rilke. Mais propriamente à primeira frase da segunda elegia, Todo o anjo é terrível, na tradução de Vasco Graça Moura. Que começo o desta segunda elegia, que estranha proposição esta que, inopinadamente, estabelece ligação entre aquilo que provoca terror e esses seres que aprendemos a ver cindidos entre os que foram arrastados pelo orgulho e aqueles que, benfazejos, olham por nós. Não, não são apenas os anjos caídos que são terríveis, são todos, como indica a proposição de Rilke.

Este começo, como todos os começos nascidos do artifício humano, é apenas um recomeço. Em vez de se continuar a leitura da segunda elegia, o melhor será voltar à primeira, à célebre elegia que começa deste modo Quem, se eu gritasse, me ouviria de entre as ordens / dos anjos? Aí somos instruídos sobre essa conexão entre anjos e terror. No sétimo verso, Rilke diz, quase como se fosse a conclusão de uma inferência poética, Ein jeder Engel ist schrecklich (Todo o anjo é terrível). O adjectivo schrecklich (terrível) envia-nos de imediato para a Schrecklichkeit, que pode ser traduzida por horror. Por esta meditação sobre a linguagem, aprendemos a natureza dos anjos, essas entidades terríveis que, pelo terror que transportam, causam em nós, pobres mortais, o horror.

Seria tentador, agora que falamos de terror e de horror, desviar o nosso caminho e demorarmo-nos na leitura que Walter Benjamin faz do desenho de Paul Klee, Angelus Novus (pode ser consultada aqui), como o anjo da história. Mas não é de história que quero falar. Voltemos à primeira elegia de Duíno: Pois o belo não é mais / do que o começo do terrível, que ainda mal suportamos, e deslumbra-nos assim, porque, imperturbado, / desdenha aniquilar-nos. Na origem do terrível e no fundo do nosso horror encontra-se a beleza. Rilke sublinha aqui a natureza misteriosa - produtora de espanto e de deslumbramento - daquilo que é belo, a sua imperturbabilidade, o seu desdém, a sua produtividade (poiesis) do terror e do horror. Talvez a arte do século XX tivesse, pela primeira vez na história, consciência deste terrível mistério e, assim consciente, tenha abandonado a beleza como a sua ideia reguladora. Compreendida como o motor do terrível e do horror, a beleza tornou-se-nos insuportável. Resta-nos, porém, saber se a eliminação da causa - a beleza - terá conduzido à eliminação do efeito - o terrível. 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Fazer crescer o medo


A tragédia política da Europa no século XXI nasceu da conversão dos partidos do arco da governação ao liberalismo mais radical. Antes disso, a direita era representada pela democracia-cristã e a esquerda pelo socialismo democrático ou social-democracia. Na verdade, não representavam soluções políticas muito diferentes. A democracia-cristã – pelo menos, a de inspiração católica – fundava-se na encíclica papal Rerum Novarum, de Leão XIII, e na doutrina social da Igreja, enquanto o socialismo democrático tinha os seus pilares nas lutas operárias do século XIX e na evolução da social-democracia de uma visão revolucionária anticapitalista para uma via reformista das sociedades capitalistas. O que ambas visavam era uma sociedade equilibrada, respeitadora da iniciativa privada, mas na qual as classes trabalhadores vissem reconhecidos os direitos sociais e a sua dignidade.

O que tornou eficiente estas governações, na produção de sociedades menos injustas, foi o medo. Raramente se pensa no contributo do medo para o desenho de posições políticas socialmente equilibradas e equitativas. O medo que assolou a democracia-cristã e o socialismo democrático foi o dos extremismos. À direita, as soluções nacionalistas, fascistas e nazis. À esquerda, a revolução comunista. O talento do centro-direita e do centro-esquerda, na época anterior à queda do muro de Berlim, foi perceber o valor intrínseco da liberdade e a necessidade de não deixar que soluções radicais, à direita e à esquerda, seduzissem o eleitorado. Esse talento, porém, desapareceu e, com ele, o sábio equilíbrio social que existia. Tal talento, contudo, não o esqueçamos, era movido pelo medo dos extremismos. O centro político, agora seduzido pelo dinheiro e sem ameaças no horizonte, perdeu o medo e a vergonha.

O que resta àqueles que, como eu, possuem posições moderadas e defendem sociedades socialmente justas e equilibradas? Resta-lhes um pacto com o diabo. Resta-lhes fazer crescer o medo. Isto significa fazer crescer eleitoralmente os partidos fora do arco da governação e do bloco central, os partidos que contestam o actual rumo da Europa e a desfaçatez que se instalou no poder. Para que a Europa volte à sensatez, para que os valores do equilíbrio e da moderação se tornem dominantes, é necessário um grande susto, é necessário que uma ameaça cresça e se torne credível. Sem este medo, os desequilíbrios sociais irão acentuar-se, as classes médias acabarão literalmente trucidadas, e a velha Europa será cada vez mais parecida com os piores cenários do terceiro mundo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Irrisão

Chegar à consciência da sua mais completa irrisão e continuar, pois nem isso serve de álibi.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Impressões (XI) - acolhemos o tempo

Pierre-August Renoir - Banks of the Seine at Champrosay (1876)

xi. acolhemos o tempo

acolhemos o tempo
a divina dádiva
e não vemos a garra
na água que corre
nem sabemos a cor
do sangue ao desaguar

se tomamos uma ponte
logo pensamos
que nos furtámos
ao fascínio do rio
mas as margens
devolvem-nos à viagem

(13/10/2009 - recuperação do ciclo Impressões do meu antigo blogue averomundo)

domingo, 7 de dezembro de 2014

O retorno e a imaginação

Jordi Pallarés - Delírio (1989)

Portugal estava (século no início do século XV), de facto, entalado entre o poderoso vizinho e o mar, confinado num espaço periférico, um finisterra não apenas em termos do Ocidente europeu, mas até da própria Península. Daí resultava o que chamámos o impasse ibérico do reino. À época, a única via possível para buscar um caminho próprio era o mar. E desde há muito que o mar ocupava um lugar de grande importância na vida do reino. A extensão da costa, a participação directa das populações do litoral em actividades marítimas como a pesca (em largas zonas da orla costeira), a extracção de sal (em Aveiro, no Baixo Mondego, no estuário do Tejo, no Sado) e até a familiarização com o vaivém de embarcações que faziam navegação de cabotagem ligando cidades e regiões costeiras (sendo esse, por vezes, o meio de transporte mais rápido e seguro), tudo concorria para uma relação de proximidade com os elementos marinhos, não só em termos físicos mas também ao nível das representações mentais. [Bernardo Vasconcelos e Sousa, (2009). "Idade Média", in Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, pp. 172]

Com o fecho do ciclo imperial, em 1974, Portugal volta a uma situação geopolítica idêntica àquela em que viveu até ao século XV, um finisterra europeu e ibérico. A diferença, porém, é que, com o fim da ideologia colonial e dos respectivos impérios, mesmo o mar deixou de ser caminho de saída para o impasse político do país. A partir de 1974, Portugal está perante si mesmo, dolorosamente só. O apelo à razão, isto é, à confrontação com o que somos efectivamente, porém, é substituído, por duas vezes, pelas operações da imaginação que sublimam a nossa situação. A primeira vez que a imaginação opera é nos próprios acontecimentos de 74 e anos seguintes, no denominado processo revolucionário em curso (PREC). A crença utópica numa sociedade socialista, fora do mundo ocidental, onde geográfica e culturalmente pertencemos, ocupou uma largo espaço imaginal nesses anos. Estamos ainda longe de poder compreender o efectivo significado colectivo dessa grande configuração imaginária dos anos setenta.

No entanto, para além de razões puramente fácticas – a longa ditadura, clivagens sociais humilhantes, etc. –, a figura imaginária da revolução surgiu como sublimação de duas feridas narcísicas insuportáveis. Em primeiro lugar, o país tornou-se efectivamente um pequeno país, reduzido a 90 mil km2 na península e a dois arquipélagos perdidos no mar e de dimensões irrelevantes. A história gloriosa e a pátria grandiosa reduziam-se a quase nada. O PREC foi um analgésico colectivo para a dor da perda. Isto dos dois lados da barricada.

Os que eram favoráveis a uma utópica continuação da guerra encontraram nos actores políticos da descolonização o bode expiatório, na figura da traição à pátria dos revolucionários de Abril, para o fim de uma política colonial sem saída. Mas aqueles que, dentro do PREC, tiveram de fazer a descolonização, ainda que ideologicamente favoráveis ao processo, encontraram no PREC um álibi para tranquilizar as consciências perante o que viria a seguir e para não pensar na nova situação do país reduzido à sua dimensão ibérica.

O PREC foi uma poderosa figura do imaginário colectivo que permitiu à direita e à esquerda, bem como à comunidade nacional no seu todo, evitar confrontarem-se com a realidade da nova situação e sublimar as dores que efectivamente o fim do império colonial trouxe para toda a sociedade. Um dos efeitos mais interessantes deste poderoso filtro da consciência foi a integração dos chamados retornados, portugueses que abandonam os novos países nascidos da descolonização. Por muito dolorosa que a partida de cada pessoa e família fosse individualmente sentida, por difícil que tenha sido sentida a integração por aqueles que retornaram a Portugal, a sua integração no todo nacional foi praticamente indolor.

Se a mitologia do PREC e da construção de uma sociedade socialista entra rapidamente em declínio, tornando-se obsoleta já nos finais da década de setenta, Portugal encontra uma nova mitologia, um novo trabalho imaginário que o vai dispensar de se confrontar com a sua realidade efectiva. A nova figura da imaginação portuguesa estava já pronta e era uma realidade bem racional na Europa. Essa figura é a CEE. A generalidade dos países que integram o projecto dos seis fazem-no racionalmente. Portugal fá-lo, porém, de uma forma imaginária. Seria interessante analisar os discursos dos vários protagonistas políticos no primeiro lustro dos anos oitenta. O inconsciente colectivo recebe a CEE como um novo espaço mítico que, por si mesmo, resolveria todos os nossos problemas. Seríamos europeus, coisa a que estávamos desabituados há cinco séculos, sem outra necessidade do que a da integração.

A triste história da integração, desde as narrativas delirantes do pelotão da frente até ao descalabro actual, passando pelo pântano, tornam evidente que a nossa integração nunca correspondeu a um trabalho da razão, mas à sedução proveniente das figuras da imaginação. A CEE serviu, para as habituais manobras de enriquecimento espúrio de alguns, para evitar a dor proveniente do confronto com a nossa pobreza ancestral, a falta de recursos, o desprezo pela inteligência, a fragilidade da população e egoísmo social das elites.

E tudo isto assenta de tal maneira em processos imaginários que o nosso elemento de referência, aquele que foi uma solução para a escassez endémica com que o país sempre se debateu, refiro-me ao mar, foi recalcado, esquecido, abandonado, fora do seu aproveitamento turístico. Com a adesão à CEE, a frota de pesca desapareceu. O que serviu a outros para racionalizar, a nós serviu para destruir, como se a relação com o mar não fosse mais do que um mero sonho. No século XV, o sonho levou-nos mar fora, para outras paragens. Hoje, o mar implica não a fuga, mas a razão, o trabalho, a diligência. Por isso o abandonámos, preferimos alugar camas e a servir refeições a quem passa por cá para olhar o mar com melancolia. (in averomundo, 2010/02/16)

PS. O texto acima data do início de 2010. De então para cá, poderá o leitor pensar, a questão do mar alterou-se. O que estava recalcado voltou de novo à consciência e à linguagem. Há muito que não se falava tanto do mar como desde que o país foi intervencionado pela troika. Representará isto uma reviravolta na mentalidade nacional? Se olharmos para o fundo dos discursos, de imediato se percebe que o mar é um sucedâneo – comprado em fim-de-estação – do PREC e da CEE. A liquidez das águas oceânicas apela à difusa fluidez dos sonhos. O mar está a tornar-se numa nova desculpa (ver esse mapa da extensão da plataforma continental  proposto  à ONU) que tem todos os ingredientes para sustentar o delírio de várias gerações.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A sombra de Salazar


A grandeza política do professor Salazar não se mede pelas suas políticas, mas pela sombra que projectou e que continua a assediar a vida nacional, mesmo em sítios inesperados. A mais persistente ilusão nacional é aquela que deriva da ideia de união nacional. Como se sabe, a revolução do 28 de Maio e a posterior ascensão ao poder de Oliveira Salazar assentaram na eliminação dos partidos políticos e na construção de uma suposta união agregadora de todos os homens de boa vontade, isto é, de todos os interesses que se reviam na nova situação. Supunha-se que a unidade nacional não suportaria a divergência, o conflito de opiniões e de interesses, a alternativa política. Supunha-se também que não haveria interesses divergentes e que todos perseguiam o bem comum, cada um no seu lugar social.

É evidente que este delírio do Estado Novo só pôde ser mantido com a cumplicidade das Forças Armadas, a função castradora da censura e a perseguição dos dissidentes por uma polícia política implacável. Assim que as Forças Armadas abandonaram o regime, este caiu sem que ninguém mexesse um dedo para o defender. A ficção da unidade nacional, contudo, projectou-se pelo regime democrático adentro sob a tenebrosa figura do bloco central. Cavaco Silva parece obcecado com a ideia de um entendimento entre partidos, e agora, são alguns socialistas, com Francisco Assis à cabeça, que arrancam os cabelos por António Costa ter dito que não faria coligações com este PSD. Mas, suspeita-se, o próprio António Costa poderá cair nos braços de Rui Rio, se este liderar o PSD, para assim formarem uma nova união nacional.

Uma vida política saudável não precisa de uniões nacionais. O consenso fundamental está no respeito pelas instituições e pela constituição. Necessita-se de regras muito firmes sobre a transparência das decisões e de projectos políticos verdadeiramente alternativos, que os cidadãos possam escolher. A ideia de união nacional é perigosa por dois motivos. Assenta numa percepção falsa da realidade. Uma percepção que diz que só há um caminho para resolver os problemas, o que além de falso é anulador da democracia. Em segundo lugar, essa ideia de unidade nacional – de bloco central – é a capa para todo o tipo de arbitrariedade e de corrupção, é a porta da nossa presente miséria. Se uma bloco central tácito, como tem existido nos últimos anos, conduziu o país ao lugar onde está, o que acontecerá se ele se tornar efectivo e governar? A sombra do professor Salazar continua a assediar os portugueses e com ela a miséria a que ele nos habituou e fez desejar, como se fosse uma virtude.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O triunfo da bastardia

Emil Hansen - Old King

Eis uma notícia reconfortante (aqui e aqui) para quem não partilha do embevecimento por cabeças coroadas e pelo direito que certas famílias possuem ao trono, devido ao seu pedigree, isto é, à pureza imaculada da árvore genealógica ou, pelo menos, à pureza do seu ramo viril. A análise do ADN veio revelar que entre os monarcas ingleses Eduardo III e o seu tetraneto Ricardo III houve, num qualquer momento, um espermatozóide espúrio que se introduziu à socapa no óvulo de uma rainha e por lá ficou a desenvolver-se até que um pequeno bastardo viu a luz do dia e se preparou, baseado no sangue real do presuntivo pai, para assumir a herança. Cogita-se que este pequeno acidente de percurso, tão corrente na vida dos homens, pode (portanto, é uma impossibilidade) pôr em causa as dinastias dos Tudor, dos Stuart e dos Windsor, isto é, pôr em causa a legitimidade com que assumiram e, no caso dos últimos, assumem o trono. Eu, um pobre republicano, estou maravilhado com os poderes da genética, não tanto porque ela se pode tornar uma terrível arma na caça às infidelidades, mas porque confirma aquilo que sempre se suspeitou, a impossibilidade de manter, por longas cadeias geracionais, um pedigree irrepreensível e à prova de qualquer suspeita. Não menos interessante é pensar que, segundo os códigos dos próprios defensores da monarquia, a generalidade destas careceu de efectiva legitimidade, apenas porque um espermatozóide secreto, ansioso e lânguido entrou por e para onde não devia.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Impressões (X) - as velhas árvores são

Claude Monet - Cap Martin, Near Menton (1884)

x. as velhas árvores são

as velhas árvores são
anjos reclinados
sobre as águas
sombras a pairar
na luz da madrugada

e se um deus nasce
o olhar perde-se
nos ramos exaustos
inclinados para poente
erguidos para a noite

(12/10/2009 - recuperação do ciclo Impressões do meu antigo blogue averomundo)

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Uma estranha nostalgia

Autor não identificado - Paysan chinois

Um dos fenómenos mais estranhos produzidos pela modernidade europeia é o da autonomia da arte. Serva da religião ou da majestade, a arte era uma actividade subsidiária que serviria para manifestar a glória do divino ou o poder do príncipe. O padrão que deveria guiar os fenómenos estéticos encontrava-se, em última análise, fora da própria arte. A partir do Renascimento, sob a designação de belas-artes e de belas-letras, dá-se uma lenta emancipação das actividades estéticas. Tudo isto vem a propósito de uma recente decisão do governo chinês. Vai enviar artistas, cineastas e produtores de televisão para o campo (ler no Público). Para quê? Para formarem uma ideia correcta do que é a arte, e assim criarem mais obras-primas e mais adequadas. Não é a primeira vez que tal coisa ocorre aos dirigentes do Partido Comunista Chinês. Mas não é a história política da China que me interessa, mas o significado desta atitude perante a arte. O padrão com que se deve produzir e avaliar uma obra de arte não reside na própria arte, mas é-lhe exterior, agora a vida simples dos campos. Isto significa uma perspectiva tradicional e pré-moderna, o que corrobora uma opinião que defendo há muito. O comunismo, apesar de conter elementos modernos e iluministas, representa uma reacção a essa mesma modernidade e ao próprio iluminismo, uma reacção fundada na nostalgia das sociedades tradicionais e dos seus valores arcaicos. A suposta pureza dos camponeses e da vida no campo não é diferente da glória do divino ou da majestade do príncipe. Aliás é o terceiro vértice do triângulo das sociedade tradicionais, onde encontramos o poder, o saber (onde se inclui a religião) e o povo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A infinita tagarelice

Edvard Munch - Jealousy (1895)

A ideia de esfera pública é uma das idealizações mais persistentes da nossa cultura social e política. Seria esse espaço onde os indivíduos - por certo, cidadãos - tomariam a palavra para, num processo de mútuo esclarecimento, fazerem as melhores escolhas, no quadro de um difícil equilíbrio entre o interesse privado e o bem comum. Esta cordata esfera pública, de ascendência iluminista, deveria ser pouco dada ao entusiasmo, para que a divina razão encontrasse, nos processos argumentativos, as melhores razões para suportar as decisões. O que na realidade nos coube em sorte foi uma imensa cacofonia, um ruído cada vez mais insuportável, um conjunto de dramas de faca e alguidar, tudo envolto numa tagarelice inútil, ofensiva e sem fim. Eu sei - e defendo-a - que a liberdade de expressão se manifesta também na possibilidade dos tagarelas não se calarem. Sabendo isso, sabemos também outra coisa, Sabemos que nada de essencial - por muita importância política, económica ou judicial que possa ter - se passa e se diz na esfera pública. A única dúvida que me resta é se a infinita tagarelice da esfera pública ofusca a palavra decisiva e fundamental ou se não há mesmo nada que valha a pena ser dito, e tudo se resuma a um exercício público de ciúmes pela posição do outro, seja esta real ou apenas potencial.

domingo, 30 de novembro de 2014

Para que serve?

Jorge Carreira Maia - Black & White Dreams (2014)

Ao cair da tarde, olhei pela janela e vi na escola aqui ao lado uma tira de luz brilhante, uma luz solar que dizia tudo é possível, ainda. O ainda grita dentro de mim e eu olho para o lado à procura da máquina fotográfica. Pego nela e viro-me. Tudo estava diferente. O ainda desaparecera na voragem do instante. A luz, agora baça e triste, uma luz de domingo à tarde, mesclada de sombras, transida de frio, negava a esperança de há pouco e sussurrava a inutilidade e a impossibilidade de tudo. Ensimesmado, o Sol declinou, escondeu-se para lá da serra e deixou que o tropel da noite poisasse diante de mim. Para que serve escrever tudo isto? Para que serve escrever seja o que for? Para quer serve?

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Conversa vazia

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Vivemos tempos conturbados e cheios de equívocos. Isso tolda a razão daqueles que deveriam ter um discernimento acima do senso comum. Não me refiro ao triste caso de Engenheiro Sócrates, o qual pertence a um mundo que já mostrou os frutos que tinha para dar. Refiro-me à visita do Papa Francisco ao Parlamento Europeu e ao protesto do eurodeputado da Frente de Esquerda e ex-candidato à presidência de França, Jean-Luc Mélenchon. Argumentou que, em nome da laicidade das instituições europeias, o Papa não tinha que discursar em Estrasburgo. Mélenchon e os seus apoiantes cometem dois erros. Um de princípio e outro estratégico.

Ao nível dos princípios, não se compreende como o discurso de um líder religioso afecte a laicidade das instituições. O Papa foi fazer catequese ao parlamento europeu? Foi obrigar os deputados a converterem-se? O Papa tem poder para anular a laicidade das instituições políticas europeias? O Papa quer acabar com a laicidade dos Estados? Todas estas questões têm uma resposta: não. A única coisa que subsiste no protesto de Mélenchon é o preconceito anticatólico, tão ao gosto de um certo republicanismo francês e de uma esquerda que vive presa a representações da religião próprias do século XIX. Este preconceito cega-o para o dever de acolhimento de alguém que, do ponto de vista religioso e social, é significativo para uma parte considerável dos cidadãos europeus.

Estrategicamente, ainda é mais incompreensível a atitude de Mélenchon. Num momento em que para a generalidade das pessoas a vida se tornou difícil senão mesmo um calvário, alienar a voz de um Papa, que se tem destacado por questionar e criticar os actuais caminhos da economia e da política, raia a irracionalidade. A voz de Francisco pode fazer muito mais pelos pobres, deserdados e até pelas classes médias em desagregação do que todos os sermões político-ideológicos a favor dos explorados e oprimidos.


O mundo mudou. Pessoas e instituições que ontem eram adversárias, senão inimigas, têm hoje, devido ao avanço avassalador das posições ultraliberais, mais pontos em comum do que de oposição. É evidente que o Papa não sonha com revoluções nem com a imposição de uma ditadura do proletariado. Como muitos moderados e como manda a doutrina social da Igreja, quer um mundo onde os pobres tenham oportunidades, onde haja mobilidade social, onde a vida de toda a gente seja decente. E isto é o mais importante. Para as pessoas é indiferente que esse mundo chegue pela mão de A ou de B. O importante é que venha. A esquerda deveria perceber isso, e deixar-se de conversa vazia e retórica do século XIX.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Da fonte de todo o desconsolo

Tiziano - Venus recreándose con el amor y la música (1548)

(...) de uma coisa estou certo: o ser humano tem uma necessidade de consolo impossível de satisfazer. (Stig Dagerman)

Para lá das múltiplas razões que Stig Dagerman aponta para essa necessidade de consolo (podem ser lidas aqui), há uma outra que entendo ser a fonte de todo o desconsolo. Não é propriamente a finitude de ser mortal, mas algo que está relacionado com isso. A impossibilidade de consolo deriva de eu me sentir sempre e já como órfão de mim próprio. A morte não é apenas o fim de um processo biológico ou do prazer de viver. Põem fim ao processo de recriação e invenção contínuas que faço de mim, no qual eu sou pai de mim mesmo, pois vou-me moldando sempre e sempre e, por esse acto poético, sendo continuamente outro. A impossibilidade de consolação nasce, deste modo, de eu saber a priori que o meu trabalho poético de auto-construção está destinado a ter um fim, a ser eternamente incompleto. O que me traz um desconsolo impossível de superar não é o desaparecimento previsível deste eu finito que sou, mas a impossibilidade de criar todos os eus que ainda não fui nem jamais virei a ser e que, no entanto, pressinto que na eternidade seriam possíveis.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Impressões (IX) - pede-se demasiado à vida

Pere Ysern Alié - Esbozo del cuadro La Bohemia (1901)

ix.pede-se demasiado à vida

pede-se demasiado à vida
a perfeição de um lugar
a sombra e o sol
o amor eterno
a luz de uma saudade

e ela oferece-nos
o banco de jardim
onde se desvanece
no fluir das estações
a face de quem passa
e a dor dos que esperam

(11/10/2009 - recuperação do ciclo Impressões do meu antigo blogue averomundo)

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O princípio de esperança

José Bellosillo - Esperanza (1982)

Tenho na memória uma citação avulsa de uma frase de Hegel ou atribuída a Hegel. Não consigo agora situá-la já no contexto da obra do filósofo alemão. A frase diz o seguinte: quando a Ideia muda a realidade não resiste. Não me vou prender à hermenêutica dos conceitos aqui usados. Prefiro olhar para a frase como um princípio de esperança. Toda esta conversa vem a propósito da tomada de posição de Wolfgang Münchau, um colunista conservador do Finantial Times. Apesar de conservador, Wolfgang Münchau reconhece que sobre o problema das dívidas soberanas quem tem razão é a esquerda radical. Diz mesmo que quem defenda que a Europa precisa de mais investimento público e de reestruturar a dívida deve votar em partidos como o Die Linke (Alemanha), Syriza (Grécia) e Podemos (Espanha). O que significará, digo eu, que em Portugal deverá votar no Bloco de Esquerda ou no Partido Comunista. 

Münchau refere que é uma tragédia que os partidos da Internacional Socialista, mal cheguem ao poder, se tornem respeitáveis. O que significará esta respeitabilidade? Significa alinhamento pelas posições neo-liberais e anti-keynesianas. O interessante, porém, reside no facto de os partidos daquilo a que chamamos esquerda radical serem, na verdade, partidos social-democratas, muito mais keynesianos do que marxistas. A esperança não reside neste apelo atípico ao voto nessa esquerda radical, mas no facto da ideia neoliberal estar a estilhaçar-se e a reemergir uma nova forma de conceber o papel do estado e da economia na sociedade. Essa nova forma não está apenas presente nessa esquerda radical, mas em amplos sectores da sociedade, assim como em parte importante da Igreja Católica, onde o actual Papa tem insistido (na visita de hoje ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo, voltou a insistir) na necessidade de alterar as políticas económicas, de forma a defender a sacralidade da pessoa. Lentamente, a visão do mundo ultra-liberal mostra-se na sua negatividade e uma nova visão pode - digo pode e não mais do que isso - erguer-se, de forma que a actual e triste realidade não resista.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O caso Sócrates e o decoro

J. G. Platzer - La venganza de Sansón

Talvez devesse falar da detenção de Sócrates e daquilo que se diz. Não gosto – e é dizer pouco – do personagem e não vou especular sobre um assunto, o dos eventuais crimes, que não é do meu foro. Só espero que, se ele for inocente, a justiça o reconheça e se penitencie do espectáculo que proporcionou. Se for culpado, que o puna segundo a lei. Espero mesmo, em caso de culpa, que a justiça seja mais misericordiosa do que Sócrates (com o aplauso de muitos que agora vitoriam a sua situação) o foi com mais de uma centena de milhares de professores, onde me incluo, a quem ele humilhou, maltratou, prejudicou e usou como bode expiatório de uma situação social e económica fruto dos devaneios, para não dizer outra coisa, dos políticos. Não canto vitória nem abri uma garrafa de champanhe pela sua detenção, como não o fiz aquando da recente condenação de Maria de Lurdes Rodrigues, sua cúmplice política no ataque aos professores. Em cada um de nós deve haver um sentido de decoro para com a infelicidade alheia, mesmo se ela é fruto das sua opções, dos seus delírios e dos seus eventuais crimes, mesmo se aquele a quem a infelicidade tocou nos é repugnante. Não devemos deixar que o mal e a humilhação que sentimos nos corroa a alma. Acredito que todos os homens, na intimidade da sua consciência, sabem distinguir o bem e o mal, mesmo quando mascaram este como se fosse um bem, e todos sabem que sentir felicidade pela desgraça alheia é, eticamente, tão reprovável como provocar a infelicidade dos outros. Foi isto que me foi ensinado e ainda não encontrei razão alguma para alterar a crença nesse ensinamento. A justiça não é o lugar da vingança, nem deve servir de consolação subjectiva aos que clamam vingança.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Da imoralidade dos costumes

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Depois do trambolhão do reino Espírito Santo, pouca coisa mais merecerá o nome de escândalo. A pequena história dos vistos gold é um escandalozinho de vão de escada, coisa de funcionários, perante a sucessiva queda de bancos e banqueiros, gente idolatrada pelo poder e reverenciada pela comunicação social. É evidente que a entrada na União Europeia e a chegada de muito dinheiro criou uma cultura facilitadora destes comportamentos. A coisa mais fácil – mas também a mais inútil – que o país pode fazer é ver nestes episódios apenas um trágico e continuado conluio entre o dinheiro e a política. É não perceber onde está a raiz da questão.

A revista do Público de domingo passado trazia um trabalho, O Estado da Meritocracia em Portugal, que merece ser lido, pois ajuda-nos a compreender o chão de onde brotam os grandes problemas que afligem a sociedade portuguesa. O artigo só espantará os muito distraídos. O mais interessante é que torna evidente que não existe diferença de comportamento entre as instituições públicas e as empresas privadas. Mostra que o mérito dos indivíduos não é premiado em Portugal. Mesmo nas empresas privadas vale mais um incompetente com uma boa cunha do que alguém de qualidade, mas sem pedigree. A questão é mesmo mais grave. Ser competente pode ser um risco para a carreira de uma pessoa. Em geral, embora existam excepções, nas instituições públicas ou nas empresas privadas, a incompetência promove-se e é promovida. Esta cultura, velha de séculos, explica muito bem o nosso atraso. Mas explica mais do que isso.


Explica as teias de cumplicidade que brotam nos lugares de decisão, nos lugares onde o dinheiro aflui, nos lugares onde o país escreve o seu destino. Este jogo de famílias que se conhecem desde há muito é o território ideal para que pequenos, médios e grandes escândalos financeiros surjam. A cumplicidade – que a expressão popular uma mão lava a outra tão bem traduz – faz nascer um poderoso sentimento de impunidade. Nos lugares de topo, as pessoas conhecem-se, devem-se favores mutuamente, uma mão lava a outra, e tudo parece fácil e, mais do que isso, parece ser um direito adquirido, fundado em antigas alianças, treinadas a comprar a cumplicidade da política e o silêncio da justiça. Toda a nossa sociedade está organizada de forma a que o mérito singular seja punido e um certo tipo de crime seja não apenas permitido como admirado. Portugal é, como diz o Público, uma república da cunha, do nepotismo e do amiguismo. Depois, admiram-se da imoralidade dos costumes em vigor na pátria.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O fascínio do mal


A notícia do Público refere a presença, entre os carrascos do Estado Islâmico, de um jovem luso-descendente. Há outros ocidentais, mas a fotografia possui mais do que um mero valor noticioso. Ela mostra a natureza dos homens e aquilo que são capazes de fazer em nome da ideologia (seja política, religiosa ou outra). Se o século XX teimou em desmentir a ideia de progresso moral da humanidade, o século XXI continua, com afinco, esse desmentido. Podemos perguntar sempre o que leva um jovem ocidental a abraçar causas que lhe são estranhas. Haverá respostas de índole psicológica, sociológica ou mesmo política. Mas há uma pergunta mais fundamental, aquela que nos envia para o mysterium iniquitatis: porquê este fascínio pelo mal? Olho para esta fotografia e é a única coisa que me ocorre, o mistério do fascínio que o mal exerce na alma dos homens.