Há muita gente distraída. No entanto, seria bom que se tivesse atenção às posições do Vaticano em todas as matérias, nomeadamente as que dizem respeito às questões económicas e sociais. A posição relativamente à questão da água é clara, distinta e bastante pertinente. Não é apenas a oposição à privatização da água, mas também a da taxa sobre as transacções financeiras, uma medida há muito defendida pela Igreja Católica. Esta representa, no mundo conturbado em que vivemos, um princípio de sensatez social e política. Seria útil que fosse escutada, à esquerda e à direita. Ainda mais num país católico.
segunda-feira, 12 de março de 2012
Orlando Ribeiro, na Biblioteca Municipal
Até 31 de Março, na Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes (Torres Novas), a exposição Ponto de Partida, Lugar de Encontro tem por objecto dar a figura e acção do geógrafo Orlando Ribeiro, uma das mais destacadas figuras intelectuais do século XX português. Para quem se interessa não apenas pela Geografia mas pela vida do espírito em geral é uma oportunidade para descobrir Orlando Ribeiro. Do ponto de vista da História da Ciência em Portugal, a sua figura tem um interesse particular. É o pai da escola portuguesa de Geografia. Note-se, contudo, que a sua influência intelectual vai muito para além da sua área disciplinar.
Os fantasmas da História
Politicamente, Cavaco sempre foi assim. Esta sua atitude perante Sócrates é apenas mais um acto de um longo caminho marcado pela coerência. Para Cavaco, nunca houve outra coisa senão os seus interesses políticos, os quais passam pela glorificação da sua pessoa. Os interesses do país sempre foram lidos através do processo das suas várias reeleições. O exercício de um ego inflacionado é normal nas classes políticas, faz parte das condições de possibilidade para se entregarem ao jogo. No entanto, há uns que disfarçam melhor que outros. Cavaco é dos que tem imensa dificuldade em disfarçar. Hoje em dia, ele deve viver um drama angustiante. Está na recta final da sua vida política, e começa a ser visto por sectores cada vez mais amplos como o pai e primeiro obreiro da desgraça a que se chegou. Nada pior para um actor político que a sombra do juízo da História. Este pequeno episódio da vingança prefacial conta o derrotado Sócrates não é outra coisa senão os fantasmas da história a atormentarem o sono do Presidente da República. Seja como for, aquilo que Marcelo diz ouve-se, mas não se escreve. Desde quando um prefácio a uma colectânea inócua de discursos é motivo para minimizar o que a constituição consagra? Estou mais de acordo com Medeiros Ferreira, Passos Coelho que se cuide com o posfácio.
domingo, 11 de março de 2012
Isto é um insulto
Não aguento mais! Prevêem-se temperaturas de 30º a partir de 4.ª feira. Quero o Inverno que me foi roubado. Quero chuva, água, dias cinzentos. Todos temos direito à melancolia, todos temos direito a ficar irritados com a chuva. Mas que ideia foi esta do S. Pedro? Não lhe chega já o Verão? Agora quer o Verão o ano inteiro? Se o Verão fosse quando um homem quiser, por mim nunca haveria Verão. Longas Primaveras exuberantes, mas frescas; Outonos prolongados. E Invernos com chuva. Estou farto de me levantar e ser insultado por um sol radioso. Quero penumbra, silêncio e mistério. O calor é um insulto à vontade. Se isto continua assim, vamos enlouquecer. Ninguém faz a dança da chuva? Onde estão as procissões? Isto é uma questão de saúde mental pública. Onde está o governo? Se há excesso de Estações, como de feriados, que se corte o Verão. Passos, Gaspar, sejam lá competentes uma vez na vida.
11 de Março de 1975 - a cegueira na história
Fazendo jus ao nome, o Entre as Brumas da Memória recordou o dia 11 de Março de 1975. Passaram 37 anos do acontecimento, mas ele permanece como uma sombra difusa sobre a vida colectiva. O importante do 11 de Março não é aquilo que a capa do Diário de Lisboa mostra, a fuga do general Spínola e de outros dirigentes do presuntivo golpe militar, nem a prisão de oficiais revoltosos ou as palavras de Vasco Gonçalves. O importante, como salienta Joana Lopes, foi o pós 14 de Março com a instituição do Conselho da Revolução e a nacionalização da banca e dos seguros, o que trouxe, por arrasto, parte substancial da economia para as mãos do Estado. Sobre o acontecimento há ainda alguns aspectos que merecem ser pensados e que dão que pensar acerca da nossa cegueira.
Em primeiro lugar, o trágico da acção. A questão colonial era um factor fracturante nas elites políticas da época. Não apenas os defensores do regime caído a 25 de Abril de 1974, mas também alguns sectores aderentes à transição de regime opunham-se ao processo de independência da ex-colónias portuguesas. O medo vai ter um papel crucial em tudo o que vai acontecer. O medo das independências vai lançar um sector do país contra as transformações políticas em curso. O mesmo medo, agora da outra parte, vai conduzir não apenas à criação do Conselho da Revolução - um órgão que vai tutelar à transição à democracia, como se fosse possível uma democracia sob tutela militar - mas também às nacionalizações e à estatização de parte substancial da economia. Como sempre acontece, os agentes estavam cegos para o futuro. Aqueles que acompanharam Spínola não perceberam que a aposta era demasiado alta e, ao perderem, iriam perder muito mais que as colónias em jogo. Aqueles que apoiaram as nacionalizações, e foram muitos, mais ou menos entusiasmados, da esquerda à direita, não compreenderam que estavam perante um dos principais problemas com que o país se ia defrontar. O medo da reacção criou a necessidade de cortar as bases económicas de uma contra-revolução. Ambos os medos eram reais, quero dizer, as pessoas sentiam-nos, efectivamente. No entanto, nunca saberemos se eles, de facto, correspondiam a alguma coisa em concreto. Nunca saberemos se poderia ter havido outra forma de tratar o problema colonial, nunca saberemos se a democracia teria caído sem as nacionalizações. É a cegueira dos actores que compõe a tragédia da acção, e a História talvez não seja outra coisa do que o resultado cego de agentes cegos.
Em segundo lugar, é preciso notar que, de um ponto de vista histórico e de reflexão sobre a história, a questão da culpa é irrelevante. A culpa é uma noção moral que as partes envolvidas na acção usam como arma de arremesso contra o adversário ou o inimigo. A culpabilização é um sintoma da pulsão para aniquilar o outro. Isto serve para todas as partes envolvidas. Há, contudo, um exercício que pode ser objecto de trabalho empírico. Trata-se das consequências das decisões tomadas. Mas também sobre estas há duas perspectivas. Uma fundamentalmente descritiva. A descrição das cadeias de acontecimentos históricos. O passar do tempo liberta-nos da cegueira, pois o futuro revelou-se ao transitar para passado. A outra perspectiva seria a de um juízo sobre o rumo dos acontecimentos posteriores ao 11 de Março. O problema, porém, é o da ausência de um critério para os julgar. Nenhum juiz verdadeiramente isento poderá dizer que a opção tomada foi a melhor ou a pior, pois não tem um padrão neutro que lhe permita avaliar os acontecimentos. Aqui revela-se uma outra cegueira. A cegueira da História enquanto disciplina. Ou a História se limita a descrever ou narrar os acontecimentos e é cega para os avaliar, ou a História avalia os acontecimentos que narra e é cega pelo brilho ideológico que toma como padrão.
Em terceiro lugar, o 11 de Março de 1975 revela uma coisa muito interessante e muito importante para compreender os dias de hoje. Trata-se da força das ideias. O apoio às nacionalizações vai da extrema-esquerda ao PPD (o partido de Sá Carneiro). Mesmo que certos apoios como os de Soares e de Sá Carneiro tenham sido meramente tácticos, o que está em jogo é o prestígio na época das ideias socializadoras da economia. Da esquerda à direita não havia ninguém que não fosse socialista. Mesmo a direita estruturada em torno do CDS de Freitas do Amaral era democrata-cristã, i. e., reivindicavada a doutrina social da Igreja. Talvez a força motora das nacionalizações não tenha sido o golpe do 11 de Março, mas o medo de retorno ao antigo regime aliado à forte cotação no mercado político da época das ideias socialistas. Hoje assistimos a algo de muito semelhante, embora de sinal contrário. As ideias liberais ganharam enorme força e, como em 1975 acontecia com o socialismo, parecem hoje uma evidência que decorre da simples natureza das coisas. Mas mais uma vez, a cegueira toma conta de todos nós. A força das ideias reside na capacidade de brilharem. Ora como todos nós sabemos, aquilo que mais brilha é o que mais nos ofusca. As ideias socialistas ofuscaram-nos em 1975, hoje são as ideias liberais que o fazem.
Poema 29 - Sou apenas a minha solidão
Sou apenas a
minha solidão,
Um resto que
ficou do jantar,
Exercício de
piedade
De quem não
deita comida fora,
Por respeito
a quem morre de fome.
Sou apenas a
minha ruína,
A janela de
vidros partidos,
A caliça a
cair das paredes,
Os móveis
afundados no soalho,
Quebrados
pelo peso do pó.
Sou apenas a
minha morte,
Sombra que
irrompe na madrugada,
Abre as
flores do jardim,
Avança
tranquila no caminho;
A vitória, no
fim da viagem.
sábado, 10 de março de 2012
Kant e a justificação moral do liberalismo
Graças, pois, à Natureza pela incompatibilidade, pela vaidade invejosamente emuladora, pela ânsia insaciável de posses ou também do mandar! Sem elas, todas as excelentes disposições naturais da humanidade dormitariam eternamente sem desabrochar. O homem quer concórdia; mas a natureza sabe melhor o que é bom para a sua espécie, e quer discórdia. Ele quer viver comodamente e na satisfação; a natureza, porém, quer que ele saia da indolência e da satisfação ociosa, que mergulhe no trabalho e nas contrariedades para, em contrapartida, encontrar também os meios de se livrar com sagacidade daquela situação. Os motivos naturais, as fontes da insociabilidade e da resistência geral, de que brotam tantos males, mas que impelem também, no entanto, repetidamente a novas tensões das forças, por conseguinte, a novos desenvolvimentos das disposições naturais, revelam de igual modo o ordenamento de um sábio criador; e não, por exemplo, a mão de um espírito mau, que, por inveja, tenha estragado ou danificado a sua obra magnificente. (Kant (1784), Ideia de uma história universal com um propósito cosmopolita, 4.ª proposição)
Esta é uma das fundamentações mais interessantes do liberalismo alguma vez escritas. Kant valoriza, tendo em vista o progresso da humanidade na realização das suas disposições naturais, não a propensão sociável que há em nós, mas as qualidades insociáveis. A incompatibilidade e a resistência aos outros, a vaidade e a inveja, o desejo de poder ou a riqueza. Aqui está pensada a condição de possibilidade do mercado. O mercado é o lugar de troca, mas só existe mercado se os homens se orientarem pelas suas tendências insociáveis e egoístas. Kant, sem se referir ao mercado, acaba por legitimá-lo moralmente. Como? Como lugar de regulação do produto das ambições humanas, como o lugar onde estas adquirem um valor moral resultante da emulação dos concorrentes. O mercado é o lugar onde a discórdia natural dos homens (aquela que a sábia natureza deseja que entre nós exista) substitui a guerra e a violência pela troca de produtos e bens, uma troca, em última análise, fundada no contrato.
Esta discórdia entre os homens que os conduz à emulação tem um outro valor moral. Ela conduz a que os homens saiam da indolência e do ócio, que desenvolvam a sua sagacidade, que façam emergir as disposições naturais que residem no fundo de si mesmos. Contrariamente a uma certa visão cristã (preferencialmente, católica) e/ou socialista que vêem no egoísmo o mal, Kant vê no exercício do egoísmo, melhor, na concorrência entre egoísmos que se limitam entre-si um valor moral. Este valor moral não diz respeito, no entanto, ao indivíduo, mas à espécie tomada como um todo. A subtileza do pensamento kantiano põe em tensão dois aspectos da vida moral. Por um lado, do ponto de vista estritamente moral, cada um deve agir segundo o puro dever, agir em contradição com as suas tendências egoístas. Por outro, olhando a espécie humana de uma perspectiva geral e histórica, essas tendências egoístas, dentro de certos limites estabelecidos pelo direito numa sociedade civil, são factor de progresso moral da humanidade devido ao desenvolvimento progressivo, pela emulação e concorrência, das óptimas disposições naturais que dormem dentro da nós. As tendências egoístas são a revelação de um sábio ordenamento da natureza.
Sem uma leitura muito profunda da filosofia de Kant - o grande pensador da Aufklärung - não é possível compreender nem o liberalismo clássico nem as suas variantes actuais, o ordoliberalismo alemão e o neoliberalismo americano. Isto significa, antes de mais, um esforço para compreender os valores morais que estão na base do liberalismo. São estes valores morais que o justificam e o legitimam. Veja-se o discurso moralista do actual governo. Sem o saberem, os actuais governantes acabam por reproduzir um certo kantismo. As consequências parecem-me claras. Não basta reclamar contra a maldade visceral inerente aos mercados ou às ideias liberais. É preciso avaliá-las. Para tal, não basta partir de preconceitos ideológicos ou denunciar os preconceitos ideológicos inerentes ao liberalismo e à defesa dos mercados. É preciso compreender o princípio moral e a vida ética subjacentes ao liberalismo. É preciso compreender o significado daquilo a que poderia chamar o heraclitianismo de Kant.
sexta-feira, 9 de março de 2012
Razão hormonal
Possuo uma razão hormonal. Quando era novo, ansiava a revolução, um
grande orgasmo colectivo, certamente na sequência de um dionisíaco gang bang, um exercício de destruição,
para que a razão, triunfante na balbúrdia dos corpos esmagados, trouxesse um
radioso clarear da madrugada. Durou pouco essa atracção pelo colectivo e pelas
infelizes metáforas (de facto, verdadeiras catacreses) que a sua adoração
impunha. Com o decorrer do tempo, tornei-me conservador. O vigor hormonal
ia sendo outro e o exercício da memória crescia como uma sombra ao entardecer. Ser
conservador é um acto de piedade para com o passado, uma forma de ser beato sem
ir à missa, nem ter que confessar os pobres pecadilhos em que a vida nos
enrola.
O desejo do futuro, comandado por Eros,
ou o amor pelo passado, uma infusão de Agaph,
não passam – em mim, é bom nunca generalizar – de variações químicas provocadas
pelo desconcerto hormonal. O meu problema – e o da minha razão hormonal – é que
descobri agora, certamente por desatenção anterior, que a realidade não se
compadece com o ritmo e o equilíbrio das minhas hormonas. Conserva e muda
conforme lhe apetece, segundo ritmos hormonais próprios e inescrutáveis. A minha vontade de rasgar o futuro ou de solidificar o
passado não passa de uma presunção irracional de um idiota que, como todos os
idiotas, se tem em demasiada boa conta.
Poema 28 - A súbita claridade da manhã
A súbita
claridade da manhã,
O ócio de um
sol impenitente,
Os dias
seguindo-se aos dias,
Essa
alucinação vinda da infância.
A dança do
teu coração vem,
Rumor de cinza,
sombra de orvalho,
O desejo de
morrer nos dias
Em que o sol
te lembra os meus braços.
Nas ruas
fermenta a solidão,
As árvores
lêvedas inclinam-se
E rasgam
avenidas de sombra.
Esperam que
a manhã desagúe
No mar
imenso das tuas mãos,
Suadas, água
e ânsia nocturnas.
Forças Armadas
A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.
O general Ramalho Eanes, em entrevista à Antena 1, toca num dos
aspectos mais sensíveis da área da governação, as Forças Armadas. O antigo
Presidente da República sublinha que o país tem de definir se quer ter ou não
Forças Armadas, e se sim para quê. A questão centra-se no problema do
financiamento. O tema é dos que suscita mais ressentimento e um dos que se
presta a equívocos absurdos.
Só por leviandade se pode pensar que Portugal pode viver sem Forças
Armadas. Um dos argumentos contra a existência das Forças Armadas centra-se no
facto de Portugal estar na União Europeia e de não possuir inimigos; mesmo as
antigas pretensões anexionistas espanholas teriam passado à história. Tudo isto
é verdade, mas não justifica a tese do fim das Forças Armadas.
Em primeiro lugar, a própria União Europeia está a ser atravessada por
convulsões que podem conduzir à ruptura e à divisão. A partir desse momento uma
nova guerra intra-europeia ou anti-europeia torna-se possível, se não mesmo
provável. Vão longe os dias em que a União Europeia era um lugar de paz e
estabilidade. Hoje tornou-se um palco de afirmação de pequenas potências, como
a Alemanha, que ainda acalentam pretensões – ilusórias, claro – a ter uma papel
decisivo na geoestratégia global.
Em segundo lugar, Portugal não tem apenas uma fronteira com Espanha.
Tem uma outra com o mundo muçulmano. Neste momento são boas as relações de
Portugal com o norte de África, mas não sabemos durante quanto tempo isso
continuará a ser possível. Nada garante que em Marrocos ou na Argélia a
situação política não se deteriore e não surjam regimes políticos extremistas
que tenham pretensões de destabilizar a Península Ibérica. Há movimentos no
mundo muçulmano que reivindicam a Península Ibérica como território islâmico.
Hoje são minoritários, mas a História muda.
Em terceiro lugar, nada garante que as actuais relações com Espanha se
mantenham. Uma desintegração da União Europeia conjugada com movimentos
nacionalistas no País Basco, Catalunha e Galiza pode criar condições para que,
em Castela – parece ridículo, mas a História é o que é –, despontem movimentos
anexionistas e a ideia de uma grande Ibéria sob a batuta do exército espanhol. Em História, o que é hoje verdade pode não o
ser amanhã.
As Forças Armadas são uma instituição fundamental para Portugal. Para
tal, é necessário que estejam integradas em sistemas de defesa colectivos, como
a NATO, e que o país faça o esforço económico que isso impõe. Não brinquemos
com coisas sérias, a crise não justifica todos os disparates.
quinta-feira, 8 de março de 2012
A partícula de Deus e o financiamento
O bosão de Higgs é, por enquanto, uma mera ideia teórica, derivada da necessidade, segundo o modelo padrão da física de partículas, da existência de uma partícula que desse massa às outras. Parece que, como noticia o Público, começa a tomar corpo a possibilidade de demonstrar empiricamente a sua existência. Os mais recentes indícios provêm dos EUA, do acelerador de partículas Tevatron. O que me interessa na notícia, mais que o indício da existência da partícula de Deus, é a informação, que já não é nova, do encerramento em Setembro passado do Tevatron, por falta de verbas.
O problema não está apenas no facto de a investigação pura, sem fins comerciais aparentes, poder ser demasiado cara. Está no desinteresse que este tipo de investigação pode ter aos olhos do poder político e de outras entidades financiadoras. A crescente avaliação do saber pela sua rentabilidade económica pode vir a pôr em causa aquilo que se tornou o eixo central do Ocidente, o interesse pelo conhecimento teórico da realidade. Ora este interesse pelo conhecimento puro constitui uma das disposições essenciais da racionalidade humana. Não se trata de mera curiosidade ou uma ocupação para mentes brilhantes e ociosas. Neste tipo de investigação realiza-se ainda uma parte do destino humano. Financiá-lo de forma racional é um imperativo que deve sobrepor-se a outros imperativos de ordem meramente económica. Esta atitude americana, consubstanciada no fecho do Tevatron, é indício de quê?
Carson McCullers, A Balada do Café Triste
As metamorfoses do Self (Si-mesmo), talvez toda a literatura não trate de outra questão, talvez a única coisa que esteja em jogo nas narrativas seja a tentativa de capturar uma identidade. Foi Milan Kundera, salvo erro, que fez o curto-circuito que mostrou, no âmbito da cultura europeia, a existência de dois projectos, praticamente contemporâneos, de processamento da identidade. Por um lado, aquele que se estriba no cogito cartesiano, onde a subjectividade se mostra como fundamento de todo o conhecimento, mas uma subjectividade puramente racional, de carácter pontual e vazia. O sujeito cartesiano, na ânsia da evidência racional, despe-se de toda a biografia e resume-se a uma razão pura. Por outro, o D. Quixote, de Miguel de Cervantes, onde o Self (no caso, o de D. Quixote) se entrega a todos os desvarios e equívocos, mas são estes que permitem preencher uma identidade, uma identidade que se transforma ao longo da narrativa.
A Balada do Café Triste, da escritora norte-americana Carson McCullers (1917-1967), é mais um episódio, como o de qualquer narrativa literária do Ocidente moderno, dessa longa tradição escorada, em última análise e apesar das múltiplas formas que tem tomado, no Quixote. A narrativa pode resumir-se como uma investigação sobre o modo como o amor e a traição desencadeiam as metamorfoses do Self da personagem principal do texto, Miss Amelia Evans. Metamorfoses estas que são acompanhadas e observadas pelos habitantes da pequena povoação do Sul dos EUA, onde decorre a acção. A população funciona praticamente como o coro da tragédia grega, pautando a acção e comentando o desenrolar dos acontecimentos.
O carácter solitário, rude, avarento e belicoso de Miss Amelia, a mulher mais rica da zona, é subitamente adoçado pela chegada de um nebuloso primo - parentesco nunca verdadeiramente confirmado -, o primo Lymon, um corcunda frágil, pequeno e insinuante, de espírito empreendedor. Para espanto da população, Miss Amelia não só não contestou as pretensões de parentesco de Lymon, como o recebeu em sua casa. A partir desse momento, a sua disposição de espírito torna-se mais suave e alegre, como se a chegada daquele corcunda tivesse o efeito de revelar a Miss Amelia uma parte de si que até aí todos desconheciam, inclusive ela própria. O resultado dessa metamorfose, provocada pelo amor, é a abertura do Café, um estabelecimento animado pela presença de Lymon e onde a população encontrou, ao contrário do que diz o título do conto, um lugar de alegria na desolação que era a vida de todos.
A súbita e inesperada chegada do rufia Marvin Macy, antigo marido de Miss Amelia, que ela suportou apenas por dez dias, veio alterar a situação que parecia estabelizada há vários anos já. Tendo estado preso durante muito tempo numa penitenciária de Atalanta, mal chegou exerceu sobre o primo Lymon um nefasto fascínio. Esse fascínio conduziu, primeiramente, a um equívoco triângulo amoroso, onde Miss Amelia e Marvin Macy disputam a atenção, ou o amor, do corcunda. Por fim, ambos se confrontam numa luta de boxe, no café, assistida pela povoação em peso. A vitória de Marvin Macy só se tornou possível pela intervenção do corcunda. A humilhação de Miss Amelia fica completa pelo desaparecimento do ex-marido acompanhado pelo primo Lymon.
A traição de Lymon desencadeou uma derradeira metamorfose identitária em Miss Amelia, onde o antigo vigor e doçura desapareceram, como se a identidade se dissolvesse e se preparasse para se extinguir, para se tornar um resíduo pontual que lembra, como se fosse um negativo fotográfico, a identidade pontual e vazia da filosofia cartesiana, como se toda a biografia não fosse mais que o prelúdio da sua própria extinção, uma extinção lenta, triste e dolorosa, sob os olhos do coro trágico da população daquele nenhures do sul dos Estados Unidos.
quarta-feira, 7 de março de 2012
O exorcismo pela arte
Júlio Pomar - da série Os Tigres
Milhares de anos de religião, de moral e de leis e, no entanto, ainda precisamos do exorcismo trazido pela arte. Mandamentos, imperativos e códigos penais têm a missão de esconder o animal que somos. Vivem da esperança de que o medo o faça regredir ou, no mínimo, o contenha naqueles limites que o tornem aceitável. A arte tem a vantagem de mostrar. Essa visão é um exercício de exorcismo, devido ao confronto do olhar consigo mesmo. Este quadro de Júlio Pomar, por exemplo, funciona como um espelho. Olho e vejo e o animal que há em mim. Os tigres magníficos - seja o da floresta nocturna do poema de Blake, seja o dos quadro de Pomar - são tigres humanos, emanações vindas da profundeza da nossa alma, retratos do espírito, umas vezes, outras meros ideais reguladores das nossas ambições. O exorcismo proporcionado pela arte não visa, todavia, expulsar para longe de nós, como se fora um espírito imundo, o animal. Pelo contrário, o seu objectivo é colocá-lo à nossa frente e ao nosso lado. Só assim podemos aprender a viver com ele. De certa forma, todo o quadro, e por extensão toda a obra de arte, é um espelho onde vejo de mim aquilo que nenhum espelho pode mostrar, como ensina de forma tão explícita a pintura de René Magritte. É o contrário da fonte onde Narciso se viu; o exorcismo trazido pela arte é um exercício de desconstrução de si. A arte não serve para me cultivar ou para me tornar mais interessante, serve para me ensinar a morrer, mostrando-me no que não me quero ver.
terça-feira, 6 de março de 2012
Poema 27 - A noite vergou os ramos ao seu peso
A noite verga
os ramos ao seu peso
E as
árvores, exaustas, escurecem,
Perdidas
entre traços de luz,
Que se
desprendem de ermos solitários.
O silêncio
troa nos teus ouvidos,
Desce-te
pelo corpo,
Procura na discórdia
da pulsação
Um lugar para
sentir a voz do medo.
Eu, também
olho surpreso as trevas,
Mas respiro
a plena solidão vazia
Que nasce da
seiva cantante da tua voz.
Uma onda de
musgo cobre as ruas,
E os teus
dedos são ramos dobrados
Pela noite
que desce do meu coração.
Ressentimento e desqualificação
O general Eanes, em entrevista à Antena 1, coloca a necessidade de o país decidir se quer ter Forças Armadas ou não. Pessoalmente, sou favorável à existência da instituição militar. O meu próximo artigo no Jornal Torrejano será sobre o assunto. A leitura da caixa de comentários do Público é, como sempre, muito instrutiva. Ressentimento contra os militares e/ou desqualificação da sua missão são recorrentes. Este tipo de sondagem, digamos assim, vale o que vale, mas não deixa de exprimir um certo estado de espírito.
A verdade, porém, é que mesmo um país periférico (se é que num mundo globalizado há lugar para a dicotomia centro/periferia) precisa de assegurar a sua defesa, incluindo a do território. Há duas ideias que me parecem extravagantes. Por um lado, a ideia do Estado-nação estar a caminho de desaparecer. Parece-me ser uma notícia um pouco precipitada, tendo em consideração a situação geopolítica. Por outro, a ideia de que hoje em dia ninguém faz guerra por questões territoriais. Basta o contra-exemplo do conflito israelo-palestiniano para mostrar a falsidade da presunção. Do ponto de vista económico, o território perdeu importância; do ponto de vista político, o território contínua a ser um conceito central. Nada garante que amanhã guerras pelo território (e pela água que nele possa haver) não farão parte do quotidiano dos seres humanos.
As palavras do General Ramalho Eanes fazem todo o sentido. Chamam a atenção para a questão da Defesa e das Forças Armadas. Esta questão não é das menores, pelo contrário. O problema da Defesa é uma das questões centrais da governação, mesmo em tempo de crise. Não é assunto para ressentimentos sociais ou para desqualificação do papel dos militares.
segunda-feira, 5 de março de 2012
Um destino petrificado
Este artigo do Público sobre questões de saúde revela um sentimento de impotência que cresce desmesurado em Portugal e, porventura, na Europa. No fundo, para a generalidade das pessoas, o seu destino está determinado pelo topos social onde nasceu. Quem é pelo menos tão velho quanto eu já passou por momentos sociais em que isso não parecia ser assim. Na sequência do 25 de Abril, cresceu durante algum tempo, bem para lá do 25 de Novembro de 1975, um certo espírito igualitarista, o qual desfazia, em aparência, as fatalidades do nascimento. Nesses tempos, apesar de tudo, os mal-nascidos socialmente (e esses eram uma larguíssima maioria) sentiam menos o lugar onde tinham nascido ou, o que também acontecia, orgulhavam-se desse topos. Esse espírito igualitário subsistiu na vida social durante muito tempo, embora já no início dos anos 80 se notasse um grande investimento das elites sociais na diferenciação. A fábula igualitária estava a entrar em decadência.
A entrada para a União Europeia, porém, veio trazer uma compensação para a perda do referencial igualitário. A nova narrativa centrava-se na meritocracia. Com a abertura das fronteiras e a entrada de grandes fluxos de capital, pensámos menos em igualdade e mais numa imaterial igualdade de oportunidades. A diferença entre pessoas pessoas existiria, mas estaria fundada no mérito individual, na capacidade de trabalho, no reconhecimento que o esforço receberia da sociedade. Esta nova fábula, pois sempre se tratou de uma fábula, não resistiu às primeiras rabanadas de vento. Os mais sensíveis, ou mais inteligentes, perceberam de imediato que, por detrás da ideologia do mérito, estavam os velhos fantasmas do pedigree social. E esses fantasmas não eram tão imateriais quanto um fantasma deve ser.
Lentamente, desde o início dos anos 90, a percepção da possibilidade de mobilidade social começou a desfazer-se, a velha topologia social voltava, e voltava reforçada e rancorosa, desejosa de fazer pagar as ilusões daqueles que um dia foram embalados pelo sonho igualitário ou pelo meritocrático. A experiência social dos últimos anos tem sido decisiva. As estruturas sociais estão petrificadas, a mobilidade social é inexistente (as excepções apenas confirmam a regra) e as gerações que sonharam em ter uma vida melhor que a dos seus pais a única coisa que aspiram, neste momento, é que os pais continuem a dar-lhes de comer. Um dos resultados da crise foi trazer para a direcção do país um discurso político que acompanha as medidas de austeridade com uma moralização da pobreza generalizada e a silenciosa glorificação de uma estratificação social imutável. A liberdade transformou-se em destino, um destino marcado pelo lugar social onde se nasce. Não por acaso, nestes anos o fado recuperou o seu estatuto de canção nacional. Como diz o título do artigo do Público, do nascimento à morte o que conta é a classe social. Um fado.
domingo, 4 de março de 2012
Rússia, o espírito e a matéria
Vale a pena ler este artigo do Público, de Paulo Moura. Está lá tudo. Está lá a corrupção endémica, cuja matriz se encontrava já no regime soviético, mas que se desenvolveu livremente na era pós-comunista. Está lá também a força e a fragilidade da economia russa, bem como os problemas demográficos e o crescente nacionalismo. Mas está lá outra coisa a que se deve dar atenção. Para perceber essa outra coisa vale a pena fazer um contraste. Num artigo, também do Público, sobre o livro de Henry Miller O Colosso de Maroussi, Edmund Kelley afirma que "Quando saí da Segunda Guerra Mundial, descobri, gradualmente, uma tradição humanista pela qual me apaixonei. Queria apresentá-la ao mundo pelo ensino: como um homem pode transcender-se ao acreditar na literatura e na cultura. Depois, comecei a pensar se essa ideia estaria a sobreviver. E julgo que perdemos isso."
Esta importância de uma certa tradição veiculada pela literatura e pela cultura está praticamente moribunda no Ocidente. Para lá de alguns cultores, hoje em dia essa tradição é frequentemente alvo de escárnio e maldizer. Se adicionarmos a isso a erosão completa de qualquer conhecimento histórico e um desprezo generalizado pela religião, temos o retrato espiritual do homem ocidental, onde se inclui o homem português. O artigo de Paulo Moura mostra outra coisa na Rússia. Mostra uma forte classe média emergente, crente no trabalho e no mérito pessoal. Contudo, estas crenças estão fortemente estribadas no acesso à cultura e, fundamentalmente, aos grandes clássicos da literatura russa. Estes são lidos avidamente. A isto junta-se o interesse pela história e uma atenção especial ao cristianismo ortodoxo. É esta classe média emergente que vai ter hoje um papel determinante na eleição de Putin.
Talvez o mais interessante de tudo isto esteja na conexão entre o desenvolvimento espiritual e o desenvolvimento económico. No mundo ocidental, tudo foi reduzido à questão económica. Por exemplo, a generalidade da classe média portuguesa - ou do que ainda dela resta - é de uma ignorância confrangedora. Um exemplo interessantíssimo foi a decisão do actual governo português de transformar o Ministério da Cultura numa mera Secretaria de Estado. Isto diz tudo da percepção que as elites têm do papel da cultura no desenvolvimento da sociedade. Ora a cultura, nomeadamente a literatura, não é um mero exercício de entretenimento. Ela contribui para a criação de uma identidade e para a formação do assentimento que nos diz que vale a pena vivermos uns com os outros. Se os europeus conhecessem a sua grande literatura, se as classes médias europeias passeassem por Pessoa, Joyce, Proust, Kafka, Broch, Mann, Musil, Cervantes, Goethe, Racine, etc., etc., como as russas passeiam por Tólstoi, Tchékhov, Dostoiévky, etc. talvez não estivéssemos na triste e difícil situação em que nos encontramos. Os homens não são apenas máquinas para fazer dinheiro. Mesmo para isso, contudo, eles precisam de um incentivo que vai muito para além da avidez natural, precisam que o espírito dê um sentido aceitável a essa avidez material.
sábado, 3 de março de 2012
Poema 26 - As tardes de sábado guardo-as para meditar
As tardes de
sábado guardo-as para meditar
Sobre a vida
enviesada pelo tempo.
A cada um o
seu jardim
E eu prefiro
estar sentado e quieto.
Nada sei de
flores e estações do ano
Nem quero
aprender o ritmo da vida
Ao som da
tesoura de poda.
Durmo
sentado e sonho com belas raparigas
E depois
acordo espantado.
Lá fora
chove e o dia está frio e cinzento
E eu, sisudo
e quieto, desfio as horas
À espera que
chegue o negrume da noite.
Da janela,
avisto jardins e jardineiros
À procura da
vida nas ervas de um canteiro.
sexta-feira, 2 de março de 2012
Filosofia e não ciência
Este artigo do Público, que refere o polémico After-birth abortion: why should the baby live?, já aqui analisado, labora num erro crucial, erro esse replicado por muitos comentários de leitores mais ou menos indignados. O artigo, contrariamente ao que diz o Público, não tem qualquer carácter científico. Podemos recorrer à velha distinção kantiana entre pensar e conhecer. A ciência produz conhecimento, a filosofia pensa determinado tipo de problemas. O artigo de Giubilini e Minerva não fornece qualquer tipo de conhecimento sobre o mundo empírico, apenas discute se é moralmente aceitável o infanticídio. Estamos no âmbito da filosofia moral.
Em vez da distinção kantiana, podemos usar o critério de demarcação de Popper para determinar que tipo de enunciados são científicos ou não. A tese deverá poder ser falsificável, isto é, deverá poder ser testável empiricamente para ver se ela é refutada ou se resiste, e durante quanto tempo, às tentativas de falsificação (demonstração de que é falsa). Ora a tese dos autores do artigo (o aborto pós-nascimento deverá ser permissível em todos os casos, sem excepção, em que o aborto é permitido) não permite elaborar qualquer teste empírico. Este enunciado não tem qualquer natureza científica. A sua justificação e a sua refutação passam apenas pelo domínio da argumentação e não do teste empírico.
O uso da designação de "artigo científico" induz os leitores em erro, cobrindo com o manto da ciência - algo que se refere à forma como a realidade funciona - aquilo que apenas pertence ao campo do debate de ideias, neste caso das ideias morais. Ao fazer isso, acaba por ocultar o debate que subjaz ao artigo em causa. E por repelente que possa ser a tese dos autores - e para mim é -, os argumentos merecem atenção, não tanto por poderem justificar o after-birth abortion, mas porque obrigam a pensar os motivos do aborto e os critérios que justificam a interrupção do processo de desenvolvimento de uma vida humana, bem como os critérios que demarcam a altura em que essa interrupção é permitida moralmente (o que não é a mesma coisa que a permissão legal) e quando deixa de o ser (embora os autores não o façam no artigo).
Pensar e dirigir
A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.
Existem muitas causas que ajudam a explicar a situação na qual
vivemos. Excesso de consumo, esbanjamento de recursos, investimentos
desadequados, corrupção política, eleitoralismo, problemas de formação, baixa
produtividade, etc. Se quisermos compreender não apenas a superfície da
situação mas aquilo que permitiu o acumular dos erros, teremos de encontrar
outro tipo de explicações. Que atitudes estão na base de tudo isto?
Em primeiro lugar, a ausência de espírito crítico. A sociedade
portuguesa é avessa à discussão crítica, ao confronto de ideias, ao conflito de
pontos de vista. Na vida das instituições (públicas e privadas) o exercício
crítico, o debate de ideias, o conflito sobre os caminhos a tomar praticamente
não existem. As instituições portuguesas são verdadeiros túmulos. O silêncio é
de ouro e quem ambiciona subir, ou apenas deseja não ser enxotado porta fora,
não levanta ondas. Não levantar ondas é o ideal regulador da acção do português.
Isto implica que empresas privadas e instituições públicas definhem.
Os erros acumulam-se, constituem-se em hábitos, formam verdadeiras tradições. O
silêncio que as chefias, por uma questão de autodefesa, cultivam e a que as
pessoas, também por autodefesa, se submetem significa uma demissão de pensar e
uma ausência efectiva de compromisso com a instituição. Num mundo em que a
economia se fundamenta no conhecimento, em Portugal cultiva-se o silêncio das
igrejas e a paz dos cemitérios.
Em segundo lugar, e em conexão com a ausência de pensamento crítico,
temos lideranças frágeis. Se as pessoas não são levadas a pensar criticamente,
como forma de melhorar o desempenho da instituição ou da empresa a que
pertencem, isso está intimamente ligado à qualidade das lideranças.
Genericamente, Portugal não tem líderes, mas chefes que têm medo da discussão,
do debate e do confronto de ideias. As chefias em Portugal vivem no terror de
que a sua incapacidade se torne óbvia e, por isso, não só evitam suscitar
qualquer tipo de pensamento crítico dentro do seu feudo, como o reprimem, caso
ele surja. Não percebem que o papel de uma liderança é tirar partido, para a
organização, do conflito de ideias, dos pontos de vista descentrados e
desviantes.
A péssima preparação técnica das lideranças destrói a imaginação, exclui
o pensamento crítico e afoga empresas e instituições na pura rotina até que se
tornem obsoletas e um peso morto para a sociedade, a qual lentamente se foi
tornando ela própria um enorme peso morto.
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