sábado, 31 de março de 2018

Cânticos pascais 3. Sábado de Aleluia

Hans Holbein the Younger, The Body of the Dead Christ in the Tomb (c. 1521)

3. Sábado de Aleluia

O espírito desce e descansa na pedra porosa do túmulo.
Longas e negras as horas para que as chagas cirzam
e da terra, ressurecta, a giesta cresça para a Primavera.

O dia corre, arrasta consigo a espuma da misericórdia,
promete a grande tempestade, folhas bravas caídas
da árvore tecida pelas lâmpadas do bem e do mal.

Sinos silenciam-se no temor da tarde, estremece o lódão,
abre os ramos nus para a respiração divina e espera
que as alfaias da vida sulquem a terra dura da morte.

O sono arde na escuridão das pálpebras e o pneuma
desliza nos meandros das trevas, esgueira-se na morada
do fogo e escuta na artéria do silêncio o gemido da dor.

Folhas de púrpura elevam-se, são diamantes no céu,
nuvens a sibilar sobre a fortaleza cercada pelo vendaval.
Absorto no jardim, o anjo da história canta hallelu Yah.

Março, 2018

sexta-feira, 30 de março de 2018

Cânticos pascais 2. Sexta-feira de Paixão

Pierre-Paul Prud'hon, Christ on the Cross, 1822

2. Sexta-feira de Paixão

Talvez nos possas salvar da sombra feita de sombras
e haja ainda no rumor da paixão um ritmo de vida,
a música que nos abra para a sedição do sofrimento.

Nas linhas desenhadas na pele, o corisco do chicote
cresce para a noite de luar em que o corpo se enrola
e reverbera, mistério após mistério, glória após glória.

Transparência da tarde, a mais escura das tardes,
o sangue a gorgolejar na garganta e a força a deslizar
na flagelação dos braços, a cair no planalto da agonia.

A lança abre no flanco a fonte de água e sangue, uma luz
rompe a terra e o espírito abre-se à cizânia da escuridão.
Lacerado e sôfrego, o corpo bebe o vinagre da morte.

A cabeça derruída, a coroa de espinhos, a cruz nas
mandíbulas do silêncio. Por que abandonou o pai o filho
à ferocidade das trevas, ao trémulo tumulto do terror?

Março, 2018

quinta-feira, 29 de março de 2018

Cânticos pascais 1. Quinta-feira de Endoenças

André Louis Derain, Last Supper, 1911

Quinta-feira de Endoenças

O lívido lençol da morte tece-se de silvas e sangue,
rumoreja na sombra como um anjo ávido de luz
preso a uma geometria de água e crepúsculos.

Eis que sobre o mundo desce a voz primitiva
e trauteia na proximidade do grande momento,
a época de maturação do fruto ferido da figueira.

Os convidados da última ceia dançam e cantam,
em sono e alucinação imersos, e distante
se turvará o tilintar das trinta moedas da traição.

As crinas do cavalo da morte avistam-se ao longe,
oscilam ao vento, enquanto na páscoa dos judeus
o filho do homem espera o pão ázimo do incêndio.

Vejo na vigília da verdade a rosa do vale de Cédron.
O horto das oliveiras, sangue e suor, lágrimas de
luz como pétalas de âmbar sombreadas na solidão.

Março, 2018

quarta-feira, 28 de março de 2018

Seguro de saúde

Marc Chagall, A revolução, 1937

O artigo de David Dinis sobre as alianças à esquerda refere o óbvio. No entanto, aquilo que é óbvio perde muitas vezes o essencial. O texto diz “ O PCP é diferente (do BE): já só espera a oportunidade para saltar para as ruas, que é onde está a alma do comité central — e a razão da sua subsistência.” Não é que o PCP não goste de rua, mas, muito provavelmente, o PCP conseguiria melhores resultados eleitorais se estivesse no governo do que estando apenas na rua. Duvido que o PCP precise para subsistir de estar sempre na oposição, mas o regime democrático, tal como foi desenhado, em 25 de Novembro de 1975, precisa do PCP na oposição. Um PCP na rua, com as suas bandeiras, manifestações e greves, é um seguro de saúde do regime.

O governo de Passos Coelho, por exemplo, deve muito ao PCP. Este canalizou, de forma legal, ordeira e disciplinada, a contestação às tropelias da troika e do governo. Essa contestação não teve nenhum impacto na diminuição das tropelias mas evitou que emergissem formas de contestação erráticas, anarquizantes, imprevisíveis e, por isso mesmo, perigosas. Aquilo que se passou nos anos da troika já se tinha passado anteriormente. Não será tanto o PCP que precisa da rua, embora goste muito dela. São os partidos do regime que precisam do PCP na rua. Quando tudo corre bem, o PCP parece não ter papel algum na democracia, mas quando chega o tempo das vacas magras, o que é recorrente neste país, o regime inteiro precisa do PCP para que as energias negativas sejam canalizadas ordeiramente. Veja-se a confusão que aconteceu em Espanha, França e, sobretudo, Itália com o desaparecimento dos velhos Partidos Comunistas. Perderam o seguro de saúde com as consequências que todos conhecemos.

terça-feira, 27 de março de 2018

Um anacronismo


A recente prisão de Carles Puigdemont veio tornar ainda mais patente a incomodidade que a questão catalã coloca. A perseguição aos independentistas é legal. No entanto, nem tudo o que é legal é moral. A posição do governo espanhol, da justiça espanhola e do Rei de Espanha é imoral, isto independentemente do que se possa pensar de Puigdemont. E é imoral não porque a Catalunha tenha de ser independente, mas porque a constituição espanhola impede, através da violência legítima, que as diversas nacionalidades se possam exprimir livremente se querem ou não permanecer unidas a Madrid.

O mais provável é que se aos habitantes da Catalunha fosse permitido escolher, os independentistas teriam uma derrota, como aliás aconteceria noutras regiões espanholas onde o espírito nacionalista é vivo. Aquilo que na Grã Bretanha, com as pretensões escocesas à independência, foi resolvido sem qualquer drama, pois os escoceses escolheram o que entenderam, em Espanha dá origem ao triste espectáculo a que assistimos, com acusações segundo leis anacrónicas numa democracia. Não interessa aqui se se é favorável à independência da Catalunha ou não. Isso é um problema dos catalães. Enquanto a constituição espanhola não permitir a estes pronunciarem-se directa e livremente, Espanha estará sempre mais próxima da Turquia, onde os curdos estão subjugados pelo poder de Ancara, do que da Inglaterra. Um anacronismo da ordenação jurídica espanhola tão grande quanto o nacionalismo catalão.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Uma ameaça



O caso da resistência à vacinação, que pode estar na origem dos actuais surtos de sarampo e no reaparecimento de certos doenças que se pensavam erradicadas, é apenas um exemplo de um problema mais fundamental. As sociedades modernas atingiram um elevado nível de vida pela conjugação do desenvolvimento do conhecimento científico e da produção tecnológica dele derivada. Nesse elevado nível de vida, encontra-se a comodidade da existência e o prolongamento da esperança de vida.

A resistência ao conhecimento científico não é coisa de agora. Por vezes, torna-se virulenta e tem um poder destruidor do conhecimento e do progresso científico e tecnológico. O que estamos a assistir, em várias frentes onde se inclui a da saúde, é a um ataque de vários tipos de fundamentalismos – uns mais de cariz religioso, outros de natureza mais social – ao pensamento crítico que fundamenta o trabalho científico e tecnológico. O uso da razão crítica por parte dos homens não tem por objectivo criar verdades dogmáticas e resolver problemas com uma varinha mágica. A ciência é um projecto de aproximação progressiva à verdade. Também a tecnologia, por desenvolvida que seja, tem os seus limites de intervenção no mundo.

Assistimos, aproveitando o carácter limitado e aproximativo da ciência e da tecnologia, à pretensão de formas de acção e pensamento mágicos as substituírem. Reivindicam um pensamento e um tipo de acção alternativos. Efectivamente, o que se passa é que esse tipo de pensamento dito alternativo não se confronta com o rigor da testagem científica. É constituído por um conjunto de crenças que ou não podem ser testadas ou que, caso o fossem, não resistiriam aos testes empíricos. Se há crenças que, apesar da sua limitação sempre reconhecida, são submetidas às mais duras testagens para determinar a sua verosimilhança, essas são as crenças científicas, das quais depende a tecnologia que usamos e o nosso modo de existência.

Se por uma infelicidade, as nossas sociedades valorizarem do mesmo modo o pseudo-conhecimento dos saberes ditos alternativos e o conhecimento científico, então estaremos a dar passos para uma regressão civilizacional a todos os níveis. O que está em jogo não é apenas a saúde das pessoas e o seu bem-estar, mas o próprio pensamento crítico. Se este for equiparado ao dogma de uma qualquer crendice, temos razões para temer que, num surto de um súbito fundamentalismo, o seu exercício se torne impossível. O que se está a passar é um sintoma preocupante para o uso saudável da razão crítica, na verdade uma ameaça real ao nosso modo de vida.

domingo, 25 de março de 2018

No Limiar da Porta 3. Nenúfares e nuvens

Claude Monet, Water Lilies, 1906

3. Nenúfares e nuvens

Nenúfares e nuvens
eram
lagos de erva,
um anel de cristal
em dedo de vidro,
a noite
                nocturna
que te amanhecia.

sábado, 24 de março de 2018

Ensaio sobre a luz (32)

JCM, Convento de Cristo, Tomar, 2018

Dos céus, a luz desce e poisa sobre as pedras, e elas então levitam e são água e fogo, vento que, na escuridão da terra, sopra um segredo no silêncio dos claustros.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Um cortejo fúnebre

Henri Cartier-Bresson, Rue de Vaugirard, 1968

Esta famosa fotografia de Cartier-Bresson tem no seu centro narrativo, digamos assim, o slogan do Maio de 68 Jouissez sans entraves. O slogan dizia, na sua totalidade, Jouissez sans entraves, vivez sans temps morts (Gozai sem entraves, vivei sem tempos mortos). Visto como resumo da grande explosão social dos estudantes franceses da época, tem sido interpretado de diversas maneiras, mas por norma como uma afirmação da vida enquanto exercício contínuo de prazer, como uma libertação do desejo e consumação deste. Na verdade, a palavra de ordem de 68 é muito mais tétrica do que aparenta. Basta conjugar os dois mandamentos que a constituem. 

O prazer libertado e sem entraves exigirá, é essa a condição humana, tempos mortos, tempos esses onde o desejo se reconstitui para buscar novos prazeres. Os tempos mortos são uma condição necessária à vida, incluindo à vida de prazer. Não há sibarita que não precise de horas mortas, de longas horas mortas. Conceber a vida como uma empreitada contínua (sem tempos mortos) de gozos sem entraves não é outra coisa senão uma afirmação da morte. Os homens não são máquinas desejantes, mas animais dotados de desejo. E a condição animal não está programada, seja qual for o âmbito que se considere, para um movimento perpétuo. O que pulsa no coração do Maio de 68 não é, então, a afirmação exuberante da vida, mas um convite à morte pela exaustão de um corpo agora submetido ao imperativo do prazer contínuo. O Maio de 68 não foi nem uma grande afirmação da vida nem um festival lúbrico. Foi, na verdade, um grande cortejo fúnebre.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Ensaio sobre a luz (31)

K Matsuki, Sunlight in the morning, 1926

A luz da manhã desce piedosa sobre a terra, ilumina com raios de orvalho um resto de névoa e a sombra daquele que passa e traz em si o secreto sinal da noite.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Alma Pátria - 21: Luís Cília - Canto do Desertor



A pátria, in illo tempore, tinha uma alma oculta, uma alma que não podia manifestar-se na rádio e na televisão portuguesas, mas manifestava-se, por exemplo, na televisão francesa. Era uma alma recalcada. A voz de Luís Cília - não é uma voz extraordinária, mas é uma voz de que gosto bastante pelo seu timbre nostálgico e, diria, quase sebastianista - era uma das vozes dessa alma abscôndita, que atravessava o país pelo silêncio da noite. Aqui canta uma canção contra a guerra colonial. O tema, a deserção, ainda gera incómodo – a palavra traidor aflora então com facilidade – em alguns sectores mais nostálgicos do antigo regime ou menos conformados com os que, perante a guerra, decidiram refugiar-se no estrangeiro. A generalidade do país não tem, todavia, qualquer ressentimento perante os que desertaram. O original em disco é de 1964 e a gravação que se apresenta é de 1973. Pelo que se percebe da imagem da capa, no canto superior direito, o disco foi editado pela célebre Le Chant du Monde, uma editora discográfica francesa claramente engagée.

terça-feira, 20 de março de 2018

No Limiar da Porta 2. Ardia-te nos olhos

Jean Dieuzaide, Nazaré, Portugal, 1954

2. Ardia-te nos olhos

Ardia-te nos olhos
uma ânsia
ávida de aurora.

Ardia-te na boca
a voz,
a voz velada do vento.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Um retrato

Jean Dieuzaide, Vieira de Leiria, Portugal, 1950

Pode-se olhar para a fotografia e ler nela o atraso de Portugal. A mulher vestida de negro, a criança enrolada no xaile da mãe, a água transportada à cabeça, isto no final da década de quarenta do século passado. Não seria uma visão despropositada. Contudo, seria uma visão que, ao prender-se a eventuais comparações com outros países, não apreenderia o essencial. A mulher que ali se vê é, na verdade, uma metáfora do país. Como ela, Portugal vive desde sempre um difícil equilíbrio entre a sua demografia e pobreza da vida material. A coerência e o comedimento que, no fundo, nos habitam devem-se a este prolongado - quase com 900 anos - jogo de concertação, de procura de um peso e de uma medida que não nos façam cair. Por vezes, o país escorrega, mas logo leva a mão à carga que transporta, puxa para si a criança que carrega num dos braço e levanta a cabeça para olhar em frente. Isto não faz de nós melhores que os outros, mas faz de nós aquilo que somos. E aquilo que somos resulta desse contínuo superar de desequilíbrios que poderiam ser mortais.

domingo, 18 de março de 2018

Ensaio sobre a luz (30)

Jean Dieuzaide, Portugal, Portinho d'Arrabida, 1954

A cal canta nas paredes puras do convento. Canção de luz que levita na sombra dos telhados ou nas janelas cerradas do silêncio.

sábado, 17 de março de 2018

Ensaio sobre a luz (29)

Willy Ronis, Paris, 1940s.

A luz nublada da manhã desliza, fria e frívola, pelas mãos do tocador de violino, pela cegueira que se desprende dos seus olhos e se ilumina no rumor furtivo de um pássaro poisado na rua.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Paixões políticas

Francis Bacon, Self Portrait with Injured Eye, 1972

Talvez o problema resida no facto da identidade política ser um dos elementos estruturantes da identidade pessoal, como alguns estudos parecem apontar. A verdade é que as pessoas com algum interesse pelos destinos da comunidade, perante um político de uma orientação ideológica adversa, conseguem a proeza de, ao mesmo tempo, vê-lo bem de mais e de não o conseguir ver. Conseguem, de uma forma absolutamente penetrante, no seu entendimento, ver no actor político a pessoal moral – por norma, o mais rematado filho da mãe – que elas supõem que ele é. Ao mesmo tempo são incapazes de encontrar nele qualquer virtude política e sendo tanto mais incapazes quanto mais virtuoso ele é.

Percebe-se facilmente a cegueira para a virtude política. Ela contraria o desejo da pessoa de ver os seus no lugar do poder. Reconhecer essa virtude significaria admitir que não se tem uma razão absoluta, que as suas crenças são frágeis e que há soluções exequíveis para além daquelas com que se identifica. O seu sistema de crenças sobre o destino da sociedade ficaria abalado. Interessante, porém, é observar aquilo que se exige, do ponto de vista moral, a um político adversário. Pessoas absolutamente venais ou de relativa perfeição moral, e estas são a esmagadora maioria, avaliam moralmente, com a sua supervisão, um político adversário por uma bitola moral que nem os santos, aqueles que conquistam a glória dos altares, conseguiriam satisfazer. Chegam mesmo a dizer que não conhecem o indivíduo, mas o seu carácter é abjecto e a sua pessoa, no mínimo, nojenta.

O que é interessante nisto não é a confirmação da tese de Jason Brennan de que as pessoas que se interessam por política, na sua esmagadora maioria, são hooligans. A expressão não precisa de explicação adicional. Interessante é compreender o potencial de intolerância que habita as pessoas, mesmo gente cordata e inofensiva noutras circunstâncias. A cegueira para a virtude política de alguém que não pertence ao nosso lado é uma negação da realidade. Contudo, essa cegueira precisa de um imaginário excesso de visão. E é este que mostra a abjecção – uma abjecção construída, claro – moral daquele que se despreza. O ataque ao carácter é a expressão de um desejo profundo de aniquilamento do político inimigo (inimigo, no coração; adversário, nas palavras). Na verdade, é um assassinato simbólico o que se pretende realizar. As paixões políticas não são inocentes e, caso não haja duras regras de contenção, elas têm um potencial de violência desmedido.

quinta-feira, 15 de março de 2018

No Limiar da Porta 1. Pulsa um sopro

Arnold Genthe, Margaret Severn dancing at the water’s edge, Scarf dance, 1923


1. Pulsa um sopro

Pulsa um sopro
de água
no coração.

Um medo de mar,
uma onda.

A maresia da morte
no sal da solidão.

quarta-feira, 14 de março de 2018

A Solidão dos Aeroportos

Leonard Freed, Waiting at the airport, Amsterdam, 1964

A Solidão dos Aeroportos. Este poderia ser o título de um romance sobre o drama do sujeito perdido de viagem em viagem. O mundo inteiro à sua disposição, mas ele espera sentado que chegue a hora do embarque. A sua vida torna-se então uma colecção de esperas em todos os aeroportos do mundo. A única coisa que o viajante retém é o estar sentado, a fazer horas para uma ligação que o há-de levar a outro lugar, para aí esperar de novo. Assim enriquece o passaporte e desenvolve toda uma geografia, fundada na observação e em misteriosos critérios classificativos. Com o passar dos anos consegue mesmo elevar-se das taxionomias à formulação de conjecturas. Dias há que tenta refutar as teorias que forma. A suprema sabedoria, porém, descobriu-a ele talvez demasiado tarde. Sentar-se solitário e esperar que o seu avião parta sem ele. Então levanta-se e volta para a casa.

terça-feira, 13 de março de 2018

Ensaio sobre a luz (28)

József Németh, Athenaeum, Budapeste, 1944

As folhas mortas da nostalgia arrastam-se pelo chão e, sopradas pelo vento, esperam a luz de sombra que as rapte da clareira e as devolva ao paraíso do esquecimento.

segunda-feira, 12 de março de 2018

A razão e o sentimento

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Os resultados eleitorais em Itália, a dificuldade de formação de governo na Alemanha e o tremor – ou terror – que cada novo acto eleitoral provoca Europa fora, tudo isso se enraíza num conflito surdo, que durante muito tempo foi disfarçado, entre as elites europeias e as camadas populares dessa Europa. O conflito tem a raiz na cultura iluminista das elites e na estranheza das camadas populares relativamente a essa cultura. Enquanto o sistema de crenças das elites se foi transferindo da religião para um culto da razão e da sua eficácia, as camadas populares viram a religião, que dava sentido à sua existência, perder capacidade explicativa e integradora, não tendo elas, agora, nenhuma narrativa que lhes explique o mundo e nele as integre.

O conflito foi disfarçado durante uns tempos pelas ideologias políticas que funcionaram como um sucedâneo do cristianismo. Também uma certa expectativa de ascensão social e de capacidade de aceder ao consumo mitigaram a ruptura que atravessava já as sociedades europeias. O que terá acontecido para que esse disfarce tenha caído e para que, cada vez que a vontade popular se expressa nas urnas, as elites europeias tremam perante o avanço do populismo? Podemos pensar que isso se deve ao fim da expectativa de ascensão social, à vilania de um capitalismo voraz apostado em destruir os direitos sociais e à corrupção dos actores políticos. Isso terá algum peso. O problema, porém, está noutro lado, está na presença do estranho, do outro, dos imigrantes e dos refugiados provenientes, antes de mais, do mundo muçulmano.

A explicação é feia? Bastante, mas a realidade não tem de ser bela nem agradável. As elites, com a sua cultura racional e os seus interesses, aceitam facilmente a presença do estranho no seu território. Ao nível popular, contudo, a percepção do outro não é feita segundo princípios racionais derivados do Iluminismo. É feita de suspeita, de desconfiança e, acima de tudo, de medo. Na ausência de uma narrativa – religiosa ou outra – que permita integrar o que é estranho, existem múltiplas anedotas que, ao serem costuradas umas com as outras, fornecem o combustível que alimenta sentimentos negativos e que se traduz em xenofobia e na eleição de partidos e actores políticos que apregoam haver razões para ter medo do outro. As tradicionais elites políticas europeias, em nome da razão, podem continuar a fingir que não há aqui um problema, mas depois não se lamentem que a política tradicional e sensata esteja a morrer e que condottieri sem escrúpulos, em nome do sentimento popular, ganhem terreno e se aprestem para tomar conta dos rebanhos.