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| Dirk de Herder, Stockholm, 1951 |
quinta-feira, 5 de maio de 2022
Nocturnos 79
terça-feira, 3 de maio de 2022
Simulacros e simulações (34)
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| Frank Horvat, Elstree Film Studios, filming Moby Dick, 1954 |
domingo, 1 de maio de 2022
Respirar fundo
sexta-feira, 29 de abril de 2022
A Garrafa Vazia 86
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| Francisco Farreras, Coudrage N.º 118, 1985 |
Recolho-me à terra calcinada,
as costas torcidas
pelo peso da penumbra.
A glória do fogo ateou
ondas de breu
no azedume das terras.
Fornalhas de morte habitam
nos sonhos de chumbo,
na fria fantasia das trevas.
Sou a sombra perdida
na incendiada
sonolência do entardecer.
Abril de 2022
quarta-feira, 27 de abril de 2022
A persistência da memória (12)
| Hans Kammerer, Am Fenster, 1920s |
segunda-feira, 25 de abril de 2022
A maior conquista
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| Imagem do site da Time Out Lisboa |
A dimensão do 25 de Abril de 1974 não é dada apenas por aquilo que permitiu construir, e o que permitiu construir não foi pouco, mas também por aquilo que substituiu. E o que substituiu não foi só um regime político de partido único, autoritário, com polícia política, prisões políticas, tribunais plenários, assassinatos de oposicionistas, censura (um aparelho ideológico fundamental do regime), purgas nas universidades, uma guerra colonial em três frentes para a qual não se vislumbrava qualquer solução. Substituiu também um país miserável, atrasado, fechado ao mundo, largamente analfabeto, quase desprovido de cuidados médicos generalizados e de segurança social. Um país política, social e moralmente miserável.
As vicissitudes que depois nos trouxeram até aqui – um sítio incomparavelmente melhor, apesar de algumas almas suspirarem pelo ditador de Santa Comba – são o resultado das nossas opções feitas livremente. Não foram impostas. Foram escolhidas eleição a eleição, num sistema eleitoral altamente fiável e nunca posto em causa. No regime de Salazar e de Caetano, tínhamos a desculpa – real – de que o que acontecia era imposto através da violência política. O que nos acontece hoje é da nossa responsabilidade. Somos nós que escolhemos – ou nos abstemos livremente – os políticos e os programas que nos governam. A nós se deve o mérito e o demérito das opções. Essa foi a maior, mas também a mais pesada, conquista de 25 de Abril, a liberdade e a responsabilidade pelas nossas opções.
sábado, 23 de abril de 2022
Guerra na Ucrânia, Le Pen e nacionalismo
2. A senhora Le Pen e o Estado de direito. Na última crónica escrevemos que quando os populistas chegam ao poder, o primeiro alvo é o Estado de direito. Como é que isso se aplicará em França, caso a senhora Le Pen ganhe as eleições de domingo? Segundo Jorge Almeida Fernandes, numa newsletter do Público, a “mola central do seu modelo institucional é o recurso maciço ao referendo como meio de contornar o parlamento. Quer generalizar o “referendo de iniciativa cidadã” sobre todos os assuntos para, entre outras coisas, anular leis aprovadas no parlamento”. O referendo é a estratégia central que os populismos utilizam para destruir o Estado de direito, desarticular a democracia representativa e instaurar paulatinamente uma governação autoritária. O referendo é o instituto que mais se presta a tomadas de decisão fundadas em emoções, onde a racionalidade das escolhas é substituída pelo fervor que os hooligans políticos ateiam na comunidade.
3. Nacionalismo. A invasão russa e a força da senhora Le Pen em França são sintomas de uma das doenças que contamina o mundo. O nacionalismo. Ela tinha-se manifestado na eleição de Donald Trump e no Brexit, mas existia já, de modo ostensivo, na Índia e na China, assim como na Rússia ou na Turquia. Há décadas que a doença se manifesta em muitos países da União Europeia. Depois da Guerra Fria, com a globalização, estabeleceu-se um novo confronto que opõe cosmopolitas, defensores de um mundo aberto, e nacionalistas, amigos das fronteiras e do etnocentrismo. Durante anos, falou-se no fim do Estado-Nação. A verdade é que ele parece mais forte, arrastando consigo um nacionalismo perigoso. Em caso de implosão da União Europeia, a própria Europa será um campo aberto para conflitos entre os seus múltiplos nacionalismos, o que a condenará, sem apelo, à mais pura irrelevância.
quinta-feira, 21 de abril de 2022
A Garrafa Vazia 85
terça-feira, 19 de abril de 2022
A persistência da memória (11)
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| Alfred Stieglitz, The Terminal, 1893 |
domingo, 17 de abril de 2022
Nocturnos 78
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| Alfred Stieglitz, Reflections, Night–New York, 1896 |
sexta-feira, 15 de abril de 2022
Simulacros e simulações (33)
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| John Loengard, Henry Moore’s Sheep Piece,1983 |
quarta-feira, 13 de abril de 2022
Entre a liberdade e a fraternidade
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| Eugène Delacroix, La Liberté guidant le peuple, 1830 |
segunda-feira, 11 de abril de 2022
A Garrafa Vazia 84
sábado, 9 de abril de 2022
Uma expectativa perigosa
Há neste momento, uma expectativa perigosa nas hostes dos que defendem a democracia liberal. Crê-se que o comportamento do Kremlin, com o seu nacionalismo autoritário e agressivo, seja uma vacina, no mundo democrático ocidental, contra os candidatos a Putins – de calças ou de saias – que por aí proliferam. Parece-me precipitado este pensamento. Caso assim fosse, a senhora Le Pen estaria em queda acentuada em França. Em Espanha, a direita democrática estar-se-ia a livrar do Vox. Só para dar dois exemplos perto de casa. Ora, isso está longe de acontecer. Apesar do apoio que a direita populista, por toda a Europa, tem tido de Putin, ela está a conseguir, aos olhos da opinião pública, demarcar-se do protector e inspirador.
Por que razão esta direita populista é perigosa? Porque põe em causa alguns pilares em que assenta uma vida comunitária decente. Que pilares são esses? O primeiro é o Estado de Direito, em que todos estão submetidos, de modo igual, à lei. Quando os populistas chegam ao poder, o primeiro alvo de ataque é o Estado de Direito. Um segundo pilar é a independência do poder judicial relativamente aos governos. Esta independência permite evitar que os que governam utilizem a justiça para perseguir os adversários. O terceiro pilar é uma comunicação social livre, que qualquer populismo, instalado na governação, trata de reprimir e abolir. O quarto pilar, vindo do século XVII, é a tolerância por aqueles que são diferentes. Também este é atacado pelo populismo nacionalista, ainda antes de chegar ao poder e como táctica para o conquistar.
Há um outro
motivo pelo qual o populismo nacionalista é muito perigoso. Vive de rivalidades
e de afirmação da supremacia de uma soberania nacional sobre outras, tal como
se vê no presente caso da Ucrânia. Mesmo na Europa, isso é uma ameaça. Basta que
a União Europeia desapareça. Por estranho que possa parecer, essa possibilidade
continua no horizonte. Um triunfo do populismo nacionalista em França ou na
Alemanha e estamos num grande sarilho. A partir desse momento, toda a Europa se
tornará palco para as mais descabeladas aventuras nacionalistas. Não faltam por
aí fronteiras em disputa. Não é por acaso que Putin – em certa altura com ajuda
de Trump – tem tentado desarticulá-la. Os conflitos intra-europeus permitiriam
à Rússia tornar toda a Europa um protectorado seu. Contrariamente ao que muitos
pensam, não é seguro que a aventura de Putin represente um reforço das
democracias liberais. Estas continuam frágeis e sobre ataque cerrado dos que
desprezam os pilares em que elas assentam.
Post Scriptum. Este artigo foi escrito no já longínquo dia 27 de Março de 2022 e publicado na edição de ontem, 8 de Abril, do Jornal Torrejano. Neste curtíssimo intervalo, os motivos de inquietação cresceram. Não apenas com a vitória larguíssima de Viktor Orbán na Hungria, como com a possibilidade cada vez maior da senhora Le Pen ganhar as eleições francesas, com sondagens a dar-lhe vitória na segunda volta.
quinta-feira, 7 de abril de 2022
Beatitudes (51) Vale a pena
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| Jean Dieuzaide, Catalogne romane, San Jaime de Frontanya, 1957 |
terça-feira, 5 de abril de 2022
Nocturnos 77
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| Herbert List, The Acropolis, 1937 |
domingo, 3 de abril de 2022
A Garrafa Vazia 83
sexta-feira, 1 de abril de 2022
Voltámos à Montanha Mágica
Olhemos para o que acontece em torno do jovem Castorp. A educação do seu espírito é disputada, não sem violência, pelo italiano Lodovico Settembrini e pelo judeu oriental – talvez, imaginemos, um sefardita – Leo Naphta. O italiano é o representante do Iluminismo, da democracia liberal e da liberdade individual. Naphta é um converso ao catolicismo, mas a um catolicismo ultramontano, integrista. É um espírito jesuítico exaltado que despreza as liberdades individuais e defende um colectivismo meio comunista, meio eclesiástico.
O espantoso neste exercício de imaginação é que descobrimos de imediato que o mundo, no século XXI, caiu na montanha mágica, onde duas forças se opõem de modo cada vez mais violento. Por um lado, o mundo ocidental, tomando a figura de Lodovico Settembrini. Como este, o Ocidente é marcado pelo espírito liberal, pela defesa da democracia representativa, pela economia de mercado, pela afirmação plena da liberdade individual. O mundo, todavia, não é apenas o lugar dos amigos do italiano imaginado por Mann.
Nele, há muitos
discípulos de Leo Naphta. O terrorismo islâmico, por exemplo, não desdenharia
de Naphta, as seitas neopentecostais também não, assim como os católicos ortodoxos
que desprezam o Papa Francisco, ou a extrema-direita europeia e americana.
Contudo, a manifestação mais clara do espírito de Leo Naphta encarna neste
momento em Putin e no Patriarca moscovita Cirilo. A invasão da Ucrânia não é
outra coisa senão uma luta contra a liberdade, a democracia liberal, o respeito
pelos indivíduos. Faz parte da actual guerra contra a herança do Iluminismo.
Voltámos ao tempo do conflito entre as Luzes e o clericalismo farisaico e supersticioso, entre a ideia de império e o cosmopolitismo. Só que este conflito, não se faz com palavras e exercícios de retórica para cativar um espírito jovem e indeciso. Faz-se com a destruição massiva de um país, com o massacre de inocentes, com tudo aquilo que a guerra traz consigo. Voltámos para a montanha mágica e o que vemos não é agradável. Em silêncio, sentado à sombra do velho Confúcio, outro personagem espera que Settembrini e Naphta se aniquilem. O espírito de Hans Castorp, então, será seu, assim como a montanha mágica. Sem disputa nem controvérsia.
quarta-feira, 30 de março de 2022
Nocturnos 76
segunda-feira, 28 de março de 2022
Simulacros e simulações (32)
sábado, 26 de março de 2022
A persistência da memória (10)
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| Bernard Eilers, Amsterdão, 1920 |
quinta-feira, 24 de março de 2022
A Garrafa Vazia 82
terça-feira, 22 de março de 2022
Guerra metafísica
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| Giorgio de Chirico, Gladiadores y león, 1927 |
domingo, 20 de março de 2022
Nocturnos 75
sexta-feira, 18 de março de 2022
A ilusão de um outro mundo
Um dos danos
colaterais da guerra na Ucrânia aconteceu na esquerda do sistema partidário
português. O bombardeamento caiu em cima do Partido Comunista e muitos
estilhaços atingiram o Bloco de Esquerda, apesar de ter sido mais lesto e
competente em distanciar-se da invasão russa. A guerra na Ucrânia está a ser
sentida de forma muito traumática pelas opiniões públicas europeias. Há nessas
reacções várias coisas. A estupefacção pela invasão de um país europeu por outro,
a brutalidade da intervenção, a incompreensão das razões que assistem aos
russos, a percepção de que estes se tornaram um perigo para segurança da Europa.
No caso português, também a simpatia que os imigrantes ucranianos geraram no
convívio com os portugueses.
Até à Queda do Muro de Berlim, essa esquerda viveu na crença de que havia um mundo melhor do que aquele em que vivemos. Fosse a União Soviética, a China maoísta ou a Albânia. O mundo ocidental – democrático e liberal – era aquilo que deveria ser destruído, trocado por outros mundos inspirados nas revoluções comunistas. Com o fim dos regimes de leste, muitas pessoas compreenderam que aqueles eram altamente ineficientes, corruptos e opressivos. Compreenderam que não havia qualquer mundo melhor que pudesse ser trazido por uma revolução. Os europeus sentiram que viviam no melhor dos mundos possíveis, um mundo mais eficiente, menos corrupto e muito mais livre. Esse mundo é o que é defendido pela NATO, pelos EUA e pela União Europeia, com todos os defeitos e perversões que se conhecem.
Foi o ataque frontal a este mundo pelo PCP e, embora de modo mais dissimulado, pelo BE que fez desabar sobre eles uma tempestade. Estes partidos continuam a viver na ilusão de uma alternativa às democracias liberais. Crêem que as forças que impedem o advento desse admirável mundo novo são a NATO, os EUA e a União Europeia. Em tempos normais, com excepção das pessoas mais politizadas, ninguém se preocuparia com estas crenças. Num momento altamente traumático como o actual, a opinião pública revoltou-se e não compreendeu a posição perante a Rússia ou os ataques ao Ocidente. Na verdade, existem alternativas à democracia liberal. Na Rússia, na China, na Arábia Saudita, no Irão, na Venezuela, na Turquia, na Coreia do Norte, em Cuba, etc. Alguém estará interessado em viver nesses regimes? As democracias liberais não são perfeitas. Longe disso, mas são o melhor que a humanidade conseguiu imaginar para assegurar uma vida em sociedade decente. Do ponto de vista moral, qualquer alternativa é pior, muito pior.
quarta-feira, 16 de março de 2022
A Garrafa Vazia 81
segunda-feira, 14 de março de 2022
Beatitudes (50) Lentidão
| Jenoe Dulovits, Dusty Street, Austria/Hungary, 1937 |
sábado, 12 de março de 2022
Nocturnos 74
| Jackson Pollock, Night Sounds, 1944 |
quinta-feira, 10 de março de 2022
A persistência da memória (9)
| Edward Weston, Wrecked Car, Crescent Beach, British Columbia, 1939 |
terça-feira, 8 de março de 2022
A Garrafa Vazia 80
domingo, 6 de março de 2022
Ucrânia: tentar compreender o inaceitável
Independentemente do que significa o acto de agressão à Ucrânia no contexto geoestratégico, independentemente da sorte das armas, pode-se tentar compreender – e compreender não é justificar – as motivações do Kremlin para uma atitude inaceitável. A tarefa não é fácil pois, como acontece com o terrorismo islâmico, a cultura política que Putin e o seu círculo trouxeram é-nos absolutamente estranha. Três palavras podem ser chave para o início da compreensão das motivações russas: segurança, organicismo e tradição.
Segurança. Em Julho de 21, Vladimir Putin promulgou a nova Estratégia de Segurança Nacional da Rússia. Nela é sublinhado que a NATO é o principal inimigo. A aproximação da organização militar ocidental das fronteiras russas, a grande ameaça. A hipotética adesão da Ucrânia à NATO representaria, assim, um perigo extremo e intolerável à segurança da Rússia. O que é estranho é que se estava longe de esgotar as possibilidades de assegurar, por via pacífica, uma neutralidade de Kiev. Não se estava perante um perigo iminente para a segurança de Moscovo. Outras motivações contribuíram para a decisão.
Organicismo. Em Março de 18, no The New York Review, o historiador Timothy Snyder escreve um longo ensaio com o título “Ivan Ilyin, Putin’s Philosopher of Russian Fascism”. Snyder desenha o trajecto desse obscuro filósofo russo, defensor do fascismo e do nazismo, chamando a atenção para o facto de Putin e os que o rodeiam serem profundamente influenciados por ele. Possuía uma visão orgânica da sociedade russa (esta seria um corpo vivo), na qual se incluía a própria Ucrânia, cuja existência separada era negada por Ilyin. A tomada da Crimeia e o apoio aos separatistas russos do Donbass são um passo de reconstituição desse organismo vivo – e sagrado – que é a Rússia. Como se percebeu das palavras de Putin, antes de desencadear a invasão, a Ucrânia não tem razão de ser, faz parte do corpo vivo – dotado de alma – que é a Rússia. Na invasão, a aposta mínima será a Crimeia e, talvez, o Donbass, mas o melhor seria trazer a Ucrânia e reconstituir esse grande organismo vivo, sagrado e mártir que é a pátria russa.
Tradição. No documento da Estratégia de Segurança não existem apenas questões militares. Há outras a que nós, ocidentais, não prestamos atenção. No capítulo III, Interesses Nacionais da Federação Russa e Prioridades Estratégicas Nacionais, em 25. 5), é posto como objectivo: Fortalecimento dos valores morais e espirituais da Rússia tradicional e preservação da herança cultural e histórica do povo Russo. Para a elite política russa, alinhada com o pensamento de Ivan Ilyin, os valores ocidentais, baseados no individualismo, no Estado de direito, na democracia liberal e na liberdade são uma ameaça perigosa, pois promovem a dissolução da tradição russa, põem em causa a vida orgânica da pátria. Uma Ucrânia democrática, liberal, modernizada e ocidentalizada, mesmo que pacífica, é sentida como um perigo que poderá contaminar a alma russa.
As questões de segurança podem servir como alibi. No entanto, as motivações humanas não se limitam à segurança nem, tão pouco, à economia, como pensamos. A Rússia parece mover-se por um ideal de reconstrução de uma visão pré-moderna da sociedade, utilizando, de forma brutal, aquilo que a tecnologia moderna tem para oferecer. Putin não se vê, por certo, como um mero político, nem sequer como um simples autocrata. Ele é o salvador e protector de um organismo sagrado, lutando contra as ameaças física e morais da tradição ortodoxa russa. Tudo isto é, para nós, incompreensível e intolerável.
sexta-feira, 4 de março de 2022
A natureza das coisas
Há quem
defenda, mesmo nesta hora terrível para a Europa, o fim da NATO e a
desmilitarização da União Europeia. O que significaria isso para os europeus?
Pura e simplesmente deixá-los à mão de qualquer predador que se se sentisse
esfomeado. Só a cegueira ideológica e um ódio contumaz aos EUA, fundado no mais
puro ressentimento, podem justificar esta posição. Os EUA são uma potência
imaculada, têm as mãos limpas de sangue, abraçam sempre e só as melhores
causas? A resposta a qualquer uma dessas questões é a mesma: não. Aqui, porém, devemos
voltar à perícope da adúltera, à injunção com que Cristo responde a escribas e
fariseus a propósito de uma mulher apanhada em adultério: Aquele que dentre
vós está sem pecado, seja o primeiro que lhe atire uma pedra.
As potências, grandes, médias ou pequenas, agem sempre de acordo com a leitura que fazem dos seus interesses. Por muito que todos nós gostássemos, não é possível dobrá-las ao direito e muito menos à moral. O respeito pelo outro e a convivência pacífica resultam não da bondade intrínseca dos poderes deste mundo, mas do medo que têm uns dos outros. Esse medo é o melhor conselheiro e o promotor da sensatez. Quando as potências se sentem livres, não hesitam em intervir violentamente em defesa dos seus interesses, como se está a assistir com a invasão russa da Ucrânia. Não é Kant que rege as relações internacionais. É Maquiavel. Ora, os EUA, descontando o poderio, é igual a qualquer outra potência. Rege-se pelos mesmo princípios. Tem, contudo, em relação à Europa, incluindo Portugal, uma vantagem. Partilha com ela os grandes valores e uma certa interpretação do mundo. Há uma comunidade de vida. Se a NATO existe é, tendo em conta o que são as relações internacionais, para defender essa comunidade de vida.
Imaginemos que a NATO acabava, que a União Europeia de desmilitarizava ainda mais. Quem a defenderia de um ataque? Enquanto os lobos fortalecem os músculos e treinam os maxilares, defender que sejamos todos um rebanho de inocentes cordeiros não é apenas uma idiotice. É pior que isso. Isto não significa que devamos querer participar em aventuras bélicas, que queiramos espalhar os nossos valores através da força das armas. Significa apenas um sinal para fora. Significa que haverá um preço a pagar em caso de qualquer agressão. Felizmente, a Europa, que durante décadas tergiversou sobre a sua responsabilidade de autodefesa, percebeu isso nesta hora. Foi preciso a tragédia da guerra na Ucrânia. Acabar com a NATO? Desmilitarizar a Europa? Isso seria uma traição inominável aos povos europeus.
quarta-feira, 2 de março de 2022
A história em movimento
O conflito
entre a Rússia e a Ucrânia, devido à dimensão de violência que pode gerar,
acaba por ocultar uma outra questão. Trata-se do casamento entre um
nacionalismo extremado e a figura de um líder forte. Aqui líder forte funciona
como um eufemismo para não escrever ditador. Neste momento, existem na prática
dois líderes mundiais claramente reconhecidos como tal, Vladimir Putin e Xi Jinping,
ambos nacionalistas e ambos autocratas. Se olharmos para o mundo democrático,
que lideranças encontramos que possam fazer frente aos desmandos da Rússia, por
exemplo? Boris Johnson? Emmanuel Macron? Olaf Scholz? Nenhum destes homens tem
os meios ou a determinação dos autocratas russo e chinês. E Joe Biden? Este tem
os meios, mas terá a vontade, a energia e o carisma?
O que se pretende sublinhar é que, mais uma vez na história, a figura do líder forte, do autocrata impiedoso, começa a ganhar o coração dos eleitores. Já entrou na própria União Europeia, instalando-se na governação de alguns países, subvertendo as regras do Estado de direito, sem que isso tenha gerado uma reacção convincente por parte dos grandes países democráticos da União. Além disso, o progresso do fascínio popular com líderes nacionalistas continua. Em França, as sondagens para uma eventual segunda volta das presidenciais têm dado cerca de 45% à senhora Le Pen. Em Espanha, o Vox – um partido nacionalista de vocação autocrática – começa a aparecer nos inquéritos de opinião à frente da direita democrática. O espírito do tempo – isto é, o medo dos eleitores, a impotência das elites democráticas, a cultura de confronto trazida pela extrema-direita – parece estar propício à emergência de novas experiências autoritárias, que se irão instalando com o apodrecimento das democracias liberais.
O nacionalismo e as lideranças fortes já conduziram a Europa e o Mundo a duas guerras mundiais. Se alguém pensa que neste momento a União Europeia é uma força para impedir a vitória dos nacionalismos na sua própria casa, o melhor é fazer contas e olhar para a realidade. Não apenas não existe uma liderança forte e mobilizadora para o projecto europeu, como a memória histórica está a dissolver-se. A segunda grande guerra acabou há mais de 75 anos. A grande maioria das pessoas não faz qualquer ideia do horror que ela foi ou como o nacionalismo e os líderes fortes conduziram a humanidade para o matadouro. Por outro lado, há cada vez mais gente disposta a trocar a convivência europeia pelo fervor nacionalista. A história não parou, como Vladimir Putin está a explicar ao mundo. Para os homens comuns não há coisa pior do que a história em movimento.
[Este artigo foi escrito no dia 21 de Fevereiro e publicado 1 a de Março.]
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022
Pulsão suicidária
| Albert Bloch, Suicide, 1911 |
sábado, 26 de fevereiro de 2022
Um tempo de Requiem
| Arnulf Rainer, Croce, 1956 |
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022
A Garrafa Vazia 79
| Gárgula do Mosteiro da Batalha (Origem da Foto: Coisas do Arco da Velha - Museu do Imaginário) |
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022
O progresso moral da humanidade (5)
| Alexey Titarenko, Crowd 2, St. Petersburg, Russia, 1993 |
sábado, 19 de fevereiro de 2022
A questão central da política
O que motivará a cegueira e a surdez tanto dos cidadãos como dos responsáveis políticos? Há, claro, razões económicas, socias e psicológicas, as quais, por norma, são arroladas como causa da incapacidade em lidar com a ameaça. Contudo, o problema tem uma natureza política e reside no esquecimento daquilo que nos torna animais políticos e, consequentemente, aquilo que a política deve, antes de tudo, cuidar. O que está em jogo na política, como sublinhou Hannah Arendt na leitura que fez dos gregos, é a imortalidade da espécie humana. Não se trata de uma imortalidade metafísica, mas da prosaica persistência da espécie ao cimo deste planeta. A política existe, em primeiro lugar, porque a espécie humana está, continuamente, em vias de extinção. A política é o antídoto a essa ameaça.
A modernidade, a partir de certa altura, esqueceu essa função originária da política. Embrenhou-se nos debates entre liberdade e igualdade, entre tradição e inovação, entre conservar e progredir. Tudo querelas interessantes, mas que não tocam no problema com que a espécie, neste momento, se confronta: como assegurar a sua imortalidade, isto é, a sua persistência na Terra, agora que, mais que nunca, somos, por culpa própria, uma espécie em vias de extinção? Ora, recentrar a política na questão fundamental é, nos tempos que correm, uma tarefa de Hércules. Como poderemos admitir que, para sobrevivermos enquanto espécie, teremos de nos tornar drasticamente mais pobres, eliminar muitos dos nossos prazeres, compreender que a natureza não é um armazém à nossa disposição? Aqui enfrentamos o maior dos perigos, pois ninguém com um programa adequado à realidade, prometendo empobrecimento e frugalidade, consegue ganhar eleições, e, mergulhados no esquecimento da função originária da política, não se vislumbra tratamento para a surdez e para a cegueira que nos atingem.
















