quinta-feira, 5 de maio de 2022

Nocturnos 79

Dirk de Herder, Stockholm, 1951
Por vezes, as cidades, durante a noite, são tomadas pela loucura. Rasgam os pactos que regem a benevolência e dilaceram-se com a espada vibrante da luz. São um paraíso para quem não suporta o silêncio e a sua própria presença. Outras vezes, deixam-se embalar pela sonolência que desliza da iluminação pública e tornam-se uma paisagem lunar onde os seres sonâmbulos caminham sem perigo à espera da aurora. 

terça-feira, 3 de maio de 2022

Simulacros e simulações (34)

Frank Horvat,  Elstree Film Studios, filming Moby Dick, 1954

O cinema simula de tal modo a realidade que a fronteira entre ela e a fantasia se foi esbatendo lentamente. Entre o que o ecrã mostra e o que vivemos reina a pura continuidade. A mais estranha consequência recai sobre nós, os mortais. Conforme a fronteira se ia diluindo, íamo-nos desrealizando, perdendo a consistência até chegarmos ao momento em que cada um é apenas o simulacro de si mesmo.

domingo, 1 de maio de 2022

Respirar fundo


No domingo, 24 de Abril, respiraram fundo todos aqueles que valorizam a União Europeia (UE) e o seu modo de vida. As eleições francesas não diziam apenas respeito aos franceses. Nelas jogava-se o destino do projecto europeu tal como o conhecemos. Uma vitória da senhora Le Pen seria não apenas um presente para Putin, mas uma bomba de fragmentação sobre a UE. Aquilo que lhe poderia acontecer não seria muito diferente daquilo que aconteceu ao bloco de Leste, quando a União Soviética implodiu. Em poucos anos voltariam as velhas rivalidades, incendiadas pelos nacionalismos, e o espaço que agora constitui a UE seria constituído por Estado nacionais irrelevantes no contexto internacional, em conflito entre si e, muito provavelmente, sob o pastoreio da Rússia. A eleição da senhora Le Pen seria a primeira pedra, na Europa Ocidental, da construção da Eurásia.

A vitória de Macron, porém, não deve tranquilizar, pois o mal-estar que assola França não deixou de existir. Vale a pena dar atenção a um estudo do jornal francês Le Parisien. Há claramente um problema de luta de classes. Enquanto os quadros e os profissionais intermédios (classes médias) votam maioritariamente em Macron, com destaque para os primeiros, os empregados e os operários votam em Le Pen. Se se olhar para o rendimento, aqueles que têm um rendimento familiar limpo acima de 3 000€ votam, preferencialmente, em Macron. Aqueles cujo rendimento familiar é inferior a 1250€ inclinam-se para Le Pen. Este eleitorado era, antigamente, o suporte da esquerda, do PCF e do PSF. Estes partidos são hoje quase inexistentes e os seus eleitores transitaram, em grande parte, para a extrema-direita. Mais que a questão da imigração e do Islão, é a distribuição da riqueza que alimenta o crescimento da extrema-direita.

Este problema não é apenas francês. Atinge o projecto europeu, enquanto construção democrática. As políticas liberais adoptadas nos últimos decénios têm criado uma vaga de ressentimento entre aqueles que perdem com essas políticas, e esses são muitos. Macron tem cinco anos – caso tenha sorte nas legislativas – para resolver este problema e evitar uma catástrofe nas próximas eleições. Isso, porém, não basta. É necessário que a UE reconsidere as suas políticas e os resultados do impacto delas no crescimento de descontentes e, concomitantemente, da extrema-direita. Os regimes democráticos dependem da existência de grandes classes médias. Se estas são destruídas por políticas liberais, parte do eleitorado sente que não tem nada a perder e, tomado pela cólera (uma palavra muito presente na política francesa), não se importa de fazer explodir o sistema. 

sexta-feira, 29 de abril de 2022

A Garrafa Vazia 86

Francisco Farreras, Coudrage N.º 118, 1985

Recolho-me à terra calcinada,

as costas torcidas

pelo peso da penumbra.


A glória do fogo ateou

ondas de breu

no azedume das terras.

 

Fornalhas de morte habitam

nos sonhos de chumbo,

na fria fantasia das trevas.

 

Sou a sombra perdida

na incendiada

sonolência do entardecer.

 

Abril de 2022

 

quarta-feira, 27 de abril de 2022

A persistência da memória (12)

Hans Kammerer, Am Fenster, 1920s 
Abrir a janela e deixar o tempo deslizar diante dos olhos. Com ele, vêm pessoas, animais, restos de vida que se exibem como se a rua fosse um palco e a janela, um camarote. Por detrás desse rio de acontecimentos esconde-se um outro de águas subterrâneas. Aí, sem que ninguém se aperceba, desfila a memória do que se viveu, os grandes acontecimentos, as coisas sem importâncias, todas as dúvidas que se teve, todas as certeza que a vida rasurou.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

A maior conquista

Imagem do site da Time Out Lisboa

A dimensão do 25 de Abril de 1974 não é dada apenas por aquilo que permitiu construir, e o que permitiu construir não foi pouco, mas também por aquilo que substituiu. E o que substituiu não foi só um regime político de partido único, autoritário, com polícia política, prisões políticas, tribunais plenários, assassinatos de oposicionistas, censura (um aparelho ideológico fundamental do regime), purgas nas universidades, uma guerra colonial em três frentes para a qual não se vislumbrava qualquer solução. Substituiu também um país miserável, atrasado, fechado ao mundo, largamente analfabeto, quase desprovido de cuidados médicos generalizados e de segurança social. Um país política, social e moralmente miserável. 

As vicissitudes que depois nos trouxeram até aqui – um sítio incomparavelmente melhor, apesar de algumas almas suspirarem pelo ditador de Santa Comba – são o resultado das nossas opções feitas livremente. Não foram impostas. Foram escolhidas eleição a eleição, num sistema eleitoral altamente fiável e nunca posto em causa. No regime de Salazar e de Caetano, tínhamos a desculpa – real – de que o que acontecia era imposto através da violência política. O que nos acontece hoje é da nossa responsabilidade. Somos nós que escolhemos – ou nos abstemos livremente – os políticos e os programas que nos governam. A nós se deve o mérito e o demérito das opções. Essa foi a maior, mas também a mais pesada, conquista de 25 de Abril, a liberdade e a responsabilidade pelas nossas opções.

sábado, 23 de abril de 2022

Guerra na Ucrânia, Le Pen e nacionalismo


1. O primeiro derrotado da guerra na Ucrânia. Um dos postulados centrais do pensamento liberal é a crença de que a conexão comercial entre as nações as torna menos propensas à guerra. Foi por isso que parte substancial da União Europeia, com a Alemanha à cabeça, se tornou dependente da energia russa. Também o dinheiro dos oligarcas russos foi aceite com deferência pelos países europeus. Havia a convicção de que uma cada vez maior interconexão económica entre a União Europeia e a Rússia tornaria esta uma potência comercial pacífica. Essa crença mostrou-se falsa e perigosa. O que move os governos não é apenas o comércio, como os europeus estão a aprender desde 24 de Fevereiro. O postulado liberal da expansão comercial como factor de paz é o primeiro derrotado da guerra na Ucrânia.

2. A senhora Le Pen e o Estado de direito. Na última crónica escrevemos que quando os populistas chegam ao poder, o primeiro alvo é o Estado de direito. Como é que isso se aplicará em França, caso a senhora Le Pen ganhe as eleições de domingo? Segundo Jorge Almeida Fernandes, numa newsletter do Público, a “mola central do seu modelo institucional é o recurso maciço ao referendo como meio de contornar o parlamento. Quer generalizar o “referendo de iniciativa cidadã” sobre todos os assuntos para, entre outras coisas, anular leis aprovadas no parlamento”. O referendo é a estratégia central que os populismos utilizam para destruir o Estado de direito, desarticular a democracia representativa e instaurar paulatinamente uma governação autoritária. O referendo é o instituto que mais se presta a tomadas de decisão fundadas em emoções, onde a racionalidade das escolhas é substituída pelo fervor que os hooligans políticos ateiam na comunidade.

3. Nacionalismo. A invasão russa e a força da senhora Le Pen em França são sintomas de uma das doenças que contamina o mundo. O nacionalismo. Ela tinha-se manifestado na eleição de Donald Trump e no Brexit, mas existia já, de modo ostensivo, na Índia e na China, assim como na Rússia ou na Turquia. Há décadas que a doença se manifesta em muitos países da União Europeia. Depois da Guerra Fria, com a globalização, estabeleceu-se um novo confronto que opõe cosmopolitas, defensores de um mundo aberto, e nacionalistas, amigos das fronteiras e do etnocentrismo. Durante anos, falou-se no fim do Estado-Nação. A verdade é que ele parece mais forte, arrastando consigo um nacionalismo perigoso. Em caso de implosão da União Europeia, a própria Europa será um campo aberto para conflitos entre os seus múltiplos nacionalismos, o que a condenará, sem apelo, à mais pura irrelevância.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

A Garrafa Vazia 85

Lucio Muñoz, 7-86, 1986

Arrasto pelas ruas

o peso e a poeira

da frivolidade.

 

Bebo a seiva fria

no álcool turvo

do sangue.

 

Sou a sombra presa

na porosa pedra

do silêncio.


Abril de 2022

 

terça-feira, 19 de abril de 2022

A persistência da memória (11)

Alfred Stieglitz, The Terminal, 1893

Temos a estranha ilusão de que o tempo passa cada vez mais rápido, que existe uma aceleração do calendário. Essa fantasia nasce não porque o tempo se tenha acelerado, mas porque nós nos movemos muito mais depressa e as solicitações a que temos de responder são cada vez mais. É na conjugação da mobilidade crescente e do aumento das solicitações que nasce a sensação e o sentimento de que os dias, os meses e os anos são cada vez mais curtos. Essa sensação e esse sentimento são uma forma de protesto contra a realidade em que a vida se transformou e estão enraizados numa experiência arcaica da lentidão e num desejo inconsciente de imobilidade. 

domingo, 17 de abril de 2022

Nocturnos 78

Alfred Stieglitz, Reflections, Night–New York, 1896

As cidades nasceram para que a noite se iluminasse, tomada pelos reflexos fugidios de uma luz sem constância. Esse desassossego com a escuridão, a impossibilidade de permanecer diante da noite pura, é apenas o sinal de um desassossego maior, mais fundo, o de suportar a luz viva de cada dia.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Simulacros e simulações (33)

John Loengard, Henry Moore’s Sheep Piece,1983

Qual a ovelha real? Aquela que, de carne viva, se perde na neve fria, ou a que de bronze imutável manifesta a pura ideia de ovelha? Muitos não terão dúvidas sobre a realidade da ovelha de carne viva. Haverá, porém, quem veja na de bronze a eterna realidade da qual a ovelha viva é pura simulação. Não haverá, para esses, outra realidade que a dos simulacros, pois tudo o que é não passa de um simulacro de outra coisa, numa regressão sem fim. A realidade é a eterna simulação de si mesma.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Entre a liberdade e a fraternidade

Eugène Delacroix, La Liberté guidant le peuple, 1830

Se se somarem os votos em candidatos marcadamente iliberais ou antiliberais, na primeira volta das eleições franceses, o número a que se chega é espantoso: 61,1%. Este é o eleitorado potencial da senhora Le Pen. Resta saber, porém, como se comportará o eleitorado de esquerda não liberal (cerca de 25%). O que vai ser preponderante na altura de votar, se a memória do que foi a extrema-direita na Europa, se a raiva às instituições liberais. Depende desse eleitorado não apenas o resultado das eleições, mas o destino da Europa. Depende dele que a Liberdade continue a guiar o povo ou se este prefere uma fraternidade, na qual todos, por opção, são menores entregues aos cuidados de uma mãe severa. 

segunda-feira, 11 de abril de 2022

A Garrafa Vazia 84

Franz Josef Kline, Chief, 1950

Um coração de gravilha

pulsa no centro

do mundo.


Rosna em silêncio,

cão raivoso

perdido no serrim da cidade.


Se um punhal lhe toca

a garganta,

regurgita macilento o mal.

 

Abril de 2022

sábado, 9 de abril de 2022

Uma expectativa perigosa

 

Há neste momento, uma expectativa perigosa nas hostes dos que defendem a democracia liberal. Crê-se que o comportamento do Kremlin, com o seu nacionalismo autoritário e agressivo, seja uma vacina, no mundo democrático ocidental, contra os candidatos a Putins – de calças ou de saias – que por aí proliferam. Parece-me precipitado este pensamento. Caso assim fosse, a senhora Le Pen estaria em queda acentuada em França. Em Espanha, a direita democrática estar-se-ia a livrar do Vox. Só para dar dois exemplos perto de casa. Ora, isso está longe de acontecer. Apesar do apoio que a direita populista, por toda a Europa, tem tido de Putin, ela está a conseguir, aos olhos da opinião pública, demarcar-se do protector e inspirador.

Por que razão esta direita populista é perigosa? Porque põe em causa alguns pilares em que assenta uma vida comunitária decente. Que pilares são esses? O primeiro é o Estado de Direito, em que todos estão submetidos, de modo igual, à lei. Quando os populistas chegam ao poder, o primeiro alvo de ataque é o Estado de Direito. Um segundo pilar é a independência do poder judicial relativamente aos governos. Esta independência permite evitar que os que governam utilizem a justiça para perseguir os adversários. O terceiro pilar é uma comunicação social livre, que qualquer populismo, instalado na governação, trata de reprimir e abolir. O quarto pilar, vindo do século XVII, é a tolerância por aqueles que são diferentes. Também este é atacado pelo populismo nacionalista, ainda antes de chegar ao poder e como táctica para o conquistar.

Há um outro motivo pelo qual o populismo nacionalista é muito perigoso. Vive de rivalidades e de afirmação da supremacia de uma soberania nacional sobre outras, tal como se vê no presente caso da Ucrânia. Mesmo na Europa, isso é uma ameaça. Basta que a União Europeia desapareça. Por estranho que possa parecer, essa possibilidade continua no horizonte. Um triunfo do populismo nacionalista em França ou na Alemanha e estamos num grande sarilho. A partir desse momento, toda a Europa se tornará palco para as mais descabeladas aventuras nacionalistas. Não faltam por aí fronteiras em disputa. Não é por acaso que Putin – em certa altura com ajuda de Trump – tem tentado desarticulá-la. Os conflitos intra-europeus permitiriam à Rússia tornar toda a Europa um protectorado seu. Contrariamente ao que muitos pensam, não é seguro que a aventura de Putin represente um reforço das democracias liberais. Estas continuam frágeis e sobre ataque cerrado dos que desprezam os pilares em que elas assentam.

Post Scriptum. Este artigo foi escrito no já longínquo dia 27 de Março de 2022 e publicado na edição de ontem, 8 de Abril, do Jornal Torrejano. Neste curtíssimo intervalo, os motivos de inquietação cresceram. Não apenas com a vitória larguíssima de Viktor Orbán na Hungria, como com a possibilidade cada vez maior da senhora Le Pen ganhar as eleições francesas, com sondagens a dar-lhe vitória na segunda volta.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Beatitudes (51) Vale a pena

Jean Dieuzaide, Catalogne romane, San Jaime de Frontanya, 1957

Existem paisagens cujas raízes mergulham fundo na terra dura do tempo. Fulguram perante olhos atónitos e quem as vê sente, de súbito, a púrpura e o ouro da felicidade. Perante elas o olhar não se cansa e as preocupações da vida, o troar dos cascos dos quatro cavaleiros do apocalipse, tudo em que o mal toma figura é posto de lado, suspenso, para que o coração, por instantes, se dilate, e o no rosto se abra um enigmático sorriso. Depois, é-se atravessado por um pensamento: apesar de tudo, vale a pena. 

terça-feira, 5 de abril de 2022

Nocturnos 77

Herbert List, The Acropolis, 1937
Não foi a noite que desceu sobre a Acrópole. Foi ela que se retirou para junto dos deuses abandonados, essas divindades quase humanas, tomadas pela fulguração do efémero, pela cintilação do transitório. No seu lugar, restam simulacros feitos de pedra, vestígios de vida envoltos na escuridão do luto.

domingo, 3 de abril de 2022

A Garrafa Vazia 83

Elmer Bischoff, #88, 1985

Tiro do braço partido

o gesso carbonizado

da cólera.

Olho em silêncio

a pele esbranquiçada,

adivinhando

o osso recomposto,

a vida refeita,

a incúria a grassar

nos recantos do quintal.


Abril de 2022

 

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Voltámos à Montanha Mágica


Imaginemos que estamos na montanha mágica, no sanatório de Davos, onde se desenrola o romance de Thomas Mann, precisamente com o título de A Montanha Mágica, obra começada a escrever em 1912 e terminada em 1924. Façamos ainda um esforço imaginativo e pensemos o mundo como se fosse esse jovem engenheiro naval de nome Hans Castorp, personagem principal do romance de Mann.

Olhemos para o que acontece em torno do jovem Castorp. A educação do seu espírito é disputada, não sem violência, pelo italiano Lodovico Settembrini e pelo judeu oriental – talvez, imaginemos, um sefardita – Leo Naphta. O italiano é o representante do Iluminismo, da democracia liberal e da liberdade individual. Naphta é um converso ao catolicismo, mas a um catolicismo ultramontano, integrista. É um espírito jesuítico exaltado que despreza as liberdades individuais e defende um colectivismo meio comunista, meio eclesiástico.

O espantoso neste exercício de imaginação é que descobrimos de imediato que o mundo, no século XXI, caiu na montanha mágica, onde duas forças se opõem de modo cada vez mais violento. Por um lado, o mundo ocidental, tomando a figura de Lodovico Settembrini. Como este, o Ocidente é marcado pelo espírito liberal, pela defesa da democracia representativa, pela economia de mercado, pela afirmação plena da liberdade individual. O mundo, todavia, não é apenas o lugar dos amigos do italiano imaginado por Mann. 

Nele, há muitos discípulos de Leo Naphta. O terrorismo islâmico, por exemplo, não desdenharia de Naphta, as seitas neopentecostais também não, assim como os católicos ortodoxos que desprezam o Papa Francisco, ou a extrema-direita europeia e americana. Contudo, a manifestação mais clara do espírito de Leo Naphta encarna neste momento em Putin e no Patriarca moscovita Cirilo. A invasão da Ucrânia não é outra coisa senão uma luta contra a liberdade, a democracia liberal, o respeito pelos indivíduos. Faz parte da actual guerra contra a herança do Iluminismo.

Voltámos ao tempo do conflito entre as Luzes e o clericalismo farisaico e supersticioso, entre a ideia de império e o cosmopolitismo. Só que este conflito, não se faz com palavras e exercícios de retórica para cativar um espírito jovem e indeciso. Faz-se com a destruição massiva de um país, com o massacre de inocentes, com tudo aquilo que a guerra traz consigo. Voltámos para a montanha mágica e o que vemos não é agradável. Em silêncio, sentado à sombra do velho Confúcio, outro personagem espera que Settembrini e Naphta se aniquilem. O espírito de Hans Castorp, então, será seu, assim como a montanha mágica. Sem disputa nem controvérsia.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Nocturnos 76

Michael Kenna, La Place de la Concorde

A noite não é a luz que a ilumina, nem a presença da pura escuridão, nem o nó em que o dia se aperta ao desaparecer. A noite é apenas a memória que se apaga, o esquecimento que turva, com densa melancolia, a claridade que se espera.

segunda-feira, 28 de março de 2022

Simulacros e simulações (32)

W. Eugene Smith, Ku Klux Klan meeting. South Carolin, USA, 1950’s

Imaginam-se heróis com causa, simulam-se como seres superiores, uma raça eleita. Não passam, porém, de simulacros de homens, cópias falhadas de um modelo que os rejeitou para os confins esconsos da infra-humanidade.

sábado, 26 de março de 2022

A persistência da memória (10)

Bernard Eilers, Amsterdão, 1920

Um século atrás ainda as cidades eram pouco mais do que uma espécie de excrescência da harmonia dos campos, onde a vida apressada era vivida à velocidade da tracção animal, não muito diferente do que seria há séculos ou milénios. O demónio da mobilidade já as habitava, mas ainda não ganhara coragem para se manifestar de forma decisiva e tornar a vida citadina numa ebulição contínua, num nunca parar da azáfama que envolve os homens num torvelinho, girando continuamente sobre si, cada vez mais rapidamente, expulsando-os um a um para o lugar de onde não há retorno.

quinta-feira, 24 de março de 2022

A Garrafa Vazia 82

Raoul Dufy, La cosecha, 1919

A seara suja ondula

ao sabor do sangue,

movida pelo ritmo

diurno da escuridão.


A seara suja flutua

sobre o silêncio,

cravejada de rubis:

coroa da crueldade.


Março de 2022

 

terça-feira, 22 de março de 2022

Guerra metafísica

Giorgio de Chirico, Gladiadores y león, 1927
Uma guerra metafísica pela salvação humana, assim considera Cirilo, patriarca de Moscovo e líder da Igreja Ortodoxa Russa (ver aqui), a invasão da Ucrânia. Como se vê, não é apenas no mundo islâmico que a guerra é vista como um meio de salvação e de fazer frente aos infiéis. O pior é que Cirilo e Putin estão completamente alinhados. Não se trata de ocupar um país soberano, mas de salvar  o mundo, libertá-lo dos perigosos valores ocidentais. Esta resistência aos valores ocidentais e a defesa dos valores tradicionais russos estão, inclusive,  plasmadas na Nova Estratégia de Segurança Nacional da Rússia. Quando as guerras são por motivos económicos, a sensatez chega mais cedo. Quando são desencadeadas pela loucura de salvar a humanidade ou para proteger a pureza de uma suposta tradição, há que esperar o pior. E o pior começa com a mobilização de uma religião, cujo fundador deu a sua vida em nome da salvação dos homens. Deu a sua, não a dos outros. Ao patriarca Cirilo não o incomoda que o sacrifício não seja o seu, mas o de milhares de inocentes. 

domingo, 20 de março de 2022

Nocturnos 75

Jerry Schatzberg, Red Hat, Faye Dunaway, 1968
Por vezes, no mundo, não há outra luz senão a que vem de um rosto que fugiu do império da escuridão. Nessa luminosidade, articula-se a gramática que estende uma corda entre as trevas da meia-noite e a mais pura cintilação do meio-dia.

sexta-feira, 18 de março de 2022

A ilusão de um outro mundo

Um dos danos colaterais da guerra na Ucrânia aconteceu na esquerda do sistema partidário português. O bombardeamento caiu em cima do Partido Comunista e muitos estilhaços atingiram o Bloco de Esquerda, apesar de ter sido mais lesto e competente em distanciar-se da invasão russa. A guerra na Ucrânia está a ser sentida de forma muito traumática pelas opiniões públicas europeias. Há nessas reacções várias coisas. A estupefacção pela invasão de um país europeu por outro, a brutalidade da intervenção, a incompreensão das razões que assistem aos russos, a percepção de que estes se tornaram um perigo para segurança da Europa. No caso português, também a simpatia que os imigrantes ucranianos geraram no convívio com os portugueses.

Até à Queda do Muro de Berlim, essa esquerda viveu na crença de que havia um mundo melhor do que aquele em que vivemos. Fosse a União Soviética, a China maoísta ou a Albânia. O mundo ocidental – democrático e liberal – era aquilo que deveria ser destruído, trocado por outros mundos inspirados nas revoluções comunistas. Com o fim dos regimes de leste, muitas pessoas compreenderam que aqueles eram altamente ineficientes, corruptos e opressivos. Compreenderam que não havia qualquer mundo melhor que pudesse ser trazido por uma revolução. Os europeus sentiram que viviam no melhor dos mundos possíveis, um mundo mais eficiente, menos corrupto e muito mais livre. Esse mundo é o que é defendido pela NATO, pelos EUA e pela União Europeia, com todos os defeitos e perversões que se conhecem.

Foi o ataque frontal a este mundo pelo PCP e, embora de modo mais dissimulado, pelo BE que fez desabar sobre eles uma tempestade. Estes partidos continuam a viver na ilusão de uma alternativa às democracias liberais. Crêem que as forças que impedem o advento desse admirável mundo novo são a NATO, os EUA e a União Europeia. Em tempos normais, com excepção das pessoas mais politizadas, ninguém se preocuparia com estas crenças. Num momento altamente traumático como o actual, a opinião pública revoltou-se e não compreendeu a posição perante a Rússia ou os ataques ao Ocidente.  Na verdade, existem alternativas à democracia liberal. Na Rússia, na China, na Arábia Saudita, no Irão, na Venezuela, na Turquia, na Coreia do Norte, em Cuba, etc. Alguém estará interessado em viver nesses regimes? As democracias liberais não são perfeitas. Longe disso, mas são o melhor que a humanidade conseguiu imaginar para assegurar uma vida em sociedade decente. Do ponto de vista moral, qualquer alternativa é pior, muito pior.

quarta-feira, 16 de março de 2022

A Garrafa Vazia 81

J. G. Platzer, La venganza de Sansón
Deixa de lado
taça e copo,
abraça
com a boca
o gargalo
e embriaga-te
com o vinho azedo
das uvas tintas
da vingança.

Março de 2022

 

segunda-feira, 14 de março de 2022

Beatitudes (50) Lentidão

Jenoe Dulovits, Dusty Street, Austria/Hungary, 1937 

Vivemos siderados pela potência das máquinas e pela vertigem da velocidade, numa tentativa desesperada de eliminar o tempo. Ansiamos sempre por ir mais depressa. A exuberância do desejo, porém, oculta uma infelicidade insuportável, a de já não sermos capazes de nos enraizarmos num lugar e de nos deslocarmos segundo a lenta mobilidade que a biologia, humana ou animal, permite. A infelicidade de não sabermos como lidar com o tempo, de não sabermos abrirmo-nos à beatitude da lentidão.

sábado, 12 de março de 2022

Nocturnos 74

Jackson Pollock, Night Sounds, 1944
Não é a púrpura da morte que chega com a noite, nem o vitríolo da melancolia. Tão pouco é o núcleo insaciável da loucura que entra e se instala no sono para desfigurar os sonhos. O que a noite traz é a insalubridade dos sons. Chegam sem fronteiras, ecoam no vazio das ruas. Retinem por dentro do cavalo da insónia.

quinta-feira, 10 de março de 2022

A persistência da memória (9)

Edward Weston, Wrecked Car, Crescent Beach, British Columbia, 1939

O que restará nos objectos que o tempo, a incúria ou a maldade dos homens destroem? Se um dia foram olhados e acolhidos com desejo, talvez nos destroços persista esse desejo. Se foi o amor que os juntou aos homens, pois estes também amam os objectos, será uma réstia de amor que haverá no que naufragou. Se, porém, foram vítimas do ódio e da violência, então as ruínas guardarão em si não apenas a dor, mas o ritmo da violência e a energia do ódio.

terça-feira, 8 de março de 2022

A Garrafa Vazia 80

John Constable, Cloud Study, 1822
Deixa-te de alvoroços.
Os dias são nuvens
carregadas de pedras,
ardis de onde desabam
o calcário da traição
e o granito da aleivosia,
a água sulfúrea
com que atulhas
os cântaros do abandono.

Março de 2022

domingo, 6 de março de 2022

Ucrânia: tentar compreender o inaceitável

Independentemente do que significa o acto de agressão à Ucrânia no contexto geoestratégico, independentemente da sorte das armas, pode-se tentar compreender – e compreender não é justificar – as motivações do Kremlin para uma atitude inaceitável. A tarefa não é fácil pois, como acontece com o terrorismo islâmico, a cultura política que Putin e o seu círculo trouxeram é-nos absolutamente estranha. Três palavras podem ser chave para o início da compreensão das motivações russas: segurança, organicismo e tradição.

Segurança. Em Julho de 21, Vladimir Putin promulgou a nova Estratégia de Segurança Nacional da Rússia. Nela é sublinhado que a NATO é o principal inimigo. A aproximação da organização militar ocidental das fronteiras russas, a grande ameaça. A hipotética adesão da Ucrânia à NATO representaria, assim, um perigo extremo e intolerável à segurança da Rússia. O que é estranho é que se estava longe de esgotar as possibilidades de assegurar, por via pacífica, uma neutralidade de Kiev. Não se estava perante um perigo iminente para a segurança de Moscovo. Outras motivações contribuíram para a decisão.

Organicismo. Em Março de 18, no The New York Review, o historiador Timothy Snyder escreve um longo ensaio com o título “Ivan Ilyin, Putin’s Philosopher of Russian Fascism”. Snyder desenha o trajecto desse obscuro filósofo russo, defensor do fascismo e do nazismo, chamando a atenção para o facto de Putin e os que o rodeiam serem profundamente influenciados por ele. Possuía uma visão orgânica da sociedade russa (esta seria um corpo vivo), na qual se incluía a própria Ucrânia, cuja existência separada era negada por Ilyin. A tomada da Crimeia e o apoio aos separatistas russos do Donbass são um passo de reconstituição desse organismo vivo – e sagrado – que é a Rússia. Como se percebeu das palavras de Putin, antes de desencadear a invasão, a Ucrânia não tem razão de ser, faz parte do corpo vivo – dotado de alma – que é a Rússia. Na invasão, a aposta mínima será a Crimeia e, talvez, o Donbass, mas o melhor seria trazer a Ucrânia e reconstituir esse grande organismo vivo, sagrado e mártir que é a pátria russa.

Tradição. No documento da Estratégia de Segurança não existem apenas questões militares. Há outras a que nós, ocidentais, não prestamos atenção. No capítulo III, Interesses Nacionais da Federação Russa e Prioridades Estratégicas Nacionais, em 25. 5), é posto como objectivo: Fortalecimento dos valores morais e espirituais da Rússia tradicional e preservação da herança cultural e histórica do povo Russo.  Para a elite política russa, alinhada com o pensamento de Ivan Ilyin, os valores ocidentais, baseados no individualismo, no Estado de direito, na democracia liberal e na liberdade são uma ameaça perigosa, pois promovem a dissolução da tradição russa, põem em causa a vida orgânica da pátria. Uma Ucrânia democrática, liberal, modernizada e ocidentalizada, mesmo que pacífica, é sentida como um perigo que poderá contaminar a alma russa.

As questões de segurança podem servir como alibi. No entanto, as motivações humanas não se limitam à segurança nem, tão pouco, à economia, como pensamos. A Rússia parece mover-se por um ideal de reconstrução de uma visão pré-moderna da sociedade, utilizando, de forma brutal, aquilo que a tecnologia moderna tem para oferecer. Putin não se vê, por certo, como um mero político, nem sequer como um simples autocrata. Ele é o salvador e protector de um organismo sagrado, lutando contra as ameaças física e morais da tradição ortodoxa russa. Tudo isto é, para nós, incompreensível e intolerável.

sexta-feira, 4 de março de 2022

A natureza das coisas

Há quem defenda, mesmo nesta hora terrível para a Europa, o fim da NATO e a desmilitarização da União Europeia. O que significaria isso para os europeus? Pura e simplesmente deixá-los à mão de qualquer predador que se se sentisse esfomeado. Só a cegueira ideológica e um ódio contumaz aos EUA, fundado no mais puro ressentimento, podem justificar esta posição. Os EUA são uma potência imaculada, têm as mãos limpas de sangue, abraçam sempre e só as melhores causas? A resposta a qualquer uma dessas questões é a mesma: não. Aqui, porém, devemos voltar à perícope da adúltera, à injunção com que Cristo responde a escribas e fariseus a propósito de uma mulher apanhada em adultério: Aquele que dentre vós está sem pecado, seja o primeiro que lhe atire uma pedra.

As potências, grandes, médias ou pequenas, agem sempre de acordo com a leitura que fazem dos seus interesses. Por muito que todos nós gostássemos, não é possível dobrá-las ao direito e muito menos à moral. O respeito pelo outro e a convivência pacífica resultam não da bondade intrínseca dos poderes deste mundo, mas do medo que têm uns dos outros. Esse medo é o melhor conselheiro e o promotor da sensatez. Quando as potências se sentem livres, não hesitam em intervir violentamente em defesa dos seus interesses, como se está a assistir com a invasão russa da Ucrânia. Não é Kant que rege as relações internacionais. É Maquiavel. Ora, os EUA, descontando o poderio, é igual a qualquer outra potência. Rege-se pelos mesmo princípios. Tem, contudo, em relação à Europa, incluindo Portugal, uma vantagem. Partilha com ela os grandes valores e uma certa interpretação do mundo. Há uma comunidade de vida. Se a NATO existe é, tendo em conta o que são as relações internacionais, para defender essa comunidade de vida.

Imaginemos que a NATO acabava, que a União Europeia de desmilitarizava ainda mais. Quem a defenderia de um ataque? Enquanto os lobos fortalecem os músculos e treinam os maxilares, defender que sejamos todos um rebanho de inocentes cordeiros não é apenas uma idiotice. É pior que isso. Isto não significa que devamos querer participar em aventuras bélicas, que queiramos espalhar os nossos valores através da força das armas. Significa apenas um sinal para fora. Significa que haverá um preço a pagar em caso de qualquer agressão. Felizmente, a Europa, que durante décadas tergiversou sobre a sua responsabilidade de autodefesa, percebeu isso nesta hora. Foi preciso a tragédia da guerra na Ucrânia. Acabar com a NATO? Desmilitarizar a Europa? Isso seria uma traição inominável aos povos europeus.

quarta-feira, 2 de março de 2022

A história em movimento

O conflito entre a Rússia e a Ucrânia, devido à dimensão de violência que pode gerar, acaba por ocultar uma outra questão. Trata-se do casamento entre um nacionalismo extremado e a figura de um líder forte. Aqui líder forte funciona como um eufemismo para não escrever ditador. Neste momento, existem na prática dois líderes mundiais claramente reconhecidos como tal, Vladimir Putin e Xi Jinping, ambos nacionalistas e ambos autocratas. Se olharmos para o mundo democrático, que lideranças encontramos que possam fazer frente aos desmandos da Rússia, por exemplo? Boris Johnson? Emmanuel Macron? Olaf Scholz? Nenhum destes homens tem os meios ou a determinação dos autocratas russo e chinês. E Joe Biden? Este tem os meios, mas terá a vontade, a energia e o carisma?

O que se pretende sublinhar é que, mais uma vez na história, a figura do líder forte, do autocrata impiedoso, começa a ganhar o coração dos eleitores. Já entrou na própria União Europeia, instalando-se na governação de alguns países, subvertendo as regras do Estado de direito, sem que isso tenha gerado uma reacção convincente por parte dos grandes países democráticos da União. Além disso, o progresso do fascínio popular com líderes nacionalistas continua. Em França, as sondagens para uma eventual segunda volta das presidenciais têm dado cerca de 45% à senhora Le Pen. Em Espanha, o Vox – um partido nacionalista de vocação autocrática – começa a aparecer nos inquéritos de opinião à frente da direita democrática. O espírito do tempo – isto é, o medo dos eleitores, a impotência das elites democráticas, a cultura de confronto trazida pela extrema-direita – parece estar propício à emergência de novas experiências autoritárias, que se irão instalando com o apodrecimento das democracias liberais. 

O nacionalismo e as lideranças fortes já conduziram a Europa e o Mundo a duas guerras mundiais. Se alguém pensa que neste momento a União Europeia é uma força para impedir a vitória dos nacionalismos na sua própria casa, o melhor é fazer contas e olhar para a realidade. Não apenas não existe uma liderança forte e mobilizadora para o projecto europeu, como a memória histórica está a dissolver-se. A segunda grande guerra acabou há mais de 75 anos. A grande maioria das pessoas não faz qualquer ideia do horror que ela foi ou como o nacionalismo e os líderes fortes conduziram a humanidade para o matadouro. Por outro lado, há cada vez mais gente disposta a trocar a convivência europeia pelo fervor nacionalista. A história não parou, como Vladimir Putin está a explicar ao mundo. Para os homens comuns não há coisa pior do que a história em movimento.

[Este artigo foi escrito no dia 21 de Fevereiro e publicado 1 a de Março.]

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Pulsão suicidária

Albert Bloch, Suicide, 1911
Parece haver no Partido Comunista Português, nesta fase da sua existência, uma pulsão suicidária desmedida. Depois de lhe ter sido aberta a porta para se tornar parte de uma solução para o país, decidiu, em plena crise pandémica, sem que alguém, a não ser os seus dirigentes e quadros, compreendesse a razão e a pertinência, ajudar a derrubar o governo. Pagou, nas urnas, bem caro o gesto. Não contente com isso, embrulhou-se com a invasão russa da Ucrânia, ficando completamente isolado no país. Não apenas dos restantes partidos políticos, mas do cidadão comum, que sente uma indignação moral profunda perante a decisão do Kremlin. É verosímil que muitos dos que ainda votaram na CDU nas últimas eleições se sintam perplexos. Como é possível, perguntarão. O problema para o PCP é que a situação na Ucrânia é de tal modo chocante que dificilmente se lhe perdoará a atitude, contrariamente ao que tem acontecido com as suas posições sobre a Coreia do Norte, a Venezuela ou Cuba. Numa democracia liberal, cada um terá o direito a suicidar-se como bem entender.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Um tempo de Requiem

Arnulf Rainer, Croce, 1956
Um tempo de Requiem. O terrível que está a acontecer na Ucrânia assinala a morte tanto das regras internacionais que resultaram da segunda guerra mundial, como dos novos equilíbrios que emergiram com a queda do Muro de Berlim. Nada permanece. Enquanto houver homens, a história não pára, nem acaba. E a história não é outra coisa senão um cortejo de injustiças, dores, ajustes de contas e violências. Percebe-se bem que certos pensadores desejem abolir a história, chegar ao momento em que já não existe esse trabalho doloroso do negativo, mas o que a experiência tem mostrado é que isso não passa de pura ilusão. Haverá quem argumente de que não podemos justificar a conclusão de que o amanhã será também violento a partir de premissas radicadas na experiência do passado. Numa lógica dedutiva isso é verdade, mas não me parece existir melhor expectativa acerca dos homens do que aquela que diz que o amanhã será, apesar das diferentes figuras que a realidade assume, idêntico ao hoje.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A Garrafa Vazia 79

Gárgula do Mosteiro da Batalha (Origem da Foto: Coisas do Arco da Velha - Museu do Imaginário)
Pela gárgula do tempo
escorre a peçonha
dos dias,
o veneno acidulado
da voracidade,
as letras de câmbio
no balanço
nunca fechado da morte.

Fevereiro de 2022

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

O progresso moral da humanidade (5)

Alexey Titarenko, Crowd 2, St. Petersburg, Russia, 1993
Não se trata sequer do comportamento em grupo assumir os contornos de uma manifestação do mal, como tantas vezes acontece, quando os homens levados pela paixão se sentem confortáveis no meio da massa e cometem os crimes mais hediondos. O próprio deslocar-se em grupo, formar uma massa, mesmo que o motivo seja tão prosaico como ter de ir trabalhar para enfrentar a dura necessidade, é já um sinal não desprezível de algo tenebroso. Essa necessidade de se deslocar no seio do rebanho por pouco que, aparentemente, seja desejada é um sintoma incontestável de que caso exista um progresso moral da humanidade, ele é lento, tão lento que talvez ninguém dê por ele.

sábado, 19 de fevereiro de 2022

A questão central da política


Um dos aspectos centrais da última campanha eleitoral foi o crescimento económico. O Professor Viriato Soromenho Marques, em conferência na Academia de Ciências de Lisboa, sublinha o facto dizendo: “Chegou a ser escandaloso, o conceito de crescimento ocupou o palco como se estivéssemos no século XIX”. No Público de 11 de Fevereiro, António Guerreiro chama a atenção para a grande denegação em que as pessoas e as elites políticas vivem em relação ao gravíssimo problema das alterações climáticas de origem humana. Enquanto um terrível desastre se apresta para chegar, onde a sobrevivência da espécie está em jogo, as pessoas – e os políticos, em primeiro lugar – estão surdas aos avisos e cegas aos sinais que apontam para a catástrofe.

O que motivará a cegueira e a surdez tanto dos cidadãos como dos responsáveis políticos? Há, claro, razões económicas, socias e psicológicas, as quais, por norma, são arroladas como causa da incapacidade em lidar com a ameaça. Contudo, o problema tem uma natureza política e reside no esquecimento daquilo que nos torna animais políticos e, consequentemente, aquilo que a política deve, antes de tudo, cuidar. O que está em jogo na política, como sublinhou Hannah Arendt na leitura que fez dos gregos, é a imortalidade da espécie humana. Não se trata de uma imortalidade metafísica, mas da prosaica persistência da espécie ao cimo deste planeta. A política existe, em primeiro lugar, porque a espécie humana está, continuamente, em vias de extinção. A política é o antídoto a essa ameaça.

A modernidade, a partir de certa altura, esqueceu essa função originária da política. Embrenhou-se nos debates entre liberdade e igualdade, entre tradição e inovação, entre conservar e progredir. Tudo querelas interessantes, mas que não tocam no problema com que a espécie, neste momento, se confronta: como assegurar a sua imortalidade, isto é, a sua persistência na Terra, agora que, mais que nunca, somos, por culpa própria, uma espécie em vias de extinção? Ora, recentrar a política na questão fundamental é, nos tempos que correm, uma tarefa de Hércules. Como poderemos admitir que, para sobrevivermos enquanto espécie, teremos de nos tornar drasticamente mais pobres, eliminar muitos dos nossos prazeres, compreender que a natureza não é um armazém à nossa disposição? Aqui enfrentamos o maior dos perigos, pois ninguém com um programa adequado à realidade, prometendo empobrecimento e frugalidade, consegue ganhar eleições, e, mergulhados no esquecimento da função originária da política, não se vislumbra tratamento para a surdez e para a cegueira que nos atingem.