Tornou-se
manifesta a existência não apenas de um sentimento antiocidental, mas de um
propósito de isolar o Ocidente e destruí-lo. A questão é a de saber o que tem a
cultura ocidental de específico que provoca um ódio tão avassalador noutras
partes do mundo. Alguns ocidentais dirão que o seu comportamento imperialista,
a necessidade de abrir mercados nem que seja pela violência. Ora, essa conduta
não é uma especificidade ocidental, e, por outro lado, os impérios ocidentais ruíram
há muito. A diferença específica geradora de um ódio persistente ao Ocidente é
a liberdade dos indivíduos.
O que marca as
nossas sociedades é não estarmos submetidos a nenhuma religião, podendo-se
adoptar uma ou outra, ou nenhuma. Ser religioso depende da consciência de cada
um, da sua liberdade. Do mesmo modo, ninguém é obrigado a suportar a política
do governo em exercício. Os chefes políticos são governantes transitórios,
sujeitos à lei e à crítica e avaliados nas urnas. Cada um escolhe segundo a sua
consciência, a sua liberdade. Por outro lado, a orientação moral não deriva de
uma moral colectiva, mas de valores que cada um adopta, respeitando o mesmo
direito para os outros, segundo a sua consciência, a sua liberdade. Também a
vida sexual da pessoa, desde que não viole a autonomia de terceiros, é da
responsabilidade da sua consciência, da sua liberdade.
O ódio que os
governantes das potências autoritárias propagam relativamente ao Ocidente
deve-se a este ser um mau exemplo. As sociedades ocidentais evoluíram de modo a
que cada ser humano possa ser um indivíduo responsável pelos seus actos e
dotado de direitos para agir em liberdade, desde que não infrinja direitos de
outros. É isto que não é suportável para as lideranças políticas e religiosas do
mundo submetido ao autoritarismo de tiranos e tiranetes que olham para as
pessoas apenas como membros indiferenciados de um rebanho que deve obedecer,
sempre e em todas as questões, ao pastor de serviço.
A liberdade,
que viu a luz no Ocidente, é uma flor frágil e, na história dos seres humanos, tem sido a excepção e não a regra. A sua defesa, em todas as áreas, religião,
política, moralidade, vida sexual, etc., é uma das tarefas fundamentais dos
dias que correm. Defesa perante as ameaças não apenas dos inimigos externos,
mas também dos que, internamente, sonham em liquidá-la, para repor nas mãos de
um tirano político ou de uma igreja, ou de ambos, o controlo das vidas de cada
um. Defender a liberdade é defender a existência de indivíduos que administram
a sua vida conforme lhes dita a sua consciência, a sua liberdade.