sábado, 15 de abril de 2023

Cardílio (24 sonetos) 11

Imagem obtida através de IA DALL.E 2 da OpenAI

Cânticos invernais soam na luz
De lápides, tijolos ou na dor
Das aves esmagadas pelo mármore
Das horas, pelo ferro do oblívio.

Os deuses estão mortos, as estátuas
De sal jazem erguidas sobre a terra.
Cruéis, torpes, exaustas pelos anos
Que sobre elas velozes se passaram


No ardor dos dias, na rápida e trémula
Cinza, há vencidos pássaros, que cantam,
Que cantam o teu nome enegrecido.

São pássaros finais, grasnam na noite
Sem Lua, na ventania sobre os telhados.
Gritam a triste glória dos vencidos.

2007

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Beatitudes (59) No lago

Paul Pichier, San Vigilio (Gardasee), 1908

Naqueles lugares que só existem no passado, o turismo ainda não tinha chegado com os seus esfaimados devoradores de imagens, nem com os atletas da viagem que em golpes rápidos pousam os olhos nas paisagens para nada verem. A vida vivia-se marcada pela lentidão das águas que no lago atrasavam o passar das horas, abrindo o tempo para que nele os homens se demorassem e deixassem, em certos dias, o seu corpo desabrigado e um vento de bonança e beatitude lhe tocasse. 

terça-feira, 11 de abril de 2023

Simulacros e simulações (47)

Imagem obtida com IA da CANVA

Uma gota de água pode simular uma lâmpada eléctrica. A realidade é um jogo de simulacros, no qual as coisas se imitam umas às outras, na ânsia de encontrarem correspondências e, por vezes, afinidades electivas. O mundo é o produto inacabado do poder que habita o princípio de cópia, o qual gera sem parar novas realidades no desejo de se copiar.
 

domingo, 9 de abril de 2023

Nocturnos 100

Imagem obtida através de IA da CANVA

A noite é uma floresta, onde entre as árvores da escuridão abrem clareiras rasgadas pelas lanças perfurantes dos raios lunares. Os pássaros dormem entontecidos nos ninhos ocultos nas ramagens, enquanto a noite cresce, árvore a árvore, insone, exangue, esperando que a aurora brote do coração do mundo e a escuridão do arvoredo possa dormir sob o império do dia.

sexta-feira, 7 de abril de 2023

O nacional-populismo e o futuro


Em Populismo - A revolta contra a democracia liberal (2018), Goodwin & Eatwell argumentam que os votos nos nacionais-populistas não são de protesto contra o sistema, mas uma adesão comprometida com a visão política desses partidos. No cerne dessa adesão estariam “quatro D”. Desconfiança dos cidadãos, devido ao elitismo da democracia liberal, nas instituições e políticos democráticos. Destruição das comunidades e da identidade nacional causada pela imigração e a mudança étnica. Despojamento sentido pelas pessoas em consequência da globalização, o aumento das desigualdades e a perda de esperança. Desalinhamento entre o povo e os partidos tradicionais, com a quebra dos laços que ligavam eleitores e partidos.

São estas questões que, segundo os autores, alimentam os nacionais-populistas. Acrescentaria, um quinto D, que os autores não referem, embora tenham em conta algumas das suas vertentes. Desestruturação da rede de valores tradicionais que orientaram as comunidades, a perda de relevância da religião, a revolução nos costumes, nomeadamente na sexualidade, a supremacia do estético sobre a moral e o hedonismo. Estes quatro (ou cinco) fenómenos, contudo, são apenas sintomas de uma questão mais decisiva e que se prende com a natureza da política. O que está em jogo na política é a imortalidade do homem, compreendida como a persistência no tempo das comunidades humanas. A arte política visa assegurar que a comunidade tem um futuro. O nacional-populismo cresce porque existe em parte dos eleitores um sentimento de que a sua comunidade corre perigo de morte.

Todos os D diagnosticam doenças que, combinadas, se tornarão mortais. A esta percepção (seja real ou imaginária) não é estranha a pulsão liberal para substituir a política, com a sua tensão entre amigos e inimigos, pela mera gestão das coisas. O nacional-populismo é uma reacção à morte da política e manifesta-se como exploração do sentimento de um fim próximo da comunidade política a que se pertence. As forças democráticas erram se pensam que iludir as questões colocadas pelos diversos D é um caminho para evitar o crescimento do populismo. Não é, pois este enraizou-se numa questão decisiva da existência humana, a do futuro da comunidade. O populismo colonizou o horizonte de expectativa. Resta saber como os valores da democracia liberal e do estado de direito podem resistir perante um inimigo que se se está a apoderar, com êxito crescente, apesar de algumas derrotas significativas, do futuro.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Cardílio (24 sonetos) 10

Imagem obtida através de IA da CANVA

Sons e silêncios, pedras, ervas, águas,
Verdes prados cerzidos na memória.
Nas folhas da figueira, corre a seiva,
O sopro puro e quente da tua boca.

P’la rua, se caminhavas, desprendia-se
Da luz um raio de âmbar, e dos gestos,
Que de ti se afastavam, irrompia,
Na distância, a luz da Primavera.

Nas sílabas abertas em teu rosto,
Vincado pelos dias de branca névoa,
Ouve-se ainda altivo e luminoso

O sonoro descanso de tua voz,
Mar de melancolia, terra de fogo:
Lácio, língua, silêncio, branca ardósia.

2007

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Comentários (5)

Imagem obtida com IA da CANVA

Ouço-as como se ouvisse chegar o verão,
seus inumeráveis dedos correm pelos dias
ou pelas noites com as águas dentro.
Eugénio de Andrade

De tudo o que se ouve, aquilo que mais longamente ressoa são as vozes que habitam por dentro da memória. São como pedras percutidas pelo labor do arqueólogo ou sombras nascidas pela inclinação das giestas num longo entardecer do Estio. Trazem consigo as noites e os dias que o tempo escondeu na caverna esconsa do passado, devolvem ao que foi a esperança de ainda vir a ser, como se essas vozes nascessem num mundo circular, onde tudo retornará vezes sem fim.

sábado, 1 de abril de 2023

A educação e o ChatGPT

Em 1977, Ernst Jünger publicou o romance Eumeswil. Um dos elementos futuristas presentes na obra é um dispositivo denominado luminar. Este permitia fazer perguntas sobre História e devolvia, num monitor, respostas textuais adequadas ou, mesmo, representações vivas dos acontecimentos. Menos 50 anos depois, a realidade aproxima-se do futurismo de Jünger. O ChatGPT da OpenAI ainda não devolve cenas históricas vivas, mas responde a perguntas e não apenas de História, mas de todas as áreas. É uma tecnologia baseada na inteligência artificial. Fornece informação adequada, embora também forneça respostas com erros. No entanto, eliminar os erros e tornar as respostas precisas é uma questão de tempo.

Durante a minha vida, vi chegarem muitas novidades ao sistema de ensino, mas nenhuma alterou radicalmente a natureza deste. As tecnologias de comunicação democratizaram o acesso à informação, isso, porém, não representou uma ruptura, pois a informação sempre esteve no centro do ensino. Permitiram formas mais atraentes de comunicação, mas o essencial continuava como sempre tinha sido. Uma tecnologia como o ChatGPT implica uma mudança de natureza da prática formativa dos alunos e da função dos professores. Estes deixarão de ser mediadores de informação para ser outra coisa.

O professor, em primeiro lugar, deve ajudar os alunos a compreender os problemas a trabalhar e ensiná-los a fazer questões pertinentes à inteligência artificial. Não ensina respostas dadas, mas a fazer inquéritos articulados para obter informação trabalhada. Uma segunda função docente é a de ensinar os alunos a estabelecerem protocolos e estratégias de monitorização da qualidade da informação obtida. Por fim, os professores devem ser criadores de modelos de apresentação, pensados em função de desenvolvimentos cognitivos pretendidos, dos resultados obtidos pelos alunos nos seus inquéritos. Pela primeira vez, a tecnologia presente no ChatGPT torna realmente obsoleta a existência de avaliações das aprendizagens baseadas em provas como testes.

Os professores têm resistido e com razão à transformação das suas funções. A tecnologia disponível não lhes permitia abandonar com segurança a tradicional função de mediadores de informação. O ChatGPT veio mudar a realidade, resta saber quanto tempo vão demorar os sistemas de ensino a adaptar-se a um novo mundo. Recordo que Platão, no final do Fedro, escreveu uma terrível diatribe contra os malefícios da escrita. O resultado foi o que se viu, nulo. Não vale a pena, agora, diabolizar a inteligência artificial, o resultado será idêntico à diabolização da escrita por Platão.

quinta-feira, 30 de março de 2023

Ensaio sobre a luz (99)

Imagem obtida com IA da CANVA

Em toda a luz se oculta uma outra luz, mais cintilante, mais intensa, mais luminosa. Essa é a verdadeira luz, pois ilumina a própria iluminação. Nela, não há distinções, nem diferenças, nem assimetrias, mas sem ela nem o que há de distinto na distinção, de diferente na diferença, de assimétrico na assimetria seria possível de vislumbrar na sombra que cobre o mundo.

terça-feira, 28 de março de 2023

Pornografia na sala de aula


Um encarregado de educação queixou-se da nudez a que os alunos, de 11 e 12 anos, de uma escola pública da Florida (EUA), tinham sido sujeitos, numa aula sobre a arte do Renascimento. Foram expostos a pornografia, argumentou (ver aqui). Tratava-se de reproduções da estátua de David e da pintura A Criação de Adão, ambas de Miguel Ângelo, bem como de O Nascimento de Vénus, de Sandro Botticelli. A definição de pornografia é disputada, mas a proposta por Caroline West, na entrada “Pornography and Censorship”, da Stanford Encyclopaedia of Philosophy, é uma definição aceitável: “Pornografia é material sexualmente explícito (verbal ou pictórico) que é principalmente concebido para produzir excitação sexual nos espectadores”. A alegação do encarregado de educação é manifestamente falsa, pois as obras em questão estão longe de preencherem os critérios da definição de pornografia.

Podemos pensar que se tratou de um caso de excesso doentio de puritanismo, um episódio sem relevo. Seria cair no erro. A directora da escola pública foi obrigada a apresentar a demissão. O incidente é revelador de um profundo conflito, de natureza política, que está a atravessar as sociedades ocidentais, embora, de momento, seja mais explícito nos EUA ou no Brasil. O que está em jogo é a relação muito tensa entre uma parte da sociedade que adopta valores liberais, não apenas na economia, mas no modo de vida, onde a liberdade individual é o bem supremo a respeitar, e outra parte dessa mesma sociedade que tem uma perspectiva comunitarista conservadora, que se sente perdida num mundo onde os valores liberais predominam, nomeadamente, os que se relacionam com a sexualidade. Para se perceber esta posição vale a pena ler um livro de Rod Dreher, The Benedict Option. A Strategy for Christians in a Post-Christian Nation.

Este tipo de conservadorismo comunitarista é um dos elementos estruturais daquilo a que os cientistas políticos Roger Eatwell e Matthew Goodwin denominam como nacional-populismo e que está por detrás de políticos como Donald Trump, e parte substancial dos Republicanos, de Jair Bolsonaro e de inúmeros movimentos e partidos políticos na Europa, entre eles o Chega. A radicalização política a que se assiste não se funda em problemas da distribuição de rendimentos, embora estes façam parte da equação, mas num conflito cultural sobre o modo como se deve organizar a sociedade, de que o episódio da interpretação da arte renascentista como pornografia é um reflexo. A questão que se coloca é a de saber até que ponto as comunidades políticas e a liberdade individual como bem último são compatíveis.

domingo, 26 de março de 2023

Cardílio (24 sonetos) 9

Imagem obtida com IA da CANVA

Na tarde quente e calma, na suave
Melancolia do tempo bonançoso
Havia no aveludado das searas
Um rosto belo, branco e ardente.

Onde a luz dos olhos cintilantes,
O negro do cabelo solto ao vento?
Avita nesta terra te perdeste,
Só o nome o tempo te deixou.

Na seiva mansa e árdua que na tarde
Corre, há frutos azuis, gestos macios
Que inundam o precário desconcerto

Onde mulheres ávidas de amor
Ao  amor se dão, tristes e submissas,
Do frio fado e da morte desprendidas.

2007

 

sexta-feira, 24 de março de 2023

Nocturnos 99

Imagem obtida com IA da CANVA

A noite cai sobre as árvores luminosas que raptam as ruas à tirania das trevas. É uma noite ferida, incapaz de resistir ao avanço dos raios de luz. O silêncio toma-a por dentro, acolhe-se no seu coração para nascer, chegada a primeira aurora, como cântico dos pássaros da solidão ao acordarem para o ofício do dia. 

quarta-feira, 22 de março de 2023

A persistência da memória (21)

Constant Puyo, Frühling, 1900
Há imagens do passado que dormem como fantasmas na memória sem que, durante muito tempo, existam sinais claros de assombração. De súbito, um pequeno indício encontrado por acaso, uma fotografia de uma realidade completamente estranha, um sinal deixado à deriva por quem há muito partiu, qualquer coisa insignificante abre as portas da memória e aquela imagem desconhecida torna-se tão nítida que se é levado a crer que sempre existiu em nós. De imediato, se iluminam certas formas de vida, o pequeno gesto de compor um ramo de flores, a velha ordem que dava sentido e coerência ao mundo. Tudo isso chega como uma verdade há muito esquecida que o tempo encerrara nas arcas abandonas de um sótão.

segunda-feira, 20 de março de 2023

Simulacros e simulações (46)

Imagem obtida com IA da CANVA

Pode-se imaginar esse momento intermédio, no qual o caos e o cosmos se tocam, como um simulacro de desordem ordenada ou de ordem desordenada. A contiguidade dos dois estados da realidade permite todas as simulações, desde aquelas em que um mundo se estrutura a partir do tumulto dos elementos até a outras em que um universo se desfaz no vórtice onde todos os elementos se desagregam.

sábado, 18 de março de 2023

Os abusos e a desorientação da Igreja


A Igreja Católica portuguesa, na sequência do relatório da Comissão Independente sobre os abusos sexuais, tem mostrado uma inconcebível desorientação. A resposta dada pela Conferência Episcopal Portuguesa e algumas intervenções de altos dignitários, entre eles o Cardeal-Patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, deixaram muita gente perplexa e não poucos católicos desiludidos. O carácter sexual dos abusos tem ocultado a raiz do problema e a causa última da desorientação eclesiástica. Há quem pense que a questão está na relação perversa que a Igreja Católica mantém com a sexualidade, por um lado, e a exigência do celibato dos padres, por outro. O problema, todavia, é mais fundo.

É um facto que existe uma pulsão na Igreja para tentar controlar a sexualidade dos fiéis ou mesmo, caso fosse possível, de toda a gente. Enquanto se preocupa com o controlo da vida sexual dos outros, o clero – que domina toda a Igreja – sempre foi muito benevolente para com os seus, mesmo nos casos de abuso de menores, como se tem sabido. O problema, porém, não é, em primeiro lugar, um problema com a sexualidade, mas a forma como a Igreja tem sido incapaz de lidar com o mundo moderno e a autonomia dos indivíduos. Não é a sexualidade que leva parte do clero à desorientação, mas o facto de a relação com os crentes, na qual o pastor tem poder sobre as consciências, estar em contradição com sociedades onde os indivíduos são livres. Não podemos esquecer que os abusos, agora relatados pela Comissão Independente, ocorreram em relações onde, por norma, o poder eclesial do abusador se conjugava com a submissão das vítimas.

Essa relação de poder sobre as consciências está ameaçada. É essa ameaça que explica a desorientação de parte importante da hierarquia católica. Outrora, o seu poder era suficiente para ocultar as coisas desagradáveis. Agora deixou de ser. Enquanto a Igreja não compreender que a liberdade das pessoas e a autonomia da sua consciência é um bem que deve ser não só respeitado, mas cultivado, continuará a ver nos padres pastores de um rebanho de ovelhas submissas. E isto abre o caminho para todos os abusos. O que há de doentio na relação da Igreja com a sexualidade, o que há de inominável na história dos abusos, radica numa perversa relação de poder dos clérigos com os fiéis. Sem alterar esta relação, parte substancial da Igreja continuará desorientada, perdida entre o sonho do retorno a um passado de poder e dominação das consciências e os ditames de um mundo onde cada um deve guiar-se pela sua razão e não pela do prior da paróquia.

quinta-feira, 16 de março de 2023

Cardílio (24 sonetos) 8

Imagem obtida com IA da CANVA

Na luz destas colunas, em teu rosto

Macerado, coberto pelo musgo,

 Desenhado na areia dos olivais,

Quantos anos passaram sem vestígio.

 

As paredes são pó, pedra calcária,

Abandonadas águas tão salobras.

Aves siderais pálidas de morte,

Folhas, frutos perdidos no silêncio.

 

Uma palavra rasga o horizonte,

Grita-te incendiada na memória,

Ecoa na lezíria devastada.


No porão dos Invernos esquecidos,

Nas pedras arrastadas pelo tempo,

Ergue-se a sombra pura do passado.


2007

 

terça-feira, 14 de março de 2023

Comentários (4)

Imagem obtida com IA da CANVA

De repente, depois de morreres, aqueles amigos
que nunca concordaram com nada
concordam sobre o teu carácter.
Louise Glück

A morte é a porta aberta para o consenso. Sobre os mortos, mesmo aqueles que geraram mais ódio ou qualquer outro antagonismo extremado, o tempo trabalha para que, lentamente, as facetas mais agudas se vão erodindo, tornando-se cada vez mais planas. É verdade que alguns mortos precisarão de passar milénios no purgatório do esquecimento até que sobre eles se forme o consenso que os apaziguará e os libertará do rancor dos vivos, mas também a eles será dada uma oportunidade de paz. A morte é a entrada no paraíso de onde toda a dissensão foi banida.

domingo, 12 de março de 2023

Descrições fenomenológicas 70. A praça

Willem De Kooning, Cuadro, 1948

Não se sabe ao certo quando aquele espaço foi transformado numa praça, roubado às tarefas agrícolas que, noutros tempos, ocupavam as terras que cidades belicosas invadiram, desterrando os camponeses cada vez para mais longe. Sabe-se apenas que ali se reuniam há séculos pessoas para se entregarem ao comércio, às paixões do mundo, ao hábito da conversa. É essa praça antiga que ainda se suspeita sob a actual, com um enorme tabuleiro empedrado, ladeado por duas filas de velhos plátanos, agora despidos pelas agruras das estações. De um lado e de outro, existem cafés e bares, com as suas esplanadas cobertas e gente, muita gente, sentada nas mesas, uns lendo os jornais, outros a conversar, outros silenciosos olhando em frente, sem que se consiga saber qual o destino desses olhares desavisados. A noite cai, a iluminação eléctrica cria nuvens de luz ao misturar-se com uma chuva fina e melancólica. Entre os renques de árvores, no empedrado do tabuleiro central, não falta gente. Casais passeiam devagar, chapéus de chuva abertos, homens e mulheres solitários levam à trela cães de diverso porte, que vão sacudindo a água fina que se deposita no pêlo. Um jovem casal dá as mãos, enquanto a luz incide sobre eles, tornando-os o foco de quem, desocupado, olha por curiosidade, por não ter mais nada para fazer, por não saber como ocupar o tempo que antecede a hora de jantar. Depois, o casal perde-se entre os transeuntes, enquanto a chuva fina e rala forma aglomerados de gotas suspensas no ar, vibrando sob a luz, para cair no empedrado, nos chapéus de chuva, nos ramos despidos dos plátanos, uma água embalada pela hora do crepúsculo e pela vida que ainda ali freme, passados tantos séculos, mas que mais um pouco desaparecerá, por algumas horas, quando aquela gente recolher a casa para jantar e proteger-se das trevas da noite.

sexta-feira, 10 de março de 2023

Nocturnos 98

Imagem gerada por IA da DALL-E 2, da OpenAI

A frágil transparência da noite abre-se entre a névoa vinda da floresta e a luz branca que, pelas ruas desertas, faz lembrar a presença cintilante de estrelas decaídas. O silêncio ocupou o espaço vazio, como se a cidade abrisse os braços para acolher o último noctívago perdido no dédalo das suas avenidas.

quarta-feira, 8 de março de 2023

Cardílio (24 sonetos) 7

Anónimo romano, Mosaico de las figuras (detalhe), Museo Arqueológico. Córdoba. España

Já não resta do amor senão fragmentos
Dilacerados, rosas secas, murchas,
Espinhos acerados no silêncio
Da Primavera lábil e olvidada.

O inquieto chão que outrora tu pisaste
Não passa dum murmúrio, seca página
Da mão logo apartada. Ouve, Cardílio,
A lâmpada apagou-se, a noite veio.

Tremem-te as mãos, amarga o coração,
Já nada em ti respira, nem a voz,
Nem a língua suspira. Anjo não és,

Nem ladrão, nem um deus inconsolado.
- Sombra, vermelha sombra, quem és tu?
- Um nome, sem destino nem morada.

2007

segunda-feira, 6 de março de 2023

Ensaio sobre a luz (98)

Artur Pastor, Série De volta à Cidade, Lisboa, Avenida João XXI , décadas de 60-70
A cidade é um mar de luz com arquipélagos de sombra. Quem passa mergulha nas águas luminosas ou cobre-se nas pequenas ilhas que protegem os olhos do resplendor nascido no centro da terra. A Primavera cresce na encruzilhada entre os rigores do Inverno e as promessas do Estio, entre os frutos maduros da cintilação do sol e o pano escuro de um céu coberto pela cinza das nuvens.

sábado, 4 de março de 2023

Um estranho país


Descobre-se, ao olhar a comunicação social, que o país é composto praticamente por proprietários de casas devolutas e por donos de casas utilizadas para alojamento local. O alarido perante a iniciativa governamental relativa à habitação diz muito da comunicação social, mas muito pouco sobre o país. Isto não significa que as propostas do governo não sejam discutíveis. São-no. Contudo, o problema central não será o suposto ataque ao direito de propriedade ou a limitação da iniciativa no caso do alojamento local. Em primeiro lugar, é o próprio problema da habitação que se tornou dramático. Em segundo, é a expulsão dos habitantes menos ricos das grandes – e pequenas – cidades, com a consequente descaracterização. Por fim, é o impacto político resultante do ressentimento de parte da população ao sentir-se expulsa do lugar onde sempre viveu.

Há dias foi publicado um dado relevante sobre a nossa sociedade que está condenado a provocar menos alarido, menos comentários empolgados e delirantes, menos preocupação. Trata-se do crescimento da pobreza. O caso mais impressionante, porém, é que, se não existissem apoios sociais, 45% dos portugueses viveriam na pobreza. Isto é, quase metade da população. Além do mais, muitos, se não a maioria, dos outros 55% vivem pouco acima desse limiar de pobreza. Quando se junta estes dados à situação do sistema de saúde, e a falta de profissionais, do sistema educativo, e a falta de profissionais, fica-se com uma imagem terrível de Portugal. Uma sociedade extremamente estratificada, com grandes desigualdades e com os serviços sociais em colapso. Portugal entrou na União Europeia em 1986. A adesão era vista como a única forma de o país ser viável e não ver, a prazo, a sua independência ameaçada.

Passados mais de 35 anos, com muitos milhões de euros entrados no país, os problemas da pobreza não foram resolvidos. Por outro lado, os direitos constitucionais à habitação, saúde e educação encontram, cada vez mais, sérias limitações. Os portugueses, por norma, têm grande capacidade de sobreviver nos momentos difíceis, mas são incapazes de olhar o longo prazo, de estruturar e planear o que virá. Os governos, como no caso da habitação, mas também noutras áreas, improvisam, reagem aos problemas que vão surgindo, sendo incapazes de os antecipar e evitar. A agravar tudo isto, temos uma sociedade civil débil, com horror à política, composta por cidadãos que têm por aspiração máxima não ficarem pior do que estão. O alarido da comunicação social em torno das casas devolutas e do alojamento local é o outro lado da cegueira perante um país doente e em degradação contínua.

 

quinta-feira, 2 de março de 2023

O ódio ao Ocidente

Tornou-se manifesta a existência não apenas de um sentimento antiocidental, mas de um propósito de isolar o Ocidente e destruí-lo. A questão é a de saber o que tem a cultura ocidental de específico que provoca um ódio tão avassalador noutras partes do mundo. Alguns ocidentais dirão que o seu comportamento imperialista, a necessidade de abrir mercados nem que seja pela violência. Ora, essa conduta não é uma especificidade ocidental, e, por outro lado, os impérios ocidentais ruíram há muito. A diferença específica geradora de um ódio persistente ao Ocidente é a liberdade dos indivíduos.

O que marca as nossas sociedades é não estarmos submetidos a nenhuma religião, podendo-se adoptar uma ou outra, ou nenhuma. Ser religioso depende da consciência de cada um, da sua liberdade. Do mesmo modo, ninguém é obrigado a suportar a política do governo em exercício. Os chefes políticos são governantes transitórios, sujeitos à lei e à crítica e avaliados nas urnas. Cada um escolhe segundo a sua consciência, a sua liberdade. Por outro lado, a orientação moral não deriva de uma moral colectiva, mas de valores que cada um adopta, respeitando o mesmo direito para os outros, segundo a sua consciência, a sua liberdade. Também a vida sexual da pessoa, desde que não viole a autonomia de terceiros, é da responsabilidade da sua consciência, da sua liberdade.

O ódio que os governantes das potências autoritárias propagam relativamente ao Ocidente deve-se a este ser um mau exemplo. As sociedades ocidentais evoluíram de modo a que cada ser humano possa ser um indivíduo responsável pelos seus actos e dotado de direitos para agir em liberdade, desde que não infrinja direitos de outros. É isto que não é suportável para as lideranças políticas e religiosas do mundo submetido ao autoritarismo de tiranos e tiranetes que olham para as pessoas apenas como membros indiferenciados de um rebanho que deve obedecer, sempre e em todas as questões, ao pastor de serviço.

A liberdade, que viu a luz no Ocidente, é uma flor frágil e, na história dos seres humanos, tem sido a excepção e não a regra. A sua defesa, em todas as áreas, religião, política, moralidade, vida sexual, etc., é uma das tarefas fundamentais dos dias que correm. Defesa perante as ameaças não apenas dos inimigos externos, mas também dos que, internamente, sonham em liquidá-la, para repor nas mãos de um tirano político ou de uma igreja, ou de ambos, o controlo das vidas de cada um. Defender a liberdade é defender a existência de indivíduos que administram a sua vida conforme lhes dita a sua consciência, a sua liberdade.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Cardílio (24 sonetos) 6

Vila Cardílio

Havia aldeias de pó, casas de espuma,
Animais de cabeça incendiada.
De vento e som que imagens desse tempo
Na distância ficaram soterradas?

Foram-se os meses, dias foram também.
Tudo se foi tão rápido. Os rios trémulos
Abandonaram-se à foz e o silêncio
Da noite entre colinas logo avançou.

A flecha da memória, uma seta
De cristal, um revérbero de cinza,
A luz branca e animal. Lâmina fria

Em tua cabeça cai. Pesados ombros
Ao feroz peso da água tão vergados,
Sois sombra leve ou lâmpada apagada?

2007

 

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Simulacros e simulações (45)

Imagem gerada através do Dalle 2 da OpenAI

Simula-se a chuva para que chegue a tempestade e, com o furor dos elementos, a natureza se purifique das manchas que nela as ideias semeiam. Não há pior pesadelo para a natureza do que o pensamento. O que é vivo reduz-se às pequenas perfídias da abstracção. Ao crescerem, transformam-se nos martelos furiosos do desejo. Então, batem, batem, batem sem piedade e reduzem o mundo a um simulacro do inferno.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Comentários (3)

Leopoldo Novoa, Brun a deux reliefs, 1970

Recolheu-se a ouvir. De tudo
quanto ouviu não ficou nada
Fernando Echevarría

De todos os limites que circunscrevem o poder dos homens, não haverá limite mais doloroso que o da memória. Cabe-lhe a árdua tarefa da conservação, o desígnio de trazer ao presente as palavras e os gestos havidos, o recordar o que foi dito, para que, perante o jogo das solicitações, se faça presença. A falência da memória é, porém, uma dor que liberta, é a criação de uma clareira para que o não dito e o não acontecido possam, sobre as cinzas do esquecimento, eclodir e trazer sobre o mundo a cintilação de uma nova luz.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Beatitudes (58) A luz da Lua

Caspar David Friedrich, Couple Watching the Moon, 1824

O peso da noite torna-se leve, se a Lua rasga as trevas e abre uma clareira onde os amantes encontram o lugar para o seu amor. Nem a rudeza silvestre da paisagem, nem o ar frio soprado pelo vento norte, nem o temor da escuridão, nem a dúvida que, ainda há momentos, assomava no espírito e tocava no coração, bastam para dissolver o encantamento que a luz do astro lança sobre os corpos, para os raptar do cuidado diurno e os lançar na festa embriagada da beatitude.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Cardílio (24 sonetos) 5

Vila Cardílio

Tão sentado estás na erva verde
Incendiada, fremente como o pólen
De onde destila o tempo. Pelas vinhas
Sopra o Verão voraz, o cru cansaço.

Dos caminhos de sílica, dos fogos
De Outono, do calcário do teu ombro,
Nada resta. Enumeras as palavras,
Mas os dias apagaram-se p’ra ti.

Sombra na superfície das paredes,
Pelo chão derramada, sombra negra,
Tuas mãos o pão deixaram de alumiar.

No fulgor do horizonte, no caminho
Fumegante da vida, és terra, treva,
Ocaso doloroso, um fogo-fátuo…

2007

sábado, 18 de fevereiro de 2023

A questão colonial


A requalificação do Jardim da Praça do Império, de Lisboa, e, especificamente, os brasões das províncias ultramarinas em pedra abrem nova frente de conflito entre direita e esquerda. Não é indiferente dizer província ultramarina ou colónia. Esta linguagem dividia aqueles que apoiavam o regime e os que estavam na oposição, embora entre estes pudesse haver adeptos da colonização. A ideia de império colonial português atravessa tanto a Monarquia como a República e permanece no Estado Novo, reforçando-se com os conflitos coloniais dos anos sessenta e setenta. Salazar abandona a designação de colónias quando os ventos internacionais mudam e a colonização é vista como um atentado à liberdade e à dignidade dos povos colonizados. Portugal, na retórica de Salazar, era uma entidade una que ia do Minho a Timor.

Com o desencadear das guerras coloniais, a oposição, das várias cores, afastou-se do devaneio colonial. O problema é que parte significativa da intelligentsia e da militância da direita democrática e moderada vive na saudade simbólica desse devaneio artificioso que era o Portugal pluricontinental. Tem dificuldade em dizer guerra nas colónias e soletra guerra no ultramar. É uma saudade interessante, pois não acarreta riscos. Aos jovens de direita não se põe o problema de ir combater na guerra e os pais não têm de ver os filhos partir, ou se influentes, usar a influência para que o rapaz tenha uma tropa confortável, longe da frente de combate. Um dos principais problemas do nosso regime, que emerge sempre que se trata do passado, é a cumplicidade da direita portuguesa, ao contrário da italiana ou francesa, com a ditadura. Só o 25 de Abril a libertou e tornou democrática.

Uma democracia deve aprender a olhar para o seu passado com aquilo que teve de exaltante e de aviltante. Faz parte do exaltante o facto de Portugal ter sido um dos artesãos principais da primeira globalização e, desse modo, ter também preparado o mundo para os tempos modernos. Isso não pode tapar o facto de Portugal ter sido uma potência colonial, que esbracejou com outras potências coloniais europeias o domínio de territórios onde existiam pessoas que foram colonizadas e escravizadas. Era o espírito europeu da época, mas esse espírito era objectivamente errado, mesmo que os políticos da altura não o achassem. Era importante que os partidos democráticos, à esquerda e à direita, tivessem uma visão comum sobre a questão colonial, pois esta não é um problema apenas do passado. Toca as relações com os Povos Africanos de Língua Oficial Portuguesa, que terão pouca paciência para o negacionismo luso.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Simulacros e simulações (44)

Pier Luigi Lavagnino, Estate, 1963

O Estio é um rebanho de terras incendiadas pelo silêncio solar, a promessa de um fogo eterno, puro e resplandecente como um fruto acabado de amadurecer. Quem o olha de longe não sabe se vê uma simulação do inferno ou o símbolo da sabedoria que se eleva para guiar os mortais na escuridão.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Nocturnos 97

Brassaï, Le pilier du Métro Corvisart, 1934

A noite semeia sombras como secretos símbolos. Rasga as pedras brancas com a mancha da escuridão. Inventa estranhas personagens que povoam ruas e praças, figuras maiores do arquipélago selvagem dos sonhos, ilhas rodeadas pelo pélago da fantasia, lugar onde as estações do ano perdem o contorno e o tempo se funde na linha da obscuridade.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Comentários (2)

Vincent Van Gogh, Roots and Tree Trunks, 1890

A raiz é um pássaro
voa pelo interior da terra
Jorge Gomes Miranda
 
O voo inexplicável das árvores é uma sombra que fende a poeira e, nas cavernas mais escuras, esconde-se dos olhos de fogo dos pássaros sem nome. É nesse território sem som nem luz que as florestas tomam o impulso que lhes anima o desejo do ambiente rarefeito dos céus. A raiz procura o fogo interior, o combustível que alimenta o voo em direcção à morada azul onde os deuses benfazejo aguardam o odor das suas folhas e a sombra onde repousarão dos trabalhos e dos dias que preenchem a sua vida divina.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Cardílio (24 sonetos) 4

Vila Cardílio

Cardílio a resgatada casa tua
É pela tarde um lago devastado.
Definharam as ervas, e os poços
Secaram. Já não tens nome nem pátria.

Se teus pés nestas pedras resvalaram,
Estão agora exaustos, tão cansados
de séculos voláteis, de anos idos,
de sonhos não cumpridos. Morto estás.

Que te vale a fendida mancha negra
Aberta na pesada pulsação,
Silenciosa na noite pura e vã?

Os escravos partiram, e as mulheres
Não sabem o teu nome. Adormeceste.
E sonâmbulo a morte te encontrou.

2007

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Cadernos do esquecimento 51 Não quebrar os contratos

George Platt Lynes, Lew Christiensen, William Dollar, and Daphne Vane
performing Orpheus and Eurydice,
1934
Há esquecimentos irremediáveis. O ânimo cede perante o punhal do desejo e o que era o horizonte de uma esperança torna-se a experiência da desilusão. Quando, por fim, se descobria no amor o caminho para remir da morte os que para ela tinham sido atirados, a falência da memória aniquila a jubilosa expectativa e deixa que o curso das coisas retome a norma traçada pela feroz necessidade, fechando para sempre a porta que separa os mortos do mundo dos vivos. Nunca os homens devem quebrar um contrato que graciosamente os deuses permitiram a celebração.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

As direitas

A vida política nas democracias liberais é marcada pelo movimento pendular entre direita e esquerda. Quando uma colapsa, a outra torna-se forte, até que a situação se inverta. O que se está a assistir em Portugal é a uma derrocada das esquerdas e a um fortalecimento das direitas. É destas que se espera a futura governação do país. O problema que se coloca, porém, é que a direita está num processo de reconversão, que passou pela eliminação do tradicional e previsível CDS, o encolhimento do PSD e a clara afirmação de dois novos partidos na direita do espectro político.

A Iniciativa Liberal é uma congregação curiosa. Muitas daquelas pessoas poderiam ser, caso estivéssemos nos anos setenta do século passado, militantes dos grupos de extrema-esquerda maoístas e estalinistas. A mesma intolerância, a mesma rigidez ideológica, a mesma vontade de afirmação pessoal. Portugal assim como nunca teve qualquer inclinação marxista, também nunca se interessou pelo liberalismo. Muita pesporrência dos nossos recentes liberais, idêntica à da antiga extrema-esquerda, deve-se a uma visão enviesada, nascida na universidade, da realidade nacional. Veremos se têm capacidade para moderarem os instintos ideológicos.

Olhado de fora, percebe-se que o Chega é uma organização patética. Faz política a partir de um sentimento antipolítico, mobiliza a moral como trampolim para o poder. Sabe-se bem a que imoralidades conduz o discurso moral em política, mas as pessoas são cegas e surdas. Em tudo isto reside o perigo. Quem queira perceber o que seria o país entregue ao Chega, basta olhar ao que Ventura faz no próprio partido. No Chega confluem um projecto de poder pessoal e interesses económicos poderosos desejosos de se libertarem da ‘trapalhada’ da democracia representativa, dos sindicatos, das negociações, etc. Como o sentimento antipolítico é grande no país, o Chega tem campo para crescer.

Como sempre que está fora do poder, o drama do PSD reside numa liderança cinzenta. Luís Montenegro não tem o carisma de um Passos Coelho, de um Cavaco Silva e, muito menos, de um Sá Carneiro. E isto torna a posição do PSD periclitante. Um líder forte do PSD penetra no país e seca as outras direitas, sem alienar o centro, como foi o caso de Cavaco Silva. Um líder sem fulgor expõe o PSD à necessidade de se coligar com o diabo e de ter de abdicar de uma visão moderada e civilizada da governação. Quanto mais fraca for a liderança do PSD, mais este terá de se sujeitar aos delírios dos novos partidos da direita, o que será péssimo para a democracia e pior para o país e para a maioria das pessoas.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

O colapso da esquerda

Uma sondagem da Pitagórica, realizada entre 11 e 17 de Janeiro, mostrava uma radical alteração no panorama político nacional. A grande novidade não será que o PSD tenha ultrapassado o PS em intenções de voto, mas que a direita (PSD, Iniciativa Liberal e Chega) tenha mais peso no eleitorado do que a esquerda (PS, BE, CDU e Livre). Na sondagem, a direita vale 52,8% e a esquerda soma 36,6%. Poder-se-á pensar que é apenas uma sondagem e que esta disposição do eleitorado é conjuntural. Contudo, a tendência e o próprio espírito do tempo parecem indicar que não será assim. O país prepara-se para fazer uma nova experiência política. Valerá a pena fazer uma arqueologia deste colapso.

O momento inaugural da queda é aquele em que a esquerda pareceu mais forte, o dia em que António Costa e os socialistas, apesar de terem perdido as eleições, formaram governo com o apoio parlamentar do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda. Este momento é decisivo porque é a matriz do que vem depois. A esquerda tinha encontrado uma solução de governo que impedia a direita de governar, mas não tinha descoberto uma solução comum para o país. A geringonça foi, na prática, uma coligação negativa, unida por aquilo que não queria, mas incapaz de encontrar uma política unificada para dar rumo à sociedade portuguesa e uma plataforma para reformar seriamente o país. A queda do segundo governo de António Costa, ajudada pelo BE e PCP, não foi mais do que a confirmação de tudo isto. O eleitorado decidiu punir a esquerda que derrubara o governo e deu uma maioria absoluta aos socialistas.

O problema é que nem os socialistas, entregues a si mesmos, têm qualquer coisa de sólida para oferecer. Sem um rumo para as grandes questões da saúde e da educação, viram chegar um conjunto de conflitos sociais a que se adicionou uma tempestade ética e judicial. Neste momento, os socialistas são olhados com uma agência de emprego e uma sociedade com crescentes dificuldades com a justiça. A esta degradação moral do PS junta-se a sensação da irrelevância política de comunistas e bloquistas, presos aos seus fantasmas. António Costa, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins tiveram a ousadia para iniciar um caminho, mas faltou-lhes talento para encontrarem um programa credível e exequível que ajudasse a reformar as instituições e adaptar Portugal aos tempos conturbados em que vivemos. Se a direita vier em breve a ocupar o poder juntamente com a extrema-direita, a esquerda escusa de brandir a ameaça do populismo. Foi ela que, por motivos vários, lhe abriu o caminho.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Cardílio (24 sonetos) 3

Vila Cardílio
Cavaleiro fortuito, o teu cavalo

Trémulo pela arriba cai. Para onde

Te levam os seus passos, se nas asas

Do vento ao orvalho ele te prende?


A segura derrota por teu nome

Chama, no rude campo onde definham

Da parca vida as áridas arestas.

Não cantes, a tua voz é sombra vã.


Sendas em teu cavalgar desenhadas,

Ruas ferozes vencidas de cansaço,

Pedras feridas, sujas pela mão.


Os deuses esqueceram-te. Vai. Parte,

Pois o alado cavalo em teu caminho

Um destino fortuito te dará. 


2007