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1981, um ano antes da morte do autor, Valis, de Philip K. Dick, é
um romance que combina interesses temáticos de múltiplas ordens, desde os que
provêm da Filosofia até aos que se inscrevem na área da mística religiosa,
passando pela literatura de ficção científica. Uma leitura possível, entre as inumeráveis
que podem emergir do romance, pode fundar-se numa espécie de crítica da
modernidade. Não na perspectiva de um tradicionalismo desejoso de um retorno
aos tempos pré-modernos, mas na manifestação de uma subjectividade fragmentada
e alienada. Se há um marco simbólico da emergência da modernidade, esse marco é
o sujeito cartesiano que se afirma como fundamento do conhecimento, capaz de
conhecer a realidade, desde que não deixe interferir o seu arbítrio no
julgamento das crenças. Esse sujeito transparente é, no romance de Philip K.
Dick, uma subjectividade tocada pela loucura, fragmentada, uma identidade
cindida e perdida na realidade.
O optimismo
epistemológico cartesiano dá lugar a uma desconfiança na possibilidade de
conhecer a realidade. Esta deixa de ser transparente a uma razão autocontrolada,
fundada em evidências garantidas pela veracidade divina, para poder ser o fruto
de uma manipulação, talvez de um génio maligno, para retomar a retórica epistémica
de Descartes. A razão não é suficiente para compreender um mundo manipulado.
Aqui é perceptível a necessidade de o protagonista Horselover Fat, um alter-ego
do autor, se aproximar da religião, na esperança de que a experiência a mística
abra o caminho que a razão é impotente para abrir. É aqui que se insere o
título do romance. VALIS é o acrónimo de Vast Active Living Intelligence
Service, uma entidade, tida pelo protagonista como divina, que se
manifestaria através de um raio rosa que o atinge e lhe abre o caminho para o questionamento
da realidade e a desconstrução das representações correntes que dela fazem os
seres humanos.
Contudo, naquilo
que se poderia chamar uma visão pós-moderna, a mística do romance não se
inscreve já na tradição cristã, mas está mais próxima de uma revivescência da
gnose e de perspectivas gnósticas acerca do mundo, o que convoca a discussão
sobre a origem do mal. Esta questão, a da origem do mal, liga-se ao problema da
realidade. Esta é percebida pelo protagonista, a partir das suas experiências
místicas, como informação. O universo seria, na sua essência, informação, uma
perspectiva ontológica que combina teologia e ciência. É esta informação que
pode ser interpretada ou manipulada por quem tenha o conhecimento adequado,
podendo haver intérpretes de natureza benévola, como VALIS, ou outros cujas
intenções sejam menos benevolentes. Isto permite integrar uma outra temática de
índole filosófica na estrutura narrativa de VALIS. Trata-se do problema
do livre-arbítrio. Por um lado, a percepção de que essa informação constitutiva
da realidade é manipulada e a crença de que somos livres não passa de uma
ilusão. Por outro lado, Horselover Fat empreende uma espécie de viagem em busca
de uma realidade não manipulada, da realidade conformada por VALIS, de uma
realidade onde seja genuinamente livre.
A natureza
fragmentária da mente do protagonista, assim como a da própria narrativa, a
pluralidade de referências e o recurso a jogos de linguagem de proveniência tão
diversa como a ciência ou a teologia, tudo isto compõe uma estratégia narrativa
que pretende reconstruir um mundo romanesco que dê conta da experiência
existencial da América dos anos sessenta e setenta, onde uma explosão social e
cultural tornou a paisagem humana complexa e de difícil decifração para
subjectividades que perderam a capacidade de sustentar a certeza cartesiana. O
romance de Philip K. Dick surge assim coma a reconstrução de uma experiência
social e existencial de que faziam parte a guerra do Vietname, o desenvolvimento
de um capitalismo avassalador, apesar da crise dos anos setenta, a explosão de
experiências estéticas e artísticas e a proliferação de culturas alternativas à
cultura americana dominante. Em VALIS, essa paisagem disfórica,
de alguma forma, procura encontrar um sentido.
Se se percebe
na leitura do romance a preocupação do autor com temas que actualmente se
tornaram essenciais na vida das sociedades ocidentais, temas como o das teorias
da conspiração e o das paranóias sociais, também se encontra, desse o início,
uma visão crítica da contracultura que naquelas décadas de sessenta e setenta
tomou conta das novas gerações, uma contracultura fundada no uso de alucinogénios
como caminho de uma busca espiritual fora das exigências das estruturas do
cristianismo ocidental. O suicídio de Gloria, uma amiga do protagonista, é o ponto
de partida para essa crítica de uma visão do mundo na qual a juventude
norte-americana tinha embarcado e que arrastou atrás dela também partes
substanciais da juventude europeia. Entre as muitas coisas paradoxais que se
manifestam em VALIS, encontra-se essa crítica da contracultura
norte-americana num dos produtos intelectuais mais emblemáticos dessa
contracultura, o próprio romance VALIS.