sexta-feira, 2 de março de 2012

Filosofia e não ciência


Este artigo do Público, que refere o polémico After-birth abortion: why should the baby live?, já aqui analisado, labora num erro crucial, erro esse replicado por muitos comentários de leitores mais ou menos indignados. O artigo, contrariamente ao que diz o Público, não tem qualquer carácter científico. Podemos recorrer à velha distinção kantiana entre pensar e conhecer. A ciência produz conhecimento, a filosofia pensa determinado tipo de problemas. O artigo de Giubilini e Minerva não fornece qualquer tipo de conhecimento sobre o mundo empírico, apenas discute se é moralmente aceitável o infanticídio. Estamos no âmbito da filosofia moral. 

Em vez da distinção kantiana, podemos usar o critério de demarcação de Popper para determinar que tipo de enunciados são científicos ou não. A tese deverá poder ser falsificável, isto é, deverá poder ser testável empiricamente para ver se ela é refutada ou se resiste, e durante quanto tempo, às tentativas de  falsificação (demonstração de que é falsa). Ora a tese dos autores do artigo (o aborto pós-nascimento deverá ser permissível em todos os casos, sem excepção, em que o aborto é permitido) não permite elaborar qualquer teste empírico. Este enunciado não tem qualquer natureza científica. A sua justificação e a sua refutação passam apenas pelo domínio da argumentação e não do teste empírico. 

O uso da designação de "artigo científico" induz os leitores em erro, cobrindo com o manto da ciência - algo que se refere à forma como a realidade funciona - aquilo que apenas pertence ao campo do debate de ideias, neste caso das ideias morais. Ao fazer isso, acaba por ocultar o debate que subjaz ao artigo em causa. E por repelente que possa ser a tese dos autores - e para mim é -, os argumentos merecem atenção, não tanto por poderem justificar o after-birth abortion, mas porque obrigam a pensar os motivos do aborto e os critérios que justificam a interrupção do processo de desenvolvimento de uma vida humana, bem como os critérios que demarcam a altura em que essa interrupção é permitida moralmente (o que não é a mesma coisa que a permissão legal) e quando deixa de o ser (embora os autores não o façam no artigo).