sábado, 25 de maio de 2013

Thomas Mann, Tonio Kröger




Tonio Kröger, de Thomas Mann, é uma novela publicada em 1903, dois anos depois da publicação de Buddenbrooks – Verfall einer Familie (1901). Faz-se notar, muitas vezes, o paralelo com a novela Morte em Veneza (1912), pois em ambas se tem por centro da reflexão narrativa a vida do artista e a questão da arte. No entanto, poder-se-á alargar a rede de inter-referências dentro da obra de Thomas Mann. Como em Buddenbrooks, encontramos uma família, os Kröger, burguesa decaída. Como em Doutor Fausto (1946), encontramos uma reflexão sobre a arte. Também o tema da atracção homossexual durante a puberdade ou a pós-puberdade, presente em Tonio Kröger, será retomado em A Montanha Mágica (1924), na personagem de Hans Castorp. Em Tonio Kröger encontra-se, assim, concentrado um conjunto de temáticas que irradiam por toda a obra de Mann.

A temática da ambiguidade da orientação sexual desempenha, em Tonio Kröger, um papel não apenas introdutório – a novela começa a atracção homoerótica do jovem Kröger, então com catorze anos, pelo seu colega Hans Helsen, um jovem desportista, de famílias burguesas como os Kröger, centro das atenções da escola, segue com a paixão, aos dezasseis anos, pela bela Ingeborg Holm; ambas as paixões estão votadas ao fracasso – mas estrutural. A ambiguidade da orientação sexual constitui-se como símbolo de uma realidade ambivalente e conflitual, como se o sujeito fosse incapaz de a unificar e dar-lhe um sentido enquadrado no modo de vida em que foi educado, pela parte do pai, e no meio social a que pertence. Toda a novela é a busca desta reconciliação consigo ou da reconciliação em si destas ambiguidades.

A ambiguidade está já presente na origem étnica do próprio Tonio Kröger. Se o pai é um comerciante do norte da Alemanha, pertencente a uma tradicional família burguesa, já a mãe é uma meridional de tendências artísticas. Tonio está assim entre duas forças que são sentidas como contraditórias. O mundo severo – dir-se-ia, puritano –, rigoroso e disciplinado do pai e o universo fluido e encantado da mãe. Devido a esta origem, ele apresenta traços físicos diferentes dos seus colegas e daqueles que vivem na cidade. Esta diferença étnica tem um duplo impacto em Tonio Kröger. Por um lado, sente-a como causa da sua diferença e da rejeição, mais ou menos subtil, a que se sente sujeito. Por outro, condu-lo à idealização do aspecto germânico – cabelos louros, olhos azuis, etc. – que Hans Hansen e Ingeborg Holm tão bem representam.

Um dos elementos fundamentais desta novela – e que a liga ao romance Buddenbrooks – é o da queda (Verfall) da família burguesa. A morte inopinado do pai arrastou o fim do estabelecimento comercial e o desaparecimento da estirpe. Não se trata, como nas famílias aristocráticas, da ausência de um herdeiro, mas do surgimento de alguém que já não suporta os estreitos limites que a vida comercial exige para evitar a desagregação. Isto permite-nos pensar em algo que nunca é afirmado. Apesar das aparências (as famílias tradicionais de comerciante, as velhas casas na posse da família durante gerações), o modo de vida trazido pela burguesia exclui, na verdade, a linhagem. Nem os genes nem a lei, agora que uma sociedade dividida em castas desapareceu, são suficientes para manter a casa comercial. Tanto em Buddenbrooks como em Tonio Kröger esta desagregação da linhagem é simbolizada pela venda da casa de família. O que permite a continuidade da estirpe é a aquisição e a educação de uma certa atitude perante a vida e o mundo. É uma certa forma de estar e agir no mundo que estrutura a continuidade de uma família burguesa e a possibilidade de ela permanecer no negócio.

O principal inimigo da atitude burguesa é a atitude estética e a tentação artística. De novo, estamos perante uma duplicidade que dilacera a alma de Tonio Kröger. A novela é uma viagem de reconciliação entre as duas atitudes, entre a arte e a razão, entre a arte e a vida exuberante. Ele, a quem uma amiga pintora, Lisaweta Iwanowna, tinha chamado burguês extraviado, vai reconhecer a sua vocação de artista, de poeta, fundada no seu ser burguês: Pois, se há alguma coisa capaz de fazer de um homem de letras um poeta é este amor burguês que eu sinto por aquilo que é humano, vivo e habitual. Esta amor pela humanidade, todavia, não deixa de ser profundamente ambíguo e relacionar-se com as paixões iniciais: Mas o meu amor mais profundo e o mais secreto pertence aqueles que têm os cabelos loiros e os olhos azuis, aos seres claros e vivos, aos felizes, aos amáveis, aos habituais. Os cabelos loiros e os olhos azuis referem-se, claro, ao mundo simples e ordenado do seu pai, mas, ao mesmo tempo, referem-se a Hans Hansen e a Ingeborg Holm, à ambiguidade que eles introduziram na direcção do seu amor. Parece que a novela acaba no mesmo ponto que começou, mas isso não é verdade. Estamos perante uma narrativa hegeliana, aquilo que era apenas um conceito vazio – a ambiguidade do amor adolescente – torna-se agora, depois do devir narrativo – conceito concreto e pleno de vida, amor pela humanidade, mas por uma humanidade concreta, aquela que é simbolizada pelos seus primeiros objectos eróticos.


Thomas Mann (2003). Tonio Kröger. Lisboa: D. Quixote. Tradução de Cláudia Gonçalves.