domingo, 18 de julho de 2021

Justiça, Educação, Pandemia e Claudio Magris


Justiça. O sistema judicial começou, há tempos, a incomodar pessoas que, por um motivo ou outro, tinham poder no país. Do ponto de vista da defesa do regime democrático, as coisas são sempre complexas. Se não há processos, então a democracia é conivente. Se há processos, então o regime está corrupto. A corrupção não é um problema de regime, mas da natureza humana, embora a democracia seja o regime mais eficaz no combate a esse tipo de comportamentos. As ditaduras fingem-se impolutas, enquanto escondem, através da censura e da repressão, o flagelo, o qual é, por norma, uma arma utilizada pelos ditadores, corrompendo as elites, para consolidarem o seu poder.

Educação. Desde que retornou ao governo, o Partido Socialista está, sem que faça alarde do caso, a fazer uma autêntica revolução educativa. Age sorrateiramente, publica os decretos e despachos fundamentais quando o ano lectivo está para terminar. Agora foi uma reforma compulsiva dos programas do ensino básico e secundário, que ficaram reduzidos às Aprendizagens Essenciais (que eram o currículo mínimo obrigatório) e a um documento estapafúrdio com o título de Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, uma colecção de banalidades apresentadas como salvação educativa da pátria. Quando o PS deixar o governo, o ensino público estará reduzido à pura nulidade. Com o assentimento da outra esquerda e a conivência da direita.

Pandemia. Não apenas em Portugal, mas também por cá, governados e governantes agem como se o problema estivesse resolvido. Enquanto isso, as novas variantes continuam a emergir, sempre mais contagiosas e letais, os internamentos crescem, as unidades de cuidados intensivos vão ficando ocupadas e as mortes, ainda que a um ritmo bem mais baixo, não param de suceder. Está tudo cansado da disciplina que o combate à pandemia obriga. Ela exige esforço, sacrifício, adiamento de prazeres, sentido de comunidade, tudo virtudes que não geram, na maioria das pessoas, mais que um esgar de desprezo.

Claudio Magris. Uma sugestão de leitura para férias. Estou a ler o livro, publicado em Portugal pela Quetzal, A História Não Acabou, de Claudio Magris. É composto, na sua maioria, por artigos que o escritor italiano publicou no Corriere della Sera, nos primeiros anos deste novo milénio. São muito bem escritos, têm uma profundidade que não se encontra em Portugal e tocam em pontos essenciais da nossa vida comum. Fá-lo sempre com uma justeza e um equilíbrio assinaláveis, sabendo destrinçar o essencial do acidental. Lê-se com facilidade e com prazer. Apesar de situado no tempo, não está ultrapassado.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

A Garrafa Vazia 65

André Kertész, Old Gentleman, Paris, 1926
Troco as sílabas e das vogais
faço consoantes.

Troco as horas e na aurora
invento um pôr-do-sol.

Troco a roupa e ao dia
bebo-lhe a noite.

Troco a verdade e de mim
exibo o que não sou.

Julho de 2021
 

segunda-feira, 12 de julho de 2021

A persistência da memória (4)

August Sander, Circus Artists, 1930

Há a memória do mundo e há a memória do indivíduo. Não sei que memórias o mundo reteve do circo, das suas actividades e trupes, pois a minha memória sempre se sobrepôs àquela que poderia descobrir nos outros. O circo sempre desencadeou em mim uma profunda tristeza e um estado de comiseração inexplicável. É possível que também aí as pessoas sejam felizes, tal como todas as outras noutros lugares, mas nunca as consegui imaginar assim. A única memória que tenho do circo é essa tristeza que gera em mim uma compaixão que ninguém solicitou.

sábado, 10 de julho de 2021

A ilusão da escola neutra

Walter Sanders, Crinolines Wilmington High School, not dated

António Barreto (AB), em artigo no Público (ver aqui), protesta contra aqueles que não querem uma escola neutra – ideologicamente neutra – e que defendem uma escola programática, embora os programas existentes para a escola sejam tantos quanto as ideologias existentes na sociedade. É um facto que existe uma contínua tentativa de colonizar a escola com concepções sobre a moral e a política. Porque é que isto acontece? Há uma explicação óbvia: na escola estão as novas gerações, é fácil contactá-las e educá-las naquilo que aqueles que possuem o poder curricular julgam ser virtuoso moral e politicamente. Há, no entanto, uma outra explicação.

AB escreve que é uma das mais antigas e perenes ilusões a ideia de que a escola tem o poder de formar as pessoas e transformar o mundo. Pelo que seria indispensável formar os jovens de hoje para serem os homens de amanhã. É verdade, mas também é verdade que a escola neutra que AB parece defender não é menos ilusória. A escola não é nem pode ser uma instituição neutra pelo simples facto de a sua existência implicar já uma quebra da neutralidade. Instituir a escola é tomar partido perante a questão de saber se as pessoas devem ser instruídas ou não.  Desde a raiz que a escola não é neutra. Mais, mesmo com um currículo que não contivesse os devaneios ideológicos mais conflituantes, a escola não seria neutra. Dar importância às humanidades ou ensinar Matemática, Física, Química e Ciências da Natureza nada tem de neutro. É uma opção ideológica que é feita por aqueles que defendem a importância das ciências e das humanidades contra aqueles que julgam que tudo isso seria dispensável.

Não há escola não programática, até porque toda ela está estruturada em programas que formam um currículo, o qual não é, de modo nenhum, neutro. Resulta de escolhas ideológicas muito claras. A argumentação de AB pode ser boa para fazer campanha política, mas é inútil para enfrentar o problema da limitação do que deve ser ensinável na escola, nomeadamente, na escola pública. Neste momento, o currículo depende dos humores das maiorias que ocupam o poder, que impõem a sua visão ideológica enquanto governam. Se se assumir que não é possível uma escola neutra, pode-se abrir caminho para uma forma de instituir o currículo nacional de modo menos problemático, através da negociação daquilo que deve fazer parte da instrução das novas gerações. Como poderia isso ser feito? Por exemplo, através de maiorias qualificadas, tal como acontece com as alterações da Constituição. Isso não evitaria a escola programática, mas fundá-la-ia num consenso alargado, o que evitaria muitos dos devaneios que caem sobre as escolas.

 

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Nocturnos 64

Yale Joel, Night club dancer performing a bird cage scene. New York, 1958
Estranha a noite que transforma uma mulher num pássaro para ser exibido numa gaiola. Mais estranho e mais negro, porém, é o espírito de quem para se sentir vivo necessita de comprar o joio de tal metamorfose.

terça-feira, 6 de julho de 2021

De mão estendida


A comissária europeia Elisa Ferreira, em entrevista à Antena 1, afirmou que “neste momento é penoso ver que Portugal, com estes anos todos de apoio, ainda está entre os países atrasados”. Apesar da imprensa ter dado algum destaque às declarações da antiga ministra socialista, a mensagem tem os ingredientes suficientes para que muita gente a queira fazer esquecer. O que ela disse, traduzido numa linguagem mais ao gosto popular, é que chega de se viver à custa dos outros.  Na verdade, os fundos de coesão que Portugal tem recebido não nasceram de geração espontânea. São o fruto do trabalho de muitos europeus, dos seus impostos e do seu talento. Se se comparar o país antes e depois da adesão à União Europeia, ele é completamente diferente. Os fundos comunitários permitiram que Portugal não seja hoje uma espécie de Albânia dos tempos do socialismo real. A questão, porém, é que continuamos pouco competitivos e habituámo-nos a viver dos quadros comunitários.

Existem múltiplas razões para isso. A pouca formação dos portugueses, tantos dos trabalhadores como dos empresários, uma economia pouco adaptada à competição global ou a necessidade de uma carga fiscal forte para compensar a existência de salários muito baixos e de fraca tributação são razões efectivas para o atraso. Contudo, essas explicações acabam por ter um papel de ocultação do maior obstáculo, e este é de raiz cultural. Essa cultura combina traços muito diferentes, os quais formam uma rede que acaba por tolher a saída de Portugal dos últimos lugares da União Europeia. Salientem-se dois desses traços.

Uma parte substancial da população, educada para isso durante séculos, resignou-se a uma vida estreita e pobre. Fica grata se sobreviver, se não tiver de passar fome. A resignação significa falta de expectativas e de um horizonte largo em que os portugueses possam desenvolver as suas potencialidades e expandir as suas ambições. Por norma, os que não se resignam acabam por emigrar. Um segundo traço diz respeito à falta de rigor e de exigência – isto é, de brio – naquilo que se faz. O problema existe na sociedade e é infundido nas novas gerações através das políticas de educação pública. A ideia de ir mais longe, de superação de obstáculos, de rigor no trabalho não está presente em parte significativa dos portugueses. Enquanto aceitarmos a cultura da resignação e da pouca exigência, continuaremos de mão estendida na Europa e a sobreviver, resignadamente, como um dos seus países mais atrasados.

domingo, 4 de julho de 2021

A Garrafa Vazia 64

Paolo Ricci, Autoritratto, 1929
O fel acumulado da virtude
abre-se, é um nó
corredio à volta do pescoço.

Se me mexo, o corpo
balança
e o ar falta-me na garganta.

Se me detenho, a alma
ofusca-se
e a razão perde o norte.

Ó virtude viciosa, em ti
dissipo a velha
arte da respiração.

Julho de 2021

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Estarolices, iliberalismo e refúgio da canalha


A mãe severa e o filho estarola. A senhora Merkel não gostou do modo leviano como Portugal abriu o país às gentes vindas do seu mais antigo aliado. Não achou boa ideia que os ingleses adeptos da bola andassem por aí e também não deve ter ficado bem impressionada com a abertura aos turistas da mesma nacionalidade. Educada no rigor alemão, viu um perigo para a Europa a abertura dos braços a quem vem de Inglaterra, lugar onde as novas variantes do coronavírus proliferam. Admoestou em público Portugal. O governo fez-se desentendido. A Alemanha fechou-nos as portas, uma medida pedagógica para ajudar à inteligência governamental. Parece que António Costa acabou por perceber. Irritante, porém, é Portugal colocar-se nesta posição. Deixar que uma mãe severa, mas preocupada, ponha em ordem um filho estarola.

O iliberalismo na Europa. As decisões do governo húngaro – e o apoio dado por governantes polacos – sobre os direitos dos indivíduos pertencentes à comunidade LGBTI é um rude golpe no espírito liberal, marcado pela aceitação do direito de cada um a não ser discriminado em função da orientação sexual. As opções políticas dos governos da Hungria e da Polónia há muito que contrariam as regras europeias e são uma clara manifestação do espírito iliberal. O que está em jogo não é apenas os direitos LGBTI, mas a preservação de um espaço de liberdade onde cada um pode, desde que não ponha em causa direitos de terceiros, gerir a vida como bem entender.

Mais estarolices à portuguesa. As duas primeiras figuras do Estado – o Presidente da República e o Presidente da Assembleia da República – acharam por bem aliviar a tensão perante a pandemia. Marcelo Rebelo de Sousa lembrou-se de dizer que com ele não voltará a haver estado de emergência, como se a situação pandémica estivesse controlada e ele fosse o deus que determina o comportamento do vírus. Ferro Rodrigues, excitado por um empate, apelou aos portugueses para que fossem em massa para Sevilha ver Portugal (perder, sabemos agora), como se o vírus não atacasse os adeptos do futebol. Portugal é um país cansativo. 

O refúgio da canalha. O dr. Samuel Johnson é conhecido entre outras coisas pelo dito “o patriotismo é o último refúgio do canalha”. Até à derrota com a Bélgica, Portugal foi um refúgio para um patriotismo bacoco, alimentado por uma comunicação social atoleimada e infantil. O patriotismo pode nem ser o último refúgio do canalha, entendido este como pessoa desprezível, mas em Portugal é mesmo o último refúgio da canalha, isto é, de uma população infantilizada e fascinada pelos saltos e ressaltos de uma bola.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Simulacros e simulações (25)

Ilse Bing, Self Portrait with a Mirrors, 1931

Duplicara-se para poder percorrer a distância que ia de si a si. Quando chegava à sua simulação, sentia uma súbita saudade de si. Retornava. Chegada, a melancolia invadia-a por se ter apartado do seu simulacro. Quando se cansou das viagens rasgou a imagem que de si fizera. Mal os pedaços caíram no chão, sentiu-se perdida, como se a alma a tivesse abandonado.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Decepções

Romeo Mancini, Apocalisse, 1964

Basta olhar para evolução dos números da pandemia para compreender como os portugueses – uma parte deles, claro, mas uma parte significativa – gostam de ser governados e, infelizmente, parecem precisar. Sob a mão-de-ferro dos confinamentos, tornam-se o povo mais disciplinado do mundo. Devolvida a liberdade, aliviada a vigilância, a indisciplina vai crescendo até atingir patamares perigosos. Não sei o que é mais decepcionante, se a incapacidade de muitos portugueses de sair dessa menoridade de que são culpados, para citar Kant, se a capacidade do governo para crer na fantasia que lidera um povo que se orienta pelos princípio racionais herdados do Iluminismo. Valha-nos Santa Angela Merkel.
 

sábado, 26 de junho de 2021

Nocturnos 63

Walter Sanders, Hamburg Essay, 1951

Há noites onde se adensa o mistério do mundo. Outras há em que tudo se torna transparente, mesmo aquilo que se mascara com o véu do enigma, mesmo o que se sussurra como segredo, seja o motivo que leva os homens correr para um destino desconhecido, seja o que leva uma mulher a atravessar a rua, quando não há, no outro lado, que a espere.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

A Garrafa Vazia 63

Markus Luepertz, Abrigo I. Ditirámbico, 1972
Com o alicate do tempo,
aperto os dedos
até o sangue romper a pele.

Vejo-o cair, uma mancha
no chão,
uma sombra na crosta do dia.

Imploro ao tempo que pare,
a dor grita
nesse sangue que me foge.

E o tempo passa veloz, rindo-se
do pobre pescoço
preso ao furor do garrote.

Junho de 2021

terça-feira, 22 de junho de 2021

A persistência da memória (3)

John Gutmann, Goodbye Berlin, 1933
Talvez o ano de 1933 tenha sido um mau ano para ficar em Berlim, mesmo para pássaros indiferentes aos negócios humanos. Tudo se terá tornado mais escuro, mais tenso, mais insensato. O ar era, então, irrespirável, mesmo se a multidão se tomava de alegria. É possível que as aves ao pressentir não a alegria dos homens, mas a da multidão, sintam uma angústia apossar-se do seu pequeno coração e fujam para longe, quanto mais longe melhor.

domingo, 20 de junho de 2021

Descrições fenomenológicas 66. Paisagem industrial

Gerardo Rueda, Bardala, 1961
O céu tinha desaparecido tragado por nuvens cada vez mais espessas de fumo. Das chaminés, pintadas de branco e vermelho, saíam baforadas contínuas onde o cinza suave e o chumbo pesado se misturavam para deixar um rasto de tristeza no horizonte. Dentro das grandes fábricas haveria, por certo, pessoas, muitas pessoas, mas fora delas não se via ninguém, como se todos tivessem sido capturados por um inimigo feroz ou alguma feiticeira irascível as houvesse enfeitiçado para as fazer desaparecer. Ao redor dos grandes edifícios o deserto progredia. Há muito que as plantas se tinham recusado a crescer ali. Também os animais, temendo o que se escondia sob a capa volátil do odor, teriam emigrado. Quem chegasse ao nosso planeta naquele instante e nada soubesse sobre ele, não imaginaria, ao ver o fluir do fumo, que ali se temperava o ferro para se transformar em aço. Olhasse-se para que lado se olhasse, a sensação era sempre a mesma. Uma viva opressão nascida das inúmeras fábricas, que nunca se cansavam de expelir fumarolas, pequenos vulcões ameaçadores. Por vezes, ouviam-se sirenes. Outras, passavam grandes camiões carregados. O que nunca parava, porém, era a azáfama no interior dos grandes edifícios. Os olhos procuravam uma ou outra mancha de verde, mas nunca a encontravam e perdiam-se num mundo de cinzas e desolação.
 

sexta-feira, 18 de junho de 2021

A iniciativa da Iniciativa Liberal


Não vale a pena falar do arraial que a IL decidiu promover em Lisboa. Fique-se pelo pormenor da barraca do tiro-ao-alvo aos adversários políticos. O partido, perante a repulsa de muita gente, argumentou que era uma brincadeira e como era uma coisa liberal, ninguém devia levar a mal. Qual é a mensagem da brincadeira? Simbolicamente, devemos matar os adversários. Faziam parte do alvo políticos de esquerda e, já na parte exterior, também Rui Rio e, salvo erro, Carlos Carreiras, ambos do PSD, talvez para disfarçar. Caso curioso é André Ventura ter sido poupado à morte simbólica. Também a IL tem uma nostalgia, mal disfarçada, pelo tempo em que a esquerda em vez de estar no parlamento e no governo, estava nas prisões políticas, na clandestinidade, no exílio ou debaixo de terra.

Este episódio veio mostrar mais uma vez a realidade portuguesa. Não existe, efectivamente, um espírito liberal. Quando emergem grupos de pessoas, ou partidos, que se dizem liberais isso significa, quase sempre, uma inimizade aos direitos dos trabalhadores, à existência e papel dos sindicatos, ao Estado social, a tudo o que proteja os mais desfavorecidos e as frágeis classe médias nacionais, mesmo quando se propõe a substituição do Estado na protecção das pessoas pela iniciativa privada, com a inevitável busca de lucro e a pouca preocupação com a protecção. A defesa de um feroz liberalismo económico raramente é acompanhada por ardor idêntico na do liberalismo político. Este parece ser uma coisa que tem de se suportar, enquanto não houver uma melhor solução, ou enquanto essa solução não tenha força para se impor. Falar em liberais portugueses não passa de um equívoco.

Por outro lado, o episódio do tiro-ao-alvo, e a subsequente desvalorização, inscrevem-se numa estratégia que os sectores mais radicais estão apostados há muito. Destruir os laços de convivência cívica entre pessoas que pensam de modo diferente, substituir adversários políticos por inimigos políticos. Trespassar com dardos, mesmo num jogo de arraial, as figuras dos adversários é desencadear um ritual mágico onde se mata simbolicamente as pessoas alvo. É apelar ao fundo inconsciente e tenebroso que existe em cada um de nós, é dar-lhe possibilidade de se tornar público. Um espírito liberal, enraizado nos valores da razão e do Iluminismo, detestaria este tipo manipulação das forças tenebrosas existentes nos seres humanos. Isso, porém, pressupunha que em Portugal existisse um espírito liberal. Não há.

domingo, 13 de junho de 2021

Nocturnos 62

Milton Greene, Marilyn Monroe “The Black sitting”, 1956
Como se levada por uma ânsia de luz, ela tenta libertar-se do peso da escuridão. Dá um passo, mais outro e ainda um terceiro. Logo a tentação lhe inclina o olhar que, habituado à noite, se volta para trás e arrasta com ele todo o corpo para o lugar de onde acabara de sair.

sexta-feira, 11 de junho de 2021

A Garrafa Vazia 62

Willem de Kooning, 24 dibujos con los ojos cerrados, 1966
Bebo o vinho azedo
da paixão
de cada hora.

O corpo estremece
ao sabor
do vento da irrisão.

Nem pródigo sou
como filho
bastardo de mim.

Ergo do chão o copo
e deixo cair
a garrafa vazia.

Junho de 2021

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Simulacros e simulações (24)

Ho Fan, Pattern, 1956

Um homem caminha preso à existência. Leva a vida às costas. Ela vai adormecida no fundo da cesta, sem dar por ele, aquele que lhe dispensa, em cada dia, todas as suas horas. Na parede, o homem nem repara, desenha-se, numa simulação geométrica, um mapa de luzes e trevas. É essa carta que guia, mesmo na sua ignorância, a existência onde o homem que caminha se prende com a vida às costas.

segunda-feira, 7 de junho de 2021

O progresso moral da humanidade (2)

John Gutmann, Artillery on Market Street, San Francisco, 1934
Durante anos, a espécie pode sentir-se feliz por se eximir aos trabalhos da guerra. O sangue enjoou-a, a dor tolheu-lhe o entusiasmo. Com o passar dos anos, a memória do horror dissolve-se, o enjoo passa e volta o velho entusiasmo de quem se extasia perante as marchas militares e o canto dos feitos de guerra. Exige então o sangue que em tempos a enjoara e o desejo de aniquilar o outro é o único que lhe parece ter sentido. A memória do mal é sempre um escudo precário para o desvario dos instintos.

sábado, 5 de junho de 2021

Os ingleses, o PSD, o Brasil e a senhora Merkel


A invasão inglesa. Depois da impotência no controlo nos festejos dos adeptos sportinguistas, tivemos agora direito à invasão inglesa, motivada também pelo futebol. Adeptos do Chelsea e do Manchester City acharam por bem eximir-se ao cumprimento das regras a que os cafres estão sujeitos. As autoridades, por seu turno, decidiram apostar na falta de comparência. Não me refiro à polícia, claro. Refiro-me aos responsáveis políticos. Talvez tenham tido medo de pôr em causa a mais velha aliança do mundo ou então recearam um novo ultimato inglês. Se foi um destes casos, só podemos louvar o talento político do Ministro da Administração Interna, caso tenhamos um.

A zanga do PSD. Decorreu mais um congresso do Chega, um partido político dirigido por um candidato a pastor evangélico. Consta que o espectáculo não foi edificante. O mais notável foi a zanga do PSD. Durante os dias de congresso, o PSD e Rui Rio foram bombos da festa. Como quem não se sente não é filho de boa gente, o PSD sentiu-se, zangou-se e não foi ao encerramento do congresso. Ora, o PSD anda tão embevecido com a nova maravilha que ainda não notou que o grande inimigo do Chega é o próprio PSD. O partido de Ventura não tem qualquer capacidade para penetrar no eleitorado de esquerda. Como o CDS é uma sombra fantasmática do que foi, resta ao Chega tentar devorar o PSD, para liquidar a direita democrática. Costa ri seráfico, mas o riso de Costa é tão idiota quanto a normalização do Chega empreendida pelo PSD.

Talvez esteja a acordar. Refiro-me ao Brasil. Depois de terem eleito Bolsonaro, um político completamente impreparado e que vive num universo paralelo, dominado pelas mais extraordinárias fantasias, os brasileiros começam a perceber o preço da brincadeira. A gestão da pandemia é apenas o caso mais notório de um descalabro com consequências nacionais e internacionais, devido ao peso que o Brasil tem no mundo, bem como a floresta da Amazónia, uma das vítimas do bolsonarismo.

Um problema para a Europa. Em breve, Angela Merkel abandonará o cargo de Chanceler. De todos os políticos democráticos do mundo ocidental, ela é a mais consistente, a mais estruturada, mas também a mais humilde e sóbria. Ela é, por outro lado, um exemplo de líder que acredita nos valores democráticos. Nunca tergiversou sobre eles, nunca se aliou com o diabo – isto é, a extrema-direita – por uma questão de poder. Nunca abandonou os princípios, mesmo quando isso poderia ter consequências para o seu poder. Aqueles que acreditam na democracia liberal e no projecto europeu vão ter muitas saudades da senhora Merkel.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Baixos padrões


Segundo o Público, Dominic Cummings, antigo conselheiro de Boris Johnson, terá afirmado, referindo-se à pandemia de COVID-19: “A verdade é que os ministros de topo, os funcionários de topo e os conselheiros de topo, como eu, ficaram desastrosamente aquém dos padrões que a população tem o direito de exigir ao seu Governo durante uma crise desta natureza. Quando a população mais precisou de nós, o Governo falhou”. A declaração de Cummings alerta para um facto curioso que está a ocorrer nas democracias ocidentais. Ao mesmo tempo que cresce o escrutínio dos governos, devido às redes sociais, cresce uma espécie de complacência com as más decisões, os erros ou a cegueira dos governos. Os governos aprenderam a lidar com o ruído dessa opinião pública e esta, apesar da sua virulência palavrosa, foi apanhada numa rede que lhe tolhe o espírito crítico.

As palavras de Dominic Cummings sublinham outra questão. A governação deve estar a cargo de uma elite. Democrática, no seu acesso, mas uma elite. Quem governa deve pautar-se por elevados padrões, submeter-se a uma apertada disciplina e a uma grande exigência no cumprimento das suas tarefas de governação. Há ‘padrões que a população tem o direito de exigir do seu governo’. Isto parece ter sido esquecido tanto por governantes, como por governados. Generalizou-se a ideia de que a governação e os altos cargos do funcionalismo pertencem aos medíocres, desde que sejam hábeis manobradores dos eleitorados ou se acolitem sob o guarda-chuva de um manobrador eleito.

Uma leitura apressada poderá julgar que o problema terá a ver com o regime democrático. Haverá quem ache que um regime autoritário traria um mais alto padrão de elites governamentais. Na verdade, aquilo a que estamos a assistir é um problema que toca as democracias, mas não torna as soluções autoritárias melhores. O que se passa com a democracia e o crescimento dos baixões padrões de governação estará relacionado com o fenómeno da polarização política que se tem desenhado nas democracias ocidentais, devido ao crescimento do populismo de cariz autoritário. Os eleitores deixaram-se capturar por uma lógica tribal e avaliam as governações apenas pelo facto de serem ou não da sua tribo política. Tudo aos da sua tribo é perdoado, nenhum mérito, por maior que seja, é reconhecido a políticos provenientes da tribo inimiga. O resultado, para além da crescente tensão, é o da proliferação da mediocridade e os baixos padrões que os governantes têm a oferecer às suas populações. Nas situações de catástrofe, tudo isso se torna dolorosamente visível.

terça-feira, 1 de junho de 2021

A Garrafa Vazia 61

Caspar David Friedrich, A Mountain Peak with Drifting Clouds, 1835
Canto, a voz rouca,
o ritmo pausado,
não a desdita
mas o fausto,
o ressoar da derrota.

Canto pelas ruas,
cabeça caída,
o andar manco
de quem vive
na escarpa da desordem.

Maio de 2021

domingo, 30 de maio de 2021

Nocturnos 61

José Gutiérrez Solana, Mujeres de la vida, 1915-17

Há uma equívoca relação entre a noite e as mulheres que foram reconhecidas - talvez, sem ironia - como mulheres da vida. A autêntica relação que se estabeleceu entre essas mulheres e a noite foi a vida ter anoitecido dentro de cada uma, mesmo que olhos e coração desejassem a luz pura da manhã, mesmo que temessem, no mais recôndito de si, as trevas ou a palidez lunar.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Beatitudes (46) Suspender a gravidade

Andreas Feininger, A man in Arabic dress, smoking a water-cooled pipe, is comfortably sitting on a magic carpet, 1954
O velho sonho de suspender a gravidade não é um mero desejo físico de poder voar, de concorrer com as aves, mas o princípio de toda a felicidade. Sem gravidade não há queda. Sem queda não há expulsão do paraíso, esse lugar de beatitude eterna. Sempre que o homem sonha elevar-se aos céus é movido pelo desejo secreto de retorno ao lugar de onde a imaginação lhe diz ter sido expulso.

quarta-feira, 26 de maio de 2021

A persistência da memória (2)

Ruth Matilda Anderson, The Galician Milkmaid, 1925
A rapariga que ordenha as vacas e transporta o leite deixa sair dos seus olhos um véu de pudor mais de que de tristeza. Talvez a incomodasse não a pobreza ostensiva, os pés descalços, a roupa velha e esgarçada, mas exposição ao olho indiscreto da máquina fotográfica, dispositivo anunciador de um outro mundo e uma outra vida, na qual as suas filhas não andarão descalças e as suas netas não ordenharão vacas.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Os festejos do Sporting e a governação socialista

 

Perante o espectáculo das comemorações, em tempo de pandemia, da vitória do Sporting no campeonato de futebol, não faltou quem estabelecesse analogia entre esse acontecimento e aquilo que se passou no Natal. A semelhança mais notória foi a da permissividade. Permitiu-se que os portugueses fizessem o Natal como achassem melhor. Permitiu-se que os sportinguistas comemorassem o título de campeões como quisessem. Esta, porém, é a semelhança mais superficial entre os acontecimentos. Nos dois casos, qualquer pessoa, com um módico de inteligência e de atenção ao que se está a passar, poderia fazer uma previsão tanto do que iria acontecer em termos de comportamento de portugueses e de sportinguistas, como das suas consequências sanitárias. O traço que une os dois acontecimentos é a falta de coragem do governo para enfrentar os portugueses, desde que isso represente uma ameaça eleitoral.

Uma das coisas que parece ter-se tornado uma natureza nas governações socialistas é de nunca enfrentarem nem quem é particularmente poderoso, nem quem tem peso eleitoral. Não é que os governos socialistas não tenham enfrentado grupos de portugueses. Veja-se o caso dos professores e o caso dos camionistas. O governo enfrentou-os com decisão e grande eficácia, derrotando-os. Fê-lo, porém, porque estava ciente de que isso reforçava o seu peso eleitoral. Ainda por cima, só por manifesta má-fé se pode achar que professores do ensino não superior e camionistas são grupos poderosos. Os governos do PS estão vocacionados não para o que deve ser feito, mas para a contabilidade de ganhos e perdas eleitorais, mesmo que isso tenha consequências desagradáveis.

Este traço das governações socialistas é antigo. Encontra-se em todas elas com exclusão dos governos de Mário Soares, que fizeram, nas circunstâncias que eram as suas, aquilo que deveria ser feito, independentemente das consequências eleitorais. O que se passou com os festejos dos sportinguistas e com o Natal passado é um traço que se coaduna muito bem com parte dos eleitores portugueses. Gostam de soluções superficiais, de opções que não incomodem, de decisões que sejam agradáveis. Parte substancial dos portugueses é assim mesmo. A questão, porém, é se aqueles a quem foi dado o poder de governar se devem pautar pelo gosto da maioria ou se têm a responsabilidade de, a cada momento, tomar as decisões que melhor sirvam a comunidade, mesmo que isso desgoste essa comunidade. Nos casos do Natal e dos festejos dos adeptos do Sporting, tornou-se manifesta qual é a prática deste governo.

sábado, 22 de maio de 2021

A Garrafa Vazia 60

Yves Klein, Antropometría sin título, 1960
Vives entre alçapões
e miasmas,
o fogo do medo
queima-te a pele,
a doença perscruta-te
os gestos.

Encarnas o papel
do negativo,
mas a história nada
te deve
a não ser a glória
do breve esquecimento.

Maio de 2021

quinta-feira, 20 de maio de 2021

O progresso moral da humanidade (1)

Juan Vidales Pousa, sem título

Há um género de hiena que pulula nas redes sociais. Exibe um suposto virtuosismo, onde a estrela polar é o seu ego. Esse eu que não precisa de nada nem de ninguém, uma espécie de super-homem que exibe a sua superioridade sobre os pobres patifes que necessitam de recorrer ao auxílio da comunidade. São os arautos de um mundo de onde o sentimento de piedade terá sido erradicado. A piedade é um assunto de Deus, dirão, as hienas, por uma questão de sobrevivência, cultivam a necrofagia.

terça-feira, 18 de maio de 2021

A persistência da memória (1)

Kurt Hielscher, Miltenberg, 1930s
Toros empilhados, galinhas pela rua, trepadeiras nas paredes das casas, essa decisão do passado se calar e poupar-nos das suas razões, essa persistência de ficar em si e de se afastar cada vez mais, sempre mais depressa, do presente. Apura-se o ouvido, mas ninguém se dispõe a falar connosco.

domingo, 16 de maio de 2021

Nocturnos 60

Tono Carbajo, Círculos en Hyginus, 1992

As trevas puras não existem. São apenas uma ideia reguladora daqueles que se entregam aos poderes da escuridão. De queda em queda, aproximam-se lentamente desse lugar inexistente de onde toda a luz teria sido banida. Mesmo na mais escura das noite ainda reverbera a prata, a cinza, a sombra que se abre como uma promessa.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Simulacros e simulações (23)

Joseph Kosuth, One and Three Chairs (1965)

Múltiplas são as estratégias de simulação. A imitação pela imagem ou a definição pela palavra, entre outras a que a imaginação pode recorrer. Um antigo filósofo, porém, viu nos objectos reais apenas simulacros que simulam a realidade invisível. Viveremos num mundo no qual os simulacros se simulam uns aos outros, ora ascendendo perto da autêntica realidade, ora caindo cada vez mais fundo e mais longe dessa realidade.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

A Garrafa Vazia 59

Carlos de Paz, Con pensamientos abollados II, 2001
Eis a noite tecida
no tear das trevas.

Corvos crocitam
um requiem eterno.

Sarjetas derramam
águas e infecções.

Sujo, deito-me
no chão, adormeço.

Maio de 2021

 

segunda-feira, 10 de maio de 2021

O discurso de Marcelo e a democracia


Quando este artigo chegar ao público, já o discurso do Presidente da República, no dia 25 de Abril, terá quase duas semanas. Poucos se lembrarão dele. Marcelo Rebelo de Sousa é um actor político talentoso, tem grande capacidade de sedução, mesmo dos seus adversários. Não foi isso, porém, que terá feito que quase todo a Assembleia o tivesse aplaudido. De forma mais ou menos inconsciente, os deputados pressentiram que ele tocava numa questão central para a existência de uma democracia, tal como se entende no mundo ocidental.

As democracias são regimes políticos concorrenciais, nos quais o conflito é fundamental, sendo mesmo aquilo que lhes dá energia e os torna capazes de responderem melhor do que qualquer outro regime aos anseios das populações. No entanto, essa conflitualidade necessita de ser sustentada por um consenso de fundo, o qual permanece muitas vezes silencioso, mas nunca deixa de estar presente. Esse consenso é o grande alicerce da democracia. Se ele derrui, o regime é arrastado ou para uma situação autoritária ou, no pior dos casos, para a guerra civil.

O Presidente da República sentiu o perigo e, com o seu discurso, tentou evitar que o incêndio deflagrasse. A democracia portuguesa foi construída sobre um silêncio consensual e nunca assumido perante o passado colonial. Esse silêncio consensual não significa que não se fale nisso, que os cidadãos não tenham opiniões e sentimentos opostos sobre esse assunto. Significa que os partidos principais evitam que essa seja uma questão com visibilidade política e que interpretações diferentes do passado sejam causas de rupturas perigosas. Significa ainda que os agentes políticos esperam que a passagem do tempo faça à questão colonial aquilo que fez com a questão monárquica. 

Marcelo Rebelo de Sousa sabe bem que os tempos estão propícios para grandes clivagens identitárias e que a questão colonial portuguesa se inscreve muito bem nesse panorama. Se se não tiver algum cuidado, o país em vez de discutir os problemas que enfrenta não tarda está incendiado por causa do passado. O discurso conciliador do PR tinha como fim chegar aí e foi uma efectiva lição não de história, como se pretendeu, mas de política. Não fez a apologia, como alguns leram, da relativização de crimes perpetrados, mas explicou, a quem o quis ouvir, que a política é a arte do possível. Que se investigue tudo, disse. Isto é, que a Academia faça esse trabalho e que a política se liberte do ónus, para que o consenso necessário à democracia não seja dilacerado até à morte desta. O discurso do PR foi um acto de defesa da democracia.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

sábado, 8 de maio de 2021

Perfis 17. A modelo

Walde Huth, Model Patricia in Jaques Fath, 1955

No momento em que, tomada por uma lentidão trágica, ergue o braço e inclina a cabeça, ela deixa que o corpo, envolto em ondas de claro e escuro, contrastadas para se sublinharem, se torne um jogo de linhas e movimentos serpenteantes, de formas precisas e promessa adiadas, o sinal de um fogo contido, de um vulcão dissimulado, de uma estrela amenizada pelas longas distâncias. Toda o refreamento que há naquela silhueta hierática, colocada sobre a influência astral da mais conhecida das torres francesas, é o anverso do desejo que ateia nos olhos incautos de quem a olha. Num primeiro momento, é a roupa que se torna objecto desse anelo, mulheres que se queriam assim vestidas, homens que devaneiam descobrir-se ao lado de alguém que desse modo se apresentasse. O olhar, porém, só por momentos se entrega ao ludíbrio das aparências. Logo vê para lá do branco e negro com que ela se envolve. Antecipa o corpo livre daquilo que o cobre, o desalinho da entrega, o ardor que da pele haveria de chegar. Ela, porém, indiferente ao desejo de quem a possa desejar, encerra-se em si mesma, sublinha o seu segredo, para devir enigma e quebra-cabeças para os olhos que sobre ela recaem. Na sua mente, não há outra coisa senão esse momento em que se entrega à representação como sendo a única realidade existente no mundo. Toda a sua existência é feita de gestos suspensos, tornando-se estátua, libertando-se do efémero da vida, interpondo entre si e a realidade a mais intransponível das fronteiras. Nessa coreografia não há mácula, apenas a inocência de estar ali, a simplicidade culpada de não querer saber que toda a sua representação de uma fria distância é o rastilho aceso que explodirá, um fogo de artifício na noite mais escura do ano.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Simulacros e simulações (22)

Garry Winogrand, Austin, Texas, 1974

Uma das mais equívocas relações é aquela que liga o jogo e a vida. Pensa-se, não raramente, ver no jogo uma simulação que adapta os seres humanos à vida. No entanto, essa visão pedagógica é limitada e unilateral, pois a vida não passa, muitas vezes, de um simulacro decaído do próprio jogo.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

47 anos de regime democrático


No dia 25 de Abril, passaram 47 anos da queda da ditadura de Salazar e Caetano. O novo regime nasceu com um problema que, no momento da libertação, não foi claramente notado. Faltava-lhe uma direita. Se olharmos para a Europa Latina, encontramos, em Itália e França, tanto a direita como a esquerda na resistência a regimes ignominiosos. Em Espanha o caso é diferente. Foi a direita franquista que assegurou a transição à democracia. Nestes países, a direita tinha uma legitimidade democrática que ombreava com a esquerda. Em Portugal, um país severamente despolitizado pela ditadura, a direita estava – com honrosas excepções – com o regime deposto. A queda da ditadura, o entusiasmo popular, a emergência das grandes figuras oposicionistas à luz do dia, tudo isso foi motivo de dor e de temor para a direita.

No entanto, o 25 de Abril de 1974 foi uma oportunidade para o nascimento de uma direita democrática em Portugal. Em torno de Sá Carneiro e de Freitas do Amaral, emergiu uma nova e democrática direita, que trouxe para a política nacional as perspectivas ideológicas, políticas, sociais e económicas das direitas democráticas europeias. Esta substituição da velha direita apoiante da ditadura pela nova direita foi uma das mais valiosas conquistas de Abril. No plano político não foi a única, pois também, com o desenrolar dos acontecimentos e a perda de ilusões, a esquerda revolucionária tornou-se democrática e parlamentar. O 25 de Abril foi o ponto de partida para uma aprendizagem geral da vivência política da democracia. Só então, os portugueses começaram a aprender o que era viver num regime marcado pelo pluralismo e pela concorrência.

Do ponto de vista político, qual o grande desafio que hoje se coloca ao regime saído do 25 de Abril? O grande desafio é evitar a radicalização e a transformação do combate político numa guerra de seitas. Há, em parte da sociedade, uma espécie de rancor à democracia e um desejo de confrontação, de transformação da vida política numa guerra entre nós e eles. Essa parte encontrou hoje a sua representação política histriónica. De momento, é minoritária. Contudo, os efeitos devastadores da pandemia por que estamos a passar podem criar uma situação social propícia a uma radicalização de novos sectores. A melhor forma de continuarmos a comemorar o 25 de Abril é, à esquerda e à direita, evitar radicalizações, evitar o corte de pontes com o outro lado, evitar que os cantos de sereia dos inimigos da democracia se façam ouvir com os seus tambores de guerra.

[A minha crónica em A Barca, de Maio]

sábado, 1 de maio de 2021

A Garrafa Vazia 58

Gerardo Rueda, Alcalá, 1960
O joio solta-se da vida,
restos de sangue
forjados
no roteiro da escuridão.

Das luzes amarelas,
chega-me pálido
um clarão.
Empalideço com ele,

deus nascido do ócio,
a vida tomada
pelo secar do sentido
na seiva mirrada da noite.

Abril de 2021