Portugal sempre foi um país de ressentimentos vários. Hoje, porém, um
dos efeitos mais visíveis da crise e das medidas estruturais (e que
estruturação…) deste governo, bem como do anterior, é o crescimento exponencial
do ressentimento social. Basta ler os comentários nos jornais online às
notícias sobre política (um exercício que faço com regularidade). Para ajudar
ao ressentimento nacional, o dr. Cavaco não se eximiu de confessar a exiguidade
das suas reformas, de mostrar o seu próprio ressentimento, digamos assim. No
tempo do prof. Salazar éramos pobres e felizes nessa pobreza, o próprio ditador
evidenciava a felicidade da sua contenção monástica. Hoje, depois do dr. Cavaco
primeiro-ministro nos ter incentivado a ser ricos, tornámos a ser o que sempre formos:
pobres. Agora, contudo, a exemplo do próprio dr. Cavaco presidente da República, somos
infelizes. E a infelicidade é a porta por onde entra o ressentimento.
sábado, 21 de janeiro de 2012
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Poema 14 - Os tumultuosos dias ao teu lado
Os tumultuosos
dias ao teu lado,
um sulco
aberto na memória,
promessa
juvenil
na errância que me trouxe aqui.
Os deuses
retiraram-se
e tudo na
terra é mais sombrio:
se
trocamos um olhar,
logo as
faces escurecem na luz matinal.
Chegou o tempo
da palavra silenciosa,
a hora em
que a chama se extingue
contra o
horizonte da noite.
Os luminosos
dias em que te amava
fecham-se
agora num círculo imóvel,
anúncio secreto da fria eternidade.
anúncio secreto da fria eternidade.
O retorno do neo-realismo
A minha crónica de hoje no Jornal Torrejano.
Nos finais dos anos oitenta dei aulas numa conhecida cidade
alentejana. Apesar da revolução ter ocorrido há década e meia, apesar da forte
influência do Partido Comunista, as relações sociais pareciam solidificadas no
tempo. Durante o ano que aí leccionei, frequentei um célebre e tradicional café
local. O quadro que me era oferecido fazia lembrar as descrições da literatura
neo-realista. Tinha saído de Torres Novas – apesar da sua pequenez e falta de
massa crítica, vivia relativamente adequada à sua época – e aterrara quatro
décadas atrás. A vida social que me era dada a observar seria a normal nos anos
quarenta e cinquenta do século XX.
Aquilo a que estamos a assistir neste momento em Portugal,
nomeadamente nas relações laborais, na estratégia de exploração de uma mão-de-obra
cada vez mais barata mostra duas coisas essenciais. Em primeiro lugar, torna
evidente que toda a estratégia de adesão de Portugal à União Europeia foi
sofrivelmente pensada, mal executada e pessimamente dirigida. Não se olhou nem
para a nossa realidade social e económica nem para aquilo que somos
efectivamente enquanto povo. E essa política conduziu ao sítio onde estamos. Formalmente
as coisas pareciam funcionar (por isso os políticos eram reeleitos), mas as
opções erradas acabaram agora por se tornar óbvias. Os políticos portugueses
foram muito bons em produzir e vender ilusões, mas perfeitamente incompetentes
em lidar com a realidade.
Em segundo lugar, quando o descalabro de 25 anos de políticas erradas
se torna evidente, o único modelo que a elite governativa possui na cabeça é o
retorno a relações sociais que preenchem um certo imaginário perdido. Aquele
que os dirigentes actuais tinham ouvido a pais e avós, os bons tempos de
mão-de-obra barata, da criadagem em casa, da grande diferença entre grupos
sociais, que permitia a uns recrutar, muitas vezes a troco de comida e dormida,
pessoas para os seus serviços, dos velhos tempos de um paternalismo caridoso. Um
retorno aos anos quarente e cinquenta do século passado.
Apesar do neo-realismo ter sido uma corrente estética marxista, a
nossa direita nunca deixou de ser neo-realista, de sonhar com aquele mundo de
senhores e de servos que alimenta a literatura e o cinema neo-realistas. Com o
governo de Passos Coelho, retornamos, no âmbito da estética política, ao
neo-realismo. Mas o primeiro-ministro deveria recordar as palavras de Marx. A
história repete-se, uma vez ocorre como tragédia, a outra como farsa. Estamos
no tempo da farsa.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
O desamor à liberdade
A democracia, enquanto regime político, nunca gerou grandes paixões em
Portugal. Pressente-se, por norma, uma certa condescendência perante a sua
existência, como se ela não fosse um regime político sério e a sério. O estudo "AQualidade da Democracia em Portugal: a Perspectiva dos Cidadãos"
revela que apenas 56% dos portugueses acreditam que que ela é o melhor sistema
político. O estudo chama a atenção para duas vertentes que deverão ser pensadas
conjuntamente. Por um lado, o apelo autoritário; por outro, o problema da
justiça social ancorado na redistribuição da riqueza produzida. Segundo um dos
autores do estudo, António Costa Pinto, "existe uma eminente contradição
entre o que a democracia aponta como questão fundamental, que são as eleições
livres, e o que as pessoas pensam que é que a democracia, ou seja, que ela
assenta na redistribuição da riqueza, no emprego e no combate à exclusão
social".
Ora
é preciso compreender historicamente o problema. Portugal não só tem uma longa
história de regimes autoritários, como a derrota, com 25 de Abril de 1974, da
ditadura e a instauração de uma democracia representativa esteve ligada ao redesenhar
do pacto social com a promessa de uma redistribuição menos desigual dos
rendimentos. De certa forma, a narrativa geral (à esquerda e à direita) foi que
a democracia promovia, contrariamente à experiência dos autoritarismos, uma
redistribuição mais equilibrada e equitativa. Os partidos políticos tentaram
assim comprar – num país
essencialmente pobre – os cidadãos para o regime. Não foi o amor à liberdade
que mobilizou as pessoas para a democracia, foi o sonho de uma vida um pouco
mais decente, foi o querer fazer parte integrante desse pacto e ser reconhecido
como um igual. Quando esse sonho se desmorona, quando a desigualdade crescente parece
ser o único produto social do regime democrático, é natural que o ancestral
desamor à liberdade cresça, prenunciando o momento em que uma larga fatia da
população esperará pela vinda de um salvador.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Poema 13 - O sol da tarde lembra os campos na primavera
O sol da
tarde lembra os campos na primavera,
quando os
teus cabelos ondulavam
empurrados
pelo vento
e todo o meu
olhar poisava em ti.
Respiro no silêncio
solar
e soletro na
memória todas as vezes
que contei
os teus dedos
no perfeito
assombro dessa mão.
Em certas horas amamos outras montanhas,
e deixamos o
corpo vogar pelos caminhos
que a
surpresa abre na floresta.
Mas se o inverno
chega sombrio,
escutamos o
apelo da terra
e retornamos
à casa que nos viu partir.
domingo, 15 de janeiro de 2012
A pluralização das narrativas políticas
O debate teórico e a discussão pública sobre questões políticas estão
há muito cativos da oposição entre liberalismo e socialismo. As categorias e as
práticas defendidas por ambos os campos afrontam-se e enfrentam-se pelo menos
desde o século XIX. De certa maneira, a reacção socialista ao liberalismo tomou
o lugar da reacção aristocrática, e solidificou uma interpretação do mundo que
parece ser a única possível, transformando esse conflito no motor da vida
pública. Mesmo a emergência dos chamados partidos Verdes, com as suas políticas
em torno da ecologia, e o aparecimento de causas, mais ou menos transversais ao
espectro político, referentes a direitos específicos acabaram por ser absorvidos
pela guerra civil dos herdeiros do Iluminismo, pela clivagem entre liberais e
socialistas.
O problema que vale a pena pensar, do ponto de vista da teoria
política, é se essa clivagem ainda permite perceber e pensar a realidade que
vivemos. Percebe-se que os liberais, nas suas diversas modalidades, desejem
continuar o debate com o socialismo. É a forma que eles têm para solidificar e
eternizar a sua vitória, é a estratégia seguida para ocultar as brechas que se
abrem no seu próprio campo. Mas a entrada em jogo de novas realidades implica
um reformular das velhas dicotomias. Alguns exemplos. Na China, é um regime antiliberal
que permite o aparecimento de um capitalismo ultraliberal na própria China e, concomitantemente,
o reforço das posições liberais no Ocidente. No mundo árabe, tudo indica que a
liberalização política criará espaço para modos de vida iliberais. Por fim, no
Brasil é uma governação ideologicamente antiliberal, de carácter socialista,
que consegue de forma mais consequente o desenvolvimento capitalista do país,
ao ponto de torná-lo numa das grandes potências emergentes na cena política
mundial. Os exemplos poderiam multiplicar-se.
Esta contaminação de categorias teóricas e de práticas políticas
mostra que algo na velha narrativa do conflito liberal-socialista está já
ultrapassado. Isto significa que os próprios problemas como o da injustiça
social, da pobreza, do desenvolvimento e repartição de bens precisam de um novo
mapa categorial e da construção de novas narrativas sobre a questão política.
Há um coisa que, no entanto, é central. Se o Iluminismo e o projecto da
modernidade cindiram o velho edifício unificado dos regimes monárquico-aristocráticos
em dois campos (primeiro a oposição entre conservadorismo e liberalismo;
depois, a oposição liberalismo e socialismo), a nova situação será ainda mais
fragmentária, gerando múltiplas narrativas que se confrontam com as suas
categorias teóricas e os seus interesses práticos. O conflito entre liberalismo
e socialismo é um assunto da história da Europa. Mas esse mundo acabou. Há que
perceber aquilo que os outros dizem e como justificam as suas pretensões. Há
que dar atenção às suas narrativas, aos seus conceitos, aos seus interesses e
aos seus poderes. Eles já existem e estão a moldar o mundo. Nós é que ainda não
percebemos.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Silêncio ensurdecedor
[A crónica semanal no Jornal Torrejano]
Teremos, enquanto comunidade nacional, chegado ao
fim? Terá o projecto iniciado por Afonso Henriques, em 1143, esgotado todas as
potencialidades? Não é apenas a malfadada crise, o desemprego crescente, o
empobrecimento inevitável. Nem sequer, o desânimo de ouvir, a cada passo, um
governante convidar os portugueses a emigrar, nem tão pouco o facto de termos
de suportar uma elite política ignara e indigente. Isso ainda seria suportável
e superável.
Incomoda o silêncio e a apatia dos cidadãos em
geral, que parecem aceitar tudo como se fosse um destino inexorável. Exultam os
governantes por não sermos como os gregos, por nos manifestarmos pacatamente,
como quem vai à procissão do Senhor Morto ou a um funeral. Cegos com a saloiice
do aluno bem comportado, como se vida de uma nação não passasse de uma temporada
escolar, as elites não percebem que a pacatez é sintoma de doença da vontade,
de falta de energia, de impotência de um povo que se entrega, em silêncio, ao
cruel destino de desistir de si mesmo.
Incomoda o carácter mesquinho das elites
económicas, sem qualquer interesse que não seja o da sua propriedade.
Iniciativa, risco, criação de riqueza, descoberta de novos mercados, de novos
produtos, alteração dos métodos de gestão, tudo isso parece, em Portugal, um
sonho. Esperam salários ainda mais baixos, mais horas de trabalho, mais uns
contratos com o Estado, se ainda for possível, ou, em alternativa a tudo isso,
pôr o dinheiro a render em algum paraíso fiscal.
Incomoda o silêncio da universidade e da
intelectualidade. Nada têm para dizer sobre o país, sobre as alternativas para
sairmos do pântano onde estamos atolados. Não há um debate sério, com conflito
de ideias, sobre a situação. Discutem-se aventais. Um país que está à beira do
colapso passa uma temporada infinita a discutir a magna questão de quem
pertence à Maçonaria.
Para onde orientar a economia? O que fazer da nossa
cultura? Como deveremos pensar a nossa relação com a União Europeia e para onde
deve esta caminhar? Como activar as nossas relações com as comunidades
portuguesas existentes pelo mundo? O que deveremos fazer na relação com o mundo
globalizado? Que problemas e que oportunidades resultam da nossa natureza
periférica e atlântica? Nada disto interessa à universidade e à intelectualidade
portuguesas.
Um povo impotente e doente da vontade, elites
impreparadas, mesquinhas e cínicas parecem anunciar o pior. É ensurdecedor o
silêncio que existe em torno do destino de Portugal.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Um acto falhado
As declarações da dr.ª Manuel Ferreira Leite sobre a hemodiálise a
partir dos 70 anos são interessantes porque são um acto falhado. Acaba por
dizer aquilo que o regime pressente mas não diz. Certamente ela também não
queria dizer o que disse, e corrigiu de certa maneira a intervenção. A retórica
dos direitos humanos cobre o que efectivamente se pensa e se sabe que, mais
tarde ou mais cedo, irá ser a solução imposta. E não será apenas a hemodiálise.
Há um interesse objectivo em que se morra mais cedo. Não digo que as
pessoas subjectivamente o assumam. Isso chocaria a sua consciência. Mas a
orientação política que vai sendo tomada terá como consequências essa
diminuição da esperança de vida. Os cuidados de saúde vão ser cada vez mais
caros para uma sociedade cada vez mais pobre. Não é preciso ser muito
inteligente para perceber o resultado. Trata-se de uma medida racional dentro
daquilo a que Michel Foucault deu o nome de biopolítica. Como controlar a
população? É isto que está em jogo, independentemente da consciência que os
actores têm do caso, a qual é irrelevante.
Poema 12 - Deste caos chega uma canção
Deste caos chega
uma canção.
Vem pálida sobre
o dorso da noite
e anuncia a dor
nos dias venturosos.
As primeiras
letras não foram soletradas,
e já o tempo
das palavras acabou.
A efémera
paisagem cedeu o lugar:
um rio de cinza
na fonte do desejo,
o medo avança
ao cantar.
É tempo de
escutares a minha prece.
É tempo de entoar
o teu nome.
É tempo de
cantares a minha canção.
Não tornarei
a colher flores no jardim,
nem as mãos
se levantarão aos céus.
Um rumor
indica o vento a nascer,
e no meu
coração não há sangue
que o
inverno leve para o teu.
domingo, 8 de janeiro de 2012
Poema 11 - Os domingos de sol são dias votados ao silêncio
Os domingos
de sol são dias votados ao silêncio.
Neles, premeditam-se
grandes assassínios:
a fantasia
cresce desmedida,
salta os
muros da cidade,
e corre
pelas avenidas da memória,
à procura
das raparigas de outrora,
jovens e frescas
raparigas
que iluminavam
o sol desses fatigados dias.
Não há lugar
que nos cure,
que do
passado ofereça um sinal
ou traga o ferrear
dos eléctricos nos carris.
Restam raparigas
submersas no tempo,
sem rosas
nas casas onde empardeceram,
sem água
para regar os gerânios,
sem
genealogia para um jardim
onde as mãos
chamassem pela terra.
sábado, 7 de janeiro de 2012
Poema 10 - Não foi aqui que os deuses me tocaram
Não foi aqui
que os deuses me tocaram
e chamaram por
mim,
oferecendo-me
como aliança
as escarpas
do teu amor.
Não é aqui a
minha pátria,
essa terra
que percorria de olhos vendados
e de que
sabia todos os cheiros
e a cor de
cada amanhecer.
Não será
aqui que esperarei a morte,
quando os
teus dedos puros e brancos
dos meus se
separarem,
entregando-os
à orfandade da noite.
O sintoma da doença
Desistiram! Quando são os governantes que louvam e proclamam a bondade
da emigração dos jovens quadros, que interpretação devemos fazer disto? Há
muitas interpretações plausíveis. Mas talvez a mais pertinente seja a que nos
mostra que estamos profundamente doentes. Não me refiro apenas aos portugueses –
embora estes estejam quase em coma –, refiro-me aos europeus em geral. Só povos
a caminho do estado terminal escolhem governantes como aqueles que nos cabem em
sorte de há vinte anos para cá. Esta gente que elegemos, mesmo quando não
votamos neles, não passa de um sintoma dessa doença mortal que atingiu a Europa
e, com especial virulência, Portugal. O melhor mesmo é, quem pode, emigrar, e
aquilo que há ainda de bom e rentável se venda aos chineses, aos árabes, aos
angolanos. Nunca tive arroubos nacionalistas, nem acho que os chineses, os
árabes, os angolanos sejam piores ou melhores que nós. O que é insuportável é
estarmos entregues a elites políticas deste jaez, elites políticas que não têm
uma ideia nem para o país nem para a Europa. Gente cuja missão é liquidar
aquilo que foi obra de muitas gerações ao longo dos séculos. A Europa, a
civilização ocidental, e no caso concreto, Portugal, vão morrer às mãos desta
gente.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
O apreço pela democracia em Portugal
O desabafo de Passos Coelho, hoje, à saída do Parlamento, depois do
debate quinzenal, é esclarecedor do grau de enraizamento da democracia nas
nossas elites políticas: “Vamos trabalhar, já são horas.” Dir-se-á que foi um
acto falhado. Mas não é nos actos falhados que se revela a verdade inconsciente?
No fundo, a democracia é uma enorme chatice. O Prof. Salazar sabia-o bem. Por
isso só havia uma cor na Assembleia e ele não perdia tempo com essas coisas
menores de ouvir e discutir com a oposição. Não foi por acaso que, naquele
infeliz concurso televisivo, o velho ditador foi eleito como o maior português
de todos os tempos. A democracia para os portugueses, mesmo para a generalidade
das elites políticas, é um assunto da razão e da conveniência mas não do
coração.
Poema 9 - Aquilo que de novo chega
Aquilo que
de novo chega,
- a súbita
melodia do vento pelos ramos,
a folhagem
das tuas mãos vazias, -
chega sempre
tão tarde,
que a
esperança se desvanece
na distância
que nos separa dos céus.
Desconheço a
ordem da vida
e todas as rosas
são antecipações da morte,
prenúncios
de cinza que cantam a tua ausência.
Tão longe te
perdeste, casta Eurídice,
presa na
névoa impura do tempo;
tão longe ficou
a hora do amor silencioso,
das palavras
brancas de tanta dor.
Ergo-me e
volto aos dias de primavera,
mas os
campos estão sombrios
e o fardo
pesa-me sobre os ombros.
Esqueci
todas as regras do amor
e tomo a
desventura como destino
ao caminhar por
veredas de sombra e terra.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Da produção de quimeras humanas
Hoje em dia, quimeras não são monstros mitológicos que combinam um
corpo de cabra, cauda de dragão e cabeça de leão. Hoje existem mesmo quimeras.
O Público explica assim o que são quimeras: "Normalmente um embrião desenvolve-se a partir de uma célula que é fruto da fusão de um óvulo com um espermatozóide, o que resulta num genoma único e num animal original. Desta vez os cientistas conseguiram juntar seis embriões de macacos rhesus diferentes, cada um apenas com quatro células. Os embriões misturaram-se, produzindo apenas um animal que tem células provenientes dos diferentes embriões, com ADN diferente. Ou seja, uma quimera."
Este jogo criativo a que se dedica a técnica derivada do conhecimento científico, que se manifestou, por exemplo, na clonagem ou, anteriormente, na fabricação de bombas atómicas, está longe de ser inócuo e obedece a um velho projecto de refazer, segundo
a intencionalidade humana, toda a realidade, incluindo a realidade humana. A
revolta de Prometeu contra a natureza tal como ela nos é dada é a essência
deste projecto que anima a modernidade desde o seu início. E esta revolta não
vai parar. Por isso, é completamente destituída de sentido a asserção do
cientista responsável pelo projecto ao sublinhar que ninguém quer “produzir
quimeras humanas”. O querer dos indivíduos é irrelevante. Desde que a técnica
esteja disponível, não haverá controlo total sobre ela e, talvez em nome da
saúde e do tratamento de alguma doença (justificação sempre útil), alguém
acabará por produzir quimeras humanas.
Se pretendemos pensar eticamente o que vem aí, é inútil centrar o pensamento apenas na limitação do uso das técnicas. O pensamento ético terá de confrontar-se com o projecto prometaico em curso, compreendendo-o como a essência do mundo em que vivemos. Não uma ética para evitar quimeras, mas uma ética para um mundo de quimeras humanas.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Moralismo insuportável
Detestável não é a deslocalização da principal accionista do Pingo
Doce para a Holanda. Detestável é o discurso político moralista deste senhor deputado. Não são favoráveis à livre circulação de mercadorias e capitais? Estas
são as regras do jogo. Depois, segundo essas mesmas regras que o CDS tanto
parece apreciar, os consumidores não devem penalizar o Pingo Doce por este ter
a sua sede na Holanda, mas apenas se essa decisão for racional para os
interesses do consumidor. Este moralismo hipócrita que agora toca à classe
política é absolutamente insuportável.
Tão insuportável quanto certo moralismo pregado pelo principal accionista do
Pingo Doce. Negócios e política são o que são. Não tragam a moral para onde não a
querem.
Da antiga atracção da esquerda
(Henri Cartier-Bresson)
Esta fotografia de Cartier-Bresson, encontrada no Ponteiros Parados, explica
por que a esquerda, há longos anos atrás, era muito mais atraente para uma
certa juventude masculina que a direita. Num café, porventura parisiense, duas
mulheres lêem o jornal. Não lêem, todavia, o mesmo jornal. Uma lê o Le Monde, enquanto a outra segura nas mãos
o Le Figaro, embora o seu olhar se
incline, num misto de espanto e de desdém, para a primeira. Estamos perante
mulheres de origens sociais diferentes? Não, pois ambas frequentam o mesmo
espaço. Mas enquanto a que lê o Le Figaro
(jornal conotado com a direita francesa) se veste formalmente, de acordo não
apenas com a idade mas também com o grupo social a que pertence, a jovem e
concentrada leitora do Le Monde (jornal
afecto à esquerda francesa) exibe, na forma de vestir despreocupada que é a sua
e com a gentil conivência da mini-saia, as belas pernas com que a lotaria
genética a dotou. Esta figura, que combina a exibição despreocupada do corpo
com a concentrada preocupação política, tornou-se um ideal que levou para a
esquerda muitos e muitos rapazolas, cujas hormonas ansiavam por extraordinárias
aventuras e deliciosos paraísos terrestres. Não me estou a referir, claro, à
luta de classes e à edificação da sociedade comunista, mas a tudo aquilo que a
leitora do Le Monde parece prometer
às infelizes hormonas de uma certa juventude burguesa.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Tempo: Cronos, Kairos e Hora
O último poema da Mensagem,
de Fernando Pessoa, tem por título “Nevoeiro”. Faz parte de uma série de cinco
poemas sob a denominação de “Os Tempos”. Mas esse último poema termina com o
singular verso «É a Hora!». Esta Hora,
todavia, não remete para o tempo cronológico, aquele que se pode contar e
organizar segundo um qualquer calendário. É um tempo qualitativo. Os gregos
utilizavam duas palavras para tempo. Cronos e kairos. Por cronos designavam o tempo sequencial, alinhado do passado
em direcção ao futuro, pela mediação do presente. Por kairos referiam o momento oportuno, o momento especial do acontecer.
Para o cristianismo, kairos é o tempo
da acção divina. Seja na perspectiva grega seja na cristã, o kairos representa sempre uma ruptura no
tempo cronológico, uma espécie de abertura onde algo se inscreve. A Hora pessoana aproxima-se do kairos grego. Significa que algo está
preparado e pode consumar-se, porque esse é o seu momento. Há, no entanto, algo
mais nesta Hora. O verso surge como
uma injunção: «É a Hora!». Na Hora
estão presentes três coisas: o tempo cronológico, a abertura de um momento que
suspende o normal transcurso e do mundo (o kairos),
e a iniciativa que o verso exige. Na Hora
pessoana inscreve-se uma dialéctica entre kairos e iniciativa. O kairos
não é apenas uma coisa que surge e que exige de nós mera atenção. O kairos, a Hora, exige a iniciativa de a preparar, de fazer amadurecer o
mundo, para que o fruto caia. Desse ponto de vista, o kairos não é apenas o tempo da acção de Deus ou uma mera
oportunidade oferecida pelo destino, mas também aquilo que a iniciativa do
homem preparou. Não é apenas um acontecimento, mas aquilo que resulta de uma
sabedoria que faz acontecer.
domingo, 1 de janeiro de 2012
Poema 8 - Ano Novo
O ano
começou cinzento,
abatido e já
cansado,
pela dor que
terá ao caminhar.
Anos são
raparigas sombrias:
passam
sisudas pelas ruas,
casacos
novos tão gastos,
e suspiram
pelas noites de amor,
onde a felicidade
desagua
na carne
flácida despida de maresia.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
