Como a minha vizinha da frente (espero que esteja melhor da dor de
cabeça), também eu professo um pessimismo escurecido, com a diferença de ser
uma fé com longos anos. Pessimismo e cepticismo que se iniciaram nos meus dias
de faculdade, apesar de, nesses tempos, estar muito ligado ao idealismo alemão
e ao optimismo subjacente a este, devido às excelentes aulas do Prof. Manuel do Carmo
Ferreira (a quem devo muito do que sei de filosofia). Sempre descortinei,
todavia, uma ameaça latente na racionalidade e no projecto da razão. Hoje que
vivemos a ressaca do pós-iluminismo, parece impossível encontrar um princípio
que oriente a Europa, que lhe dê sentido e lhe permita ter um papel no mundo, a
partir da tradição iniciada pelo cruzamento de Atenas e de Jerusalém. Sim, a
democracia a 27 é uma aposta que merece admiração, mas não basta. É preciso que
as forças do cepticismo e do pessimismo, aquelas que animaram a emergência da
filosofia e da tragédia gregas, façam o seu trabalho de limpeza da ganga que a
História depositou na Europa. Talvez o verdadeiro sentido de ser europeu seja o de
viver em plena krisis, a qual nasce desses
mesmos pessimismo e cepticismo. Ora, nos últimos tempos, não há ano mais
propício à crise, ao cepticismo e ao pessimismo que este que vai entrar. Talvez
seja um ponto de partida para a Europa e para os europeus redescobrirem o seu
lugar e o seu papel no mundo.
sábado, 31 de dezembro de 2011
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Poema 7 - Quando a noite caiu sobre a terra
Quando a
noite caiu sobre a terra,
esquecera a
infância,
o rumor das
ervas à luz do vento,
o grito
silencioso do animal ao morrer.
Se o dia um
dia voltar,
de nada servirá
a memória das trevas,
nem a voz
dos deuses
trará a
esperança da noite
para sempre
vencida.
Se o dia um
dia chegar,
às primeiras
horas, tudo clareia,
aparelha o
barco, remos e velas,
e sobre as
águas espera o naufrágio.
Não há quem te
possa acolher.
A racionalidade chinesa
Como o artigo de Ivan Krastev, no Público,
sublinha, a conduta política chinesa é marcada por uma enorme racionalidade.
Não parte de uma idealização a priori, nem se propõe ao proselitismo político,
pecados americanos. Digamos que é uma racionalidade empírica, partindo da
análise das condições concretas do mundo e formulando estratégias adequadas aos
interesses chineses. Enquanto europeu, submetido durante muito tempo à retórica
do fim dos Estado-Nação e da malevolência dos nacionalismos, tenho a sensação
nítida de ter sido enganado. A racionalidade chinesa é o instrumento do
nacionalismo chinês, de um nacionalismo que, sem a agressividade americana, vai
submetendo a realidade internacional aos seus desígnios. O problema europeu não
é, porém, o de não existir um nacionalismo europeu, ou dos velhos nacionalismos
estarem mortos. O problema é que a Europa não tem nada para substituir o
nacionalismo. Por isso, a sua política é tão errática e o seu destino parece
tão negro. A racionalidade política chinesa é orientada pelo nacionalismo, a
Europa tem-se mostrado incapaz de produzir um princípio orientador que confira forma
e fim à acção política racional. A verdade é que os europeus substituíram o
nacionalismo por coisa nenhuma. E isto merece ser pensado, até para que os nacionalismos
arcaicos não acordem por aí e nos assediem como fantasmas.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Poema 6 - Esqueço a terra, o céu, a cinza da minha aldeia
Esqueço a
terra, o céu, a cinza da minha aldeia.
Esqueço os
pequenos delitos da infância
e entro nos
teus domínios
pela porta
que abriste ao dizer o meu nome.
Tantas são
as coisas que guardo:
os gestos
com que chegavas,
o olhar que
desbravava a selva do coração,
a palavra
hesitante da tua boca.
A mais pura
pobreza canta ao amanhecer,
canta se te
olho na sombra da memória
ou se um
pássaro voa sobre as cerejeiras,
de onde
roubo cada cereja
que amanhece
na alegria dos teus lábios.
Nunca a vida
me convidou para os teus braços,
apenas o
terror da morte cresceu
na desmesura
dos campos incendiados pela tarde.
As cores
formaram um arco-íris
e eu
caminhei pela ponte dentro
para a
margem das tuas mãos,
brancas como
a alma presa nas minhas.
Uma questão de viabilidade nacional
A emigração de portugueses para o Brasil, como para outros lados, é o
sintoma do principal problema político português. Reduzido à sua dimensão
peninsular, Portugal dificilmente encontra forma de alimentar condignamente a
sua população. Depois de duas décadas de equívocos, onde a adesão à Europa, com
as políticas subsequentes que todos conhecemos, e a imigração ocultaram o
problema, ele voltou, com as crises do subprime
e da dívida soberana, de forma acintosa. Com efeito, aquilo que está em jogo é
própria viabilidade do país. Portugal anda há muito a discutir a questão do
défice externo e da dívida soberana, mas isso são apenas aspectos particulares
da questão mais geral da viabilidade da nação. Era sobre a forma de a tornar
viável que deveríamos estar a discutir. Arriscamo-nos a ficar presos aos
sintomas, como a emigração, sem conseguir perceber a doença.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Homem novo
Como foi possível que, nos séculos XIX e XX, a retórica da construção social
do homem novo tivesse tanto sucesso? Como fomos capazes de nos enganarmos ao ponto
de crer na possibilidade de um paraíso terrestre, do qual estariam eliminados
todos os safados? A humanidade é um depósito inesgotável de safados e de safadezas. A ideia do
homem novo não é propriamente comunista, como muita gente pensa, mas cristã.
Veja-se como se portam estes pobres padres à volta da sua pequena propriedade
na Basílica da Natividade, em Belém. Se nem do espírito nasceu um homem novo,
como seria possível fazê-lo emergir das manigâncias e arranjos sociais? Por
detrás de um sorriso simpático e afável, esconde-se sempre o velho macaco.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
A maravilhosa morte de Kim Jong-il
Tudo o que rodeia a vida, morte e honras fúnebres de Kim Jong-il
parece-nos estranho e, do ponto de vista da razão, absolutamente destituído de
sentido. Mas uma inspecção menos enviesada dos regimes políticos depressa nos
ensina que aquilo que se passa na Coreia do Norte, com todo o arsenal de propaganda e de milagres, não é muito diferente do que ocorre nas democracias
ocidentais. O recurso ao maravilhoso é um elemento estrutural da operação de
legitimação do poder político. Olhar para o que se passa em regimes como o
norte-coreano ensina-nos muito sobre os nossos próprios regimes, onde estes
artifícios existem, mas de forma a que sejamos manipulados sem dar por isso. O
regime da Coreia do Norte é uma caricatura? Mas as caricaturas têm a vantagem
de exagerar certos traços para que eles se tornem visíveis. Só isso.
Pobres
“Nunca deixará de haver pobre na terra (Dt. 15:11).” Chegou o tempo de
pensar a pobreza não apenas do mero ponto de vista social, mas como uma
condição ontológica da humanidade. Poder-se-á sempre dizer que é a perversão
social de alguns que torna os outros pobres, mas este “nunca”
vetero-testamentário remete muito para além do social e da sua produção. Remete
para uma área obscura que exige que se pense. A pobreza antes de ser uma
condição social é um mistério que desafia a razão. A caridade cristã, a
solidariedade humana ou as políticas socialistas foram respostas a uma condição
social, mas não tocam na essência do mistério da pobreza.
sábado, 24 de dezembro de 2011
Natal - credo quia absurdum
Tudo na história do Natal é inverosímil, ficção, devaneio da razão.
Mas quem disse que a verdade dos símbolos reside na verosimilhança? De facto, é
menos inverosímil que um menino, filho de Deus, tenha nascido, num estábulo de
Belém, de uma virgem, que qualquer das asserções, onde se incluem as
científicas, que nós, inúteis mortais, fazemos sobre aquilo que, sem vergonha,
chamamos realidade. A essência de qualquer fé reside na máxima atribuída a
Tertuliano: credo quia absurdum.
Creio porque é absurdo. Mas se nós aceitarmos que todo o conhecimento é crença,
então mesmo o conhecimento racional, mesmo a própria ciência, se funda num
absurdo. Mas o absurdo do pensamento científico-racional é um absurdo que não
se reconhece como tal, e por isso ainda mais absurdo que o absurdo da fé
religiosa. A ficção natalícia é menos inverosímil que a lei da gravidade.
Repita-se com Tertuliano: credo quia
absurdum. Um Bom Natal para quem por aqui passar, e para todos os outros,
também.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Poema 5 - São assim os dias de Natal
São assim os
dias de Natal,
pequenas
figuras em terra de musgo,
segredo a
desvendar ao cair da noite,
as mãos
abertas para o que há-de vir.
Podem levar-nos
a casa
e incendiar o
que mais amámos.
Podem trazer
a noite
quando o sol
brilha ao meio-dia.
Podem
silenciar o coração
se ele canta
no furor da manhã.
O que não
podem
é roubar a
memória da estrela no céu,
o ciciar do
anjo sobre a areia do deserto,
o esplendor
de um presépio
nascido para
a desmedida do teu olhar.
Verdade e mentira
Exigem a veracidade das minhas palavras, mas poderei ser verdadeiro
naquilo que digo? Se tudo o que penso e sinto é habitado por contradições tão
dilacerantes, se tudo toma uma coloração e, de imediato, uma outra tão oposta,
se tudo, nesse pensar e sentir, se move e transforma, para logo retornar ao que
era e, mais uma vez, se negar, como poderá a minha palavra apresentar a
estabilidade que a tornaria digna de crédito? Tivesse Deus ou a natureza dado
ao meu sentir e pensar a imutabilidade, seria ainda possível que as minhas
palavras fossem verazes. Assim, criado para a inconstância e a volubilidade,
toda a verdade que digo é, mal proclamada, a mais acintosa das mentiras, e em
cada mentira oculto a luz da pura verdade. Já era tempo de sabermos que a
verdade e a mentira são assuntos que pertencem aos deuses. Que cruel destino o
de ter de suportar as querelas divinas.
domingo, 18 de dezembro de 2011
O grau zero da política
Um primeiro-ministro é nomeado para manter a comunidade coesa e
defender os interesses dessa comunidade, conciliando as partes que a compõem. Como
referiu Michel Foucault, o governante é como o bom pastor, aquele que não perde
qualquer das suas ovelhas, e a todas conduz com zelo, e com todas se preocupa.
Ora, quando Passos Coelho manda os professores excedentários emigrar, qualquer
coisa de inédito se está a passar. Em vez de encontrar soluções políticas para
os cidadãos que lhe cabe governar, manda-os desistir da sua pátria. Outros que
se ocupem deles e os governem. O pensamento de Passos Coelho roça a pura
indigência, o grau zero da política.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Poema 4 - Se perderes metade de ti
Se perderes
metade de ti
ou os goivos
do jardim secarem,
ainda te
resta o silêncio e a tarde
para
murmurares o nome
que arde no cego
coração.
As
constelações continuam firmes
e nenhum
sofrimento bastará
para alterar
a rota dos planetas.
De tudo o
que alguém significa para alguém,
talvez nada
chegue para um poema:
uma flor, o
olhar vazio,
a taça da
vida no chão despedaçada.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
A Igreja e a sexualidade
Esta notícia traz uma novidade. Esta não reside no facto de padres e leigos católicos holandeses
abusarem de menores. Ela reside no reconhecimento que as práticas de abuso de
crianças serem correntes na Holanda, independentemente da orientação das
instituições e da fé dos abusadores. Seja como for, não é o facto da prática ser generalizada na Holanda
que iliba os católicos. O caso holandês é apenas mais um a juntar a uma lista
já considerável. Apesar dos notáveis esforços levados a cabo por Bento XVI para
enfrentar o problema, a Igreja precisa de meditar até que ponto a moral sexual
que tem defendido não tem servido de ponto de apoio para este tipo de predação.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Fim de um exercício pueril
Os americanos abandonaram o Iraque. Cansaram-se de um exercício pueril
e equívoco, cujo resultado foi o de fragilizar o Ocidente. Do ponto de vista
político, a gravidade da intervenção americana não reside no embuste gigantesco
que justificou a intervenção, mas na ilusão ideológica que toldou os cérebros que
rodearam George W. Bush e o empurraram para a guerra. A suspensão da razão nunca
foi um trunfo nos negócios do mundo.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
O jogo da exclusão
Jovens inglesas prostituem-se para pagar estudos superiores. As
ilusões sobre a natureza do mundo social estão a cair uma a uma. O que está em
causa não é tanto o facto de haver quem se prostitua, mas o do acesso à
universidade se tornar num bem cada vez mais caro e reservado. Durante muito
tempo vivemos na convicção de que a virtude social residia nas estratégias de
inclusão, daí a retórica da universidade para todos. Isso tirou-nos o
discernimento para perceber que toda a vida social, até nas sociedades
comunistas, se regula pela diferenciação e pela exclusão. A inclusão deriva da necessidade
do outro imposta pela fragilidade humana. A exclusão, porém, é a assinatura da
minha liberdade e do meu poder. Não há quem não a faça.
Moral
A moral é uma invenção masculina. Pretende sujeitar a realidade – i.
e., a mulher – à norma. A mulher, porém, despreza a norma, e segue aquilo que
lhe dita o coração. A mulher segue a ética do sentimento, o seu é um ethos amoroso; o homem, em desespero de
causa, aplica a norma dos contratos, a distinção entre bem e mal, à tentativa
de reter, se interessado, a mulher. A moral é a forma como os homens
transformam o amor num contrato, e submetem a inconstância do coração à continuidade
da lei. Aos homens é difícil compreender que onde estiver o sentimento da mulher, é aí que está a sua lei. Uma lei sempre particular, o que não deixa de escandalizar a pobre razão.
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