segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Táxis, nómadas e sedentários

Red Grooms - Taxi (1968-1970)

O conflito que opõe os taxistas tradicionais às novas plataformas digitais de gestão do transporte individual, como a Uber, é apenas mais um episódio da velha luta do homem contra o desenvolvimento tecnológico. A aplicação tecnológica do conhecimento científico ou o mero desenvolvimento empírico da maquinaria, como no início da revolução industrial, têm o poder de tornar os homens, aqueles que foram educados dentro de um mundo tecnológico determinado, obsoletos. É conhecida a grande reacção dos ludditas, em Inglaterra, contra as máquinas, bem como a tenebrosa repressão, (ver aqui). Os taxistas são os ludditas do momento. São apenas mais um exemplo dessa reacção contra os novos dispositivos tecnológicos ou de gestão.

Não me interessa discutir aqui sobre quem tem razão. Quero chamar antes a atenção para duas categorias que se tornaram centrais no mundo contemporâneo. Podemos dar-lhes os nomes de sedentarismo e de nomadismo. Durante muito tempo os sedentários foram dominantes. Asseguravam a solidez das instituições, das regras e das funções. O desenvolvimento da economia de mercado e da aplicação do conhecimento ao mundo das empresas veio alterar radicalmente a importância de nómadas e sedentários. Os sedentários estão condenados à obsolescência. Podemos admirar neles a revivescência do sentimento luddista e o culto pela saudade, mas percebemos que, a não ser que o mundo regrida para uma sociedade onde a ciência seja proibida, estão condenados à obsolescência.

Os nómadas não devem ser vistos como aqueles que a cada instante se deslocam no território físico. Isso pode acontecer, mas os territórios em que se movem estão ligados às novas tecnologias, marcados, fundamentalmente, pela crença na transitoriedade de tudo o que diz respeito ao mundo da economia e, mesmo, da política. Estão ligados à aquisição contínua de novas competências sociais, cognitivas e profissionais. O que é dramático em tudo isto - para além da dor pessoal de quem fica obsoleto - é que a preparação das novas gerações pouco tem a ver com a condição nómada. As escolas, tal como existem, foram pensadas para formar a burocracia do Estado. A sala de aula, tão incensada por professores, é o resumo das virtudes burocráticas e do culto do sedentarismo. A revolução tecnológica em curso - uma revolução permanente, para falar à maneira dos velhos trotskystas - exige que as novas gerações sejam educadas como nómadas. Que saibam que aquilo que fazem hoje não terá futuro amanhã. Que toda a vida é um processo de aquisição de novas competências e novos conhecimentos, uma viagem de um saber fazer para outro. É cansativo? É, claro que é. Terá, porém, a espécie humana outra solução? Talvez tenha, mas será que a queremos?