A Alma Pátria continua a explorar o filão do Festival RTP da
canção. Hugo Maia Loureiro era, no início dos anos setenta, um dos nomes fortes
do Festival. Julgo que nunca ganhou. Em 1970, com Canção de Madrugar, fica em segundo lugar, atrás de Sérgio
Borges, Onde vais rio que eu canto. Canção de Madrugar, com música de
Nuno Nazareth Fernandes, letra do inevitável José Carlos Ary dos
Santos. E é a Ary dos Santos que se deve
a primeira atenção. Ele é extraordinariamente eficaz na construção da letra.
Consegue dar densidade a uma canção de amor que, nas mãos de outros, não
passaria de uma mera cançoneta. E essa densidade deve-se ao uso exímio da
língua portuguesa para obter um efeito onde se revela toda a tensão trágica que
habita essa idealização que toma o nome de amor. A música de Nazareth Fernandes
e a voz de Maia Loureiro dão pleno corpo à inventividade do letrista. Augúrio
de um tempo que despontava no horizonte.
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
terça-feira, 3 de outubro de 2017
Mobilidade social
A minha crónica em A Barca.
Todas as comunidades possuem os seus mitos, a partir dos
quais constroem uma cultura, fundamento da vida social e da vida política.
Poderíamos pensar que as sociedades modernas, seculares e racionalizantes, em
que vivemos fossem destituídas dessas mitologias encantadas que encontramos nas
sociedades tradicionais. Não é verdade. As nossas sociedades têm uma forte
estrutura mitológica cuja função é idêntica à das arcaicas. Um dos mitos mais
persistentes das nossas sociedades é composto por uma espécie de triângulo em
que num dos vértices se encontra a igualdade, noutro o mérito e, no terceiro, a
mobilidade social. O mito diz que numa sociedade em que todos são iguais
perante a lei, o mérito dos indivíduos – a sua iniciativa, talento e esforço –
será um factor de mobilidade social.
O economista escocês Gregory Clark dedicou-se a estudar
milhões de apelidos em várias parte do mundo e a sua evolução social (por vezes, o período estudado chega a ser de 500 anos) e descobriu que a mobilidade social
é um processo muitíssimo lento. Em entrevista ao Público, o autor afirma que “as
pessoas podem passar centenas de anos até que as famílias que vêm de estratos
mais baixos consigam ter a mesma probabilidade das outras em ascender a
posições sociais de maior importância. E isto aplica-se a todos os períodos
estudados”. Toda a mitologia do mérito, da glorificação da iniciativa e dos
esforços individuais, parece cair por terra perante os factos. O estudo de
Clark, The Son Also Rises: Surnames and
the History of Social Mobility, também mostra que a educação – uma das medicações
sociais mais utilizadas para fomentar a mobilidade social – tem um efeito muito
residual.
Poder-se-á pensar que grandes e dramáticos acontecimentos
políticos, como as revoluções, sejam mais eficazes na produção da mobilidade
social. Novo equívoco. Mesmo a Revolução soviética de 1917 foi incapaz de
elevar as classes mais baixas a um estatuto social diferente daquele que tinham
no tempo do czarismo. Na entrevista ao Público, Gregory Clark sublinha, como
hipótese, dois factores que estarão na base do status social: a herança genética do talento e, aliada a ela, uma
certa cultura ou tradição familiar. Se as evidências encontradas por Gregory
Clark continuarem, em futuras investigações, a ser corroboradas, então um dos
principais mitos das nossas sociedades – o da mobilidade social devido ao
mérito – cai por terra. Nessa queda, será arrastada a forma como nos últimos
dois séculos temos concebido a função e a forma de fazer política. Não sei se é
moralmente bom aquilo que iremos encontrar.
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
Uma leitura das eleições de ontem
A vitória do Partido Socialista nas eleições autárquicas de
ontem é uma nova confirmação do acerto da estratégia de António Costa após as
eleições legislativas de 2015. Contrariamente à tradição do PS, o actual
primeiro-ministro estabeleceu uma coligação parlamentar com o BE e o PCP. Se o
não tivesse feito, muito provavelmente estaria hoje na situação em que se
encontra Passos Coelho ou numa ainda pior, talvez no caminho que levou o PASOK,
na Grécia, quase ao desaparecimento. Costa salvou o centro-esquerda em Portugal,
capturou para essa área as forças à sua esquerda, sem deixar de prosseguir uma
política europeísta e de respeito pelos duros compromissos a que Portugal está
submetido. A qualidade dos generais vê-se pelas vitórias no campo de batalha.
Outro resultado que confirma um acerto de estratégia é o do
CDS. Acerto, antes de tudo, de Paulo Portas. Ao tomar a decisão de se afastar
do partido, Portas mostrou que tinha compreendido muito rapidamente que o tempo
mudara, que a geringonça era
politicamente consistente e o que o devaneio de voltar ao governo no curto
prazo era apenas um devaneio. Ao afastar-se, ao deixar Passos Coelho a pregar
no deserto, e ao escolher Assunção Cristas salvou o CDS de uma longa travessia
no deserto. Ontem viu que o CDS tem uma líder consistente e consolidada. A
votação nacional é frágil, mas a conquista de seis câmaras e o resultado de
Lisboa são mais do que suficientes para confirmar o acerto da decisão de Portas
em se afastar e em deixar o partido a Assunção Cristas.
O Bloco de Esquerda merece, na verdade, um study case. Contrariamente, ao PS, PSD,
PCP e CDS, que são emanações de blocos sociais precisos e, por isso, possuem um
enraizamento forte na sociedade portuguesa, o BE – apesar, ou por causa, da sua
pré-história – é um partido que é, antes de mais, uma estrutura de certas
elites políticas, em tempos radicalizadas à esquerda, que, ao
desradicalizarem-se, procuram um lugar político no establishment e um espaço social onde se possam enraizar. Temos
assistido, assim, a uma lenta e dura, mas talentosa, criação desse espaço. Os
resultados autárquicos, onde o BE progride no número de mandatos para os três
órgãos em disputa, mostram isso mesmo. Mostram, todavia, que o BE tem um longo
caminho a percorrer para que possa ser tido como uma força autárquica digna de
nota e mostrar que tem enraizamento no tecido social.
O PCP, via CDU, é uma das derrotadas da noite, embora a
derrota da CDU deva ser matizada. Perde demasiadas câmaras, algumas emblemáticas,
tem resultados afrontosos em certos concelhos, mas é, claramente, o terceiro
partido mais votado, tendo perdido em relação a 2013 apenas 1,4% dos votos. Se
se olhar com atenção os resultados da CDU ressaltam duas coisas. Há, de facto,
um efeito António Costa que pode ter levado a que algumas câmaras CDU tivessem
passado para o PS. No entanto, a base eleitoral da CDU manteve-se praticamente
incólume. O efeito da coligação parlamentar, tanto quanto se pode inferir dos
resultados de ontem, não arrasta o eleitorado tradicional da CDU para o PS. Uma
coisa parece também resultar destas eleições. A bonomia de Jerónimo de Sousa
tornou-se um argumento em perda de peso. O PCP está a precisar de uma cara nova
e de renovar a imagem do partido.
O grande derrotado da noite é o PSD e Passos Coelho. Não
parece muito relevante dizer que a derrota deriva das escolhas dos candidatos,
por frágeis que sejam, que ele fez. É uma derrota do ressentimento de Passos
Coelho. Ao fim de dois anos, ainda não compreendeu por que razão não é
primeiro-ministro. E esta incompreensão é a raiz dos males do PSD. Na origem de
tudo isto está a avaliação que Passos Coelho faz do seu mandato. Ele recusa-se
a reconhecer que perdeu as condições para governar devido à forma como fez
política enquanto primeiro-ministro. E não se trata das medidas duras que
tomou. Trata-se da forma como as tomou, como as tornou mais insuportáveis com
os seus discursos alucinados, ideologicamente influenciados por pessoas cheias
de ideologia e nulo conhecimento da realidade do país. O resultado foi alienar
o centro para a esquerda, oferecendo inclusive um lugar nesse centro ao BE e ao
PCP. A Passos Coelho faltou o discernimento de Portas. Em vez de sair pela
porta grande – saía derrotado mas vitorioso –, deixou-se levar pelo
ressentimento e ofereceu ao país um penoso espectáculo nestes dois anos.
domingo, 1 de outubro de 2017
Catalunha e o vírus nacionalista
O processo catalão, como é hábito nestas coisas, tem a capacidade de incendiar paixões mesmo em quem está de fora, por não ser espanhol ou catalão. Num mundo ideal, a questão resolvia-se com bastante facilidade. Um referendo - que deveria ser possível em qualquer constituição normal - e os cidadãos da Catalunha escolheriam o caminho que seria o deles. Sem dramas nem punições. Isto não é possível porque as partes, as duas, estão contaminadas por um malévolo vírus político que, depois de estar quase controlado na Europa, começou a mostrar-se resistente aos mais fortes antídotos. Refiro-me ao nacionalismo. Podemos ver este conflito à luz da metáfora da guerra biológica. Cada uma das partes lança sobre a outra bombas com vírus nacionalistas.
Um dos resultados desta guerra biológica, um resultado que parece favorável aos independentistas, relaciona-se com a imagem que vai ressaltar para a opinião pública global. A Catalunha surge como oprimida, impedida de votar, enquanto Espanha se deixa capturar na figura de opressora, a potência que envia a sua polícia para impor a lei que os catalães parecem - digo parecem, pois não sabemos o que pensam todos os catalães - não querer reconhecer como sua. A estratégia política do nacionalismo catalão não seria tanto fazer um referendo, mas construir uma imagem de Espanha como potência colonial e uma imagem da Catalunha como colónia dominada pela violência policial do colonizador.
Quando o vírus nacionalista, que ataca ambos os lados, consegue colocar as coisas neste pé, podemos esperar o pior. O nacionalismo madrileno pode ganhar a questão do referendo, com a sua não realização ou realização fragmentária, mas o nacionalismo catalão pode sair profundamente reforçado, internamente, ao nível simbólico e, externamente, na imagem dada ao mundo de uma nacionalidade oprimida mesmo num regime democrático. Tudo isto contém uma lição - que não é nova - mas que as pessoas esquecem rapidamente: sempre que o vírus nacionalista ataca, podemos estar à beira de uma desgraça.
sábado, 30 de setembro de 2017
Micropoemas - Amor 3
Sam Lévin - Ava Gardner in The Naked Maja, 1958
3. Boca
A boca,
rosa e malva.
Embriagado,
a Estrela d’Alva.
(Micropoemas,
1977/78 e 89)
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Um teste à esquerda
Oskar Kokoschka - A Tempestade (1913)
Se a esquerda portuguesa julga que está a navegar num mar
bonançoso, então o melhor é acordar e tentar perceber a realidade. As eleições
alemãs correram-lhe muito mal. A hipotética, e
bastante previsível, presença dos liberais no governo alemão pode vir a revelar-se
um pesadelo para Portugal e para o governo que por cá esteja instalado no poder, seja
ele qual for. Regras orçamentais mais drásticas e menor generosidade do Banco
Central Europeu – tudo imposto pela Alemanha – podem dar origem a novas tempestades e tornarem-se uma
oportunidade, inesperada, para fazer ruir a concertação à esquerda.
Outro perigo para a esquerda portuguesa vem das eleições
autárquicas de domingo. O problema não está no facto de o PS poder conquistar
câmaras ao PCP, embora isso não seja saudável para a coligação parlamentar. O
que melhor poderia acontecer à esquerda seria uma vitória autárquica do PSD ou,
pelo menos, um resultado não humilhante para a direcção de Passos Coelho. Ora,
com o que se prevê, Passos Coelho – que se tornou uma espécie de seguro de vida
da esquerda – tem os dias contados à frente do partido. Rui Rio, o provável
sucessor, apresentar-se-á limpo das tropelias do tempo da troika, sem ressentimento que lhe turve o raciocínio e com uma aura de competente na conquista
do poder e na gestão da coisa pública. Se vierem novos e mais tempestuosos
ventos da Alemanha, a esquerda, perante um Rui Rio imaculado e uma Assunção
Cristas triunfante, terá um enorme problema à sua espera.
Um problema e um teste. O teste passará pela resiliência do
BE e, fundamentalmente, do PCP. Perante uma situação que exigirá um grande
rigor orçamental, onde pode não haver espaço sequer para as actuais pequenas
reposições e outro emblemas da esquerda, como se irão comportar os partidos à
esquerda do PS? Falará mais alto o seu ADN ideológico ou terá essa esquerda a capacidade de
encarar a realidade do país e de sacrificar as suas posições em nome da
comunidade e dos interesses reais, e não ideológicos, dos seus eleitores? Mesmo
uma situação negra como a desenhada não implicará, todavia, a saída da esquerda do poder.
Essa saída dependerá dela, do talento dos seus dirigentes e, já agora, do grau
de responsabilidade perante o destino dos seus eleitores. O retorno da direita
ao poder não será uma brincadeira para uma parte significativa das pessoas.
Pode estar a chegar o tempo da verdade.
quinta-feira, 28 de setembro de 2017
Ensaios sobre a luz (7)
Helmut Newton, Ballerina, not dated
Um lago de luz inclina o corpo e o cisne espera na água da Primavera a chegada do solstício de Verão.
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
Europa, um novo espectro
De um momento para o outro, em política, tudo muda. O que parecia verdade ontem, deixou de o ser hoje. Isto não se deve a uma hipotética falta de carácter dos políticos. Deve-se à natureza móvel e incerta da realidade em que vivemos. Até há dias tudo apontava para que a ameaça à União Europeia estivesse contida. Ora as eleições alemãs vieram alterar radicalmente o panorama. Não nos enganemos nas causas dessa alteração. O problema não vem da entrada da extrema-direita no parlamento. É uma coisa lamentável, por certo. É um sinal dos tempos, também, mas não é o problema. O problema reside no facto de a senhora Merkel precisar de se aliar aos Liberais, além dos Verdes, para formar governo.
O objectivo dos Liberais - e receberam os votos para isso - é de intensificar uma política punitiva dos países do Sul da Europa, o controlo draconiano das fianças públicas e dos défices. Os países do Sul foram os grandes derrotados das eleições alemãs, como salientava Rui Tavares, no Público, numa eufemística declaração de que as eleições alemãs correram mal à Europa e, em particular, ao sul da Europa. Elas não apenas correram mal, elas podem ser o princípio de um novo martírio. Portugal, por exemplo, contava com a manutenção da situação alemã para que a canga da dívida pudesse ser tratada de uma outra maneira. Isso acabou se os Liberais tomarem conta das Finanças alemãs como pretendem. Por outro lado, os Liberais opõem-se a tudo o que preconiza Macron. A Europa, sem dar por isso, passou de um momento de acalmia para outro em que se desenha uma nova tempestade tropical, ali mesmo onde não há trópicos. A situação é muito mais negra do que parece. Um novo espectro assombra a pobre União.
terça-feira, 26 de setembro de 2017
O que me ocorre dizer
Consta que vai haver eleições autárquicas no próximo domingo. Eu gostava muito de dizer alguma coisa sobre o assunto, mas, confesso, não me ocorre nada de relevante. Eu sei que são importantes, muito importantes. É o poder de proximidade. Eis uma coisa que me aborrece, o poder de proximidade. Quanto mais próximo está o poder menos suportável ele é. Não pense o leitor que eu tenho alguma coisa contra os candidatos. Não, eu conheço muitos, de todas as cores e acho-os, em geral, excelentes pessoas. E a bondade está bem repartida pelas direitas e pelas esquerdas. Portanto, eu não tenho nada contra os candidatos, mas quanto mais longe estiver o poder melhor. Nunca compreendi por que razão os tipos do Porto e de outros lados deste pobre país se queixam do Terreiro do Paço. A princípio pensei que eles achassem que o poder estava muito perto e que o melhor seria mandá-lo para as Selvagens, mas não. Querem o poder ao pé de casa. Pior do que isso só morar em frente da sogra.
Como se viu acima, o espaço do poder aborrece-me. Mas não é só o espaço. Também é o tempo. Por exemplo, a duração de um mandato de um Edil - acho que é assim que se intitulam a si próprios alguns presidentes, mas posso estar enganado - é ao mesmo tempo muito curto e muito grande. Não, não estou dado aos paradoxos. Explico a minha tese. Poderia ser, por exemplo, de seis ou sete anos. Teria uma boa duração. Acabado esse mandato, o Presidente voltava à sua condição de cidadão e nunca mais se poderia candidatar. E isso evitaria mandatos de 12 anos e retorno por uma nova eternidade, depois de um curto interregno. Seria tudo mais saudável, a presidência de uma câmara passaria a ser vista apenas como um momento de sacrifício em favor da comunidade e não como uma carreira ou o que quer que seja. Se a isso juntássemos medidas draconianas de frugalidade, estaríamos perto de um mundo perfeito. Aquele tempo apenas e nada de grandes carros, chefes de gabinete, secretárias, motoristas, etc., etc. Tudo o que fosse necessário sairia do pessoal da autarquia, o qual tem a obrigação de servir com lealdade aqueles que o povo escolhe, sejam eles quem forem.
É por pensar assim sobre o poder autárquico que não me ocorre nada para dizer sobre estas eleições. Talvez no domingo descubra alguma coisa para dizer.
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
Micropoemas - Amor 2
Milton Greene - Marilyn Monroe with mandolin. Los Angeles, California, 1953
2. Olhos
Dos olhos,
a luz e o halo.
Das mãos,
o segredo que calo.
(Micropoemas,
1977/78 e 89)
domingo, 24 de setembro de 2017
Ensaios sobre a luz (6)
Heinz Held - Die Tiefe des Lebens, Köln, Germany, Date Unknown
Se o frio cai sobre a cidade, a luz hesita e desce em lentos e leves flocos de neve.
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Agências de rating
A minha crónica no Jornal Torrejano.
Há uma tendência – à esquerda do PS – para censurar
continuamente as agências de rating e
o papel que elas têm tido na dívida portuguesa. E como consequência dessa
censura dizer-se que as avaliações delas não devem ser tidas em conta, o que
interessa é a vida dos portugueses e não a opinião de agências de
especuladores. Ora é aqui que devemos perceber a distinção entre o que a
realidade é e aquilo que deveria ser.
Podemos questionar a moralidade ou não destas agências de rating. Ao olharmos para a sua história
e para muitas das suas decisões, ficamos convencidos de que o mundo seria, na
verdade, um sítio melhor se elas não existissem. Desconfiamos também que as
suas decisões arbitrárias prejudicaram o país e os portugueses. Em resumo, do
ponto de vista moral não é errado, antes pelo contrário, censurar as agências
de rating e o seu papel.
Se isso não é errado, será correcto dizer que Portugal e os
portugueses não devem prestar atenção aos juízos dessas agências? A resposta a esta
pergunta é composta por duas outras perguntas. Portugal poderá sobreviver com
avaliações muito negativas dessas agências? Os portugueses e as empresas
nacionais poderiam viver melhor sem uma avaliação positiva da nossa dívida por
parte dessas agências? A resposta a estas duas perguntas é uma só: não. Nem o
país, nem os portugueses, nem as empresas portuguesas têm independência
suficiente para serem indiferentes ao juízo desses agências.
Do ponto de vista político, a moralidade ou a imoralidade
das agências de rating é um problema
inútil. Não temos capacidade nem autonomia para viver sem esse juízo. Ele é-nos
imposto tal como os fenómenos naturais. Por muito que protestemos, os dias de
calor são dias de calor e os dias de frio são dias de frio. Quando se diz que o
facto da agência Standard & Poor’s
ter tirado a dívida portuguesa da categoria de lixo (uma metáfora que quer
dizer mau investimento) não é muito importante e que Portugal não pode depender
dessas agências para tomar decisões, está-se a mentir deliberadamente e a
vender uma ilusão.
Não temos poder para manipular o clima, para evitar os dias
de calor ou os dias de frio, mas podemos protegermo-nos do calor e do frio.
Também não temos poder para nos libertar das agências de rating, mas podemos protegermo-nos delas. Como? Controlando o
défice público (e o privado), não gastando mais do que é possível, gerindo com
rigor a fazenda pública e pagando a dívida para nos irmos libertando dela. Não
há outro caminho para nos protegermos da falta de moral das agências de rating. E é isso que todos devemos
exigir que aconteça e não semear a ilusão de que não dependemos delas.
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
Uma comédia de enganos
Georges Malkine - Aniska (1955)
O Observador é um manancial ilimitado de actos falhados ou de dissonâncias cognitivas. Veja-se, por exemplo, o artigo do psiquiatra Pedro Afonso sobre a iniciativa legislativa do Bloco de Esquerda, mas também do governo (este mais moderado), sobre a possibilidade de permitir a mudança de sexo aos 16 anos. Quando se desloca o assunto da área política para a psiquiatria - eventualmente, para a ciência - falha-se de imediato a compreensão do que está em causa. Diz o articulista: Esta teoria (a ideologia de género) assenta na ideia radical de que os sexos masculinos e femininos não passam de uma construção mental, cabendo à pessoa escolher a sua própria identidade de género.
O que o pensamento conservador não compreende é que este tipo de posição deriva directamente do projecto que marca o Ocidente desde o Renascimento. É um projecto que começa por colocar o Homem no lugar de Deus e que evolui para a consideração desse Homem na sua singularidade e no poder da sua livre iniciativa. Tudo o que era visto como um dado de facto, o resultado da criação divina, passou a ser objecto sistemático de reforma e reconstrução por parte do Homem ou dos homens através da iniciativa dos indivíduos. As relações sociais deixaram de ser percebidas como imutáveis, mas objecto de continua reconstrução humana. A natureza é, desde há muito, uma construção, nem sempre domesticada, segundo projectos humanos.
É nesta lógica que se inscreve a reconstrução da identidade de género. O problema não tem nada a ver com a psiquiatria mas com o direito absoluto de cada um dispor da sua própria pessoa, desde que isso não interfira com terceiros. A ideologia que sustenta estas pretensões é o liberalismo e não outra. O Bloco de Esquerda, com a sua agenda ligada aos costumes, inscreve-se nessa tradição liberal, tendo sido em Portugal um destacado agente da liberalização da sociedade, de cumprimento do projecto da modernidade e do Iluminismo. A fluidificação da identidade sexual, para usar uma metáfora de Zygmunt Bauman, está de acordo com a natureza fluida do capitalismo actual. No fundo, o BE não faz mais do que pôr em prática o slogan de Milton Friedman: Liberdade para escolher. O mais curioso de tudo isto é que os nossos hiper-liberais temem os efeitos da autonomia dos indivíduos e os nossos iliberais tornam-se agentes contumazes da liberalização. Uma comédia de enganos.
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Alma Pátria - 35: Eduardo Nascimento - O Vento Mudou
Há uma coisa que é verdade na ideologia do Estado Novo, a
natureza multirracial do Portugal de então. Uma prova? A vitória, em 1967, de
Eduardo Nascimento, angolano, no Festival RTP da canção e, consequentemente, a
sua eleição para representar Portugal no Festival da Eurovisão. Uma aproximação
cançonetista (seria melhor dizer, uma terminação, como na lotaria) do Eusébio
do futebol. A guerra em Angola, que, se exceptuarmos o incidente indiano, deu o
tiro de partida para as guerras coloniais dos anos sessenta e setenta do século
passado, tinha começado há cerca de seis anos e faltavam ainda sete para
terminar. Curiosamente, Eduardo Nascimento é o autor do hino do MPLA. Apesar
dos ventos de mudança que a cançoneta apregoa, ainda faltava muito para que o
vento mudasse definitivamente. Este vento apenas falava de delíquios do
coração. E se havia coisa que o regime puritano e assexuado do professor
Salazar gostava era de delíquios de coração. Enquanto o coração treme, rebola e rodopia, a razão
descansa.
terça-feira, 19 de setembro de 2017
Micropoemas - Amor 1
Edward Weston - New York Interior, 1941
1. A noite
A noite,
relâmpago breve.
Saber o fruto,
os gestos e o sono leve.
(Micropoemas,
1977/78 e 89)
segunda-feira, 18 de setembro de 2017
Ensaios sobre a luz (5)
Toni Schneiders - Train in landscape. 1950s
Na clareira aberta pela luz, cai, de súbito, o veloz vapor da escuridão.
domingo, 17 de setembro de 2017
Um instante
Robert Doisneau - Sondersdorf, Alsace, France, 1945
Com a excepção da estrada alcatroada, a denunciar a existência de automóveis, e das três raparigas com equipamento escolar, nada na fotografia de Doisneau nos indica que estejamos no século XX. É verdade que 1945 faz parte de uma época muito conturbada, na qual o engenho dos homens estava mais dirigido para a destruição do que para a comodidade de vida. Não é isso, porém, que chama a atenção do olhar. O que é central é a fusão de épocas num mesmo instante. De costas para nós está o futuro que parece hesitante em pôr-se a caminho. Voltado para o espectador está o passado, tomado pela desolação. Olha em direcção ao futuro, que o vai submergir, mas também para nós, voyeures ocasionais. Talvez espere que, nos nossos corações, habite uma réstia de piedade e que o salvemos. Em vão.
sábado, 16 de setembro de 2017
A dissonância comunista
Apesar de esperada, não deixa de ser curiosa a reacção do
PCP à elevação do rating da dívida pública portuguesa pela agência Standard & Poor’s. Segundo o Público,
Paulo
Sá, dirigente comunista, afirmou que Portugal não pode depender "dos
humores ou dos estados de espírito das agências e, muito menos, estar
dependente dessas agências e das suas dinâmicas especulativas". Por
que razão esta afirmação é curiosa? Porque o PCP é um dos responsáveis –
juntamente com o PS e o BE – da actual política que tem recebido um forte apoio
e reconhecimento das instâncias políticas e financeiras internacionais. O PCP,
se quisesse, poderia deitar tudo a perder. Bastaria mobilizar em força o
aparelho da sindical e cortar com os socialistas, afundando o governo. Por que
não o faz, já que a política de António Costa depende efectivamente “dos humores
ou dos estados de espírito das agências” e “das suas dinâmicas especulativas”?
Por que razão não atendeu até aqui à imploração veemente da direita para que o
faça?
Não o faz porque o PCP não é nem irresponsável nem
aventureiro. Por detrás da sua retórica anticapitalista, os dirigentes do PCP sabem
muito bem que o país depende das agências de rating, do FMI, do Banco Europeu, dos humores da União Europeia e
do estado de espírito, embora não seja muito dada a isso, da senhora Merkel. Os
dirigentes comunistas sabem perfeitamente que se se aplicasse aquilo que eles
dizem defender (saída do Euro e da União), o país se afundaria numa triste Venezuela
e nem os seus fiéis eleitores lhe perdoariam. Também sabem que fora da economia
de mercado – isto é, do capitalismo – não há nada para onde o país possa ser
conduzido. Porque sabem tudo isso têm colaborado na adequação do país às
exigências do capitalismo, têm contribuído, inclusive, para amenizar essas
exigências, tornando-as mais digeríveis pela população.
Por que razão há esta dissonância entre a prática dos
comunistas e o seu discurso? A explicação mais plausível é a de que têm medo
que o seu eleitorado tradicional se indisponha com o colaboracionismo do partido com o capitalismo e os velhos rivais do PS, sempre
apostrofados como aliados da direita e apóstolos das políticas capitalistas.
Contudo, isto é ter pouca consideração pelo seu próprio eleitorado. A
generalidade dos eleitores comunistas é inteligente e percebe muito bem a situação em que
vivemos. Sabe que não existem amanhãs que cantam, nem que sair da União
Europeia seja uma coisa boa para o país. Sabem inclusive, embora não gostem
(quem gosta?), que dependemos dessas agências e dessas instituições. As pessoas
que votam comunista irão continuar a fazê-lo, apesar deste acordo com os socialistas
e das políticas reconhecidos pelas instâncias do capitalismo global. Mais,
julgo que a maioria dos eleitores comunistas deverá preferir que o seu partido
influencie a governação – e, provavelmente, que governe – do que seja uma
organização de mero protesto. E preferem isso não para os levar para o
socialismo, mas para uma sociedade capitalista, que tenha uma maior justiça e
seja socialmente mais equilibrada. Já era tempo do PCP se deixar destas rábulas
e assumir o que está a fazer. O país agradecia.
sexta-feira, 15 de setembro de 2017
A revolta
Jing Huang - Pure Sight
O que me prendeu nesta fotografia de Jing Huang não foi a paisagem ou a referência à visão pura, mas a aparência estática dos dois homens que nela aparecem. É um acto de profunda revolta. Revolta contra o movimento, contra o tempo, contra a vida. Uma revolta contra o ser e a ordem da criação. Perante a impossibilidade da vitória sobre a morte, resta a imobilidade de um protesto mudo.
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
Micropoemas - Pequenas dádivas 9
Salvador Dali - Nacimiento del Nuevo Mundo (1942)
9. Terra e mar
Terra e mar,
o mundo em gestação.
E tudo se perde no incêndio do Verão.
(Micropoemas,
1977/78 e 89)
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
Saber calar
Alejandro Mesonero - Y sin embargo silencio
Uma das competências fundamentais da vida política democrática é a gestão da palavra. A democracia é o regime onde a palavra é livre, onde tudo, ou quase tudo, pode ser dito. Isto, porém, é uma aparência. Os detentores do poder, por exemplo, possuem uma esfera de liberdade de expressão muito menor do que pensam. Passos Coelho sentiu na pele essa limitação. O que dizia, logo se voltava contra ele. Essa limitação da liberdade de expressão não se faz por intermédio da censura, mas através do preço político que aquilo que é dito arrasta consigo. Tudo o que em política se faz ou diz tem um preço político. O escrutínio dos media e das oposições é implacável.
António Costa e a esquerda estão a começar a perceber isso. As palavras de congratulação pela redução do défice, pela saída do país do procedimento por défice excessivo, o anúncio do fim da austeridade - palavras mobilizadas com o entusiasmo de uma vitória - estão agora a cair em cima do governo, como no caso da greve dos enfermeiros e no que se prepara para os próximos tempos. A esquerda está a começar a sofrer na pele aquilo que fez ao anterior governo. Se pensou que ia ser poupada a isso, já é tempo de se desenganar. E nisto há já derrotas claras. Na greve dos enfermeiros não é só o governo que está em perda. O PCP é um dos grandes derrotados, ao ser mostrado ao país que não tem qualquer controlo na classe dos enfermeiros.
Para ganhar eleições basta ser esperto e ter algum traquejo na manobra política. Domesticar a própria palavra, ter a percepção clara do que se pode dizer e daquilo que sendo dito pode vir cair em cima da própria cabeça, isso exige uma sabedoria e uma profundidade de pensamento que nenhum político no activo parece ter. Essa falta de maturidade existencial, digamos assim, torna-os impotentes perante a voracidade da comunicação social. Sem dar por isso, estão metidos num sarilho político motivado pela repercussão do que dizem. Muitas vezes pensam que contratar uma agência de comunicação resolver o problema. Não resolve, pois o problema não está na comunicação mas na necessidade de silêncio, de ter a maturidade suficiente para saber calar-se nos momentos mais eufóricos, para evitar que as palavras atiradas contra os adversários - e em política todas as palavras são atiradas contra os adversários - sofram o efeito de boomerang e atinjam quem as profere.
António Costa e a esquerda estão a começar a perceber isso. As palavras de congratulação pela redução do défice, pela saída do país do procedimento por défice excessivo, o anúncio do fim da austeridade - palavras mobilizadas com o entusiasmo de uma vitória - estão agora a cair em cima do governo, como no caso da greve dos enfermeiros e no que se prepara para os próximos tempos. A esquerda está a começar a sofrer na pele aquilo que fez ao anterior governo. Se pensou que ia ser poupada a isso, já é tempo de se desenganar. E nisto há já derrotas claras. Na greve dos enfermeiros não é só o governo que está em perda. O PCP é um dos grandes derrotados, ao ser mostrado ao país que não tem qualquer controlo na classe dos enfermeiros.
Para ganhar eleições basta ser esperto e ter algum traquejo na manobra política. Domesticar a própria palavra, ter a percepção clara do que se pode dizer e daquilo que sendo dito pode vir cair em cima da própria cabeça, isso exige uma sabedoria e uma profundidade de pensamento que nenhum político no activo parece ter. Essa falta de maturidade existencial, digamos assim, torna-os impotentes perante a voracidade da comunicação social. Sem dar por isso, estão metidos num sarilho político motivado pela repercussão do que dizem. Muitas vezes pensam que contratar uma agência de comunicação resolver o problema. Não resolve, pois o problema não está na comunicação mas na necessidade de silêncio, de ter a maturidade suficiente para saber calar-se nos momentos mais eufóricos, para evitar que as palavras atiradas contra os adversários - e em política todas as palavras são atiradas contra os adversários - sofram o efeito de boomerang e atinjam quem as profere.
terça-feira, 12 de setembro de 2017
O governo que se prepare
Alfonso Parra Domínguez - Realidad Dialéctica (1977)
António Costa está a descobrir os limites da experiência governativa. Se alguma vez pensou que um acordo com o PCP o livrava de problemas na distribuição dos dinheiros do Estado, agora já sabe que isso não é assim. A greve do enfermeiros é apenas um sinal do que pode vir aí. É uma ilusão julgar que o poder sindical está concentrado nas mãos do PCP. O PSD, por exemplo, tem capacidade de mobilizar certos grupos cuja acção é muito mais poderosa e desarticuladora da governação do que o PCP. E o PSD, sempre que esteve na oposição, nunca hesitou em ser mais esquerdista e radical que os esquerdistas e radicais de esquerda. As reivindicações sindicais sobre o Estado, induzidas pela direita, só vão parar quando o governo cair. O Estado vai ser o grande palco de luta pelo poder. O governo que se prepare.
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
domingo, 10 de setembro de 2017
Um absurdo
Odilon Redon - A loucura (1883)
Hoje é o dia em que pais e alunos festejam a entrada nos cursos do ensino superior. É natural. Contudo, este momento de alegria - e, por vezes, de insuportável exibição por parte de pais pouco dados à contenção - não nos deve ofuscar a loucura que está presente nestas admissões ao ensino superior público, e é só a este que me refiro. A coisa diz-se em poucas palavras. Muitos destes alunos, mesmo que terminem os seus cursos, nunca trabalharão nas áreas que escolheram. Eu conheço o argumentário dos defensores deste devaneio. As pessoas têm o direito de escolher os cursos que bem entenderem, a formação inicial, seja ela qual for, é um bom começo para qualquer que seja a profissão que irá estar disponível. Mas também conheço muitos alunos que entraram nas universidades, fizeram cursos e acabaram em empregos indiferenciados e se arrastam na vida muito longe das áreas para que fizeram formação. Para se ter uma ligeira percepção da dimensão da loucura que tudo isto representa atente-se à tabela abaixo.
Escolhi onze áreas universitárias - poderia ter escolhido muitas mais, algumas tão ou mais problemáticas do que as escolhidas - para dar a ver como tudo isto é absurdo. Vejam-se os alunos colocados na 1.ª fase - destes cursos não há vagas para a 2.ª fase - em áreas como Sociologia, Filosofia, Psicologia, Antropologia, História, História da Arte, Arqueologia, Relações Internacionais, Ciência Política, Ciências da Educação e Ciências da Comunicação. Imaginemos que metade destes alunos conclui os cursos. Multipliquemos isso por 10 anos. Os números de licenciados nessas áreas tornam-se extravagantes. Ninguém me vai convencer que o país precisa de tanta gente com formação nestas áreas e noutras com o mesmo grau de saída.
O país precisará de abrir 166 vagas para arqueólogos, ou 825 para psicólogos ou 449 para sociólogos? Por muito que se diga o contrário, tudo isto é um crime. Um crime contra os alunos e as famílias que vão ao engano. Um crime contra o erário público. Estamos a investir em formações que não têm saída, nem sequer na emigração. Isto já foi pior, mas o absurdo continua e como a escolha dos alunos não desaparece (o azar de não encontrar colocação pós licenciatura vem longe e só acontece aos outros e aos filhos dos outros), os cursos subsistem. O Estado demitiu-se, há muito, de racionalizar os recursos educativos. Como explicar a existência de 12 cursos públicos de Psicologia, 10 de Sociologia, 7 de História, para além dos 4 de História de Arte e 5 de Arqueologia? Para mim é um enigma a existência de 5 cursos de Filosofia - já foram mais - ou 6 de Ciências da Comunicação. É evidente que as Universidades não têm qualquer interesse nessa racionalização e, em última análise, é-lhes indiferente o destino daqueles que as frequentam. Um absurdo que ajuda a explicar por que razão, mal se olha para o lado, as contas públicas estão fora dos carris.
sábado, 9 de setembro de 2017
Micropoemas - Pequenas dádivas 8
Michel Larionov - El desnudo azul (1903)
8. Corpo
Corpo,
lago imenso e forte.
Da mulher, o incêndio e a morte.
(Micropoemas,
1977/78 e 89)
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
Alma Pátria - 34: Carlos Mendes - Verão
O Festival RTP da canção e o Festival da Eurovisão tinham um
peso enorme no panorama da música ligeira, era assim que então se dizia. Eram
acontecimentos que mobilizavam em torno dos ecrãs a generalidade das famílias
portuguesas, das que tinham televisão (nesses tempos a democratização do acesso
à televisão tinha ainda limitações). Verão,
de Carlos Mendes, foi a canção vencedora do Festival RTP de 1968, um ano de
intensa vida política por essa Europa fora, revoltas estudantis em França (que
depois se atearam por Itália, Alemanha, EUA) Primavera de Praga, na antiga
Checoslováquia. Por cá o ditador haveria de cair da cadeira. O imaginário
português, presente nesta canção, é o do Verão, com as suas aventuras
pequeno-burguesas e o tédio que se aproxima pelo fim da estação estival. Havia
toda uma mitologia em torno do Verão, uma mitologia própria de um país que
ainda não tinha descoberto as praias inundadas de gente e o turismo de massas.
É dessa mitologia, que tem no romance Sinais
de Fogo, de Jorge Sena, a sua legitimação, que esta cantigueta extrai a sua
existência.
quinta-feira, 7 de setembro de 2017
As eleições em Loures
A minha crónica no Jornal Torrejano.
De todas as eleições municipais, a mais importante é a de
Loures. Isso deve-se à mobilização por André Ventura (PSD) de temas que têm
estado afastados da vida política nacional. As suas declarações sobre os
ciganos geraram um enorme burburinho, repúdio por parte da generalidade do mainstream político, mas também apoio em
certas franjas da direita que habita nas redes sociais. Passos Coelho,
contrariamente a Assunção Cristas, recusou-se a retirar o apoio ao candidato, o
que tem um óbvio significado político sobre a procura de uma agenda, por parte
do PSD, que permita afirmar-se contra a esquerda. As eleições de Loures, onde a
direita, nas últimas autárquicas, teve uma votação marginal, podem dizer-nos
muito sobre a evolução do debate político nacional.
André Ventura, de forma estridente, possivelmente racista,
ao focar os ciganos, e populista, coloca uma questão fundamental. Como controla
o Estado o conjunto de prestações sociais que atribui? O problema da suspeita
da existência de subsídios injustamente atribuídos – seja o chamado rendimento
mínimo, ou o subsídio de desemprego, ou o de doença, etc. – não se restringe aos
ciganos, havendo um rancor social larvar alimentado por uma persistente
suspeita de injustiça. A única maneira de conter esse rancor é assegurar que as
prestações sociais são justa e adequadamente atribuídas, com um controlo
eficaz. Do ponto de vista popular, o ressentimento com estas situações é
sentido de forma muito mais aguda do que a corrupção de alto nível e a grande
subsidiação às elites. Uma sondagem mostra que 68% dos portugueses – tanto da
esquerda como da direita – está de acordo com André Ventura. Isto é um aviso sobre
o que pode vir aí, se o Estado e os agentes políticos se demitirem de encarar o
problema de frente.
Se André Ventura tiver uma votação modesta, ainda que um
pouco superior à obtida pelo PSD, nas últimas autárquicas, a coisa, por enquanto,
morre por aí. Se obtiver uma votação espectacular em Loures, temos um problema
enorme entre mãos. Num momento em que a esquerda centralizou em si a agenda
social-democrata, será uma grande tentação para o PSD – um partido até aqui
exemplar neste tipo de questões – deixar o seu discurso resvalar para o que há
de pior. A esquerda, nomeadamente o PCP, se não está muito preocupada, deveria
estar. Em França foi este tipo de discurso vindo da Frente Nacional que
liquidou o PCF. Pior do que isso, Portugal corre o risco de trocar a discussão
sobre o seu futuro pela algazarra populista à volta de uma agenda fundada no
ressentimento e na inveja.
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
Geringonça, o véu lexical
Iago Pericot - Máquina (1963)
Deve-se a Paulo Portas o baptismo da actual solução
governativa como geringonça. Com o
verbo fácil que o caracteriza, confiando no brilho da sua inteligência, mas
esquecendo que do outro lado não estavam propriamente idiotas, o ex-líder do
CDS decidiu fazer uma pilhéria e, entre prognósticos de catástrofes terríveis,
desvalorizar a solução dos adversários políticos que lhe tinham tomado o lugar. A graçola deve
ter saído espontaneamente da boca, pois ela teve um efeito completamente
contrário ao pretendido.
A direita ficou encantada com o achado e repetiu-o, e
repete-o, vezes sem conta quando fala da coligação parlamentar que suporta a
solução governativa. A esquerda reagiu à pilhéria com boa disposição e, em vez
de fazer de virgem ofendida, nessa altura não faltavam no país virgens
ofendidas, tomou aos ombros a designação, brincou com ela e fez-se à vida.
Aliás, fê-lo de forma bastante inteligente. Teve a intuição de que o valor
lexical da palavra e o valor de uso popular não eram os mesmos.
Lexicalmente, geringonça significa algo pouco sólido e que
se desfaz facilmente. Era nisto que Paulo Portas pensava. No entanto, quando
alguém diz que uma coisa é uma geringonça retira-lhe de imediato uma tonalidade
ameaçadora, capaz de destruir este mundo e o outro. No uso popular da
expressão, está presente a pouca solidez, mas, fundamentalmente, uma certa
leveza e ausência de ameaça. É algo com que se brinca e que não se teme. Ora o
grande risco que António Costa correu foi o do temor que poderia haver em levar
o BE e o PCP para a área da governação. A esquerda, ao aceitar a pilhéria de Portas,
resolveu o problema. A direita ainda tentou fazer uma fronda contra a solução
governativa, mas ficou a falar sozinha. Quem podia ter medo de uma geringonça?
É um mistério a direita continuar a usar o
termo para designar a actual solução governativa. Primeiro, porque continua a
oferecer uma imagem de leveza à esquerda e a retirar-lhe aquilo que supostamente teria de ameaçador. Depois, porque, passados dois anos,
toda a gente percebeu que a solução é sólida e construída com engenho pelos
diversos protagonistas. Há ali um grande trabalho de engenharia política, que
permitiu não só que o PS reocupasse o centro político, como o BE e o PCP
entrassem nesse espaço de moderação, expulsando de lá o PSD. Cada vez que Passos Coelho e os actores e
comentadores políticos de direita falam em geringonça estão a reforçar aquilo
que querem combater. A geringonça funciona para a direita como um véu lexical que não a
deixa ver a realidade.
terça-feira, 5 de setembro de 2017
segunda-feira, 4 de setembro de 2017
Micropoemas - Pequenas dádivas 7
Mario Avati - Night and Day (1984)
7. Dia
Do dia,
a mais pura aurora.
E na noite, mão desejo fora.
(Micropoemas,
1977/78 e 89)
domingo, 3 de setembro de 2017
Descrições fenomenológicas 29. Algumas mulheres 2
Pierre Bonnard - Standing Nude (c. 1922-30)
Lentamente, fez saltar um a um os botões do roupão e, com um esgar de
desprezo, deixou-o cair. Estava completamente nua. Olhou-se ao espelho. O
cabelo apanhado fê-la erguer a mão e passar por ele, como se quisesse
certificar-se de que estava no seu lugar. Dois dedos desceram as pálpebras inferiores e ela espreitou para dentro
dos olhos. Tudo estava em ordem. Confrontou-se, então, com o corpo. Os
seios, nem pequenos nem grandes, o ventre liso, as pernas. Não havia emoção na
contemplação de si mesma. Ficou assim por algum tempo, talvez dois ou três
minutos. Hirta. Na face, não se descortinava desdém ou reprovação. Ela
constatava, apenas. Talvez registasse a sua imagem para memória futura. A luz amarelava
o quarto, tocava-lhe a pele e ficava suspensa como uma recordação que, prestes
a chegar à consciência, insiste em não transpor o limiar, uma promessa que
recusa cumprir-se. Virou-se então de lado. À sua frente, abria-se a porta
do quarto. Ergueu os braços e depois deixou-os cair ao longo do corpo. Estava em
sentido. Olhou para lá da porta e, de imediato, fechou os olhos. Flectiu as
pernas e apoiou as mãos no chão. Observou o espaço em frente e experimentou a flexibilidade
dos membros, de todos eles. Assim, ensaiou os primeiros passos. Chegada à porta
tentou rosnar. Em vão. Fez novas tentativas, até que da sua boca saiu um som que
fez lembrar o rosnido de um cão. Sorriu. Há muito que não sorria. Saiu do
quarto e caminhou, a quatro, pela casa. Ouviu-se a porta de entrada a abrir e
depois a bater. Passados instantes, ecoou, vindo da rua, um uivo
prolongado, tão prolongado como se uma dor sem fim se tivesse abatido sobre o
mundo.
sábado, 2 de setembro de 2017
O lugar da vingança
A minha crónica em A Barca.
Por influência do Iluminismo e de pensadores como Hegel e
Marx – ecoando ainda a perspectiva cristã – a História, nos últimos dois
séculos, gozou de uma fama que está longe de ser justificada. Ela seria o
caminho que nos conduziria, progressivamente, à boa sociedade, a um mundo de
paz perpétua, de entendimento entre os homens e de harmonia com a natureza.
Esta consideração optimista sobre o devir da humanidade, porém, está longe de
se adequar, por pouco que seja, à realidade. Na verdade, a História é o lugar
da violência, mas de uma violência que, contrariamente ao que pensava Marx, não
conduz a lado nenhum a não ser a mais violência. E não conduz a lado nenhum
porque, no cerne da História, nós encontramos a memória.
Dois exemplos recentes. O atentado de Barcelona. Ele faz
parte não apenas de um conflito contemporâneo, mas de uma longa história de
violências, de conquistas, de reconquistas, de colonizações e de crueldades.
Há, por exemplo, grupos islâmicos a reivindicar a Península Ibérica como
território do Islão. A cada instante se acusa o cristianismo pelas Cruzadas,
embora se esqueça que o Norte de África cristão foi, muito antes das Cruzadas,
convertido ao Islão pelo argumento da violência. Há a tragédia da colonização.
Por muito que queiramos rasurar a memória, ela volta. Um segundo exemplo está
ligado aos acontecimentos dos EUA, às marchas da extrema-direita e ao derrube
de estátuas erguidas pelos confederados derrotados na Guerra Civil americana.
Supremacistas brancos e anti-esclavagistas continuam em guerra pelas suas
memórias. Nada está esquecido. Por vezes, adormece, mas, logo que há
oportunidade, a memória da história americana volta com a sua carga de
violência.
Ver na História o caminho para a paz perpétua e para a boa
sociedade foi, aliás, uma estranha estratégia da própria memória violenta, para
que, em nome da paz, a violência se expandisse. O que é razoável esperar é que,
de um momento para o outro, sejamos envolvidos num conflito. O que é razoável
desejar é que os períodos pacíficos sejam, tanto quanto possível, longos. Para
isso é necessário não ter quaisquer ilusões sobre a bondade da História. A
vitória de uns é sempre o ressentimento de outros, numa escalada sem fim.
Conflitos que parecem dirimidos e resolvidos podem ser reactivados de um
momento para o outro, muitas vezes sem que se perceba bem porquê. A História
não é mais do que o balançar entre a glória e o ressentimento. Nela, nessa
História tão incensada, nada se esquece, nada se perdoa, tudo espera a hora da
vingança.
sexta-feira, 1 de setembro de 2017
O drama da igualdade de género
Pablo Picasso - El diván (1899)
Tinha pensado em não escrever sobre o drama, pois na verdade
é um drama assente na dissonância cognitiva, que envolve dois blocos de
exercícios da Porto Editora, um dirigido às meninas e outro aos meninos da Educação
Pré-escolar. No cerne do drama está uma recomendação da Comissão para a
Cidadania e Igualdade de Género (CIG). Recomendação essa que induziu a editora a
retirar do mercado os dois blocos de exercícios. Isso tem gerado um sem número
de protestos, mais ou menos ingénuos, nas redes sociais e artigos – provenientes
da ala conservadora da sociedade portuguesa – que denunciam a profunda ditadura
e o estado de guerra em que vivemos, ao mesmo tempo que profetizam o fim da
civilização (veja-se, a mero título de exemplo, embora não refira directamente
o incidente, o texto
delirante, mas por isso mesmo representativo, de Maria João Avillez no Observador.)
Vale a pena olhar para a recomendação da CIG (consultar aqui).
Desta, convém dar atenção ao seu núcleo de pressupostos, o qual é constituído
por três conceitos: conceito de sexo
(a dimensão biológica determinada pelos genitais), o conceito de género (a dimensão cultural de
construção de significados sociais em função da pertença a um determinado sexo)
e o conceito de estereótipos de género.
Este, tendo em conta a distinção entre sexo
e género, é o elemento central
que vai conduzir à célebre recomendação, a qual decorre logicamente desse
conceito. Vale a pena transcrever a sua definição:
os estereótipos constituem conjuntos bem organizados de crenças acerca
das características das pessoas que pertencem a um grupo particular. Os
estereótipos de género (mais do que qualquer outro tipo de estereótipos)
apresentam um forte poder normativo, na medida em que (…) consubstanciam uma
visão prescritiva, dos comportamentos (papéis de género) que ambos os sexos
deverão exibir.
A primeira questão que se coloca é sobre a possibilidade de
qualquer sociedade funcionar sem estereótipos. A segunda questão relaciona-se
com o conflito em torno dos estereótipos de género e o lugar de onde brota esse
conflito.
Os estereótipos, enquanto conjuntos bem organizados de
crenças, são centrais para a vida em sociedade. Agilizam as práticas sociais,
fluidificam-nas ao fornecer, pronto a usar, um conjunto de significações que as
estruturam, evitando a perda de tempo de uma definição contínua dos papéis e
das interacções entre estes. Sem eles, incluindo os estereótipos de género, uma
sociedade torna-se disfuncional.
É evidente que a partir do Iluminismo o estereótipo adquiriu
má fama sob a designação de preconceito. Na verdade, os estereótipos são
preconceitos, isto é, crenças que não passaram pelo crivo da razão. E, como
dizia o projecto iluminista do XVIII, tudo deve passar pelo crivo da razão. O
problema é que nenhuma sociedade sobrevive se submeter a cada instante o
conjunto das suas crenças a esse crivo para determinar a sua razoabilidade.
Poderíamos dizer que as sociedades, mesmo as modernas, vivem de uma conjugação
difusa entre crenças criticadas e crenças estereotipadas ou preconceitos.
Assim, o estereótipo – ou o preconceito – não é apenas a
ganga perversa da dominação. É também uma forma económica que as sociedades
utilizam para sobreviver e para prosperar. Isto não significa, contudo, que os
estereótipos – ou preconceitos – se devam manter intocados. Pelo contrário.
Essa intocabilidade é uma ilusão proveniente das sociedades tradicionais, onde
a mudança é muito lenta. Nas sociedades modernas, pelo contrário, a crítica e
destruição de estereótipos é uma necessidade central da modernização e a
modernização nunca está concluída. É sempre um projecto em aberto. Isto
significa que há, nas nossas sociedades, uma necessidade contínua, impulsionada
pelo mundo da economia de mercado, de criticar e destruir estereótipos. De
substituir os desadequados por outros mais funcionais e adaptados às exigências
dos mercados.
É no âmbito desta exigência das sociedades liberais que deve
ser lida a malfadada recomendação da CIG. Ela não é um devaneio de esquerdistas
prontos a destruir a civilização ocidental, mas uma exigência da própria
civilização ocidental, desde que fez da modernização contínua da economia e da
sociedade o motor da sua existência.
Assim, melhor do que perguntar se os estereótipos de género
– agora atacados pela CIG, e os que se revêem na sua recomendação, e defendidos
pela ala conservadora da sociedade – são bons ou maus, será tentar perceber por
que razão estão a ser desafiados. Podemos, na sequência de posições como as de
Maria João Avillez, que tem o mérito da candura inerente à falta de competência
teórica, proclamar a existência de uma conspiração para derrubar a nossa
civilização. Conspiração de quem? Evidentemente do marxismo cultural, da Escola
de Frankfurt, do desconstrutivismo francês, das perversões biopolíticas de
Foucault e descendentes, da esquerda radical, no caso português do Bloco de
Esquerda, etc. Isto é para os conservadores-liberais muito confortável e
poupa-os à dor de reconheceram a dissonância cognitiva em que vivem.
Se os estereótipos tradicionais estão a ser abalados e
desafiados, certamente que o motor desse abalo não é, apesar das aparências,
nem o mundo universitário nem tão pouco os grupos da chamada esquerda radical,
os quais, com uma ou outra excepção, são de pequena dimensão. O grande motor
dessas transformações é a economia liberal e as desregulações que ela traz
consigo. Estas desregulações introduzidas pelo chamado neoliberalismo não são
apenas desregulações do mercado de trabalho. São desregulações sociais globais
e que têm impacto inclusive nos papéis que homens e mulheres desempenham na
sociedade. Essas desregulações vêm exigir que homens e mulheres assumam papéis
diferentes daqueles que a tradição lhes fornecia. Toda a retórica da CIG, com
os seus conceitos de sexo, género e estereótipo de género, se inscreve na tradição liberal. A ideologia
da recomendação feita pela CIG não é diferente daquela que os liberais usam
para as relações económicas. É complementar e serve-lhe de suporte. A
flexibilização dos papéis que lhe está inerente é uma exigência da economia
liberal e não uma conspiração de mercenários a soldo sabe-se lá de quem.
E o pior da dissonância cognitiva da ala
conservadora-liberal não está aqui. Quando vocifera contra certo mundo
académico permeado pelo marxismo cultural, pelas teorias da escola de
Frankfurt, pelo desconstrutivismo, pelas teorias de género, etc., etc., ou
contra a esquerda radical (tipo BE, Podemos ou Syriza), está a negar que todos
esses movimentos são emanações do próprio liberalismo e do mundo económico que os
produziu com a finalidade de o defender e desenvolver. Muitas vezes – como está
a acontecer na Grécia ou em Portugal, mas não só – esses movimentos culturais
e políticos ditos radicais representam o mundo da economia liberal com muito
mais eficácia do que os políticos conservadores, enrolados em escândalos e
presos a fórmulas sociais já desadequadas às exigências desse tipo de economia.
Parece que toda esta gente que à direita vocifera ainda não
percebeu uma coisa simples. A Queda do Muro de Berlim significa que deixou de
haver dois sistemas alternativos. Apenas existe um sistema e que todas as
partes – direita e esquerda – fazem parte dele e, por muito estranho que isso
possa parecer, trabalham para o seu desenvolvimento e melhoria. Porquê? Pela
simples questão de que não há um fora do sistema para onde conduzir as
sociedades. Basta olhar para a conversão do Syriza – mesmo a retórica académica
de Varoufakis não pretendia outra coisa que a melhoria do capitalismo – ou para
a realidade portuguesa. Há muito que a esquerda dita radical percebeu que não há um fora do sistema. Ela, onde se incluiu o PCP, hoje em dia, faz parte do
sistema liberal e opera para a sua melhoria, muitas vezes tendo o papel de
destruir estereótipos e preconceitos que são adversos à sociedade liberal.
Se nós olharmos com atenção ao conceito de estereótipo de género, presente na
recomendação da CIG, percebemos muito bem o que está em causa. O que ele, na
verdade, nos diz é que os estereótipos de género existentes estão desadequados
às exigências da economia de mercado e à sociedade liberal em que se pretende
viver. Precisam de ser substituídos por outros, por certo mais fluidos, como o
é a economia e como os grandes beneficiários do actual sistema económico
pretendem que sejam os novos estereótipos.
Todos os inimigos imaginários dos nossos admiradores do
liberalismo – do marxismo cultural ao radicalismo de esquerda, passando pelo
feminismo e pelas múltiplas idiossincrasias estapafúrdias do mundo académico –
são fruto dessa economia desregulada, que esses admiradores tanto cultuam.
Gostariam de chuva no nabal e sol na eira para tranquilizar as suas
consciências pecadoras. Se querem, porém, uma economia liberal, então têm de
levar com toda esta parafernália ideológica que tanto os assusta, mas que está
em relação profunda com o desenvolvimento do sistema económico liberalizado,
que a exige, a fomenta e a faz florescer.
A flexibilização dos papéis socias de homens e mulheres (que
assusta os nosso conservadores) é concomitante à flexibilização do mercado de
trabalho (sempre tão desejada e incensada pelos mesmos conservadores) e decorre dela.
Maria João Avillez e todos os que se revêem no seu texto, uns com mais
fundamento teórico, outros com mais ingenuidade, têm razão. Há uma guerra
(embora esta guerra seja já muito antiga e tenha começado pela destruição das
aristocracias e das sociedades de castas ou de estamentos, que eram o fundo de
onde ainda brotam certas concepções, agora atacadas, dos papéis dos homens e
das mulheres), mas quem a está promover essa guerra são aqueles que, socialmente, estão
próximos dela e dos liberais-conservadores lacrimejantes ou vociferantes que
pululam por aí. O resto é dissonância cognitiva.
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