sábado, 18 de abril de 2020

Desconfiança e afastamento


Num ensaio, A pandemia e o capitalismo numérico, no Público de Domingo de Páscoa, o filósofo José Gil afirma que, durante todo este tempo de confinamento, “não se conceberam nem novos valores éticos, nem novos programas económicos ou práticas políticas”.  Deixo de lado a economia e a política e centro-me na ética. Dois valores morais estruturantes da vida em comunidade são a proximidade – por exemplo, no sentido dado na expressão amor ao próximo – e a confiança. Esta é um valor estrutural em todas as sociedades e, por maioria de razões numa sociedade fundada na economia de mercado. O respeito, senão o amor, ao próximo, apesar da crescente afirmação de egoísmos viscerais e agressivos, continuava a ser um valor e a proximidade física entre seres humanos era vista como forma de expressar e realizar esse valor.

De um momento para o outro, a confiança deu lugar à desconfiança relativamente aos outros e a si próprio. Será que o vizinho que posso encontrar no elevador estará contaminado? Será que, ao ter de ir à rua, transporto para casa o vírus? A confiança espontânea que havia nas inter-relações entre conhecidos e na relação consigo próprio desapareceu. Viseiras, luvas, lavagem de mãos, desinfecção permanente, tudo isso são sinais de que a confiança se tornou impossível. Qualquer um agora pode ser o portador da minha morte e eu a de qualquer um. A proximidade tornou-se um valor negativo. Estar próximo do outro é poder fazer-lhe mal ou receber o mal que dele pode vir. O respeito, senão o amor, exprime-se pela distância, por uma dinâmica de afastamento, não pela proximidade e pela partilha do espaço entre pessoas, cujos corpos se tornaram universalmente indesejáveis, numa irónica facécia ao deus Eros.

Pode ser verdade que, como pretende José Gil, não se conceberam novos valores éticos, mas a metamorfose sofrida nestes dias pelos pares confiança/desconfiança e próximo/afastado são reveladores de que podemos estar na iminência de uma mutação ética. Começará na sociedade, onde as regras da moralidade comum se estão já adaptar às novas exigências. Tudo dependerá do tempo que se leve a solucionar o problema. Se a situação se prolongar, se novos hábitos vierem a instalar-se para que possamos sobreviver, podemos estar  perante uma novidade ética. A desconfiança e o afastamento tornar-se-ão deveres morais e a nova forma de habitar o mundo. Como se poderá estruturar a vida em comunidade, desde a família ao espaço público, num ambiente em que se deve cultivar a desconfiança e o afastamento, essa é a grande incógnita.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Roberto Rossellini, Roma, Cidade Aberta


Roberto Rossellini começou a filmar Roma, Cidade Aberta em 1944, logo a seguir à expulsão dos alemães da capital italiana. No centro da intriga está, como um efectivo tributo ao espírito da época e ao heroísmo dos que se opuseram ao fascismo e ao nazismo, a resistência italiana e a cruel perseguição dos ocupantes alemães, aliada à pusilânime colaboração de parte dos italianos. O filme é uma obra central na definição do que se convencionou chamar, no âmbito do cinema, o neo-realismo italiano e faz parte do conjunto de filmes de intervenção antinazi, cujo obra mais conhecida é Casablanca (1942), de Michael Curtiz.

A trama narrativa do filme põe em jogo o conflito de vida ou morte entre duas crenças inabaláveis. De um lado encontram-se os que defendem a superioridade ariana com uma convicção que começava a abrir brechas e do outro a convicção da justeza e superioridade moral dos resistentes à ocupação. Apesar do filme pretender ser uma aproximação à vida real das classes populares e ser, de certa forma, um documentário dessa vida, as personagens centrais não deixam de ser idealizações do herói, os resistentes, e do vilão, os ocupantes ou os colaboracionistas, por convicção ou por degradação moral. De um lado a superioridade moral; do outro a perversidade e a baixeza morais. As personagens surgem, deste modo, planas, estereotipadas, sem que se dê conta de uma vida interior complexa, marcada pela dúvida, pela hesitação, pela incerteza.

O filme retrata o modus operandi tanto da resistência como dos ocupantes alemães, uma espécie de jogo do gato e do rato. A resistência opera dentro dos bairros populares, mesmo que os seus dirigentes provenham de outra camada social. É lá que encontra o apoio e o ambiente propício para se ocultar. Os alemães, por seu turno, exploram a fraqueza moral daqueles – neste caso de duas mulheres – que, provenientes das classes populares, anseiam pertencer ao mundo dos ricos, ainda que seja através de opções morais ignóbeis. A isso aliam uma violência sem limite e sem pruridos morais.

Para além da questão central, o combate entre ocupantes e resistência, e de uma visão ideológica sobre as classes sociais, o filme mostra como na resistência se juntava o Partido Comunista e a Igreja Católica. Os dois heróis da resistência são um engenheiro comunista e um padre católico. Há uma clara preocupação de evidenciar e reforçar essa unidade, escondendo tudo o que separava os dois campos, separação essa que vai ser estruturante na política italiana do pós-guerra, na qual democratas-cristãos e comunistas se tornam as grandes forças políticas em Itália durante décadas, mas em lados opostos da barricada. Apesar das personagens centrais terem sido reduzidas a tipos idealizados, o filme continua a ser um documento interessante para perceber aquela época, com os valores políticos e a visão do mundo da altura.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Beatitudes (24) Fantasia

Andreas Feininger, A man in Arabic dress, smoking a water-cooled pipe, is comfortably sitting on a magic carpet. 1954
Talvez a beatitude não seja uma fantasia, mas por certo esta será única porta que nos conduz àquela. A felicidade é uma filha legítima da imaginação e esta compraz-se apenas no impossível.

domingo, 12 de abril de 2020

Ensaio sobre a luz (81)

Wolf Suschitzky, Sunday morning, Oldham, 1946
A luz ressurecta ilumina a manhã de domingo. Nela um homem caminha pelas ruas vazias, vê a sua sombra projectada no empedrado que cobre o chão e confia, na ingenuidade dos tempos amenos, que tudo é como sempre foi, como se a luz iluminasse apenas a certeza que nasce dos velhos hábitos.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

François Ozon, Frantz


No filme de 2018, o cineasta francês explora os dramas pessoais trazidos pela primeira Grande Guerra, tendo por pano de fundo o nacionalismo que desencadeara o conflito e que, terminado este, não declinara, apesar da extraordinária carnificina a que tinha conduzido. Frantz é um jovem soldado alemão morto por um soldado francês, Adrien, tão jovem quanto ele. Ambos partilhavam um destino ambíguo. Eram pacifistas e foram levados para a guerra pela pressão do ambiente social e da própria família, pela coacção de um nacionalismo agressivo que habitava o espírito da época. É a hipersensibilidade de Adrien, um violinista da Orquestra de Paris e filho família, que desencadeia a trama narrativa, ao sentir necessidade de se fazer perdoar pela família do alemão que matou numa trincheira. É aqui, nesse instante onde a vida e a morte de dois soldados se decidiram, que está a raiz de toda a equivocidade que percorre o filme.

O soldado francês em vez de considerar o alemão como um inimigo abatido, deixa-o transformar-se, aos seus olhos, numa pessoa a quem assassinou. Na trincheira, perante o alemão morto, dá-se uma metamorfose na consciência de Adrien. De inimigo e ameaça real à sua existência, o alemão transforma-se num outro eu a quem Adrien tirou a vida. A alteração do estatuto ontológico de Frantz na consciência do francês tem um efeito perturbador. Encontra nos bolsos do morto o rasto duma vida agora sem continuação, uma carta a enviar à namorada. Acabada a guerra, o confronto com a morte do outro não deixa de o abalar e, como forma de catarse, decide partir para a terra de Frantz com o objectivo de pedir perdão. Um dos elementos fundamentais na construção da personagem de Adrien é a ambiguidade das suas motivações, nunca ficando claro aquilo que o move, se a dor dos outros – pais e namorada de Frantz – se a sua consciência infeliz, incapaz de lidar com o facto de a guerra ser o lugar onde as pessoas matam para não morrer, onde não há conciliação possível no momento do combate.

A relação que Adrien acaba por estabelecer tanto com os pais de Frantz como com Ann, a namorada, acaba por se tornar, também ela, equívoca. A fragilidade moral do francês arrasta-o para uma história falsa e através dela ganha a confiança e a amizade dos pais do soldado alemão. Quando Ann descobre a verdade é ela que impede a sua revelação aos que deveriam ter sido seus sogros. Alimenta uma versão edulcorada da realidade devido a um suposto direito de mentir por amor à humanidade, para parafrasear o título de um célebre texto de Kant. A partir daí, o equívoco e a mentira entrelaçam-se, passando Adrien a ser visto como um possível noivo de Ann e substituto de Frantz. A viagem que Ann faz a França, para consumar essa substituição de Frantz por Adrien, é um exercício de descoberta. A descoberta, por Ann, da pusilanimidade do francês, da sua situação de comprometido apenas por convenção familiar, e, também, a descoberta de si mesma, da sua força e da própria vida que renasce dentro dela. O filme de Ozon é uma reflexão sobre a ambiguidade das motivações e o problema da verdade e da mentira morais, em que Adrien se afunda na mentira a si ao desejar expor a verdade e em que Ann, apesar de manter uma ficção para os sogros, descobre a sua força e a sua própria verdade, libertando-se do passado e da guerra.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

A Casa Esquecida 9

Nicolas de Staël, Desnudo acostado, 1955

Um corpo desliza na falésia doutro.
As mãos correm musgos e sedas,
líquenes polvilhados de cal,
a tília a transbordar de silêncios.

Um cântico nasce-te nos dedos.
Ecoa como um fruto desfolhado
na mágoa vesperal da boca,
na sombra da sombra ao meio-dia.

(1981)

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Ensaio sobre a luz (80)

René Burri, Former Summer Palace. Dead lotus flowers on the Kunming Lake. Beijing, China, 1964
Raios de sol descem difusos sobre as águas, fazem das árvores fantasmas perdidos no mundo, iluminam a geometria dos lótus abandonados ao cansaço da morte. O tempo suspende a viagem e uma vida ressurecta aguarda a hora em que a clara luz triunfe sobre a melancolia da névoa e a tristeza da cinza.

sábado, 4 de abril de 2020

Uma comunidade de seres racionais


A senhora Thatcher terá escrito, num livro de memórias sobre o tempo em que foi primeira-ministra, que “não existe essa coisa de sociedade, o que há e sempre haverá são indivíduos”. A sobranceria e a pesporrência com que a frase foi multiplicada pareciam ter a força suficiente para fazer de um desabafo meramente ideológico uma verdade inquestionada. Aparentemente, a frase visava atingir as ideias socialistas. Na verdade, põe em questão toda uma longa tradição, a tradição ocidental, que se reconhece na palavra de Aristóteles de que o homem é um animal político, isto é, um animal que vive em comunidade. Paradoxalmente, é neste momento tenebroso, em que parte da população se vê obrigada a proteger-se da vida em comum, que se torna manifesta a razão de Aristóteles e a desrazão da senhora Thatcher e dos ultraliberais.

Somos indivíduos, mas o que nos vale isso se estamos separados da comunidade? Estamos a descobrir que o que dá sentido às nossas vidas não são apenas os projectos individuais, os sucessos, o contentamento por termos atingidos os objectivos. Sem uma comunidade real que nos dê o fundo da nossa existência e que, em última instância, seja o objectivo dos nossos esforços, a nossa individualidade é risível. Mais, sem uma comunidade real que responda enquanto comunidade, seremos sempre muito mais frágeis e vulneráveis. Não sabemos, nesta hora, se a resposta que a comunidade está a dar à pandemia será coroada pelo êxito que todos desejamos, mas parece claro que, se cada um agisse em conformidade com o seu ser individual, a desgraça seria indescritível. A esperança nasce da resposta colectiva assumida por cada um de nós.

Isto não significa que os indivíduos não existam ou que devam estar subjugados à comunidade, como aconteceu nas diversas experiências totalitárias que marcaram o século XX. Em sociedades complexas como aquelas em que vivemos, toda a vida deve ser a busca de uma harmonização entre os interesses comuns, os interesses da sociedade tomada como um todo, e os interesses individuais. Ambos são importante e ambos merecem respeito. O que devemos evitar é que os herdeiros ideológicos da senhora Thatcher destruam os laços comunitários. O que devemos evitar é que novas utopias colectivistas, como os nacionalismos, destruam a autonomia individual. Aquilo que o actual estado sanitário mostra é que precisamos de ser uma comunidade de indivíduos autónomos, capazes de cuidar de si e da comunidade. A actual pandemia terá muitas coisas para nos ensinar. A importância de uma comunidade de seres racionais não será a menor dessas coisas.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Razão e Ciência


De súbito, calou-se todo o argumentário anticientífico sobre as vacinas. Perante a pandemia associada ao COVID 19, anseia-se que a ciência responda com brevidade e encontre uma vacine que possa ajudar a humanidade a viver com o novo perigo. Os movimentos anticientíficos têm crescido nos últimos tempos e são uma ameaça real à vida dos seres humanos. Enquanto as coisas ficam em patetices como a terra plana, é possível rir. Quando, porém, tocam em assuntos relacionados com a vida e a morte, não há riso que valha. Nestes movimentos contra a ciência podem existir, entre outras, motivações associadas a um regresso a uma imaginária pureza da ordem natural e motivações religiosas, que vêem na ciência uma afronta ao divino ou que julgam que uma fé profunda bastará para lidar com os males do mundo.

A ordem natural como medida daquilo que é correcto ou incorrecto fazer é uma perspectiva muito em voga nos círculos new age. Assenta na negação dos perigos que a própria natureza esconde para os seres humanos e faz uma leitura da humanidade como sendo apenas uma espécie entre outras. Foi o facto, porém, do homem ter tido a capacidade de se distanciar da natureza e ter criado um mundo artificial a partir dessa natureza que tornou possível a persistência da humanidade sobre a Terra. Desse mundo artificial fazem parte as técnicas, os saberes científicos, os valores e as próprias religiões. Tudo isso foi uma estratégia de afirmação e defesa da humanidade perante uma natureza muito longe de lhe ser benévola.

Certas correntes religiosas julgam que os homens apenas devem confiar na fé, mesmo em assuntos que não se relacionem com questões de religião. A ciência seria então um desafio à ordem e à vontade divinas. No entanto, nem todas as religiões têm esta perigosa posição e a Igreja Católica, por exemplo, há muito que descobriu, ou sempre soube, que fé e razão se devem conjugar e que as descobertas científicas, produtos da razão natural dos homens, devem ser tidas em consideração. Considera mesmo como pecado grave os homens desprezarem a informação científica, aventurando-se na existência sem a tomar em consideração. Pecado pois, ao desprezar o conhecimento trazido pela razão dada ao homem por Deus, estão a desafiá-Lo a provar a sua omnipotência para os salvar daquilo em que estão metidos.

Nesta hora terrível que estamos a viver, é tempo de perceber que não devemos desprezar o que a razão e a ciência produzem para ajudar a humanidade a habitar com mais segurança este planeta. Todo o fanatismo – naturalista ou fideísta – é um perigo para a existência da humanidade.

[A minha crónica de Abril em A Barca]

terça-feira, 31 de março de 2020

Ensaio sobre a luz (79)

Robert Frank, Mallorca, 1950
A vida sóbria, despida de excessos, talvez do necessário, reverbera quando incansável a luz do sol se encontra com a brancura desmedida da cal.

domingo, 29 de março de 2020

A Casa Esquecida 8

Manuel Gil Pérez, Formas dinámicas espaciales, 1957

Oiço uma música de água no algeroz,
o som arcaico nos sulcos da memória,
dor doendo na placenta do coração.
É uma casa de cantaria sobre o sul,
a esmeralda enterrando-se na carne,
o fremir das planícies ao moverem-se
de incêndio em incêndio, esse amor
soletrado no sulco do meu sangue.

(1981)

sexta-feira, 27 de março de 2020

Desejo de pastor

Loomis Dean, The grand strip of Las Vegas lighting up, 1952
No Público de hoje, António Guerreiro dedica um artigo, A epidemia do tédio, à situação de isolamento em que se encontra parte da população. O que me interessa no artigo não é tanto o tédio que nasce do confinamento ou deste ser um confinamento no tempo, mas uma passagem sobre a vocação pastoril dos media naquilo que diz respeito à cultura. É verdade que a comunicação social tem abundado em sugestões e indicações sobre coisas a ler, ver e ouvir para matar o tempo. O que me interessa é a oposição que o autor faz entre essa vocação de pastores, assumida pelos órgãos de comunicação social, e o ousa saber! kantiano, imagem do espírito crítico e do Iluminismo.

Talvez tenha existido um momento em que alguém possa ter pensado numa humanidade constituída por indivíduos que, ao ousar saber, desenvolveriam o seu espírito crítico e com as luzes da sua razão haveriam de gerir, firmes na singularidade conquistada e livres do rebanho, a sua vida, sem que alguém os pastoreasse, dizendo-lhes o que fazer e como viver. O que talvez tenha acontecido, porém, é que a generalidade dos que fecharam os ouvidos ao pastor e abandonaram o rebanho se tresmalhou e voga agora na mais pura errância. A singularização do ser humano terá produzido muito menos espíritos críticos do que espíritos errantes, verdadeiramente alienados, mais alienados, aliás, do que quando, na sua menoridade inquestionada, se entregavam nas mãos dos pastores.

O facto dos media assumirem a função do pastorado é apenas um sinal sobre o desejo que há, na generalidade daqueles que andam perdidos, em encontrar pastores que os protejam de si mesmos. No campo político, o desejo do pastor elegeu, em países como os EUA ou o Brasil, gente que nenhum espírito crítico formado na escola das Luzes pode aceitar ou consegue compreender. São pastores loucos? São, mas são pastores e, por isso, preferíveis aos políticos formados na escola crítica do Iluminismo. Mesmo na Europa o anseio por pastores cresce paulatinamente, enquanto a confiança nos espíritos críticos vai diminuindo. Depois, os exemplos vindos dos estados autoritários, onde pastores de mão firme regulam o rebanho, começam a ser olhados com benevolência. Há muito que a discussão sobre a emancipação entre liberais e socialistas terá perdido sentido. A questão é se a ideia de emancipação nascida nas luzes se adapta à humanidade, se esta pela sua natureza não estará, enquanto for humanidade, confinada a ser um rebanho, cuja sorte depende dos pastores que lhe calha.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Sonhos numa noite de Verão 20

Charles Clifford, Cathedral, Torre del Oro and Guadalquivir River, Seville, Spain, 1862
Ouvia o rumorejar das águas ao serem sulcadas pelo casco, um barulho ao longe, uma promessa de irrealidade que a consciência não conseguia fixar. O calor da noite não desmentia o Verão feroz que assola aquelas paragens. Como uma memória muito antiga, assaltava-me o nome do rio. Guadalquivir, Guadalquivir. Sentia o peso da história e as vezes que ali naveguei. Depois, as águas incendiaram-se e em pleno rio as embarcações combatiam-se, com um zelo inesperado e um poder de fogo improvável para barcos daquela dimensão. O meu foi atingido e vi-me a nadar num leito em chamas. Acordei ao chegar à margem, um raio de sol entrava no quarto e da janela do hotel via as águas serenas do Guadalquivir a deslizarem na paz da manhã.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Uma nova semântica

George Platt Lynes, Crossed Arms, 1941
Nunca foi tão importante para aqueles que estão, de algum modo, no teatro de operações do combate à pandemia que os outros se mantenham em casa. Para estes, estar de braços cruzados é uma forma de acção, a mais importante das acções. Cruzar os braços e lavar as mãos tornaram-se sinais com sentidos opostos aos que estávamos habituados. Os tempos são tão extraordinárias que a própria semântica está a ser abalada e invertida. Cruzam-se os braços e lavam-se as mãos não se porque se seja indiferente, mas porque não se é. Ao cruzarem-se os braços não se desiste, mas persiste-se, à espera que a velha semântica recupere os seus direitos e restabeleça os sinais na antiga ordem de significação. 

sábado, 21 de março de 2020

Três efeitos virais


POLÍTICA E ECONOMIA. De um momento para o outro todo um modo de compreender a política se alterou. Por influência das duas principais constelações ideológicas nascidas do Iluminismo – o liberalismo e o marxismo – a política tinha, paulatinamente, sucumbido aos imperativos da economia. Sem ameaças no horizonte, os homens pensam nos seus interesses, nos negócios que promovem ou na escassez de que se sentem vítimas na distribuição do bolo produtivo. Na verdade, as eleições ganhavam-se ou perdiam-se devido às conjunturas económicas e a qualidade das políticas tinha como núcleo central a economia. Agora, ninguém pensa na economia, na distribuição de rendimentos, seja no que for. Toda a gente reza para que a gestão política seja eficaz na oposição à ameaça viral. Primeiro vem a política, depois a economia, como deveria acontecer sempre. Quanto tempo vamos levar para esquecer esta dura lição?

HOBBES E LOCKE. Duas narrativas modernas alimentam as explicações do laço político que une as pessoas em comunidades dotados de Estado. Por um lado, a de Thomas Hobbes. Os homens associam-se num Estado, fundamentalmente, para poderem viver em segurança, sacrificando a esta tudo. Por outro, a de John Locke. O Estado existe para defender os nossos direitos naturais e assegurar uma arbitragem justa nos conflitos. Enquanto a vida corre sem problemas, a explicação de Locke parece imbatível. O que o coronavírus mostra, porém, é outra coisa. A segurança hobbesiana em primeiro lugar. Não que, neste momento, estejamos à beira da guerra de todos contra todos, mas estamos em guerra com uma ameaça em que todos podem ser os seus portadores. Todos somos suspeitos e, de certa maneira, lobos uns dos outros, apesar da solidariedade inegável que tem percorrido o país.

DEMOCRACIA E AUTORITARISMO. O que se está a passar é um teste de stress para todos os regimes políticos que têm de lidar com a situação. As democracias, pela sua própria natureza, são mais atreitas a problemas se este combate à insegurança sanitária correr mal. A Itália parece perdida, muitos dos países europeus apresentam sintomas de confusão e as duas mais sólidas democracias liberais não têm à sua frente nem um Churchill nem um Roosevelt. É possível que os regimes democráticos estejam num combate decisivo pela sua própria vida, eles que estão já infectadas pelo vírus do autoritarismo. Para além da tragédia humana, haveria uma outra tragédia civilizacional se a política voltasse ao primeiro lugar, mas assente na herança de Hobbes e no despedimento da democracia política por maus serviços.

quinta-feira, 19 de março de 2020

A Casa Esquecida 7

Fernando Lerín, Sin título, 1984

As batalhas vêm na orfandade da hora,
ornadas a vento e terra, os exércitos
cobertos de suor, o bruaá do combate,
o sangue a cerzir o contorno das faces.

Trincheiras de urze na lavanda da noite,
o vendaval dos dias, o amor hidráulico
a cambalear por campos de sargaço,
arqueado ao peso plúmbeo das paredes.

(1981)

terça-feira, 17 de março de 2020

Beatitudes (23) Trivialidades

Artur Pastor, Cais das Colunas, Lisboa, 1950-69
De súbito, descobre-se a maior das beatitudes no que há de mais trivial. Ir à rua, apanhar sol, olhar as águas, sentir a brisa a deslizar na pele, falar com amigos e estranhos, como se nada estivesse em suspenso e a realidade não se tivesse tornado num espaço doméstico de concentração. 

domingo, 15 de março de 2020

O homem do saco

Francesc Català-Roca, El hombre del saco, 1950
Nos países ibéricos e nos seus prolongamentos sul-americanos desenvolveu-se uma mitologia em torno do homem do saco ou do velho do saco. Este teria a missão de apanhar crianças mal educadas e desobedientes e levá-las com os mais indizíveis propósitos. Hoje precisávamos dessa figura tenebrosa e solitária, não para recolher meninos mal educados e desobedientes, já nos habituámos a eles, mas para apanhar aquilo que nos atormenta. Se ele com o seu saco pudesse recolher o que Pandora deixou fugir da sua caixa, todos ficaríamos gratos e ele poderia mesmo transformar a sua imagem infernal numa de querubim celeste.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Nocturnos 9

André Kertész, Melancholic Tulip, 1939
Tomada pelo pavor da noite, dobrada pelo medo das trevas, a túlipa inclina-se melancólica sobre a sua própria morte, esperando a luz da madrugada que, ao vencer os terrores da escuridão, lhe devolverá a vida.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Descrições fenomenológicas 50. A oblata

Modesto Llamas Rojamaril, ¿Hacia dónde?, 1998
Atravessado por longas rachas, o estuque luta ainda por se manter pegado à parede. Nele, manchas de humidade desenham mapas de países extravagantes, terras lendárias levadas para os confins dos oceanos, continentes inteiros engolidos pelo sopro do esquecimento, atlântidas suspensas na imaginação de filósofos ainda tocados por êxtases e delírios. O rodapé alto, talvez de uns vinte centímetros, apresenta o rebordo superior desbastado pelo caruncho e a ruína desce, cavando pequenos vales e lagos minúsculos, em direcção ao soalho, também ele tomado por um destino irremediável. Aqui florestas de folhas secas agitam-se se o vento entra pela janela desconjuntada. Vêem-se já pequenos montes de caliça, restos do estuque caído tecto, onde ainda se percebem os traços das figuras que o decoravam. Encostada à parede, uma mulher inclina o corpo para a frente. Os cabelos caem-lhe, a blusa abre-se e os seios brancos saltam e ficam suspensos do peito. Ela fica em posição instável, mas não se endireita. Parece olhar fixamente para o ventre oculto sob uma roupa que contrasta com o ambiente. Os braços abrem-se em arco e toda aquela figuração parece ser uma performance, um happening infeliz de uma artista tomada pela vertigem que se escondo dentro do corpo. Oblíquo, um feixe de luz desenha uma barra cintilante que une a mão direita à perna esquerda, ateando a saia. Os pés nus, de unhas pintadas num vermelho vívido, assentam sobre as folhas mortas e parecem fazer um esforça desmedido para evitar a queda do corpo para a frente. Passados longos minutos, a mulher ergue lentamente o tronco, enquanto une os braço ao corpo e encosta a cabeça à parede. Tem os olhos fechados, respira sem sofreguidão e os mamilos parecem querer perfurar a roupa. O rosto é agora plenamente visível e há nele pequenos reflexos de luz, um brilho trazido pela beleza, uma vontade imperiosa de reinar sobre o mundo. Toda ela estremece, abre os olhos e, pisando as folhas mortas no soalho, dirige-se para a porta, também em ruína, para sair do palco onde imaginou o altar em que se entregava em oblação aos olhos de quem a quisesse ver.

segunda-feira, 9 de março de 2020

A Casa Esquecida 6

Gerardo Rueda, Verde, 1961

São dias de maré. As planícies a arder na loucura,
o veredicto trazido pela cambraia das estações.
Inútil a cara sobre o lençol, os músculos abertos
para a praia juncada pelas algas do esquecimento.
Como será a luz das tuas mãos na luz de Setembro?

O coração estará longe, perdido na poalha do dia,
entre aniversários, amigos de copo na mão, gente
sem a urgência de chegar ou partir, sem a ânsia
de uma carta ou das canções que te ouvia
se cantavas debaixo de um céu de cinza e gaivotas.

Esqueço-me da verdade no desvario da sombra
que há nos cabelos ao caírem-te pelos ombros.
Esqueço-me do vinho a transbordar no copo vazio
de um corpo ferido pela harmonia de outro.
Esqueço-me do mar no sonho dos teus segredos.

(1981)

sábado, 7 de março de 2020

Um vírus abre uma fresta


Nos acontecimentos ligados à emergência do coronavírus, podemos dizer que há duas realidades ligadas acidentalmente. A primeira diz respeito à eventual pandemia, à facilidade do contágio que proporciona um mundo aberto e no qual toda gente viaja para todo o lado. Ligam-se a ela todas as preocupações profilácticas, as medidas de tratamento, a procura de vacinas, etc. No entanto, com a propagação do vírus e o combate à epidemia, uma outra realidade emergiu. Já diversas vezes sublinhado, um dos efeitos colaterais mais interessantes da emergência da doença é a drástica diminuição da poluição na China. O modo habitual de vida foi suspenso e as medidas para evitar o contágio vieram mostrar alguma coisa de que estávamos esquecidos.

A questão central nem será a da qualidade ambiental, mas a do próprio modo de vida em que o mundo se precipitou, marcado pela intensa mobilidade das pessoas e a sua contínua mobilização produtiva e consumidora. O fenómeno do novo nomadismo, estudado há muito na Sociologia, recebe um constante incremento pelo aumento da velocidade dos transportes e pela diminuição contínua do seu custo. Seja por turismo ou por trabalho, demasiada gente move-se todos os dias entre as diversas partes do mundo. Esta mobilidade de grandes massas está escorada na mobilização cada vez mais intensa das pessoas para a produção, onde produzem cada vez mais e a ritmos sempre mais frenéticos, e no consumo, o qual acompanha em crescimento e ritmo a produção. A vida dos seres humanos, na época em que vivemos, parece então circunscrita por uma santíssima trindade. Produção, consumo e viagem, que faz de espírito santo.

O coronavírus abriu uma fresta – na China, em Itália, por exemplo – que permite olhar para um outro mundo onde a produção e o consumo se tornaram mais lentos e a viagem foi colocada em suspenso. A fresta aberta permite que se veja o que há de insensato no modo vida para o qual nos arrastamos e deixamos arrastar. Poluição que desaparece dos céus, cidades que se tornam humanas pela ausência da massa de turistas, consumos que diminuem, produções que se descobrem supérfluas. É evidente que a fresta não vai durar para sempre e mal ela se feche, voltaremos ao mesmo. Produziremos mais, consumiremos mais e viajaremos sem descanso, até ao próximo acidente. Há muito que os homens deixaram de ter mão na máquina infernal que montaram. Talvez a fresta acidental seja um aviso e um convite à mudança de vida, mas é muito duvidoso que oiçamos o aviso e aceitemos o convite.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Ensaio sobre a luz (78)

Philippe Halsman, Jean Cocteau. “Dream of a Poet”. USA, New York City, 1949
Sempre que uma dada luz mostra certas coisas, esconde outras. Então é preciso tornar-se cego para que outra luz desça e ilumine aquilo que a primeira esconde. Logo é imperioso cegar a própria cegueira, para que uma nova luz mostre o que as anteriores ocultaram. Não há fim para aquilo que espera ser visto.

terça-feira, 3 de março de 2020

Ladj Ly, Os Miseráveis


Se há imagem que relacionamos com o nacionalismo é a da bandeira nacional a ondular, de preferência multiplicada e transportada pelas multidões. O início do filme de Ladj Ly, um francês de origem maliana, é um intenso manifesto nacionalista. Crianças e adultos transportam a bandeira de França, concentram-se em fervor patriótico, cantam em exaltação a Marselhesa e, posteriormente como se fossem um tsunami, dirigem-se para o Arco do Triunfo, onde a glória de França, acabada de se sagrar campeã do mundo de futebol, é motivo de uma grande jornada patriótica.

Que pessoas, porém, são aquelas que vemos exaltadas? Descendentes das velhas estirpes francas e galo-romanas? Não, aqueles nacionalistas franceses são negros e árabes, haverá outros, claro, mas o que a câmara mostra são aqueles. Os minutos iniciais do filme são uma reivindicação de pertença à nação por parte de pessoas que são francesas de direito mas cuja relação de facto com os franceses de origem europeia é, no mínimo, problemática.

Depois da exaltação nacionalista a trama narrativa mergulha directamente no centro de um mundo problemático, um dos subúrbios de Paris, Montfermeil. É nele que habitam muitos dos negros e árabes que comemoraram a vitória de França no campeonato mundial. Da exaltação patriótica passa-se agora à dura realidade e à difícil relação da polícia com aquela comunidade. O tema central é o da violência da polícia, violência que o próprio realizador, quando jovem, terá filmado em alturas de grande conflito.

A tensão opõe a polícia a bandos de jovens. No entanto, Ladj Ly, morador daquele bairro, deixa ver a vida social que o anima. Os negócios escuros que proliferam, a presença forte do Islão – ele é muçulmano – com matizes diferenciadas, conflitos com outras etnias – aliás o que desencadeia a narrativa é o roubo de um leão bebé num circo propriedade de ciganos por um dos miúdos negros daquela comunidade – e todo um mundo miserável, de uma arquitectura horrível e onde cresce uma juventude desocupado e sem horizontes.

O filme tem uma forte componente de intervenção social e de tomada de posição. No entanto, nem os polícias nem os jovens, as duas partes do conflito, são tratados a preto e branco. E nenhuma das partes está numa situação fácil nem parece saber lidar com essa situação, com a excepção de um dos elementos da Brigada Anti-Crime, Stéphane Ruiz, vindo naquela altura da Normandia. Este mais do que o polícia bom encarna o olhar exterior, descomprometido com o conflito, embora comprometido com valores de respeito pela humanidade do outro e códigos de imparcialidade.

Ladj Ly não oferece ao espectador um panfleto, mas uma reflexão sobre a condição humana numa comunidade onde a miséria – uma miséria que desde o século XIX e o tempo de Victor Hugo sempre ali existiu – é o ambiente onde aqueles homens, pois estamos perante um filme em que só quase entram homens, manifestam a sua humanidade mutilada. Mutilação fruto de um reconhecimento que nunca chega por parte de uma nação que é a deles, que eles vitoriam, mas que os encerra naquilo que se poderia chamar um campo de concentração de portas abertas. Estão presos pelo poderoso íman da miséria.

domingo, 1 de março de 2020

Odioso futebol


Cresci num ambiente onde se gostava de futebol e também eu, seguindo a tradição da família do meu pai, cultivei um grande interesse pelo jogo. Não por praticá-lo, pois nunca tive qualquer habilidade para o desporto, futebol ou outro. Lia os jornais desportivos, acompanhava os relatos na rádio, via os jogos, vibrava com as vitórias do clube do coração. Lembro-me de uma vez, na faculdade, a professora de Ética ter ficado espantada quando lhe disse que tinha faltado à sua aula para ver um jogo do Benfica. Isso, porém, foi há muito. Este gosto não o transmiti aos meus filhos. Na verdade, não fiz nada para o deixar como herança.

Hoje em dia, as vitórias e as derrotas do meu clube deixam-me indiferente. Há em mim uma certa tristeza por isso. O futebol era uma fantasia vinda da infância, uma ilusão sobre heróis que se superavam para derrotarem outros heróis. Curiosamente, guardo na memória muitos nomes de heróis adversários que são tão grandes para mim como os do meu clube. São todos, porém, jogadores antigos, que começam a desaparecer e que talvez tenham também eles vergonha daquilo em que o futebol se tornou.

O caso do jogador Marega em Guimarães veio apenas reforçar as razões que me afastaram desse prazer que era o futebol. Dizia-se que o desporto era uma escola de virtudes. Talvez fosse, mas o futebol parece-me que há muito não é coisa virtuosa. Os insultos racistas são apenas um dos seus lados tenebrosos, talvez o mais inumano. No futebol profissional, e não sei se no outro contaminado por este, o fair-play não existe. Adversários e equipas de arbitragem são tratados como coisas, que devem ser constantemente insultados e vaiados se o jogo não corre de feição. As regras da cordialidade e da civilidade foram proscritas dos campos de futebol. Isso, porém, não é o pior.

A suspeição constante sobre os resultados, a ideia de que nenhum troféu é vencido pelo mérito desportivo, as palavras incendiárias dos dirigentes, os ataques dos treinadores, o rancor dos comentaristas afiliados nos clubes, tudo isso cria uma atmosfera tenebrosa, uma espécie de estado de natureza hobbesiano, onde impera a guerra de todos contra todos, uma guerra até contra os jogadores ou dirigentes do próprio clube. Um conflito onde há violência verbal e física, com mortos pelo caminho. Tudo isto envolvido em muito dinheiro, numa indústria que para ganhar cada vez mais não hesita em explorar o que há de mais baixo nos seres humanos. Uma escola de virtudes? Só se as virtudes forem confundidas com o vício. O racismo nos campos de futebol é cereja em cima do bolo.

[A minha crónica em A Barca]

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Alma Pátria 60: José Barata Moura, Vamos Brincar à Caridadezinha



O estertor do Estado Novo era já muito claro em 1973. Uma guerra colonial sem saída, uma paisagem social anacrónica, divisões entre as facções que sustentavam o regime, tudo isto permitiu uma coisa como o Zip-Zip, um programa de entretenimento que se tornou um nicho de contestação política. Foi lugar onde emergiram alguns dos cantores de protesto, entre eles José Barata Moura. Não é uma figura cimeira desse tipo de canção, onde se destacam nomes como José Afonso, José Mário Branco, Adriano Correia de Oliveira e Sérgio Godinho, e, no pós 25 de Abril, pouco explorou esta sua faceta de cantor de intervenção. Ao lado da vida universitária na Faculdade de Letras de Lisboa, fciou célebre pelas suas canções infantis. Vamos Brincar à Caridadezinha (1973) é a sua mais conhecida canção de denúncia social e política.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

A Casa Esquecida 5

Joan Hernández Pijoan, Flors per als campions I, 1990

Sabíamos o aroma do destino e a cor da noite,
o som da canícula no Outono que te esperava,
o vento na praça onde contávamos palmeiras,
as mãos cobertas pelo pólen da língua.
O fogo era uma cicatriz aberta nos lábios.
O corpo, água lustral evaporando-se, espirais
de ervas, azevinho a arder nesse ventre.
Coroação do silêncio, secreta prosa da alma.

(1981)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Nocturnos 8

Robert Doisneau, Wanda wiggles her hips, 1953
Não há luz que ilumine a terrível noite do desejo. Nessa casa sombria é inútil riscar um fósforo, acender lâmpadas ou apontar holofotes. Nada se verá, talvez porque nada haja para ver.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Teremos de voltar ao básico?


Portugal é uma democracia liberal alicerçada num Estado de direito, isto é, num Estado em que todos estão submetidos à lei. Todos somos iguais perante essa mesma lei. Todos somos cidadãos, isto é, indivíduos que têm um conjunto de direitos e deveres especificados na lei. Isto é o básico. Ser homem ou mulher, ter uma dada orientação sexual, ter uma certa cor da pele, ter uma religião ou não ter nenhuma, pertencer a uma classe social, ter uma preferência política, nada disto acrescenta ou tira seja o que for à nossa condição de cidadãos. Portanto, cada um de nós tem o direito de ser respeitado independentemente do seu sexo, orientação sexual, cor da pele, classe social, pertença religiosa ou política. Também cada um de nós tem o dever de respeitar o outro independentemente do seu sexo, orientação sexual, cor da pele, classe social, pertença religiosa ou política.

Preocupante é que o básico começa a não ser compreendido e que essa incompreensão fala cada vez mais alto, pretendendo ser uma alternativa aos princípios civilizados que nos orientam. O caso Marega é apenas um episódio entre muitos outros. Devido à sua reacção teve o condão de vir separar as águas e mostrar aquilo que há muito é visível, mas que se teima em não ver. O racismo é um problema no futebol, mas também na sociedade. Não apenas em Portugal, mas também em muitos países ocidentais. A crosta civilizada que nos cobria e dourava, mal foi confrontada com algumas dificuldades, começou a estalar. Depois, nunca faltam os miseráveis para torcer as situações, para provocar dúvida na condenação do inaceitável e para atiçarem na turbamulta os piores instintos. Não gostam do básico, da igualdade de todos perante a lei. Querem uma lei que os favoreça a eles.

As questões básicas são aquelas que estruturam uma sociedade. Supõem um amplo consenso. Só neste consenso podemos discordar nas outras questões que são importantes, mas não básicas. Como deve evoluir a economia? Como se devem estruturar os sistemas de saúde e de educação? Como se deve orientar a defesa nacional? Como fazer frente à instabilidade ambiental? Como enfrentar a crise demográfica? Todas estas questões são decisivas para o futuro da comunidade e exigem de todos nós atenção, preocupação e empenhamento. Exigem muita energia cívica. Ora, se temos de voltar as nossas forças para reafirmar e defender aquilo que é básico – o direito de cada um ao reconhecimento como igual – corremos o risco de ficar a discutir a melanina ou coisas do género em vez de nos prepararmos para o que vem aí.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Eutanásia, moral e política

Pablo Picasso, La muerte de Casagemas, 1901

Do ponto de vista moral, se defendermos uma posição que respeite a autonomia das pessoas e a sua capacidade de escolherem aquilo que apenas a elas diz respeito, julgo que o único caminho possível é o da legalização da eutanásia. No entanto, a questão não é moral ou apenas moral. É política e aqui há problemas de natureza constitucional. Os artigos 24.º e 25.º da Constituição não me parece que dêem respaldo a que se autorize alguém a praticar eutanásia em terceiros. Julgo haver interpretações conflituais de especialistas constitucionais. Será no terreno da interpretação da Constituição que tudo se irá resolver.

O ponto 1 do art.º 24 diz o seguinte: "A vida humana é inviolável." O ponto 1 do art.º 25 diz: "A integridade moral e física das pessoas é inviolável." Ambos os pontos surgem como incondicionais. Vejo com dificuldade que se possa fazer uma interpretação condicional desses pontos de modo a que se defendesse, por exemplo, "A vida humana é inviolável, a não ser que...". Isto tem dois problemas. Não é o que está na Constituição e, segundo, tornava a inviolabilidade da vida humana condicional.

Uma linha de argumentação política a favor da eutanásia seria argumentar que em certos estados degradados da existência a vida de um ser humano deixa de ser uma vida humana. Sendo assim, aquele que aplica a eutanásia não está a violar uma vida humana. No entanto, julgo que isso cria muitos problemas adicionais. Por exemplo, qual o momento em que uma vida humana deixaria de ser humana e passaria a ser apenas vida? Simpatizo moralmente com a ideia de que as pessoas possam escolher a sua morte (tenho aqui menos dúvidas morais do que na questão do aborto). No entanto, o problema político é muito espinhoso e a política tem aqui preeminência sobre a moral.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Nocturnos 7

George Hoyningen-Huene, A grecian inspired shoot, 1931
Contra o escuro e as trevas, um corpo rasga o silêncio e ergue-se como se fora pássaro ou anjo. A luz desliza-lhe pela pele, dá-lhe um princípio de vida e suspende-o, antes que a queda o arraste para os baixios da noite.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

A Casa Esquecida 4

Meyer Schapiro, Abstract Seascape, 1960

Sorrias e tão a lenta era a viagem das mãos
na esquadria do silêncio, no cansaço da luz.
Na noite, um rombo aberto pela voz crescia
dentro da terra e uma aurora de dor vinha
na promessa que haveríamos de esquecer.
A janela fechada sobre o fervor do sangue,
a porta entreaberta no prazer da maresia,
as horas nocturnas como ondas alterosas
no oceano salpicado de sal no sol de Maio.

(1981)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Beatitudes (22) À porta do futuro

Martin Munkacsi, Reflection in a motorcycle mirror, Berlin, c. 1929
A mulher senta-se à porta do futuro e ignora ostensivamente o passado. A sua razão ainda não os sabe distinguir, mas o seu desejo é infalível. Está morto aquilo que o desejo esquece e no futuro está tudo o que faz estremecer de volúpia esse mesmo desejo. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Nocturnos 6

Nina Leen, Teenagers necking in a movie theater, 1944
Ainda que fosse o mais claro e puro dos dias, a noite foi chamada para que nela a luz cintilasse e todas as fantasias abandonassem o território obscuro dos possíveis e entrassem na pátria pura da realidade.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

O tempo dos farsantes

Juan Soriano, La farsa de la casta Susana, 1956
Estou a ler Nas Sombras do Amanhã - um diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo, de Johan Huizinga. O texto é dos anos 30 do século passado e nele o autor antecipava a terrível tragédia que se abateria sobre a Europa e o mundo. Não são poucas as passagens que parecem referir-se aos nossos dias. É aqui que vem à memória o célebre trecho com que Marx inicia o primeiro capítulo de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte: "Hegel observa numa de suas obras que todos os factos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa."

Nos anos trinta e quarenta do século XX, vivemos uma verdadeira tragédia. Hoje, quando olhamos para a degradação da esfera pública, da vida política e para a emergência de um novo tipo de actores políticos, mais do que uma tragédia, aquilo que suspeitamos é estar perante uma farsa, cujos actores principais não passam de farsantes. Em alguns sítios chegaram ao poder, noutros exibem a sua natureza burlesca em busca do público que, enfastiado e desejoso de se divertir, os levará a ocupar o poder. Até nós portugueses já encontrámos os nossos pequenos farsantes, que não perdem oportunidade para nos brindar com as suas facécias.

Há muito - desde o tempo dos gregos - que aprendemos a ligação entre política e tragédia. Com medo dessa ligação, entregámos a política à respeitabilidade burguesa. Esta, todavia, tem-se mostrado pouco respeitável ou, outra possibilidade, o respeito deixou de ser virtude a exibir na praça pública. Se nos guiarmos pela intuição de Marx, o que nos deve preocupar não será tanto o prenúncio de uma nova tragédia, como aquela que o nazismo fez cair sobre o mundo, mas o significado da farsa em que vamos estando cada vez mais envolvidos. Tornar a política numa farsa é dissolvê-la através do riso, mostrá-la como coisa burlesca, um divertimento. Em vez de se chorarem as instituições ameaçadas, rimo-nos com a sua queda. A farsa emerge quando as instituições políticas, ao perderem a dignidade e a respeitabilidade, se preparam para se dissolverem.