sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Poemas para uma Terra Interior (ii)

Bartolomeu Cid dos Santos, Terra Incógnita (Gulbenkian)

Descer pela escada viva da terra

ao palácio sombrio do vento norte.

Encontrar na viagem a boca ferida,

a gruta do desejo então desperta.

 

Um caminho sinuoso na memória,

a palavra de fogo desenhada,

símbolo de sal e solidão,

no interior vivo da poeira nocturna.

 

Rasgada a crosta crua da terra,

o sussurro do vento ressoa

na ondulação levedada do silêncio.

 

Um comércio de luz e sol abre

sinais e segredos ao cântico da vida

erguendo-se na morada da morte

 

Maio de 1993

[Conjunto de três poemas pertencentes à série Cânticos da Terra Amarela]


quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Beatitudes (72) As velhas cozinhas

Amadeo de Souza-Cardoso, Cozinha da casa de Manhoufe, 1913

As velhas cozinhas, onde uma química feita pela experiência dos séculos imperava, são um breviário de recordações fundadas na domesticação do fogo e na placidez das águas. Dali, saíam promessas de uma felicidade eterna fundada nos pequenos prazeres da mesa, alicerçada na hermética alquimia dos sabores.

sábado, 24 de agosto de 2024

O desenlace da questão climática


A ordem internacional funda-se em relações de poder, nas quais as potências perseguem o que os seus governantes consideram os seus interesses. Não são reguladas por nenhuma legislação que torne a comunidade internacional uma comunidade de direito e muito menos se orientam por princípios morais. As belas almas caem na falácia da composição, quando pensam que aquilo que se aplica a alguns estados, a submissão de toda a comunidade, incluindo o governo, à lei, se deverá aplicar ao sistema total de estados, à comunidade internacional. Não se aplica. Há alguns exercícios especulativos que supõem que a unidade de todas as potências da Terra só seria possível perante uma ameaça externa que pusesse em perigo a humanidade, por exemplo, uma ameaça extraterrestre.

Esta especulação choca com a natureza das coisas. Quantas vezes um inimigo externo encontro aliados dentro da comunidade que pretende submeter? Contudo, não precisamos de uma ameaça extraterrestre para fazer perigar a humanidade. Esta é uma espécie em perigo de extinção. As alterações climáticas são um inimigo real da humanidade. As catástrofes naturais induzidas pela acção humana não escolhem potência para atacar ou para proteger. Elas desenrolam-se de acordo com uma legislação da natureza que não tem em conta a lei da força das relações internacionais. Esta ameaça que se desenrola aos nossos olhos, que tem o poder de eliminar a espécie, tem alguma capacidade para unir as potências, grandes e pequenas, num esforço comum para salvar a Terra?  Todos conhecemos a resposta.

A questão climática é o principal problema que enfrentamos. Perante a falência da ordem internacional para a resolver, apesar da multiplicação das cimeiras e das declarações sobre o clima, para evitar a catástrofe que se anuncia só parece haver duas soluções. Ou os homens deixam de ser o que são, ou o problema acabará por ter uma resolução violenta. Não é plausível que os homens se tornem razoáveis e existam conversões em massa para pôr fim à sociedade de consumo. Resta a solução que a espécie humana escolhe com frequência perante situações críticas, a violência, o conflito entre aqueles que percebem a situação em que nos encontramos e os que apostam em tornar o planeta inabitável. Vai chegar o momento, ainda pouco perceptível, em que não será possível fingir que o problema climático se resolve com declarações e tratados que não alteram nada. As diversas potências serão obrigadas a assumir as suas posições e defendê-las de forma violenta. Infelizmente, parece que é para aí que, como sonâmbulos, caminhamos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Comentários (22)

Hans Thoma, Studien zum Gemälde "Nach der Schule (Anfänge der Kunst)", 1873

(...) Eu estou aqui
Ou ali, ou algures. No meu começo.
T. S. Eliot

A nossa casa é incerta no espaço. Pode ser aqui ou ali. Pode ser algures, mas é sempre a mesma e dela nunca saímos, pois é o nosso começo e em cada instante começamos o caminho. A vida é feita de incessantes começos sempre inéditos e são esses começos, múltiplos e apenas um, que impedem a nossa casa de enraizar-se em nenhures, porque aí não há começo. Só o nada o habita.

terça-feira, 20 de agosto de 2024

Máximas (22)

Vítor Pomar. A Passagem do Tempo I, 1988 (Gulbenkian)
Deixar passar o tempo não é um acto da nossa liberdade, mas a conformação ao inevitável.

domingo, 18 de agosto de 2024

Poemas para uma Terra Interior (i)

José Manuel Espiga Pinto, Terra Marcada n.º 2, 1971 (Gulbenkian)

Dorme a noite no centro da terra,

trevas de carvão no esplendor da loucura.

A música enfeixada no cobalto do dia,

um ritmo perpétuo no chão do verso.

 

Oiço o som secreto, respiratório,

a sílaba ardente da água mineral.

Um vento perplexo, côncavo de luz,

desce como fogo no vazio das grutas.

 

Sobem rumores na sílica do mundo,

galerias e túneis rompem a rocha

presos ao estandarte rugoso da mágoa.

 

Sobre o linho rasgado na dor da terra,

no negro horizonte onde a luz se apaga,

adormecem anjos cansados da noite.

 

Abril de 1993

[Conjunto de três poemas pertencentes à série Cânticos da Terra Amarela]

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Simulacros e simulações (66)

Menez, sem título, 1977 (Gulbenkian)

A partir da geometria das formas simula-se a grande cidade, imaginando edifícios, sonhando geografias, fantasiando as sombras nos dias de calor. Toda a arquitectura é um exercício de simulacros, um trabalho feitos de fluxos de imagens e rastos de ideias, de onde nasce, na rudeza da matéria, o ritmo da realidade.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Ursula K. Le Guin, Do outro lado do sonho

 

Publicado originalmente em 1971, nos Estado Unidos, com o título de The Lathe of Heaven, foi agora, Março de 2024, editado pela Relógio de Água com o título Do outro lado do sonho. Contrariamente ao que o título português deixa transparecer, o romance de Ursula K. Le Guin não é uma exploração das realidades oníricas, dos processos dos sonhos ou dos níveis inconscientes dos indivíduos, mas uma reflexão sobre a ética, as utopias e as consequências destas, um confronto entre o homem médio, conservador, e o génio focado na melhoria do mundo. O sonho entra na história como um dispositivo que permite a criação de mundos alternativos, como fruto dos sonhos utópicos da humanidade. George Orr é levado a tratamento compulsivo por ter sido apanhado num consumo excessivo de drogas, abastecendo-se num dispensário estatal mesmo com cartões emprestados. Ora, Orr sofria de um problema que o conduziu à procura de substâncias que evitassem que sonhasse. Descobrira um estranho poder dos seus sonhos. Estes alteravam a realidade, adequando-a ao que sonhara, sem que ninguém, para além do sonhador, desse por isso.

As alterações da realidade estavam longe de ser apenas benevolentes. O fundo inconsciente produtor de sonhos não se deixava capturar. Não apenas os sonhos eram imprevisíveis, como eram imprevisíveis as suas consequências. Contudo, não era apenas isso que torturava Orr. Ele, o mais mediano dos homens, achava que não tinha direito a alterar a realidade. Perturbava-o que a sua faculdade de sonhar se arvorasse numa espécie de deus irrequieto e imponderado. As drogas que procura e toma visam suspender a capacidade de sonhar e a subsequente alteração do mundo. O que está em jogo, em George Orr, é um conflito ético sobre quais devem ser os limites do humano. Aquilo que pode ser percebido como um poder excepcional – e, ilusoriamente, caso fosse domesticado, uma dádiva – é percebido como um ultrapassar dos limites, um confiscar dos poderes de Deus – ou da natureza – para moldar a realidade aos seus próprios desejos. Mesmo que Orr não tenha a capacidade de planear os sonhos e prever os seus efeitos, sabe-se que, numa interpretação psicanalítica, os sonhos são a expressão de desejos e conflitos recalcados. O senso comum – George Orr é um representante desse senso comum – é avesso a qualquer experimentação social, a qualquer alteração radical da realidade, e é isso que os seus sonhos representam.

A preocupação de Orr com o seu poder de alterar a realidade é também uma preocupação com a estabilidade da linha do tempo. Os seus sonhos não apenas criavam futuros imprevisíveis, como alteravam o próprio passado. A liquefacção do tempo, onde a sua fluidez habitual, com a cadeia de causas e efeitos que, de algum modo, podem ser calculados ou, pelo menos, esboçadas as consequências, introduz um princípio de incerteza numa esfera da realidade que não é governada por esse princípio. Conforme os sonhos vão acontecendo e a realidade se vai alterando, incluindo a realidade do passado, as pessoas podem acumular memórias conflituantes, o que fará perigar um elemento central da psicologia humana, a identidade de cada um. A identidade de si depende, em grande medida, das suas memórias, do modo como elas foram consolidadas através de narrativas que harmonizam dissensões e resolvem, ou evitam, conflitos. A alteração que o sonho de Orr tinha o poder de induzir no passado, criando, a cada sonho, um novo passado, tinha efeitos colaterais terríveis na identidade dos seres humanos, que é um dos bens que o homem comum tem em maior conta. Ele é a sua identidade e é proprietário dessa identidade. É insuportável tudo o que crie fracturas na identidade e não haverá coisa que tenha mais poder de fracturar uma identidade do que a existência de memórias conflituais do passado, motivadas pela existência incompreensível de diversos passados.

O outro lado do romance de Ursula Le Guin – talvez, a questão central – tem o seu núcleo no Dr. William Haber, psiquiatra e director do Instituto Onirológico do Oregon. É a ele que cabe tratar Orr. Quando se apercebe do poder deste, quando compreende que é real e não uma mera ilusão, não resiste à tentação de melhorar o mundo, usando os sonhos do seu paciente. Giza um plano de domesticação da faculdade de sonhar de Orr, para que a possa orientar para os fins supostamente benévolos que o habitam. Ao contrário do homem comum, Haber é um representante puro do Iluminismo, da transformação do mundo através da ciência, neste caso da ciência dos sonhos, e da tecnologia dependente dessa ciência (ele criou um dispositivo, o aumentador, para ampliar os sonhos do paciente e os seus efeitos). Em Haber, Le Guin condensa a panóplia de visionários políticos e sociais que transportam em si sonhos e utopias de transformação da realidade social a partir da vontade de vanguardas revolucionárias, que pretendem acelerar o tempo, substituindo as reformas sociais paulatinas pelas drásticas alterações da realidade política e social.

O romance não representa um conflito entre o homem moderno, racionalista e crente na tecnologia, e o homem tradicional submetido aos encantamentos do mito e à tradição religiosa. O conflito, apesar do romance ser de 1971, é aquele que hoje se tornou muito claro nas sociedades ocidentais, entre o homem comum e o homem com forte formação intelectual, que pensa poder dispor do mundo à sua vontade. De algum modo, o romance representa a vitória desse homem comum sobre o homem filho do Iluminismo, a vitória do senso comum sobre uma razão que se desvia desse sentido comum para servir desejos que, benévolos, na sua aparência, são a origem de mundos distópicos, onde o ser humano é destruído na sua própria natureza, ao ser destruída a sua identidade. Se nós olharmos as experiências totalitárias do século XX percebemos muito bem como, em cada uma delas e em nome de um outro mundo melhor, a identidade humana era sistematicamente destruída. Le Guin, no fundo, retoma a ideia leibniziana de que este é o melhor dos mundos possíveis. Todas as alternativas a este mundo são piores. Isto não significa que este mundo seja imóvel e não exista mudança, mas esta deve-se inscrever dentro dos limites do próprio mundo e não na utopia de um outro radicalmente diferente.

domingo, 11 de agosto de 2024

Knut Hamsun, À Porta do Reino (Ved Rigets Port)

 

Não traduzida em português Ved Rigets Port (À Porta do Reino) é a primeira peça de uma trilogia centrada na figura de Ivar Kareno, um jovem filósofo que pretende manter-se fiel à radicalidade do seu pensamento, influenciado por Nietzsche, e em confronto com a filosofia de origem britânica. As outras duas peças são Livets Spill (O Jogo da Vida) e Aftenmde (Crepúsculo). Existe uma edição francesa, da editora Actes du Sud, que reúne as três peças. Em À Porta do Reino, a tensão dramática gira em torno do tema da fidelidade. Esta é tratada em diversos níveis, desde a fidelidade matrimonial, o nível mais baixo e menos relevante na peça, a fidelidade entre amigos e a fidelidade a si mesmo, o tema central que fundamenta os outros níveis de fidelidade.

A fidelidade a si mesmo, contudo, é a fidelidade às suas ideias, à visão que se tem do mundo. Ivar Kareno, como acontece, não poucas vezes no mundo do pensamento, pretende representar uma ruptura com aquilo que está estabelecido. Vive centrado na produção e publicação de uma obra que, imagina, abrirá novos horizontes, obra que põe em causa o pensamento e a influência do professor Gylling, um reputado e respeitado filósofo e professor. Casado com Elina, Ivar Kareno, tem o casamento à beira da ruptura. Por um lado, a incapacidade de sustentar a família, pois a sua obra é recusada pelo editor, que não está disponível para publicar uma obra radical e um ataque a Gylling. Por outro, pela pouca atenção que dá à sua mulher, a qual se sente abandonada, pela excessiva preocupação de Ivar com a obra. A fidelidade a si é uma fidelidade, de natureza fundamentalista, às suas ideias radicais, que nem o perigar do casamento, nem a bancarrota do casal, o levam a pôr em causa, em amenizar a crueza do pensamento de uma juventude ainda imatura, como sugere o Gylling.

Essa intransigência com as ideias emerge numa outra situação. Carter Jerven, um amigo de Kareno e que com ele partilha uma nova visão do mundo, acabado de se doutorar, empresta-lhes dinheiro para este evitar a bancarrota de Ivar a penhora dos seus bens. Este acaba por aceitar. Contudo, ao descobrir que a tese de doutoramento do amigo trai os princípios em que ambos acreditavam, ao perceber que, de algum modo, Jerven cedeu para encontrar um caminho para a sua carreira, devolve o dinheiro. Esta devolução e as razões apresentadas têm um efeito inesperado na vida de Jerven. A noiva, perante a recusa de Kareno em aceitar o dinheiro, rompe a relação. Jerven tenta, em nome da amizade, que Kareno aceite a sua ajuda, pois isso salvaria a sua ligação Mademoiselle Hovind, a noiva. Contudo, Ivar Kareno mantém-se intransigente. As suas ideias valem mais do que a amizade, ainda por cima a amizade de um homem que traiu os seus ideais de juventude.

Também o casamento de Ivar e Elian entra em crise. A situação financeira e, fundamentalmente, a pouca atenção que Ivar dá à mulher abrem o caminho para que Endre Bondensen, um jornalista influente e sedutor, atraia Elina, já desesperada pelas suas tentativas infrutíferas para levar a que o marido permita uma solução para a degradada situação financeira em que vivem, para que ele aceite a ajuda dos pais dela ou para que siga os conselhos do professor Gylling, os quais levariam à publicação da obra de Kareno pelo editor. A intransigência do jovem filósofo é total, e mesmo a ameaça de infidelidade da mulher é inútil para o fazer mudar de atitude. O casamento pode desfazer-se, o importante, porém, é que o autor seja fiel a si, isto é, às suas ideias e à sua radicalidade.

A peça de Hamsun explora uma ambiguidade na ideia de fidelidade a si. Ivar Kareno é, na verdade, fiel a si mesmo ou fiel a uma visão do mundo, a um conjunto de ideias e a um projecto de as impor destruindo outras visões do mundo? Será essa fidelidade uma relação autêntica consigo mesmo ou não passará de uma intransigência motivada por um conjunto de ideias abstractas, fruto de um ego inflacionado? Não é claro, nesta primeira peça, o estatuto de Kareno. Será um herói ou um bufão imaturo e incapaz de compreender o mundo? As relações concretas de amizade e de amor são trocadas pela fidelidade a essas ideias. Os outros – no caso, a mulher Elina e o amigo Carter Jerven – têm, claramente, menos valor, aos olhos do candidato a filósofo, do que essas ideias, pelas quais está disposto a enfrentar a pobreza e o abandono. O caminho de Ivar Kareno está em aberto e isso será explorado nas outras duas peças da trilogia.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Quatro olhares sobre o mundo


1. Venezuela, o drama esperado. Uma ditadura, e o regime venezuelano é uma ditadura, não acaba com eleições. Durante muito tempo, as eleições não precisavam de ser fraudulentas para o chavismo se manter no poder, mas a partir do colapso económico e social do país, o poder só se mantém graças à repressão e à farsa eleitoral. A Venezuela é um exemplo do drama de toda a América Latina, que dança entre regimes despóticos de direita e utopias de esquerda que desembocam em regimes despóticos de esquerda. Parece não haver ali espaço para políticas reformistas que tornem, paulatinamente, decentes aquelas sociedades.

2. O desafio americano. A desistência de Joe Biden da corrida presidencial abriu uma janela de esperança para aqueles que na América e na Europa defendem a democracia liberal, o Estado de direito e a aliança militar entre os EUA e os europeus. Contudo, Kamala Harris enfrenta um enorme desafio, num país onde os preconceitos sexistas e racistas têm muito peso no momento de votar. Os EUA já elegeram um presidente negro, mas não elegeram uma mulher, apesar de branca. Será que passados 8 anos, haverá força para eleger uma mulher, ainda por cima de origem não anglo-saxónica? Parte substancial da segurança dos europeus está nas mãos dos eleitores americanos.

3. O caso inglês. Os trabalhistas enfrentam um teste político aparentemente inesperado. O assassinato de três crianças por um jovem de 17 anos, filho de pais ruandeses, tem desencadeado, um pouco por todo o país, desacatos promovidos pela extrema-direita, que se tem manifestado com particular violência contra a polícia. Contudo, o número de votos alcançado pelo partido de Nigel Farage deveria ser um alerta para o estado de espírito da sociedade inglesa. O crescimento da extrema-direita por toda a Europa é um sinal da incapacidade das sociedades lidarem com o outro – isto é, aquele que não partilha os traços étnicos e as perspectivas culturais – quando este outro tem uma dimensão tal que o torna visível.

4. A abertura dos Jogos Olímpicos. Terão os católicos razão para estarem descontentes com a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris? Mais do que se pode pensar. Não por causa do suposto macaquear da Última Ceia. O que está em causa é que toda a concepção da cerimónia se coloca numa visão moral e cultural contrária ao mundo moral do cristianismo. Não se tratou de uma cerimónia indiferente aos valores do cristianismo, mas de uma cerimónia que partiu de valores morais e de uma cultura que se manifesta como se o cristianismo nunca tivesse existido. Este é o problema que tocou profundamente a Igreja de Roma.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Cânticos lunares (v)

Adriano Sousa Lopes, Noite no Canal(Gulbenkian)

O que faz a sombra da Lua reclinada

sobre os olhos vagarosos do vento?

Uma esplanada de som e silêncio

nas entranhas da terra,

a rocha dos meses na janela do tempo.

A lua é um passageiro marítimo,

pórtico sobre o porão da noite.

 

Quando as plumas da ave se erguem,

um astro sem pressa eleva-se do mar,

água na secura do mundo.

Uma ordem nasce na geografia lunar,

turbilhão de ondas amarelas,

o medo esconjurado da manhã,

vísceras a flutuar no vinho da vida.

 

Nas mãos vazias há um reflexo lunar,

o centro insignificante do coração,

serpente rubra na noite esquecida,

o incêndio nos braços caídos.

Os homens deitam-se sob a luz da Lua.

Um sono outonal desprende-se dos céus,

do cipreste erguido na margem do rio.

 

Junho de 1993

[Conjunto de cinco poemas pertencentes à série Cânticos da Terra Amarela]

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Ensaio sobre a luz (121)

Marcelino Vespeira, Óleo 170, 1961 (Gulbenkian)

O lento emergir da luz, esse exercício de libertação da escórias vindas no fogo, das impurezas do centro da Terra, da poluição das águas inquinadas. Então, a luminosidade transborda no mundo para que tudo o que está oculto na escuridão das trevas se manifeste e o que é opaco se torne transparente.

sábado, 3 de agosto de 2024

Nocturnos 121

Ferdinand Fellner, Night, Open Field, c. 1830

Os cavalos da noite correm pelos campos abertos do Verão. Ao longe, ouve-se o relinchar dos animais e o vozear inquieto dos cavaleiros. Então, a cortina do horizonte rasga-se para que cavalos e cavaleiros por ela entrem, enquanto a aurora nasce trazendo no regaço o mistério luminoso da manhã.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Joe Biden e a esperança vã


No seu espaço de comentário na SIC, Luís Marques Mendes disse, no domingo em que foi conhecida a decisão do actual Presidente dos EUA em não se recandidatar, que Joe Biden sai pela porta pequena. Há neste comentário uma superficialidade que só não é de admirar porque, em geral, o comentariado político vive da espuma dos dias e da superfície dos acontecimentos. Imaginemos Joe Biden há vinte anos ou mesmo há dez. Se lhe pusessem a situação hipotética de ser Presidente dos EUA e encontrar-se, quando disputa a reeleição, com 81 anos e na situação patológica em que se encontra, e lhe perguntassem o que faria, o mais plausível seria que dissesse sem hesitação que se retiraria da corrida presidencial. Isto, porém, seria a reacção de alguém na plena posse dos seus recursos mentais.

O interessante na situação de Biden reside no caso da tentativa de levar até ao fim a recandidatura se inscrever já no plano da incapacidade de avaliar a própria situação, pois os recursos intelectuais e a base neuronal encontram-se, muito provavelmente, de tal maneira afectados que não conseguem realizar um processo de auto-análise com o mínimo de espírito crítico. No primeiro ensaio da tradução portuguesa de “Ensaios Sobre a Virtude & a Felicidade”, de Samuel Johnson, o autor escreve: “Túlio observou há muito que nenhum homem, por mais enfraquecido que esteja pelo tempo que já viveu, está ciente da sua própria decrepitude a ponto de supor que poderá não conservar o seu lugar no mundo por mais um ano”. Ao ensaio foi dado o nome de Esperança Vã. Parece haver na fragilidade dos homens não uma força para a ultrapassar, mas um poder de criar ilusões sobre o seu próprio estado.

Joe Biden estava já preso a essa ilusão e era através dela que via não apenas o seu futuro, como o mundo. Ele não sai pela porta pequena, mas sai pela porta da fragilidade, a qual não lhe permitiu perceber a real situação em que se encontra. O mais espantoso, porém, é que ainda foi possível fazer-lhe compreender que era o momento de renunciar à esperança vã que alimentava. Esta experiência é muito mais comum do que se pensa e todos estamos sujeitos a ela. Quando se trata de um assunto privado, como a resistência a aceitar que chegou o momento de ir para um lar, o drama é circunscrito. Quando, porém, se trata da direcção da maior potência mundial e que o destino do mundo democrático pode estar em jogo, o drama pode tornar-se em tragédia. E na tragédia, ao contrário do que pensa Marques Mendes, há grandeza na derrota do herói.

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Cânticos lunares (iv)

Edvard Munch, Claro de luna, 1895

Grassa a noite na flecha do silêncio.

A mão seca curva-se

ao trabalho nocturno do astro.

Preso ao centro da árvore,

um braço vegetal ergue-se

para a escassa poeira das ruas.

A Lua é uma flor plantada no deserto,

o cacto preso no firmamento,

luz evaporada no silvo da Terra.

 

Vai o satélite em seu caminho,

toca o azul no coração dos homens,

abre as horas inocentes da manhã

às asas febris do tempo.

Um insecto, urdido no fogo,

vem pela sombra lunar,

cera e seda no suplício da cidade.

Sob a copa do coração,

a Lua desenha paisagens de pavor.

 

Preso à leveza do archote,

o senhor da terra ergue o dia

no vitríolo da voz.

Lavra o vento no esquecimento lunar,

conta os olhos dos homens,

as pálpebras acariciando o fogo,

o suor enluarado da face.

Um comércio de luz vende luas

nas pétalas perdidas de uma rosa.

 

Maio de 1993

[Conjunto de cinco poemas pertencentes à série Cânticos da Terra Amarela]


segunda-feira, 29 de julho de 2024

Maria Isabel Barreno, Crónica do Tempo

 

Publicado em 1990, o romance Crónica do Tempo, de Maria Isabel Barreno, contém no título uma dupla referência à temporalidade, na palavra crónica e na palavra tempo. Como na crónica dos reis, também no romance de Maria Isabel Barreno existe uma narrativa cronológica onde a personagem principal é o próprio tempo, ou, melhor, o espírito do tempo, aquilo a que os alemães chamam Zeitgeist. Não se trata, todavia, de uma reflexão romanesca sobre a natureza do tempo, mas da observação dos seus efeitos sobre uma família desde os finais da República, início do Estado Novo e consolidação do poder de Oliveira Salazar até aos anos oitenta do século XX. Trata-se de uma crónica tanto da conformação que o tempo impõe aos indivíduos, moldando-lhes as possibilidades e os horizontes, delimitando-lhes, com rigor, as suas possibilidades de figuração, como do processo de destruição que esse mesmo tempo traz consigo, uma crónica de sucessivas derrocadas.

A obra inicia-se com a descrição de uma entrevista de Ângela, uma jornalista em reciclagem da sua persona profissional e pública, coisa corrente nos anos oitenta, a Jorge, um velho empresário retirado do mundo dos negócios, alguém que veio do nada e se tornou, no tempo da ditadura, um homem de influência, uma personagem nas classes médias altas de Lisboa. Ela estava a escrever sobre os homens de negócios que, antes do 25 de Abril, teriam poder. A desconfiança entre ambos (ao verem-se, ele sentiu malevolência; ela, repulsa), a incompreensão e os preconceitos que, perante o outro, nascem na mente de cada um são apenas o sintoma de uma distância geracional, a que o tempo cortou as pontes para que se pudessem compreender. A função diegética da entrevista é a de sublinhar, logo no início do romance, o conflito entre gerações moldadas por tempos diferenciados, o que introduz nas suas relações não apenas o fantasma da incompreensão ou a sombra de uma comunicação distorcida, mas um princípio irremissível de incomunicabilidade.

Jorge faz a sua fortuna em África, mas Isabel Barreno evita o estereótipo do capitalista explorador, do homem que se aproveitou da submissão dos povos africanos para triunfar na vida. Pelo contrário, Jorge é, desde o início, um opositor à visão de Salazar para as colónias, embora não partilhe a visão anticolonial que, a partir de certa altura, foi a da esquerda. Jorge é uma personagem consistente. Aliás, ele e a mulher, Manuela, são as duas personagens mais consistentes do romance, mais que os filhos e os netos, como se eles viessem de um tempo em que as pessoas tinham uma densidade existencial que as transformações sociais e políticas vieram rasurar. O casamento entre ambos, provenientes de meios sociais muito diferentes, ele do bairro popular da Graça, em Lisboa, filho de um porteiro do Ministério, ela dos meios monárquicos, embora pertencendo a uma família empobrecida pela incúria do pai, nunca funcionou, mas nunca se dissolveu. Aliás, é em torno da comemoração dos 50 anos desse casamento que gira parte substancial da narrativa. Esse fracasso emocional do amor foi compensado pelo compromisso com a instituição e construção de uma família. Isto surge como contraste aos casamentos dos filhos, daqueles que se casaram, que são muito mais frágeis e sujeitos ao espírito do mundo e do tempo.

A autora cruza a história pessoal e familiar com a história do país e deixa perceber as cicatrizes que as metamorfoses sociais e políticas deixam nas personagens. Essas cicatrizes manifestam-se na incomunicabilidade geracional. Jorge e o filho Diogo têm entre eles uma barreira que parece inultrapassável. Diogo não perdoa ao pai de o ter livrado, usando a influência pessoal e económica, da guerra colonial. Essa libertação é sentida como uma pesada herança que lhe limitou a liberdade de fazer escolhas e de correr riscos por sua própria conta. Diogo é o típico intelectual oposicionista, mergulhado nas crises académicas e, após o 25 de Abril, vivendo de uma rememoração do que foi e do que deveria ter sido no pós-revolução. Tanto na geração de Jorge e Manuela, como na dos filhos – embora sentida de modo diferente por Diogo, Carlota e Rosa –, existe uma consciência de que se possui uma responsabilidade perante o devir histórico. É essa consciência que vai desaparecer na geração dos netos. As novas gerações cultivam o pessimismo perante a história, e o seu horizonte existencial é o hedonismo simbolizado no culto da noite.

Crónica do Tempo é um romance marcadamente lisboeta. Lisboa é o cenário dessa história que cruza o indivíduo e a comunidade, a família e a sociedade. Isabel Barreno, em diversos passos, torna patente as transformações da capital portuguesa, transformações que acompanham as transformações políticas, mas também as metamorfoses da sociedade, a evolução das classes sociais e as mudanças no espectro cultural. É verdade que, no romance, também África aparece retratada, na relação de Jorge com esse universo onde fez fortuna. Contudo, na economia da obra, a cidade de Lisboa é o palco das tensões e dos confrontos familiares, dos conflitos e das mudanças sociais, das transformações existenciais. É numa rua de Lisboa que, perante o desabar de uma tempestade, Jorge e Manuela sentem, por uma única vez, que poderiam ser um casal efectivamente realizado, unido por laços que ultrapassariam o mero contrato do casamento, um casal ligado pelo amor. Tudo o que é decisivo no romance passa-se em Lisboa e diz respeito a Lisboa.

O tempo, porém, é a personagem principal do romance de Isabel Barreno. Por isso, a crónica não é sobre Jorge, mas sobre o tempo, como ele vai esculpindo as personagens e os seus conflitos, como traz a mudança e as rupturas à sociedade, aos desejos, às crenças e aos modos de vida. Cada nova geração parece ser mais filha do tempo do que da geração anterior. O romance traça um percurso não apenas no espaço lisboeta, mas em cerca de setenta anos de história do país e dos indivíduos. A autora capta essa complexidade de Cronos através de uma narrativa não linear, com o recurso à memória dos mais velhos, ao exercício da analepse, à reflexão sobre o sentido de uma vida ou dos acontecimentos sociais e políticos. O tempo trouxe os personagens e o tempo os levará, assim como traz e leva as configurações sociais, culturais e políticas, bem como os desejos, esperanças e ilusões de cada um. O tempo configura o espaço e desenha-lhe as metamorfoses. Ele é o senhor absoluto, que torna tudo em que toca relativo. O romance de Barreno ecoa, de um modo bem lisboeta, esse título magnífico de uma obra de Marguerite Yourcenar, O Tempo, Esse grande Escultor.

domingo, 28 de julho de 2024

Beatitudes (71) Transformações

Mário Eloy, Paisagem, 1930 (Gulbenkian)

A nostalgia das coisas simples e dos mundos tranquilos é um sinal de que no fundo da memória habita um desejo de felicidade e uma ânsia de beatitude, como se toda a vida feliz se inscrevesse em universos onde a complexidade do acontecer foi domada pela autenticidade do que é singelo, onde o cansaço com a inquinação da vida cede perante a candura arduamente conquistada.

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Comentários (21)

G. Écalle, La Petite Princesse, Clair-de-Lune, 1904

À noite sobre o campo desolado,
Ela delira em sonhos febris.
Georg Trakl 

A febre dos sonhos que povoam as noites daquelas jovens mulheres perdidas num século passado têm a temperatura da desolação dos campos, onde a vida se desvanece no grande lago do abandono. Quando os corações se agitam, os ventos do Sul trazem um ar seco e a vida cintilante, que uma Primavera sem consciência promete, torna-se num imenso deserto, onde não passam caravanas, nem é sulcado por cavaleiros andantes. Resta o fervilhar dos sonhos na rasura da noite, na solidão do quarto, no leito sempre imaculado.

terça-feira, 23 de julho de 2024

Ensaio sobre a luz (120)

Manuel Casimiro, La mer, 1979 (Gulbenkian)

Olhemos lentamente as águas do mar, deixemos o olhar deslizar pela inquietação sem fim, até que tudo se torne claro e possamos ver o jogo infinito entre água e luz. Num primeiro tempo, as águas revoltas prendem a luz que sobre elas caem. Depois, cansadas da luminosidade que as habita, vão libertando, para quem sabe ver, a luz agrilhoado no segredo das suas moléculas, no visco dos átomos, no mais fundo e imaterial que há em si.

domingo, 21 de julho de 2024

Cânticos lunares (iii)

Hippolyte Flandrin, View of Rome at Night, 1836

Germinava na noite uma mulher,

luz violeta caindo na pedra da pobreza,

a parca flor sedenta.

O tempo da lua é um oiro baço,

a miragem do metal erigida na estátua,

o mármore incompleto da voz.

 

Vibra a cinza do cetim na ogiva da tarde,

a dor resplandecente da maresia.

É o tempo dos senhores, a fundação do mundo,

o trabalho ensanguentado do grão na boca.

Assim vestido, Salomão colhia os lírios

e abria crateras na sombra da Lua.

 

Entre as pernas da mulher,

um orifício lunar, a taça sangrante de luz,

jorro de água na terra arável.

De dia, as mães colavam os lábios

ao vidro das janelas,

e do perfume das bocas nascia uma névoa,

a cortina da noite no globo do mundo.

 

A Lua é um jacto de água,

um sol cansado de olhar a terra.

Pelas suas mãos descem pálpebras,

colinas de feltro na paisagem.

No centro do planeta, no jardim de ferro,

pulsa a voraz a voz de quem escreve,

a substância do mundo insinuada no coração.


Maio de 1993

[Conjunto de cinco poemas pertencentes à série Cânticos da Terra Amarela]

sábado, 20 de julho de 2024

Tempos de turbulência

O atentado contra Donald Trump e a patente fragilidade física de Joe Biden torna o candidato republicano praticamente imbatível nas próximas eleições americanas. Parece ser demasiado tarde para os democratas porem no terreno outra candidatura. Isto poderá representar o fim de uma ordem mundial, na qual a aliança entre EUA e a Europa desempenha um importante papel. As vitórias dos trabalhistas, no Reino Unido, e a da Nova Frente Popular, em França, apesar de mitigarem a deriva a que se assiste, não conseguem apagar o fogo que lavra pela Europa. Recorde-se que a situação francesa é, após as eleições, caótica, pois não se vislumbra um caminho de governação estável, e que, em Inglaterra, a eleição do populista Nigel Farage não augura nada de bom.

Há outros dados inquietantes. O comportamento do governo húngaro ameaça constantemente os consensos europeus. Também, ao nível da NATO, a Turquia está longe de ser um parceiro com uma visão geopolítica completamente coincidente com a do mundo ocidental. A vitória, em Novembro, de Donald Trump pode ter efeitos muito desagradáveis para a União Europeia e o espaço ocidental. Por um lado, pode potenciar o crescimento das forças europeias de extrema-direita e os seus projectos soberanistas que, na prática, visam implodir a União tal como a conhecemos, assente na mitigação dos egoísmos nacionais e substituí-la por afirmações soberanistas, as quais, como se viu nos séculos XIX e XX, são, entre si, incompatíveis. Por outro, o fim da NATO deixará a Europa entregue a ela própria e este é um problema muito mais sério do que se supõe.

O fim da NATO, caso aconteça, não fragiliza as potências europeias (todas elas médias e pequenas) apenas perante a Rússia, mas também perante a Turquia, que, por certo, sonhará com a reconstituição do império Otomano e com a liderança do mundo muçulmano perante o mundo que, um dia, foi cristão. A questão que se coloca aos europeus, habituados a níveis elevados de bem-estar, mesmo em Portugal, é se estão dispostos a defender o seu modo de vida, a investir fortemente nas forças armadas, tanto nos recursos materiais como nos recursos humanos. Isso implicará uma clara derrota da extrema-direita e dos seus projectos de afirmação dos egoísmos nacionais e um reforço da União tanto ao nível político e económico, mas, acima de tudo, militar, criando meios de defesa credíveis e com capacidade de dissuasão de potenciais inimigos. A União Europeia provou que funciona bem num clima pacífico e sem ameaças. Falta provar se funciona em tempos de grande turbulência como aqueles que se avizinham.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Rankings de resultados escolares

Mark Wallinger, School - Classroom, 1990

No passado fim-de-semana, foram publicados por diversos órgãos de comunicação social os denominados rankings  das escolas, onde se comparam os desempenhos dos estabelecimentos de ensino, a partir dos resultados dos exames nacionais e da provas finais do 9.º ano. Ora, talvez em busca de diferenciação, cada órgão trata os dados recebidos do Ministério da Educação como lhe apetece e isso conduz a coisas bizarras como escolas que num ranking estão atrás de outras, surjam noutro ranking à frente. Se compararmos os rankings do Público e do Expresso descobrimos que operam a partir de critérios bem distintos. No ensino secundário,  o Público só toma em consideração as classificações das oito disciplinas com mais alunos inscritos, enquanto o Expresso considera todas as provas realizadas, o que é mais sensato. No ensino básico, onde só existem provas de Português e de Matemática, o Público organiza o ranking a partir das médias dos níveis (de 1 a 5, onde cada nível corresponde a determinada pontuação entre 0 e 100), enquanto o Expresso organiza-o pela pontuação obtida pelos alunos nas provas, o que também é mais ajustado à realidade. 

Num concelho pequeno, como o de Torres Novas, isto tem efeitos hilariantes. No ranking do Público, a Escola Artur Gonçalves surge à frente da Escola Maria Lamas tanto no ensino secundário como no básico. Contudo, no ranking do Expresso, a Escola Maria Lamas surge à frente da Escola Artur Gonçalves tanto no secundário como no básico. 

O Ministério de Educação recusa-se, por uma questão ideológica, a organizar os rankings com os resultados das avaliações externas e cede os dados para a comunicação social a organizar como entender. Seria mais sensato, todavia, que o Ministério da Educação organizasse ele próprio um ranking dos resultados, onde todas as provas feitas pelos alunos fossem consideradas. E poderia, com a informação que detém, organizar a informação tendo em conta os dados de contexto. Há quem defenda que não se podem comparar desempenhos entre escolas privadas e públicas, pois os seus alunos pertencem a realidades sociais muito distintas. Ora, é precisamente por causa da diferença de realidades sociais de partida que é importante comparar, de forma fiável, os resultados. Estes dão-nos a medida da desigualdade que a escola pública não está a conseguir combater.

sábado, 13 de julho de 2024

A persistência da memória (30)

L. Kleintjes, Veluwe Interior from artist Jan L. Kleintjes’s atelier in Heerde, 1903

A imagem impede o momento vivido de cair no grande dilúvio da ruína, raptando-o para uma ilha perdida num arquipélago mudo. Assim coagulada, a vida torna-se sombra a pairar no mundo. E essa sombra é tecida com os fios da memória, onde se encontram os gestos, os pensamento, as acções realizadas, as omissões. Enquanto a imagem persistir, esse instante de uma existência é eterno, tem a eternidade da imagem que o salvou do oceano do esquecimento.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Máximas (21)

Francesca Woodman, Rome, 1978
Abandonado na noite, o corpo esquece-se de si e repousa no silêncio cantante, onde o espírito se move sobre a ondulação inquieta do sonho.

terça-feira, 9 de julho de 2024

Simulacros e simulações (65)

Ana Hatherly, Sideral, 2002 (Gulbenkian)

Meditemos nos astros à deriva no universo. São letras desgarradas dentro da grande nuvem das línguas. Por vezes simulam constelações e tornam-se palavras. Outras pensam-se galáxias e são textos habitados por sistemas planetários e misteriosos buracos negros. 

domingo, 7 de julho de 2024

Cânticos lunares (ii)

David de Almeida, Lua, 1999 (Gulbenkian)

Ilumina a Terra a Lua Nova.

Os segredos presos ao depósito

das horas gastas

na rasura das ruas.

 

A voz dos gatos na noite,

telhados abertos à visitação,

à súplica feroz dos anos,

aos dias de júbilo.

 

Sob o candelabro lunar,

holocaustos, hecatombes,

o propiciatório desejo de luz,

fogo orgânico no peito.

 

Quando a noite se manifesta,

vem uma víscera delgada,

ponto de vista informe,

a mágoa sem nome do mundo.

 

A Lua, em paciente trabalho,

inunda a cabeça, debrua

a língua pelo som das sílabas,

ergue-se na sintaxe do rancor.

 

As crianças aprendem

o valor fátuo da noite,

a escuridão viva do medo,

o húmus no carvão dos campos.

 

O silêncio ecoa ferido

pela queda da parra,

pelo crepitar da macieira,

os dedos embutidos na garganta.

 

Em toda a Terra é noite.

Uma escuridão de cães a latir,

a faca presa na mão,

a cega luz na cegueira da Lua.


Abril de 1993 

[Conjunto de cinco poemas pertencentes à série Cânticos da Terra Amarela]

sexta-feira, 5 de julho de 2024

A revolta do Estado-Nação

No último quartel do século XX foi-se formando a convicção de que o Estado-Nação estaria em declínio irrevogável. A ideia de Estado-Nação teve o seu momento fundador no Tratado de Westfália (1648). A soberania nacional tornou-se o princípio organizador do sistema internacional. O Estado-Nação foi consolidado pelas Revoluções americana e francesa, bem como pelo impacto do Iluminismo. Três ideias centrais estavam ligadas ao Estado-Nação, a de soberania popular, a de cidadania e a de identidade nacional. Ora, o aprofundamento da integração europeia intensificou a retórica do fim do Estado-Nação e, de forma sub-reptícia, acentuou uma orientação federalista, que se realizaria através de pequenos passos. Não querer ver na evolução da União Europeia uma das causas, talvez a fundamental, do crescimento e afirmação da extrema-direita é enfiar a cabeça na areia.

Houve duas coisas que os europeístas não perceberam. A primeira diz respeito ao peso da soberania popular, da cidadania e da identidade nacional na consciência colectiva das velhas comunidades políticas. Foi o Estado-Nação que as trouxe e isso representou um mecanismo de reconhecimento do homem comum, que passou a ter uma voz e uma identidade política clara. Ora, o aprofundamento da União Europeia foi sentido, em muitas camadas da população europeia, como uma operação de destruição das soberanias e identidades nacionais e da própria voz dos cidadãos.  A segunda questão está ligada à natureza da extrema-direita, a qual foi percepcionada como a continuação da visão reaccionária daqueles que se opuseram aos valores do Estado-Nação, da Revolução francesa e do Iluminismo, por vezes um misto entre nostálgicos do absolutismo monárquico e das ideias totalitárias do século XX.

O que aconteceu foi que parte dessa extrema-direita tomou como seus os valores da soberania e da identidade nacionais, bem como da cidadania nacional. Enquanto os europeístas trocavam esses valores por valores abstractos, sem história nem relação afectiva com as pessoas, como o da soberania, identidade e cidadania europeias, a extrema-direita fez seus esses velhos valores que, um dia, combateu. Depois, teve ao seu lado a evolução do estado do mundo. A globalização, a crise do subprime e das dívidas soberanas, o problema da imigração e a imposição de uma ordem neoliberal foram adjuvantes que confirmaram, aos olhos de parte significativa dos cidadãos, que os velhos valores que lhes tinham dado voz estavam sob ataque. O resultado é o que se está a ver. Em França, a extrema-direita está às portas do poder. O Estado-Nação revoltou-se.