![]() |
| Piet Mondrian, Landschap bij nacht, 1907-1908 |
Um brado surdo,
a voz debruada
pela sede,
elixir de penumbra,
um sulco
no rio da infâmia.
Sobre aqueles dias,
fogos-fátuos
atearam incêndios,
turvaram o terror,
a terra seca
a escorrer das mãos.
[1993]
![]() |
| A. R. Gurrey Jr., Old ocean singing a psalm of of delight…, 1910-1920 |
![]() |
| Paul Cézanne, Château Noir, 1903-1904 |
Este democratismo das redes sociais, ao dar força a
movimentos como os acima referidos, veio revelar o carácter aristocrático do
conhecimento científico. Este é produzido e compreendido por uma elite, um
clube seleccionado que, para entrar nele, exige longos anos de preparação e um
conjunto não pequeno de provas ao longo do caminho. Isto significa que a maior
parte de nós – quase todos – não está habilitado para trabalhar em ciência, e
mesmo aqueles que estão, estão apenas num ramo muito específico. O que acontecia,
antes das redes sociais invadirem o panorama da intercomunicação humana, era
que havia um respeito tácito, veiculado pela comunicação social e pelos valores
da sociedade, pelos esforços desses homens e mulheres que dedicavam uma vida ao
conhecimento. Presumia-se – e com razão – que sendo especialistas, tinham uma
autoridade real para falar sobre a sua área, fossem vacinas, cancro de pele, ou
física nuclear.
O que se assiste é uma revolta da plebe – ou dos sans-culottes,
caso se prefira a França da Revolução ao Império Romano – contra o patriciado
ou a aristocracia do conhecimento científico. A revolta tem uma característica
específica. Não apenas pretende ter voz sobre assuntos de natureza científica,
como quer ter o poder da autoridade: as suas crenças, sem qualquer validação,
são a verdade e a ciência, com o seu laborioso e controlado processo de
produção de conhecimento, não passa de uma mistificação. Estamos a assistir a
um teste terrível dos efeitos da liberdade de expressão. Até que ponto a
ciência e o conhecimento racional podem sobreviver a estes ataques irracionais?
Não é apenas ao nível político, com a erosão das democracias, que as redes
sociais geram problemas. Também são um factor de turbulência para a ciência e
para os benefícios que os seres humanos podem tirar dela. Já não é impossível
pensar que uma nova Idade das Trevas esteja no horizonte.
Dois sinais decisivos de que os equilíbrios provenientes do
processo de democratização estão no fim são as iniciativas legislativas do
governo sobre a imigração e o código do trabalho. São leis estruturais e a
esquerda nada pode fazer para as alterar. A primeira chocou com o Tribunal
Constitucional e à segunda pode acontecer o mesmo. Um cenário plausível é o de
a grande coligação parlamentar de direita – PSD/CDS + IL + Chega –, através da
contínua proposição de leis que chocam com a Constituição, encontrar uma desculpa
que lhes permita fazer aquilo que, na verdade, todos os seus chefes desejam:
alterar a actual Constituição, de modo a deixá-la irreconhecível, aniquilando
os traços sociais específicos que a transição à democracia em 74 lhe deu.
Os grandes interesses que, de modo mais silencioso ou mais
ruidoso, como o caso de O Observador, estão por detrás do Chega, da IL,
do PSD de Montenegro (o mesmo de Passos Coelho) e do minguado CDS, não
perdoarão à direita política que esta não aproveite a situação actual para refazer
a Constituição. E é evidente que quem manda não é Montenegro ou Ventura. Eles
são apenas representantes. Portanto, será um milagre que a Constituição se
mantenha tal como está. Não se espere que a sua defesa venha do PSD. Não estamos
em 1975, nem os dirigentes actuais têm alguma coisa que ver com os dirigentes
do PPD (era assim que o PSD se chamava) daqueles tempos. Se se pode ter alguma
pequena esperança de que a revisão não seja um retrocesso cívico monstruoso,
essa esperança reside na União Europeia. É ela que paga as contas, e há um
decoro mínimo que a nossa direita tem de ostentar, para que o dinheiro continue
a vir. O país político mudou e mudou radicalmente.
O caso é interessante não tanto pela descoberta de que a
relação entre moral e negócios é ténue, mas porque coloca em jogo o problema da
relação entre capitalismo e democracia liberal. Pretendeu-se que havia um laço
forte entre desenvolvimento do capitalismo e democracias liberais. Ora, existem
demasiadas provas empíricas que contrariam essa crença. O Chile de Pinochet é
um desses exemplos. Outro é a China comunista pós-Mao Tsé-Tung. Podia
multiplicar os exemplos. O que é importante, porém, é perceber que não existe
qualquer relação necessária entre desenvolvimento capitalista e democracia
liberal. Apenas duas liberdades parecem necessárias para a economia
capitalista: a da propriedade privada e a de concorrência, embora esta possa
ser dispensada.
A relação entre capitalismo e democracia parece ser apenas
conjuntural: o resultado, em primeiro lugar, da luta da burguesia contra a
aristocracia e o privilégio político desta; em segundo, da luta contra a ameaça
do comunismo, enquanto inimigo da propriedade privada. Derrotados aristocratas
e comunistas, o capitalismo, para o seu desenvolvimento, pode dispensar regimes
democráticos, o que está a fazer diante dos nossos olhos. A América de Donald
Trump é um caso exemplar, onde a corrosão das instituições democráticas e
liberais está a ser fomentada e financiada por grandes interesses capitalistas.
Contudo, há um outro fenómeno inquietante que ainda não é visível, mas que se
está a desenhar: a destruição, para além das democracias, da liberdade da
concorrência. Grandes interesses económicos gravitam o Estado em busca de
protecção e de destruição dos concorrentes. Talvez a destruição em curso não
seja apenas a das instituições democráticas, mas também da própria economia de
mercado.
Em 1923, Joseph Roth, referindo-se ao protagonista do seu
primeiro romance, escreveu: “Era o jovem europeu: nacionalista e egoísta, sem
fé, sem lealdade, sedento de sangue e limitado. Era a jovem Europa.” Este jovem
europeu era protofascista e, com o andar dos anos, tornou-se fascista. O
resultado é conhecido: o fascismo italiano, o nazismo alemão, diversas cópias,
mais ou menos fiéis, em países europeus, e, acima de tudo, a segunda guerra
mundial e o genocídio judaico. Os jovens europeus, no pós-guerra, foram-se
tornando outras coisas. Derivaram para a esquerda, tornaram-se antifascistas. Um
pouco mais tarde, foram campeões do liberalismo: primeiro, de costumes; depois,
de mercado. A certa altura do percurso, a juventude europeia, como outras,
mergulhou na internet e nas redes sociais, uma vida sedentária, sombria, vivida
no quarto.
Agora, começa a descobrir-se que os jovens europeus estão
cansados da vida sedentária. Enquanto a velha Europa definha numa crise
demográfica de grandes proporções, aquela jovem Europa – na designação irónica
do escritor austríaco – está de volta, com os mesmos jovens limitados,
nacionalistas, egoístas, sem fé nem lealdade, e, começa a perceber-se, sedentos
de sangue. Uma crise de masculinidade terá atingido parte dos rapazes e,
desconfiados da sua natureza, parecem ter uma necessidade de exibir, como uma condecoração,
a mais rasteira misoginia e um culto da violência, que começa a passar das
redes sociais para as ruas. A discussão sobre se as actuais extrema-direita e
direita populista são ou não fascistas é irrelevante. O importante é a pulsão
que conduz muitos jovens – principalmente, do sexo masculino. E esta pulsão é
violenta, nacionalista e, em potência, violenta.
A situação social e política em que vivemos é, do ponto de vista económico, social e político, muito diferente da que se vivia na Europa do fim da primeira guerra mundial. Contudo, há um ponto em comum: a proliferação do ressentimento. Foi o ressentimento de largas camadas da população que deu combustível ao fascismo e ao nazismo. Ora, apesar de as pessoas, mesmo as mais pobres, viverem muito melhor do que nessa altura, o ressentimento multiplica-se. Seja devido à presença de estrangeiros ou à comparação com as elites, a massa dos ressentidos, na qual a presença de jovens rapazes é significativa, cresce e está a tornar-se um problema para as democracias liberais. Nos anos vinte e trinta do século passado, os políticos democráticos foram impotentes para lidar com essa “jovem Europa”. Resta saber se, passado um século, aprenderam alguma coisa.
![]() |
| Juan José Aquerreta, Ácida Tristeza, 1991 |
![]() |
| August Sander, Village Schoolteacher, 1921 |
![]() |
| George Hoyningen-Huene, Divers, Paris, 1930 |
- O que está a ver?
- Nada.
- Ah. Está tão concentrado no horizonte.
- O horizonte fascina-me.
- Alguma razão específica para tanto fascínio.
- Sim. O simples facto de ser uma linha.
- A linha do horizonte.
- Claro, a linha do horizonte.
- E o que tem ela de tão fascinante?
- Não sei.
- Não sabe?
- Não. Não consigo ver mais do que a linha.
- E isso é fascinante?
- Nem por isso.
- Não percebo.
- Falta de treino. Talvez falta de imaginação.
- Tornei-me sua inimiga, para me acusar de não saber fantasiar?
- Não se trata de inimizade.
- Então?
- Apenas a constatação de que os seus limites morrem na linha do
horizonte.
- E os seus?
- Os meus vão bem para lá dela.
- E o que vê?
- A linha do horizonte.
- Pensava que via para além dela.
- Gostava de ver, mas a linha cega-me.
- Sim, eu já sabia que estava cego.
- Porquê?
- Porque nem a mim me vê.
Não se pense, todavia, que o interesse do romance reside nas
suas implicações políticas. Estas são um meio para atingir um fim: a análise do
papel do ressentimento na subjectividade moderna. A obra é uma exploração da
consciência de Theodor Lohse, um tenente desmobilizado do exército alemão, a
análise da tensão entre os desejos que acalenta e a realidade que é a sua. O
espaço que existe entre ambos é o solo onde o ressentimento vai crescer. A
limitação que o caracteriza não lhe permite confrontar-se consigo mesmo,
perceber quais são, no âmbito de uma moralidade saudável, as suas forças e as
suas possibilidades. É ela – a limitação – que o conduz a odiar os judeus, os
socialistas, os movimentos operários. São, para Theodor Lohse, os culpados da
sua situação. O outro não o interpela no sentido do respeito, mas é aquele que o
impede de ser aquilo que deseja ser. O ressentimento nasce, assim, para
utilizar uma expressão do campo da psicanálise, de uma ferida narcísica.
Esse narcisismo dilacerado, turbilhonado pelo ressentimento,
transforma-se num duplo egoísmo: o pessoal e o nacional. O protagonista
principal é um nacionalista, pois a sua ferida narcísica é também a de uma
Alemanha ressentida, derrotada na Grande Guerra de 1914-1918, submetida ao jugo
do Tratado de Versalhes pelas potências vitoriosas. O romance permite perceber
que o nacionalismo é um narcisismo colectivo. Imerso nesse ambiente, Lohse, na
ânsia de encontrar uma autonomia – isto é, poder e dinheiro –, põe em acção todas
as características que marcam o jovem europeu de então. Não apenas o egoísmo e
o nacionalismo, mas também a falta de fé, a ausência de lealdades e a sede de
sangue. Para subir, não hesita em assassinar os que estão acima de si na
hierarquia. O ressentimento é o combustível para as maiores degradações morais.
O título A Teia de Aranha (Das Spinnennetz) é
uma imagem tanto da situação em que a Alemanha vivia durante a República de
Weimar, como das pretensões do protagonista. A derrota alemã e o fim da
Monarquia tinham atirado o país para uma enorme teia de contradições, de
interesses, de agitações políticas, de frustrações sociais, onde elites
corruptas vicejavam e tentavam controlar, em seu favor, a situação. Também o
protagonista se imaginava a aranha que tece a sua teia, onde os incautos vão
caindo, enquanto ele se fortalece ao devorá-los. No entanto, a sua limitação
não lhe permite perceber que ele próprio é uma mosca em teias que outros tecem,
como o espião judeu Benjamin Lenz e a própria mulher Elsa von Schlieffen. Lenz
é um niilista e odeia tudo: a Europa, o Cristianismo, os judeus, os monarquias,
as repúblicas, a Filosofia, os partidos, os ideais, as nações. É superiormente
dotado e manipula tudo e todos. Espia para Lohse, espia para os comunistas,
espia para a polícia. O dinheiro que ganha com isso nem é para ele, envia-o
para a família. O seu prazer é, parecendo irrelevante, ser o manobrado central.
É ele que promove Theodor Lohse, que lhe apresenta as pessoas certas, que o faz
ter o nome nos jornais, que lhe apresenta a mulher, uma jovem aristocrata já
sem dinheiro, mas com ambições e saber manipulatório suficiente para, obedecendo
em aparência ao carácter autoritário do marido, o conduzir na ascensão social e
política.
Beneficiando, da sua experiência de jornalista de grande
talento, Joseph Roth retrata, com profundidade, a situação social da Alemanha.
Fá-lo, adoptando as orientações estéticas da nova objectividade que
tinha surgido em conflito com o expressionismo, como superação de uma visão
hiperbólica da dimensão sentimental. Theodor Lohse, Benjamin Lenz e Elsa von
Schlieffen são, ao mesmo tempo, personagens credíveis na sua singularidade e
arquétipos ideais. Theodor Lohse encarna o autoritário protofascista. Benjamin
Lenz, o judeu desenraizado. Elsa von Schlieffen, a aristocrata derrotada pelo
empobrecimento da família e o fim da Monarquia, mas ambiciosa por retornar ao
centro do poder. Se há, porém, um traço que os une é o niilismo. Este
alimenta-se de uma enorme gama de inclinações: o ressentimento, o narcisismo, a
ambição, o desejo de manipular, a vontade de poder. E é isso que Roth mostra,
não sem uma funda ironia narrativa, numa Berlim à deriva, num mundo onde ordem
e desordem se confundem.
Existem duas grandes motivações por detrás deste interesse
pela criminalidade. Uma estará ligada à lógica de mercado: o crime dá
audiências na televisão e tiragens na imprensa. É o mercado a funcionar. As
pessoas interessam-se por esses acontecimentos e o mercado satisfaz-lhes os
desejos. A segunda motivação é de natureza política. Assim como os dirigentes
do Estado Novo temiam que a criminalidade do país estragasse a imagem do
regime, também os inimigos da democracia liberal utilizam a percepção da
criminalidade como estratégia para desgastar as instituições democráticas. Fomentam
um enorme alarido social em torno da segurança, quando o país é um dos mais
seguros do mundo. Mesmo para um observador arguto, nem sempre é fácil
distinguir, na exploração dos crimes, entre a motivação económica e a política.
Durante muito tempo, foi vital para as democracias liberais
a existência de uma esfera informativa livre, onde a concorrência de ideias,
para alimentar o debate em torno do bem comum, se podia expressar sem censura.
Essa esfera tornou-se, agora, num dos elementos centrais da guerra contra a
democracia. A criação de falsas percepções no público tem um efeito arrasador
das instituições e está a alimentar o progresso eleitoral da extrema-direita.
Isto não significa que não existam órgãos da comunicação social que tentam
fazer um trabalho responsável. Existem. Contudo, a cultura instalada por parte
significativa dos media está a tornar os cidadãos pouco permeáveis à
verdade, preferindo as aparências à realidade. Salazar dizia que, em política,
o que parece é. Os seus admiradores não esqueceram a lição: criam a aparência
de um país à beira do caos, para as pessoas crerem que assim é e se entregarem
nas mãos do salvador de serviço.
![]() |
| Julius Strakosch, Fin du Jour, 1895 |
![]() |
| Pere Ysern Alié, Cisne en el Bois de Boulogne, 1921 |
![]() |
| Almada Negreiros, Porta da harmonia, 1957 |
![]() |
| Peter von Hess, Nächtliche Rast in einem Kirchdorf (Städel Museum, Frankfurt am Main) |
![]() |
| Wassily Kandinsky, Street in Murnau with Women, 1908 |
O que leva as pessoas, segundo o autor, a ser de direita ou
de esquerda são intuições morais. A moralidade terá, no mínimo, seis
fundamentos diferentes, que se organizam em pares de opostos: cuidado/dano,
justiça/engano, lealdade/traição, autoridade/subversão, santidade/degradação e
liberdade/opressão. São estes aspectos que, intuitivamente, as pessoas usam
para fazerem juízos morais e para codificarem a sua posição política. As
pessoas de esquerda baseiam a sua moralidade, fundamentalmente, nas ideias de Cuidado
e de Justiça. As pessoas de direita apresentam um espectro moral mais alargado,
onde a Lealdade, a Autoridade e a Santidade (certas coisas são consideradas
sagradas e intocáveis) têm um papel preponderante. Pessoas de esquerda e de
direita valorizam a Justiça e a Liberdade, mas interpretam-nas de modo
diferente. As pessoas discordam politicamente porque preferem inconscientemente
sabores morais diferentes.
As ideias de Haidt são úteis para pensar como devem agir as
lideranças políticas. Uma possibilidade é concentrarem-se apenas nos
fundamentos morais da sua tribo política: a esquerda valoriza o cuidado e a
justiça igualitária; a direita, a lealdade ao grupo, a autoridade e a
sacralidade de certas instituições. Este caminho conduz à polarização, a
guerras culturais – que são, afinal, conflitos morais. Líderes responsáveis, de
ambos os lados, devem procurar estabelecer pontes com quem tem gostos morais
diferentes. Ser político é mais do que ser de esquerda ou de direita. É, sem
negar a sua preferência de sabores morais, procurar laços com os outros, porque
a política visa o bem comum. A democracia não é a vitória total de um lado e a
derrota do outro, mas a alternância de sabores e o respeito por quem tem gostos
diferentes. Ora sabe mais a sal, ora mais a pimenta. O essencial é a qualidade
do alimento: a governação de uma comunidade que se pretende unida na
diversidade.
Qualquer cidadão – incluindo os militares, desde que não
estejam no activo – tem o pleno direito de se candidatar. Gouveia e Melo, o
almirante candidato, e Isidro Morais Pereira, o major-general putativo
candidato, estão no pleno direito, enquanto cidadãos, de serem candidatos à
Presidência da República. O problema é que não se conhece, em nenhum deles,
qualquer competência política. Têm uma completa virgindade política, uma
inocência completa perante os dilemas que a gestão política coloca a quem ocupa
a Presidência. São conhecidos do público: um, o almirante, pela boa gestão da
distribuição e aplicação dos stocks de vacinas; o outro, pelo comentário
militar na televisão. Podem ter currículos militares brilhantes, podem ser bons
gestores de armazéns ou analistas militares, mas nada disso nos diz seja o que
for sobre como vão lidar com um mundo em que o Presidente da República tem
menos poderes que um almirante ou um general no seu ramo das Forças Armadas.
Se a candidatura de um ou dois militares, sem preparação
política, é já um sintoma forte da doença da democracia portuguesa, aquilo que
torna apetecíveis as suas candidaturas é decisivo para um diagnóstico dessa
doença. A sua real vantagem eleitoral é não serem políticos, nada saberem
daquilo a que se candidatam. Parte dos portugueses tem um problema com os
políticos. As pessoas pensam que não vivem tão bem quanto desejam por culpa dos
políticos. Os fracassos sociais e existenciais de cada um não são sua culpa,
mas dos políticos, transformados em bodes expiatórios. A solução é escolher não
políticos para os cargos que exigem políticos preparados. Isto é uma doença
porquê? Por dois motivos: em primeiro lugar, porque as pessoas continuam a
acreditar que têm de ser os outros – os políticos – a tratar da sua vida; em
segundo, porque essa crença leva a escolhas pouco razoáveis de pessoas sem
qualquer preparação para cargos altamente exigentes.
![]() |
| Constant Puyo, Au Jardin, 1902 |
![]() |
| Georgia O'keeffe, Black and Purple Petunias, 1925 |
![]() |
| Theodor and Oskar Hofmeister, Apfelernte, 1898 |
![]() |
| Ana Marchand, sem título, 2000 (Gulbenkian) |
Morre pássaro insolente,
ave esquiva de asas tecidas
pela mão que escreve.
Morre, morre, aí mesmo
onde a noiva perdida
abriu o segredo sobre o altar.
Morre em teu voo nupcial,
ao som das folhas do plátano,
perdido no ouro do Outono.
[1993]
![]() |
| Fernando Lemos, Jardim, 1949 (Gulbenkian) |
O avatar é usado para manter o anonimato e esconder o rosto
da pessoas por uma imagem simbólica. O rosto, segundo o ensinamento do filósofo
Emmanuel Lévinas, não é apenas um conjunto de traços físicos, a composição de
uma figura determinada pela lotaria genética e a interacção com o meio. O rosto
do outro é manifestação de uma diferença
absoluta em relação a mim. É uma presença que me interpela e questiona. Mas
também é a revelação de uma vulnerabilidade. Contudo, é essa vulnerabilidade
que traz com ela um apelo dramático: não matarás! Quando se esconde o rosto
através de um avatar, esconde-se a vulnerabilidade, mas também a injunção: não
matarás! A qual está nos alicerces da nossa sociabilidade.
Se o Iluminismo nos trouxe alguma coisa de fundamental, foi
não apenas o reconhecimento de que somos seres racionais, mas que isso tem
consequências no campo moral e político. Seres racionais pensam por si próprios
– mesmo quando se colocam no lugar do outro. Esse pensar por si é a marca da
autonomia e da dignidade humana. O par influencers – seguidores é a
subversão da ideia iluminista da autonomia da pessoa. O seguidor submete a sua
opinião à opinião do influencer, aliena a sua autonomia de pensamento e
com ela a dignidade que deve ser a essência de um ser dotado de razão.
Nada disto é inócuo. Nem a praga dos avatares, nem
epidemia de influencers com os seus rebanhos de seguidores.
Exploram a fragilidade humana, desarticulam o respeito pelas instituições da
vida comum, abrem brechas na sociabilidade que permite vivermos uns com os
outros. Os regimes democrático-liberais fundam-se no respeito que o rosto do
outro me exige e na concepção de que temos uma dignidade porque somos seres que
conseguem pensar por si mesmos. São estes pilares que estão a ser,
visivelmente, corroídos. Uma situação para a qual, as democracias parecem não saber
como lidar com ela.
![]() |
| Ilse Bing, Cancan Dancers, Moulin Rouge, 1931 |