| Manuel Filipe, Guerra, 1945 (Gulbenkian) |
quinta-feira, 9 de janeiro de 2025
O caos anunciado
terça-feira, 7 de janeiro de 2025
Meditações melancólicas (94) Afinal, nem parece um rei
| René Magritte, El Mutilado, 1947 |
domingo, 5 de janeiro de 2025
Cadernos do esquecimento 55 Imagens
| Abel Manta, sem título, 1932 (Gulbenkian) |
sexta-feira, 3 de janeiro de 2025
Beatitudes (76) Das coisas raras
| Alfred Stieglitz, Lago di Misurina, The Tyrol, 1891 |
A quietude das montanhas, as águas paradas do lago, o silêncio que sombreia a floresta. Caminha-se pela senda rasgada na terra e espera-se encontrar a cabana que acolherá a solidão do viandante. Ali, pensa-se, a felicidade será possível, mesmo que a noite seja visitada por terríveis tempestades e a presença humana se rarefaça. Só o que é raro tem valor, mesmo se o perigo aí se oculta.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2025
Invocação ao Sol (4)
| Edward Hopper, Morning Sun, 1952 |
Sol
de Verão rasgado pela corola,
a
lógica animal trazida
pelos
dias de Agosto,
o
símbolo da abundância
semeado
na ânfora da noite.
Árvores
espraiam a seiva da sombra
sobre
um campo de luz,
sobre
oceanos de surda solidão,
a
folhagem agreste a rasgar o corpo.
Quando
o Verão vem,
as
dunas deslizam pelas praias.
Mares
de areia à solta
em
paisagens de rochas e limos,
a
lâmina curva a cintilar
no
verde-azul a cerzir o horizonte.
Vigora
uma ordem perfeita,
rasgão
no pano-cru da atmosfera.
Da
boca solar caem dias de lume,
lâmpadas
de fogo na senda subterrânea,
no
trabalho do espírito abrindo a carne
ao
grito trémulo da língua.
Sobre
o comboio dos dias
arde
o bulício do astro,
o
mosto entre as pernas das mulheres,
o
sacrifício solar
no
mármore opaco da escuridão.
(1993)
[Conjunto de cinco poemas pertencentes à série Cânticos da Terra Amarela]
terça-feira, 31 de dezembro de 2024
Michel de Montaigne, Deixe-se para amanhã
Podemos imaginar, com a ajuda de Kant, a razão como uma ilha rodeada por um mar encapelado onde são outras as regras que imperam. Regras sem regra, pode-se acrescentar. Esse mundo líquido é regido por uma deusa, a que os antigos deram o nome de Fortuna. Montaigne termina o ensaio Deixe-se para amanhã com um discreto louvor à divindade: “Mas, no fim de contas, é difícil no domínio das acções humanas estabelecer por meio da razão uma regra tão justa que exclua a Fortuna dos seus direitos sobre a matéria.”
O ensaio, contudo, não trata tanto desses direitos que a sorte dispõe sobre as nossas acções, mas do equilíbrio que deve existir entre a curiosidade excessiva e a procrastinação sem limites. A sua proposta veicula o meio-termo aristotélico. A curiosidade em excesso conduz à desmedida da impaciência; a preguiça extrema, ao desleixo de assuntos importantes.
A reflexão é desencadeada por uma meditação sobre as regras de etiqueta. Parte do exemplo, referido por Plutarco, de Rústico que, estando a escutar uma conferência do mesmo Plutarco, recebeu uma missiva do imperador, mas que não a abriu enquanto decorria a palestra. Montaigne sublinha que é de louvar a civilidade e a cortesia de Rústico. No entanto, contrapôs a essas virtudes uma eventual falta de sabedoria. Não poderia o adiamento da leitura da missiva imperial causar grandes danos?
O que Montaigne sublinha é um conflito na razão prática entre as regras de etiqueta e os imperativos políticos. Contudo, não esboça uma hierarquia entre eles. Perante a recepção de missivas, o que determina a sua imediata abertura ou o adiamento é a razão pelo qual se faz a opção. É aceitável que por um interesse de terceiros se adie a leitura da missiva, tal como o fez Rústico, mas já não o será se for por interesse próprio, como o são os casos do senhor Boutières, comandante de Turim, e de Árquias, tirano de Tebas.
Ora, Montaigne tem necessidade de fazer intervir a Fortuna porque acaba por não estabelecer uma clara e imperativa hierarquia entre os deveres políticos, regras de etiqueta e, mesmo, os prazeres pessoais, pois a primazia destes, antes criticada, acaba por ser absolvida pela introdução da Fortuna. É uma questão de sorte. Ora, se essa hierarquia fosse clara, seria possível estabelecer por meio da razão uma regra tão justa que excluísse a Fortuna dos seus direitos sobre uma parte, ainda que pequena, das acções humanas.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2024
Rosalino como símbolo
sábado, 28 de dezembro de 2024
Ensaio sobre a luz (125)
terça-feira, 24 de dezembro de 2024
Nocturnos 125
| Frits Thaulow, Noite |
domingo, 22 de dezembro de 2024
Invocação ao Sol (3)
sexta-feira, 20 de dezembro de 2024
Um grande acontecimento
Quais os valores centrais do Iluminismo? Em primeiro lugar, a ideia de que a razão humana é o motor do progresso. Só ela permite compreender o mundo e transformá-lo. Em segundo lugar, a ciência e a técnica, frutos dessa razão, como motores das transformações sociais que permitem aos homens viver uma vida cada vez melhor. Em terceiro lugar, a ideia de que a sociedade e as instituições políticas podem ser reformadas e melhoradas, tornando-se cada vez mais democráticas. A eleição do futuro presidente dos EUA assentou, em parte, em grupos que negam a ideia de progresso e não aceitam a razão como guia da acção humana. Também a ciência é questionada por muitos apoiantes de Trump, simbolizados, por exemplo, pelo futuro Secretário para a Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy, um céptico em relação às vacinas. Por fim, o ideal de contínua democratização da sociedade sofreu uma derrota significativa, com a eleição de um presidente pouco preocupado com os direitos das mulheres e das minorias.
Este ataque aos
ideais iluministas é o acontecimento simbólico do ano. Mostra que uma parte
importante da humanidade – aquela que tinha adoptado esses ideais como a sua
bússola existencial – os está a rejeitar, trocando a razão pela fantasia e o
mito, a ciência pela opinião sem fundamento e a reforma democratizante da
sociedade e das instituições pelo desejo de instituições mais opacas, fundadas
na discriminação e sem pendor democrático. Estamos a assistir a um poderoso
desafio aos grandes ideais que nortearam o mundo ocidental após as revoluções
americana e francesa. Esse desafio não começou com Trump e não existe apenas
nos EUA, como se pode ver na ascensão dos populismos europeus. É, contudo, um
grande acontecimento, independentemente das suas consequências. Nos próximos
anos, os valores iluministas vão estar sob grande pressão. Resta saber se têm
poder de atracção suficiente para mobilizar os cidadãos em sua defesa.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2024
Espíritos de Natal
Crentes e descrentes, ou nem uma coisa nem outra, quase todos, no Ocidente, dão importância ao Natal, muitas vezes sob a capa de festa de família, momento de reunião daqueles que os afazeres da vida ou as disposições do ânimo mantêm afastados durante o ano. A democratização do espírito mercantil da época tem um efeito de ocultação de algumas ideias fundamentais que subjazem ao Natal. A mercantilização da quadra é o dispositivo pelo qual o espírito mundano esconde o que parece ser o essencial do período natalício – um essencial que se dirige a todos os homens, mas que estes têm dificuldade em acomodar.
Antes de tudo, surge a decepção das expectativas humanas. No nosso quadro mental, um Salvador aparece como uma figura de poder e de riqueza. Contudo, aquilo que o Cristianismo sublinha é o contrário: a figura central apresenta-se despida de todos os poderes e de todas as riquezas deste mundo. Ora, se Ele é a figura arquetípica dos cristãos – melhor, de toda a humanidade –, então estes devem conformar-se com esta renúncia àquilo que, em geral, mais estimam e pelo qual estão dispostos às maiores atrocidades. É uma decepção que o actual espírito natalício faz por esquecer.
Concomitante a esta decepção está o quadro ético proposto pelo nascimento simples e humilde do redentor da humanidade. Gostamos de cultivar a complexidade, que imaginamos ser símbolo da nossa riqueza material ou espiritual, e a afirmação de nós próprios, uma forma benévola de descrever a nossa arrogância. O espírito natalício, se fiel ao acontecimento do presépio de Belém, é também uma ferida narcísica aberta na imagem que cultivamos de nós mesmos.
Uma característica da mensagem presente no nascimento de Cristo parece alinhar-se com os nossos desejos: a esperança. Contudo, também aqui nos confrontamos com um motivo de desencanto, pelo esforço e pela coragem que exige. O Natal significa, na economia da religião cristã, esperança, mas o objecto dessa esperança, ao contrariar as nossas inclinações naturais e ao exigir de nós a capacidade de sacrifício, tende a conduzir-nos ao desespero ou, mais frequentemente, à indiferença.
As exigências colocadas pelo Cristianismo e os imperativos que, subliminarmente, o espírito de Belém traz consigo são de tal modo incomensuráveis à natureza humana que homens e mulheres sentem, ao mesmo tempo, atracção e repulsa. A atracção reside no facto de não terem apagado o acontecimento da memória e de o continuarem a comemorar. A repulsa manifesta-se na forma como o fazem: numa inversão radical do espírito que se revelou no presépio de Belém. Somos humanos, demasiado humanos. Um bom Natal.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2024
Comentários (25)
| Rembrandt, Léon descansando, 1650-52 |
sábado, 14 de dezembro de 2024
O PCP e os novos tempos
Jerónimo de Sousa, ex-secretário-geral do Partido Comunista Português, manifestou o desejo de deixar o comité central do Partido, para, como afirma o próprio, dar lugar a membros mais jovens. Segundo o Público, a média etária do futuro comité central será de 48 anos. O problema do Partido Comunista Português não é, como se pode ver, o da falta de juventude do seu comité central, nem, talvez, dos seus militantes. O problema é, antes de tudo, o seu eleitorado, que está ao mesmo tempo em regressão e em envelhecimento. Contudo, o pior é a idade da visão ideológica do partido.
O Partido Comunista Português conseguiu resistir às desilusões trazidos pelas intervenções soviéticas na Hungria, em 1956, e na Checoslováquia, em 1968. O 25 de Abril deu-lhe um ânimo suplementar. Contudo, a Queda do Muro de Berlim e o desmoronamento do chamado socialismo real nos países do antigo bloco de leste, incluindo a União Soviética, liquidou a capacidade de atracção dos eleitores que ainda restava ao PCP. A degradação do poder de mobilização social e eleitoral foi crescendo e é possível que tenha recebido um golpe fatal com a posição perante a invasão russa da Ucrânia.
A isto junta-se o espírito do tempo. O que atrai, nos dias de hoje, os jovens está muito longe daquilo que propõem os comunistas. Por um lado, temos uma atracção centrada numa visão liberal do mundo, no sucesso individual, na afirmação do mérito. Por outro, as perspectivas comunitaristas mais mobilizadoras para a juventude, nos dias de hoje, vêm da direita-radical e da extrema-direita. A afirmação de identidades nacionais, a afirmação da diferença em relação ao outro e, até, a afirmação da masculinidade, num contexto onde muitos jovens do sexo masculino fantasiam que os valores da virilidade estão em decadência e se tornam motivo de militância. Poucos são os jovens - e os menos jovens - que se interessam pela luta de classes, pelo espírito de classe, pela união dos trabalhadores contra o capital. Para eles, esta visão ideológica do mundo não faz sentido, a não ser como prova de um fracasso pessoal. E isto é um problema para os partidos comunistas que ainda existem na Europa, onde se inclui o português.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2024
Os resultados portugueses nos estudos internacionais sobre educação
| Mark Wallinger, School Classroom, 1990 (Gulbenkian) |
terça-feira, 10 de dezembro de 2024
Invocação ao Sol (2)
| Elmer Bischoff, #88, 1985 |
As
pastagens dizimadas,
a
luz no ferro incandescente.
Nas
vinhas, cabras mansas,
a
mão no vigor do fogo solar.
No
ocaso, o sol era uma ferida
chamando
as trevas
e
na fronteira friável da terra
as
mulheres dançavam
na
transparência da carne.
Homens
vindos do meio-dia,
joelhos
na lama.
Na
boca, floresciam-lhes preces,
a
dádiva de uma luz suave
sob
o despotismo do Estio.
A
súplica íngreme,
dor
ao dobrar-se em genuflexão,
Os
tentáculos do astro embutidos
no
peito cravejado de nódoas.
O
tempo incendiava-se
nas
uvas de Setembro.
Névoa de luz na noite sem nome.
(1993)
[Conjunto de cinco poemas pertencentes à série Cânticos da Terra Amarela]
domingo, 8 de dezembro de 2024
Beatitudes (75) O caminho solitário
| Hans Winkelmann, Einsame Strasse, 1903 |
sexta-feira, 6 de dezembro de 2024
Um militar, outra vez?
A segunda observação prende-se com o actual regime político. A transição à democracia, em Abril de 1974, deve-se a parte das forças armadas, mas o regime só se tornou plenamente democrático quando os militares recolheram aos quartéis e o Conselho da Revolução foi extinto, pondo-se fim a uma tutela inaceitável sobre as instituições políticas. O primeiro Presidente eleito ainda foi um militar, mas a sua eleição está ligada aos acontecimentos da época e não deixou de ser problemática. Normalizada a vida em democracia, nunca mais um militar desempenhou um cargo de relevo na vida política. Uma eventual eleição de Gouveia e Melo – e, tendo em conta o país que somos, tem francas possibilidades de vencer – representará um retrocesso de quase 50 anos.
O que me
atormenta pode-se traduzir nas seguintes questões: Que pretende um homem de
acção, sem experiência política, ao aspirar a um cargo onde as questões
fundamentais estão fora do seu alcance? Que pretende um homem habituado a
comandar e a ser obedecido ao assumir um cargo onde o seu poder de imposição se
limita ao que a lei prescreve? Como não será de crer que o Almirante pense
fazer da Presidência da República o lugar para gozar a reforma de militar,
estas questões são cruciais. Corremos o risco de instalar em Belém um factor de
perturbação das instituições democráticas. É preciso recordar que o General
Ramalho Eanes, com um projecto de poder pessoal, foi, a partir de certa altura,
causa de grande perturbação político-institucional. De tal maneira que tanto
Mário Soares como Sá Carneiro e Freitas do Amaral retiraram-lhe o apoio. Ora se
Gouveia e Melo não tem um projecto de poder pessoal, por que razão se candidatará?
quarta-feira, 4 de dezembro de 2024
Simulacros e simulações (69)
| Fernando Calhau, sem título #630, 1980 (Gulbenkian) |
segunda-feira, 2 de dezembro de 2024
Admirável mundo novo
O poder de contaminação da primeira potência mundial é tal que todos devemos temer pelos regimes democráticos europeus. A equipa que vai chegar em 2025 à Casa Branca não é a mesma que Donald Trump levou em 2016 e ele também não é o mesmo. Ele e os que o rodeiam não vão apenas querer exportar mercadorias, mas também ideologia. Vão querer influenciar os países europeus e se possível livrarem-se das elites políticas democráticas. O que aconteceu nos EUA é um poderoso propulsor para a extrema-direita europeia, a qual governa já a Itália, a Hungria, integra o governo dos Países Baixos e, apesar de estar fora do governo, o FPO, partido austríaco de extrema-direita, foi, nas últimas eleições, o partido mais votado. Os principais partidos de extrema-direita em França e na Alemanha estão consolidados e poderão em breve tornar-se decisivos.
Qual é o
principal bem que uma democracia fornece a cada cidadão? O principal bem é a
sua individualidade, o respeito pela pessoa, pelo seu direito a ter opinião,
seguir os seus projectos pessoais, deslocar-se por onde entender. A democracia
dá-lhe o maior dos bens: o direito à singularidade. Exige-lhe, em
contrapartida, que respeite igual bem de todos os outros. Ora, o que os regimes
tirânicos, sejam eles mais ou menos ferozes, roubam, em primeiro lugar, a cada
um é essa singularidade. A destruição do indivíduo é o seu objectivo. Tornar a
pessoa numa mera célula de um tecido social manipulado e orquestrado por
aqueles que têm o poder. Querem dizer-nos como devemos pensar, o que devemos
dizer e o que temos de calar, o que devemos fazer e como devemos agir. Ora, com
a evolução tecnológica a que assistimos, um poder tirânico facilmente
controlará cada passo da nossa vida e terá capacidade ilimitada para nos
destruir enquanto indivíduos. Temo pelos meus netos nesse admirável mundo novo.
