domingo, 19 de janeiro de 2025

Comentários (26)

Francisco Bayeu y Subias, El Olimpo: Batalla de los gigantes

Cometeram soberbos os Gigantes
Com guerra vã, o Olimpo claro e puro
Luís de Camões

É eterna essa batalha que opõe os olímpicos aos irados gigantes, seja ela travada nos contos das velhas mitologias, seja combatida no mundo raso onde o homem faz a sua casa. E se deuses olímpicos e gigantes míticos estão mortos, ainda hoje, na espécie humana, uns e outros se confrontam. Homens há que se imaginam gigantes e, a cada instante, destilam no peito o espírito de rebelião, prontos para lançar sobre o mundo o seu ataque, pois não suportam na terra aquilo que é claro e puro. Muitas vezes, os olímpicos terrenos parecem perdidos, a sua derrota é anunciada aos quatro ventos, mas uma razão estranha dá-lhes um ânimo feroz que, não eliminando as vãs pretensões desses imaginados gigantes, os acantonam numa casa feita com o junco da escuridão, para que a luz, ainda que indecisa, possa iluminar o mundo.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Simulacros e simulações (70)

Lucio Muñoz, 7-86, 1986

Simule-se o progresso da destruição, abram-se os olhos para o corroer dos materiais, oiça-se a música do aluimento das estruturas mais sólidas. Espere-se, na sobriedade do silêncio, o crescimento das ruínas, a desagregação dos palácios e a morte da matéria. Então, o mundo, como um simulacro cantante, pulsará sonâmbulo no ritmo de um coração tomado pelo zinabre da loucura. 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Invocação ao Sol (5)

Paul Klee, Castle with Setting Sun, 1918

Soltavam palavras de fogo

na superfície sulfatada da terra,

um jardim de ânimo transfigurado,

provérbios esquecidos

no porão da memória.

 

Os barcos vinham vazios,

sentavam-se mulheres ao sol,

a conversa para enxaguar

a mancha no descompasso da vida.

 

Acreditavam nos deuses,

milagres matinais entre heras,

o sol a cintilar nos fetos,

acácias na sombra da casa.

 

Terra vergada ao peso das luas,

sem o fogo do espírito,

submersa na humidade dos domingos.

Refreado pelo peso da luz,

o mundo caía na palha da noite.

 

Grãos de areia, sílica, mica,

quartzo iluminado pelo tempo.

No revérbero solar desta sabedoria,

um arquitecto ocioso trabalha

os dias e as noites, a sombra

fortuita na mantilha da memória.

 

(1993)

[Conjunto de cinco poemas pertencentes à série Cânticos da Terra Amarela]

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

O antigo regime e a revolução

Paul Klee, !Todo corre em pos de algo!, 1940

Steve Bannon, uma influente figura política da direita radical, não morre de amores por Elon Musk, o hiper-milionário que ajudou a eleger - talvez o melhor seja mesmo dizer que elegeu - Donald Trump. Bannon acusa Musk de se interessar apenas por si e por ir aumentando a sua colossal fortuna e com isso aumentar o seu poder (aqui). Será que o problema colocado por Musk é o de se interessar apenas por si mesmo? Não terá ele um projecto político para os EUA e para o mundo?

Um artigo de João Pedro Pereira, no Público (aqui), tem o curioso título O novo regime, por Peter Thiel. Menos conhecido do que Musk ou Zuckerberg (dono do Facebook), aos quais ajudou a criar as suas fortunas, Thiel move-se nas mesma águas e mostra que o interesse das grandes figuras ligadas ao universo das tecnologias de informação e comunicação e inteligência artificial não é meramente uma questão de criar condições para fazerem mais e melhores negócios, mas um projecto político, cuja configuração é fluida, mas que se vai afirmando.

Numa entrevista dada ao Finantial Times, citada no artigo do Público, afirma: O nosso antigo regime (refere-se às democracias liberais) tal como a aristocracia da França pré-revolução achou que a festa não acabaria. E depois de argumentar que, na verdade, a eleição de Biden em 2020 foi uma anormalidade, remata: Não haverá uma restauração reaccionária do passado pré-internet.

O que ele diz é o seguinte: a internet e o que se lhe seguiu são uma revolução política, a qual deve ser lida em consonância com o modelo de todas as revoluções, a Revolução Francesa. Ora, isso significa que o modo de fazer e pensar a política dos democratas liberais, gizado quando não havia internet, é tão anacrónico como o modo de fazer e pensar a política do Antigo Regime, que a Revolução Francesa derrubou. Diz ainda o seguinte: o modo de fazer e pensar a política à maneira das velhas democracias liberais não será restaurado. A vitória de Trump é uma derrota dos restauradores da velha ordem liberal.

A alteração mais clara que se deu na política foi a sua virtualização. A transição do conflito político do espaço público tradicional para um espaço virtual. Esta virtualização, porém, não é inócua. Dá enormes poderes de influência aos detentores das redes sociais, e são estes que transportam em si projectos políticos que pretendem estruturar o novo regime nascido da destruição, em curso, das democracias liberais, as quais ainda se movem numa dimensão analógica e pensam a política a partir dos valores morais provenientes do Iluminismo, do Liberalismo e da Revolução Francesa.

As novas configurações são obscuras, mas é provável que, com a tomada de posse de Donald Trump, se comece a perceber o que traz o novo regime, embora Trump seja apenas um figura intermédia, alguém que penetrou no regime liberal norte-americano e o começou a desestruturar, sem saber muito bem para onde pretende ir. Aquilo que parece estar a emergir é a morte dos próprios ideólogos da direita radical (para não falar já dos outros), como Steve Bannon, pois fazem parte de um mundo pré-internet. 

Se se quer perceber que novas configurações do mundo, a Ocidente, se estão a desenhar é preciso estar atento ao que pretendem estas personagens que fazem parte de um bolha de hiper-milionários ligados à internet e a tudo aquilo que lhe sucedeu. Eles não têm apenas o poder do dinheiro, como os antigos milionários, mas têm o poder de formatar a opinião, de a dirigir e de a fazer acreditar no que bem entenderem. Juntam o poder económico, preponderante nas democracias liberais, ao poder religioso, no sentido de formadores de crenças que, como as crenças religiosas, não são verificáveis. Parece desenhar-se uma oligarquia, mas os seus contornos são ainda difusos. O ano de 2025 poderá ser rico em ensinamentos sobre para onde o mundo vai correr e como se vai desenvolver a revolução em curso há décadas, uma revolução permanente.

sábado, 11 de janeiro de 2025

Nacional-populismo, enraizamento e impacto

 

Revisito um livro de que já falei aqui em artigo de Abril de 2023. Trata-se de Populismo - A revolta contra a democracia liberal (2018), de Roger Goodwin & Mathew Eatwell. Naquele artigo, o sublinhei os quatro D que, segundo os autores, estarão na base do crescimento do fenómeno nacional-populista: Desconfiança dos cidadãos, devido ao elitismo político e institucional da democracia liberal. Destruição das comunidades e da identidade nacional pela imigração e a mudança étnica. Despojamento sentido pelas pessoas em consequência da globalização, do aumento das desigualdades e da perda de esperança. Desalinhamento entre o povo e os partidos tradicionais, com a quebra dos laços que ligavam eleitores e partidos.

Interessa-me, agora, uma outra tese dos autores. Em 2018, rebateram a ideia que corria em meios académicos, políticos e comunicacionais de que o fenómeno do nacional-populismo, tal como uma epidemia, já tinha atingido o seu pico e que estaria em recessão. Goodwin & Eatwell defenderam o contrário, em dois pontos: 1. O nacional-populismo é um movimento de desafio às políticas e valores liberais, um fenómeno enraizado em correntes históricas profundas e não um acidente passageiro. 2. O nacional-populismo representa uma mudança estrutural na política ocidental, com um impacto duradouro nas relações entre eleitores e sistemas políticos. Ora, ter-se-á pensado que com as posteriores vitórias de Joe Biden, nos EUA, e de Lula da Silva, no Brasil, que os autores em questão estariam errados, que afinal o nacional-populismo era um episódio desagradável, mas passageiro.

A vitória de Trump em 2024 e o crescimento do nacional-populismo na Europa vieram mostrar que Goodwin & Eatwell tinham razão. É uma corrente política enraizada no mundo ocidental e com impacto duradouro na política ocidental. O nacional-populismo não é uma doença episódica, mas crónica, que coloca graves problemas. O primeiro é o de aprender a lidar com ele. Foram tentadas várias soluções (cercos sanitários, coligações de circunstância, cedências programáticas, etc.), mas nenhuma diminuiu o impacto dessa corrente. Um dos desafios políticos para 2025 será o de aprender a lidar com uma corrente iliberal, que faz do comportamento errático e, em aparência, irracional a força com que atrai eleitores e abre brechas nas democracias. Se as forças democráticas tradicionais não aprenderem a lidar com o nacional-populismo, este, com o retorno de Trump, pode transformar-se numa doença fatal. Ora, a aprendizagem deve começar por prestar atenção aos quatro D que levam os eleitores para os braços destes movimentos.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

O caos anunciado

Manuel Filipe, Guerra, 1945 (Gulbenkian)
As recentes declarações do futuro presidente dos EUA, Donald Trump, sobre aquisições e anexações, que vão desde o Canal do Panamá até à Gronelândia, passando pelo Canadá, bem como as contínuas interferências na política dos países europeus do seu aliada momentâneo, Elon Musk, vieram legitimar as práticas de interferência internacional e de invasão da Ucrânia por parte da Rússia. Isto significa que o débil direito internacional e e a ordem internacional de cariz liberal estão mortos. Os EUA vão trocar uma posição de enfrentamento das pretensões russas para uma posição de cópia da política russa. A ordem internacional nascida da segunda guerra mundial acabou e voltámos, em novas circunstâncias, para a uma situação hobbesiana de guerra de todos contra todos. Retornou o direito de conquista e nenhuma independência está segura. Tudo depende dos interesses e da força de uma potência superior. Um aliado pode, de um momento para o outro, tornar-se um inimigo, quebrando os pactos de amizade, apenas porque convém aos seus instintos de predador. Resta saber o que os europeus vão fazer. Serão eles os últimos moicanos, os defensores de uma ordem internacional regulado pelo direito e pelo respeito entre nações, ou cederão ao Zeitgeist, fracturando a sua unidade e tornando-se lobos uns dos outros e presas de potências mais fortes. Reside na Europa uma pequena e frágil luz de liberdade e de moralidade. Veremos se se mantém acesa ou se os ventos que correm a apagarão.

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Meditações melancólicas (94) Afinal, nem parece um rei

René Magritte, El Mutilado, 1947

Há coisas que o melhor era não as fazer. Nada pior do que a transição que nos leva de uma imagem idealizada para outra que é real ou mais próxima da realidade. Foi uma péssima ideia a reconstituição facial em 3D do rei D. Dinis (ver aqui). Olhamos para a imagem, presumidamente mais autêntica do velho rei, e não vemos ali nem o homem de poder, nem o visionário, nem o poeta. Nada. Vemos um pobre diabo que parece nem acreditar no que lhe sucedeu, com uma coroa enterrada na cabeça. Os grandes homens históricos são iguais aos outros, mas nós temos uma necessidade de ver na sua imagem a grandeza que lhe atribuímos. Eles são, na realidade, idênticos aos políticos de hoje, mas estavam cobertos pelo véu do passado e pelas imagens idealizadas, que nos faziam pensar que eles eram de outra natureza. Revelar-lhes o rosto é, mais do que matá-los, matar as ilusões que usamos para nos identificarmos. Qualquer país preciso de uma mitologia e não há mitos sem encantamento. Inventem lá outro rosto ao pobre rei.

domingo, 5 de janeiro de 2025

Cadernos do esquecimento 55 Imagens

Abel Manta, sem título, 1932 (Gulbenkian)

Há imagens que perduram como se fossem marcos a assinalar as etapas de uma viagem. Vivem puras e livres, mesmo que a realidade que as trouxe se tenha dissolvido. Uma certa ruralidade que inundou este país até tarde permanece na memórias de muitas gerações ainda vivas. Há uma resistência feroz ao esquecimento, tecida na lentidão com que a vida se desenrolava naqueles dias, uma vida incrustada na argamassa da pobreza e no barro de  um atraso ancestral, como se uma tradição tenaz prendesse os homens num mundo imutável.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Beatitudes (76) Das coisas raras

Alfred Stieglitz, Lago di Misurina, The Tyrol, 1891  

A quietude das montanhas, as águas paradas do lago, o silêncio que sombreia a floresta. Caminha-se pela senda rasgada na terra e espera-se encontrar a cabana que acolherá a solidão do viandante. Ali, pensa-se, a felicidade será possível, mesmo que a noite seja visitada por terríveis tempestades e a presença humana se rarefaça. Só o que é raro tem valor, mesmo se o perigo aí se oculta.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Invocação ao Sol (4)

Edward Hopper, Morning Sun, 1952

Sol de Verão rasgado pela corola,

a lógica animal trazida

pelos dias de Agosto,

o símbolo da abundância

semeado na ânfora da noite.

 

Árvores espraiam a seiva da sombra

sobre um campo de luz,

sobre oceanos de surda solidão,

a folhagem agreste a rasgar o corpo.

 

Quando o Verão vem,

as dunas deslizam pelas praias.

Mares de areia à solta

em paisagens de rochas e limos,

a lâmina curva a cintilar

no verde-azul a cerzir o horizonte.

 

Vigora uma ordem perfeita,

rasgão no pano-cru da atmosfera.

Da boca solar caem dias de lume,

lâmpadas de fogo na senda subterrânea,

no trabalho do espírito abrindo a carne

ao grito trémulo da língua.

 

Sobre o comboio dos dias

arde o bulício do astro,

o mosto entre as pernas das mulheres,

o sacrifício solar

no mármore opaco da escuridão.

 

(1993)

[Conjunto de cinco poemas pertencentes à série Cânticos da Terra Amarela]


terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Michel de Montaigne, Deixe-se para amanhã

 

Podemos imaginar, com a ajuda de Kant, a razão como uma ilha rodeada por um mar encapelado onde são outras as regras que imperam. Regras sem regra, pode-se acrescentar. Esse mundo líquido é regido por uma deusa, a que os antigos deram o nome de Fortuna. Montaigne termina o ensaio Deixe-se para amanhã com um discreto louvor à divindade: “Mas, no fim de contas, é difícil no domínio das acções humanas estabelecer por meio da razão uma regra tão justa que exclua a Fortuna dos seus direitos sobre a matéria.”

O ensaio, contudo, não trata tanto desses direitos que a sorte dispõe sobre as nossas acções, mas do equilíbrio que deve existir entre a curiosidade excessiva e a procrastinação sem limites. A sua proposta veicula o meio-termo aristotélico. A curiosidade em excesso conduz à desmedida da impaciência; a preguiça extrema, ao desleixo de assuntos importantes.

A reflexão é desencadeada por uma meditação sobre as regras de etiqueta. Parte do exemplo, referido por Plutarco, de Rústico que, estando a escutar uma conferência do mesmo Plutarco, recebeu uma missiva do imperador, mas que não a abriu enquanto decorria a palestra. Montaigne sublinha que é de louvar a civilidade e a cortesia de Rústico. No entanto, contrapôs a essas virtudes uma eventual falta de sabedoria. Não poderia o adiamento da leitura da missiva imperial causar grandes danos?

O que Montaigne sublinha é um conflito na razão prática entre as regras de etiqueta e os imperativos políticos. Contudo, não esboça uma hierarquia entre eles. Perante a recepção de missivas, o que determina a sua imediata abertura ou o adiamento é a razão pelo qual se faz a opção. É aceitável que por um interesse de terceiros se adie a leitura da missiva, tal como o fez Rústico, mas já não o será se for por interesse próprio, como o são os casos do senhor Boutières, comandante de Turim, e de Árquias, tirano de Tebas.

Ora, Montaigne tem necessidade de fazer intervir a Fortuna porque acaba por não estabelecer uma clara e imperativa hierarquia entre os deveres políticos, regras de etiqueta e, mesmo, os prazeres pessoais, pois a primazia destes, antes criticada, acaba por ser absolvida pela introdução da Fortuna. É uma questão de sorte. Ora, se essa hierarquia fosse clara, seria possível estabelecer por meio da razão uma regra tão justa que excluísse a Fortuna dos seus direitos sobre uma parte, ainda que pequena, das acções humanas.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Rosalino como símbolo


A questão mais importante no estranho caso da nomeação de Hélder Rosalino para o novo cargo de Secretário-Geral do governo não é a do seu vencimento - embora, seja absurdo que um quadro tenha um vencimento superior ao do Primeiro-Ministro ou ao do Presidente da República - nem a estranha jigajoga da troca entre o Banco de Portugal e o governo, apimentada com o drama de saber quem paga o salário ao secretário-geral. 

O importante é o sinal que o governo dá ao escolher a figura de Hélder Rosalino, um destacado secretário de Estado do tempo de Passos Coelho, um dos homens mais zelosos na aplicação do programa não apenas da troika, mas daquilo que ia para além da troika. O malabarismo realizado por Montenegro para assegurar Hélder Rosalino torna claro que o actual governo só não faz o que fez o de Passos Coelho e de Paulo Portas porque não tem maioria.

Montenegro pensará: Quem quer saber  o passado do novo secretário-geral? Está convencido de que ninguém. Se a AD, nas próximas eleições, chegar a uma maioria absoluta, a velha política de Passos Coelho voltará em força, reforçada, caso seja necessário, pelo amparo ideológico da Iniciativa Liberal. Os símbolos são coisas que se devem levar a sério e a contratação de Rosalino é simbólica.

sábado, 28 de dezembro de 2024

Ensaio sobre a luz (125)

Lucien Coutaud, Bientôt le crépuscule, 1964

Deixemos ainda a luz pairar uns instantes sobre o mundo, adiemos a vinda do crepúsculo e a fria descida da noite. Nesse interregno, breve como todos os interregnos, obriguemos os olhos a vaguear pelo arquipélago do dia, para recolher vivas as impressões que nos iluminarão nas trevas nocturnas.

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Nocturnos 125

Frits Thaulow, Noite

A noite que encerra todas as noites é a que abre cada uma à grande viagem no navio do silêncio. Suspensa sob o mundo, é uma rosa a florescer no coração da Terra. Presa no cume da montanha, é um pássaro a voar sobre os frutos de Dezembro. Rasgada na linha do horizonte, é a promessa inscrita na música das esferas celestes.

domingo, 22 de dezembro de 2024

Invocação ao Sol (3)

Vincent Van Gogh, Trigal com ceifeiro ao amanhecer, 1889

O Sol, travo

de amargura

na fertilidade

da planície,

exercício

de campânulas

em mãos de mulher,

a demora

na curvatura

lívida da luz.

 

(1993)

[Conjunto de cinco poemas pertencentes à série Cânticos da Terra Amarela]

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Um grande acontecimento


Que acontecimento de 2024 pode simbolizar a direcção que a humanidade ocidental parece seguir? O momento simbólico de 2024 é a eleição de Donald Trump. É esse evento, ocorrido na maior potência mundial, que nos pode orientar na compreensão das transformações do mundo. A importância não reside no facto de um republicano ganhar a Casa Branca, nem de se estar perante uma reeleição antecedida por um interregno. O simbolismo desta eleição situa-se noutro lado: os EUA são um país cuja fundação está ligada aos valores do Iluminismo, como se pode ver na Declaração de Independência ou na Constituição, e que elegeu um presidente assente numa coligação anti-iluminista.

Quais os valores centrais do Iluminismo? Em primeiro lugar, a ideia de que a razão humana é o motor do progresso. Só ela permite compreender o mundo e transformá-lo. Em segundo lugar, a ciência e a técnica, frutos dessa razão, como motores das transformações sociais que permitem aos homens viver uma vida cada vez melhor. Em terceiro lugar, a ideia de que a sociedade e as instituições políticas podem ser reformadas e melhoradas, tornando-se cada vez mais democráticas. A eleição do futuro presidente dos EUA assentou, em parte, em grupos que negam a ideia de progresso e não aceitam a razão como guia da acção humana. Também a ciência é questionada por muitos apoiantes de Trump, simbolizados, por exemplo, pelo futuro Secretário para a Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy, um céptico em relação às vacinas. Por fim, o ideal de contínua democratização da sociedade sofreu uma derrota significativa, com a eleição de um presidente pouco preocupado com os direitos das mulheres e das minorias.

Este ataque aos ideais iluministas é o acontecimento simbólico do ano. Mostra que uma parte importante da humanidade – aquela que tinha adoptado esses ideais como a sua bússola existencial – os está a rejeitar, trocando a razão pela fantasia e o mito, a ciência pela opinião sem fundamento e a reforma democratizante da sociedade e das instituições pelo desejo de instituições mais opacas, fundadas na discriminação e sem pendor democrático. Estamos a assistir a um poderoso desafio aos grandes ideais que nortearam o mundo ocidental após as revoluções americana e francesa. Esse desafio não começou com Trump e não existe apenas nos EUA, como se pode ver na ascensão dos populismos europeus. É, contudo, um grande acontecimento, independentemente das suas consequências. Nos próximos anos, os valores iluministas vão estar sob grande pressão. Resta saber se têm poder de atracção suficiente para mobilizar os cidadãos em sua defesa.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Espíritos de Natal


Crentes e descrentes, ou nem uma coisa nem outra, quase todos, no Ocidente, dão importância ao Natal, muitas vezes sob a capa de festa de família, momento de reunião daqueles que os afazeres da vida ou as disposições do ânimo mantêm afastados durante o ano. A democratização do espírito mercantil da época tem um efeito de ocultação de algumas ideias fundamentais que subjazem ao Natal. A mercantilização da quadra é o dispositivo pelo qual o espírito mundano esconde o que parece ser o essencial do período natalício – um essencial que se dirige a todos os homens, mas que estes têm dificuldade em acomodar.

Antes de tudo, surge a decepção das expectativas humanas. No nosso quadro mental, um Salvador aparece como uma figura de poder e de riqueza. Contudo, aquilo que o Cristianismo sublinha é o contrário: a figura central apresenta-se despida de todos os poderes e de todas as riquezas deste mundo. Ora, se Ele é a figura arquetípica dos cristãos – melhor, de toda a humanidade –, então estes devem conformar-se com esta renúncia àquilo que, em geral, mais estimam e pelo qual estão dispostos às maiores atrocidades. É uma decepção que o actual espírito natalício faz por esquecer.

Concomitante a esta decepção está o quadro ético proposto pelo nascimento simples e humilde do redentor da humanidade. Gostamos de cultivar a complexidade, que imaginamos ser símbolo da nossa riqueza material ou espiritual, e a afirmação de nós próprios, uma forma benévola de descrever a nossa arrogância. O espírito natalício, se fiel ao acontecimento do presépio de Belém, é também uma ferida narcísica aberta na imagem que cultivamos de nós mesmos.

Uma característica da mensagem presente no nascimento de Cristo parece alinhar-se com os nossos desejos: a esperança. Contudo, também aqui nos confrontamos com um motivo de desencanto, pelo esforço e pela coragem que exige. O Natal significa, na economia da religião cristã, esperança, mas o objecto dessa esperança, ao contrariar as nossas inclinações naturais e ao exigir de nós a capacidade de sacrifício, tende a conduzir-nos ao desespero ou, mais frequentemente, à indiferença.

As exigências colocadas pelo Cristianismo e os imperativos que, subliminarmente, o espírito de Belém traz consigo são de tal modo incomensuráveis à natureza humana que homens e mulheres sentem, ao mesmo tempo, atracção e repulsa. A atracção reside no facto de não terem apagado o acontecimento da memória e de o continuarem a comemorar. A repulsa manifesta-se na forma como o fazem: numa inversão radical do espírito que se revelou no presépio de Belém. Somos humanos, demasiado humanos. Um bom Natal.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Comentários (25)

Rembrandt, Léon descansando, 1650-52

Quando Rolando percebe que vai haver batalha,
Torna-se mais orgulhoso que um leão ou um leopardo.
Canção de Rolando

Facilmente, os homens se imaginam leões ou leopardos. Não precisam de um campo de batalha. Qualquer escaramuça por um motivo fútil os leva a fantasiarem-se como verdadeiras feras. O orgulho não é, porém, uma manifestação de coragem, mas de uma fraqueza fundada na leitura quimérica que se faz de si e das suas forças. Esta fraqueza pode degenerar em cobardia, mas também em temeridade que conduz à falta de prudência e à irrazoabilidade. O homem corajoso venceu o orgulho e enfrenta o perigo por uma razão sensata. Num homem, o orgulho do leão ou do leopardo não passa de uma bravata, cujas consequências raramente são felizes.

sábado, 14 de dezembro de 2024

O PCP e os novos tempos



Jerónimo de Sousa, ex-secretário-geral do Partido Comunista Português, manifestou o desejo de deixar o comité central do Partido, para, como afirma o próprio, dar lugar a membros mais jovens. Segundo o Público, a média etária do futuro comité central será de 48 anos. O problema do Partido Comunista Português não é, como se pode ver, o da falta de juventude do seu comité central, nem, talvez, dos seus militantes. O problema é, antes de tudo, o seu eleitorado, que está ao mesmo tempo em regressão e em envelhecimento. Contudo, o pior é a idade da visão ideológica do partido.

O Partido Comunista Português conseguiu resistir às desilusões trazidos pelas intervenções soviéticas na Hungria, em 1956, e na Checoslováquia, em 1968. O 25 de Abril deu-lhe um ânimo suplementar. Contudo, a Queda do Muro de Berlim e o desmoronamento do chamado socialismo real nos países do antigo bloco de leste, incluindo a União Soviética, liquidou a capacidade de atracção dos eleitores que ainda restava ao PCP. A degradação do poder de mobilização social e eleitoral foi crescendo e é possível que tenha recebido um golpe fatal com a posição perante a invasão russa da Ucrânia.

A isto junta-se o espírito do tempo. O que atrai, nos dias de hoje, os jovens está muito longe daquilo que propõem os comunistas. Por um lado, temos uma atracção centrada numa visão liberal do mundo, no sucesso individual, na afirmação do mérito. Por outro, as perspectivas comunitaristas mais mobilizadoras para a juventude, nos dias de hoje, vêm da direita-radical e da extrema-direita. A afirmação de identidades nacionais, a afirmação da diferença em relação ao outro e, até, a afirmação da masculinidade, num contexto onde muitos jovens do sexo masculino fantasiam que os valores da virilidade estão em decadência e se tornam motivo de militância. Poucos são os jovens - e os menos jovens - que se interessam pela luta de classes, pelo espírito de classe, pela união dos trabalhadores contra o capital. Para eles, esta visão ideológica do mundo não faz sentido, a não ser como prova de um fracasso pessoal. E isto é um problema para os partidos comunistas que ainda existem na Europa, onde se inclui o português.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Os resultados portugueses nos estudos internacionais sobre educação

Mark Wallinger, School Classroom, 1990 (Gulbenkian)

Os comentadores da área educativa andam um pouco abespinhados (ver, por exemplo, aqui ou aqui). A pátria, pobre dela, desceu nos rankings internacionais da educação. Os alunos portugueses, nas provas internacionais, tiveram piores resultados do que seria expectável, tendo em conta o que já tinham alcançados em edições anteriores. Há vários factores que levam a que os nossos alunos, mas também a muitos alunos dos países ocidentais, tenham, nessas provas, desempenhos medíocres. Concentremo-nos apenas em três aspectos culturais. 

Continua a haver, em parte significativa do país, uma cultura que conflitua com as aprendizagens e a disciplina que elas exigem. Isto nunca é reconhecido pelos agentes políticos incumbentes nas diversas governações. O facto de se ignorar essa cultura anti-escolar não significa que ela não tenha repercussões significativas. Tem e não são poucas. Os alunos chegam à escola e reflectem essa cultura. Ao pouco interesse que a escola lhes desperta associam, a partir de certa altura, atitudes de indisciplina, as quais, apesar da retórica de alguns ministros, estão mais que escudadas na trama ideológica e legal que envolve a escola pública. 

Em segundo lugar, a sociedade portuguesa, mesmo onde a escolarização é vista como importante, é genericamente pouco culta. Os interesses maiores são o dinheiro, o status social, os objectos que provam esse status. Ler livros é uma chatice. Como escreveu Fernando Pessoa: Livros são papéis pintados com tinta. / Estudar é uma coisa em que está indistinta / A distinção entre nada e coisa nenhuma. A ironia pessoana, com efeito, é o reflexo de uma cultura que pensa isso mesmo da leitura e dos livros. É provável que por toda a Europa os níveis culturais - tomando por cultura, a alta cultura - estejam em regressão. O problema português é que esse níveis nunca estiveram em alta. A escolarização (onde se inclui a universidade com a sua panóplia de graus) não representou, ao democratizar-se, uma ruptura, por parte dos novos escolarizados, com a baixa cultura, mas antes a invasão das instituições de ensino por essa baixa cultura.

Por fim, as escolas portuguesas estão atafulhadas num delírio de projectos, planos, avaliações, monitorizações, auto-avaliações e tudo aquilo que nem ao diabo lembra, mas lembra a quem toma decisões na educação. Isto gera nas instituições de ensino uma incapacidade para definir os seus objectivos e deixa os profissionais à beira de um ataque de loucura. A função docente, nos dias que correm, é uma amálgama de coisas inventadas pelo burocracia nacional e europeia que vampiriza a energia dos professores e os desvia das questões fundamentais. Há uma insanidade desmedida nas tutelas educativas que leva tantos as direcções escolares como os professores a viverem num estado de verdadeiro estupor, transformando-os em verdadeiros zombies.

Haverá outras razões, mas estas, por que são de índole cultural, são as centrais. Parte dos alunos vêm de mundos adversos ao ethos escolar. Um país culturalmente medíocre. Uma cultura política educacional marcada por um delírio burocrático e uma insanidade organizacional. Enquanto isto se mantiver, os resultados - ora melhores, ora piores - serão medíocres. Por que razão haveriam de ser excepcionais?