Aimé-Jules Dalou - La Fraternité des peuples (1883)
Bergoglio criou um problema que
não sei como o irá resolver: não se cansa de denunciar a economia que mata. Que
poderá ele fazer para que nas instituições universitárias católicas, o ensino
no campo da economia, da finança, da gestão, da política não só denuncie e
recuse qualquer tipo de participação nesse homicídio, mas sobretudo, que poderá
ele fazer para que os professores e alunos dessas instituições investiguem e
façam propostas que sirvam a fraternidade como fundamento e caminho da paz?
(Frei Bento Domingues, Público de 2014-01-05)
A questão levantada por Frei Bento Domingues faz todo o sentido.
Muitos dos defensores da actual ordem política e económica mundial estão
ligados, de alguma forma, a universidades católicas. Percebe-se que os cursos
ligados à economia, gestão e ciência política são, digamos assim, muito pouco
católicos. São, antes, um viveiro intelectual que justifica e legitima a situação
que o Papa denuncia, e denuncia como sendo homicida, como infringindo o
mandamento não matarás!
A questão, porém, tem um interesse que ultrapassa a perspectiva meramente
económica ou política actual. Se houve um sítio onde a Igreja Católica fez um aggiornamento e aceitou o mundo moderno
foi no campo do liberalismo económico e, por arrasto, do liberalismo político. Começou
por condescender com o capitalismo e acabou por se tornar um viveiro
intelectual de defensores do radicalismo iluminista liberal no campo
político-económico. Não se trata apenas de perguntar como resolver essa
contradição entre a denúncia de um sistema homicida e a permissão da sua defesa
e justificação nas instituições católicas. Trata-se ainda e mais uma vez do
problema da relação entre a Igreja Católica e o mundo moderno, entre o espírito
de comunidade, que foi uma das suas características originais, e a radicalidade
da subjectividade individual inerente ao mundo moderno e filha do
protestantismo.
O discurso conservador – pode parecer o contrário, mas de facto as
posições do actual Papa, ao denunciar os resultados do iluminismo liberal, são
claramente conservadoras – do Papa Francisco está a tocar num verdadeiro ninho
de víboras, um ninho onde coexistem interesses económicos muito grandes,
interesses políticos e interesses académicos. Estes interesses sempre contaram,
mesmo quando o discurso papal remetia para a doutrina social da Igreja e
criticava o individualismo, com a cumplicidade mais ou menos activa da Igreja.
Como salienta Frei Bento Domingues, noutro passo do mesmo artigo, a fraternidade
foi a menos explorada das consignas da Revolução Francesa. Os homens digladiaram-se
intelectual e fisicamente pela supremacia da liberdade ou da igualdade.
Esqueceram sempre a ideia de fraternidade. É a ideia de fraternidade que Francisco está a mobilizar para contrapor a uma
sociedade que, em nome da liberdade, está a criar uma enorme prisão para a
generalidade dos seres humanos. Retomando o problema colocado por Frei Bento
Domingues, que fazer com um ensino económico e político cujos resultados
práticos destroem as relações fraternais entre os homens? Será possível outro aggiornamento da Igreja que não pela via liberal? Será a fraternidade, sem a tentação do igualitarismo, a porta pela qual a tradição católica e o
mundo moderno se encontrarão definitivamente?
PS. Morreu hoje Eusébio, um dos heróis da minha infância e
adolescência. Falarei sobre isso na crónica do Jornal Torrejano, na próxima
sexta-feira.
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