segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Um sítio mal frequentado


Este artigo de Rui Tavares põe correctamente o dedo na ferida. O que se passa no futebol não é já uma questão de futebol mas de desagregação dos valores fundamentais de um Estado democrático. Se houve um tempo em que esse desporto poderia ser visto como um jogo de cavalheiros, no qual o fair-play tinha um lugar central, isso acabou há muito. As paixões clubistas tornaram o fair play uma miragem e não há campeonato em que o vencedor não esteja sob suspeita de favorecimento e parcialidade dos árbitros. Os dirigentes desportivos, muitas vezes, dão a impressão de serem condottieri de bandos de gente fora de lei, incendiando paixões e acicatando o ódio das seitas adversárias. A isto há que juntar o clima que os programas de comentário futebolístico criam, nos quais as regras da educação, do respeito mútuo e da conduta sensata são vilipendiadas. O futebol de alta competição tornou-se assim um sítio mal frequentado e com muitos poucas possibilidades de remissão.

O futebol, nos dias de hoje, é, por outro lado, uma actividade económica, onde se movem muitos milhões de euros, mesmo num país como o nosso. O cruzamento da actividade económica com a paixão clubista não gera uma mera indústria de entretenimento como o é o cinema. O carácter competitivo dá a essa junção entre economia e paixão irracional uma tonalidade que aproxima o futebol de um clima de quase pré-guerra civil. Não por acaso, as instituições sentem grande dificuldade em lidar com esse mundo, onde o mercado das emoções parece completamente desregulado e os confrontos entre adeptos recordam o estado de natureza hobbesiano. E o pior é que o futebol pode ser visto já como a expressão daquilo que rumina surdamente numa sociedade. A ligação entre paixão clubista e irracionalidade sempre existiu. Contudo, é possível que tenha mudado de natureza. Anteriormente, a paixão clubista era um escape, uma sublimação dos sentimentos e emoções negativos que há em todos nós. Hoje em dia pode ser bem mais do que isso. Pode ser a expressão do desejo de trazer para o espaço público a vontade do conflito e a necessidade de aniquilar o inimigo. Uma sociedade que permite um futebol como o nosso - que não será diferente do de outros países - não é, por certo, uma sociedade saudável. Pelo contrário, está doente, muito doente.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Ensaios sobre a luz (23)

Barend Arendsen, Winter in Holland, c. 1910

A luz do Inverno torna tudo mais difuso. A realidade perde a exuberância do contorno e cada coisa parece ansiar por se fundir no magma da indiferenciação.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A Igreja, o espírito e o sexo


A minha crónica no Jornal Torrejano.

A recente declaração do cardeal Clemente sobre abstinência sexual dos católicos recasados e a intensa luta, ao mais alto nível da hierarquia católica, sobre problemas de ordem moral tornam manifesta, mais uma vez, a grande dificuldade que a Igreja Católica enfrenta nas sociedades modernas. O problema centra-se no conflito entre a autonomia e liberdade dos indivíduos, uma característica da modernidade, e a reivindicação, por parte da Igreja, de um papel de tutoria, em matéria moral, de preferência sexual, das consciências dos crentes. O que se passa é que cada vez mais crentes, não deixando de o ser, recusam submeter a sua consciência e a sua liberdade à tutoria dos sacerdotes católicos.

O Vaticano II e a acção do actual Papa são tentativas de lidar com este problema. Os ventos vindos do concílio nunca agradaram aos sectores conservadores da Igreja. Pior ainda é a acção de Francisco, a qual gera verdadeiros ataques de fúria e de desobediência por parte desses sectores. Há uma coisa, contudo, que os sectores conservadores têm razão. O aggiornamento proposto por João XXIII, Paulo VI e Francisco não tem conseguido travar o declínio do catolicismo nas sociedades modernas. Os conservadores equivocam-se, porém, quando pensam que uma Igreja reactiva para com a modernidade, fundada no espírito do concílio de Trento, seria capaz de evitar o declínio. Provavelmente, o declínio seria mais rápido.

Há um problema que me parece central neste conflito entre católicos conservadores e católicos actualizadores. É o da discussão se centrar em questões morais. Isto é um problema porque ambos diminuem, na prática, o âmbito do catolicismo. Surpreendentemente, tanto conservadores como actualizadores estão a transformar o cristianismo, tal como o fizeram os protestantes, numa mera moralidade. Ora o cristianismo é mais, muito mais do que uma doutrina moral, farisaica ou misericordiosa. É uma aventura espiritual.

A Igreja Católica possui uma herança espiritual, fundada na mística, que poderia ser uma chave para entrar em contacto com o mundo moderno. Essa espiritualidade tem recursos suficientes não apenas para lidar com pessoas livres mas também para libertar as pessoas. É essa ânsia de liberdade e de libertação que levou muitos ocidentais a interessarem-se pelas práticas espirituais do Oriente, do Tantra ao Yoga ou ao Zen. A Igreja Católica em vez de fazer uso, no mundo moderno, da sua riquíssima tradição espiritual, esconde-a e passa o tempo, literalmente, a discutir o sexo e a moral sexual, como se a vida espiritual dos homens se reduzisse ao coito, interrompido ou não.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Micropoemas - Naufrágios 2


Mark Rothko - N.º 5 (1964)

2. Ser

Ser
e sentido.

Na luz, o negro contido.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Do medo da liberdade

Thomas Hoepker, Old man with his pet bird in Ritan Park. Beijing, China, 1984

Naquele instante em que a liberdade se torna possível, os homens, muitos deles, poisam dóceis na mão do mestre e aguardam que ele, benévolo e paternal, os devolva à prisão que, acima de tudo, amam.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Um país mais liberal

Gustav Klimt - Girlfriends (1916-17)

Não nego, longe disso, a coragem de Adolfo Mesquita Nunes, um talentoso político do CDS da nova geração, e de Graça Fonseca, secretária de Estado do actual governo socialista, de assumirem publicamente a sua orientação sexual. Como salienta João Miguel Tavares no Público, “Portugal deve ser o país com maior distância entre as políticas progressistas no que diz respeito aos direitos dos homossexuais, onde estamos entre os países mais avançados do mundo, e o número de políticos que se assumem como homossexuais no espaço público, onde estamos entre os mais atrasados da Europa”. A coragem deve ser lida como coragem de ruptura com a prática política de ocultar a orientação sexual, se esta é homossexual.

Há contudo uma outra coisa que não é dita nos justos encómios a Mesquita Nunes e Graça Fonseca. Não tem a ver com a esfera política mas com o país. Portugal tornou-se um sítio onde se aceita com facilidade as opções dos outros. Tem crescido, nos últimos tempos, uma cultura liberal entre a população marcada pelo vive e deixa viver. Quem conheceu o Portugal de há 40, 30 ou mesmo 20 anos sabe que houve mudanças radicais no comportamento perante o que os outros fazem das suas vidas. Não é que não haja má-língua, não é que não aflorem, ainda demasiadas vezes, tentativas de intromissão na vidasde terceiros, mas o ambiente mudou radicalmente. Podemos discutir se essa mudança se deve a termo-nos tornado mais tolerantes ou se é fruto da pura indiferença. Talvez as duas sejam verdadeiras.

Seja como for, o acto destes dois protagonistas políticos só se tornou possível porque o país mudou e mudou para melhor, tornando-se mais liberal e mais respeitador das opções de cada um. E o que mostra que o país mudou foi a forma como as declarações de ambos foram recebidas na esfera pública. Esta recepção assim como a crítica acerba, mesmo dentro da Igreja, às declarações do cardeal Manuel Clemente sobre a abstinência sexual dos recasados (um problema que apenas afectaria os católicos) mostram que o país se reconciliou com a sexualidade, que não faz dela uma arma de arremesso político, remetendo-a para a esfera da vida privada e da consciência dos indivíduos, os quais são considerados livres para fazerem o que entendem das suas vidas. E este progresso da cultura do país não deve ser subestimado.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Ensaios sobre a luz (22)

Ergy Landau (Landau Erzsi), Assia, 1933

E na luminosa luz ela é uma sombra suave que se recolhe no severo segredo do sangue, no pulsar puro da pele, na dócil dor do desejo.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Micropoemas - Naufrágios 1

Maria Helena Vieira da Silva - Memória (1966-67)

1. Memória

Memória
branca como lábios.

A vida, som, morte e naufrágios.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Alma Pátria - 41: Francisco Fanhais - Porque



Para este post do Alma Pátria tinha pensado em mais um cantor de intervenção. Havia duas fileiras, digamos assim, para fazer a opção. Uma era a dos que tiveram e têm um importante papel na música popular portuguesa ainda hoje, gente como Sérgio Godinho ou José Mário Branco. A segunda fileira é de homens a que o 25 de Abril não trouxe uma assinalável fortuna na carreira das canções. Aqui poderia escolher entre Manuel Freire, José Jorge Letria, José Barata-Moura e Francisco Fanhais. Optei pelo padre Fanhais. Este seu disco marca uma época de advento de uma consciência crítica do regime dentro da própria Igreja. Fanhais é um marco na cultura oposicionista surgida na parte final do regime. Esta é a outra face da Alma Pátria, a do movimento dos baladeiros, gente que cantava canções de intervenção social apenas acompanhados por uma viola, embora a realidade desse grupo de cantores fosse um pouco mais complexa do que deixa entrever a caricatura que o nome dado ao movimento representa.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A esquerda e os rankings escolares


Vivemos num estranho país. Num país menos estranho do que o nosso, seria normal que as gentes de esquerda quisessem ver publicados os rankings escolares e as gentes de direita – pelo menos, aquela que tem os descendentes nos colégios privados que ocupam os primeiros lugares dos rankings – quisessem que eles não fossem publicados. Mas não é assim. As gentes de esquerda, por norma, odeiam ou, pelo menos, desprezam os rankings, enquanto a direita social gosta deles. Por que motivo, perguntará o leitor, a direita deveria querer ocultar os rankings e a esquerda deveria querê-los públicos?

Relativamente à direita social, a resposta é fácil. Esta não tem qualquer interesse em que se saiba claramente as vantagens que os seus descendentes têm no acesso à Universidade, às melhores Universidades. Quanto menor for a concorrência, quanto menor for a igualdade de oportunidades, quanto maior for o fosso entre os resultados do ensino público e os dos grandes colégios privados e quanto mais secreto for esse fosso melhor. Os descendentes estarão mais à vontade no acesso aos cursos que pretendem, àqueles que abrem às pessoas as melhores oportunidades. Para essa direita, o melhor seria não haver rankings e que ninguém soubesse o desempenho da escola pública.

Relativamente à esquerda social (e política, diga-se) o problema é mais complicado. Por norma, é contra os rankings porque estes hierarquizam as escolas. Um dos argumentos que mais se ouve é que os rankings não avaliam as escolas como deve ser. Este argumento, porém, é uma falácia do espantalho. Os rankings não pretendem avaliar escolas ou professores. Os rankings apenas tornam patente os resultados dos alunos organizados por estabelecimento de ensino. Um segundo argumento diz que os rankings comparam o incomparável. Este argumento é pura e simplesmente falso. O que está a ser comparado são os resultados dos alunos e esses são comparáveis. Mais, a diferença desses resultados tem consequências para o destino de cada um dos alunos.

Por que motivo a esquerda deveria gostar dos rankings? Pelo facto de eles mostrarem como está a saúde das políticas de igualdade de oportunidades. Se os rankings avaliam alguma coisa é o trabalho do sistema educativo na promoção real – e não apenas proclamatória e virtual – da igualdade de oportunidades. Quando os rankings mostram que certas escolas públicas, mas também privadas, apresentam resultados maus ou medíocres está a mostrar-nos que o sistema – tanto a nível central como local – está a falhar no desígnio de assegurar a todos os alunos um acesso semelhante a um bem que é a educação, onde se inclui o acesso à educação superior. A esquerda prefere que isto não se saiba? Que se disfarce?

A esquerda deveria preocupar-se em assegurar condições para que o fosso dos resultados desaparecesse, para que os rankings passassem a mostrar que os alunos pobres e/ou do interior têm as mesmas possibilidades reais – e não meramente virtuais – que os filhos das elites que frequentam os grandes colégios. A esquerda, se estivesse preocupada com os filhos dos seus potenciais eleitores, em vez de esconder a mensagem e tentar matar o mensageiro (os rankings), deveria exigir discriminação positiva eficaz no apoio às escolas em dificuldades e reivindicar condições para um ensino rigoroso e de qualidade em todo o sistema público. Parece, contudo, que a esquerda gosta mais dos seus preconceitos ideológicos (ainda por cima incongruentes) do que das pessoas reais. Infelizmente.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Eugénio de Andrade


A minha crónica no Jornal Torrejano.

Nos tempos que vivemos, quase ninguém lê poesia. Os poetas correm o risco de escrever uns para os outros, diz-se. Este estreitamento do público dever-se-á, é também o que se diz, à obscuridade crescente das linguagens poéticas, tendo-se cortado o fio que ligava a poesia àquilo que o homem esperava e espera da linguagem. É possível que assim seja. Por isso, neste texto trago uma espécie de contra-exemplo. A linguagem do poeta é de uma grande claridade, apesar do rigor com que cada palavra é colocada nos versos. Falo de Eugénio de Andrade.

O primeiro livro de poesia que comprei foi dele. Juntava, numa bela edição da Editorial Inova, os livros As Mãos e os Frutos, de 1948, e Os Amantes sem Dinheiro, de 1950. Não sei quantas vezes li aqueles poemas. Talvez tenha sido esse livro que me inclinou para as minhas pobres tentativas poéticas, talvez. “Nos teus dedos nasceram horizontes / e aves verdes vieram desvairadas / beber neles julgando serem fontes.” Como é que uma imaginação imatura, como era a minha naqueles anos longínquos, não haveria de ficar deslumbrada com versos como estes?

Dos poemas reunidos nessa edição, aquele que nesses verdes anos mais me marcou foi o poema Adeus. Para o leitor que não o conhece deixo a primeira estrofe: “Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, / e o que ficou não chega / para afastar o frio de quatro paredes. / Gastámos tudo menos o silêncio. / Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, / gastámos as mãos à força de as apertarmos, / gastámos o relógio e as pedras das esquinas / em esperas inúteis.” O que me atraiu no poema foi a combinação da musicalidade das palavras com a ideia de finitude. O amor também ele tem um fim e há uma música própria onde esse fim pode ser dito, um requiem que acaba por prolongar e sublimar aquilo que já morreu.

Toda a o poesia de Eugénio de Andrade é marcada por esta claridade aparente. Ela dialoga e interpela o leitor, atrai-o para o colocar, com ostinato rigore, perante o que é obscuro e enigmático. A claridade da linguagem é uma porta para o mistério do corpo, da natureza, do homem e do mundo que rumoreja em cada uma das suas palavras. Ler poesia não é o mesmo que ler o jornal. Ela exige atenção e cuidado ao leitor. Este, porém, se não tiver pressa e se deixar envolver pela música das palavras, vai descobrir alguma coisa de si mesmo e do mundo, para além do puro prazer do jogo poético. Iniciar-se na poesia com Eugénio de Andrade é entrar pela porta grande. “Assim eu queria o poema: / fremente de luz, áspero de terra, / rumoroso de águas e de vento.” Assim.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Micropoemas - Mármore 6

Marc Chagall - War (1964-66)

6. A luz

A luz
vermelha de fogo.

Ao longe,
homens e pedras cavalgam de novo.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Poesia

A minha crónica em A Barca de Fevereiro.

Em 2017, o padre Tolentino Mendonça publicou um livro de poesia com o estranho título de “Teoria da Fronteira”. A nossa tradição definiu o exercício da teoria como tarefa da ciência e da filosofia, mas não da poesia ou mesmo de qualquer arte. Enquanto ciência e filosofia são saberes racionais sobre os seus objectos de investigação, a poesia é uma saber fazer prático, uma arte. Estará mais próxima do saber andar de bicicleta (ninguém aprende a andar de bicicleta por explicação racional ou investigação teórica) do que da produção de teorias.

Por que motivo um poeta mobiliza o termo teoria para o título de um livro de poemas? Na sua raiz grega, a palavra teoria remete para o verbo “theorein”, o qual contém a ideia de “olhar para alguma coisa” para lhe captar o perfil ou a fisionomia. De certa maneira, esse verbo grego fala-nos do contacto do homem com aquilo que lhe é exterior (coisas, animais, plantas, homens) através do olhar. Sendo assim, a poesia é uma teoria pois é uma arte de olhar. O que fazem os poetas? Os poetas olham através dos olhos que são, para eles, as palavras. E olham para onde? O título do livro de Tolentino Mendonça é muito claro: olham para a fronteira.

A fronteira de que fala não será a divisão artificial que separa duas entidades políticas. Quando ouvimos a palavra fronteira associamo-la, de imediato, às ideias de limite e de separação. As fronteiras delimitam os estados, separando-os. Como a poesia não é um tratado de direito internacional, compreendemos que o poeta utilize a palavra fronteira como uma metáfora. Que domínios separará ela para que o poeta – qualquer poeta – dirija para lá o seu olhar? O território da poesia é o da linguagem. Ela não trata de outra coisa. Sendo assim, a fronteira será essa linha imaginária que separa o território da linguagem corrente, da linguagem articulada que permite o comércio quotidiano das nossas vidas, da linguagem inarticulada do silêncio com que todas as coisas se dão ao olhar.

O poema é, então, um olhar para essa fronteira em que a linguagem, apesar de ainda usar palavras, já as desligou – melhor, já as libertou – do seu uso comunicativo diário. Ao escrever, o poeta olha para essas palavras que já não são bem palavras, mas ainda não são silêncio. Todo o poema é uma arte fronteiriça, um exercício para vencer a resistência – a linha – que separa o articulado da linguagem do inarticulado do mundo dado ao olhar. As fronteiras separam, mas também são pontos de união. O poeta faz da poesia esse tecer de uma fronteira que, ao separar, une o som da linguagem ao silêncio da criação. Talvez a poesia seja apenas a aprendizagem da mudez, da arte de estar calado. 

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Pobres mãos

Jean-Michel Basquiat, Hand Anatomy, 1982

De punhos para ferir, fizeram pobres mãos para trabalhar. Nesta meditação poética de René Char, pertencente ao ciclo La Parole en Archipel, o adjectivo pobres é a porta por onde podemos entrar no domínio do sentido, mesmo que a tradução nos roube a entrada no outro domínio central da poesia, o do som. Se Char tivesse omitido a adjectivação das mãos, teria descrito uma metamorfose do mundo, dado uma informação factual sobre a evolução civilizacional da espécie. No entanto, o adjectivo pobres coloca-nos numa situação equívoca. Aparentemente, as mãos são pobres para trabalhar. Nesta pobreza podemos escutar a incapacidade, a ausência de domínio sobre os objectos a trabalhar.

A leitura desvia-se, muito rapidamente, para outra direcção. As mãos que trabalham são já um empobrecimento relativamente aos punhos que ferem. A dignidade primeira da mão residiria então no bater, no ferir e, em última instância, no matar. Trabalhar será assim uma forma de humilhação que a espécie impôs aos seus punhos quando os transformou em mãos. Um leitor informado da história do mundo dirá que o pequeno texto de Char é uma constatação nostálgica da transição de um mundo aristocrático, fundado na guerra, para um mundo burguês, centrado no trabalho ou na exploração do trabalho, se a sua alma se inclinar para uma leitura marxista.

A leitura poética convida-nos, todavia, a não optar por nenhuma destas alternativas de interpretação do adjectivo pobres. O essencial é manter as duas em tensão e deixar-se guiar por elas. Sim, é verdade que a transição do punho que fere para a mão que trabalha é um empobrecimento, mas é-o não porque tenha deixado de ferir mas porque ainda não é suficientemente rica para trabalhar, para que da sua arte saiam obras dignas da nossa admiração. Mais do que um lamento pelo declínio da virtude aristocrática da guerra, na pobreza das mãos que trabalham ressoa o desejo de que elas se tornem mais aptas, mais criativas, para as obras que esperam pela sua destreza. O desejo de que elas não matem nem trabalhem, mas criem. Que as mãos não sejam nem do aristocrata nem do trabalhador, mas do criador, do poeta, desse poeta que ainda não encontrou as mãos à altura de criar a poesia que o aguarda.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Uma doença

Ana Peters - Divertimentos bajo cristal (1966)

Eu sei que a ideologia é como Deus. Está em toda a parte e cuida de nós. No entanto, ao cuidar de nós, a ideologia, seja ela qual for, tem por condão enviesar o nosso olhar, a forma como interpretamos o mundo e seleccionamos os imperativos que comandam as nossas acções. Uma pessoa que sofra de uma qualquer doença deseja, acima de tudo, curar-se dessa doença ou, em caso de ser impossível erradicá-la, diminuir-lhe ao máximo os efeitos nefastos.

Podemos pensar a ideologia como uma doença, uma doença cognitiva que nos faz confiar em crenças que, por norma, pouco têm a ver com a realidade. O normal seria que cada um de nós procurasse, por todos os meios, curar-se da doença. Sabemos que a ideologia, como uma doença crónica, não pode ser erradicada completamente, mas seria expectável que estivéssemos todos empenhados em diminuir-lhe os efeitos nefastos que ela tem sobre o sistema das nossas crenças.

A verdade, contudo, é que a generalidade dos seres humanos – fundamentalmente, aqueles que se interessam pela política – gosta de estar doente. O problema da ideologia não reside tanto nela nos enviesar a compreensão do mundo, mas no facto de nos tornar tão dependentes que queremos permanecer doentes, cada vez mais doentes, de tal forma que se tem honra na patologia que nos atinge e exibimo-la não com o pudor recomendado mas como se ela fosse uma medalha ganha na alta competição ou um troféu de caça.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Ensaios sobre a luz (21)

Michael Inmann, Left Spaces, Vienna 2005

A casa abandonada abre-se lentamente para que a luz a penetre e ilumine a dor que, como um murmúrio, desagua na poeira do esquecimento.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Micropoemas - Mármore 5

Ricardo Kersting - Pássaro (aqui e aqui)

5. Pássaro

Pássaro,
pedra pura voa.

Na aldeia,
o bronze do sino ecoa.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Passos Coelho

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Agora que Rui Rio tomou conta do PSD, falemos de quem sai. Passos Coelho recebeu o país das mãos de Sócrates numa situação terrível e com um programa de resgate de dureza desnecessária imposto pela troika. E aqui começa o equívoco de Passos Coelho. Não apenas deixou transparecer que aquele programa da troika, apesar de negociado com Sócrates, era o programa de governação do PSD, como fez saber que pretendia ir além da troika, ser mais castigador dos portugueses do que os representantes dos credores. Num país frágil como Portugal, isto soou a muitos sectores sociais como pura provocação e mesmo uma espécie de revanchismo contra alguma igualdade social que o pós 25 de Abril e a adesão à CEE – agora União Europeia – trouxeram.

Aliado a isto veio toda uma retórica putativamente neoliberal, sustentada pela comunicação e redes sociais, blogosfera e grupos de jovens de aparência liberal e alma autoritária. Toda esta parafernália verbal assentava no puro desconhecimento do país, em leituras apressadas e num desejo indisfarçado das novas gerações da elite encontrarem pontos que lhes permitissem, como vingança social, fazer crescer as desigualdades. E contra tudo o que a prudência aconselhava, Passos Coelho deixou-se envolver neste lixo ideológico, o qual transpareceu muitas vezes nas suas palavras, criando ressentimento em grande parte população.

Passos Coelho perdeu uma grande oportunidade, talvez a maior desde o 25 de Abril, de reformar o país. O choque da governação Sócrates abriu-lhe uma porta para alterar a relação dos portugueses com o Estado e de criar relações sociais mais livres, onde autonomia e iniciativa individuais fossem decisivas. Ora, em vez de um discurso unificador dos portugueses perante a catástrofe (Sócrates e a troika) e a necessidade de um outro caminho, Passos Coelho preferiu um discurso ideológico agressivo, criador de divisões e de louvor à troika. Decidiu fechar a porta que lhe tinha sido aberta.

Isto não significa que o governo de Passos Coelho se pudesse eximir a cumprir o acordo de resgate com a troika. Nenhum governo o podia fazer. O cumprimento do memorando é um mérito que recai em Passos Coelho. Além disso, porém, deveria ter feito outras coisas. Por um lado, ter-se mostrado mais preocupado com o destino dos portugueses e, por outro, ter aproveitado a situação para arrumar o Estado e as relações entre este e a sociedade civil. Não fez uma coisa nem outra. Passos Coelho enredou-se em equívocos ideológicos que o conduziram para fora da governação e, agora, da liderança do PSD. Nem um grande estadista nem um terrível demónio social, apenas um fruto equivocado da ideologia.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Um sidonismo suave

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Apesar da situação actual ser radicalmente diferente daquela que, durante a I República, conduziu Sidónio Pais ao poder, o país caiu, sem dar por isso, num novo sidonismo. Sidónio, de forma turbulenta, tal como eram os tempos de então, liquidou o parlamentarismo republicano e instaurou um regime presidencialista. Marcelo Rebelo de Sousa, sem questionar a constituição, está, pelo seu talento pessoal e pela inabilidade dos partidos políticos e do governo, a construir um presidencialismo não de direito mas de facto. À primeira vista tudo se mantém igual ao que sempre foi. O primeiro-ministro é o responsável pela governação,  a Assembleia pelo processo legislativo e o Presidente da República continua com os mesmos poderes limitados dos seus antecessores. Aparentemente.

Percebe-se, desde muito cedo, que Marcelo Rebelo de Sousa tem como projecto determinar a governação do país. Fá-lo não pela subversão do regime, mas dentro do quadro constitucional, tirando partido da ambivalência do semipresidencialismo. A relação directa com os cidadãos, o clima de cumplicidade e de tutoria do povo que ele, mal eleito, começou a construir dão-lhe legitimidade suficiente para aniquilar qualquer desafio que um qualquer governo lhe lance. O momento decisivo em que o regime se torna efectivamente presidencial é o da tragédia dos incêndios. Se até aí o governo já tinha pouca margem de manobra, a partir da segunda vaga de incêndios deixou de ter qualquer independência relativamente aos desejos políticos de Marcelo Rebelo de Sousa. O governo começou por ser uma iniciativa da esquerda maioritária no parlamento. Hoje, ao perder a autonomia face a Belém, é o governo do Presidente da República.


Presidencialismo e uma relação directa com o povo foram características centrais do sidonismo. Também a actual relação da população com os partidos políticos é semelhante à existente no tempo de Sidónio. Perante as inabilidade e maquinações dos partidos e a cada vez menor consideração que a população lhes vota, o Presidente, pai e pastor do povo, trata-os de forma professoral e condescendente, exercendo um nunca confessado poder executivo real. Sem sujar as mãos, Marcelo Rebelo de Sousa realiza o seu velho sonho de governar, embora por interposta pessoa. As próximas eleições legislativas não têm já a ver com quem os portugueses escolherão para governar. Elas vão decidir através de quem, pessoas e partidos, Marcelo Rebelo de Sousa irá continuar a governar o país. Um novo sidonismo. Suave, cheio de afectos e de paternalismo. 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Interregno

Lorenzo Costa, Birth of Jesus, 1490

Também o Kyrie Eleison suspende a sua actividade neste período de festas. Voltará em Janeiro. A todos um Bom Natal e um Feliz Ano Novo.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Advento e Natal

A minha crónica natalícia em A Barca.

As nossas sociedades secularizadas, mesmo se compostas por pessoas formalmente cristãs, perderam há muito qualquer relação profunda com a religião. Observemos o Natal. Este, devido à sua transformação numa grande festa pagã, em tudo contrária à frugalidade do presépio, é um caso perdido. Para compreender essa perda, vale a pena perscrutar aquilo que as sociedades tradicionalmente cristãs abandonaram no processo de secularização. Ligado ao Natal está o Advento. O interessante desse tempo de preparação do Natal é o seu conjunto de valores, os quais todos nós, crentes, agnósticos e ateus, podemos partilhar. Sublinho três. O arrependimento, a fraternidade e a paz. Nenhum deles exige que sejamos crentes.

A desvalorização da contrição cristã, mesmo pelos cristãos, é algo que nem um ateu deve celebrar. O arrependimento está ligado à falibilidade humana, ao reconhecimento dos nossos limites, à tomada de consciência do mal que fizemos aos outros. O arrependimento é um trabalho de contínua educação moral que o sujeito faz sobre si mesmo. Haver, no ano, épocas em que ele é solicitado significa que a sua importância está viva. Hoje em dia, o arrependimento é visto apenas como um problema da consciência individual, no melhor dos casos, ou como uma fraqueza que se deve evitar. Tornou-se irrelevante, socialmente.

A fraternidade, por seu lado, é fundamental em qualquer sociedade e, por maioria de razão, em sociedades concorrenciais. Estas estão organizadas para que, a todos os níveis, os indivíduos concorram uns com os outros. Esta concorrência tem méritos inegáveis. Fornece melhores produtos, torna as pessoas mais capazes, melhora as próprias instituições. Tem, todavia, um perigo. A sua natureza adversarial pode conduzir à ruptura dos laços comunitários. A fraternidade lembra-nos que pertencemos todos à mesma espécie, que, para além de concorrentes, somos irmãos e, por isso, temos um dever de cuidado mútuo e de manutenção entre nós da paz, essa outra exigência do Advento.

A secularização das sociedades permitiu-lhes separar a salvação da gestão da vida civil, o que foi uma conquista civilizacional. Mas, ao olharmos para a vida de hoje, não deixa de haver um sentimento de perda. A religião trazia com ela um conjunto de valores e de tempos onde eles se tornavam manifestos e de exercício obrigatório. De certa maneira, mesmo que a salvação fosse uma ilusão, as comunidades saíam fortalecidas. O nosso egoísmo natural era confrontado e posto em cheque. Isso acabou, como todos sabemos. Por que razão, sem Advento, haveria de haver um Natal que não fosse um exercício risível de ostentação?

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Ensaios sobre a luz (20)

Myron Wood, Stone, 1980 (via)

Do chão, iluminada, nasce uma pedra que, perdida e quase póstuma, espera a noite para regressar à morosa moradia do sombrio e sonâmbulo silêncio.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Êxodos e errâncias

Marc Chagall, Êxodo, 1952-66

Mais de 350 anos da chamada Paz de Vestefália tornaram, para nós Europeus, a territorialidade e a soberania, a que posteriormente se adicionou o jogo da cidadania com as suas regras de inclusão e de exclusão, como o modo natural do existir humano. A cada grupo o seu território e as suas leis. E esse longo hábito social e político tornou-nos cegos para a realidade da espécie humana. A errância pelo mundo e o êxodo contínuo de povos e grupos alargados de indivíduos são pulsões tão fortes que não reconhecem os diques que a ordem jurídica trazida à Europa, e através dela ao mundo, pela Paz de Vestefália quer impor à realidade.

Aquilo que assistimos na Europa com a chegada contínua de imigrantes e a eleição, em diversos países europeus, de governantes com programas para liquidar a chegada de migrantes e, se possível, expulsar os que já lá estão é apenas a manifestação do conflito entre a pulsão natural da espécie humana para o êxodo e a artificialidade cultural e jurídica da territorialização das soberanias. No mundo ideal nascido com a Paz de Vestefália, nós teríamos o nosso território e as nossas regras e vós, os outros, o vosso território e as vossas regras. A realidade, porém, é que as fronteiras jurídicas são construções frágeis perante o apelo constante ao êxodo que anima a espécie humana, como se o nosso lugar fosse sempre um outro no qual não estamos.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Um programa político

Hans Zatzka - At the Swan Lake

Olhamos a pintura de Hans Zatzka e facilmente encontramos nela uma imagem, por certo estereotipada, da Áustria. Quem leu Thomas Bernhard tem, contudo, outra imagem da Áustria. O escritor via sob o véu da social democracia e do catolicismo austríacos algo de muito tenebroso, tenebroso que foi o objecto da sua obra. E é esse tenebroso que explicará o novo governo austríaco. Não apenas pela extrema-direita ter voltado, mais uma vez, ao poder, mas porque as três grandes pastas políticas lhe terem sido entregues: Negócios Estrangeiros, Defesa e Interior. Uma economia liberal e uma política musculada. Eis todo um programa político. A Áustria nunca foi um conto de fadas.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Micropoemas - Mármore 4

Ben Kerckx, Paisagem de pedreira de mármore de Carrara, 2007

4. Da terra

Da terra,
a solidão do monte.

Do mármore,
um deus no horizonte.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

sábado, 16 de dezembro de 2017

Ensaios sobre a luz (19)

Herman Leonard, Dancer-Choreographer Martha Graham, Undated

De súbito, da cintilação de uma estrela nascem mãos, e o corpo, leve e luminoso, fulgura e ergue-se da penumbra, onde, por instantes, levita para, agraciado, pousar em graça e luz.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Há-de vir um Natal

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Cheguei àquela idade em que os versos, de David Mourão-Ferreira, “Há-de vir um Natal e será o primeiro / em que se veja à mesa o meu lugar vazio” começam não só a fazer sentido, demasiado sentido, como crescem espectrais sobre mim. Há muitas pessoas que não cultivam o Natal ou, mesmo, que o desprezam. Não me incluo nesse grupo. O meu culto do Natal foi-me trazido por um não crente, o meu pai. E nunca passou. Nesse culto, eduquei os meus filhos, e espero que eles eduquem os meus netos. Há uma coisa, porém, que se alterou radicalmente. Antigamente, o Natal era marcado pelas presenças. Agora, pelas ausências. E com o passar vertiginoso dos Natais, o meu lugar vazio à mesa está cada vez mais próximo.

Ora, no Natal, o doloroso não é o sentimento desse dia em que não estaremos já presentes, nem o dia em que não haverá ninguém na terra que de nós se recorde. Se olho para esse facto póstumo, nada nele me comove a não ser que outros, devido à minha ausência, se tornarão, para mim, ausentes. Doloroso não é perdermo-nos a nós, mas é perdermo-nos daqueles que mais amamos. O Natal surge assim, na sua plenitude, como uma celebração da presença. Que isso tenha sido sublinhado por um mito, onde se narra que nascido do seio virginal de uma mulher o filho de Deus se tornou presente no mundo, é irrelevante. Podemos dizer que o filho de Deus veio ao mundo para que nós, pobres mortais, possamos celebrar a vida e a precariedade da presença dos que aqui estão.

Quando na mesa de Natal começa a haver ausências, percebemos que há alguma coisa errada na exuberância que tomou conta da quadra festiva. O excesso de luzes pelas ruas, o turbilhão comercial que sobre nós desaba, a necessidade de presentear, no excesso que as nossas sociedades exigem, os próximos, tudo isso surge como um véu para ocultar a realidade. E a realidade é a da fugacidade da nossa presença sobre a terra, a fugacidade da presença dos que amamos.

Este Natal mundano e mercantil, ah o velho fetiche da mercadoria, aquele que nos cabe viver no tempo presente, é não apenas um adversário poderoso desse outro Natal, mas um inimigo terrível e sem complacência. O Natal do mito fala-nos da presença para sublinhar que mesmos os que deixaram o seu lugar vazio ainda fazem parte de nós e da pequena comunidade que se reúne à mesa. O Natal da realidade de hoje é um exercício falso de alegria cuja finalidade é esquecermos o que nunca deveremos esquecer. Sim, eu sei: “Há-de vir um Natal e será o primeiro / em que não viva já ninguém meu conhecido”.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Credo quia absurdum

Raymond Daussy - Icarus flight (1948)

Talvez um dia destes fale sobre Tertuliano. Tudo é possível. Hoje, porém, fico-me pela frase latina Credo quia absurdum,  Creio porque é absurdo. O que me interessa não é a polémica religiosa entre o fideísmo e a ortodoxia, tão pouco o desafio que ela apresenta à razão filosófica. A frase de Tertuliano é um óptimo guia para determinar a verdade dos acontecimento políticos de hoje em dia. Há tempos, muito se falou – por exemplo, na sequência do Brexit ou da eleição de Trump – numa era da pós-verdade. Erro de perspectiva. A nova era não nega a verdade, diz-nos apenas que o verdadeiro é absurdo. As pessoas lamentam-se de que, em política, não sabem o que acreditar e em quem acreditar. A solução é fácil: quanto mais absurdo mais digno de ser considerado verdade. Um acontecimento é absurdo, logo é verdadeiro. Um personagem político é absurdo, logo é digno de crédito. Qualquer argumento político que se possa reduzir ao absurdo deve ser considerado válido. Tertuliano, na verdade, era um visionário. Da longínqua Cartago dos século II e III da nossa era, ele olhou para o futuro e compreendeu a essência dos nossos dias: Credo quia absurdum.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Ensaios sobre a luz (18)

Francisco Mora Carbonell  - A la cita, Spain, 1935

Sob a luz que rasga as trevas, o amante caminha inquieto e sôfrego para a sofreguidão dos braços que a amada na inquietude da espera lhe estende.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Micropoemas - Mármore 3

Cascatas de calcário na Turquia, Egeu

3. Calcário

Calcário,
cidade sem fim.

Brancura,
morte a sonhar-se em mim.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

domingo, 10 de dezembro de 2017

Alma Pátria - 40: Francisco José - Olhos Castanhos



Este era também um dos "cromos" que não poderia faltar nesta "colecção" de Alma Pátria. Temos a reprodução da edição de Olhos Castanhos em 78 rpm, a primeira gravação, efectuada pela etiqueta Estoril. Foi graças ao blogue IÉ-IÉ que descobri que Francisco José é irmão do cientista Galopim de Carvalho, esse mesmo, o dos dinossauros. Olhos Castanhos é uma magnífica canção, talvez a mais conhecida de Francisco José. Talvez fosse mais indicado uma outra, Guitarra Toca Baixinho, mais de acordo com o espírito da rubrica. Mas fiquemos pela taxonomia dos olhos, que não deixa de ser um catálogo de fidelidades e traições. Se não tiver olhos castanhos, paciência. Acontece aos melhores.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Ensaios sobre a luz (17)

Dennis Stock, Venice Beach Rock Festival. California, 1968

A luz do Verão nasce no centro do mar e derrama-se, furtiva, no desejo dos corpos que, entediados, esperam a revelação de um segredo ou da volúpia de uma deusa.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Descrições fenomenológicas 30. Algumas mulheres 3

Rothko, N.º 5, 1964

Foi assim que a vi pela última vez. Um fundo negro, de um negro mais espesso que a noite, onde o rosto fulgurava na púrpura da escuridão. Não falava com ninguém, pois não havia quem dela se aproximasse. Olhava, com os olhos azuis, demasiado azuis, para um ponto indefinido. Os lábios deveriam ter incendiado muitas paixões, mas agora não havia neles nada que cantasse, nem sequer a promessa de um amor de ocasião. Estavam fechados, como fechada estava a face. Não havia sombra de desafio, nem uma nuvem de desilusão. As narinas, por vezes, abriam-se ligeiramente para deixar passar o ar. Nessas alturas, as pálpebras tremiam e o brilho dos olhos diminuía, mas logo se recompunha. Quem a via poderia pensar que esperava, mas nada o indicava, pois nela não ardia a tocha do desejo. A mão direita saiu da obscuridade e pousou no pescoço. Os dedos finos e compridos, belos como os olhos, eram agora ramos que nasciam do corpo. Os anos ainda não tinham passado por eles. Seguravam, na sua palidez, o fulgor que se desprendia do silêncio do rosto.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Uma comédia

Jean-Louis Hamon - La comedia humana (1852)

Fátima Bonifácio terminava o seu artigo no Observador, sobre a eleição de Mário Centeno, assim: Sintomaticamente, as reacções mais do que reservadas do PCP e do Bloco à promoção europeia de Mário Centeno foram mais do que cautelosas. António Costa que se cuide. Mais do que uma aviso a Costa, a articulista estava a expressar um desejo. Um desejo, aliás, partilhado por largos sectores da direita. Esse desejo não é outro senão que o BE e o PCP façam o trabalho que a direita parece incapaz de fazer: derrubar o governo para que ela, direita, retorne ao poder.

Ontem, por um acaso, ouvi, na SIC Notícias, Mariana Mortágua dizer, sobre a eleição de Centeno, duas coisas. Primeira, que a eleição de uma pessoa não implica uma alteração das políticas de uma instituição e que não é expectável que haja qualquer novidade vinda do Eurogrupo. Segunda, que sempre houve uma divergência de fundo entre o BE e o PS sobre as questões do euro e das políticas que estão com ele relacionada. Apesar disso, acrescentou, tem havido condições para um acordo político. Não muito diferente será a posição do PCP.

O interessante é a conjugação das duas afirmações. Dito de outra maneira. No plano dos princípios, há uma divergência entre o PS e os partidos à sua esquerda. No entanto, e apesar da posição socialista implicar o respeito pelas políticas europeias, essa divergência não é fundamental. Não tem a importância suficiente para impedir um acordo e uma convergência de esforços das esquerdas. Há duas maneiras de ler a situação. Uma é a desejada pela direita: que esta divergência cause o colapso da geringonça. A outra é aquela que a direita teme e recalca: na prática e apesar de alguma retórica, BE e PCP aceitaram as regras do jogo e os princípios de equilíbrio orçamental e de combate ao défice público.

Dois anos de governação e três orçamentos parecem provas empíricas suficientes para suportar esta última afirmação. Por que razão a esquerda – que a direita, em desespero de causa, não se cansa de chamar radical – aceitou as regras do jogo? A coisa explica-se em poucas palavras: a Grécia e a governação Syriza. Quem quer copiar, seja onde for no mundo ocidental, as peripécias dos primeiros tempos do Syriza? Quem quer sofrer a humilhação que este sofreu? Os partidos políticos também aprendem.

O resultado de tudo isto não deixa de ser caricato. A grande clivagem política que animou o debate público, nos últimos dois anos, sobre a governação do país era pura e simplesmente inexistente. De uma maneira ou de outra, uns através dos princípios e outros através das práticas têm estado de acordo. Estas encenações com as suas liturgias, contudo, não servem apenas para satisfazer as clientelas ideológicas dos partidos. Servem também para esconder a sua falta de ideias sobre o que fazer do país. Na verdade, uma comédia. E é aqui que está o problema.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Micropoemas - Mármore 2


2. Pedras

Pedras,
fantasmas no fundo da serra.

Jazem mortas,
frias para quem as espera.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Um tronco cortado

Jean Dieuzaide, Vacances dans ma maison, cytologie, 1975

Olhamos para o tronco cortado e, no lugar de vermos o trabalho da morte, descobrimos o fascínio de uma geometria que nos faz imaginar símbolos que remetem para mundos desconhecidos ou sinais de um segredo que, sem sabermos porquê, sentimos que queremos desvendar. A morte na figura do animal, com a putrefacção da carne e do sangue, causa-nos nojo e horror. A morte no mundo vegetal acorda em nós sonhos e desejos que nos conduzem ao louvor da vida.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A eleição de Centeno

Alfonso Parra Domínguez - Realidad dialéctica (1977-78)

Nota-se, em certos sectores da direita, mais activos nas redes sociais, um certo ressentimento com a eleição de Mário Centeno. Esse ressentimento manifesta-se, por vezes, de forma enviesada. Anunciam que o BE e o PCP tiveram de engolir mais um grande sapo. Contudo, isto não passa de um equívoco. Quando esses partidos estabeleceram os acordos de governo com o PS, imaginavam que este se tinha transformado num partido revolucionário anti-europeu, um partido que estaria disposto a emular os primeiros tempos do Syriza na Grécia? É evidente que tanto PCP e BE sabiam bem, muito bem, que tipo de partido era o PS. Sabiam também que este, no governo, não desafiaria o essencial da ortodoxia que rege o euro. BE e PCP não foram ao engano. Só para a direita foi uma surpresa o caminho que o país seguiu com a actual solução política.

Dirá essa mesma direita, desesperada por BE e PCP não derrubarem o governo para que ela volte ao poder, que isso contraria aquilo que ambos os partidos defendem. Talvez. No entanto, desconfio que tanto os eleitores do BE como os do PCP estão muito longe de quererem um novo resgate ou uma aventura que conduza ao enfrentamento com a União Europeia e à saída do Euro. Mesmo para comunistas e bloquistas a saída do Euro poderia ser devastadora para os seus partidos e, portanto, não estão dispostos a criar um problema em que se corre o risco de todos perderem, talvez eles mais que todos os outros. Também BE e PCP sabem, e o PCP sabe-o há muito, que a política é a arte do possível e percebem que há que conformar os princípios aos interesses dos seus eleitorados. Coisa que todos fazem. A realidade é o que é.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Ensaios sobre a luz (16)

Andre de Dienes - Paris, 1936

O silêncio nascido da luz abre-se como um vendaval a rodopiar na noite que despiu as árvores para as revestir com a gélida glória das névoas de Dezembro.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Gravitas

A minha crónica em A Barca.

Os antigos romanos possuíam quatro virtudes que estimavam acima de todas as outras. A pietas (piedade), a dignitas (dignidade), a iustitia (justiça) e a gravitas (gravidade). A tradução portuguesa de gravitas por gravidade não consegue reter a riqueza e densidade semântica do vocábulo latino. Literalmente, gravitas significa peso. Este peso, todavia, não é um peso físico mas moral. O peso que alguém ostenta devido à profundidade da personalidade, à seriedade, à responsabilidade e ao fundo compromisso com o dever. A gravitas foi vista como o pilar do gentleman inglês nas épocas Vitoriana e Eduardina. Até ainda bem dentro da segunda metade do século XX, um político que se prezasse ostentava a gravitas como forma de legitimar a sua presença no poder.

Sem se perceber muito bem porquê, talvez devido aos eflúvios do Maio de 68, a gravitas deixou de ser uma virtude que um homem político devesse ostentar. Talvez as câmaras da televisão, depois da grande revolução dos costumes, convivam mal com personagens graves, profundas e sérias. Elas precisam de outro tipo de actor político para animar o show business. Ora a decadência da gravitas não representa apenas a substituição de políticos com peso na sociedade por políticos cuja característica seja a leveza. A diluição da gravitas arrastou com ela o desaparecimento dos atributos que a compunham. Não apenas desapareceram as personalidades profundas, como desapareceram o culto da seriedade, da responsabilidade e o compromisso com o dever. Não vale a pena dar exemplos tanto em Portugal como por essa Europa fora. Talvez com a excepção da senhora Merkel, o mundo político é risível.

Em tudo isto há um sintoma de uma doença profunda que atinge as nossas democracias. Essa doença, porém, não tem a sua origem nas elites políticas mas nos cidadãos e nas comunidades. Estas, com o desenvolvimento da democracia e do bem-estar, tornaram-se complacentes com as elites dirigentes. São os eleitores que permitiram, primeiro, e exigiram, depois, que a gravitas desaparecesse da vida política. São elas que escolhem políticos risíveis, que veneram gente irresponsável. São elas que desligaram, nas suas concepções de vida e de comunidade, a relação entre dever e política. Assim como os monarcas absolutos, no Antigo Regime, se libertaram da tutela do papado, também os políticos actuais estão a libertar-se da tutela dos cidadãos. Estes são agora cúmplices da leveza com que as elites governativas tratam do bem público. Ora, contrariamente ao que se possa pensar, a democracia não é um regime irrevogável. Um dia poderá cair por falta de gravitas.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Micropoemas - Mármore 1

Imagem daqui

1. Branca cal

Branca cal
tisnada de cinza e sangue.

Rumores de outono e vida exangue.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)