terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Em louvor dos gregos



"(...) E um dos sacerdotes [egípcios], que era muito velho, disse-lhe:
- Sólon, Sólon, vós, os Gregos, sois sempre crianças; um Grego não pode ser velho.
Ao ouvir isto, ele perguntou:
- O que queres dizer com isso?
- Sois todos jovens na alma - disse ele. - De facto, nenhum de vós tem nela opiniões antigas, recebidas por tradição, ou qualquer conhecimento encanecido pelo tempo. E a razão para isso é a seguinte. Os homens têm sido e continuarão a ser destruídos de muitas e variadas maneiras, as mais terríveis das quais se devem, quer ao fogo, quer à água, devendo-se as menos importantes a uma miríade de razões diversas." [Platão, Fédon 22 b-c]

Talvez os gregos sejam eternas crianças, como sublinhava o sacerdote egípcio na conversa com Sólon. Talvez por isso estejam na dramática situação em que se encontram. O ímpeto de um povo sempre juvenil te-lo-á deixado nas mãos de prestamistas e usurários sem escrúpulos. Mas o mais curioso deste excerto do Fédon de Platão reside no facto da repreensão dirigida a Sólon - o desconhecimento da tradição - ser hoje em dia aplicável não aos gregos mas àquela Europa que se prepara para os abandonar às mãos de um destino feroz. A Europa rica e protestante, uma Europa que nasceu ontem sob a égide da revolta de Lutero contra a tradição, não compreende o que representa a Grécia e o legado grego para todos nós. A única coisa que parece preocupar esta gente é castigar um povo mal comportado e irresponsável.

Que tudo o que nós somos se deva, em última análise, aos gregos não comove esta gente bárbara. A única coisa que os move e comove é o dinheiro. É um facto que ninguém deve viver acima das suas posses. Mas também é um facto que todos os bens imateriais recebidos dos gregos representam hoje em dia muito dinheiro. Sem os gregos não teríamos democracia, nem ciência, nem arte tal e qual a compreendemos hoje. Sem tudo isso, seríamos infinitamente mais pobres, mais cruéis, mais selvagens. Que um conjunto de políticos radicais tenha empurrado a Grécia para a situação em que se encontra espelha bem que se está entregue a gente que não conhece a tradição. Sim, os gregos são eternas crianças, mas a elite política europeia não é menos infantil que os gregos. 

Aquilo que mais me envergonha, porém, reside no tique que está presente na governação portuguesa, nessa tentativa triste e cobarde de dizer que não somos como os gregos. Infelizmente, é verdade. Nós não somos como os gregos, de facto. Não tivemos um Homero, um Sófocles, um Ésquilo, um Eurípides, uma Safo, um Platão, um Aristóteles, um Fídias, um Píndaro, um Hesíodo, etc., etc., etc., num nunca mais acabar de construtores dos alicerces da cultura ocidental. De resto, temos sido tão infantis quanto os gregos. O supremo traço da nossa infantilidade reside nessa coisa absurda de querermos ser bons alunos de gente bárbara. Haverá coisa mais triste que um povo com 900 anos se queira ainda apresentar, através dos seus governantes, como eterno aluno bem comportado? No fundo, o que esta gente espera é que, na Europa, pensem como os professores: "bem, são um bocado estúpidos, mas como são bem comportados, passam com 10 valores". É este o verdadeiro significado da metáfora do bom aluno. Antes fôssemos gregos.