sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

José Afonso


A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Fez ontem 25 anos que morreu José Afonso. Vale ainda a pena reflectir sobre a música do mais importante cantor português de intervenção. Divido a reflexão em duas partes. Uma relativa aos aspectos menos interventivos da sua obra. Outra focada na música de intervenção.

São as canções de José Afonso menos comprometidas com a intervenção política que mais me interessam e agradam. No entanto, seríamos ingénuos se olhássemos para esse cancioneiro desprovido de qualquer valor político. Pelo contrário, ele remete para a recuperação da música popular portuguesa, fornece um fio de ligação à nossa identidade, recriando-a e reinventando-a. Há, no século XX, três figuras essenciais da nossa música popular. Amália Rodrigues, José Afonso e Carlos Paredes. Neles, podemos escutarmo-nos enquanto povo, enquanto comunidade de destino. Nesta área, José Afonso, como Amália e Paredes, é absolutamente extraordinário. A generalidade dos álbuns feitos antes do 25 de Abril remetem para a raiz mais funda da nossa cultura. São um exercício puro de patriotismo.

A parte que menos gosto na obra de José Afonso é a de intervenção. Aparentemente é datada. No entanto, se ouvirmos canções como “Coro dos Tribunais”, “Vampiros” ou “Como se Faz um Canalha” percebemos que há ali qualquer coisa de universal. Chacais, vampiros e canalhas são produzidos continuamente e a grande velocidade, na generalidade das situações sociais. Não tenho qualquer ilusão sobre um regime político em que a esquerda governasse sem oposição de direita e no qual a economia de mercado fosse destruída. Não faltariam aí, como não falta na vida político-social de hoje, chacais, vampiros e canalhas. Por isso, não partilho da utopia política de José Afonso. Mas a pureza que ele pôs no seu canto e na forma como se entregou à política são importantes fontes de inspiração para a mobilização popular contra o radicalismo e fanatismo dos actuais senhores do mundo.

A vida social, de forma crua, não é mais que o confronto entre forças opostas. O importante seria que as elites políticas tentassem gerar equilíbrios sociais, contribuindo para a paz pública e a coesão das comunidades. Sabemos que, desde a vitória do eixo Thatcher-Reagan, os políticos ocidentais defendem apenas uma parte da sociedade, a mais pequena e a mais poderosa, em detrimento da imensa maioria. Ora é importante que esta imensa maioria se faça ouvir para obrigar a novos reequilíbrios. A música de José Afonso, desse ponto de vista, continua a ser profundamente inspiradora.