A Sonata de Invierno (1905) termina o ciclo de quatro
pequenos romances dedicados às memórias amorosas do marquês de Bradomín, talvez
o mais admirável dos Don Juan, pois, segundo uma tia, era feio, católico
e sentimental. A personagem de Bradomín permitiu, principalmente neste último
romance, a Valle-Inclán fazer uma exploração romanesca sobre o carlismo,
movimento político antiliberal, defensor do Antigo Regime e oposto tanto aos
republicanos como aos monárquicos constitucionalistas. O movimento organizou-se
em torno de Carlos VII. Xavier Bradomín, nesta Sonata, está na cidade de
Estella, em Navarra, onde se encontra a corte do pretendente ao trono de Espanha,
aquando de mais um conflito entre constitucionalistas e absolutistas.
As Sonatas, no seu conjunto, são um autêntico
exercício de desconstrução. A estratégia levada a efeito por Valle-Inclán
reside no dissimulado contraste entre aquilo que a personagem do Marquês
proclama e o modo como é reconhecido pelas outras personagens, por um lado, e,
por outro, o que o desenrolar da acção romanesca nos mostra. A estratégia é
subtil por que foge ao modelo da demonstração. Aquilo que é afirmado pelo
Marquês e pela envolvência é que estamos perante um Don Juan, um católico e um
tradicionalista fiel a Carlos VII. O que acontece é que os seus actos e, muitas
vezes, as próprias opiniões em vez de confirmarem a tese, acabam por contradizer
tanto a sua natureza donjuanesca, como o seu catolicismo e o seu carlismo. O
autor constrói a personagem do marquês a partir da tensão entre um ideal, dado
pelas três características referidas, e uma existência que, apesar daquilo que
o discurso sublinha e engradece, não tem a potência para realizar esse ideal. O
glorioso marquês é, a todos os títulos, um falhado.
As aventuras amorosas, quase todas, são inconsequentes ou,
mesmo se chegam à consumação sexual, há nelas mais um rasto de derrota do que a
afirmação de um D. Juan coleccionador de vítimas, que abandona e esquece. Na Sonata
de Inverno, apesar de uma noite fogosa com uma antiga amante aquando da sua
chegada à corte de Carlos VII, os seus dois objectivos eróticos – evitar que
essa amante opte pelo marido em detrimento dele ou o consumar da sedução de uma
jovem educanda num convento – saldam-se da mesma maneira, com um beijo apenas,
na verdade um beijo de despedida. Esta natureza equívoca do grande conquistador
desenha-se em todas as outras Sonatas, de forma mais acentuada nas de
Primavera e de Outono. O donjuanismo é, na verdade, um elemento ideológico e
não uma forma de agir ou um modo de existência. Esta visão de Valle-Inclán da
figura de D. Juan é uma das mais interessantes, pois desmonta o mito –
reduzindo-o a mera ideologia, no sentido marxiano de imagem invertida da
realidade – através de um processo que, um leitor ingénuo, acreditará que o
reforça.
Em qualquer das Sonatas o apregoado catolicismo de
Bradomín choca com a sua aura erótica, mesmo que frustrada. Apesar de ser uma
espécie de D. Juan anti-D. Juan, o marquês não deixa de se envolver numa
ambiência sensual, na qual mergulha a generalidade dos contactos com o feminino.
Os casos consumados ou não com mulheres casadas conflituam com um dos
mandamentos que regem a moralidade católica, o de não cobiçar a mulher do
próximo. No entanto, o autor é um modernista e como tal não deixa de ser
tentado a desafiar as convenções e as próprias convenções religiosas. Tanto na Sonata
de Primavera como na Sonata de Inverno o marquês seduz, embora sem
consumação sexual, duas candidatas aos votos religiosos. No caso da irmã
Maximina, na Sonata de Inverno, há que juntar um outro ingrediente. Há a
suspeita de que ela seria filha bastarda do próprio marquês, feia como ele.
Desrespeito pela sacralidade do matrimónio, tentativa de destruição através da
sedução de vocações religiosas e indiferença perante a possibilidade de incesto,
casos que não geram nele nenhum traço de arrependimento, dão a medida da
natureza meramente ideológica do catolicismo de Xavier Bradomín.
Resta o seu tradicionalismo, a sua fidelidade a uma
aristocracia medieval e à glória antiga de Espanha. Já na Sonata de Verão,
passada no México, a revivescência da glória imperial de Espanha, à qual o
carlismo se declarava fiel contra a visão dos liberais, é atravessada por uma
funda ironia. Na Sonata de Inverno, toda ela perpassada por
acontecimentos da história política de Espanha da época em que decorre a acção
romanesca, vemos o marquês próximo da Corte, a sua intimidade com Carlos VII, o
risco que corre pela causa e até a perda de um braço num recontro com as forças
militares inimigas. É aqui que, ao contrário do que tinha acontecido até aí, o
discurso vai desmentir a acção. O que será o carlismo e a causa absolutista
para o marquês, ele que combate e dá um braço pela causa de Carlos VII?
Oiçamo-lo. “Eu achei sempre mais bela a majestade caída que sentada num trono,
e fui defensor da tradição por estética. O carlismo tem para mim o encanto solene
das grandes catedrais, e já nos tempos da guerra ter-me-ia contentado que o
declarassem monumento nacional. Bem posso dizer, sem jactância, que como eu
pensava o Senhor.”
Quase no fim da obra, Valle-Inclán deixa a chave decisiva
para compreender a personagem Xavier Bradomín, esse falhado D. Juan, falhado
católico e falhado carlista. “Eu não aspiro a ensinar, mas a divertir. Toda a
minha doutrina está numa só frase: Viva a bagatela! Para mim, ter aprendido a
sorrir, é a maior conquista da Humanidade.” A equivocidade do marquês não o
aproxima da personagem de D. Juan, mas de D. Quixote. Bradomín é um Quixote dos
tempos modernos, um esteta que se diverte com aquilo que finge ser, que ri das
suas crenças e da sua falência existencial.