domingo, 3 de abril de 2022

A Garrafa Vazia 83

Elmer Bischoff, #88, 1985

Tiro do braço partido

o gesso carbonizado

da cólera.

Olho em silêncio

a pele esbranquiçada,

adivinhando

o osso recomposto,

a vida refeita,

a incúria a grassar

nos recantos do quintal.


Abril de 2022

 

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Voltámos à Montanha Mágica


Imaginemos que estamos na montanha mágica, no sanatório de Davos, onde se desenrola o romance de Thomas Mann, precisamente com o título de A Montanha Mágica, obra começada a escrever em 1912 e terminada em 1924. Façamos ainda um esforço imaginativo e pensemos o mundo como se fosse esse jovem engenheiro naval de nome Hans Castorp, personagem principal do romance de Mann.

Olhemos para o que acontece em torno do jovem Castorp. A educação do seu espírito é disputada, não sem violência, pelo italiano Lodovico Settembrini e pelo judeu oriental – talvez, imaginemos, um sefardita – Leo Naphta. O italiano é o representante do Iluminismo, da democracia liberal e da liberdade individual. Naphta é um converso ao catolicismo, mas a um catolicismo ultramontano, integrista. É um espírito jesuítico exaltado que despreza as liberdades individuais e defende um colectivismo meio comunista, meio eclesiástico.

O espantoso neste exercício de imaginação é que descobrimos de imediato que o mundo, no século XXI, caiu na montanha mágica, onde duas forças se opõem de modo cada vez mais violento. Por um lado, o mundo ocidental, tomando a figura de Lodovico Settembrini. Como este, o Ocidente é marcado pelo espírito liberal, pela defesa da democracia representativa, pela economia de mercado, pela afirmação plena da liberdade individual. O mundo, todavia, não é apenas o lugar dos amigos do italiano imaginado por Mann. 

Nele, há muitos discípulos de Leo Naphta. O terrorismo islâmico, por exemplo, não desdenharia de Naphta, as seitas neopentecostais também não, assim como os católicos ortodoxos que desprezam o Papa Francisco, ou a extrema-direita europeia e americana. Contudo, a manifestação mais clara do espírito de Leo Naphta encarna neste momento em Putin e no Patriarca moscovita Cirilo. A invasão da Ucrânia não é outra coisa senão uma luta contra a liberdade, a democracia liberal, o respeito pelos indivíduos. Faz parte da actual guerra contra a herança do Iluminismo.

Voltámos ao tempo do conflito entre as Luzes e o clericalismo farisaico e supersticioso, entre a ideia de império e o cosmopolitismo. Só que este conflito, não se faz com palavras e exercícios de retórica para cativar um espírito jovem e indeciso. Faz-se com a destruição massiva de um país, com o massacre de inocentes, com tudo aquilo que a guerra traz consigo. Voltámos para a montanha mágica e o que vemos não é agradável. Em silêncio, sentado à sombra do velho Confúcio, outro personagem espera que Settembrini e Naphta se aniquilem. O espírito de Hans Castorp, então, será seu, assim como a montanha mágica. Sem disputa nem controvérsia.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Nocturnos 76

Michael Kenna, La Place de la Concorde

A noite não é a luz que a ilumina, nem a presença da pura escuridão, nem o nó em que o dia se aperta ao desaparecer. A noite é apenas a memória que se apaga, o esquecimento que turva, com densa melancolia, a claridade que se espera.

segunda-feira, 28 de março de 2022

Simulacros e simulações (32)

W. Eugene Smith, Ku Klux Klan meeting. South Carolin, USA, 1950’s

Imaginam-se heróis com causa, simulam-se como seres superiores, uma raça eleita. Não passam, porém, de simulacros de homens, cópias falhadas de um modelo que os rejeitou para os confins esconsos da infra-humanidade.

sábado, 26 de março de 2022

A persistência da memória (10)

Bernard Eilers, Amsterdão, 1920

Um século atrás ainda as cidades eram pouco mais do que uma espécie de excrescência da harmonia dos campos, onde a vida apressada era vivida à velocidade da tracção animal, não muito diferente do que seria há séculos ou milénios. O demónio da mobilidade já as habitava, mas ainda não ganhara coragem para se manifestar de forma decisiva e tornar a vida citadina numa ebulição contínua, num nunca parar da azáfama que envolve os homens num torvelinho, girando continuamente sobre si, cada vez mais rapidamente, expulsando-os um a um para o lugar de onde não há retorno.

quinta-feira, 24 de março de 2022

A Garrafa Vazia 82

Raoul Dufy, La cosecha, 1919

A seara suja ondula

ao sabor do sangue,

movida pelo ritmo

diurno da escuridão.


A seara suja flutua

sobre o silêncio,

cravejada de rubis:

coroa da crueldade.


Março de 2022

 

terça-feira, 22 de março de 2022

Guerra metafísica

Giorgio de Chirico, Gladiadores y león, 1927
Uma guerra metafísica pela salvação humana, assim considera Cirilo, patriarca de Moscovo e líder da Igreja Ortodoxa Russa (ver aqui), a invasão da Ucrânia. Como se vê, não é apenas no mundo islâmico que a guerra é vista como um meio de salvação e de fazer frente aos infiéis. O pior é que Cirilo e Putin estão completamente alinhados. Não se trata de ocupar um país soberano, mas de salvar  o mundo, libertá-lo dos perigosos valores ocidentais. Esta resistência aos valores ocidentais e a defesa dos valores tradicionais russos estão, inclusive,  plasmadas na Nova Estratégia de Segurança Nacional da Rússia. Quando as guerras são por motivos económicos, a sensatez chega mais cedo. Quando são desencadeadas pela loucura de salvar a humanidade ou para proteger a pureza de uma suposta tradição, há que esperar o pior. E o pior começa com a mobilização de uma religião, cujo fundador deu a sua vida em nome da salvação dos homens. Deu a sua, não a dos outros. Ao patriarca Cirilo não o incomoda que o sacrifício não seja o seu, mas o de milhares de inocentes. 

domingo, 20 de março de 2022

Nocturnos 75

Jerry Schatzberg, Red Hat, Faye Dunaway, 1968
Por vezes, no mundo, não há outra luz senão a que vem de um rosto que fugiu do império da escuridão. Nessa luminosidade, articula-se a gramática que estende uma corda entre as trevas da meia-noite e a mais pura cintilação do meio-dia.

sexta-feira, 18 de março de 2022

A ilusão de um outro mundo

Um dos danos colaterais da guerra na Ucrânia aconteceu na esquerda do sistema partidário português. O bombardeamento caiu em cima do Partido Comunista e muitos estilhaços atingiram o Bloco de Esquerda, apesar de ter sido mais lesto e competente em distanciar-se da invasão russa. A guerra na Ucrânia está a ser sentida de forma muito traumática pelas opiniões públicas europeias. Há nessas reacções várias coisas. A estupefacção pela invasão de um país europeu por outro, a brutalidade da intervenção, a incompreensão das razões que assistem aos russos, a percepção de que estes se tornaram um perigo para segurança da Europa. No caso português, também a simpatia que os imigrantes ucranianos geraram no convívio com os portugueses.

Até à Queda do Muro de Berlim, essa esquerda viveu na crença de que havia um mundo melhor do que aquele em que vivemos. Fosse a União Soviética, a China maoísta ou a Albânia. O mundo ocidental – democrático e liberal – era aquilo que deveria ser destruído, trocado por outros mundos inspirados nas revoluções comunistas. Com o fim dos regimes de leste, muitas pessoas compreenderam que aqueles eram altamente ineficientes, corruptos e opressivos. Compreenderam que não havia qualquer mundo melhor que pudesse ser trazido por uma revolução. Os europeus sentiram que viviam no melhor dos mundos possíveis, um mundo mais eficiente, menos corrupto e muito mais livre. Esse mundo é o que é defendido pela NATO, pelos EUA e pela União Europeia, com todos os defeitos e perversões que se conhecem.

Foi o ataque frontal a este mundo pelo PCP e, embora de modo mais dissimulado, pelo BE que fez desabar sobre eles uma tempestade. Estes partidos continuam a viver na ilusão de uma alternativa às democracias liberais. Crêem que as forças que impedem o advento desse admirável mundo novo são a NATO, os EUA e a União Europeia. Em tempos normais, com excepção das pessoas mais politizadas, ninguém se preocuparia com estas crenças. Num momento altamente traumático como o actual, a opinião pública revoltou-se e não compreendeu a posição perante a Rússia ou os ataques ao Ocidente.  Na verdade, existem alternativas à democracia liberal. Na Rússia, na China, na Arábia Saudita, no Irão, na Venezuela, na Turquia, na Coreia do Norte, em Cuba, etc. Alguém estará interessado em viver nesses regimes? As democracias liberais não são perfeitas. Longe disso, mas são o melhor que a humanidade conseguiu imaginar para assegurar uma vida em sociedade decente. Do ponto de vista moral, qualquer alternativa é pior, muito pior.

quarta-feira, 16 de março de 2022

A Garrafa Vazia 81

J. G. Platzer, La venganza de Sansón
Deixa de lado
taça e copo,
abraça
com a boca
o gargalo
e embriaga-te
com o vinho azedo
das uvas tintas
da vingança.

Março de 2022

 

segunda-feira, 14 de março de 2022

Beatitudes (50) Lentidão

Jenoe Dulovits, Dusty Street, Austria/Hungary, 1937 

Vivemos siderados pela potência das máquinas e pela vertigem da velocidade, numa tentativa desesperada de eliminar o tempo. Ansiamos sempre por ir mais depressa. A exuberância do desejo, porém, oculta uma infelicidade insuportável, a de já não sermos capazes de nos enraizarmos num lugar e de nos deslocarmos segundo a lenta mobilidade que a biologia, humana ou animal, permite. A infelicidade de não sabermos como lidar com o tempo, de não sabermos abrirmo-nos à beatitude da lentidão.

sábado, 12 de março de 2022

Nocturnos 74

Jackson Pollock, Night Sounds, 1944
Não é a púrpura da morte que chega com a noite, nem o vitríolo da melancolia. Tão pouco é o núcleo insaciável da loucura que entra e se instala no sono para desfigurar os sonhos. O que a noite traz é a insalubridade dos sons. Chegam sem fronteiras, ecoam no vazio das ruas. Retinem por dentro do cavalo da insónia.

quinta-feira, 10 de março de 2022

A persistência da memória (9)

Edward Weston, Wrecked Car, Crescent Beach, British Columbia, 1939

O que restará nos objectos que o tempo, a incúria ou a maldade dos homens destroem? Se um dia foram olhados e acolhidos com desejo, talvez nos destroços persista esse desejo. Se foi o amor que os juntou aos homens, pois estes também amam os objectos, será uma réstia de amor que haverá no que naufragou. Se, porém, foram vítimas do ódio e da violência, então as ruínas guardarão em si não apenas a dor, mas o ritmo da violência e a energia do ódio.

terça-feira, 8 de março de 2022

A Garrafa Vazia 80

John Constable, Cloud Study, 1822
Deixa-te de alvoroços.
Os dias são nuvens
carregadas de pedras,
ardis de onde desabam
o calcário da traição
e o granito da aleivosia,
a água sulfúrea
com que atulhas
os cântaros do abandono.

Março de 2022

domingo, 6 de março de 2022

Ucrânia: tentar compreender o inaceitável

Independentemente do que significa o acto de agressão à Ucrânia no contexto geoestratégico, independentemente da sorte das armas, pode-se tentar compreender – e compreender não é justificar – as motivações do Kremlin para uma atitude inaceitável. A tarefa não é fácil pois, como acontece com o terrorismo islâmico, a cultura política que Putin e o seu círculo trouxeram é-nos absolutamente estranha. Três palavras podem ser chave para o início da compreensão das motivações russas: segurança, organicismo e tradição.

Segurança. Em Julho de 21, Vladimir Putin promulgou a nova Estratégia de Segurança Nacional da Rússia. Nela é sublinhado que a NATO é o principal inimigo. A aproximação da organização militar ocidental das fronteiras russas, a grande ameaça. A hipotética adesão da Ucrânia à NATO representaria, assim, um perigo extremo e intolerável à segurança da Rússia. O que é estranho é que se estava longe de esgotar as possibilidades de assegurar, por via pacífica, uma neutralidade de Kiev. Não se estava perante um perigo iminente para a segurança de Moscovo. Outras motivações contribuíram para a decisão.

Organicismo. Em Março de 18, no The New York Review, o historiador Timothy Snyder escreve um longo ensaio com o título “Ivan Ilyin, Putin’s Philosopher of Russian Fascism”. Snyder desenha o trajecto desse obscuro filósofo russo, defensor do fascismo e do nazismo, chamando a atenção para o facto de Putin e os que o rodeiam serem profundamente influenciados por ele. Possuía uma visão orgânica da sociedade russa (esta seria um corpo vivo), na qual se incluía a própria Ucrânia, cuja existência separada era negada por Ilyin. A tomada da Crimeia e o apoio aos separatistas russos do Donbass são um passo de reconstituição desse organismo vivo – e sagrado – que é a Rússia. Como se percebeu das palavras de Putin, antes de desencadear a invasão, a Ucrânia não tem razão de ser, faz parte do corpo vivo – dotado de alma – que é a Rússia. Na invasão, a aposta mínima será a Crimeia e, talvez, o Donbass, mas o melhor seria trazer a Ucrânia e reconstituir esse grande organismo vivo, sagrado e mártir que é a pátria russa.

Tradição. No documento da Estratégia de Segurança não existem apenas questões militares. Há outras a que nós, ocidentais, não prestamos atenção. No capítulo III, Interesses Nacionais da Federação Russa e Prioridades Estratégicas Nacionais, em 25. 5), é posto como objectivo: Fortalecimento dos valores morais e espirituais da Rússia tradicional e preservação da herança cultural e histórica do povo Russo.  Para a elite política russa, alinhada com o pensamento de Ivan Ilyin, os valores ocidentais, baseados no individualismo, no Estado de direito, na democracia liberal e na liberdade são uma ameaça perigosa, pois promovem a dissolução da tradição russa, põem em causa a vida orgânica da pátria. Uma Ucrânia democrática, liberal, modernizada e ocidentalizada, mesmo que pacífica, é sentida como um perigo que poderá contaminar a alma russa.

As questões de segurança podem servir como alibi. No entanto, as motivações humanas não se limitam à segurança nem, tão pouco, à economia, como pensamos. A Rússia parece mover-se por um ideal de reconstrução de uma visão pré-moderna da sociedade, utilizando, de forma brutal, aquilo que a tecnologia moderna tem para oferecer. Putin não se vê, por certo, como um mero político, nem sequer como um simples autocrata. Ele é o salvador e protector de um organismo sagrado, lutando contra as ameaças física e morais da tradição ortodoxa russa. Tudo isto é, para nós, incompreensível e intolerável.

sexta-feira, 4 de março de 2022

A natureza das coisas

Há quem defenda, mesmo nesta hora terrível para a Europa, o fim da NATO e a desmilitarização da União Europeia. O que significaria isso para os europeus? Pura e simplesmente deixá-los à mão de qualquer predador que se se sentisse esfomeado. Só a cegueira ideológica e um ódio contumaz aos EUA, fundado no mais puro ressentimento, podem justificar esta posição. Os EUA são uma potência imaculada, têm as mãos limpas de sangue, abraçam sempre e só as melhores causas? A resposta a qualquer uma dessas questões é a mesma: não. Aqui, porém, devemos voltar à perícope da adúltera, à injunção com que Cristo responde a escribas e fariseus a propósito de uma mulher apanhada em adultério: Aquele que dentre vós está sem pecado, seja o primeiro que lhe atire uma pedra.

As potências, grandes, médias ou pequenas, agem sempre de acordo com a leitura que fazem dos seus interesses. Por muito que todos nós gostássemos, não é possível dobrá-las ao direito e muito menos à moral. O respeito pelo outro e a convivência pacífica resultam não da bondade intrínseca dos poderes deste mundo, mas do medo que têm uns dos outros. Esse medo é o melhor conselheiro e o promotor da sensatez. Quando as potências se sentem livres, não hesitam em intervir violentamente em defesa dos seus interesses, como se está a assistir com a invasão russa da Ucrânia. Não é Kant que rege as relações internacionais. É Maquiavel. Ora, os EUA, descontando o poderio, é igual a qualquer outra potência. Rege-se pelos mesmo princípios. Tem, contudo, em relação à Europa, incluindo Portugal, uma vantagem. Partilha com ela os grandes valores e uma certa interpretação do mundo. Há uma comunidade de vida. Se a NATO existe é, tendo em conta o que são as relações internacionais, para defender essa comunidade de vida.

Imaginemos que a NATO acabava, que a União Europeia de desmilitarizava ainda mais. Quem a defenderia de um ataque? Enquanto os lobos fortalecem os músculos e treinam os maxilares, defender que sejamos todos um rebanho de inocentes cordeiros não é apenas uma idiotice. É pior que isso. Isto não significa que devamos querer participar em aventuras bélicas, que queiramos espalhar os nossos valores através da força das armas. Significa apenas um sinal para fora. Significa que haverá um preço a pagar em caso de qualquer agressão. Felizmente, a Europa, que durante décadas tergiversou sobre a sua responsabilidade de autodefesa, percebeu isso nesta hora. Foi preciso a tragédia da guerra na Ucrânia. Acabar com a NATO? Desmilitarizar a Europa? Isso seria uma traição inominável aos povos europeus.

quarta-feira, 2 de março de 2022

A história em movimento

O conflito entre a Rússia e a Ucrânia, devido à dimensão de violência que pode gerar, acaba por ocultar uma outra questão. Trata-se do casamento entre um nacionalismo extremado e a figura de um líder forte. Aqui líder forte funciona como um eufemismo para não escrever ditador. Neste momento, existem na prática dois líderes mundiais claramente reconhecidos como tal, Vladimir Putin e Xi Jinping, ambos nacionalistas e ambos autocratas. Se olharmos para o mundo democrático, que lideranças encontramos que possam fazer frente aos desmandos da Rússia, por exemplo? Boris Johnson? Emmanuel Macron? Olaf Scholz? Nenhum destes homens tem os meios ou a determinação dos autocratas russo e chinês. E Joe Biden? Este tem os meios, mas terá a vontade, a energia e o carisma?

O que se pretende sublinhar é que, mais uma vez na história, a figura do líder forte, do autocrata impiedoso, começa a ganhar o coração dos eleitores. Já entrou na própria União Europeia, instalando-se na governação de alguns países, subvertendo as regras do Estado de direito, sem que isso tenha gerado uma reacção convincente por parte dos grandes países democráticos da União. Além disso, o progresso do fascínio popular com líderes nacionalistas continua. Em França, as sondagens para uma eventual segunda volta das presidenciais têm dado cerca de 45% à senhora Le Pen. Em Espanha, o Vox – um partido nacionalista de vocação autocrática – começa a aparecer nos inquéritos de opinião à frente da direita democrática. O espírito do tempo – isto é, o medo dos eleitores, a impotência das elites democráticas, a cultura de confronto trazida pela extrema-direita – parece estar propício à emergência de novas experiências autoritárias, que se irão instalando com o apodrecimento das democracias liberais. 

O nacionalismo e as lideranças fortes já conduziram a Europa e o Mundo a duas guerras mundiais. Se alguém pensa que neste momento a União Europeia é uma força para impedir a vitória dos nacionalismos na sua própria casa, o melhor é fazer contas e olhar para a realidade. Não apenas não existe uma liderança forte e mobilizadora para o projecto europeu, como a memória histórica está a dissolver-se. A segunda grande guerra acabou há mais de 75 anos. A grande maioria das pessoas não faz qualquer ideia do horror que ela foi ou como o nacionalismo e os líderes fortes conduziram a humanidade para o matadouro. Por outro lado, há cada vez mais gente disposta a trocar a convivência europeia pelo fervor nacionalista. A história não parou, como Vladimir Putin está a explicar ao mundo. Para os homens comuns não há coisa pior do que a história em movimento.

[Este artigo foi escrito no dia 21 de Fevereiro e publicado 1 a de Março.]

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Pulsão suicidária

Albert Bloch, Suicide, 1911
Parece haver no Partido Comunista Português, nesta fase da sua existência, uma pulsão suicidária desmedida. Depois de lhe ter sido aberta a porta para se tornar parte de uma solução para o país, decidiu, em plena crise pandémica, sem que alguém, a não ser os seus dirigentes e quadros, compreendesse a razão e a pertinência, ajudar a derrubar o governo. Pagou, nas urnas, bem caro o gesto. Não contente com isso, embrulhou-se com a invasão russa da Ucrânia, ficando completamente isolado no país. Não apenas dos restantes partidos políticos, mas do cidadão comum, que sente uma indignação moral profunda perante a decisão do Kremlin. É verosímil que muitos dos que ainda votaram na CDU nas últimas eleições se sintam perplexos. Como é possível, perguntarão. O problema para o PCP é que a situação na Ucrânia é de tal modo chocante que dificilmente se lhe perdoará a atitude, contrariamente ao que tem acontecido com as suas posições sobre a Coreia do Norte, a Venezuela ou Cuba. Numa democracia liberal, cada um terá o direito a suicidar-se como bem entender.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Um tempo de Requiem

Arnulf Rainer, Croce, 1956
Um tempo de Requiem. O terrível que está a acontecer na Ucrânia assinala a morte tanto das regras internacionais que resultaram da segunda guerra mundial, como dos novos equilíbrios que emergiram com a queda do Muro de Berlim. Nada permanece. Enquanto houver homens, a história não pára, nem acaba. E a história não é outra coisa senão um cortejo de injustiças, dores, ajustes de contas e violências. Percebe-se bem que certos pensadores desejem abolir a história, chegar ao momento em que já não existe esse trabalho doloroso do negativo, mas o que a experiência tem mostrado é que isso não passa de pura ilusão. Haverá quem argumente de que não podemos justificar a conclusão de que o amanhã será também violento a partir de premissas radicadas na experiência do passado. Numa lógica dedutiva isso é verdade, mas não me parece existir melhor expectativa acerca dos homens do que aquela que diz que o amanhã será, apesar das diferentes figuras que a realidade assume, idêntico ao hoje.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A Garrafa Vazia 79

Gárgula do Mosteiro da Batalha (Origem da Foto: Coisas do Arco da Velha - Museu do Imaginário)
Pela gárgula do tempo
escorre a peçonha
dos dias,
o veneno acidulado
da voracidade,
as letras de câmbio
no balanço
nunca fechado da morte.

Fevereiro de 2022

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

O progresso moral da humanidade (5)

Alexey Titarenko, Crowd 2, St. Petersburg, Russia, 1993
Não se trata sequer do comportamento em grupo assumir os contornos de uma manifestação do mal, como tantas vezes acontece, quando os homens levados pela paixão se sentem confortáveis no meio da massa e cometem os crimes mais hediondos. O próprio deslocar-se em grupo, formar uma massa, mesmo que o motivo seja tão prosaico como ter de ir trabalhar para enfrentar a dura necessidade, é já um sinal não desprezível de algo tenebroso. Essa necessidade de se deslocar no seio do rebanho por pouco que, aparentemente, seja desejada é um sintoma incontestável de que caso exista um progresso moral da humanidade, ele é lento, tão lento que talvez ninguém dê por ele.

sábado, 19 de fevereiro de 2022

A questão central da política


Um dos aspectos centrais da última campanha eleitoral foi o crescimento económico. O Professor Viriato Soromenho Marques, em conferência na Academia de Ciências de Lisboa, sublinha o facto dizendo: “Chegou a ser escandaloso, o conceito de crescimento ocupou o palco como se estivéssemos no século XIX”. No Público de 11 de Fevereiro, António Guerreiro chama a atenção para a grande denegação em que as pessoas e as elites políticas vivem em relação ao gravíssimo problema das alterações climáticas de origem humana. Enquanto um terrível desastre se apresta para chegar, onde a sobrevivência da espécie está em jogo, as pessoas – e os políticos, em primeiro lugar – estão surdas aos avisos e cegas aos sinais que apontam para a catástrofe.

O que motivará a cegueira e a surdez tanto dos cidadãos como dos responsáveis políticos? Há, claro, razões económicas, socias e psicológicas, as quais, por norma, são arroladas como causa da incapacidade em lidar com a ameaça. Contudo, o problema tem uma natureza política e reside no esquecimento daquilo que nos torna animais políticos e, consequentemente, aquilo que a política deve, antes de tudo, cuidar. O que está em jogo na política, como sublinhou Hannah Arendt na leitura que fez dos gregos, é a imortalidade da espécie humana. Não se trata de uma imortalidade metafísica, mas da prosaica persistência da espécie ao cimo deste planeta. A política existe, em primeiro lugar, porque a espécie humana está, continuamente, em vias de extinção. A política é o antídoto a essa ameaça.

A modernidade, a partir de certa altura, esqueceu essa função originária da política. Embrenhou-se nos debates entre liberdade e igualdade, entre tradição e inovação, entre conservar e progredir. Tudo querelas interessantes, mas que não tocam no problema com que a espécie, neste momento, se confronta: como assegurar a sua imortalidade, isto é, a sua persistência na Terra, agora que, mais que nunca, somos, por culpa própria, uma espécie em vias de extinção? Ora, recentrar a política na questão fundamental é, nos tempos que correm, uma tarefa de Hércules. Como poderemos admitir que, para sobrevivermos enquanto espécie, teremos de nos tornar drasticamente mais pobres, eliminar muitos dos nossos prazeres, compreender que a natureza não é um armazém à nossa disposição? Aqui enfrentamos o maior dos perigos, pois ninguém com um programa adequado à realidade, prometendo empobrecimento e frugalidade, consegue ganhar eleições, e, mergulhados no esquecimento da função originária da política, não se vislumbra tratamento para a surdez e para a cegueira que nos atingem.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

A persistência da memória (8)

Sebastião Salgado, Guatemala, 1978

Investida de uma ciência cujo nome há muito esqueceu, uma mulher está suspensa do postigo que a deixa olhar para fora de si. Não ouve os murmúrios que lhe atravessam o coração, não sente o frémito do tempo que lhe vibra nas veias. Olha e vê-se passar na rua décadas antes, quando tudo ainda era possível. No seu rosto há uma sombra de tristeza articulada por uma gramática de desconsolo. Vê-se no que foi e perdeu a fé naquilo em que se tornou.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Nocturnos 73

Wright Morris, Untitled, 1940s
A chama de um velho candeeiro, as horas no relógio de parede, a rememoração dos mortos, o sangue quase coagulado nas veias, assim corre a noite por dentro de quem, retido no sono, se entrega ao sonho para antecipar nas trevas e na escuridão o esplendor da madrugada.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Simulacros e simulações (31)

Ho Fan, Approaching shadow, 1954
A sombra é um simulacro da noite. Tira desta o prazer pela escuridão, mas ao contrário dela falta-lhe a ausência de luz. É uma cópia imperfeita das trevas ou o sinal de que elas podem chegar com o seu império tecido de obscuridade.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

A Garrafa Vazia 78

Georges Braque, Bottle, Newspaper, Pipe and Glass, 1913
Dura a disciplina
da desgraça,
persiste no tempo,
escava sulcos
na memória,
abre o corpo
para a mórbida
maldição
do copo vazio.

Janeiro de 2022

 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

A maioria absoluta e a situação da esquerda

A maioria absoluta obtida pelo PS confirmou o instinto político de António Costa. Não cedeu às exigências do BE e do PCP e não hesitou em correr riscos. Na sua vitória confluem o reconhecimento pela governação e pelo combate à pandemia, a necessidade de estabilidade, o cansaço com o tom do BE e com a incapacidade do PCP alterar o seu tipo de discurso e, não menos importante, o medo de um governo do PSD dependente do apoio do Chega e da Iniciativa Liberal. Em resumo, derrotou os seus ex-parceiros, a direita e, de passagem, Marcelo Rebelo de Sousa. Tem quatro anos para mostrar, definitivamente, que, para além de um óptimo político, é um óptimo primeiro-ministro, com capacidade para fazer sair o país do impasse em que se encontra.

Foi penoso assistir à declaração de Jerónimo de Sousa. Falou para os seus, entregou-se a uma interpretação esotérica dos resultados eleitorais e da situação política. Foi incapaz de assumir o erro de votar contra o orçamento. Também não mostrou que o partido tenha capacidade de rasgar horizontes para além da retórica habitual sobre os trabalhadores e o povo. Na verdade, o PCP não tem qualquer projecto para governar o país na situação onde este se encontra: pertença à União Europeia, ao Euro e abertura de mercados num mundo globalizado de elevada concorrência. Os portugueses reconheceram isso, retirando-lhe votos e representantes, entre eles o excelente deputado António Filipe.

Não menos penoso foi assistir ao discurso de Catarina Martins. Acusou António Costa de querer uma maioria absoluta e não foi capaz de reconhecer que o BE cometeu um erro estratégico ao chumbar o orçamento. O BE não percebeu que grande parte do seu eleitorado vinha do PS e que votaria no BE apenas se não houvesse perigo. Problema ainda maior é que o Bloco mostrou que não serve para encontrar soluções para o país, não tendo aproveitado a abertura dos socialistas para se transformar num partido de poder credível. Por outro lado, a liderança de Catarina Martins e o estilo que adoptou estão desgastados. Fora dos fiéis, começa a haver pouca paciência para a líder do BE.

Por fim, os ecologistas de esquerda. A ficção de “Os Verdes”, com a sua submissão ao PCP, parece ter acabado. Não deixam saudades nem, tão pouco, uma marca no país. A eleição de Rui Tavares, do Livre, depois do erro de casting de 2019, com Joacine Katar Moreira, pode marcar o início de uma reconfiguração da esquerda à esquerda do PS. Apesar do líder do Livre ter entoado a Internacional, na noite das eleições, não há nele traço de radicalismo, é um político muito bem preparado, sensato e europeísta. É, se não cometer erros, uma ameaça para o BE.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Ciência e pensamento crítico


Foi para a Ciência que se viraram as esperanças quando se precisou, desesperadamente, de uma vacina para a COVID-19. Ao mesmo tempo que as expectativas se voltavam para ela, crescia no mundo uma contestação – mais ou menos dissimulada, mais ou menos violenta – dessa mesma Ciência, dos seus resultados e das teorias que ela disponibiliza para melhorar o conhecimento humano sobre a realidade e, a partir desse conhecimento, encontrar soluções para os problemas com que nos defrontamos.

Uma das formas mais insidiosas de superstição é aquela que se baseia num suposto pensamento crítico ou no direito de pensar por si mesmo, numa espécie de afirmação à outrance do lema kantiano ‘Pensar sempre por si mesmo’. A estratégia é colocar em pé de igualdade uma forma de conhecimento altamente estruturada, obedecendo a rigorosos protocolos de controlo, testagem e avaliação, isto é, a Ciência, com opiniões e conjecturas que não têm qualquer controlo. Aliás, nem se trata de colocar em pé de igualdade Ciência e estas opiniões. Pretende-se mesmo julgar a Ciência com base nessas opiniões, como se isso fosse uma atitude crítica altamente inteligente.

Não temos o dever de pensar por nós próprios? Temos, mas pensar por si próprio, de modo responsável, é avaliar, com base num método rigoroso, aquilo que nos é proposto. Isso, dir-se-á, levanta um enorme problema. Por exemplo, como posso avaliar se devo ou não ser vacinado contra a COVID-19? Não tenho conhecimento para fazer uma avaliação crítica da vacinação. Como eu está mais de 99% da humanidade. A única coisa que podemos fazer, para pensar criticamente, é confiar na autoridade científica dos cientistas. Não se trata, porém, de uma aceitação cega de uma autoridade. Há regras para aceitar argumentos de autoridade. São essas regras que permitem adoptar uma atitude crítica sobre certo assunto que não dominamos.

Só devemos aceitar um argumento de autoridade se aqueles que o propõem são efectivamente autoridades no assunto, se não existirem contra-exemplos credíveis que ponham em causa o que a autoridade afirma e se existir um forte consenso científico sobre esse assunto, por exemplo, sobre o benefício da vacinação. Ora, quando as pessoas, em nome de um suposto pensamento crítico e de um direito a pensar por si, rejeitam os resultados da Ciência, não estão a pensar criticamente. Estão a submeter-se à autoridade de pessoas que não dominam os assuntos, que emitem opiniões que ninguém controla nem avalia. Estão a trocar o conselho de autoridades competentes por crenças sem qualquer fundamento. Escolhem a superstição e não o pensamento crítico.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Milagre e sacrifício

Max Klinger, Sacrifício

Há dias escrevi aqui que só um milagre salvaria a esquerda de uma derrota ignominiosa nas eleições de ontem. Houve um milagre. Não apenas o PSD não foi, nem de perto nem de longe, o partido mais votado, como os socialistas conseguiram uma maioria absoluta, com a qual ninguém contava. Aliás, mesmo nos círculos mais elevados do partido havia um temor acentuado pelos resultados. Mantendo a linguagem religiosa - mesmo em sociedades laicas a política tem muito mais a ver com a religião do que aquilo que se pensa - esse milagre foi obtido, como muitas vezes acontece, através de um sacrifício. Os resultados do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda representam um autêntico acto sacrificial. António Costa conduziu-os ao altar e, como cordeiros, imolou-os. Melhor, ofereceu o cutelo com que os portugueses, nas urnas, os imolaram. 

domingo, 30 de janeiro de 2022

Beatitudes (49) Imagens

Albert Renger-Patzsch, River Rhine (backwater), 1950s

Mesmo num mundo desencantado e tomado de assalto pela racionalidade tecnológica existem frestas por onde penetram as imagens míticas. Não vêm na figura de sereias, centauros ou dragões, mas no encantamento que a natureza oferece aos olhos do espectador ocasional. A passagem de um rio, as árvores que, ao erguerem-se para os céus, se reflectem nas águas, o mistério que toda a floresta traz consigo. Nessa hora, o mito retorna e com ele uma felicidade tingida de nostalgia.
 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Nocturnos 72

Kees Scherer, Paris
No cais da noite, os amantes encontram um precário abrigo, enquanto o sentimento convulso borbulha na corrente sanguínea, e a cidade se deixa envolver no algeroz do sono, na vertigem táctil de quem sonha.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Só um milagre

Arthur Tress, Cards and Checkerboard in Abandoned Locker Room for Railroad Workers, c. 1970

Cresce a sensação de que só um milagre poderá salvar a esquerda de uma derrota ignominiosa no domingo. Os eleitores não perceberam por que razão o orçamento de Estado foi chumbado, ainda por cima num momento tão difícil como actual. Os eleitores não percebem o que querem para o país as principais forças de esquerda. Os eleitores não percebem sequer o tacticismo com que os partidos de esquerda orientam a campanha eleitoral. Irresponsabilidade ao gerar a crise, inexistência de um projecto comum para o país, cacofonia eleitoral. Só um milagre pode evitar que domingo o PSD não seja o primeiro e a esquerda, no seu conjunto, não seja minoritária. É o que faz andarem a brincar aos aprendizes de feiticeiro.

sábado, 22 de janeiro de 2022

A futebolização da política


A recente ronda de debates pré-eleitorais teve o condão de mostrar ao que a política, em sociedades como a nossa, se transformou. Não me refiro aos debates propriamente ditos, ao desempenho dos protagonistas, mas à futebolização da política que eles consumaram. A comunicação social achou por bem transformar o acontecimento numa espécie de campeonato. Acabo de receber, vinda de um jornal de referência, a tabela com a classificação final. O campeão foi João Cotrim Figueiredo, que por certo irá participar no ano que vem na Liga dos Campeões. São despromovidos à segunda-divisão Francisco Rodrigues dos Santos e André Ventura.

Um dos problemas desta abordagem do confronto político é que o resultado depende totalmente dos árbitros. No futebol, por muito que um árbitro possa distorcer o resultado através de más decisões, há ainda os golos que são marcados e os que são falhados. O que os jogadores fazem em campo tem, por norma, relevo para o resultado. No caso dos debates, o que conta são as paixões políticas dos árbitros-comentadores. Os resultados dizem mais daqueles que atribuíram classificação que do desempenho dos políticos. Este problema, apesar de tudo, tem pouco relevo.

Um problema mais grave é a transformação completa da política num confronto entre hooligans de várias cores. A hooliganização da política é interessante para a comunicação social, pois gera continuamente tempo de antena. Os políticos preocupam-se em marcar pontos – isto é, golos – através daquilo que um hooligan pode perceber, ideias simples e soluções simplistas. Os grandes problemas, devido à sua complexidade, são arredados da campanha eleitoral, tornam-se secretos. A ânsia da comunicação social em dominar a política conduz a que esta se torne cada vez mais obscura, pois o recurso a uma linguagem básica e ao fogo-de-artifício oculta as dificuldades que estão por detrás das várias soluções propostas.

Não menos grave é que esta futebolização da política instaura um caldo cultural propício para projectos populistas. O populismo é uma forma de hooliganismo político. Vive de ideias simples e de afirmações bombásticas. Actua no campo das emoções e dos sentimentos e progride pela eliminação do debate sensato e do exame racional dos problemas. A comunicação social, que em tempos teve um importante papel na vida democrática, está a criar condições culturais e psicossociais favoráveis a projectos autoritários. A lógica de mercado a que essa comunicação social está sujeita impede-a de reconsiderar a sua actuação. Ela vive não da informação, mas do desencadear das emoções, tal como o futebol.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

A Garrafa Vazia 77

Camille Pissarro, Morning, Sunshine Effect Winter, 1895
Caem as derradeiras folhas.
As tílias tremem
rasgadas pelo éter
da manhã.

Um punhal ergue-se na mão
do Inverno,
lacera o bosque,
tinge-me os dedos de sangue.

Sou a folha que cai da tília.
Desço a sangrar
na invernia,
tremo ao cair na terra.

Janeiro de 2022

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Do moderno

Autor desconhecido, A modern kitchen (stove), 1870s
Não há coisa mais melancólica do que aquilo que é moderno. Num ápice torna-se obsoleto. Talvez o momento decisivo tenha sido a Querela dos Antigos e Modernos. Inclinou o coração dos seres humanos para o culto da modernidade. No centro desta está a inovação, mas para que esta possa existir é necessário que aquilo que foi moderno passe de moda, se torne obsoleto e sem préstimo. A posição dos antigos era o respeito pelos modelos decantados pelo tempo. Ninguém procurava ser inovador, antes queria chegar ao modelo que raptaria a obra da temporalidade e torná-la-ia eterna. Contra essa intemporalidade, o moderno reivindica os direitos do instante. Essa fugacidade, porém, torna-o num prolongado e contínuo equívoco.

sábado, 15 de janeiro de 2022

O progresso moral da humanidade (4)

Autor desconhecido, Ruined Richbourg cathedral during WW1, France, ca 1916
Talvez existam sintomas de que há um progresso moral na humanidade, de que as relações humanas, pois é no âmbito destas que se coloca a questão da moralidade, se tenham tornado menos más. Há, aliás, literatura que pretende corroborar essa ideia a partir da análise factual. Olhar, porém, para os efeitos devastadores da guerra, para o facto de nada nem ninguém estar ao seu abrigo, são sinais poderosos contra a verdade da crença nesse progresso moral. Uma catedral arruinada durante uma guerra não prova que a humanidade é pior moralmente do que era anteriormente, mas dificilmente será uma prova de que progrediu na vida moral e no respeito pelo outro.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

O combate de adolescentes

Adolphe Braun, Propylées, Athens, c. 1889
O debate de ontem entre Francisco Rodrigues dos Santos e André Ventura foi bastante esclarecedor. Esclareceu a ruína em que o CDS caiu. Esclareceu a real nulidade de André Ventura. Nem um nem outro possuem qualquer ideia para o país, para além de meia dúzia de slogans para atrair ressentidos ou incautos. O que se assistiu, na verdade, foi a um debate entre dois candidatos a presidente de uma associação de estudantes do ensino secundário. Uma briga de adolescentes. Nem faltou um Benfica - Sporting. Espanta que o CDS tenha chegado aqui. Espanta ainda mais que haja gente disposta a dar o voto ao Chega. Portugal não é uma associação juvenil para ocupação de tempos livres de jovens de cabeça perdida.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A persistência da memória (7)

Antoine Claudet,  Still Life in Attic, 1855
A memória é um sótão onde arrumamos uma massa composta por múltiplas naturezas mortas, objectos a caminho da poeira da indiferenciação. Os vestígios que ali vivem vão resistindo, mas o passar dos dias, as ocupações do mundo e o cansaço fazem perigar a persistência daquilo que ali guardamos. Por vezes, um súbito impulso conduz-nos a esse lugar de abandono e trazemos para a vida aquilo que pensámos estar morto há muito.

domingo, 9 de janeiro de 2022

A Garrafa Vazia 76

Lucio Muñoz, 2-85, 1985
Entro pela fúria do dever,
arrasto-me
no chão da piedade
e oiço o sinistro
no cântico da multidão.

Não há nos jardins flores
de coral,
nem nos altares velas
para alumiar
o caminho dos mortos.

Ao longe, o dever troa
na piedade
de um imperativo,
na rosa rubra desfolhada
na ara da miséria.

Janeiro de 2023