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| Elmer Bischoff, #88, 1985 |
Tiro do braço partido
o gesso carbonizado
da cólera.
Olho em silêncio
a pele esbranquiçada,
adivinhando
o osso recomposto,
a vida refeita,
a incúria a grassar
nos recantos do quintal.
Abril de 2022
Olhemos para o que acontece em torno do jovem Castorp. A educação do seu espírito é disputada, não sem violência, pelo italiano Lodovico Settembrini e pelo judeu oriental – talvez, imaginemos, um sefardita – Leo Naphta. O italiano é o representante do Iluminismo, da democracia liberal e da liberdade individual. Naphta é um converso ao catolicismo, mas a um catolicismo ultramontano, integrista. É um espírito jesuítico exaltado que despreza as liberdades individuais e defende um colectivismo meio comunista, meio eclesiástico.
O espantoso neste exercício de imaginação é que descobrimos de imediato que o mundo, no século XXI, caiu na montanha mágica, onde duas forças se opõem de modo cada vez mais violento. Por um lado, o mundo ocidental, tomando a figura de Lodovico Settembrini. Como este, o Ocidente é marcado pelo espírito liberal, pela defesa da democracia representativa, pela economia de mercado, pela afirmação plena da liberdade individual. O mundo, todavia, não é apenas o lugar dos amigos do italiano imaginado por Mann.
Nele, há muitos
discípulos de Leo Naphta. O terrorismo islâmico, por exemplo, não desdenharia
de Naphta, as seitas neopentecostais também não, assim como os católicos ortodoxos
que desprezam o Papa Francisco, ou a extrema-direita europeia e americana.
Contudo, a manifestação mais clara do espírito de Leo Naphta encarna neste
momento em Putin e no Patriarca moscovita Cirilo. A invasão da Ucrânia não é
outra coisa senão uma luta contra a liberdade, a democracia liberal, o respeito
pelos indivíduos. Faz parte da actual guerra contra a herança do Iluminismo.
Voltámos ao tempo do conflito entre as Luzes e o clericalismo farisaico e supersticioso, entre a ideia de império e o cosmopolitismo. Só que este conflito, não se faz com palavras e exercícios de retórica para cativar um espírito jovem e indeciso. Faz-se com a destruição massiva de um país, com o massacre de inocentes, com tudo aquilo que a guerra traz consigo. Voltámos para a montanha mágica e o que vemos não é agradável. Em silêncio, sentado à sombra do velho Confúcio, outro personagem espera que Settembrini e Naphta se aniquilem. O espírito de Hans Castorp, então, será seu, assim como a montanha mágica. Sem disputa nem controvérsia.
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| Bernard Eilers, Amsterdão, 1920 |
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| Giorgio de Chirico, Gladiadores y león, 1927 |
Um dos danos
colaterais da guerra na Ucrânia aconteceu na esquerda do sistema partidário
português. O bombardeamento caiu em cima do Partido Comunista e muitos
estilhaços atingiram o Bloco de Esquerda, apesar de ter sido mais lesto e
competente em distanciar-se da invasão russa. A guerra na Ucrânia está a ser
sentida de forma muito traumática pelas opiniões públicas europeias. Há nessas
reacções várias coisas. A estupefacção pela invasão de um país europeu por outro,
a brutalidade da intervenção, a incompreensão das razões que assistem aos
russos, a percepção de que estes se tornaram um perigo para segurança da Europa.
No caso português, também a simpatia que os imigrantes ucranianos geraram no
convívio com os portugueses.
Até à Queda do Muro de Berlim, essa esquerda viveu na crença de que havia um mundo melhor do que aquele em que vivemos. Fosse a União Soviética, a China maoísta ou a Albânia. O mundo ocidental – democrático e liberal – era aquilo que deveria ser destruído, trocado por outros mundos inspirados nas revoluções comunistas. Com o fim dos regimes de leste, muitas pessoas compreenderam que aqueles eram altamente ineficientes, corruptos e opressivos. Compreenderam que não havia qualquer mundo melhor que pudesse ser trazido por uma revolução. Os europeus sentiram que viviam no melhor dos mundos possíveis, um mundo mais eficiente, menos corrupto e muito mais livre. Esse mundo é o que é defendido pela NATO, pelos EUA e pela União Europeia, com todos os defeitos e perversões que se conhecem.
Foi o ataque frontal a este mundo pelo PCP e, embora de modo mais dissimulado, pelo BE que fez desabar sobre eles uma tempestade. Estes partidos continuam a viver na ilusão de uma alternativa às democracias liberais. Crêem que as forças que impedem o advento desse admirável mundo novo são a NATO, os EUA e a União Europeia. Em tempos normais, com excepção das pessoas mais politizadas, ninguém se preocuparia com estas crenças. Num momento altamente traumático como o actual, a opinião pública revoltou-se e não compreendeu a posição perante a Rússia ou os ataques ao Ocidente. Na verdade, existem alternativas à democracia liberal. Na Rússia, na China, na Arábia Saudita, no Irão, na Venezuela, na Turquia, na Coreia do Norte, em Cuba, etc. Alguém estará interessado em viver nesses regimes? As democracias liberais não são perfeitas. Longe disso, mas são o melhor que a humanidade conseguiu imaginar para assegurar uma vida em sociedade decente. Do ponto de vista moral, qualquer alternativa é pior, muito pior.
| Jenoe Dulovits, Dusty Street, Austria/Hungary, 1937 |
| Jackson Pollock, Night Sounds, 1944 |
| Edward Weston, Wrecked Car, Crescent Beach, British Columbia, 1939 |
Independentemente do que significa o acto de agressão à Ucrânia no contexto geoestratégico, independentemente da sorte das armas, pode-se tentar compreender – e compreender não é justificar – as motivações do Kremlin para uma atitude inaceitável. A tarefa não é fácil pois, como acontece com o terrorismo islâmico, a cultura política que Putin e o seu círculo trouxeram é-nos absolutamente estranha. Três palavras podem ser chave para o início da compreensão das motivações russas: segurança, organicismo e tradição.
Segurança. Em Julho de 21, Vladimir Putin promulgou a nova Estratégia de Segurança Nacional da Rússia. Nela é sublinhado que a NATO é o principal inimigo. A aproximação da organização militar ocidental das fronteiras russas, a grande ameaça. A hipotética adesão da Ucrânia à NATO representaria, assim, um perigo extremo e intolerável à segurança da Rússia. O que é estranho é que se estava longe de esgotar as possibilidades de assegurar, por via pacífica, uma neutralidade de Kiev. Não se estava perante um perigo iminente para a segurança de Moscovo. Outras motivações contribuíram para a decisão.
Organicismo. Em Março de 18, no The New York Review, o historiador Timothy Snyder escreve um longo ensaio com o título “Ivan Ilyin, Putin’s Philosopher of Russian Fascism”. Snyder desenha o trajecto desse obscuro filósofo russo, defensor do fascismo e do nazismo, chamando a atenção para o facto de Putin e os que o rodeiam serem profundamente influenciados por ele. Possuía uma visão orgânica da sociedade russa (esta seria um corpo vivo), na qual se incluía a própria Ucrânia, cuja existência separada era negada por Ilyin. A tomada da Crimeia e o apoio aos separatistas russos do Donbass são um passo de reconstituição desse organismo vivo – e sagrado – que é a Rússia. Como se percebeu das palavras de Putin, antes de desencadear a invasão, a Ucrânia não tem razão de ser, faz parte do corpo vivo – dotado de alma – que é a Rússia. Na invasão, a aposta mínima será a Crimeia e, talvez, o Donbass, mas o melhor seria trazer a Ucrânia e reconstituir esse grande organismo vivo, sagrado e mártir que é a pátria russa.
Tradição. No documento da Estratégia de Segurança não existem apenas questões militares. Há outras a que nós, ocidentais, não prestamos atenção. No capítulo III, Interesses Nacionais da Federação Russa e Prioridades Estratégicas Nacionais, em 25. 5), é posto como objectivo: Fortalecimento dos valores morais e espirituais da Rússia tradicional e preservação da herança cultural e histórica do povo Russo. Para a elite política russa, alinhada com o pensamento de Ivan Ilyin, os valores ocidentais, baseados no individualismo, no Estado de direito, na democracia liberal e na liberdade são uma ameaça perigosa, pois promovem a dissolução da tradição russa, põem em causa a vida orgânica da pátria. Uma Ucrânia democrática, liberal, modernizada e ocidentalizada, mesmo que pacífica, é sentida como um perigo que poderá contaminar a alma russa.
As questões de segurança podem servir como alibi. No entanto, as motivações humanas não se limitam à segurança nem, tão pouco, à economia, como pensamos. A Rússia parece mover-se por um ideal de reconstrução de uma visão pré-moderna da sociedade, utilizando, de forma brutal, aquilo que a tecnologia moderna tem para oferecer. Putin não se vê, por certo, como um mero político, nem sequer como um simples autocrata. Ele é o salvador e protector de um organismo sagrado, lutando contra as ameaças física e morais da tradição ortodoxa russa. Tudo isto é, para nós, incompreensível e intolerável.
Há quem
defenda, mesmo nesta hora terrível para a Europa, o fim da NATO e a
desmilitarização da União Europeia. O que significaria isso para os europeus?
Pura e simplesmente deixá-los à mão de qualquer predador que se se sentisse
esfomeado. Só a cegueira ideológica e um ódio contumaz aos EUA, fundado no mais
puro ressentimento, podem justificar esta posição. Os EUA são uma potência
imaculada, têm as mãos limpas de sangue, abraçam sempre e só as melhores
causas? A resposta a qualquer uma dessas questões é a mesma: não. Aqui, porém, devemos
voltar à perícope da adúltera, à injunção com que Cristo responde a escribas e
fariseus a propósito de uma mulher apanhada em adultério: Aquele que dentre
vós está sem pecado, seja o primeiro que lhe atire uma pedra.
As potências, grandes, médias ou pequenas, agem sempre de acordo com a leitura que fazem dos seus interesses. Por muito que todos nós gostássemos, não é possível dobrá-las ao direito e muito menos à moral. O respeito pelo outro e a convivência pacífica resultam não da bondade intrínseca dos poderes deste mundo, mas do medo que têm uns dos outros. Esse medo é o melhor conselheiro e o promotor da sensatez. Quando as potências se sentem livres, não hesitam em intervir violentamente em defesa dos seus interesses, como se está a assistir com a invasão russa da Ucrânia. Não é Kant que rege as relações internacionais. É Maquiavel. Ora, os EUA, descontando o poderio, é igual a qualquer outra potência. Rege-se pelos mesmo princípios. Tem, contudo, em relação à Europa, incluindo Portugal, uma vantagem. Partilha com ela os grandes valores e uma certa interpretação do mundo. Há uma comunidade de vida. Se a NATO existe é, tendo em conta o que são as relações internacionais, para defender essa comunidade de vida.
Imaginemos que a NATO acabava, que a União Europeia de desmilitarizava ainda mais. Quem a defenderia de um ataque? Enquanto os lobos fortalecem os músculos e treinam os maxilares, defender que sejamos todos um rebanho de inocentes cordeiros não é apenas uma idiotice. É pior que isso. Isto não significa que devamos querer participar em aventuras bélicas, que queiramos espalhar os nossos valores através da força das armas. Significa apenas um sinal para fora. Significa que haverá um preço a pagar em caso de qualquer agressão. Felizmente, a Europa, que durante décadas tergiversou sobre a sua responsabilidade de autodefesa, percebeu isso nesta hora. Foi preciso a tragédia da guerra na Ucrânia. Acabar com a NATO? Desmilitarizar a Europa? Isso seria uma traição inominável aos povos europeus.
O conflito
entre a Rússia e a Ucrânia, devido à dimensão de violência que pode gerar,
acaba por ocultar uma outra questão. Trata-se do casamento entre um
nacionalismo extremado e a figura de um líder forte. Aqui líder forte funciona
como um eufemismo para não escrever ditador. Neste momento, existem na prática
dois líderes mundiais claramente reconhecidos como tal, Vladimir Putin e Xi Jinping,
ambos nacionalistas e ambos autocratas. Se olharmos para o mundo democrático,
que lideranças encontramos que possam fazer frente aos desmandos da Rússia, por
exemplo? Boris Johnson? Emmanuel Macron? Olaf Scholz? Nenhum destes homens tem
os meios ou a determinação dos autocratas russo e chinês. E Joe Biden? Este tem
os meios, mas terá a vontade, a energia e o carisma?
O que se pretende sublinhar é que, mais uma vez na história, a figura do líder forte, do autocrata impiedoso, começa a ganhar o coração dos eleitores. Já entrou na própria União Europeia, instalando-se na governação de alguns países, subvertendo as regras do Estado de direito, sem que isso tenha gerado uma reacção convincente por parte dos grandes países democráticos da União. Além disso, o progresso do fascínio popular com líderes nacionalistas continua. Em França, as sondagens para uma eventual segunda volta das presidenciais têm dado cerca de 45% à senhora Le Pen. Em Espanha, o Vox – um partido nacionalista de vocação autocrática – começa a aparecer nos inquéritos de opinião à frente da direita democrática. O espírito do tempo – isto é, o medo dos eleitores, a impotência das elites democráticas, a cultura de confronto trazida pela extrema-direita – parece estar propício à emergência de novas experiências autoritárias, que se irão instalando com o apodrecimento das democracias liberais.
O nacionalismo e as lideranças fortes já conduziram a Europa e o Mundo a duas guerras mundiais. Se alguém pensa que neste momento a União Europeia é uma força para impedir a vitória dos nacionalismos na sua própria casa, o melhor é fazer contas e olhar para a realidade. Não apenas não existe uma liderança forte e mobilizadora para o projecto europeu, como a memória histórica está a dissolver-se. A segunda grande guerra acabou há mais de 75 anos. A grande maioria das pessoas não faz qualquer ideia do horror que ela foi ou como o nacionalismo e os líderes fortes conduziram a humanidade para o matadouro. Por outro lado, há cada vez mais gente disposta a trocar a convivência europeia pelo fervor nacionalista. A história não parou, como Vladimir Putin está a explicar ao mundo. Para os homens comuns não há coisa pior do que a história em movimento.
[Este artigo foi escrito no dia 21 de Fevereiro e publicado 1 a de Março.]
| Albert Bloch, Suicide, 1911 |
| Arnulf Rainer, Croce, 1956 |
| Gárgula do Mosteiro da Batalha (Origem da Foto: Coisas do Arco da Velha - Museu do Imaginário) |
| Alexey Titarenko, Crowd 2, St. Petersburg, Russia, 1993 |
O que motivará a cegueira e a surdez tanto dos cidadãos como dos responsáveis políticos? Há, claro, razões económicas, socias e psicológicas, as quais, por norma, são arroladas como causa da incapacidade em lidar com a ameaça. Contudo, o problema tem uma natureza política e reside no esquecimento daquilo que nos torna animais políticos e, consequentemente, aquilo que a política deve, antes de tudo, cuidar. O que está em jogo na política, como sublinhou Hannah Arendt na leitura que fez dos gregos, é a imortalidade da espécie humana. Não se trata de uma imortalidade metafísica, mas da prosaica persistência da espécie ao cimo deste planeta. A política existe, em primeiro lugar, porque a espécie humana está, continuamente, em vias de extinção. A política é o antídoto a essa ameaça.
A modernidade, a partir de certa altura, esqueceu essa função originária da política. Embrenhou-se nos debates entre liberdade e igualdade, entre tradição e inovação, entre conservar e progredir. Tudo querelas interessantes, mas que não tocam no problema com que a espécie, neste momento, se confronta: como assegurar a sua imortalidade, isto é, a sua persistência na Terra, agora que, mais que nunca, somos, por culpa própria, uma espécie em vias de extinção? Ora, recentrar a política na questão fundamental é, nos tempos que correm, uma tarefa de Hércules. Como poderemos admitir que, para sobrevivermos enquanto espécie, teremos de nos tornar drasticamente mais pobres, eliminar muitos dos nossos prazeres, compreender que a natureza não é um armazém à nossa disposição? Aqui enfrentamos o maior dos perigos, pois ninguém com um programa adequado à realidade, prometendo empobrecimento e frugalidade, consegue ganhar eleições, e, mergulhados no esquecimento da função originária da política, não se vislumbra tratamento para a surdez e para a cegueira que nos atingem.
| Sebastião Salgado, Guatemala, 1978 |
A maioria
absoluta obtida pelo PS confirmou o instinto político de António Costa. Não
cedeu às exigências do BE e do PCP e não hesitou em correr riscos. Na sua
vitória confluem o reconhecimento pela governação e pelo combate à pandemia, a
necessidade de estabilidade, o cansaço com o tom do BE e com a incapacidade do
PCP alterar o seu tipo de discurso e, não menos importante, o medo de um
governo do PSD dependente do apoio do Chega e da Iniciativa Liberal. Em resumo,
derrotou os seus ex-parceiros, a direita e, de passagem, Marcelo Rebelo de
Sousa. Tem quatro anos para mostrar, definitivamente, que, para além de um
óptimo político, é um óptimo primeiro-ministro, com capacidade para fazer sair
o país do impasse em que se encontra.
Foi penoso assistir à declaração de Jerónimo de Sousa. Falou para os seus, entregou-se a uma interpretação esotérica dos resultados eleitorais e da situação política. Foi incapaz de assumir o erro de votar contra o orçamento. Também não mostrou que o partido tenha capacidade de rasgar horizontes para além da retórica habitual sobre os trabalhadores e o povo. Na verdade, o PCP não tem qualquer projecto para governar o país na situação onde este se encontra: pertença à União Europeia, ao Euro e abertura de mercados num mundo globalizado de elevada concorrência. Os portugueses reconheceram isso, retirando-lhe votos e representantes, entre eles o excelente deputado António Filipe.
Não menos penoso foi assistir ao discurso de Catarina Martins. Acusou António Costa de querer uma maioria absoluta e não foi capaz de reconhecer que o BE cometeu um erro estratégico ao chumbar o orçamento. O BE não percebeu que grande parte do seu eleitorado vinha do PS e que votaria no BE apenas se não houvesse perigo. Problema ainda maior é que o Bloco mostrou que não serve para encontrar soluções para o país, não tendo aproveitado a abertura dos socialistas para se transformar num partido de poder credível. Por outro lado, a liderança de Catarina Martins e o estilo que adoptou estão desgastados. Fora dos fiéis, começa a haver pouca paciência para a líder do BE.
Por fim, os ecologistas de esquerda. A ficção de “Os Verdes”, com a sua submissão ao PCP, parece ter acabado. Não deixam saudades nem, tão pouco, uma marca no país. A eleição de Rui Tavares, do Livre, depois do erro de casting de 2019, com Joacine Katar Moreira, pode marcar o início de uma reconfiguração da esquerda à esquerda do PS. Apesar do líder do Livre ter entoado a Internacional, na noite das eleições, não há nele traço de radicalismo, é um político muito bem preparado, sensato e europeísta. É, se não cometer erros, uma ameaça para o BE.
Uma das formas mais insidiosas de superstição é aquela que se baseia num suposto pensamento crítico ou no direito de pensar por si mesmo, numa espécie de afirmação à outrance do lema kantiano ‘Pensar sempre por si mesmo’. A estratégia é colocar em pé de igualdade uma forma de conhecimento altamente estruturada, obedecendo a rigorosos protocolos de controlo, testagem e avaliação, isto é, a Ciência, com opiniões e conjecturas que não têm qualquer controlo. Aliás, nem se trata de colocar em pé de igualdade Ciência e estas opiniões. Pretende-se mesmo julgar a Ciência com base nessas opiniões, como se isso fosse uma atitude crítica altamente inteligente.
Não temos o dever de pensar por nós próprios? Temos, mas pensar por si próprio, de modo responsável, é avaliar, com base num método rigoroso, aquilo que nos é proposto. Isso, dir-se-á, levanta um enorme problema. Por exemplo, como posso avaliar se devo ou não ser vacinado contra a COVID-19? Não tenho conhecimento para fazer uma avaliação crítica da vacinação. Como eu está mais de 99% da humanidade. A única coisa que podemos fazer, para pensar criticamente, é confiar na autoridade científica dos cientistas. Não se trata, porém, de uma aceitação cega de uma autoridade. Há regras para aceitar argumentos de autoridade. São essas regras que permitem adoptar uma atitude crítica sobre certo assunto que não dominamos.
Só devemos aceitar um argumento de autoridade se aqueles que o propõem são efectivamente autoridades no assunto, se não existirem contra-exemplos credíveis que ponham em causa o que a autoridade afirma e se existir um forte consenso científico sobre esse assunto, por exemplo, sobre o benefício da vacinação. Ora, quando as pessoas, em nome de um suposto pensamento crítico e de um direito a pensar por si, rejeitam os resultados da Ciência, não estão a pensar criticamente. Estão a submeter-se à autoridade de pessoas que não dominam os assuntos, que emitem opiniões que ninguém controla nem avalia. Estão a trocar o conselho de autoridades competentes por crenças sem qualquer fundamento. Escolhem a superstição e não o pensamento crítico.
| Max Klinger, Sacrifício |
| Albert Renger-Patzsch, River Rhine (backwater), 1950s |
| Arthur Tress, Cards and Checkerboard in Abandoned Locker Room for Railroad Workers, c. 1970 |
Um dos problemas desta abordagem do confronto político é que o resultado depende totalmente dos árbitros. No futebol, por muito que um árbitro possa distorcer o resultado através de más decisões, há ainda os golos que são marcados e os que são falhados. O que os jogadores fazem em campo tem, por norma, relevo para o resultado. No caso dos debates, o que conta são as paixões políticas dos árbitros-comentadores. Os resultados dizem mais daqueles que atribuíram classificação que do desempenho dos políticos. Este problema, apesar de tudo, tem pouco relevo.
Um problema mais grave é a transformação completa da política num confronto entre hooligans de várias cores. A hooliganização da política é interessante para a comunicação social, pois gera continuamente tempo de antena. Os políticos preocupam-se em marcar pontos – isto é, golos – através daquilo que um hooligan pode perceber, ideias simples e soluções simplistas. Os grandes problemas, devido à sua complexidade, são arredados da campanha eleitoral, tornam-se secretos. A ânsia da comunicação social em dominar a política conduz a que esta se torne cada vez mais obscura, pois o recurso a uma linguagem básica e ao fogo-de-artifício oculta as dificuldades que estão por detrás das várias soluções propostas.
Não menos grave é que esta futebolização da política instaura um caldo cultural propício para projectos populistas. O populismo é uma forma de hooliganismo político. Vive de ideias simples e de afirmações bombásticas. Actua no campo das emoções e dos sentimentos e progride pela eliminação do debate sensato e do exame racional dos problemas. A comunicação social, que em tempos teve um importante papel na vida democrática, está a criar condições culturais e psicossociais favoráveis a projectos autoritários. A lógica de mercado a que essa comunicação social está sujeita impede-a de reconsiderar a sua actuação. Ela vive não da informação, mas do desencadear das emoções, tal como o futebol.
| Autor desconhecido, A modern kitchen (stove), 1870s |
| Autor desconhecido, Ruined Richbourg cathedral during WW1, France, ca 1916 |
| Adolphe Braun, Propylées, Athens, c. 1889 |
| Antoine Claudet, Still Life in Attic, 1855 |
| Lucio Muñoz, 2-85, 1985 |