terça-feira, 9 de maio de 2023

Simulacros e simulações (49)

Imagem obtida com IA da CANVA

Uma vida povoada de monstros e fantasmas, espectros nascidos no abismo da solidão. Então, procuram-se esses velhos lugares públicos, onde as pessoas simulam comunhões e intimidades, para que as horas e os dias sejam suportáveis, até que a sombra se eclipse e o corpo, num simulacro de estertor, se entregue nos braços da morte.

domingo, 7 de maio de 2023

A crise


(Nota: o texto foi escrito antes da crise das relações entre Primeiro-Ministro e Presidente da República, os pormenores e soluções possíveis tornaram-se anacrónicos, o fundamental do texto permanece actual.)
 

O que se está a passar na área da governação é um sintoma de um mal que atinge os fundamentos da vida política. A oposição à direita está na expectativa de novas eleições, o Presidente da República ameaça com o uso dos poderes para dissolver o parlamento, o presidente do Partido Socialista, ao falar da necessidade de uma remodelação ministerial, passou uma certidão de óbito à actual composição do governo. Independentemente do que vem aí, se uma remodelação do governo, se uma dissolução do parlamento, parece não haver capacidade para ultrapassar o que se passa à superfície e perceber o que, mais fundo, está a originar a crise. 


Durante décadas, um populismo difuso cultivado pelos portugueses, secou em muitas pessoas o desejo de participar na vida política. Um discurso antipolítico, absolutamente destrutivo, mascarado de liberdade crítica, alimentou o afastamento de muita gente boa da vida política. As pessoas não se estão para se sujeitar à vociferação popular, para ver a sua vida arrastada pela praça pública, para serem vilipendiadas apenas porque pensam de uma determinada maneira. Isto já se manifestava no tempo em que não havia redes sociais. Com a vinda destas, tudo piorou.  Como povo, conseguimos afastar os melhores.


Os partidos políticos, todavia, não são inocentes. Os da área da governação tornaram-se estâncias de incompetentes e videirinhos. Sem concorrência de gente competente e com sentido cívico, a vida partidária tornou-se uma árdua luta por lugares e prebendas, para a busca da miserável glória de ocupar lugares nas diversas instâncias do poder. Miserável, não porque o poder político seja algo de indigno, mas porque muitos dos que o ocupam não o fazem para servir o bem comum. Nem uma remodelação governativa, nem uma troca de opções ideológicas mudará alguma coisa. Só a cegueira ideológica achará que uma opção em volta do PSD será, em substância, diferente da actual. 


Temo, na verdade, que não exista uma solução para o problema. O mais plausível é que, com remodelação ou novas eleições, tudo se continue a degradar. Os portugueses, alimentados por uma comunicação social partidarizada e pelo anonimato das redes sociais, insistirão numa cultura onde falta grandeza cívica e onde está ausente qualquer preocupação pela democracia e pelo Estado de direito. Os militantes partidários, cegos pelo desejo de serem alguém, continuarão as suas guerras do Arlequim e da Manjerona, com os seus dramas de faca e alguidar. Até que a ruína destrua o edifício democrático e se entregue o país a um aventureiro disposto a usar o chicote sobre os portugueses.

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Cardílio (24 sonetos) 13

Imagem obtida através de IA DALL.E 2 da OpenAI

Quando os archotes ébrios, os teus dedos,

Incendiaram na noite a branca cólera,

Gritaste no silêncio desvairado,

No tormento das horas esquecidas.

 

No teu jardim, as rosas enrugaram.

Os dias aos dias seguiram imperfeitos,

Estátuas dum deus enlouquecido,

Preso em polida pedra calcinada.

 

Não há mãos pelos seios, nem alegria

No súbito cantar. Apenas mágoas

Te recolhem na fístula da tarde.

 

Aí, na flâmula acesa, transfigura-se

Em murmúrio a voz que em ti vacila,

Luz que a noite ao dia sempre roubou.


2007

quinta-feira, 4 de maio de 2023

A fraqueza do discurso forte

Imagem produzida por IA - CANVA

Não fora conhecer o que a casa gasta, ter-me-ia espantado. Ouvi e vi o discurso do Presidente da República e ouvi uma série de comentários. Quem ouvisse os comentadores ficaria convencido de que o Presidente tinha trucidado António Costa, o governo, para além, claro, do ministro Galamba. Uns comentadores – e jornalistas – proclamavam um discurso forte, terrível. Outros abanavam a cabeça em assentimento. Não me espantei, porque descobri há muito que estas pessoas confundem a realidade com os seus desejos. Foi o discurso do Presidente um discurso de força?

Não. Foi um discurso de fraqueza. Lamentou, ralhou, ameaçou. Ora, quem tem força não ralha nem ameaça. Faz, age. Não protela. Responde na hora. Quem espera o momento oportuno, está calado. O discurso do Presidente foi o reconhecimento da posição de fraqueza a que se viu reduzido pela acção do Primeiro-Ministro, uma intervenção para salvar a face. Ora, se António Costa o fez perder a face foi por sua culpa, porque não soube gerir a palavra. Se estivesse calado acerca do ministro Galamba, este teria ido embora. Nenhum primeiro-ministro pode permitir o contínuo imiscuir, em jeito de comentário televisivo ou de ameaça, de um Presidente.

A fraqueza, porém, não fica por aqui. A ameaça de ser mais exigente com o governo é absurda. Será que até aqui não era exigente, não cumpria a sua função? Se sim, qual a diferença? Vai criar instabilidade? Os comentadores, a grande maioria afecta à direita, acham que António Costa vai ser cozinhado em lume brando. Há nesta ideia um equívoco. O Presidente há muito que, com sorrisos, papas e bolos, estava a cozinhar o Primeiro-Ministro em lume brando. A recusa de António Costa de demitir Galamba foi um salto para fora do caldeirão onde o Presidente o estava a cozer.

As coisas mudaram, mas não no sentido que os comentadores, mais ou menos entusiastas, afirmam. António Costa está mais forte. Marcelo Rebelo de Sousa mais fraco. A partir deste momento, António Costa tem a iniciativa. Isso não garante que não se afunde. Garante apenas que é responsável pelo destino do governo. Se as coisas correrem bem, será mérito dele. Se correrem mal, será culpa sua. Isso, porém, foi o que ele veio dizer aos portugueses. Que toda a responsabilidade pela governação assentava nos seus ombros. E isso é um discurso forte, não a arenga admoestadora do Presidente.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Ensaio sobre a luz (101)

Emil Nolde, Light Sea-Mood, 1901

Com candura, as águas do mar abrem-se à luz descida do céu, e tudo se transfigura. O oceano tenebroso, a terra seca, o céu exausto. As horas passam então mais devagar, para que a inocência cubra tudo o que existe e escreva a tinta indelével o seu nome na planície da memória.

segunda-feira, 1 de maio de 2023

A caminho dos 50 anos

No dia 25 de Abril, Portugal entrou no quinquagésimo ano de regime democrático. A caminho de meio século, a democracia portuguesa está perante um conjunto de desafios que necessita de enfrentar para sobreviver. Alguns desses desafios são comuns às democracias liberais existentes. Desses, o perigo mais claro é aquele que os nacionais-populismos colocam. Seria um erro pensar que podemos estar de volta ao fascismo tradicional. É uma forma simples de pôr o problema. Genericamente, estes movimentos pretendem acentuar aspectos democráticos que as democracias liberais estão longe de aceitar como virtuosos. Há neles um desejo plebiscitário, pretendendo desvalorizar a representatividade popular, trocando-a pela voz directa do povo. É uma visão da democracia que sempre despertou justificados receios, uma espécie de antecâmara do terror.

Estes movimentos populistas pretendem, escudados no voto popular, apagar o carácter liberal da democracia e pôr em causa o Estado de direito. A ideia central não será acabar com eleições, mas restringir direitos, liberdades e garantias, alterar as regras do jogo democrático, de modo a que lhe seja sempre favorável. Fundamentalmente, miram pôr em causa a separação entre o poder político e o poder judicial, transformando os tribunais numa arma política contra os adversários e instrumento de realização de políticas meramente partidárias. Estes movimentos partilham uma característica que os aproxima dos partidos totalitários. Tentam uma mobilização contínua da população. A intervenção que fazem, irracional numa lógica democrática e liberal, pretende, a partir de qualquer pretexto, aquecer continuamente a rua e a indignação popular.

Durante boa parte destes quase 50 anos, a memória da ditadura, da guerra colonial e do atraso de Portugal, assim como as alterações sociais trazidas pela liberdade política e pela adesão à União Europeia, têm servido como vacina contra o autoritarismo. Neste momento, existem dois factos que fragilizam as resistências da democracia liberal. Por um lado, a memória da ditadura está praticamente ausente na maior parte da população. Por outro, a existência de uma camada social muito frágil, incapaz de se integrar nas exigências da economia global e de se adequar, se em idade activa, ao desenvolvimento trazido pelas tecnologias de informação e comunicação e, agora, pela inteligência artificial. Se os partidos democráticos insistirem em não enfrentar estes problemas, então os cantos de sereia dos populistas, alicerçados na vozearia da mobilização contínua da rua, abrirão caminho para uma democracia iliberal e o autoritarismo.

sábado, 29 de abril de 2023

Simulacros e simulações (48)

Imagem obtida através de IA DALL.E 2 da OpenAI

Do fundo negro da inexistência, emergem, velozes e ávidos, mensageiros do ser. Correm perdidos e sem direcção, traçam rotas que logo se abismam no nada, mas persistem envoltos no desejo de um universo que chegará na ordenação pura das esferas celestes, com a sua música imperecível e uma arquitectura longamente meditada na Primavera de todos os mundos.

quinta-feira, 27 de abril de 2023

A persistência da memória (22)

Heinrich Kühn, Wäscherin in der Düne, 1903

Um outro sentido ordenava então o mundo. A vida frugal e a natureza com os seus elementos ainda eram apreciadas como uma dádiva. As relações humanas talvez fossem mais cruas e os abismos que entre homens se intrometiam mais difíceis de saltar, senão intransponíveis. A velocidade, porém, não se apoderara definitivamente do mundo e a vida embalava-se num ritmo lento, para que cada coisa, depois de germinada, pudesse amadurecer sem pressa e assim tornar-se substancial ao encontrar o seu lugar. No entanto, um outro mundo escondia-se já nesses gestos ancestrais de pôr a roupa ao sol para branquear, para deixar que a velha natureza fizesse o seu trabalho e pudesse participar na dança que então  embalava a vida.

terça-feira, 25 de abril de 2023

Cardílio (24 sonetos) 12

Imagem obtida através de IA DALL.E 2 da OpenAI

Que nome ao rio lhe davas, esse rio
Que vejo pobre e solto entre margens?
Quando o Sol inclemente te cansava,
As suas águas de luz te acolhiam.

Suspenso pelas margens frias do Outono,
De amargo fel rasgadas, tão parado
Na lânguida quietude dessa tarde,
Entregavas da língua o prostrado

Murmúrio, velho canto para sempre
Na treva soterrado. Navegante
Não és, nem do rio tens saber sagrado.

Os deuses, os teus deuses embarcaram,
Rumaram para longe, para um céu
De vidro transparente na verde água.

2007

 

domingo, 23 de abril de 2023

Comentários (6)

Vincent van Gogh, Farmhouse in Nuenen, 1885

No teu celeiro não guardarás as horas
mas o frio que o teu gado comeu
Daniel Jonas
 
Não há celeiro ou armazém onde as horas se guardem. Não há despensa ou casa escura onde o tempo se possa empilhar. Ele é um fio feito de coisa nenhuma e desliza imparável entre os dedos impotentes de quem, numa ânsia maculada pelo terror ou no desejo de fugir da necessidade, se entrega ao frio e aos vendavais com a esperança de acumular horas e dias, depositá-los numa conta para que rendam juros num futuro que, na velocidade do que não sofre de perturbações, se aproxima com o hálito incerto para cobrir de geada os trabalhos e os dias.

sexta-feira, 21 de abril de 2023

A guerra entre sexos

Uma notícia curiosa, mas, em aparência, sem relevo. No Público (online) de 11 de Abril, um texto apresentava o seguinte título: Na Croácia, homens ajoelham-se para rezar pela “restauração da autoridade masculina”. No lead da notícia, acrescentava-se: No primeiro sábado de cada mês, um grupo de homens católicos ajoelham-se (em locais públicos) para pedirem o fim do aborto, do sexo antes do casamento ou das roupas “provocantes”.  O que se deve perguntar perante este fenómeno é se ele não passa de uma bizarria ou se, sendo bizarro, traz consigo um aspecto revelador do que se está a passar no mundo ocidental. No último artigo, reflectiu-se sobre como o nacional-populismo se apoderou do futuro. Este artigo foca-se num aspecto que irá ter crescente importância no discurso dos nacionais-populistas, a questão da relação entre homens e mulheres.

A gradual igualdade entre homens e mulheres – nomeadamente, na gestão da sua própria sexualidade – parece estar a atormentar cada vez mais um número significativo de homens. Não apenas a questão da sexualidade, embora esta seja central, mas também o facto de as mulheres terem desempenhos muito mais competentes e focados em muitas áreas, começando pelos estudos e acabando no mundo profissional, onde não são dominantes porque a rede masculina consegue estancar a sua ascensão em massa aos lugares de topo. A liberdade sexual das mulheres trazida pela pílula e pela revolução dos costumes nascida com o Maio de 68, aliada ao poder de focagem que elas têm demonstrado ao nível da educação e da profissionalidade, está a deixar muitos homens inseguros e incapazes de suportar a situação.

Isto é muito claro em países como os EUA ou o Brasil, onde o apoio a Trump e a Bolsonaro se liga a modelos de masculinidade impositiva, que trazem uma promessa de restauração dos velhos tempos da dominação do homem sobre a mulher. Na Europa, esses movimentos são menos visíveis, mas será uma questão de tempo, como prenunciam já as manifestações dos grupos de homens croatas ou aquilo que se passa na Hungria ou na Polónia. Seria, por outro lado, um erro pensar que este tipo de aspiração só teria eco entre homens com masculinidade tóxica. Encontra, e vai encontrar cada vez mais, apoio entre grupos de mulheres, como se vê no Brasil ou nos EUA. Esta questão irá contaminar a política e abrir uma frente de combate muito polarizada, com os nacionais-populistas a alimentar a fogueira. Ainda não se percebe muito bem, mas a questão central da política, o lugar dos grandes conflitos, será cada vez mais o problema da igualdade entre homens e mulheres. Passamos da velha luta de classes à guerra entre sexos.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Nocturnos 101

Fernando Calhau, sem título, 1978

Não se rasgue a noite do seu mistério, nem se queira dissolver em luz a quietação do que adormeceu. Deixe-se apenas as sombras crescer sobre sombras, desenhar esboços que o dia trará à realidade, escrever, com tinta negra, a gesta que se esconde no murmúrio silencioso das trevas.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Ensaio sobre a luz (100)

Imagem obtida com IA da CANVA

É um mapa de luzes aberto ao olhar do espectador. Fronteiras delidas separam territórios de cor, países sem nome numa paisagem submersa pelas metamorfoses da luz. Viajantes invisíveis vão por caminhos de sombra, procuram a porta que os traga ao império das coisas que se deixam prender nos olhos de quem, ao longe, observa.

sábado, 15 de abril de 2023

Cardílio (24 sonetos) 11

Imagem obtida através de IA DALL.E 2 da OpenAI

Cânticos invernais soam na luz
De lápides, tijolos ou na dor
Das aves esmagadas pelo mármore
Das horas, pelo ferro do oblívio.

Os deuses estão mortos, as estátuas
De sal jazem erguidas sobre a terra.
Cruéis, torpes, exaustas pelos anos
Que sobre elas velozes se passaram


No ardor dos dias, na rápida e trémula
Cinza, há vencidos pássaros, que cantam,
Que cantam o teu nome enegrecido.

São pássaros finais, grasnam na noite
Sem Lua, na ventania sobre os telhados.
Gritam a triste glória dos vencidos.

2007

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Beatitudes (59) No lago

Paul Pichier, San Vigilio (Gardasee), 1908

Naqueles lugares que só existem no passado, o turismo ainda não tinha chegado com os seus esfaimados devoradores de imagens, nem com os atletas da viagem que em golpes rápidos pousam os olhos nas paisagens para nada verem. A vida vivia-se marcada pela lentidão das águas que no lago atrasavam o passar das horas, abrindo o tempo para que nele os homens se demorassem e deixassem, em certos dias, o seu corpo desabrigado e um vento de bonança e beatitude lhe tocasse. 

terça-feira, 11 de abril de 2023

Simulacros e simulações (47)

Imagem obtida com IA da CANVA

Uma gota de água pode simular uma lâmpada eléctrica. A realidade é um jogo de simulacros, no qual as coisas se imitam umas às outras, na ânsia de encontrarem correspondências e, por vezes, afinidades electivas. O mundo é o produto inacabado do poder que habita o princípio de cópia, o qual gera sem parar novas realidades no desejo de se copiar.
 

domingo, 9 de abril de 2023

Nocturnos 100

Imagem obtida através de IA da CANVA

A noite é uma floresta, onde entre as árvores da escuridão abrem clareiras rasgadas pelas lanças perfurantes dos raios lunares. Os pássaros dormem entontecidos nos ninhos ocultos nas ramagens, enquanto a noite cresce, árvore a árvore, insone, exangue, esperando que a aurora brote do coração do mundo e a escuridão do arvoredo possa dormir sob o império do dia.

sexta-feira, 7 de abril de 2023

O nacional-populismo e o futuro


Em Populismo - A revolta contra a democracia liberal (2018), Goodwin & Eatwell argumentam que os votos nos nacionais-populistas não são de protesto contra o sistema, mas uma adesão comprometida com a visão política desses partidos. No cerne dessa adesão estariam “quatro D”. Desconfiança dos cidadãos, devido ao elitismo da democracia liberal, nas instituições e políticos democráticos. Destruição das comunidades e da identidade nacional causada pela imigração e a mudança étnica. Despojamento sentido pelas pessoas em consequência da globalização, o aumento das desigualdades e a perda de esperança. Desalinhamento entre o povo e os partidos tradicionais, com a quebra dos laços que ligavam eleitores e partidos.

São estas questões que, segundo os autores, alimentam os nacionais-populistas. Acrescentaria, um quinto D, que os autores não referem, embora tenham em conta algumas das suas vertentes. Desestruturação da rede de valores tradicionais que orientaram as comunidades, a perda de relevância da religião, a revolução nos costumes, nomeadamente na sexualidade, a supremacia do estético sobre a moral e o hedonismo. Estes quatro (ou cinco) fenómenos, contudo, são apenas sintomas de uma questão mais decisiva e que se prende com a natureza da política. O que está em jogo na política é a imortalidade do homem, compreendida como a persistência no tempo das comunidades humanas. A arte política visa assegurar que a comunidade tem um futuro. O nacional-populismo cresce porque existe em parte dos eleitores um sentimento de que a sua comunidade corre perigo de morte.

Todos os D diagnosticam doenças que, combinadas, se tornarão mortais. A esta percepção (seja real ou imaginária) não é estranha a pulsão liberal para substituir a política, com a sua tensão entre amigos e inimigos, pela mera gestão das coisas. O nacional-populismo é uma reacção à morte da política e manifesta-se como exploração do sentimento de um fim próximo da comunidade política a que se pertence. As forças democráticas erram se pensam que iludir as questões colocadas pelos diversos D é um caminho para evitar o crescimento do populismo. Não é, pois este enraizou-se numa questão decisiva da existência humana, a do futuro da comunidade. O populismo colonizou o horizonte de expectativa. Resta saber como os valores da democracia liberal e do estado de direito podem resistir perante um inimigo que se se está a apoderar, com êxito crescente, apesar de algumas derrotas significativas, do futuro.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Cardílio (24 sonetos) 10

Imagem obtida através de IA da CANVA

Sons e silêncios, pedras, ervas, águas,
Verdes prados cerzidos na memória.
Nas folhas da figueira, corre a seiva,
O sopro puro e quente da tua boca.

P’la rua, se caminhavas, desprendia-se
Da luz um raio de âmbar, e dos gestos,
Que de ti se afastavam, irrompia,
Na distância, a luz da Primavera.

Nas sílabas abertas em teu rosto,
Vincado pelos dias de branca névoa,
Ouve-se ainda altivo e luminoso

O sonoro descanso de tua voz,
Mar de melancolia, terra de fogo:
Lácio, língua, silêncio, branca ardósia.

2007

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Comentários (5)

Imagem obtida com IA da CANVA

Ouço-as como se ouvisse chegar o verão,
seus inumeráveis dedos correm pelos dias
ou pelas noites com as águas dentro.
Eugénio de Andrade

De tudo o que se ouve, aquilo que mais longamente ressoa são as vozes que habitam por dentro da memória. São como pedras percutidas pelo labor do arqueólogo ou sombras nascidas pela inclinação das giestas num longo entardecer do Estio. Trazem consigo as noites e os dias que o tempo escondeu na caverna esconsa do passado, devolvem ao que foi a esperança de ainda vir a ser, como se essas vozes nascessem num mundo circular, onde tudo retornará vezes sem fim.

sábado, 1 de abril de 2023

A educação e o ChatGPT

Em 1977, Ernst Jünger publicou o romance Eumeswil. Um dos elementos futuristas presentes na obra é um dispositivo denominado luminar. Este permitia fazer perguntas sobre História e devolvia, num monitor, respostas textuais adequadas ou, mesmo, representações vivas dos acontecimentos. Menos 50 anos depois, a realidade aproxima-se do futurismo de Jünger. O ChatGPT da OpenAI ainda não devolve cenas históricas vivas, mas responde a perguntas e não apenas de História, mas de todas as áreas. É uma tecnologia baseada na inteligência artificial. Fornece informação adequada, embora também forneça respostas com erros. No entanto, eliminar os erros e tornar as respostas precisas é uma questão de tempo.

Durante a minha vida, vi chegarem muitas novidades ao sistema de ensino, mas nenhuma alterou radicalmente a natureza deste. As tecnologias de comunicação democratizaram o acesso à informação, isso, porém, não representou uma ruptura, pois a informação sempre esteve no centro do ensino. Permitiram formas mais atraentes de comunicação, mas o essencial continuava como sempre tinha sido. Uma tecnologia como o ChatGPT implica uma mudança de natureza da prática formativa dos alunos e da função dos professores. Estes deixarão de ser mediadores de informação para ser outra coisa.

O professor, em primeiro lugar, deve ajudar os alunos a compreender os problemas a trabalhar e ensiná-los a fazer questões pertinentes à inteligência artificial. Não ensina respostas dadas, mas a fazer inquéritos articulados para obter informação trabalhada. Uma segunda função docente é a de ensinar os alunos a estabelecerem protocolos e estratégias de monitorização da qualidade da informação obtida. Por fim, os professores devem ser criadores de modelos de apresentação, pensados em função de desenvolvimentos cognitivos pretendidos, dos resultados obtidos pelos alunos nos seus inquéritos. Pela primeira vez, a tecnologia presente no ChatGPT torna realmente obsoleta a existência de avaliações das aprendizagens baseadas em provas como testes.

Os professores têm resistido e com razão à transformação das suas funções. A tecnologia disponível não lhes permitia abandonar com segurança a tradicional função de mediadores de informação. O ChatGPT veio mudar a realidade, resta saber quanto tempo vão demorar os sistemas de ensino a adaptar-se a um novo mundo. Recordo que Platão, no final do Fedro, escreveu uma terrível diatribe contra os malefícios da escrita. O resultado foi o que se viu, nulo. Não vale a pena, agora, diabolizar a inteligência artificial, o resultado será idêntico à diabolização da escrita por Platão.

quinta-feira, 30 de março de 2023

Ensaio sobre a luz (99)

Imagem obtida com IA da CANVA

Em toda a luz se oculta uma outra luz, mais cintilante, mais intensa, mais luminosa. Essa é a verdadeira luz, pois ilumina a própria iluminação. Nela, não há distinções, nem diferenças, nem assimetrias, mas sem ela nem o que há de distinto na distinção, de diferente na diferença, de assimétrico na assimetria seria possível de vislumbrar na sombra que cobre o mundo.

terça-feira, 28 de março de 2023

Pornografia na sala de aula


Um encarregado de educação queixou-se da nudez a que os alunos, de 11 e 12 anos, de uma escola pública da Florida (EUA), tinham sido sujeitos, numa aula sobre a arte do Renascimento. Foram expostos a pornografia, argumentou (ver aqui). Tratava-se de reproduções da estátua de David e da pintura A Criação de Adão, ambas de Miguel Ângelo, bem como de O Nascimento de Vénus, de Sandro Botticelli. A definição de pornografia é disputada, mas a proposta por Caroline West, na entrada “Pornography and Censorship”, da Stanford Encyclopaedia of Philosophy, é uma definição aceitável: “Pornografia é material sexualmente explícito (verbal ou pictórico) que é principalmente concebido para produzir excitação sexual nos espectadores”. A alegação do encarregado de educação é manifestamente falsa, pois as obras em questão estão longe de preencherem os critérios da definição de pornografia.

Podemos pensar que se tratou de um caso de excesso doentio de puritanismo, um episódio sem relevo. Seria cair no erro. A directora da escola pública foi obrigada a apresentar a demissão. O incidente é revelador de um profundo conflito, de natureza política, que está a atravessar as sociedades ocidentais, embora, de momento, seja mais explícito nos EUA ou no Brasil. O que está em jogo é a relação muito tensa entre uma parte da sociedade que adopta valores liberais, não apenas na economia, mas no modo de vida, onde a liberdade individual é o bem supremo a respeitar, e outra parte dessa mesma sociedade que tem uma perspectiva comunitarista conservadora, que se sente perdida num mundo onde os valores liberais predominam, nomeadamente, os que se relacionam com a sexualidade. Para se perceber esta posição vale a pena ler um livro de Rod Dreher, The Benedict Option. A Strategy for Christians in a Post-Christian Nation.

Este tipo de conservadorismo comunitarista é um dos elementos estruturais daquilo a que os cientistas políticos Roger Eatwell e Matthew Goodwin denominam como nacional-populismo e que está por detrás de políticos como Donald Trump, e parte substancial dos Republicanos, de Jair Bolsonaro e de inúmeros movimentos e partidos políticos na Europa, entre eles o Chega. A radicalização política a que se assiste não se funda em problemas da distribuição de rendimentos, embora estes façam parte da equação, mas num conflito cultural sobre o modo como se deve organizar a sociedade, de que o episódio da interpretação da arte renascentista como pornografia é um reflexo. A questão que se coloca é a de saber até que ponto as comunidades políticas e a liberdade individual como bem último são compatíveis.

domingo, 26 de março de 2023

Cardílio (24 sonetos) 9

Imagem obtida com IA da CANVA

Na tarde quente e calma, na suave
Melancolia do tempo bonançoso
Havia no aveludado das searas
Um rosto belo, branco e ardente.

Onde a luz dos olhos cintilantes,
O negro do cabelo solto ao vento?
Avita nesta terra te perdeste,
Só o nome o tempo te deixou.

Na seiva mansa e árdua que na tarde
Corre, há frutos azuis, gestos macios
Que inundam o precário desconcerto

Onde mulheres ávidas de amor
Ao  amor se dão, tristes e submissas,
Do frio fado e da morte desprendidas.

2007

 

sexta-feira, 24 de março de 2023

Nocturnos 99

Imagem obtida com IA da CANVA

A noite cai sobre as árvores luminosas que raptam as ruas à tirania das trevas. É uma noite ferida, incapaz de resistir ao avanço dos raios de luz. O silêncio toma-a por dentro, acolhe-se no seu coração para nascer, chegada a primeira aurora, como cântico dos pássaros da solidão ao acordarem para o ofício do dia. 

quarta-feira, 22 de março de 2023

A persistência da memória (21)

Constant Puyo, Frühling, 1900
Há imagens do passado que dormem como fantasmas na memória sem que, durante muito tempo, existam sinais claros de assombração. De súbito, um pequeno indício encontrado por acaso, uma fotografia de uma realidade completamente estranha, um sinal deixado à deriva por quem há muito partiu, qualquer coisa insignificante abre as portas da memória e aquela imagem desconhecida torna-se tão nítida que se é levado a crer que sempre existiu em nós. De imediato, se iluminam certas formas de vida, o pequeno gesto de compor um ramo de flores, a velha ordem que dava sentido e coerência ao mundo. Tudo isso chega como uma verdade há muito esquecida que o tempo encerrara nas arcas abandonas de um sótão.

segunda-feira, 20 de março de 2023

Simulacros e simulações (46)

Imagem obtida com IA da CANVA

Pode-se imaginar esse momento intermédio, no qual o caos e o cosmos se tocam, como um simulacro de desordem ordenada ou de ordem desordenada. A contiguidade dos dois estados da realidade permite todas as simulações, desde aquelas em que um mundo se estrutura a partir do tumulto dos elementos até a outras em que um universo se desfaz no vórtice onde todos os elementos se desagregam.

sábado, 18 de março de 2023

Os abusos e a desorientação da Igreja


A Igreja Católica portuguesa, na sequência do relatório da Comissão Independente sobre os abusos sexuais, tem mostrado uma inconcebível desorientação. A resposta dada pela Conferência Episcopal Portuguesa e algumas intervenções de altos dignitários, entre eles o Cardeal-Patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, deixaram muita gente perplexa e não poucos católicos desiludidos. O carácter sexual dos abusos tem ocultado a raiz do problema e a causa última da desorientação eclesiástica. Há quem pense que a questão está na relação perversa que a Igreja Católica mantém com a sexualidade, por um lado, e a exigência do celibato dos padres, por outro. O problema, todavia, é mais fundo.

É um facto que existe uma pulsão na Igreja para tentar controlar a sexualidade dos fiéis ou mesmo, caso fosse possível, de toda a gente. Enquanto se preocupa com o controlo da vida sexual dos outros, o clero – que domina toda a Igreja – sempre foi muito benevolente para com os seus, mesmo nos casos de abuso de menores, como se tem sabido. O problema, porém, não é, em primeiro lugar, um problema com a sexualidade, mas a forma como a Igreja tem sido incapaz de lidar com o mundo moderno e a autonomia dos indivíduos. Não é a sexualidade que leva parte do clero à desorientação, mas o facto de a relação com os crentes, na qual o pastor tem poder sobre as consciências, estar em contradição com sociedades onde os indivíduos são livres. Não podemos esquecer que os abusos, agora relatados pela Comissão Independente, ocorreram em relações onde, por norma, o poder eclesial do abusador se conjugava com a submissão das vítimas.

Essa relação de poder sobre as consciências está ameaçada. É essa ameaça que explica a desorientação de parte importante da hierarquia católica. Outrora, o seu poder era suficiente para ocultar as coisas desagradáveis. Agora deixou de ser. Enquanto a Igreja não compreender que a liberdade das pessoas e a autonomia da sua consciência é um bem que deve ser não só respeitado, mas cultivado, continuará a ver nos padres pastores de um rebanho de ovelhas submissas. E isto abre o caminho para todos os abusos. O que há de doentio na relação da Igreja com a sexualidade, o que há de inominável na história dos abusos, radica numa perversa relação de poder dos clérigos com os fiéis. Sem alterar esta relação, parte substancial da Igreja continuará desorientada, perdida entre o sonho do retorno a um passado de poder e dominação das consciências e os ditames de um mundo onde cada um deve guiar-se pela sua razão e não pela do prior da paróquia.

quinta-feira, 16 de março de 2023

Cardílio (24 sonetos) 8

Imagem obtida com IA da CANVA

Na luz destas colunas, em teu rosto

Macerado, coberto pelo musgo,

 Desenhado na areia dos olivais,

Quantos anos passaram sem vestígio.

 

As paredes são pó, pedra calcária,

Abandonadas águas tão salobras.

Aves siderais pálidas de morte,

Folhas, frutos perdidos no silêncio.

 

Uma palavra rasga o horizonte,

Grita-te incendiada na memória,

Ecoa na lezíria devastada.


No porão dos Invernos esquecidos,

Nas pedras arrastadas pelo tempo,

Ergue-se a sombra pura do passado.


2007

 

terça-feira, 14 de março de 2023

Comentários (4)

Imagem obtida com IA da CANVA

De repente, depois de morreres, aqueles amigos
que nunca concordaram com nada
concordam sobre o teu carácter.
Louise Glück

A morte é a porta aberta para o consenso. Sobre os mortos, mesmo aqueles que geraram mais ódio ou qualquer outro antagonismo extremado, o tempo trabalha para que, lentamente, as facetas mais agudas se vão erodindo, tornando-se cada vez mais planas. É verdade que alguns mortos precisarão de passar milénios no purgatório do esquecimento até que sobre eles se forme o consenso que os apaziguará e os libertará do rancor dos vivos, mas também a eles será dada uma oportunidade de paz. A morte é a entrada no paraíso de onde toda a dissensão foi banida.

domingo, 12 de março de 2023

Descrições fenomenológicas 70. A praça

Willem De Kooning, Cuadro, 1948

Não se sabe ao certo quando aquele espaço foi transformado numa praça, roubado às tarefas agrícolas que, noutros tempos, ocupavam as terras que cidades belicosas invadiram, desterrando os camponeses cada vez para mais longe. Sabe-se apenas que ali se reuniam há séculos pessoas para se entregarem ao comércio, às paixões do mundo, ao hábito da conversa. É essa praça antiga que ainda se suspeita sob a actual, com um enorme tabuleiro empedrado, ladeado por duas filas de velhos plátanos, agora despidos pelas agruras das estações. De um lado e de outro, existem cafés e bares, com as suas esplanadas cobertas e gente, muita gente, sentada nas mesas, uns lendo os jornais, outros a conversar, outros silenciosos olhando em frente, sem que se consiga saber qual o destino desses olhares desavisados. A noite cai, a iluminação eléctrica cria nuvens de luz ao misturar-se com uma chuva fina e melancólica. Entre os renques de árvores, no empedrado do tabuleiro central, não falta gente. Casais passeiam devagar, chapéus de chuva abertos, homens e mulheres solitários levam à trela cães de diverso porte, que vão sacudindo a água fina que se deposita no pêlo. Um jovem casal dá as mãos, enquanto a luz incide sobre eles, tornando-os o foco de quem, desocupado, olha por curiosidade, por não ter mais nada para fazer, por não saber como ocupar o tempo que antecede a hora de jantar. Depois, o casal perde-se entre os transeuntes, enquanto a chuva fina e rala forma aglomerados de gotas suspensas no ar, vibrando sob a luz, para cair no empedrado, nos chapéus de chuva, nos ramos despidos dos plátanos, uma água embalada pela hora do crepúsculo e pela vida que ainda ali freme, passados tantos séculos, mas que mais um pouco desaparecerá, por algumas horas, quando aquela gente recolher a casa para jantar e proteger-se das trevas da noite.

sexta-feira, 10 de março de 2023

Nocturnos 98

Imagem gerada por IA da DALL-E 2, da OpenAI

A frágil transparência da noite abre-se entre a névoa vinda da floresta e a luz branca que, pelas ruas desertas, faz lembrar a presença cintilante de estrelas decaídas. O silêncio ocupou o espaço vazio, como se a cidade abrisse os braços para acolher o último noctívago perdido no dédalo das suas avenidas.

quarta-feira, 8 de março de 2023

Cardílio (24 sonetos) 7

Anónimo romano, Mosaico de las figuras (detalhe), Museo Arqueológico. Córdoba. España

Já não resta do amor senão fragmentos
Dilacerados, rosas secas, murchas,
Espinhos acerados no silêncio
Da Primavera lábil e olvidada.

O inquieto chão que outrora tu pisaste
Não passa dum murmúrio, seca página
Da mão logo apartada. Ouve, Cardílio,
A lâmpada apagou-se, a noite veio.

Tremem-te as mãos, amarga o coração,
Já nada em ti respira, nem a voz,
Nem a língua suspira. Anjo não és,

Nem ladrão, nem um deus inconsolado.
- Sombra, vermelha sombra, quem és tu?
- Um nome, sem destino nem morada.

2007

segunda-feira, 6 de março de 2023

Ensaio sobre a luz (98)

Artur Pastor, Série De volta à Cidade, Lisboa, Avenida João XXI , décadas de 60-70
A cidade é um mar de luz com arquipélagos de sombra. Quem passa mergulha nas águas luminosas ou cobre-se nas pequenas ilhas que protegem os olhos do resplendor nascido no centro da terra. A Primavera cresce na encruzilhada entre os rigores do Inverno e as promessas do Estio, entre os frutos maduros da cintilação do sol e o pano escuro de um céu coberto pela cinza das nuvens.

sábado, 4 de março de 2023

Um estranho país


Descobre-se, ao olhar a comunicação social, que o país é composto praticamente por proprietários de casas devolutas e por donos de casas utilizadas para alojamento local. O alarido perante a iniciativa governamental relativa à habitação diz muito da comunicação social, mas muito pouco sobre o país. Isto não significa que as propostas do governo não sejam discutíveis. São-no. Contudo, o problema central não será o suposto ataque ao direito de propriedade ou a limitação da iniciativa no caso do alojamento local. Em primeiro lugar, é o próprio problema da habitação que se tornou dramático. Em segundo, é a expulsão dos habitantes menos ricos das grandes – e pequenas – cidades, com a consequente descaracterização. Por fim, é o impacto político resultante do ressentimento de parte da população ao sentir-se expulsa do lugar onde sempre viveu.

Há dias foi publicado um dado relevante sobre a nossa sociedade que está condenado a provocar menos alarido, menos comentários empolgados e delirantes, menos preocupação. Trata-se do crescimento da pobreza. O caso mais impressionante, porém, é que, se não existissem apoios sociais, 45% dos portugueses viveriam na pobreza. Isto é, quase metade da população. Além do mais, muitos, se não a maioria, dos outros 55% vivem pouco acima desse limiar de pobreza. Quando se junta estes dados à situação do sistema de saúde, e a falta de profissionais, do sistema educativo, e a falta de profissionais, fica-se com uma imagem terrível de Portugal. Uma sociedade extremamente estratificada, com grandes desigualdades e com os serviços sociais em colapso. Portugal entrou na União Europeia em 1986. A adesão era vista como a única forma de o país ser viável e não ver, a prazo, a sua independência ameaçada.

Passados mais de 35 anos, com muitos milhões de euros entrados no país, os problemas da pobreza não foram resolvidos. Por outro lado, os direitos constitucionais à habitação, saúde e educação encontram, cada vez mais, sérias limitações. Os portugueses, por norma, têm grande capacidade de sobreviver nos momentos difíceis, mas são incapazes de olhar o longo prazo, de estruturar e planear o que virá. Os governos, como no caso da habitação, mas também noutras áreas, improvisam, reagem aos problemas que vão surgindo, sendo incapazes de os antecipar e evitar. A agravar tudo isto, temos uma sociedade civil débil, com horror à política, composta por cidadãos que têm por aspiração máxima não ficarem pior do que estão. O alarido da comunicação social em torno das casas devolutas e do alojamento local é o outro lado da cegueira perante um país doente e em degradação contínua.

 

quinta-feira, 2 de março de 2023

O ódio ao Ocidente

Tornou-se manifesta a existência não apenas de um sentimento antiocidental, mas de um propósito de isolar o Ocidente e destruí-lo. A questão é a de saber o que tem a cultura ocidental de específico que provoca um ódio tão avassalador noutras partes do mundo. Alguns ocidentais dirão que o seu comportamento imperialista, a necessidade de abrir mercados nem que seja pela violência. Ora, essa conduta não é uma especificidade ocidental, e, por outro lado, os impérios ocidentais ruíram há muito. A diferença específica geradora de um ódio persistente ao Ocidente é a liberdade dos indivíduos.

O que marca as nossas sociedades é não estarmos submetidos a nenhuma religião, podendo-se adoptar uma ou outra, ou nenhuma. Ser religioso depende da consciência de cada um, da sua liberdade. Do mesmo modo, ninguém é obrigado a suportar a política do governo em exercício. Os chefes políticos são governantes transitórios, sujeitos à lei e à crítica e avaliados nas urnas. Cada um escolhe segundo a sua consciência, a sua liberdade. Por outro lado, a orientação moral não deriva de uma moral colectiva, mas de valores que cada um adopta, respeitando o mesmo direito para os outros, segundo a sua consciência, a sua liberdade. Também a vida sexual da pessoa, desde que não viole a autonomia de terceiros, é da responsabilidade da sua consciência, da sua liberdade.

O ódio que os governantes das potências autoritárias propagam relativamente ao Ocidente deve-se a este ser um mau exemplo. As sociedades ocidentais evoluíram de modo a que cada ser humano possa ser um indivíduo responsável pelos seus actos e dotado de direitos para agir em liberdade, desde que não infrinja direitos de outros. É isto que não é suportável para as lideranças políticas e religiosas do mundo submetido ao autoritarismo de tiranos e tiranetes que olham para as pessoas apenas como membros indiferenciados de um rebanho que deve obedecer, sempre e em todas as questões, ao pastor de serviço.

A liberdade, que viu a luz no Ocidente, é uma flor frágil e, na história dos seres humanos, tem sido a excepção e não a regra. A sua defesa, em todas as áreas, religião, política, moralidade, vida sexual, etc., é uma das tarefas fundamentais dos dias que correm. Defesa perante as ameaças não apenas dos inimigos externos, mas também dos que, internamente, sonham em liquidá-la, para repor nas mãos de um tirano político ou de uma igreja, ou de ambos, o controlo das vidas de cada um. Defender a liberdade é defender a existência de indivíduos que administram a sua vida conforme lhes dita a sua consciência, a sua liberdade.