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terça-feira, 9 de maio de 2023
Simulacros e simulações (49)
domingo, 7 de maio de 2023
A crise
O que se está a passar na área da governação é um sintoma de um mal que atinge os fundamentos da vida política. A oposição à direita está na expectativa de novas eleições, o Presidente da República ameaça com o uso dos poderes para dissolver o parlamento, o presidente do Partido Socialista, ao falar da necessidade de uma remodelação ministerial, passou uma certidão de óbito à actual composição do governo. Independentemente do que vem aí, se uma remodelação do governo, se uma dissolução do parlamento, parece não haver capacidade para ultrapassar o que se passa à superfície e perceber o que, mais fundo, está a originar a crise.
Durante décadas, um populismo difuso cultivado pelos portugueses, secou em muitas pessoas o desejo de participar na vida política. Um discurso antipolítico, absolutamente destrutivo, mascarado de liberdade crítica, alimentou o afastamento de muita gente boa da vida política. As pessoas não se estão para se sujeitar à vociferação popular, para ver a sua vida arrastada pela praça pública, para serem vilipendiadas apenas porque pensam de uma determinada maneira. Isto já se manifestava no tempo em que não havia redes sociais. Com a vinda destas, tudo piorou. Como povo, conseguimos afastar os melhores.
Os partidos políticos, todavia, não são inocentes. Os da área da governação tornaram-se estâncias de incompetentes e videirinhos. Sem concorrência de gente competente e com sentido cívico, a vida partidária tornou-se uma árdua luta por lugares e prebendas, para a busca da miserável glória de ocupar lugares nas diversas instâncias do poder. Miserável, não porque o poder político seja algo de indigno, mas porque muitos dos que o ocupam não o fazem para servir o bem comum. Nem uma remodelação governativa, nem uma troca de opções ideológicas mudará alguma coisa. Só a cegueira ideológica achará que uma opção em volta do PSD será, em substância, diferente da actual.
Temo, na verdade, que não exista uma solução para o problema. O mais plausível é que, com remodelação ou novas eleições, tudo se continue a degradar. Os portugueses, alimentados por uma comunicação social partidarizada e pelo anonimato das redes sociais, insistirão numa cultura onde falta grandeza cívica e onde está ausente qualquer preocupação pela democracia e pelo Estado de direito. Os militantes partidários, cegos pelo desejo de serem alguém, continuarão as suas guerras do Arlequim e da Manjerona, com os seus dramas de faca e alguidar. Até que a ruína destrua o edifício democrático e se entregue o país a um aventureiro disposto a usar o chicote sobre os portugueses.
sexta-feira, 5 de maio de 2023
Cardílio (24 sonetos) 13
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| Imagem obtida através de IA DALL.E 2 da OpenAI |
Quando os archotes ébrios, os
teus dedos,
Incendiaram na noite a branca
cólera,
Gritaste no silêncio
desvairado,
No tormento das horas esquecidas.
No teu jardim, as rosas enrugaram.
Os dias aos dias seguiram
imperfeitos,
Estátuas dum deus enlouquecido,
Preso em polida pedra
calcinada.
Não há mãos pelos seios, nem
alegria
No súbito cantar. Apenas mágoas
Te recolhem na fístula da
tarde.
Aí, na flâmula acesa,
transfigura-se
Em murmúrio a voz que em ti vacila,
Luz que a noite ao dia sempre
roubou.
2007
quinta-feira, 4 de maio de 2023
A fraqueza do discurso forte
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Não fora conhecer o que a casa gasta, ter-me-ia espantado. Ouvi e vi o discurso do Presidente da República e ouvi uma série de comentários. Quem ouvisse os comentadores ficaria convencido de que o Presidente tinha trucidado António Costa, o governo, para além, claro, do ministro Galamba. Uns comentadores – e jornalistas – proclamavam um discurso forte, terrível. Outros abanavam a cabeça em assentimento. Não me espantei, porque descobri há muito que estas pessoas confundem a realidade com os seus desejos. Foi o discurso do Presidente um discurso de força?
Não. Foi um discurso de fraqueza. Lamentou, ralhou, ameaçou. Ora, quem tem força não ralha nem ameaça. Faz, age. Não protela. Responde na hora. Quem espera o momento oportuno, está calado. O discurso do Presidente foi o reconhecimento da posição de fraqueza a que se viu reduzido pela acção do Primeiro-Ministro, uma intervenção para salvar a face. Ora, se António Costa o fez perder a face foi por sua culpa, porque não soube gerir a palavra. Se estivesse calado acerca do ministro Galamba, este teria ido embora. Nenhum primeiro-ministro pode permitir o contínuo imiscuir, em jeito de comentário televisivo ou de ameaça, de um Presidente.
A fraqueza, porém, não fica por aqui. A ameaça de ser mais exigente com o governo é absurda. Será que até aqui não era exigente, não cumpria a sua função? Se sim, qual a diferença? Vai criar instabilidade? Os comentadores, a grande maioria afecta à direita, acham que António Costa vai ser cozinhado em lume brando. Há nesta ideia um equívoco. O Presidente há muito que, com sorrisos, papas e bolos, estava a cozinhar o Primeiro-Ministro em lume brando. A recusa de António Costa de demitir Galamba foi um salto para fora do caldeirão onde o Presidente o estava a cozer.
As coisas mudaram, mas não no sentido que os comentadores, mais ou menos entusiastas, afirmam. António Costa está mais forte. Marcelo Rebelo de Sousa mais fraco. A partir deste momento, António Costa tem a iniciativa. Isso não garante que não se afunde. Garante apenas que é responsável pelo destino do governo. Se as coisas correrem bem, será mérito dele. Se correrem mal, será culpa sua. Isso, porém, foi o que ele veio dizer aos portugueses. Que toda a responsabilidade pela governação assentava nos seus ombros. E isso é um discurso forte, não a arenga admoestadora do Presidente.
quarta-feira, 3 de maio de 2023
Ensaio sobre a luz (101)
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| Emil Nolde, Light Sea-Mood, 1901 |
segunda-feira, 1 de maio de 2023
A caminho dos 50 anos
No dia 25 de Abril, Portugal entrou no quinquagésimo ano de regime democrático. A caminho de meio século, a democracia portuguesa está perante um conjunto de desafios que necessita de enfrentar para sobreviver. Alguns desses desafios são comuns às democracias liberais existentes. Desses, o perigo mais claro é aquele que os nacionais-populismos colocam. Seria um erro pensar que podemos estar de volta ao fascismo tradicional. É uma forma simples de pôr o problema. Genericamente, estes movimentos pretendem acentuar aspectos democráticos que as democracias liberais estão longe de aceitar como virtuosos. Há neles um desejo plebiscitário, pretendendo desvalorizar a representatividade popular, trocando-a pela voz directa do povo. É uma visão da democracia que sempre despertou justificados receios, uma espécie de antecâmara do terror.
Estes movimentos populistas pretendem, escudados no voto popular, apagar o carácter liberal da democracia e pôr em causa o Estado de direito. A ideia central não será acabar com eleições, mas restringir direitos, liberdades e garantias, alterar as regras do jogo democrático, de modo a que lhe seja sempre favorável. Fundamentalmente, miram pôr em causa a separação entre o poder político e o poder judicial, transformando os tribunais numa arma política contra os adversários e instrumento de realização de políticas meramente partidárias. Estes movimentos partilham uma característica que os aproxima dos partidos totalitários. Tentam uma mobilização contínua da população. A intervenção que fazem, irracional numa lógica democrática e liberal, pretende, a partir de qualquer pretexto, aquecer continuamente a rua e a indignação popular.
Durante boa
parte destes quase 50 anos, a memória da ditadura, da guerra colonial e do
atraso de Portugal, assim como as alterações sociais trazidas pela liberdade
política e pela adesão à União Europeia, têm servido como vacina contra o
autoritarismo. Neste momento, existem dois factos que fragilizam as
resistências da democracia liberal. Por um lado, a memória da ditadura está
praticamente ausente na maior parte da população. Por outro, a existência de
uma camada social muito frágil, incapaz de se integrar nas exigências da
economia global e de se adequar, se em idade activa, ao desenvolvimento trazido
pelas tecnologias de informação e comunicação e, agora, pela inteligência artificial.
Se os partidos democráticos insistirem em não enfrentar estes problemas, então
os cantos de sereia dos populistas, alicerçados na vozearia da mobilização
contínua da rua, abrirão caminho para uma democracia iliberal e o
autoritarismo.
sábado, 29 de abril de 2023
Simulacros e simulações (48)
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| Imagem obtida através de IA DALL.E 2 da OpenAI |
quinta-feira, 27 de abril de 2023
A persistência da memória (22)
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| Heinrich Kühn, Wäscherin in der Düne, 1903 |
terça-feira, 25 de abril de 2023
Cardílio (24 sonetos) 12
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| Imagem obtida através de IA DALL.E 2 da OpenAI |
Que nome ao rio lhe davas, esse
rio
Que vejo pobre e solto entre margens?
Quando o Sol inclemente te cansava,
As suas águas de luz te acolhiam.
Suspenso pelas margens frias do Outono,
De amargo fel rasgadas, tão parado
Na lânguida quietude dessa tarde,
Entregavas da língua o prostrado
Murmúrio, velho canto para sempre
Na treva soterrado. Navegante
Não és, nem do rio tens saber sagrado.
Os deuses, os teus deuses embarcaram,
Rumaram para longe, para um céu
De vidro transparente na verde água.
2007
domingo, 23 de abril de 2023
Comentários (6)
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| Vincent van Gogh, Farmhouse in Nuenen, 1885 |
sexta-feira, 21 de abril de 2023
A guerra entre sexos
Uma notícia curiosa, mas, em aparência, sem relevo. No Público (online) de 11 de Abril, um texto apresentava o seguinte título: Na Croácia, homens ajoelham-se para rezar pela “restauração da autoridade masculina”. No lead da notícia, acrescentava-se: No primeiro sábado de cada mês, um grupo de homens católicos ajoelham-se (em locais públicos) para pedirem o fim do aborto, do sexo antes do casamento ou das roupas “provocantes”. O que se deve perguntar perante este fenómeno é se ele não passa de uma bizarria ou se, sendo bizarro, traz consigo um aspecto revelador do que se está a passar no mundo ocidental. No último artigo, reflectiu-se sobre como o nacional-populismo se apoderou do futuro. Este artigo foca-se num aspecto que irá ter crescente importância no discurso dos nacionais-populistas, a questão da relação entre homens e mulheres.
A gradual igualdade entre homens e mulheres – nomeadamente, na gestão da sua própria sexualidade – parece estar a atormentar cada vez mais um número significativo de homens. Não apenas a questão da sexualidade, embora esta seja central, mas também o facto de as mulheres terem desempenhos muito mais competentes e focados em muitas áreas, começando pelos estudos e acabando no mundo profissional, onde não são dominantes porque a rede masculina consegue estancar a sua ascensão em massa aos lugares de topo. A liberdade sexual das mulheres trazida pela pílula e pela revolução dos costumes nascida com o Maio de 68, aliada ao poder de focagem que elas têm demonstrado ao nível da educação e da profissionalidade, está a deixar muitos homens inseguros e incapazes de suportar a situação.
Isto é muito claro em países como os EUA ou o Brasil, onde o apoio a Trump e a Bolsonaro se liga a modelos de masculinidade impositiva, que trazem uma promessa de restauração dos velhos tempos da dominação do homem sobre a mulher. Na Europa, esses movimentos são menos visíveis, mas será uma questão de tempo, como prenunciam já as manifestações dos grupos de homens croatas ou aquilo que se passa na Hungria ou na Polónia. Seria, por outro lado, um erro pensar que este tipo de aspiração só teria eco entre homens com masculinidade tóxica. Encontra, e vai encontrar cada vez mais, apoio entre grupos de mulheres, como se vê no Brasil ou nos EUA. Esta questão irá contaminar a política e abrir uma frente de combate muito polarizada, com os nacionais-populistas a alimentar a fogueira. Ainda não se percebe muito bem, mas a questão central da política, o lugar dos grandes conflitos, será cada vez mais o problema da igualdade entre homens e mulheres. Passamos da velha luta de classes à guerra entre sexos.
quarta-feira, 19 de abril de 2023
Nocturnos 101
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| Fernando Calhau, sem título, 1978 |
segunda-feira, 17 de abril de 2023
Ensaio sobre a luz (100)
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sábado, 15 de abril de 2023
Cardílio (24 sonetos) 11
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Cânticos invernais soam na luz
De lápides, tijolos ou na dor
Das aves esmagadas pelo mármore
Das horas, pelo ferro do oblívio.
Os deuses estão mortos, as estátuas
De sal jazem erguidas sobre a terra.
Cruéis, torpes, exaustas pelos anos
Que sobre elas velozes se passaram
No ardor dos dias, na rápida e trémula
Cinza, há vencidos pássaros, que cantam,
Que cantam o teu nome enegrecido.
São pássaros finais, grasnam na noite
Sem Lua, na ventania sobre os telhados.
Gritam a triste glória dos vencidos.
2007
quinta-feira, 13 de abril de 2023
Beatitudes (59) No lago
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| Paul Pichier, San Vigilio (Gardasee), 1908 |
terça-feira, 11 de abril de 2023
Simulacros e simulações (47)
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domingo, 9 de abril de 2023
Nocturnos 100
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sexta-feira, 7 de abril de 2023
O nacional-populismo e o futuro
São estas questões que, segundo os autores, alimentam os nacionais-populistas. Acrescentaria, um quinto D, que os autores não referem, embora tenham em conta algumas das suas vertentes. Desestruturação da rede de valores tradicionais que orientaram as comunidades, a perda de relevância da religião, a revolução nos costumes, nomeadamente na sexualidade, a supremacia do estético sobre a moral e o hedonismo. Estes quatro (ou cinco) fenómenos, contudo, são apenas sintomas de uma questão mais decisiva e que se prende com a natureza da política. O que está em jogo na política é a imortalidade do homem, compreendida como a persistência no tempo das comunidades humanas. A arte política visa assegurar que a comunidade tem um futuro. O nacional-populismo cresce porque existe em parte dos eleitores um sentimento de que a sua comunidade corre perigo de morte.
Todos os D
diagnosticam doenças que, combinadas, se tornarão mortais. A esta percepção (seja
real ou imaginária) não é estranha a pulsão liberal para substituir a política,
com a sua tensão entre amigos e inimigos, pela mera gestão das coisas. O
nacional-populismo é uma reacção à morte da política e manifesta-se como exploração
do sentimento de um fim próximo da comunidade política a que se pertence. As
forças democráticas erram se pensam que iludir as questões colocadas pelos
diversos D é um caminho para evitar o crescimento do populismo. Não é,
pois este enraizou-se numa questão decisiva da existência humana, a do futuro
da comunidade. O populismo colonizou o horizonte de expectativa. Resta saber
como os valores da democracia liberal e do estado de direito podem resistir
perante um inimigo que se se está a apoderar, com êxito crescente, apesar de
algumas derrotas significativas, do futuro.
quarta-feira, 5 de abril de 2023
Cardílio (24 sonetos) 10
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Sons e silêncios, pedras,
ervas, águas,
Verdes prados cerzidos na memória.
Nas folhas da figueira, corre a seiva,
O sopro puro e quente da tua boca.
P’la rua, se caminhavas, desprendia-se
Da luz um raio de âmbar, e dos gestos,
Que de ti se afastavam, irrompia,
Na distância, a luz da Primavera.
Nas sílabas abertas em teu rosto,
Vincado pelos dias de branca névoa,
Ouve-se ainda altivo e luminoso
O sonoro descanso de tua voz,
Mar de melancolia, terra de fogo:
Lácio, língua, silêncio, branca ardósia.
2007
segunda-feira, 3 de abril de 2023
Comentários (5)
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sábado, 1 de abril de 2023
A educação e o ChatGPT
Em 1977, Ernst Jünger publicou o romance Eumeswil. Um dos elementos futuristas presentes na obra é um dispositivo denominado luminar. Este permitia fazer perguntas sobre História e devolvia, num monitor, respostas textuais adequadas ou, mesmo, representações vivas dos acontecimentos. Menos 50 anos depois, a realidade aproxima-se do futurismo de Jünger. O ChatGPT da OpenAI ainda não devolve cenas históricas vivas, mas responde a perguntas e não apenas de História, mas de todas as áreas. É uma tecnologia baseada na inteligência artificial. Fornece informação adequada, embora também forneça respostas com erros. No entanto, eliminar os erros e tornar as respostas precisas é uma questão de tempo.
Durante a minha vida, vi chegarem muitas novidades ao sistema de ensino, mas nenhuma alterou radicalmente a natureza deste. As tecnologias de comunicação democratizaram o acesso à informação, isso, porém, não representou uma ruptura, pois a informação sempre esteve no centro do ensino. Permitiram formas mais atraentes de comunicação, mas o essencial continuava como sempre tinha sido. Uma tecnologia como o ChatGPT implica uma mudança de natureza da prática formativa dos alunos e da função dos professores. Estes deixarão de ser mediadores de informação para ser outra coisa.
O professor, em primeiro lugar, deve ajudar os alunos a compreender os problemas a trabalhar e ensiná-los a fazer questões pertinentes à inteligência artificial. Não ensina respostas dadas, mas a fazer inquéritos articulados para obter informação trabalhada. Uma segunda função docente é a de ensinar os alunos a estabelecerem protocolos e estratégias de monitorização da qualidade da informação obtida. Por fim, os professores devem ser criadores de modelos de apresentação, pensados em função de desenvolvimentos cognitivos pretendidos, dos resultados obtidos pelos alunos nos seus inquéritos. Pela primeira vez, a tecnologia presente no ChatGPT torna realmente obsoleta a existência de avaliações das aprendizagens baseadas em provas como testes.
Os professores têm resistido e com razão à transformação das suas funções. A tecnologia disponível não lhes permitia abandonar com segurança a tradicional função de mediadores de informação. O ChatGPT veio mudar a realidade, resta saber quanto tempo vão demorar os sistemas de ensino a adaptar-se a um novo mundo. Recordo que Platão, no final do Fedro, escreveu uma terrível diatribe contra os malefícios da escrita. O resultado foi o que se viu, nulo. Não vale a pena, agora, diabolizar a inteligência artificial, o resultado será idêntico à diabolização da escrita por Platão.
quinta-feira, 30 de março de 2023
Ensaio sobre a luz (99)
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terça-feira, 28 de março de 2023
Pornografia na sala de aula
Um encarregado de educação
queixou-se da nudez a que os alunos, de 11 e 12 anos, de uma escola pública da
Florida (EUA), tinham sido sujeitos, numa aula sobre a arte do Renascimento.
Foram expostos a pornografia, argumentou (ver aqui).
Tratava-se de reproduções da estátua de David e
da pintura A
Criação de Adão, ambas de Miguel Ângelo, bem como de O
Nascimento de Vénus, de Sandro Botticelli. A definição de pornografia é
disputada, mas a proposta por Caroline West, na entrada “Pornography
and Censorship”, da Stanford Encyclopaedia of Philosophy, é uma
definição aceitável: “Pornografia é material sexualmente explícito
(verbal ou pictórico) que é principalmente concebido para produzir excitação
sexual nos espectadores”. A alegação do encarregado de educação é
manifestamente falsa, pois as obras em questão estão longe de preencherem os
critérios da definição de pornografia.
Podemos pensar que se tratou de
um caso de excesso doentio de puritanismo, um episódio sem relevo. Seria cair
no erro. A directora da escola pública foi obrigada a apresentar a demissão. O
incidente é revelador de um profundo conflito, de natureza política, que está a
atravessar as sociedades ocidentais, embora, de momento, seja mais explícito
nos EUA ou no Brasil. O que está em jogo é a relação muito tensa entre uma
parte da sociedade que adopta valores liberais, não apenas na economia, mas no
modo de vida, onde a liberdade individual é o bem supremo a respeitar, e outra
parte dessa mesma sociedade que tem uma perspectiva comunitarista conservadora,
que se sente perdida num mundo onde os valores liberais predominam,
nomeadamente, os que se relacionam com a sexualidade. Para se perceber esta
posição vale a pena ler um livro de Rod Dreher, The
Benedict Option. A Strategy for Christians in a Post-Christian Nation.
Este tipo de conservadorismo comunitarista é um dos elementos estruturais daquilo a que os cientistas políticos Roger Eatwell e Matthew Goodwin denominam como nacional-populismo e que está por detrás de políticos como Donald Trump, e parte substancial dos Republicanos, de Jair Bolsonaro e de inúmeros movimentos e partidos políticos na Europa, entre eles o Chega. A radicalização política a que se assiste não se funda em problemas da distribuição de rendimentos, embora estes façam parte da equação, mas num conflito cultural sobre o modo como se deve organizar a sociedade, de que o episódio da interpretação da arte renascentista como pornografia é um reflexo. A questão que se coloca é a de saber até que ponto as comunidades políticas e a liberdade individual como bem último são compatíveis.
domingo, 26 de março de 2023
Cardílio (24 sonetos) 9
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Na tarde quente e calma, na
suave
Melancolia do tempo bonançoso
Havia no aveludado das searas
Um rosto belo, branco e ardente.
Onde a luz dos olhos cintilantes,
O negro do cabelo solto ao vento?
Avita nesta terra te perdeste,
Só o nome o tempo te deixou.
Na seiva mansa e árdua que na tarde
Corre, há frutos azuis, gestos macios
Que inundam o precário desconcerto
Onde mulheres ávidas de amor
Ao amor se dão, tristes e submissas,
Do frio fado e da morte desprendidas.
2007
sexta-feira, 24 de março de 2023
Nocturnos 99
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quarta-feira, 22 de março de 2023
A persistência da memória (21)
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| Constant Puyo, Frühling, 1900 |
segunda-feira, 20 de março de 2023
Simulacros e simulações (46)
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sábado, 18 de março de 2023
Os abusos e a desorientação da Igreja
É um facto que existe uma pulsão na Igreja para tentar controlar a sexualidade dos fiéis ou mesmo, caso fosse possível, de toda a gente. Enquanto se preocupa com o controlo da vida sexual dos outros, o clero – que domina toda a Igreja – sempre foi muito benevolente para com os seus, mesmo nos casos de abuso de menores, como se tem sabido. O problema, porém, não é, em primeiro lugar, um problema com a sexualidade, mas a forma como a Igreja tem sido incapaz de lidar com o mundo moderno e a autonomia dos indivíduos. Não é a sexualidade que leva parte do clero à desorientação, mas o facto de a relação com os crentes, na qual o pastor tem poder sobre as consciências, estar em contradição com sociedades onde os indivíduos são livres. Não podemos esquecer que os abusos, agora relatados pela Comissão Independente, ocorreram em relações onde, por norma, o poder eclesial do abusador se conjugava com a submissão das vítimas.
Essa relação de poder sobre as consciências está ameaçada. É essa ameaça que explica a desorientação de parte importante da hierarquia católica. Outrora, o seu poder era suficiente para ocultar as coisas desagradáveis. Agora deixou de ser. Enquanto a Igreja não compreender que a liberdade das pessoas e a autonomia da sua consciência é um bem que deve ser não só respeitado, mas cultivado, continuará a ver nos padres pastores de um rebanho de ovelhas submissas. E isto abre o caminho para todos os abusos. O que há de doentio na relação da Igreja com a sexualidade, o que há de inominável na história dos abusos, radica numa perversa relação de poder dos clérigos com os fiéis. Sem alterar esta relação, parte substancial da Igreja continuará desorientada, perdida entre o sonho do retorno a um passado de poder e dominação das consciências e os ditames de um mundo onde cada um deve guiar-se pela sua razão e não pela do prior da paróquia.
quinta-feira, 16 de março de 2023
Cardílio (24 sonetos) 8
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| Imagem obtida com IA da CANVA |
Na luz destas colunas, em teu
rosto
Macerado, coberto pelo musgo,
Desenhado na areia dos olivais,
Quantos anos passaram sem vestígio.
As paredes são pó, pedra calcária,
Abandonadas águas tão salobras.
Aves siderais pálidas de morte,
Folhas, frutos perdidos no
silêncio.
Uma palavra rasga o horizonte,
Grita-te incendiada na memória,
Ecoa na lezíria devastada.
No porão dos Invernos esquecidos,
Nas pedras arrastadas pelo tempo,
Ergue-se a sombra pura do passado.
2007
terça-feira, 14 de março de 2023
Comentários (4)
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domingo, 12 de março de 2023
Descrições fenomenológicas 70. A praça
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| Willem De Kooning, Cuadro, 1948 |
sexta-feira, 10 de março de 2023
Nocturnos 98
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| Imagem gerada por IA da DALL-E 2, da OpenAI |
quarta-feira, 8 de março de 2023
Cardílio (24 sonetos) 7
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| Anónimo romano, Mosaico de las figuras (detalhe), Museo Arqueológico. Córdoba. España |
Já não
resta do amor senão fragmentos
Dilacerados, rosas secas, murchas,
Espinhos acerados no silêncio
Da Primavera lábil e olvidada.
O inquieto chão que outrora tu pisaste
Não passa dum murmúrio, seca página
Da mão logo apartada. Ouve, Cardílio,
A lâmpada apagou-se, a noite veio.
Tremem-te as mãos, amarga o coração,
Já nada em ti respira, nem a voz,
Nem a língua suspira. Anjo não és,
Nem ladrão, nem um deus inconsolado.
- Sombra, vermelha sombra, quem és tu?
- Um nome, sem destino nem morada.
2007
segunda-feira, 6 de março de 2023
Ensaio sobre a luz (98)
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| Artur Pastor, Série De volta à Cidade, Lisboa, Avenida João XXI , décadas de 60-70 |
sábado, 4 de março de 2023
Um estranho país
Descobre-se, ao olhar a comunicação social, que o país é composto praticamente por proprietários de casas devolutas e por donos de casas utilizadas para alojamento local. O alarido perante a iniciativa governamental relativa à habitação diz muito da comunicação social, mas muito pouco sobre o país. Isto não significa que as propostas do governo não sejam discutíveis. São-no. Contudo, o problema central não será o suposto ataque ao direito de propriedade ou a limitação da iniciativa no caso do alojamento local. Em primeiro lugar, é o próprio problema da habitação que se tornou dramático. Em segundo, é a expulsão dos habitantes menos ricos das grandes – e pequenas – cidades, com a consequente descaracterização. Por fim, é o impacto político resultante do ressentimento de parte da população ao sentir-se expulsa do lugar onde sempre viveu.
Há dias foi publicado um dado relevante sobre a nossa sociedade que está condenado a provocar menos alarido, menos comentários empolgados e delirantes, menos preocupação. Trata-se do crescimento da pobreza. O caso mais impressionante, porém, é que, se não existissem apoios sociais, 45% dos portugueses viveriam na pobreza. Isto é, quase metade da população. Além do mais, muitos, se não a maioria, dos outros 55% vivem pouco acima desse limiar de pobreza. Quando se junta estes dados à situação do sistema de saúde, e a falta de profissionais, do sistema educativo, e a falta de profissionais, fica-se com uma imagem terrível de Portugal. Uma sociedade extremamente estratificada, com grandes desigualdades e com os serviços sociais em colapso. Portugal entrou na União Europeia em 1986. A adesão era vista como a única forma de o país ser viável e não ver, a prazo, a sua independência ameaçada.
Passados mais
de 35 anos, com muitos milhões de euros entrados no país, os problemas da
pobreza não foram resolvidos. Por outro lado, os direitos constitucionais à
habitação, saúde e educação encontram, cada vez mais, sérias limitações. Os
portugueses, por norma, têm grande capacidade de sobreviver nos momentos
difíceis, mas são incapazes de olhar o longo prazo, de estruturar e planear o
que virá. Os governos, como no caso da habitação, mas também noutras áreas,
improvisam, reagem aos problemas que vão surgindo, sendo incapazes de os
antecipar e evitar. A agravar tudo isto, temos uma sociedade civil débil, com
horror à política, composta por cidadãos que têm por aspiração máxima não
ficarem pior do que estão. O alarido da comunicação social em torno das casas
devolutas e do alojamento local é o outro lado da cegueira perante um país
doente e em degradação contínua.
quinta-feira, 2 de março de 2023
O ódio ao Ocidente
Tornou-se manifesta a existência não apenas de um sentimento antiocidental, mas de um propósito de isolar o Ocidente e destruí-lo. A questão é a de saber o que tem a cultura ocidental de específico que provoca um ódio tão avassalador noutras partes do mundo. Alguns ocidentais dirão que o seu comportamento imperialista, a necessidade de abrir mercados nem que seja pela violência. Ora, essa conduta não é uma especificidade ocidental, e, por outro lado, os impérios ocidentais ruíram há muito. A diferença específica geradora de um ódio persistente ao Ocidente é a liberdade dos indivíduos.
O que marca as nossas sociedades é não estarmos submetidos a nenhuma religião, podendo-se adoptar uma ou outra, ou nenhuma. Ser religioso depende da consciência de cada um, da sua liberdade. Do mesmo modo, ninguém é obrigado a suportar a política do governo em exercício. Os chefes políticos são governantes transitórios, sujeitos à lei e à crítica e avaliados nas urnas. Cada um escolhe segundo a sua consciência, a sua liberdade. Por outro lado, a orientação moral não deriva de uma moral colectiva, mas de valores que cada um adopta, respeitando o mesmo direito para os outros, segundo a sua consciência, a sua liberdade. Também a vida sexual da pessoa, desde que não viole a autonomia de terceiros, é da responsabilidade da sua consciência, da sua liberdade.
O ódio que os governantes das potências autoritárias propagam relativamente ao Ocidente deve-se a este ser um mau exemplo. As sociedades ocidentais evoluíram de modo a que cada ser humano possa ser um indivíduo responsável pelos seus actos e dotado de direitos para agir em liberdade, desde que não infrinja direitos de outros. É isto que não é suportável para as lideranças políticas e religiosas do mundo submetido ao autoritarismo de tiranos e tiranetes que olham para as pessoas apenas como membros indiferenciados de um rebanho que deve obedecer, sempre e em todas as questões, ao pastor de serviço.
A liberdade, que viu a luz no Ocidente, é uma flor frágil e, na história dos seres humanos, tem sido a excepção e não a regra. A sua defesa, em todas as áreas, religião, política, moralidade, vida sexual, etc., é uma das tarefas fundamentais dos dias que correm. Defesa perante as ameaças não apenas dos inimigos externos, mas também dos que, internamente, sonham em liquidá-la, para repor nas mãos de um tirano político ou de uma igreja, ou de ambos, o controlo das vidas de cada um. Defender a liberdade é defender a existência de indivíduos que administram a sua vida conforme lhes dita a sua consciência, a sua liberdade.











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