domingo, 19 de fevereiro de 2012

Poema 23 - O amor é um abraço mortal



O amor é um abraço mortal
A que as vítimas se entregam,
Pensando, no êxtase prometido,
Um caminho para o paraíso.

A morte vê feliz e fatal
Os corpos dementes que navegam
Em busca do segredo perdido,
Cegos  para o funesto sorriso.

A reacção em Gouveia


O que se disse aqui ontem a propósito de António José Seguro aplica-se, com mais propriedade ainda, ao ocorrido em Gouveia com Pedro Passos Coelho. As pessoas perceberam o essencial. O papel das elites políticas é roubar-lhes qualquer espécie de ilusão sobre o futuro, extinguir qualquer resíduo de esperança. O que difere Seguro de Coelho é apenas o sentimento com que encaram o seu papel. Seguro faria a mesma política mas sentiria imensa pena, e falaria com ar contrito aos portugueses. Coelho acredita no que está a fazer, acha mesmo que as classes médias e os trabalhadores devem ser reduzidos à condição de uma multidão de indiferenciados, e fala com ar inchado de um justiceiro. A reacção em Gouveia, mais que os apupos a Cavaco em Guimarães, abre um novo patamar de oposição aos desígnios do governo. Por este andar, Passos Coelho vai rezar para que o senhor Arménio Carlos e a CGTP ponham mão no assunto. O principal perigo para a governação de Passos Coelho não virá das zonas onde o Partido Comunista tem influência. Virá mesmo do lugar onde o PSD manda, virá do desespero daqueles que acreditaram nas mentiras que Passos Coelho teve necessidade de dizer para ser eleito. Contrariamente ao que muitos crêem, eu não acredito que sejamos um povo de brandos costumes. O século XIX e o primeiro quartel do XX estão aí para o mostrar. O desespero em que as pessoas estão a ser lançadas não promete nada de bom.

Lev Tolstoi, A Sonata de Kreutzer


O que surpreende na novela de Tolstoi, A Sonata de Kreutzer, será menos o tema tratado - o ciúme - que a questão da confissão e as implicações que esta possui. Aparentemente, tudo gira em torno da vida de um casal, que desde muito cedo descobre a tensão entre o prazer físico que proporcionavam um ao outro e a insuportabilidade da vida comum. Nesta tensão, o ciúme do homem tem um papel preponderante. A estratégia narrativa da novela assenta no relato da confissão, feita numa viagem de comboio, do protagonista ao narrador. Todo o relato é um exercício confessional, onde a alma torturada do que se confessa se exterioriza e se mostra numa tentativa para alcançar a verdade dos seus actos (desde as cenas de ciúme até ao assassinato da mulher).

Apesar de juridicamente absolvido (um crime de honra ainda permitido naqueles dias), o espírito do homem sente uma compulsão terrível para a exteriorização. A confissão não é, pelo menos em primeiro lugar, a busca de uma absolvição ou de uma compreensão de outrem. Ela é a objectivação da vida, o torná-la exterior para a poder captar na sua realidade objectiva. Confessar-se é projectar para fora de si aquilo que é do foro íntimo, trazê-lo para o espaço público, aliená-lo da vida interior, para o poder captar sossegadamente - não por acaso, o protagonista adormece após a confissão - e, no estranhamento assim conquistado, afastar de si uma parte de si.

O génio de Tolstoi evidencia-se, nesta novela, de múltiplas maneiras, desde a descrição das cenas de ciúme até à caracterização das personagens, passando pela exposição das concepções ideológico-sociais daquele que se confessa. O mais interessante, porém, é o jogo da confissão estar assente todo ele na não confissão. Na hora da morte, no momento em que o protagonista esperava a confissão da mulher, do reconhecimento que teria havido uma traição e que tudo aquilo não era apenas o fruto de uma imaginação exacerbada, ela não o faz. O segredo - mesmo que fosse o segredo de não haver qualquer segredo - não foi revelado, ficou fechado na vida íntima da mulher, e nem mesmo a iminência da morte a conduziu à necessidade de se exteriorizar num acto confessional.

Publicidade e intimidade confrontam-se, deste modo, na novela de Tolstoi, como modos eminentemente diferenciados de conviver consigo mesmo. A confissão é uma invenção masculina e responde a essa necessidade de publicar para suportar, e suportar porque compreende aquilo que agora se tornou público e estranho. A razão justifica, apaga e apazigua. Na mulher tudo é mais secreto, tudo fica fechado no coração. E isto apenas pelo motivo de que a verdade, a sua verdade, é irrevelável. Não porque a queira ocultar, mas porque não há maneira de a tornar pública. A verdade masculina é sempre confessável; a feminina é sempre secreta. Os homens até a vida íntima precisam de torná-la exterior. As mulheres, mesmo as mulheres públicas, só possuem vida interior.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Um exercício de desilusão contínua


Este tipo de discurso é, ao mesmo tempo, inevitável e inútil. O que pode dizer o líder da oposição sobre o governo? Nada, ao não ser ociosidades idênticas às que disse o dr. Seguro. A inutilidade advém, todavia, do facto de o princípio de esperança ter caducado enquanto princípio político orientador da acção governativa. Os governos não têm por finalidade dar esperança às pessoas, mas o contrário. A sua função é retirar-lhes a esperança ou qualquer outra ilusão sobre o futuro. A esperança fica guardada para a religião. A política tornou-se, no mundo global, um exercício de desilusão contínua. Aquela injunção de Passos Coelhos para que os portugueses não sejam piegas não foi um acto falhado, mas a expressão clara do fim do princípio de esperança e a consciência nítida disso. Seguro, como primeiro-ministro, não poderia dizer coisa substancialmente diferente.

D'Annunzio e o ideal de uma nova oligarquia


O Estado não deve ser mais que uma instituição perfeitamente disposta para favorecer a elevação gradual de uma classe privilegiada para uma forma ideal de existência. Sob a egualdade economica e politica a que aspira a democracia, vós outros os encaminhareis a formar uma nova oligarchia, uma nova escola de força; e conseguireis, antes ou depois domar as multidões em vosso proveito. Não vos será muito difícil, na verdade, reconduzir a grey à obediência. As plebes conservam-se sempre escravas e teem uma nativa necessidade de estender as mãos ao vencedor. Jamais existirá n'elles, até ao fim dos seculos, o sentimento da liberdade (...) [Gabriele D'Annunzio, As Virgens, (trad. de Vasco Valdez), Livraria Editora Guimarães, Lisboa, 1905], retirado do contra mundum

Gabriel D'Annunzio foi um dos precursores do fascismo italiano, um intelectual que influenciou decisivamente Benito Mussolini, e um dos escritores mais importantes de Itália, representante da corrente estética do decadentismo. Mussolini ascende ao poder em Outubro de 1922, mas o romance onde se encontra a citação acima apresentada, Le vergini delle rocce, data de 1896. Este tipo de ideias era extremamente popular à época. Um jurista italiano, com um importante papel no desenvolvimento da criminologia, Raffaele Garofalo, na sua crítica ao socialismo, não defendia coisa diferente. Entre nós é Júlio de Matos que é um dos defensores deste tipo de elitismo, uma defesa fundada na leitura de Garofalo e de Herbert Spencer, com o darwinismo social como pano de fundo. 

No ambiente da época, o uso ardiloso da democracia para fundar o poder dos mais fortes era uma ideia corrente. O que está por detrás deste tipo de discurso - discurso que se fundava numa estética - é a recusa do cristianismo, fundamentalmente da ideia de livre-arbítrio. Este é substituído pela ideia de um destino previamente traçado, mas que cumpre realizar na história. Tudo isto conduziu a uma dada esteticização da vida política, onde a força era o elemento central do fenómeno estético. O fascismo e o nazismo são os rebentos destas ideias.

O fim da guerra, com a derrota das potências do eixo, deixou estas ideias em estado larvar. A retórica democrática evitou o louvor das novas oligarquias. Não deixou, todavia, de as sustentar e de permitir que elas cortassem os laços com as plebes democráticas, para falar ao gosto de D'Annunzio. Se durante décadas, nas sociedades ocidentais, se viveu sob a impressão de que o destino de cada um dependia do mérito fundado no livre-arbítrio, hoje em dia, as pessoas sentem, atónitas e estupefactas, o regresso de uma realidade onde o destino parece levar de vencida a crença no livre-arbítrio. As potências que dominam as vidas privadas, com os seus desejos e aspirações, não parecem comover-se com o hipotético mérito de cada um. 

Cada vez mais, o lugar social onde se nasceu é determinante do tipo de vida que se vai ter. D'Annunzio, em 1896, estava convencido que jamais existiria, nas plebes, o sentimento de liberdade. Hoje, as pessoas que constituíram as amplas classes médias estão a começar a perceber que o sentimento de liberdade em que viveram durante algumas décadas não passa de uma ilusão. Mais lentamente ou mais rapidamente (quanto mais na periferia mais rápido), essas classes médias estão a retornar à sua condição plebeia. No fundo, o ideal de D'Annunzio, Garofalo, Spencer ou Júlio de Matos nunca foi abandonado. Não é por acaso que o cristianismo, apesar de tudo, sempre teve má fama. O livre-arbítrio é um inimigo do fatalismo pagão subjacente a estas correntes.

Pontos de fuga


Nas sociedades tradicionais, a vida política possuía, na religião, uma espécie de ponto de fuga. Este ponto de fuga tinha duas funções. Por um lado, retirava as comunidades da pura imanência, do fecho sobre si mesmas. Por outro, constituía, devido à profundidade aberta para o alto, para o absoluto ou para o divino, a fonte de legitimidade política. Se se tomar em consideração a cidade-estado grega, o culto religioso tem um papel central na vida da cidade, e religa a comunidade às potências divinas que gerem o cosmos.

O que marca a Modernidade é  um processo de fechamento da comunidade em si mesma. O processo de fechamento à transcendência terá sido iniciado no Renascimento. O absolutismo é um passo decisivo que, de certa maneira, prepara os regimes constitucionais. A transcendência é convertida em pura imanência, a comunidade política justifica-se a si mesma, e a fonte da legitimidade passa a residir, primeiro no monarca absoluto,  depois no povo. O ponto de fuga que existia desapareceu. A abertura para o infinito passou a não ter sentido, a questão da transcendência passou a ser um assunto do foro íntimo de cada um.

No entanto, estamos a descobrir uma outra realidade. Um novo ponto de fuga está a emergir com o actual desenvolvimento da economia global. Este já não abre para o alto, para o absoluto, mas para as flutuações e humores do mercado global. A ilusão moderna da possibilidade de comunidades puramente imanentes, sem referência a uma instância superior de legitimação, mostrou-se na sua falsidade. A imanência republicana (mesmo a dos regimes monárquicos constitucionais) dá lugar a uma nova transcendência. O mercado global constitui o novo ponto de fuga que legitima e justifica as opções políticas. A casta sacerdotal, que mediava a relação da comunidade com o sagrado transcendente, foi substituída pela casta dos economistas pagos pela nova divindade, que assumem tanto o papel de pregadores evangélicos como de gestores dos interesses do novo deus.

Como Deus, o mercado está em toda a parte e cuida de nós. Isto significa não tanto o amor misericordioso, mas a prática de um pai tirânico que pune qualquer relutância relativamente à sua virtude e bondade. Por isso, o povo deixou de ser a fonte de legitimidade do poder político, como o demonstram os casos da Grécia e de Itália. As comunidades podem escolher os seus governantes desde que estes se submetam à vontade inefável e infalível do mercado global. Qualquer esboço de revolta contra esta nova transcendência é severamente punida. Em princípio, pelo corte de financiamento ou pela substituição de governantes (agora não mais que curadores dos interesses do mercado). Em caso extremo, pela intervenção militar.

Se a transcendência religiosa abria o destino dos homens para a possibilidade de um paraíso extra-terreno, a nova transcendência promete, e cumpre, um inferno à medida dos desejos de cada um. O novo ponto de fuga não é para o alto, mas para baixo, cada vez mais baixo, infinitamente mais baixo. 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O equívoco do senhor cardeal


O discurso do novo cardeal português, Manuel Monteiro de Castro, é o espelho fiel da dificuldade da Igreja Católica lidar com a modernidade. Refere que o maior problema de Portugal é o "pouco apoio que o Estado dá à família" e que "a mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos" (Público). Vou dar de barato aquilo que indignará, por certo, as mentes mais feministas. Hoje em dia, nem mesmo a Igreja Católica, deveria permitir-se a esta distribuição de funções segundo a essência dada pelo sexo. É evidente que as funções do homem e da mulher são diferentes, não porque sejam funções diferentes, mas porque são realizadas de forma diferente. A função essencial da mulher não é educar os filhos, mas ser mulher em tudo o que faz e não apenas na educação dos filhos, como a função do homem é ser homem em tudo o que faz, o que deve incluir a educação dos filhos. Seria bom que os cardeais pensassem as coisas deste ponto de vista, embora como não possuem (maldita polissemia) mulheres, talvez lhes falte o saber de experiência feito. Mas isto é uma mera conjectura.

Por outro lado, o senhor cardeal parece completamente deslocado do mundo em que vivemos. As forças que comandam a economia - e que colonizaram por completo a política - não querem saber da educação dos filhos de ninguém - excluindo a dos seus - para nada e, por isso, o Estado está a retirar-se de tudo o que pode criar um ambiente onde a família seja protegida. Os Estados não mandam nada e não têm um tostão para proteger a comunidade e as famílias que a compõem. O Estado vive para satisfazer as pretensões daqueles que comandam os mercados, para - como estamos a aprender em Portugal - limpar todos os obstáculos que se levantem à quase escravidão das pessoas e à livre acção do capital. Como diria um membro do actual governo, o senhor cardeal vive numa zona de conforto. Isso não lhe permite perceber que as suas palavras não fazem qualquer sentido perante a ignóbil realidade onde somos obrigados a viver. O problema de Portugal, como o do resto do mundo, reside nos valores que tomaram conta da política e da sociedade, valores que colocam a produção, venda e consumo de mercadorias muito acima do valor da vida humana. A família é mesmo para destruir, e não é o divórcio que a destrói, é a economia, como o está mostrar de forma clara a actual governação.


Europa, uma guerra religiosa


A minha crónica desta semana no Jornal Torrejano.


Na situação europeia e nos problemas da dívida soberana raramente percebemos mais que a superfície dos acontecimentos. Alguns países não conseguiram conter as suas despesas e fizeram disparar os défices públicos. Estamos perante um conflito económico, onde, e não por acaso, os juízos morais (gastadores, preguiçosos, etc.) são mobilizados para fins políticos, numa acção punitiva contra os países em dificuldades.

Se desviarmos o olhar do mundo europeu para o médio-oriente descobrimos, espantados, que sunitas e xiitas estão em conflito aberto desde o século VII. Uma guerra religiosa que  não abranda há quase catorze séculos. Perante este facto, muitos de nós darão graças pelo nosso grau civilizacional, pois os conflitos religiosos que atingiram a Europa nos séculos XVI e XVII estão sanados. Católicos e protestantes convivem pacificamente, guardados pelo culto da sagrada tolerância.

Se olharmos os países da Europa que estão em situação difícil descobrimos uma estranha divisão. Por um lado, a Grécia (ortodoxa), Portugal, Irlanda, Espanha, Itália e Bélgica. Por vezes, sussurram-se os nomes da Áustria e de França. Todos estes países têm em comum o serem católicos. As vozes mais críticas pertencem, por outro, a países protestantes. A visão idílica da tolerância confessional, fundada na separação da Igreja e do Estado, de repente, mostra a sua ingenuidade.

O que se está a passar na Europa é uma guerra religiosa por outros meios. O conflito entre o cristianismo tradicional (católico e ortodoxo) e o puritanismo subjectivista protestante nunca deixou de existir. Tomou sempre novas roupagens. A actual é a de um conflito económico com consequências políticas, mas o que está em jogo são duas visões do mundo, da vida e da própria religião cristã.

Só isto explica duas coisas. Primeiro, a crítica moral do comportamento dos países em dificuldades, crítica essa que não passa de ostentação da superioridade moral do puritanismo protestante. Segundo, o fanatismo protestante expressa-se na imposição política do ordo-liberalismo alemão. Na actual política alemã, existe um espírito de missão evangélica que pretende converter à força os países onde ainda se faz sentir a influência da tradição, seja esta ortodoxa ou, ainda pior, papista. O que está em jogo não é apenas o dinheiro, mas as formas de vida dos povos. Este conflito a que se assiste na Europa tem profundas raízes na história. Data pelo menos do séc. XVI. Não somos melhores que os muçulmanos.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

As opacidades de José Gil


Já aqui escrevi que não tenho posição definida sobre o novo acordo ortográfico. Não faço ideia se as alterações introduzidas na escrita são, tecnicamente, boas ou más. Como também já escrevi aqui, acho que há muita pesporrência por parte dos cavaleiros que fazem do acordo um dragão a abater. Um dos exemplos acabados de pesporrência é dado por uma pessoa que tenho em grande consideração intelectual, o filósofo José Gil. Contrariamente à Ivone, acho que com argumentos destes está tudo perdido. Vejamos

José Gil parte de uma tese: “O Acordo mutila o pensamento.” Que argumentos são dados para justificar tão extraordinária afirmação? Podemos considerar dois: 1. “A simplificação das palavras, a redução à pura fonética, o “acto” que se torna “ato”, tornam simplesmente a língua num veículo transparente de comunicação. Todo o mistério essencial da escrita que lhe vem da opacidade da ortografia, do seu esoterismo, desaparece agora.” 2. “O fim das consoantes mudas, as mudanças nos hífenes, a eliminação dos acentos, etc. transformam o português numa língua prática, utilitária, manipulável como um utensílio. Como se expusesse todo o seu sentido à superfície da escrita.”

Em resumo, o pensamento seria mutilado porque a língua se torna num veículo transparente de comunicação e, por outro lado, se torna superficial devido ao seu carácter utilitário trazido pela nova ortografia. Estes argumentos não são bons para justificar a tese nem são verdadeiros em si mesmos.

Em primeiro lugar, o mistério essencial da língua não deriva da opacidade e do esoterismo da ortografia, mas do carácter polissémico dos vocábulos usados, dos jogos de sentido que estão presentes na construção textual. A opacidade e o mistério da língua não residem no vocábulo mas no texto, nesse entretecimento de vocábulos que formam sentidos múltiplos, inesperados, indecidíveis. O exemplo escolhido por José Gil é, no caso concreto, um péssimo exemplo. A transformação do “acto” em “ato” aumenta a opacidade da língua e não a diminui. Agora, preciso do contexto para determinar se por “ato” me refiro ao campo semântico da acção ou ao campo semântico do atar. A homonímia aumenta e não diminui o mistério da língua, torna a língua mais opaca e menos transparente. O que o Acordo faz, no caso referido, é produzir homonímia. Acto tem-se escrito desse modo devido à etimologia latina actus. Mas terá reparado José Gil que ato do verbo atar remete para uma etimologia que implicaria uma consoante muda, aptāre? Qual será a hora exacta para ser aceitável a queda de uma consoante muda?

Em segundo lugar, também é falso que as transformações propostas exponham todo o sentido da língua à superfície da escrita. Imaginemos a seguinte proposição:  os meus actos reflectem o meu estado de espírito. Será que o sentido desta proposição se dá todo ele à superfície da escrita se optarmos pela versão acordográfica, os meus atos refletem o meu estado de espírito? Será que refletir é menos polissémico que reflectir? E atos, ao tornar mais indirecta a referência a actiōne, não torna a língua menos superficial, contrariamente ao que sugere José Gil, exigindo um maior trabalho de arqueologia semântica, digamos assim?

Adicionalmente, acrescento ainda o seguinte: a pretensa redução da ortografia a uma mimésis da fonética não torna a relação entre a emissão fónica e a representação gráfica menos complexa e menos misteriosa. Esse mistério começa por residir no longo trabalho analítico que conduziu à decomposição das emissões sonoras nas suas unidades mais simples, para depois as fazer representar por signos gráficos que resultaram de um longo processo de estilização e de simplificação (mas disto nada sei). As alterações que se pretendem introduzir não afectam o mínimo que seja todo esse mistério nem tornam a linguagem mais transparente ou, como diz José Gil, "tornam simplesmente a língua num veículo transparente de comunicação". E isto por uma impossibilidade constitucional da linguagem. A opacidade da língua não reside na escrita mas na própria língua, na sua capacidade de significar, de fazer convergir no discurso infinitas experiências. Como é que a alteração da ortografia poderá tornar transparente o que é opaco por essência?

O que mutila o pensamento não é o Acordo, o que mutila o pensamento é pensar mal, cometer erros lógicos, mobilizar falácias, etc. O que mutila o pensamento é torná-lo obscuro de forma deliberada. O pensamento é sempre uma luta contra a opacidade e o mistério. A literatura vive da opacidade e do mistério, a filosofia, porém, é um exercício de clarificação contínua. Isto significa que o mistério e a obscuridade existem, mas que o pensamento tenta penetrar neles e fazer luz. Mas o mistério não deriva da ortografia, mas da própria realidade e da própria linguagem. A ortografia, contrariamente à linguagem (enfim, o Saussure vai perdoar-me) é uma convenção.

Reafirmo que não tenho posição sobre a questão do Acordo. O que acho insuportável são argumentos como os apresentados por José Gil. 



Uma compulsão ocidental


O senhor Khadafi não era flor que se cheirasse, mas a Primavera líbia está muito longe da revolta tunisina ou da egípcia. Na Líbia não existia um Estado propriamente dito, com os seus aparelhos de exercício do poder. O que a intervenção estrangeira fez foi lançar o país na maior confusão e insegurança possíveis. Democratizou a violação dos direitos humanos (Público). No tempo de Khadafi a violação era exercida por um, hoje são centenas de milícias armadas e à solta que espalham a arbitrariedade e o terror entre a desgraçada população. A intervenção ocidental, nomeadamente a de países europeus, foi absolutamente indecorosa. A política não se confunde com a moral, mas a multiplicação de actos imorais acaba por escavar a legitimidade política das nações ocidentais. É evidente que havia interesses económicos e que havia que limpar as barreiras que se poderiam opor ao mercado. Sempre que cheira a mercado as elites políticas ocidentais salivam, mesmo que isso seja uma tragédia para os povos libertados dos ditadores e que, amanhã, se volte contra o próprio Ocidente. Uma compulsão ocidental.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um valete


A esperada recandidatura de Sarkozy é a prova provada de que a França já pouco conta. A direita francesa, que ainda tinha uma existência própria no declinar do gaulismo, é hoje em dia um joguete que balança entre o ordoliberalismo da senhora Merkel e o neoliberalismo de inspiração anglo-saxónica. A ausência de qualquer característica específica condensa-se na tentativa de manter um valete na função presidencial. No século XIX, o senhor Bismarck disse que o liberalismo era a estratégia de dominação inglesa, adoptá-lo na Alemanha seria entregar-se nas mãos dos ingleses. Hoje em dia, o problema mantém-se. As estratégias liberais não são políticas de valor universal, mas representam o interesse de certos países em detrimento de outros. No tempo de De Gaulle, isso ainda seria perceptível em França. Como se viu, Sarkozy pertence a um outro mundo, onde as nações não passam de meras conjecturas cujos interesses se podem questionar ou mesmo alienar, desde que isso interesse aos mercados. Não passa de um pós-nacionalista que, durante a campanha eleitoral, vai aparentar o que há de pior no nacionalismo. Uma questão de marketing eleitoral.

A glória do mando e o mercado militar


Andam agitadas as águas militares, digamos assim. Contestam a política salarial consagrada no Orçamento de Estado. Este conflito foi acentuado por declarações do ministro respectivo. Mas pequenas coisas como esta, a dos exemplares do livro com o programa do governo pagos a 120 euros a unidade, as nomeações de pessoal político, onde se assegura a retribuição de 14 salários (mesmo que o nome dado seja outro) ou as declarações de Pedro Passos Coelho, onde afirmava sentir-se mal pago, não ajudam a criar um clima propício a que as pessoas aceitem o esbulho de dois salários, para além das diminuições já havidas e do crescimento sem fim dos impostos. 

Estas pequenas coisas, em si pouco significam economicamente. São, contudo, exemplares. O que exemplificam elas? A mentalidade das elites políticas. Em primeiro lugar, acham que os seus salários deveriam estar mais relacionados com os gestores de topo das multinacionais do que com o rendimento geral dos portugueses. Em segundo lugar, acreditam que a austeridade é para os outros, que não deve atingir o fausto do poder. Os que fazem carreira política têm dois tipos de retribuição. Uma é de natureza pecuniária. A outra, porém, é de natureza simbólica e está ligada à glória do mando. E esta é a principal retribuição de uma personalidade que se dedica à política. Não há político, simples autarca que seja, que não deseje ficar na história, ver o seu nome glorificado pela ligação ao poder dentro da comunidade.

É por isso que os sinais de fausto do poder - esta pequena e triste história dos livros com o programa governamental, os carros, os assessores, etc., etc. - são tão importantes para esta gente. Por muito que possam protestar em contrário, a acção dos políticos é um exercício continuado de narcisismo e de glorificação da sua pessoa. Ainda por cima foram eleitos. Eleitos, para eles, não significa que foram escolhidos para prestar um serviço à comunidade. Significa apenas que possuem um destino tocado pela deusa Fortuna que os eleva acima do comum dos mortais, e fundamentalmente daqueles que, como os militares, prestam um serviço profissional ao Estado. A esses não cabe a glória nem o consequente reconhecimento. Prestam um serviço que, em última análise, deverá ser regulado pelas leis do mercado. Isto só pode gerar conflitos sem fim.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Progresso moral da humanidade


A ideia de progresso moral da humanidade teve larga fortuna no século XVIII. Kant foi o principal pensador a tematizar, na sua filosofia prática, a ideia de progresso moral. Foi sobre essa ideia que o mundo ocidental construiu muitos dos seus actuais valores. No entanto, o século XX lançou um negro véu sobre a pretensão iluminista de um progresso moral da humanidade. Os totalitarismos, as bombas atómicas lançadas no Japão, os campo de concentração de diversas cores e sabores criaram um clima pessimista relativamente a essa ideia. Contudo, como poderemos classificar a abolição das penas de morte por lapidação bem como o banimento da pena de morte para menores no Irão (Público)? Estas duas decisões, por ínfimas que nos pareçam, representam um progresso moral. A ideia de progresso implica a de um caminho a fazer e também a de valores universais para os quais se caminha. Talvez este gesto do Irão, bem como as revoluções ocorridas o ano transacto no mundo árabe, indiquem um caminho, de tonalidade muçulmana, para esses valores universais. Os valores são universais, mas os caminhos que conduzem a essa universalidade são sempre particulares. Foi assim no mundo judaico-cristão, deverá ser assim no mundo globalizado. Não seria má ideia recuperar, entre nós, o prestígio da ideia de progresso moral da humanidade. Não para a impormos aos outros, mas para termos um ponto de referência que oriente a discussão ética e a vida moral no Ocidente.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Poema 22- As bacantes



Ouve-se o velho rumor.
Um cheiro tão conhecido
Enche as narinas de furor,
Ao acordar o adormecido.

Nos seios o sangue lateja
E o corpo dança inquieto,
Pois  a morte o deseja
E o deus ergueu-se desperto.

Os corpos dão-se primitivos
E os homens, agora fugitivos,
Sentem o antigo desvario.

Tremem de calor, não de frio,
Quando elas passam loucas
E a morte sorri-lhes nas bocas.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Um convite à moderação


A manifestação de ontem, promovida pela CGTP, merece atenção por diversos motivos. Mostra que o movimento sindical não está tão morto quanto era pressuposto estar. Concomitantemente, torna claro que o PCP existe e tem uma palavra a dizer dentro do regime. Revela a muita gente, que nunca saiu do seu pequeno círculo social, que existem pessoas para além desse círculo. Tudo isso é verdade, mas o que mais impressiona no evento não é a grandeza da participação (que é óbvia), mas a ordem e a disciplina com que decorreu. A mensagem, apesar de implícita, é muito clara. Ela diz: cuidado, até aqui nós (claro, que o PCP) temos mão nas pessoas, ainda somos capazes de canalizar a dor, a pobreza e as humilhações para dentro do parlamento. Nada garante, porém, que isso seja sempre assim. Se o desespero aumentar, não teremos um Terreiro do Paço cheio, mas respeitador da ordem, teremos focos incendiários nos quais já não teremos mão. Ontem o PCP mostrou que o regime precisa dele. Mas para que o PCP tenha utilidade é preciso que as pessoas que ele representa - e ele representa muito mais do que aquelas que nele votam - não sejam jogadas no lixo como se tratassem de dejectos. Não sei se há inteligência social suficiente no governo para entender a mensagem de ontem. Radicais raramente entendem o que não vem escrito nos dogmas perfilhados. A manifestação de ontem foi um convite à moderação. Esperemos que o governo perceba que a seguir pode vir o desespero trágico dos gregos. 

Roleta russa


A estratégia da União Europeia, fundada no puritanismo protestante, está a conduzir a Grécia para um beco cuja saída não me parece nada simpática. A violência em Atenas não preludia nada de bom. Não teria sido mais eficaz uma abordagem mais moderada do problema das dívidas soberanas? Algumas narrativas, certamente influenciadas pelo puritanismo e farisaísmo liberais, apontam para os povos dos países endividados como os grandes culpados da situação. Esquecem, porém, duas coisas. A primeira, que a crise das dívidas soberanas estalou na sequência da crise do subprime. Há mesmo economistas que defendem que ela foi sobreaquecida para ocultar a do subprime. A segunda, que os próprios credores durante muito tempo participaram activamente na sedução daqueles que depois vieram a acusar, sabendo de antemão a situação em que se encontravam os respectivos países. Jogaram à roleta russa. Pode ser que lhes saia a bala.  Independentemente das culpas, podemos estar a assistir a um momento em que algo de decisivo pode acontecer, mas ser algo de decisivo não quer dizer que seja bom. Mas mais uma vez, a União Europeia está a jogar na roleta russa. São de temer os tempos em que pessoas moderadas (as que defendem o nada em excesso e a justa medida dos antigos gregos) já não encontram lugar no espaço político.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A essência da escola


Esta foto, julgo que de Escritor Sylvio Panza, mostra a essência da escola. Um professor e um grupo de alunos. Entre eles há uma diferença que se manifesta no lugar que cada um ocupa. Essa diferença é o que faz com que a escola seja aquilo que é. O resto é supérfluo. Paredes, carteiras, cadeiras, mesmo o quadro negro, podem existir ou não. Não vale a pena falar de computadores ou de quadros interactivos. Só há uma interactividade necessária, a que existe entre o que ensina e os que estão ali para aprender. Em Portugal, temos a prática contumaz de esquecer o que esta fotografia mostra. Só pode haver aprendizagem se os alunos estão ali sentados, com ordem, para aprender. O resto é ruído e um exercício de futilidade sem fim.

Estado de Natureza


Um dos conceitos centrais das teorias contratualistas é o estado de natureza. O contrato social, pelo qual se institui o poder político, é a passagem do estado de natureza ao estado civil. Thomas Hobbes sublinha, como característica central do estado de natureza, a guerra de todos contra todos. Quem tenha dificuldade em intuir o conceito de Hobbes pode olhar para Salvador da Baía, nestes dias de greve policial. Não apenas os marginais e criminosos intensificaram os crimes, incluindo o assassínio, como os que, putativamente, não eram criminosos passaram a sê-lo. Como refere o Público, toxicodependentes, sem abrigo, pequenos criminosos, indesejados dos bairros periféricos de Salvador estão a aparecer mortos, às mãos de milícias a soldo de comerciantes e de barões da droga. Percebe-se, por este pequeno exemplo brasileiro, que o estado de natureza não é qualquer coisa que tenha existido num tempo pré-histórico, mais ou menos mítico. O estado de natureza é aquilo que sucede sempre que o poder civil, na sua dimensão de aplicação da ordem e de repressão da desordem, é posto em causa, seja por que motivo for. 

Quando se ouvirem apologias da anarquia, do fim do Estado, da bondade do homem natural, não devemos nunca esquecer este exemplo vindo da Baía. Os baianos não são diferentes dos parisienses, londrinos ou lisboetas. Mas ainda há uma outra coisa para que este exercício macabro do direito à greve - se é que os polícias brasileiros o têm - nos deve alertar. Sempre que desaparece a regulação política, instala-se o caos e a anarquia, os fortes devoram os mais frágeis e desprotegidos. 

O que se aplica à vida numa cidade aplica-se também aos mercados, nomeadamente ao mercado financeiro global. Aquilo pelo qual estamos a passar deve-se ao anarquismo que reina no mundo financeiro. É evidente que os agentes do mercado não matam pessoas. Mas as políticas que eles suscitam ou segredam aos ouvidos das elites políticas têm o especial condão de fazer transferir o dinheiro de pobres e remediados, como outrora se dizia, para as contas dos mais poderosos, ao mesmo tempo que, devido aos cortes nas políticas sociais, nomeadamente na saúde, entregam os frágeis economicamente a uma esperança de vida mais reduzida, isto é, à morte. Há muito que somos governados por políticos que são verdadeiros polícias em greve, políticos que, como muitos dos polícias baianos, fazem também parte dos esquadrões da morte. Não que matem, obviamente. Limitam-se a executar as políticas que conduzem à desordem do mercado global, com as consequências que todos conhecemos. 

Poema 21 - As Euménides

Gustave Doré

Nostálgicas, vêm as Benevolentes.
Quem se atreve a pronunciar-lhes o nome,
Logo é pasto de morcegos e serpentes,
E pela dor haverá fama e renome.

Iradas, chegam do mundo da morte,
E na cólera procuram serenar
O infeliz fado que lhes coube em sorte.
O destino, jamais o podem apaziguar.

Dos deuses, o desdém; dos homens, o temor.
Odeiam como quem esconde o amor,
E dessa força fazem feroz o castigo,

Para o qual não há defesa ou abrigo.
Vêm na treva da noite ou ao meio-dia,
E caem sobre ti sem cansaço ou melancolia. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Tão estranha Pietà


Esta belíssima foto do fotógrafo espanhol Samuel Aranda ganhou a edição deste ano do World Press Photo. Claro que a fotografia pode simbolizar a dor e o afecto que suportaram a denominada Primavera árabe. Ali está a coragem e o exercício do cuidado, desse cuidado que Heidegger tematizou sob o termo alemão de Sorge, que não é outra coisa que o amor. Nada de diferente da Pietà cristã, onde Maria segura nos braços o Filho morto. E no entanto, há uma diferença absoluta. Eu não vejo o rosto nem da mulher nem do homem, fica apenas o gesto sem sujeitos que o suportem. Se queremos perceber o que nos distingue do mundo árabe-muçulmano, basta olharmos para esta tão estranha Pietà. Não há sujeitos do amor, apenas o próprio amor simbolizado no gesto. Na Pietà de Miguel Ângelo tudo conflui para o rosto de Maria, nesta não há um rosto que me devolva a experiência terrível da mulher, uma expressão do cuidado, do temor ou do horror da violência.

Uma inquietante estranheza


A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.


Há qualquer coisa de muito perturbador no actual primeiro-ministro. Parece pessoa normal, bom rapaz, alguém que se esforça para parecer educado, enfim uma pessoa como tantas outras com que nos cruzamos no dia-a-dia. Mas se ele tem essa aparência, se olhamos para ele e apenas vemos a normalidade do quotidiano, onde é que está o motivo para perturbação? Está aí mesmo. Há perturbações que nascem daquilo que é perverso ou mesmo demoníaco, mas há outras que nascem da própria normalidade. Há qualquer coisa de inquietante que se insinua na normalidade da pessoa de Pedro Passos Coelho.

De um primeiro-ministro espera-se que governe, que tome decisões, que dirija os negócios políticos da comunidade que o elegeu, mas que o faço mantendo uma determinada relação com os cidadãos. Numa república – e Portugal é uma república – o governante é um cidadão entre cidadãos, e assim deve dirigir-se aos seus concidadãos e assim deve governar. O que é inquietante no primeiro-ministro é que ele parece querer não governar, mas exercer uma espécie de tutoria moral sobre o comportamento dos portugueses. Dois exemplos.

O fim de quatro feriados, a abolição do Carnaval enquanto feriado facultativo e a diminuição dos dias de férias são apenas um acto de punição. Os portugueses já eram dos que mais horas anuais trabalhavam na Europa. Todos sabemos, por outro lado, que não é a quantidade de horas de  trabalho, mas a sua qualidade que determina a produtividade. O primeiro-ministro – talvez por se achar alemão (embora os alemães trabalhem menos que os portugueses) – julga que somos todos uns madraços e que deve pôr a plebe na ordem.

Um segundo exemplo está ligado às exortações morais com que, ultimamente, decidiu brindar os portugueses, que culminaram com o “não sejam piegas”. Que um professor, um pai, um padre façam exortações morais, percebe-se. É a sua função. Nenhum deles é igual àqueles a quem se dirige. Mas que um primeiro-ministro decida tratar os portugueses como menores ou subordinados é qualquer coisa de profundamente inquietante. A bonomia de Passos Coelho, a sua pose familiar e banal, esconde uma perversa e estranha forma de lidar com os seus concidadãos. Um governante não é um pater familias, um padre ou um professor. Passos Coelho não se julga um político, mas um reformador moral. Quando os políticos decidem sermonar e distribuir palmatoadas pelos cidadãos, devemos temer o pior, o mais perigoso, o mais inquietante, o mais contrário à liberdade e igualdade republicanas.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sejamos gregos


Volto à questão grega, à importância civilizacional que a Grécia representa para nós, europeus. Os gregos sempre foram um povo impetuoso e tumultuoso, um povo, como compreendeu Nietzsche, com uma forte raiz dionisíaca. Mas a pulsão dionisíaca era de tal maneira grande que gerou, como por necessidade de um secreto equilíbrio, um não menos forte impulso apolíneo. Esse impulso manifesta-se em múltiplos lados, mas quero apenas referir um, os conselhos prudenciais daquilo a que se convencionou chamar os Sete Sábios. Corriam por toda a Grécia listas de sentenças e provérbios atribuídos a sete grandes sábios. As fontes não coincidem, pois existem várias listas diferentes. O mais famoso desses conselhos de prudência é o "conhece-te a ti mesmo", atribuído a Tales de Mileto.

Dessas sentenças famosas, sublinho as seguintes: "nada em excesso" (Sólon de Atenas), "a medida é coisa óptima" (Cléobulo de Lindos), "a maioria é perversa" (Bias de Priene), "se és chefe, aprende a dominar-te" (Tales de Mileto) e "a democracia é preferível à tirania" (Míson de Queneia). Todas estas máximas revelam um espírito prudente, de natureza apolínea, e são o negativo das intensas paixões gregas. Ao longo dos anos, tornaram-se no resumo do meu ideal político. Se há uma coisa que devemos evitar é que o dionisíaco, o furor excessivo da multidão, se aposse da vida política. As revoluções políticas - cujo arquétipo é a revolução francesa - são exemplos da captura das massas revoltosas pela possessão dionisíaca. A sabedoria política, a sabedoria daqueles que vivem em comunidade, visa evitar que as posições se extremem e o excesso tome conta dos corações dos homens e as paixões e interesses nos conduzam para a dança macabra das revoluções. 

O importante é que as sociedades encontrem equilíbrios. A ideia do equilíbrio expressa-se na moral dos gregos na noção da "justa medida". Encontrar a "justa medida" é evitar o excesso, como recomendava o célebre Sólon. Isto significa encontrar a medida da distribuição de retribuições e encargos, de reconhecimento social, etc. Uma sociedade equilibrada é aquela que está organizada de forma a que cada um tenha acesso à sua medida, ligada ao seu mérito e contributo, avaliados de forma equilibrada, evitando os excessos e os defeitos. Uma sociedade organizada segundo esta prudência helénica será menos injusta e menos conflitual. Os seus membros sentirão a pertença à comunidade e estarão predispostas a bater-se por ela, a defendê-la e a amá-la.

Este é o núcleo central que ajudou a construir a ideia de uma união dos povos europeus, num tempo em que os políticos tinham feito a terrível experiência do furor dionisíaco da guerra mundial. Quando a própria União Europeia cai nas mãos de radicais, de gente sem saber nem memória, de políticos cuja finalidade é destruir os equilíbrios e impor uma medida em que alguns recebem por excesso e a maioria por defeito, percebemos melhor a importância do legado apolíneo dos gregos. Se for ainda possível - coisa de que tenho sérias dúvidas - tornar a dar sentido à política, é ainda o ideal grego do nada em excesso, da justa medida que deve guiar esse renascimento da política.  Como teria percebido Míson, a democracia é preferível à tirania, mas a democracia só tem sentido, e só pode penetrar no coração dos homens, se ela se regular pelo ideal da justa medida, se os seus chefes - isto é, a elite política - souber dominar-se.

O governo do dr. Passos Coelho, na infinita ignorância e menoridade que são as suas, anda ufano a tentar mostrar que não é grego. Por mim, continuo grego, e pressinto que a Europa está a beira de uma terrível explosão dionisíaca, no âmbito político, se não se tornar toda ela grega. A última explosão dionisíaca ocorrida na política europeia começou em 1939 e terminou em 1945. Foi um Carnaval macabro.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Poema 20 - Os mitos


Essas histórias luminosas
Onde tudo é possível
Escondiam sob véu de seda
O horror nunca dito
De uma crueldade atroz

Amávamos os mitos
Não por serem antigos
Nem pela ficção iluminada
Mas porque ocultavam o pior
Que há em nós

Agora que os matámos
Na ânsia de tudo saber
Foi-se a luz e a seda
Ficou a verdade
Da nossa violência feroz

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Poema 19 - O riso na noite sem fundo


O riso na noite sem fundo
Cresce nas portas da primavera.
Triste animal preso ao mundo,
Olho da janela coberta de hera.

Que palavra dirá das coisas o ser?
O silêncio que me fazem escutar
Ergue-se como a dor que hei-de sofrer,
Ao fugir da terra para o mar.

E de tudo o que é nada saberei,
Nem das coisas conheço a lei.
Vazio, caminho perdido na floresta,

Lobo solitário olhando o que resta.
Numa mão, o que acreditei um dia;
Na outra, o medo; em mim havia.

Em louvor dos gregos



"(...) E um dos sacerdotes [egípcios], que era muito velho, disse-lhe:
- Sólon, Sólon, vós, os Gregos, sois sempre crianças; um Grego não pode ser velho.
Ao ouvir isto, ele perguntou:
- O que queres dizer com isso?
- Sois todos jovens na alma - disse ele. - De facto, nenhum de vós tem nela opiniões antigas, recebidas por tradição, ou qualquer conhecimento encanecido pelo tempo. E a razão para isso é a seguinte. Os homens têm sido e continuarão a ser destruídos de muitas e variadas maneiras, as mais terríveis das quais se devem, quer ao fogo, quer à água, devendo-se as menos importantes a uma miríade de razões diversas." [Platão, Fédon 22 b-c]

Talvez os gregos sejam eternas crianças, como sublinhava o sacerdote egípcio na conversa com Sólon. Talvez por isso estejam na dramática situação em que se encontram. O ímpeto de um povo sempre juvenil te-lo-á deixado nas mãos de prestamistas e usurários sem escrúpulos. Mas o mais curioso deste excerto do Fédon de Platão reside no facto da repreensão dirigida a Sólon - o desconhecimento da tradição - ser hoje em dia aplicável não aos gregos mas àquela Europa que se prepara para os abandonar às mãos de um destino feroz. A Europa rica e protestante, uma Europa que nasceu ontem sob a égide da revolta de Lutero contra a tradição, não compreende o que representa a Grécia e o legado grego para todos nós. A única coisa que parece preocupar esta gente é castigar um povo mal comportado e irresponsável.

Que tudo o que nós somos se deva, em última análise, aos gregos não comove esta gente bárbara. A única coisa que os move e comove é o dinheiro. É um facto que ninguém deve viver acima das suas posses. Mas também é um facto que todos os bens imateriais recebidos dos gregos representam hoje em dia muito dinheiro. Sem os gregos não teríamos democracia, nem ciência, nem arte tal e qual a compreendemos hoje. Sem tudo isso, seríamos infinitamente mais pobres, mais cruéis, mais selvagens. Que um conjunto de políticos radicais tenha empurrado a Grécia para a situação em que se encontra espelha bem que se está entregue a gente que não conhece a tradição. Sim, os gregos são eternas crianças, mas a elite política europeia não é menos infantil que os gregos. 

Aquilo que mais me envergonha, porém, reside no tique que está presente na governação portuguesa, nessa tentativa triste e cobarde de dizer que não somos como os gregos. Infelizmente, é verdade. Nós não somos como os gregos, de facto. Não tivemos um Homero, um Sófocles, um Ésquilo, um Eurípides, uma Safo, um Platão, um Aristóteles, um Fídias, um Píndaro, um Hesíodo, etc., etc., etc., num nunca mais acabar de construtores dos alicerces da cultura ocidental. De resto, temos sido tão infantis quanto os gregos. O supremo traço da nossa infantilidade reside nessa coisa absurda de querermos ser bons alunos de gente bárbara. Haverá coisa mais triste que um povo com 900 anos se queira ainda apresentar, através dos seus governantes, como eterno aluno bem comportado? No fundo, o que esta gente espera é que, na Europa, pensem como os professores: "bem, são um bocado estúpidos, mas como são bem comportados, passam com 10 valores". É este o verdadeiro significado da metáfora do bom aluno. Antes fôssemos gregos.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O efeito mimético da Escócia


A possibilidade da Escócia se separar da Inglaterra é um problema que merece muita atenção a quem vive na Península Ibérica. Directamente, é um assunto que diz respeito ao Reino Unido. No entanto, se no referendo de 2014 o sim vencer e acontecer o fim do Reino Unido, devemos ter em consideração o efeito mimético que o acontecimento pode gerar. O País Basco e a Catalunha, mesmo a Galiza, poderão sentir-se legitimados para exigirem referendos que conduzam à separação de Castela. Não é claro que daqui a dois ou três anos o clima económico e social, tanto em Espanha como na Europa, não seja, ele mesmo, um animador activo dos desígnios nacionalistas. A conjunção do separatismo com um quadro institucional periclitante pode conduzir a uma tensão político-militar em Espanha que hoje é difícil perceber, mas que terá efeitos devastadores em toda a Península Ibérica. A independência escocesa não é apenas um problema das Ilhas Britânicas. Mais, quem pensar que o actual quadro das nacionalidades é praticamente imutável está bem enganado.

Da tomada de posição como doença


É loucura imaginar que a verdade reside na escolha, quando toda a tomada de posição equivale a um desprezo da verdade. Para nossa infelicidade, escolher, tomar posição são uma fatalidade à qual ninguém escapa; cada um de nós deve optar por uma não-realidade, por um erro, convencidos da força que, doentes, temos ao estar febris: os nossos assentimentos, as nossas adesões são sintomas alarmantes. Quem quer que se confunda com o que quer que seja faz prova de disposições mórbidas: não há salvação nem saúde fora do ser puro, tão puro como o vazio. (Emil Cioran, Exercices d'Admiration)

Há, de facto, na atitude de tomar posição, de tomar partido, uma experiência que merece ser pensada, uma experiência mórbida como salienta Cioran. Talvez a generalidade dos espíritos partidários - e tomar partido ou posição é bem uma fatalidade que a todos atinge em alguma situação, como o saliente Cioran - cubram a morbidez com uma dose de fanatismo que, antes de ocultar a realidade, esconde a sensação doentia que nos atinge. Raramente queremos reconhecer que nos pontos de vista aos quais nos opomos alguma razão lhes assiste. Fazemos da tensão agónica de perspectivas diferentes e/ou opostas o lugar onde esquecemos a limitação do nosso próprio ponto de vista. Essa experiência - que senti múltiplas vezes ao longo da minha vida - torna a acção possível. Toda a acção vive do perspectivismo e do conflito entre particularidades, e desse ponto de vista toda a acção contém em si as sementes de uma tragédia, e é sintoma de estados patológicos. Praxis e pathos requerem-se mutuamente, e não há acção sem que alguém ou algo sofra o efeito dessa acção.

A grande dificuldade, no entanto, reside na busca da saúde ou da salvação, na procura de um estado não patológico. Não serão ainda, saúde e salvação, formas perspectivistas que se opõem à doença e à perdição? O vazio não estará para lá dessas dicotomias entre saúde e doença, salvação e perdição? Há que abandonar não apenas a ideia ilusória de que nos podemos curar ou salvar na tomada de posição, mas também as próprias ideias de salvação e de saúde. Se o fizermos seremos, porém, ainda homens? E se conseguirmos esse vazio, essa "instalação" no ser puro, os nossos gestos e os nossos actos serão ainda formas de acção? A única resposta que encontro para estas perguntas ainda é uma outra pergunta: por que queremos ainda ser homens? Não é nessa humanidade que se colocam todos os perspectivismos, todas as dicotomias, todas as angústias da doença e da perdição, bem como todas as falsas esperanças da cura e da salvação? Por que queremos ainda ser homens?

A morte da Livraria Portugal


A Livraria Portugal foi, muito provavelmente, a primeira livraria em que entrei em Lisboa. Acompanhado pelo meu pai, fui em busca de livros de xadrez, numa época longínqua da minha pós-adolescência em que esse jogo me cativou. Mais tarde, nos tempos de faculdade e posteriores fazia parte do périplo das livrarias do Chiado. Portugal, Bertrand e Sá da Costa. Vai agora morrer, aos 70 anos. A eutanásia está agendada para dia 29. Já morreram, das que frequentei um dia, a Universitária e a Bertrand da João Soares, ambas no Campo Grande. Julgo que a antiga 111, depois Lácio, ainda é viva. Morreu também a velha Bucholz onde, além de livros, comprei música erudita. Com tudo isto, é uma certa Lisboa que está a desaparecer. A vida acaba por fazer este tipo de coisas, afastando-nos dos lugares que amamos. Vale a pena ver o vídeo no Público sobre a Portugal. 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Ortografias


Há uma coisa que sempre me intrigou nesta história da oposição ao acordo ortográfico (sobre o qual não tenho nenhuma opinião fundada, pois não sou filólogo, nem me apetece ir estudar o assunto). Este acordo é a continuação lógica da reforma ortográfica de 1911. Tenho lido Eça de Queiroz e Júlio de Matos na ortografia da época. A mancha gráfica parece a de uma outra língua. Os protestos contra o actual Acordo Ortográfico, para serem coerentes, deveriam exigir a restauração da ortografia anterior a 1911. A simplificação de 1911 é a mãe das subsquentes alterações ortográficas, incluindo o actual acordo. Foi em 1911 que o critério fonético substituiu o etimológico. Seria a essa grafia etimológica que se deveria voltar para se ser coerente na recusa do actual acordo. Mas isso faria sentido? 

Muitas reacções negativas, onde incluo a bravata de Vasco Graça Moura, parecem-me ser motivadas apenas pela defesa do hábito ortográfico onde se foi educado. A verdadeira questão está na opção tomada em 1911. Por mim, adoraria escrever phosphoro, lyrio, orthographia, phleugma (que bela palavra), exhausto (veja-se como se compreende a exaustão, como estando fora, ex, do hausto, do acto de haurir, de sorver), estylo, prompto, dipthongo, psalmo. A minha questão, porém, prende-se com a legitimidade de pessoas como eu para exigirem uma dada ortografia, de acordo com a sua especial idiossincrasia. Fora das questões oficiais a que sou obrigado, continuarei a usar a norma que aprendi, até que domine a nova. Usarei esta, a nova, não porque a ache melhor ou pior, mas porque vou ter de comunicar com os outros que a usarão. E a língua está ligada à comunicação, ao pôr em comum. Há uma coisa que eu sei. Não sou dono da língua, e como todas as ortografias são convenções, e convenções sancionadas politicamente, por muito que eu gostasse de escrever "Estou exhausto para ir  agora ao Egipto", fleumaticamente, esquecendo-me da velha phleugma, escreverei "Estou exausto para ir agora ao Egito". No fundo, acho que há muita pesporrência na oposição ao Acordo Ortográfico.


Poema 18 - Não sei o que mais amo no inverno


Não sei o que mais amo no inverno,
se a saudade dos dias outonais
se a chuva fria
que me impede de caminhar pelo cais.

As noites longas passo-as acordado.
Canto os dias de glória,
à espera que o sono desça
e cubra de sonhos o véu da memória.

O tempo, ó pura transfiguração,
imagem de pedra,
geada que os campos cobre.

Assim outros tempos virão,
pálidos como erva que não medra,
vazios como este espírito tão pobre.

Uma questão de realpolitik


A China e a Rússia vetaram uma proposta de resolução, na ONU, contra a Síria. Dramatizar este voto, vê-lo apenas como uma espécie de simpatia pelo regime de Damasco é um exercício inútil e perigoso. Os chineses e os russos não estão particularmente interessados com o destino de Assad, mas com os seus próprios interesses geo-estratégicos. A condenação da tirania de Assad levanta sempre o véu para outras condenações, e a China e a Rússia não são exemplos de regimes livre e democráticos. Mas mais que a protecção à distância dos regimes próprios, a Rússia e a China há muito que usam o mundo muçulmano como forma de conter e perturbar o Ocidente. Não é que a Rússia e a China pretendam ver o Islão reforçado, o que seria um problema enorme para ambos os países. A questão é que o Islão deve funcionar como uma espécie de ameaça latente sobre o Ocidente, para que este se confine, cada vez mais, ao seu lugar natural. Que centenas pessoas morram às mãos de Assad é uma coisa irrelevante. Mas é preciso recordar que não foram os actuais regimes chinês e russo que inventaram a realpotik. Ele sempre existiu, e nós ocidentais sempre a praticámos sem qualquer tipo de vergonha. O veto é apenas uma questão de relação de forças. O mundo é o que é.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Um culto, uma ruína e a miséria


Não quero falar do tempo e das metamorfoses que ele arrasta no espaço. A Igreja de Santa Maria já desapareceu e o velho Teatro Virgínia (quase no canto superior direito) também entregou há muito a alma ao criador. Mas de uma outra coisa, que é para mim uma absoluta novidade (sou um péssimo torrejano). O culto à Expectação do Parto (ou de Nossa Senhora do Ó) ter-se-ia iniciado em Portugal na Capela Mor da Igreja Matriz de Santa Maria do Castelo, em Torres Novas. Aqui uma antiga imagem de Nossa Senhora grávida era objecto de adoração. A imagem e o culto remontam à fundação da nacionalidade. No tempo de Afonso Henriques era conhecida como Nossa Senhora de Almonda, no de Sancho I como Nossa Senhora da Alcáçova e a partir de 1212 como Nossa Senhora do Ó. Foi nesta altura que a Igreja foi edificada ou talvez reedificada.

Estas informações colhi-as na Internet e valem o que valem. Sendo verdade histórica ou lenda, a verdade é que a antiguidade da Igreja, da Imagem da Senhora do Ó e a própria narrativa não foram suficientes para obstar à incúria dos homens. E aqui revela-se Portugal em todo o seu espírito. A Igreja quando foi demolida, nos anos setenta do século XX, segundo consta, não era já recuperável. Mas como foi possível que tão importante monumento local se fosse degradando sem que o cuidado dos homens interviesse para obstar à acção do tempo? Essa desatenção ao passado é uma marca nacional. E não se pode assacar culpas à eterna miséria dos portugueses. O concelho de Torres Novas, na época em que a Igreja de Santa Maria se foi degradando até ser demolida, era um concelho rico, tanto pelas suas indústrias como pela  sua agricultura. Foi a miséria, mas não a económica. Foi outra miséria, bem mais dolorosa e difícil de erradicar, aquela que não sabe respeitar o outro, mesmo que esse outro venha sob a forma de uma herança do passado.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Poema 17 - De tudo a que chamamos vida


De tudo a que chamamos vida
o que resta depois da tarde
é a dor penetrante e sofrida;
no silêncio da noite ainda arde.

Nem vale a pena falar do coração,
dos dias que se abria ao ardor.
O que chega são sombras, partirão
para as terras que se calam ao sol pôr.

Caminhamos numa ilusão presos,
e na terra ansiamos o mar,
exaustos de sol e rosas no jardim.

Mas em cada passo que damos surpresos,
uma promessa de água por amar,
uma dor que a morte faz viver assim.

O retorno da religião


A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.


A entrevista dada, ao Público de sábado passado, pelo politólogo italiano Franco Cazzola tem múltiplos motivos de interesse, nomeadamente a questão da morte da esquerda. Segundo Cazzola, a esquerda terá morrido, porque a sua linguagem morreu. No entanto, esta proposição, já de si bastante ousada, assenta numa outra constatação do autor. No livro O que Resta da Esquerda, é referido que aquilo que destruiu a esquerda foi a transferência do poder da política para o mercado. O verdadeiro centro de poder reside agora na esfera da economia.

A questão central não se encontra, assim, na morte da esquerda, mas no fim da própria política, tal como a entendemos desde a cidade-estado da Grécia antiga. Para perceber o efectivo alcance daquilo a que estamos a assistir, precisamos de compreender o significado da esquerda na vida política. Ela representou sempre – independentemente das suas práticas reais – a secularização da esperança. A esquerda é a resposta à transferência da crença no paraíso celeste para o terrestre, transferência que é operada pela política. Ela representou para milhões de pessoas um princípio de esperança, a expectativa de uma vida menos dolorosa e mais decente.

A secularização da esperança foi concomitante com a perda de influência do Cristianismo. De certa maneira, a esquerda sempre teve – mesmo e principalmente quando se se dizia ateia – uma dimensão religiosa, a qual supriu, na imensa massa dos trabalhadores, as necessidades de fé. O que o neoliberalismo está a fazer não é apenas a destruir a política. Está a destruir aquilo que constituía o núcleo central das crenças de muitos milhões de pessoas, sem ter nada para lhes dar, a não ser a vaga expectativa de um emprego precário e mal pago.

A consequência disto está longe de estar sopesada. O primeiro momento vai ser o desespero. Mas, como a política está morta, esse desespero vai procurar abrigo naquilo que, durante toda a história da humanidade, foi o abrigo dos desesperados, a religiosidade. E está longe de ser claro que a religião a vir seja ainda uma forma de Cristianismo. Seja o que for, a religião a vir não pactuará nem com a autonomia do mercado nem com a independência do poder secular face ao religioso. O desespero inflamado pela fé religiosa não se entrega a esses luxos. O neoliberalismo está a preparar a morte das sociedades liberais à mão do impulso mais ancestral que constitui o homem, a fé religiosa. As primaveras árabes são uma lição. Os europeus não são árabes? Não, não são. Mas em breve viverão tão mal quanto os árabes.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Monotonias e previsibilidades

(imagem daqui)


O filósofo britânico David Hume (séc. XVIII) defendia que não podíamos justificar racionalmente a crença no princípio de causalidade (a ideia de que existe uma relação necessária entre dois fenómenos, um com a função de causa outro com a de efeito). Esse princípio não tem uma natureza objectiva, mas é o produto de um hábito, a emanação do desejo humano de que o futuro seja previsível e controlável. O primeiro-ministro italiano, Mario Monti, teve a insólita desfaçatez de dizer que um emprego para toda a vida não existe e é monótono. Caiu o Carmo e a Trindade, mas todas as críticas que sofreu são apenas palavras oportunistas. As elites políticas e económicas globais estão de acordo com Monti. A economia olha para as pessoas como algo que se usa e, rapidamente, se despeja para a rua. Chama-se a isso flexibilidade do trabalho.

Isto revela uma clivagem essencial entre a economia de mercado e a natureza humana. O ser humano necessita, para que possa levar uma vida minimamente digna de ser denominada de humana, de possuir um futuro previsível e controlável. O desenvolvimento das sociedades, ao longo da história da humanidade, centrou-se na criação de condições de previsibilidade da vida e de controlo do futuro. Também, em dado momento da história do capitalismo, as empresas funcionaram como o horizonte que fornecia princípios de estabilidade e de previsibilidade aos seus funcionários. Os desenvolvimentos recentes do capitalismo, porém, conduziram a uma nova situação, na qual todo o trabalho é precário, nada é previsível e onde não há qualquer controlo sobre o futuro.

Aquilo que foi uma estrutura antropológica essencial no desenvolvimento da civilização – de qualquer civilização, note-se – morreu. Os mecanismos de estabilidade e de segurança, tão necessários à humanização dos seres humanos, estão a ser destruídos velozmente pela economia de mercado. O fim da segurança, da estabilidade e da previsibilidade significa um retrocesso civilizacional, um retorno aos tempos onde o homem vivia no terror de ser presa de animais mais fortes. O que está em jogo com a intensificação da precariedade do trabalho e da insegurança das pessoas não é apenas uma injustiça social, é a própria natureza humana que está a ser dissolvida. Estamos perante um atentado à humanidade do homem, ao seu núcleo essencial, no qual se inscreve a necessidade maximizar o controlo do futuro para que a segurança permita a cada um desenvolver todas as suas potencialidades.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Transparências



Este projecto de leitura do pensamento é apenas um exemplo da intencionalidade da ciência. De acordo com o projecto Iluminista, a ciência tende a iluminar cada recanto da realidade, a transformar a opacidade das coisas em pura transparência. O problema que se coloca é o do limite dessa transformação. O projecto em causa visa ajudar pacientes com dificuldades de expressão linguística. Mas nós sabemos que qualquer nova descoberta científica é um acto de poder. Abre um novo território, até aí desconhecido, à colonização dos poderes. Nada melhor para a dominação das pessoas que tornar transparente a consciência. Aquilo que se pensava inviolável está ameaçado pelo desenvolvimento da ciência. Ainda estamos longe de ler os pensamentos, como diz o artigo? Sim, mas lá chegaremos, pois o caminho está a aberto. A questão que se coloca será menos a de evitar que um dia o nosso pensamento seja lido, mas a de saber como viver o horror de uma vida em que tudo é transparente.