![]() |
| Luis Roibal, Dibujo, 1992 |
Chegava a manhã
num motim de luz,
abria a porta
de cinza vidrada,
o quarto vazio
onde se escondia
a sombra do coração.
[O Silêncio da Terra Sombria, 1993]
![]() |
| Carl Winkel, Motiv von der Unterelbe, 1907 |
![]() |
| Paul Klee, Arrebato de miedo III, 1939 |
![]() |
| Yale Joel, Couple embracing late at night on the Schoffelgasse, Zurich, 1948 |
- Adeus, tenho de ir.
- Mas, tínhamos combinado...
- Não me lembro de ter combinado nada.
- Estás a brincar.
- Talvez sofra de uma estranha amnésia.
- Como é possível? Não tens idade para isso.
- Meu querido, a deficiência da memória não tem por causa
única a idade.
- Os planos que ontem fizemos para esta noite.
- Ontem? Onde?
- Quando nos encontrámos no café.
- Ah, sim, encontrámo-nos no café é verdade.
- Esta iria ser a nossa primeira e grande noite de amor.
- Grande, mas ainda não percebeste?
- O quê?
- Esta é a noite mais pequena do ano, como pode ser uma grande noite de amor?
- ...
- Adeus, dorme bem.
![]() |
| Albert de Rotschild, Am Hallstätter See, 1896 |
![]() |
| Artur Bual, Hoje VI, 1965 (Gulbenkian) |
![]() |
| Charles J. Martin, Storm Landscape with Railroad Tracks, 1929-1930 |
![]() |
| Thomas Hoepker, Celebrating the German reunification in Berlin. Waving the German flag at Berlin’s Brandenburg Gate. Berlin, Germany, October 3, 1990 |
![]() |
| David Turnley, Man Reading Paper Through Magnifier, 1975 |
Não é ainda muito claro na Europa, mas já o é bastante nos
Estados Unidos. O principal problema político que assola o mundo ocidental e
que fornece o combustível para a progressão da direita radical e da
extrema-direita é a mulher. Melhor: é o papel da mulher na sociedade. A
imigração tem surgido como um factor de arregimentação desses quadrantes
políticos. Contudo, para um observador mais atento são os direitos das mulheres
que estão a mobilizar muitos votos masculinos – em especial nos eleitores
jovens, mas não só – para soluções políticas radicais. Na Europa – talvez com a
excepção de Espanha – o problema é mais dissimulado, mas aquilo que está a
acontecer nos EUA chegará, mais tarde ou mais cedo, a este lado do Atlântico. A
retórica extremista usa a bandeira da luta contra o feminismo, mostrando este
como uma deriva radical. O que está, porém, em causa, o que mobiliza tantos
homens para a extrema-direita?
Em primeiro lugar, a autonomia sexual das mulheres. Não
tenhamos qualquer ilusão sobre o assunto. O facto de os homens não poderem, no
campo da sexualidade, dominar e impor a sua vontade às mulheres é um factor
perturbante para parte significativa do campo masculino. Um outro factor é a
escolarização. As mulheres, actualmente, têm uma mais alta escolarização do que
os homens. A importância da formação académica, nas sociedades actuais, é de
tal modo grande que está a gerar uma nova clivagem de classe entre pessoas com
formação superior – na sua maioria, mulheres – e pessoas sem essa formação.
Este é também um factor de ressentimento com muito peso no eleitorado
masculino. Por fim, o desaparecimento de empregos, relativamente bem
remunerados, que solicitem competências vistas como masculinas, baseadas na
força física, criando um problema aos homens que apostaram pouco nos estudos.
Estes três factores – todos eles presentes nas sociedades ocidentais – estão a gerar uma radicalização política de parte dos homens, cuja finalidade é limitar os direitos das mulheres, tentando fazê-las retornar a um estado de dependência, limitando drasticamente a autonomia sexual, profissional e, plausivelmente, académica das mulheres. E isto pode mesmo acontecer, caso as mulheres e as forças democráticas não se mobilizem para enfrentar o problema. Esta deriva antifeminina é um sintoma da decadência do Ocidente. Os eleitores estão mais preocupados em voltar ao século XIX – sonhando com fadas do lar – do que enfrentar os grandes desafios que a revolução tecnológica e a afirmação de potências industriais, políticas e militares extra-ocidentais colocam. Uma fantasia, mas fantasias têm colocado ditadores no poder.
![]() |
| Anónimo Romano, Escena de gineceo (Villa Imperial. Pompeya) |
![]() |
| Dr. Konrad Biesalski e Dr. Krüger, Schmied Am Ambos, 1899 |
![]() |
| John Dumont, The Dice Players, 1891 |
![]() |
| A. R. Gurrey Jr., Old ocean singing a psalm of of delight…, 1910-1920 |
![]() |
| Paul Cézanne, Château Noir, 1903-1904 |
Este democratismo das redes sociais, ao dar força a
movimentos como os acima referidos, veio revelar o carácter aristocrático do
conhecimento científico. Este é produzido e compreendido por uma elite, um
clube seleccionado que, para entrar nele, exige longos anos de preparação e um
conjunto não pequeno de provas ao longo do caminho. Isto significa que a maior
parte de nós – quase todos – não está habilitado para trabalhar em ciência, e
mesmo aqueles que estão, estão apenas num ramo muito específico. O que acontecia,
antes das redes sociais invadirem o panorama da intercomunicação humana, era
que havia um respeito tácito, veiculado pela comunicação social e pelos valores
da sociedade, pelos esforços desses homens e mulheres que dedicavam uma vida ao
conhecimento. Presumia-se – e com razão – que sendo especialistas, tinham uma
autoridade real para falar sobre a sua área, fossem vacinas, cancro de pele, ou
física nuclear.
O que se assiste é uma revolta da plebe – ou dos sans-culottes,
caso se prefira a França da Revolução ao Império Romano – contra o patriciado
ou a aristocracia do conhecimento científico. A revolta tem uma característica
específica. Não apenas pretende ter voz sobre assuntos de natureza científica,
como quer ter o poder da autoridade: as suas crenças, sem qualquer validação,
são a verdade e a ciência, com o seu laborioso e controlado processo de
produção de conhecimento, não passa de uma mistificação. Estamos a assistir a
um teste terrível dos efeitos da liberdade de expressão. Até que ponto a
ciência e o conhecimento racional podem sobreviver a estes ataques irracionais?
Não é apenas ao nível político, com a erosão das democracias, que as redes
sociais geram problemas. Também são um factor de turbulência para a ciência e
para os benefícios que os seres humanos podem tirar dela. Já não é impossível
pensar que uma nova Idade das Trevas esteja no horizonte.
Dois sinais decisivos de que os equilíbrios provenientes do
processo de democratização estão no fim são as iniciativas legislativas do
governo sobre a imigração e o código do trabalho. São leis estruturais e a
esquerda nada pode fazer para as alterar. A primeira chocou com o Tribunal
Constitucional e à segunda pode acontecer o mesmo. Um cenário plausível é o de
a grande coligação parlamentar de direita – PSD/CDS + IL + Chega –, através da
contínua proposição de leis que chocam com a Constituição, encontrar uma desculpa
que lhes permita fazer aquilo que, na verdade, todos os seus chefes desejam:
alterar a actual Constituição, de modo a deixá-la irreconhecível, aniquilando
os traços sociais específicos que a transição à democracia em 74 lhe deu.
Os grandes interesses que, de modo mais silencioso ou mais
ruidoso, como o caso de O Observador, estão por detrás do Chega, da IL,
do PSD de Montenegro (o mesmo de Passos Coelho) e do minguado CDS, não
perdoarão à direita política que esta não aproveite a situação actual para refazer
a Constituição. E é evidente que quem manda não é Montenegro ou Ventura. Eles
são apenas representantes. Portanto, será um milagre que a Constituição se
mantenha tal como está. Não se espere que a sua defesa venha do PSD. Não estamos
em 1975, nem os dirigentes actuais têm alguma coisa que ver com os dirigentes
do PPD (era assim que o PSD se chamava) daqueles tempos. Se se pode ter alguma
pequena esperança de que a revisão não seja um retrocesso cívico monstruoso,
essa esperança reside na União Europeia. É ela que paga as contas, e há um
decoro mínimo que a nossa direita tem de ostentar, para que o dinheiro continue
a vir. O país político mudou e mudou radicalmente.
O caso é interessante não tanto pela descoberta de que a
relação entre moral e negócios é ténue, mas porque coloca em jogo o problema da
relação entre capitalismo e democracia liberal. Pretendeu-se que havia um laço
forte entre desenvolvimento do capitalismo e democracias liberais. Ora, existem
demasiadas provas empíricas que contrariam essa crença. O Chile de Pinochet é
um desses exemplos. Outro é a China comunista pós-Mao Tsé-Tung. Podia
multiplicar os exemplos. O que é importante, porém, é perceber que não existe
qualquer relação necessária entre desenvolvimento capitalista e democracia
liberal. Apenas duas liberdades parecem necessárias para a economia
capitalista: a da propriedade privada e a de concorrência, embora esta possa
ser dispensada.
A relação entre capitalismo e democracia parece ser apenas
conjuntural: o resultado, em primeiro lugar, da luta da burguesia contra a
aristocracia e o privilégio político desta; em segundo, da luta contra a ameaça
do comunismo, enquanto inimigo da propriedade privada. Derrotados aristocratas
e comunistas, o capitalismo, para o seu desenvolvimento, pode dispensar regimes
democráticos, o que está a fazer diante dos nossos olhos. A América de Donald
Trump é um caso exemplar, onde a corrosão das instituições democráticas e
liberais está a ser fomentada e financiada por grandes interesses capitalistas.
Contudo, há um outro fenómeno inquietante que ainda não é visível, mas que se
está a desenhar: a destruição, para além das democracias, da liberdade da
concorrência. Grandes interesses económicos gravitam o Estado em busca de
protecção e de destruição dos concorrentes. Talvez a destruição em curso não
seja apenas a das instituições democráticas, mas também da própria economia de
mercado.
Em 1923, Joseph Roth, referindo-se ao protagonista do seu
primeiro romance, escreveu: “Era o jovem europeu: nacionalista e egoísta, sem
fé, sem lealdade, sedento de sangue e limitado. Era a jovem Europa.” Este jovem
europeu era protofascista e, com o andar dos anos, tornou-se fascista. O
resultado é conhecido: o fascismo italiano, o nazismo alemão, diversas cópias,
mais ou menos fiéis, em países europeus, e, acima de tudo, a segunda guerra
mundial e o genocídio judaico. Os jovens europeus, no pós-guerra, foram-se
tornando outras coisas. Derivaram para a esquerda, tornaram-se antifascistas. Um
pouco mais tarde, foram campeões do liberalismo: primeiro, de costumes; depois,
de mercado. A certa altura do percurso, a juventude europeia, como outras,
mergulhou na internet e nas redes sociais, uma vida sedentária, sombria, vivida
no quarto.
Agora, começa a descobrir-se que os jovens europeus estão
cansados da vida sedentária. Enquanto a velha Europa definha numa crise
demográfica de grandes proporções, aquela jovem Europa – na designação irónica
do escritor austríaco – está de volta, com os mesmos jovens limitados,
nacionalistas, egoístas, sem fé nem lealdade, e, começa a perceber-se, sedentos
de sangue. Uma crise de masculinidade terá atingido parte dos rapazes e,
desconfiados da sua natureza, parecem ter uma necessidade de exibir, como uma condecoração,
a mais rasteira misoginia e um culto da violência, que começa a passar das
redes sociais para as ruas. A discussão sobre se as actuais extrema-direita e
direita populista são ou não fascistas é irrelevante. O importante é a pulsão
que conduz muitos jovens – principalmente, do sexo masculino. E esta pulsão é
violenta, nacionalista e, em potência, violenta.
A situação social e política em que vivemos é, do ponto de vista económico, social e político, muito diferente da que se vivia na Europa do fim da primeira guerra mundial. Contudo, há um ponto em comum: a proliferação do ressentimento. Foi o ressentimento de largas camadas da população que deu combustível ao fascismo e ao nazismo. Ora, apesar de as pessoas, mesmo as mais pobres, viverem muito melhor do que nessa altura, o ressentimento multiplica-se. Seja devido à presença de estrangeiros ou à comparação com as elites, a massa dos ressentidos, na qual a presença de jovens rapazes é significativa, cresce e está a tornar-se um problema para as democracias liberais. Nos anos vinte e trinta do século passado, os políticos democráticos foram impotentes para lidar com essa “jovem Europa”. Resta saber se, passado um século, aprenderam alguma coisa.