domingo, 5 de fevereiro de 2012

Ortografias


Há uma coisa que sempre me intrigou nesta história da oposição ao acordo ortográfico (sobre o qual não tenho nenhuma opinião fundada, pois não sou filólogo, nem me apetece ir estudar o assunto). Este acordo é a continuação lógica da reforma ortográfica de 1911. Tenho lido Eça de Queiroz e Júlio de Matos na ortografia da época. A mancha gráfica parece a de uma outra língua. Os protestos contra o actual Acordo Ortográfico, para serem coerentes, deveriam exigir a restauração da ortografia anterior a 1911. A simplificação de 1911 é a mãe das subsquentes alterações ortográficas, incluindo o actual acordo. Foi em 1911 que o critério fonético substituiu o etimológico. Seria a essa grafia etimológica que se deveria voltar para se ser coerente na recusa do actual acordo. Mas isso faria sentido? 

Muitas reacções negativas, onde incluo a bravata de Vasco Graça Moura, parecem-me ser motivadas apenas pela defesa do hábito ortográfico onde se foi educado. A verdadeira questão está na opção tomada em 1911. Por mim, adoraria escrever phosphoro, lyrio, orthographia, phleugma (que bela palavra), exhausto (veja-se como se compreende a exaustão, como estando fora, ex, do hausto, do acto de haurir, de sorver), estylo, prompto, dipthongo, psalmo. A minha questão, porém, prende-se com a legitimidade de pessoas como eu para exigirem uma dada ortografia, de acordo com a sua especial idiossincrasia. Fora das questões oficiais a que sou obrigado, continuarei a usar a norma que aprendi, até que domine a nova. Usarei esta, a nova, não porque a ache melhor ou pior, mas porque vou ter de comunicar com os outros que a usarão. E a língua está ligada à comunicação, ao pôr em comum. Há uma coisa que eu sei. Não sou dono da língua, e como todas as ortografias são convenções, e convenções sancionadas politicamente, por muito que eu gostasse de escrever "Estou exhausto para ir  agora ao Egipto", fleumaticamente, esquecendo-me da velha phleugma, escreverei "Estou exausto para ir agora ao Egito". No fundo, acho que há muita pesporrência na oposição ao Acordo Ortográfico.