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| Harry Callahan, Chicago, 1958 |
terça-feira, 24 de agosto de 2021
Nocturnos 66
sexta-feira, 20 de agosto de 2021
Os talibãs no carrocel
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| Francisco Díaz de León, Carrousel, 1930 |
No Público de hoje, António Guerreiro explora a natureza
icónica das imagens dos talibans a ocupar o palácio presidencial, salientando
aquela em que os guerrilheiros surgem armados e dispostos à volta da secretária
de trabalho do Presidente em fuga, a sua natureza inquietante ou, para ser mais
preciso, a sua inquietante estranheza. Todas as imagens que nos chegam do
Afeganistão têm, contudo, um poder enorme de suscitar, para além dessa inquietante
estranheza, um sentimento de má consciência. Muitas delas terão sido captadas
com essa intenção, mas não seriam necessárias. Bastariam aquelas que nos chegam
e são emanações espontâneas de consciências ingénuas.
Há, contudo, um conjunto de imagens, com não menos poder icónico e capacidade explicativa, a que não se tem dado o relevo que merecem. São filmagens de combatentes talibans em Cabul, num parque de diversões, andando em carrinhos de choque e em carroceis. Homens barbudos, militarmente competentes e vencedores, ameaçadores para tudo o que se lhe opõe e às suas crenças. No entanto, eles estão ali, no momento da vitória, como crianças e jovens adolescentes. Essas imagens convocam, de imediato, por oposição, um célebre texto de Kant, O que é o Iluminismo?
Vale a pena citar o primeiro parágrafo do texto de Kant: “Iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo.”
Aqueles guerrilheiros eufóricos no parque de diversões da capital afegã, homens de coragem física e capacidade militar, no fundo não passam de menores. A sua menoridade reside na falta de coragem para se servirem do seu próprio entendimento sem a condução de outrem, de um chefe supremo, de um grande líder, ou de qualquer outra figura que dê corpo à necessidade de um mestre e senhor.
A inquietante estranheza que sente António Guerreiro perante as imagens do palácio presidencial é bem mais nítida e ameaçadora, para nós, ocidentais, nas imagens de combatentes infantilizados num parque de diversões. Porquê? Em primeiro lugar, porque também em nós, ocidentais, existe uma nostalgia da infância e da adolescência, desses tempos paradisíacos de menoridade. Em segundo lugar, porque o peso da liberdade e da responsabilidade individuais é, muitas vezes, excessivo para aquilo que podemos suportar. Em terceiro lugar, porque entre nós o desejo de retorno a um tempo de menoridade se manifesta cada vez com mais força. Foi ele que elegeu Trump e Bolsonaro, é ele que faz crescer as intenções de voto em Ventura, é ele que alimenta o apoio aos partidos populistas na Europa, é ele que levou ao poder personalidades anti-iluministas, na Polónia ou na Hungria.
A inquietante estranheza nasce porque, no fundo de nós, existe uma inclinação para obedecer ao mestre e, como meninos obedientes e bem-comportados, poderemos ir à feira, ao carrocel e aos carros-de-choque. No íntimo dos ocidentais, na sua consciência dilacerada, defrontam-se a má-consciência pelo abandono a que os afegãos – principalmente as afegãs – tocadas pelo Iluminismo foram votados e essa inclinação para a menoridade e para a servidão voluntária.
quarta-feira, 18 de agosto de 2021
A Garrafa Vazia 67
domingo, 15 de agosto de 2021
O Vice-Almirante das vacinas
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| Enrico Baj, sem título, 1964 |
O episódio de ontem (ver aqui) confirmou a minha intuição de há tempos. Toda a sua acção e as palavras que disse são uma lição de política. Perante os manifestantes ululantes, em vez de procurar outra porta passou pelo meio deles (em política, a virtude da coragem é muito apreciada pelos eleitores), depois afirmou que o perigo vem do negacionismo e do obscurantismo, uma afirmação clara de que se mantém na tradição Iluminista (o que não sendo particularmente apreciado por amplas camadas da nossa direita, ser-lhes-ia muito vantajoso, pois dar-lhes-ia um ar de modernidade e conquistaria votos à esquerda). Acrescentou que vivemos em democracia e que todos têm direito de emitir as suas opiniões (uma defesa da liberdade de expressão que poderia enriquecer a experiência dessa mesma direita, muitas vezes vacilante nesse item, e também com possibilidade de atrair votos de gente de esquerda) e concluiu com uma defesa da ordem, negando aos manifestantes o direito de empurrar pessoas e impedirem de elas se deslocarem (ora, a ordem é uma das coisas que direita diz gostar, embora isso tenha dias).
Estamos, assim, perante um conservador iluminista, amante da democracia. Ainda por cima tem tido a capacidade de dirigir a máquina da vacinação, levando com disciplina a bom porto a missão de que foi encarregado. Se a direita quiser voltar para o poder e dar um contributo sério para o país, o melhor é deixar-se de procurar pequenos salvadores histéricos ou rapazes e raparigas que gostam de brincar ao liberalismo, e escolher um homem, ainda por cima muito apreciado pelas senhoras de vários escalões etários, com um nome imensamente adequado a líder da direita. O ‘e’ de Gouveia e Melo faz toda a diferença. Liderada por ele, nem as artes de António Costa, nem as aberturas das outras esquerdas para o manterem no poder resistiriam. E, estou convencido, nessa altura o nosso Vice-Almirante trocaria o camuflado por fato civil e, caso necessário, haveria de andar de camisa com o colarinho desapertado. Para ele não há missões impossíveis. O que me vale é que não sou de direita e, portanto, não tenho conselhos a dar-lhe.
quinta-feira, 12 de agosto de 2021
Alterações climáticas e o pathos do apocalipse
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| Yoriyasu Masuda, Caos, 1994 |
Aristóteles talvez seja mais fecundo do que o psicologismo a que recorre JMT. Refere, o filósofo grego, que o hábito é uma segunda natureza. Seria esta natureza que explicaria os comportamentos que JMT atribui à psicologia humana. No entanto, o problema coloca-se a jusante do hábito, no processo da sua formação. Podemos formar hábitos viciosos ou hábitos virtuosos, o que conduzirá a um carácter vicioso ou virtuoso. O que tem isto a ver com as alterações climáticas e a resistência à mudança de comportamentos?
Durante muitos e muitos anos, o poder económico com a colaboração do poder político exerceram uma verdadeira educação dos hábitos das pessoas. Ter grande iniciativa, exceder-se e ter poder económico para consumir são pilares da educação que, de forma massiva, há mais de um século é difundida. Foram propagandeados como virtuosos. Mais, continuam a ser propagandeados como virtuosos, tanto pelos governos como pelos agentes económicos.
Os hábitos da espécie humana não são coisas que caem dos céus aos trambolhões. São o resultado de uma educação. Antes de ser uma questão psicológica, as questões comportamentais perante as alterações climáticas são políticas e sociais, devido ao peso que as ideologias políticas, os interesses económicos e as concepções sociais difundidas amplamente possuem na educação e na formação de hábitos. Em última análise, trata-se mesmo de uma questão de vontade política, de uma vontade que escolheu - e escolhe - mostrar como virtuoso aquilo que é vicioso.
Quando não se quer compreender que o egoísmo oculto na propaganda da iniciativa, o ir para lá da justa medida que se esconde na cultura do ultrapassar-se continuamente e a delapidação presente no consumo são valores negativos e os responsáveis pela situação a que se chegou, então, como acontece com o texto de JMT, resta o pathos do apelo ao apocalipse. Os seres humanos precisam de catástrofes para aprenderem. Uma apologia do dilúvio universal. Resta saber quem será o Noé da história.
terça-feira, 10 de agosto de 2021
Simulacros e simulações (27)
sexta-feira, 6 de agosto de 2021
Nocturnos 65
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| Nina Leen, Chinese Dancer, not dated |
quarta-feira, 4 de agosto de 2021
Volta a Portugal
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| Peixoto Alves (Sport Lisboa e Benfica) |
domingo, 1 de agosto de 2021
Sinais preocupantes
Num artigo com o título “Para não ter que repetir de novo «Não
passarão!»”, publicado em 2002, no Corriere della Sera, o escritor
italiano Claudio Magris escrevia o seguinte: «Há, no clima político-cultural
cada vez mais dominante, uma agressiva negação dos valores da democracia e da
Resistência que talvez nos obrigue a convertermo-nos no que esperávamos ou acreditávamos
que já não teríamos que vermo-nos obrigados a ser, quero dizer, intransigentes
antifascistas.» Não se pense que Magris é um velho comunista ou um adepto da
esquerda radical. Não é. Aquilo que ele denuncia na Itália do início deste
século está a chegar agora a Portugal.
Assiste-se a uma ofensiva contra os valores democráticos, uma desvalorização da resistência à ditadura do Estado Novo, ao mesmo tempo que se faz apologia dos tempos de Salazar e do colonialismo português. O problema da resistência aos regimes caídos em 25 de Abril (também o regime fascista italiano caiu num 25 de Abril) tem aspectos diferenciados em Portugal e Itália. Em Itália, a resistência ao fascismo era feita por organizações de esquerda e de direita. Tanto a democracia-cristã como os comunistas eram antifascistas. A legitimidade de uns e outros no novo regime era idêntica. Isso não se passou em Portugal, onde a direita esteve, com honrosas excepções, sempre alinhada com a ditadura. A direita democrática portuguesa foi uma criação pós-25 de Abril. A ausência de uma memória democrática à direita é um campo propício para a desvalorização da resistência à ditadura.
Esta ausência de memória e a desvalorização da resistência à ditadura começam a ter impacto na defesa da própria democracia. A democracia portuguesa é um regime plenamente integrado nas democracias ocidentais. Funciona segundo as regras do Estado de direito e as suas imperfeições resultam de ser um regime feito por seres humanos, não sendo muito diferentes das imperfeições das outras democracias ocidentais. É esta democracia – o regime mais livre alguma vez existente em Portugal – que a direita radical pretende subverter, tentando destruir a representatividade, o carácter liberal do regime e, como acontece em alguns países europeus, o próprio Estado de direito. O perigo para Portugal é intensificado pela ausência de uma memória de resistência à ditadura dentro da direita democrática, que lhe permitisse opor-se aos avanços e cantos de sereia da nova direita radical. Os sinais existentes são preocupantes, parecendo anunciar a necessidade de se voltar a ser, adoptando as palavras de Claudio Magris, um intransigente antifascista, o que significa ser um intransigente defensor da democracia liberal.
quinta-feira, 29 de julho de 2021
A Garrafa Vazia 66
segunda-feira, 26 de julho de 2021
O progresso moral da humanidade (3)
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| Margaret Bourke-White, Shopping centre of Cologne after bombardment, 1945 |
sábado, 24 de julho de 2021
Ensaio sobre a luz (91)
quarta-feira, 21 de julho de 2021
Simulacros e simulações (26)
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| Gjon Mili, Stroboscopic image of the hands of Russian conductor, Efraín Kurtz, 1945 |
domingo, 18 de julho de 2021
Justiça, Educação, Pandemia e Claudio Magris
Educação. Desde que retornou ao governo, o Partido Socialista está, sem que faça alarde do caso, a fazer uma autêntica revolução educativa. Age sorrateiramente, publica os decretos e despachos fundamentais quando o ano lectivo está para terminar. Agora foi uma reforma compulsiva dos programas do ensino básico e secundário, que ficaram reduzidos às Aprendizagens Essenciais (que eram o currículo mínimo obrigatório) e a um documento estapafúrdio com o título de Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, uma colecção de banalidades apresentadas como salvação educativa da pátria. Quando o PS deixar o governo, o ensino público estará reduzido à pura nulidade. Com o assentimento da outra esquerda e a conivência da direita.
Pandemia. Não apenas em Portugal, mas também por cá, governados e governantes agem como se o problema estivesse resolvido. Enquanto isso, as novas variantes continuam a emergir, sempre mais contagiosas e letais, os internamentos crescem, as unidades de cuidados intensivos vão ficando ocupadas e as mortes, ainda que a um ritmo bem mais baixo, não param de suceder. Está tudo cansado da disciplina que o combate à pandemia obriga. Ela exige esforço, sacrifício, adiamento de prazeres, sentido de comunidade, tudo virtudes que não geram, na maioria das pessoas, mais que um esgar de desprezo.
Claudio Magris. Uma sugestão de leitura para férias. Estou a ler o livro, publicado em Portugal pela Quetzal, A História Não Acabou, de Claudio Magris. É composto, na sua maioria, por artigos que o escritor italiano publicou no Corriere della Sera, nos primeiros anos deste novo milénio. São muito bem escritos, têm uma profundidade que não se encontra em Portugal e tocam em pontos essenciais da nossa vida comum. Fá-lo sempre com uma justeza e um equilíbrio assinaláveis, sabendo destrinçar o essencial do acidental. Lê-se com facilidade e com prazer. Apesar de situado no tempo, não está ultrapassado.
quinta-feira, 15 de julho de 2021
A Garrafa Vazia 65
segunda-feira, 12 de julho de 2021
A persistência da memória (4)
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| August Sander, Circus Artists, 1930 |
sábado, 10 de julho de 2021
A ilusão da escola neutra
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| Walter Sanders, Crinolines Wilmington High School, not dated |
António Barreto
(AB), em artigo no Público (ver aqui), protesta contra aqueles que não querem uma
escola neutra – ideologicamente neutra – e que defendem uma escola
programática, embora os programas existentes para a escola sejam tantos quanto
as ideologias existentes na sociedade. É um facto que existe uma contínua
tentativa de colonizar a escola com concepções sobre a moral e a política.
Porque é que isto acontece? Há uma explicação óbvia: na escola estão as novas
gerações, é fácil contactá-las e educá-las naquilo que aqueles que possuem o poder
curricular julgam ser virtuoso moral e politicamente. Há, no entanto, uma outra
explicação.
AB escreve que é uma das mais antigas e perenes ilusões a ideia de que a escola tem o poder de formar as pessoas e transformar o mundo. Pelo que seria indispensável formar os jovens de hoje para serem os homens de amanhã. É verdade, mas também é verdade que a escola neutra que AB parece defender não é menos ilusória. A escola não é nem pode ser uma instituição neutra pelo simples facto de a sua existência implicar já uma quebra da neutralidade. Instituir a escola é tomar partido perante a questão de saber se as pessoas devem ser instruídas ou não. Desde a raiz que a escola não é neutra. Mais, mesmo com um currículo que não contivesse os devaneios ideológicos mais conflituantes, a escola não seria neutra. Dar importância às humanidades ou ensinar Matemática, Física, Química e Ciências da Natureza nada tem de neutro. É uma opção ideológica que é feita por aqueles que defendem a importância das ciências e das humanidades contra aqueles que julgam que tudo isso seria dispensável.
Não há escola não programática, até porque toda ela está estruturada em programas que formam um currículo, o qual não é, de modo nenhum, neutro. Resulta de escolhas ideológicas muito claras. A argumentação de AB pode ser boa para fazer campanha política, mas é inútil para enfrentar o problema da limitação do que deve ser ensinável na escola, nomeadamente, na escola pública. Neste momento, o currículo depende dos humores das maiorias que ocupam o poder, que impõem a sua visão ideológica enquanto governam. Se se assumir que não é possível uma escola neutra, pode-se abrir caminho para uma forma de instituir o currículo nacional de modo menos problemático, através da negociação daquilo que deve fazer parte da instrução das novas gerações. Como poderia isso ser feito? Por exemplo, através de maiorias qualificadas, tal como acontece com as alterações da Constituição. Isso não evitaria a escola programática, mas fundá-la-ia num consenso alargado, o que evitaria muitos dos devaneios que caem sobre as escolas.
quinta-feira, 8 de julho de 2021
Nocturnos 64
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| Yale Joel, Night club dancer performing a bird cage scene. New York, 1958 |
terça-feira, 6 de julho de 2021
De mão estendida
Existem múltiplas razões para isso. A pouca formação dos portugueses, tantos dos trabalhadores como dos empresários, uma economia pouco adaptada à competição global ou a necessidade de uma carga fiscal forte para compensar a existência de salários muito baixos e de fraca tributação são razões efectivas para o atraso. Contudo, essas explicações acabam por ter um papel de ocultação do maior obstáculo, e este é de raiz cultural. Essa cultura combina traços muito diferentes, os quais formam uma rede que acaba por tolher a saída de Portugal dos últimos lugares da União Europeia. Salientem-se dois desses traços.
Uma parte substancial da população, educada para isso durante séculos, resignou-se a uma vida estreita e pobre. Fica grata se sobreviver, se não tiver de passar fome. A resignação significa falta de expectativas e de um horizonte largo em que os portugueses possam desenvolver as suas potencialidades e expandir as suas ambições. Por norma, os que não se resignam acabam por emigrar. Um segundo traço diz respeito à falta de rigor e de exigência – isto é, de brio – naquilo que se faz. O problema existe na sociedade e é infundido nas novas gerações através das políticas de educação pública. A ideia de ir mais longe, de superação de obstáculos, de rigor no trabalho não está presente em parte significativa dos portugueses. Enquanto aceitarmos a cultura da resignação e da pouca exigência, continuaremos de mão estendida na Europa e a sobreviver, resignadamente, como um dos seus países mais atrasados.
domingo, 4 de julho de 2021
A Garrafa Vazia 64
sexta-feira, 2 de julho de 2021
Estarolices, iliberalismo e refúgio da canalha
O iliberalismo na Europa. As decisões do governo húngaro – e o apoio dado por governantes polacos – sobre os direitos dos indivíduos pertencentes à comunidade LGBTI é um rude golpe no espírito liberal, marcado pela aceitação do direito de cada um a não ser discriminado em função da orientação sexual. As opções políticas dos governos da Hungria e da Polónia há muito que contrariam as regras europeias e são uma clara manifestação do espírito iliberal. O que está em jogo não é apenas os direitos LGBTI, mas a preservação de um espaço de liberdade onde cada um pode, desde que não ponha em causa direitos de terceiros, gerir a vida como bem entender.
Mais estarolices à portuguesa. As duas primeiras figuras do Estado – o Presidente da República e o Presidente da Assembleia da República – acharam por bem aliviar a tensão perante a pandemia. Marcelo Rebelo de Sousa lembrou-se de dizer que com ele não voltará a haver estado de emergência, como se a situação pandémica estivesse controlada e ele fosse o deus que determina o comportamento do vírus. Ferro Rodrigues, excitado por um empate, apelou aos portugueses para que fossem em massa para Sevilha ver Portugal (perder, sabemos agora), como se o vírus não atacasse os adeptos do futebol. Portugal é um país cansativo.
O refúgio da
canalha. O dr. Samuel Johnson é conhecido entre outras coisas pelo dito “o
patriotismo é o último refúgio do canalha”. Até à derrota com a Bélgica,
Portugal foi um refúgio para um patriotismo bacoco, alimentado por uma
comunicação social atoleimada e infantil. O patriotismo pode nem ser o último
refúgio do canalha, entendido este como pessoa desprezível, mas em Portugal é
mesmo o último refúgio da canalha, isto é, de uma população infantilizada e
fascinada pelos saltos e ressaltos de uma bola.
quarta-feira, 30 de junho de 2021
Simulacros e simulações (25)
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| Ilse Bing, Self Portrait with a Mirrors, 1931 |
segunda-feira, 28 de junho de 2021
Decepções
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| Romeo Mancini, Apocalisse, 1964 |
sábado, 26 de junho de 2021
Nocturnos 63
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| Walter Sanders, Hamburg Essay, 1951 |
quinta-feira, 24 de junho de 2021
A Garrafa Vazia 63
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| Markus Luepertz, Abrigo I. Ditirámbico, 1972 |
terça-feira, 22 de junho de 2021
A persistência da memória (3)
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| John Gutmann, Goodbye Berlin, 1933 |
domingo, 20 de junho de 2021
Descrições fenomenológicas 66. Paisagem industrial
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| Gerardo Rueda, Bardala, 1961 |
sexta-feira, 18 de junho de 2021
A iniciativa da Iniciativa Liberal
Este episódio veio mostrar mais uma vez a realidade portuguesa. Não existe, efectivamente, um espírito liberal. Quando emergem grupos de pessoas, ou partidos, que se dizem liberais isso significa, quase sempre, uma inimizade aos direitos dos trabalhadores, à existência e papel dos sindicatos, ao Estado social, a tudo o que proteja os mais desfavorecidos e as frágeis classe médias nacionais, mesmo quando se propõe a substituição do Estado na protecção das pessoas pela iniciativa privada, com a inevitável busca de lucro e a pouca preocupação com a protecção. A defesa de um feroz liberalismo económico raramente é acompanhada por ardor idêntico na do liberalismo político. Este parece ser uma coisa que tem de se suportar, enquanto não houver uma melhor solução, ou enquanto essa solução não tenha força para se impor. Falar em liberais portugueses não passa de um equívoco.
Por outro lado, o episódio do tiro-ao-alvo, e a subsequente desvalorização, inscrevem-se numa estratégia que os sectores mais radicais estão apostados há muito. Destruir os laços de convivência cívica entre pessoas que pensam de modo diferente, substituir adversários políticos por inimigos políticos. Trespassar com dardos, mesmo num jogo de arraial, as figuras dos adversários é desencadear um ritual mágico onde se mata simbolicamente as pessoas alvo. É apelar ao fundo inconsciente e tenebroso que existe em cada um de nós, é dar-lhe possibilidade de se tornar público. Um espírito liberal, enraizado nos valores da razão e do Iluminismo, detestaria este tipo manipulação das forças tenebrosas existentes nos seres humanos. Isso, porém, pressupunha que em Portugal existisse um espírito liberal. Não há.
domingo, 13 de junho de 2021
Nocturnos 62
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| Milton Greene, Marilyn Monroe “The Black sitting”, 1956 |
sexta-feira, 11 de junho de 2021
A Garrafa Vazia 62
quarta-feira, 9 de junho de 2021
Simulacros e simulações (24)
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| Ho Fan, Pattern, 1956 |
segunda-feira, 7 de junho de 2021
O progresso moral da humanidade (2)
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| John Gutmann, Artillery on Market Street, San Francisco, 1934 |
sábado, 5 de junho de 2021
Os ingleses, o PSD, o Brasil e a senhora Merkel
A zanga do PSD. Decorreu mais um congresso do Chega, um partido político dirigido por um candidato a pastor evangélico. Consta que o espectáculo não foi edificante. O mais notável foi a zanga do PSD. Durante os dias de congresso, o PSD e Rui Rio foram bombos da festa. Como quem não se sente não é filho de boa gente, o PSD sentiu-se, zangou-se e não foi ao encerramento do congresso. Ora, o PSD anda tão embevecido com a nova maravilha que ainda não notou que o grande inimigo do Chega é o próprio PSD. O partido de Ventura não tem qualquer capacidade para penetrar no eleitorado de esquerda. Como o CDS é uma sombra fantasmática do que foi, resta ao Chega tentar devorar o PSD, para liquidar a direita democrática. Costa ri seráfico, mas o riso de Costa é tão idiota quanto a normalização do Chega empreendida pelo PSD.
Talvez esteja a acordar. Refiro-me ao Brasil. Depois de terem eleito Bolsonaro, um político completamente impreparado e que vive num universo paralelo, dominado pelas mais extraordinárias fantasias, os brasileiros começam a perceber o preço da brincadeira. A gestão da pandemia é apenas o caso mais notório de um descalabro com consequências nacionais e internacionais, devido ao peso que o Brasil tem no mundo, bem como a floresta da Amazónia, uma das vítimas do bolsonarismo.
Um problema para a Europa. Em breve, Angela Merkel abandonará o cargo de Chanceler. De todos os políticos democráticos do mundo ocidental, ela é a mais consistente, a mais estruturada, mas também a mais humilde e sóbria. Ela é, por outro lado, um exemplo de líder que acredita nos valores democráticos. Nunca tergiversou sobre eles, nunca se aliou com o diabo – isto é, a extrema-direita – por uma questão de poder. Nunca abandonou os princípios, mesmo quando isso poderia ter consequências para o seu poder. Aqueles que acreditam na democracia liberal e no projecto europeu vão ter muitas saudades da senhora Merkel.
quinta-feira, 3 de junho de 2021
Baixos padrões
As palavras de Dominic Cummings sublinham outra questão. A governação deve estar a cargo de uma elite. Democrática, no seu acesso, mas uma elite. Quem governa deve pautar-se por elevados padrões, submeter-se a uma apertada disciplina e a uma grande exigência no cumprimento das suas tarefas de governação. Há ‘padrões que a população tem o direito de exigir do seu governo’. Isto parece ter sido esquecido tanto por governantes, como por governados. Generalizou-se a ideia de que a governação e os altos cargos do funcionalismo pertencem aos medíocres, desde que sejam hábeis manobradores dos eleitorados ou se acolitem sob o guarda-chuva de um manobrador eleito.
Uma leitura apressada poderá julgar que o problema terá a ver com o regime democrático. Haverá quem ache que um regime autoritário traria um mais alto padrão de elites governamentais. Na verdade, aquilo a que estamos a assistir é um problema que toca as democracias, mas não torna as soluções autoritárias melhores. O que se passa com a democracia e o crescimento dos baixões padrões de governação estará relacionado com o fenómeno da polarização política que se tem desenhado nas democracias ocidentais, devido ao crescimento do populismo de cariz autoritário. Os eleitores deixaram-se capturar por uma lógica tribal e avaliam as governações apenas pelo facto de serem ou não da sua tribo política. Tudo aos da sua tribo é perdoado, nenhum mérito, por maior que seja, é reconhecido a políticos provenientes da tribo inimiga. O resultado, para além da crescente tensão, é o da proliferação da mediocridade e os baixos padrões que os governantes têm a oferecer às suas populações. Nas situações de catástrofe, tudo isso se torna dolorosamente visível.



























