terça-feira, 24 de agosto de 2021

Nocturnos 66

Harry Callahan, Chicago, 1958

Diz-se a noite caiu, como se ela fosse um objecto arremessado do alto sobre a planície luminosa do dia. O melhor será dizer a noite envolveu lentamente o dia, até se cerrar sobre ele, fazendo desaparecer por dentro do seu abraço.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Os talibãs no carrocel

Francisco Díaz de León, Carrousel, 1930

No Público de hoje, António Guerreiro explora a natureza icónica das imagens dos talibans a ocupar o palácio presidencial, salientando aquela em que os guerrilheiros surgem armados e dispostos à volta da secretária de trabalho do Presidente em fuga, a sua natureza inquietante ou, para ser mais preciso, a sua inquietante estranheza. Todas as imagens que nos chegam do Afeganistão têm, contudo, um poder enorme de suscitar, para além dessa inquietante estranheza, um sentimento de má consciência. Muitas delas terão sido captadas com essa intenção, mas não seriam necessárias. Bastariam aquelas que nos chegam e são emanações espontâneas de consciências ingénuas.

Há, contudo, um conjunto de imagens, com não menos poder icónico e capacidade explicativa, a que não se tem dado o relevo que merecem. São filmagens de combatentes talibans em Cabul, num parque de diversões, andando em carrinhos de choque e em carroceis. Homens barbudos, militarmente competentes e vencedores, ameaçadores para tudo o que se lhe opõe e às suas crenças. No entanto, eles estão ali, no momento da vitória, como crianças e jovens adolescentes. Essas imagens convocam, de imediato, por oposição, um célebre texto de Kant, O que é o Iluminismo?

Vale a pena citar o primeiro parágrafo do texto de Kant: “Iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo.”

Aqueles guerrilheiros eufóricos no parque de diversões da capital afegã, homens de coragem física e capacidade militar, no fundo não passam de menores. A sua menoridade reside na falta de coragem para se servirem do seu próprio entendimento sem a condução de outrem, de um chefe supremo, de um grande líder, ou de qualquer outra figura que dê corpo à necessidade de um mestre e senhor.

A inquietante estranheza que sente António Guerreiro perante as imagens do palácio presidencial é bem mais nítida e ameaçadora, para nós, ocidentais, nas imagens de combatentes infantilizados num parque de diversões. Porquê? Em primeiro lugar, porque também em nós, ocidentais, existe uma nostalgia da infância e da adolescência, desses tempos paradisíacos de menoridade. Em segundo lugar, porque o peso da liberdade e da responsabilidade individuais é, muitas vezes, excessivo para aquilo que podemos suportar. Em terceiro lugar, porque entre nós o desejo de retorno a um tempo de menoridade se manifesta cada vez com mais força. Foi ele que elegeu Trump e Bolsonaro, é ele que faz crescer as intenções de voto em Ventura, é ele que alimenta o apoio aos partidos populistas na Europa, é ele que levou ao poder personalidades anti-iluministas, na Polónia ou na Hungria.

A inquietante estranheza nasce porque, no fundo de nós, existe uma inclinação para obedecer ao mestre e, como meninos obedientes e bem-comportados, poderemos ir à feira, ao carrocel e aos carros-de-choque. No íntimo dos ocidentais, na sua consciência dilacerada, defrontam-se a má-consciência pelo abandono a que os afegãos – principalmente as afegãs – tocadas pelo Iluminismo foram votados e essa inclinação para a menoridade e para a servidão voluntária.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

A Garrafa Vazia 67

Ernst Ludwig Kirchner, Prostituta che si offre, 1914

Sombras secretas
aproximam-se,
fendem a rua,
o passo incerto.

Putas ociosas
buscam na noite
o silêncio
do último cliente.

Agosto de 2021

domingo, 15 de agosto de 2021

O Vice-Almirante das vacinas

Enrico Baj, sem título, 1964
Se eu fosse de direita e tivesse nela oportunidade de aconselhamento, diria aos meus correligionários para aguardarem um pouco (a paciência é uma virtude), esperarem o fim da época da vacinação e contratarem, no defeso, o Vice-Almirante Gouveia e Melo para líder. Seria uma transferência estrondosa de alguém com uma acentuada inclinação para chegar à vitória em batalhas difíceis, pois isto de vacinar uns milhões de portugueses, sem barafunda, não é coisa fácil. Em vez de se encantarem com os esganiçamentos do rapaz do Chega, aquele que está em tirocínio para pastor evangélico, rodeado de pessoas que não gostaríamos que fossem amigas dos nossos filhos, deveriam procurar cativar o militar que dirige os batalhões de enfermeiros a partir do seu camuflado de combate.

O episódio de ontem (ver aqui) confirmou a minha intuição de há tempos. Toda a sua acção e as palavras que disse são uma lição de política. Perante os manifestantes ululantes, em vez de procurar outra porta passou pelo meio deles (em política, a virtude da coragem é muito apreciada pelos eleitores), depois afirmou que o perigo vem do negacionismo e do obscurantismo, uma afirmação clara de que se mantém na tradição Iluminista (o que não sendo particularmente apreciado por amplas camadas da nossa direita, ser-lhes-ia muito vantajoso, pois dar-lhes-ia um ar de modernidade e conquistaria votos à esquerda). Acrescentou que vivemos em democracia e que todos têm direito de emitir as suas opiniões (uma defesa da liberdade de expressão que poderia enriquecer a experiência dessa mesma direita, muitas vezes vacilante nesse item, e também com possibilidade de atrair votos de gente de esquerda) e concluiu com uma defesa da ordem, negando aos manifestantes o direito de empurrar pessoas e impedirem de elas se deslocarem (ora, a ordem é uma das coisas que direita diz gostar, embora isso tenha dias).

Estamos, assim, perante um conservador iluminista, amante da democracia. Ainda por cima tem tido a capacidade de dirigir a máquina da vacinação, levando com disciplina a bom porto a missão de que foi encarregado. Se a direita quiser voltar para o poder e dar um contributo sério para o país, o melhor é deixar-se de procurar pequenos salvadores histéricos ou rapazes e raparigas que gostam de brincar ao liberalismo, e escolher um homem, ainda por cima muito apreciado pelas senhoras de vários escalões etários, com um nome imensamente adequado a líder da direita. O ‘e’ de Gouveia e Melo faz toda a diferença. Liderada por ele, nem as artes de António Costa, nem as aberturas das outras esquerdas para o manterem no poder resistiriam. E, estou convencido, nessa altura o nosso Vice-Almirante trocaria o camuflado por fato civil e, caso necessário, haveria de andar de camisa com o colarinho desapertado. Para ele não há missões impossíveis. O que me vale é que não sou de direita e, portanto, não tenho conselhos a dar-lhe.

 

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Alterações climáticas e o pathos do apocalipse

Yoriyasu Masuda, Caos, 1994
Talvez, como sugeria, no Público, João Miguel Tavares (JMT), só as catástrofes tenham poder de levar os homens a pararem o comportamento que está na base das alterações climáticas. O autor refere que a questão é posta, por norma, em termos de vontade política, mas que o problema é mais complexo, pois enraizar-se-ia na psicologia humana. Os seres humanos – muitos deles – já perceberam que as alterações climáticas são, muitas delas, da responsabilidade humana, mas que ainda não sofreram o suficiente com elas para se sentirem constrangidos a mudarem os comportamentos.

Aristóteles talvez seja mais fecundo do que o psicologismo a que recorre JMT. Refere, o filósofo grego, que o hábito é uma segunda natureza. Seria esta natureza que explicaria os comportamentos que JMT atribui à psicologia humana. No entanto, o problema coloca-se a jusante do hábito, no processo da sua formação. Podemos formar hábitos viciosos ou hábitos virtuosos, o que conduzirá a um carácter vicioso ou virtuoso. O que tem isto a ver com as alterações climáticas e a resistência à mudança de comportamentos?

Durante muitos e muitos anos, o poder económico com a colaboração do poder político exerceram uma verdadeira educação dos hábitos das pessoas. Ter grande iniciativa, exceder-se e ter poder económico para consumir são pilares da educação que, de forma massiva, há mais de um século é difundida. Foram propagandeados como virtuosos. Mais, continuam a ser propagandeados como virtuosos, tanto pelos governos como pelos agentes económicos. 

Os hábitos da espécie humana não são coisas que caem dos céus aos trambolhões. São o resultado de uma educação. Antes de ser uma questão psicológica, as questões comportamentais perante as alterações climáticas são políticas e sociais, devido ao peso que as ideologias políticas, os interesses económicos e as concepções sociais difundidas amplamente possuem na educação e na formação de hábitos. Em última análise, trata-se mesmo de uma questão de vontade política, de uma vontade que escolheu - e escolhe - mostrar como virtuoso aquilo que é vicioso. 

Quando não se quer compreender que o egoísmo oculto na propaganda da iniciativa, o ir para lá da justa medida que se esconde na cultura do ultrapassar-se continuamente e a delapidação presente no consumo são valores negativos e os responsáveis pela situação a que se chegou, então, como acontece com o texto de JMT, resta o pathos do apelo ao apocalipse. Os seres humanos precisam de catástrofes para aprenderem. Uma apologia do dilúvio universal. Resta saber quem será o Noé da história.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Simulacros e simulações (27)

Elliott Erwitt, NY, 1975
Com o desenvolvimento da Aeronáutica, da Inteligência Artificial e da hibridação entre homem e máquina, essa consumação do mecanicismo da modernidade, chegará o momento em que não se saberá se a máquina simula a ave, ou se esta é um simulacro daquela.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Nocturnos 65

Nina Leen, Chinese Dancer, not dated
Não há luz que apague a noite que devora o coração. As asas soltam-se, mas a ave não tem o poder do voo. Os braços abrem-se, não há, porém, a quem abraçar. O riso afoga-se num mar de melancolia e o corpo despido reveste-se da mais densa treva. Só o silêncio progride por dentro da noite. 

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Volta a Portugal

Peixoto Alves (Sport Lisboa e Benfica)
Começa hoje a Volta a Portugal em bicicleta. É um assunto que há muito que não me interessa. No entanto, não deixo de ter uma certa admiração pelos ciclistas e pela própria competição. Na infância, adolescência e primeira juventude tinha um amplo interesse pelo desporto - não como praticante, diga-se - nas suas diversas modalidades. O ciclismo tinha o condão de prolongar a rivalidade futebolística durante as férias. As épicas lutas entre Benfica e Sporting transferiam-se dos estádios para as estradas, embora o Porto tivesse aí uma força que não tinha, naqueles dias, no futebol. Como em todo o resto, também no ciclismo Portugal era um país anacrónico. Há muito que por essa Europa fora as equipas de ciclismo eram marcas - coisas como a BIC ou a KAS - e não clubes. Em Portugal, quase não havia marcas (lembro-me, porém, da Ambar e da Coelima) e os clubes imperavam. Benfica, Sporting, Porto, etc. A minha primeira memória definida da Volta a Portugal é a da vitória de Peixoto Alves em 1965. Talvez por ser o triunfo de um corredor do Benfica. Por vezes, levado pelo meu pai, ia ver a Volta passar. Era uma excitação, embora o espectáculo fosse demasiado rápido para merecer a deslocação. Hoje não quero ir ver os ciclistas, mas guardo uma boa memória desses tempos de um ciclismo fruste, mas heróico, em que havia relatos épicos das etapas da Serra da Estrela.

domingo, 1 de agosto de 2021

Sinais preocupantes


Num artigo com o título “Para não ter que repetir de novo «Não passarão!»”, publicado em 2002, no Corriere della Sera, o escritor italiano Claudio Magris escrevia o seguinte: «Há, no clima político-cultural cada vez mais dominante, uma agressiva negação dos valores da democracia e da Resistência que talvez nos obrigue a convertermo-nos no que esperávamos ou acreditávamos que já não teríamos que vermo-nos obrigados a ser, quero dizer, intransigentes antifascistas.» Não se pense que Magris é um velho comunista ou um adepto da esquerda radical. Não é. Aquilo que ele denuncia na Itália do início deste século está a chegar agora a Portugal.

Assiste-se a uma ofensiva contra os valores democráticos, uma desvalorização da resistência à ditadura do Estado Novo, ao mesmo tempo que se faz apologia dos tempos de Salazar e do colonialismo português. O problema da resistência aos regimes caídos em 25 de Abril (também o regime fascista italiano caiu num 25 de Abril) tem aspectos diferenciados em Portugal e Itália. Em Itália, a resistência ao fascismo era feita por organizações de esquerda e de direita. Tanto a democracia-cristã como os comunistas eram antifascistas. A legitimidade de uns e outros no novo regime era idêntica. Isso não se passou em Portugal, onde a direita esteve, com honrosas excepções, sempre alinhada com a ditadura.  A direita democrática portuguesa foi uma criação pós-25 de Abril. A ausência de uma memória democrática à direita é um campo propício para a desvalorização da resistência à ditadura.

Esta ausência de memória e a desvalorização da resistência à ditadura começam a ter impacto na defesa da própria democracia. A democracia portuguesa é um regime plenamente integrado nas democracias ocidentais. Funciona segundo as regras do Estado de direito e as suas imperfeições resultam de ser um regime feito por seres humanos, não sendo muito diferentes das imperfeições das outras democracias ocidentais. É esta democracia – o regime mais livre alguma vez existente em Portugal – que a direita radical pretende subverter, tentando destruir a representatividade, o carácter liberal do regime e, como acontece em alguns países europeus, o próprio Estado de direito. O perigo para Portugal é intensificado pela ausência de uma memória de resistência à ditadura dentro da direita democrática, que lhe permitisse opor-se aos avanços e cantos de sereia da nova direita radical. Os sinais existentes são preocupantes, parecendo anunciar a necessidade de se voltar a ser, adoptando as palavras de Claudio Magris, um intransigente antifascista, o que significa ser um intransigente defensor da democracia liberal. 

quinta-feira, 29 de julho de 2021

A Garrafa Vazia 66

Salvador Dali,  Esa muerte fuera de la cabeza-Paul Eluard, 1933
Disputam o cadáver caído
para partilha
do cheiro ácido da morte.

Disputam a carne podre
para colírio
do veneno que os anima.

Disputam a memória ferida
para nadar
na água do ressentimento.

Julho de 2021

segunda-feira, 26 de julho de 2021

O progresso moral da humanidade (3)

Margaret Bourke-White, Shopping centre of Cologne after bombardment, 1945

Olha-se para a fotografia da cidade de Colónia após bombardeamento aliado e fica-se perplexo. Não pela visão do resultado, tão pouco pela eleição de uma estratégia militar que se consumou naquilo que se vê e no que não se vê. A perplexidade nasce do facto de a humanidade parece não ter aprendido nada. Mal a memória dos que viveram o desastre começa a desaparecer, logo as forças infernais - é esse o seu nome - que o geraram e o alimentaram se infiltram nos povos e, sem grande resistência, trabalham-nos, ansiosas para que mais uma vez hecatombes e holocaustos tenham lugar. Thanatos nunca desiste.

sábado, 24 de julho de 2021

Ensaio sobre a luz (91)

Andreas Feininger, Silhouette of the Statue of Liberty lit only by her torch, 1943
A noite escura de onde brota a luz, o denso silêncio de onde nasce a palavra, a pedra dura de onde o espírito espreita, a estrita necessidade de onde se ascende à liberdade, o nada de onde provém tudo o que é.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Simulacros e simulações (26)

Gjon Mili, Stroboscopic image of the hands of Russian conductor, Efraín Kurtz, 1945
A mão simula multiplicar-se para que cada músico receba a orientação que lhe cabe, saiba com precisão o singular pensamento que o maestro lhe destina e, desse modo, envolta na pluralidade dos pensamentos e dos gestos, a orquestra não se perca no caminho em direcção ao sentimento do público.

domingo, 18 de julho de 2021

Justiça, Educação, Pandemia e Claudio Magris


Justiça. O sistema judicial começou, há tempos, a incomodar pessoas que, por um motivo ou outro, tinham poder no país. Do ponto de vista da defesa do regime democrático, as coisas são sempre complexas. Se não há processos, então a democracia é conivente. Se há processos, então o regime está corrupto. A corrupção não é um problema de regime, mas da natureza humana, embora a democracia seja o regime mais eficaz no combate a esse tipo de comportamentos. As ditaduras fingem-se impolutas, enquanto escondem, através da censura e da repressão, o flagelo, o qual é, por norma, uma arma utilizada pelos ditadores, corrompendo as elites, para consolidarem o seu poder.

Educação. Desde que retornou ao governo, o Partido Socialista está, sem que faça alarde do caso, a fazer uma autêntica revolução educativa. Age sorrateiramente, publica os decretos e despachos fundamentais quando o ano lectivo está para terminar. Agora foi uma reforma compulsiva dos programas do ensino básico e secundário, que ficaram reduzidos às Aprendizagens Essenciais (que eram o currículo mínimo obrigatório) e a um documento estapafúrdio com o título de Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, uma colecção de banalidades apresentadas como salvação educativa da pátria. Quando o PS deixar o governo, o ensino público estará reduzido à pura nulidade. Com o assentimento da outra esquerda e a conivência da direita.

Pandemia. Não apenas em Portugal, mas também por cá, governados e governantes agem como se o problema estivesse resolvido. Enquanto isso, as novas variantes continuam a emergir, sempre mais contagiosas e letais, os internamentos crescem, as unidades de cuidados intensivos vão ficando ocupadas e as mortes, ainda que a um ritmo bem mais baixo, não param de suceder. Está tudo cansado da disciplina que o combate à pandemia obriga. Ela exige esforço, sacrifício, adiamento de prazeres, sentido de comunidade, tudo virtudes que não geram, na maioria das pessoas, mais que um esgar de desprezo.

Claudio Magris. Uma sugestão de leitura para férias. Estou a ler o livro, publicado em Portugal pela Quetzal, A História Não Acabou, de Claudio Magris. É composto, na sua maioria, por artigos que o escritor italiano publicou no Corriere della Sera, nos primeiros anos deste novo milénio. São muito bem escritos, têm uma profundidade que não se encontra em Portugal e tocam em pontos essenciais da nossa vida comum. Fá-lo sempre com uma justeza e um equilíbrio assinaláveis, sabendo destrinçar o essencial do acidental. Lê-se com facilidade e com prazer. Apesar de situado no tempo, não está ultrapassado.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

A Garrafa Vazia 65

André Kertész, Old Gentleman, Paris, 1926
Troco as sílabas e das vogais
faço consoantes.

Troco as horas e na aurora
invento um pôr-do-sol.

Troco a roupa e ao dia
bebo-lhe a noite.

Troco a verdade e de mim
exibo o que não sou.

Julho de 2021
 

segunda-feira, 12 de julho de 2021

A persistência da memória (4)

August Sander, Circus Artists, 1930

Há a memória do mundo e há a memória do indivíduo. Não sei que memórias o mundo reteve do circo, das suas actividades e trupes, pois a minha memória sempre se sobrepôs àquela que poderia descobrir nos outros. O circo sempre desencadeou em mim uma profunda tristeza e um estado de comiseração inexplicável. É possível que também aí as pessoas sejam felizes, tal como todas as outras noutros lugares, mas nunca as consegui imaginar assim. A única memória que tenho do circo é essa tristeza que gera em mim uma compaixão que ninguém solicitou.

sábado, 10 de julho de 2021

A ilusão da escola neutra

Walter Sanders, Crinolines Wilmington High School, not dated

António Barreto (AB), em artigo no Público (ver aqui), protesta contra aqueles que não querem uma escola neutra – ideologicamente neutra – e que defendem uma escola programática, embora os programas existentes para a escola sejam tantos quanto as ideologias existentes na sociedade. É um facto que existe uma contínua tentativa de colonizar a escola com concepções sobre a moral e a política. Porque é que isto acontece? Há uma explicação óbvia: na escola estão as novas gerações, é fácil contactá-las e educá-las naquilo que aqueles que possuem o poder curricular julgam ser virtuoso moral e politicamente. Há, no entanto, uma outra explicação.

AB escreve que é uma das mais antigas e perenes ilusões a ideia de que a escola tem o poder de formar as pessoas e transformar o mundo. Pelo que seria indispensável formar os jovens de hoje para serem os homens de amanhã. É verdade, mas também é verdade que a escola neutra que AB parece defender não é menos ilusória. A escola não é nem pode ser uma instituição neutra pelo simples facto de a sua existência implicar já uma quebra da neutralidade. Instituir a escola é tomar partido perante a questão de saber se as pessoas devem ser instruídas ou não.  Desde a raiz que a escola não é neutra. Mais, mesmo com um currículo que não contivesse os devaneios ideológicos mais conflituantes, a escola não seria neutra. Dar importância às humanidades ou ensinar Matemática, Física, Química e Ciências da Natureza nada tem de neutro. É uma opção ideológica que é feita por aqueles que defendem a importância das ciências e das humanidades contra aqueles que julgam que tudo isso seria dispensável.

Não há escola não programática, até porque toda ela está estruturada em programas que formam um currículo, o qual não é, de modo nenhum, neutro. Resulta de escolhas ideológicas muito claras. A argumentação de AB pode ser boa para fazer campanha política, mas é inútil para enfrentar o problema da limitação do que deve ser ensinável na escola, nomeadamente, na escola pública. Neste momento, o currículo depende dos humores das maiorias que ocupam o poder, que impõem a sua visão ideológica enquanto governam. Se se assumir que não é possível uma escola neutra, pode-se abrir caminho para uma forma de instituir o currículo nacional de modo menos problemático, através da negociação daquilo que deve fazer parte da instrução das novas gerações. Como poderia isso ser feito? Por exemplo, através de maiorias qualificadas, tal como acontece com as alterações da Constituição. Isso não evitaria a escola programática, mas fundá-la-ia num consenso alargado, o que evitaria muitos dos devaneios que caem sobre as escolas.

 

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Nocturnos 64

Yale Joel, Night club dancer performing a bird cage scene. New York, 1958
Estranha a noite que transforma uma mulher num pássaro para ser exibido numa gaiola. Mais estranho e mais negro, porém, é o espírito de quem para se sentir vivo necessita de comprar o joio de tal metamorfose.

terça-feira, 6 de julho de 2021

De mão estendida


A comissária europeia Elisa Ferreira, em entrevista à Antena 1, afirmou que “neste momento é penoso ver que Portugal, com estes anos todos de apoio, ainda está entre os países atrasados”. Apesar da imprensa ter dado algum destaque às declarações da antiga ministra socialista, a mensagem tem os ingredientes suficientes para que muita gente a queira fazer esquecer. O que ela disse, traduzido numa linguagem mais ao gosto popular, é que chega de se viver à custa dos outros.  Na verdade, os fundos de coesão que Portugal tem recebido não nasceram de geração espontânea. São o fruto do trabalho de muitos europeus, dos seus impostos e do seu talento. Se se comparar o país antes e depois da adesão à União Europeia, ele é completamente diferente. Os fundos comunitários permitiram que Portugal não seja hoje uma espécie de Albânia dos tempos do socialismo real. A questão, porém, é que continuamos pouco competitivos e habituámo-nos a viver dos quadros comunitários.

Existem múltiplas razões para isso. A pouca formação dos portugueses, tantos dos trabalhadores como dos empresários, uma economia pouco adaptada à competição global ou a necessidade de uma carga fiscal forte para compensar a existência de salários muito baixos e de fraca tributação são razões efectivas para o atraso. Contudo, essas explicações acabam por ter um papel de ocultação do maior obstáculo, e este é de raiz cultural. Essa cultura combina traços muito diferentes, os quais formam uma rede que acaba por tolher a saída de Portugal dos últimos lugares da União Europeia. Salientem-se dois desses traços.

Uma parte substancial da população, educada para isso durante séculos, resignou-se a uma vida estreita e pobre. Fica grata se sobreviver, se não tiver de passar fome. A resignação significa falta de expectativas e de um horizonte largo em que os portugueses possam desenvolver as suas potencialidades e expandir as suas ambições. Por norma, os que não se resignam acabam por emigrar. Um segundo traço diz respeito à falta de rigor e de exigência – isto é, de brio – naquilo que se faz. O problema existe na sociedade e é infundido nas novas gerações através das políticas de educação pública. A ideia de ir mais longe, de superação de obstáculos, de rigor no trabalho não está presente em parte significativa dos portugueses. Enquanto aceitarmos a cultura da resignação e da pouca exigência, continuaremos de mão estendida na Europa e a sobreviver, resignadamente, como um dos seus países mais atrasados.

domingo, 4 de julho de 2021

A Garrafa Vazia 64

Paolo Ricci, Autoritratto, 1929
O fel acumulado da virtude
abre-se, é um nó
corredio à volta do pescoço.

Se me mexo, o corpo
balança
e o ar falta-me na garganta.

Se me detenho, a alma
ofusca-se
e a razão perde o norte.

Ó virtude viciosa, em ti
dissipo a velha
arte da respiração.

Julho de 2021

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Estarolices, iliberalismo e refúgio da canalha


A mãe severa e o filho estarola. A senhora Merkel não gostou do modo leviano como Portugal abriu o país às gentes vindas do seu mais antigo aliado. Não achou boa ideia que os ingleses adeptos da bola andassem por aí e também não deve ter ficado bem impressionada com a abertura aos turistas da mesma nacionalidade. Educada no rigor alemão, viu um perigo para a Europa a abertura dos braços a quem vem de Inglaterra, lugar onde as novas variantes do coronavírus proliferam. Admoestou em público Portugal. O governo fez-se desentendido. A Alemanha fechou-nos as portas, uma medida pedagógica para ajudar à inteligência governamental. Parece que António Costa acabou por perceber. Irritante, porém, é Portugal colocar-se nesta posição. Deixar que uma mãe severa, mas preocupada, ponha em ordem um filho estarola.

O iliberalismo na Europa. As decisões do governo húngaro – e o apoio dado por governantes polacos – sobre os direitos dos indivíduos pertencentes à comunidade LGBTI é um rude golpe no espírito liberal, marcado pela aceitação do direito de cada um a não ser discriminado em função da orientação sexual. As opções políticas dos governos da Hungria e da Polónia há muito que contrariam as regras europeias e são uma clara manifestação do espírito iliberal. O que está em jogo não é apenas os direitos LGBTI, mas a preservação de um espaço de liberdade onde cada um pode, desde que não ponha em causa direitos de terceiros, gerir a vida como bem entender.

Mais estarolices à portuguesa. As duas primeiras figuras do Estado – o Presidente da República e o Presidente da Assembleia da República – acharam por bem aliviar a tensão perante a pandemia. Marcelo Rebelo de Sousa lembrou-se de dizer que com ele não voltará a haver estado de emergência, como se a situação pandémica estivesse controlada e ele fosse o deus que determina o comportamento do vírus. Ferro Rodrigues, excitado por um empate, apelou aos portugueses para que fossem em massa para Sevilha ver Portugal (perder, sabemos agora), como se o vírus não atacasse os adeptos do futebol. Portugal é um país cansativo. 

O refúgio da canalha. O dr. Samuel Johnson é conhecido entre outras coisas pelo dito “o patriotismo é o último refúgio do canalha”. Até à derrota com a Bélgica, Portugal foi um refúgio para um patriotismo bacoco, alimentado por uma comunicação social atoleimada e infantil. O patriotismo pode nem ser o último refúgio do canalha, entendido este como pessoa desprezível, mas em Portugal é mesmo o último refúgio da canalha, isto é, de uma população infantilizada e fascinada pelos saltos e ressaltos de uma bola.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Simulacros e simulações (25)

Ilse Bing, Self Portrait with a Mirrors, 1931

Duplicara-se para poder percorrer a distância que ia de si a si. Quando chegava à sua simulação, sentia uma súbita saudade de si. Retornava. Chegada, a melancolia invadia-a por se ter apartado do seu simulacro. Quando se cansou das viagens rasgou a imagem que de si fizera. Mal os pedaços caíram no chão, sentiu-se perdida, como se a alma a tivesse abandonado.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Decepções

Romeo Mancini, Apocalisse, 1964

Basta olhar para evolução dos números da pandemia para compreender como os portugueses – uma parte deles, claro, mas uma parte significativa – gostam de ser governados e, infelizmente, parecem precisar. Sob a mão-de-ferro dos confinamentos, tornam-se o povo mais disciplinado do mundo. Devolvida a liberdade, aliviada a vigilância, a indisciplina vai crescendo até atingir patamares perigosos. Não sei o que é mais decepcionante, se a incapacidade de muitos portugueses de sair dessa menoridade de que são culpados, para citar Kant, se a capacidade do governo para crer na fantasia que lidera um povo que se orienta pelos princípio racionais herdados do Iluminismo. Valha-nos Santa Angela Merkel.
 

sábado, 26 de junho de 2021

Nocturnos 63

Walter Sanders, Hamburg Essay, 1951

Há noites onde se adensa o mistério do mundo. Outras há em que tudo se torna transparente, mesmo aquilo que se mascara com o véu do enigma, mesmo o que se sussurra como segredo, seja o motivo que leva os homens correr para um destino desconhecido, seja o que leva uma mulher a atravessar a rua, quando não há, no outro lado, que a espere.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

A Garrafa Vazia 63

Markus Luepertz, Abrigo I. Ditirámbico, 1972
Com o alicate do tempo,
aperto os dedos
até o sangue romper a pele.

Vejo-o cair, uma mancha
no chão,
uma sombra na crosta do dia.

Imploro ao tempo que pare,
a dor grita
nesse sangue que me foge.

E o tempo passa veloz, rindo-se
do pobre pescoço
preso ao furor do garrote.

Junho de 2021

terça-feira, 22 de junho de 2021

A persistência da memória (3)

John Gutmann, Goodbye Berlin, 1933
Talvez o ano de 1933 tenha sido um mau ano para ficar em Berlim, mesmo para pássaros indiferentes aos negócios humanos. Tudo se terá tornado mais escuro, mais tenso, mais insensato. O ar era, então, irrespirável, mesmo se a multidão se tomava de alegria. É possível que as aves ao pressentir não a alegria dos homens, mas a da multidão, sintam uma angústia apossar-se do seu pequeno coração e fujam para longe, quanto mais longe melhor.

domingo, 20 de junho de 2021

Descrições fenomenológicas 66. Paisagem industrial

Gerardo Rueda, Bardala, 1961
O céu tinha desaparecido tragado por nuvens cada vez mais espessas de fumo. Das chaminés, pintadas de branco e vermelho, saíam baforadas contínuas onde o cinza suave e o chumbo pesado se misturavam para deixar um rasto de tristeza no horizonte. Dentro das grandes fábricas haveria, por certo, pessoas, muitas pessoas, mas fora delas não se via ninguém, como se todos tivessem sido capturados por um inimigo feroz ou alguma feiticeira irascível as houvesse enfeitiçado para as fazer desaparecer. Ao redor dos grandes edifícios o deserto progredia. Há muito que as plantas se tinham recusado a crescer ali. Também os animais, temendo o que se escondia sob a capa volátil do odor, teriam emigrado. Quem chegasse ao nosso planeta naquele instante e nada soubesse sobre ele, não imaginaria, ao ver o fluir do fumo, que ali se temperava o ferro para se transformar em aço. Olhasse-se para que lado se olhasse, a sensação era sempre a mesma. Uma viva opressão nascida das inúmeras fábricas, que nunca se cansavam de expelir fumarolas, pequenos vulcões ameaçadores. Por vezes, ouviam-se sirenes. Outras, passavam grandes camiões carregados. O que nunca parava, porém, era a azáfama no interior dos grandes edifícios. Os olhos procuravam uma ou outra mancha de verde, mas nunca a encontravam e perdiam-se num mundo de cinzas e desolação.
 

sexta-feira, 18 de junho de 2021

A iniciativa da Iniciativa Liberal


Não vale a pena falar do arraial que a IL decidiu promover em Lisboa. Fique-se pelo pormenor da barraca do tiro-ao-alvo aos adversários políticos. O partido, perante a repulsa de muita gente, argumentou que era uma brincadeira e como era uma coisa liberal, ninguém devia levar a mal. Qual é a mensagem da brincadeira? Simbolicamente, devemos matar os adversários. Faziam parte do alvo políticos de esquerda e, já na parte exterior, também Rui Rio e, salvo erro, Carlos Carreiras, ambos do PSD, talvez para disfarçar. Caso curioso é André Ventura ter sido poupado à morte simbólica. Também a IL tem uma nostalgia, mal disfarçada, pelo tempo em que a esquerda em vez de estar no parlamento e no governo, estava nas prisões políticas, na clandestinidade, no exílio ou debaixo de terra.

Este episódio veio mostrar mais uma vez a realidade portuguesa. Não existe, efectivamente, um espírito liberal. Quando emergem grupos de pessoas, ou partidos, que se dizem liberais isso significa, quase sempre, uma inimizade aos direitos dos trabalhadores, à existência e papel dos sindicatos, ao Estado social, a tudo o que proteja os mais desfavorecidos e as frágeis classe médias nacionais, mesmo quando se propõe a substituição do Estado na protecção das pessoas pela iniciativa privada, com a inevitável busca de lucro e a pouca preocupação com a protecção. A defesa de um feroz liberalismo económico raramente é acompanhada por ardor idêntico na do liberalismo político. Este parece ser uma coisa que tem de se suportar, enquanto não houver uma melhor solução, ou enquanto essa solução não tenha força para se impor. Falar em liberais portugueses não passa de um equívoco.

Por outro lado, o episódio do tiro-ao-alvo, e a subsequente desvalorização, inscrevem-se numa estratégia que os sectores mais radicais estão apostados há muito. Destruir os laços de convivência cívica entre pessoas que pensam de modo diferente, substituir adversários políticos por inimigos políticos. Trespassar com dardos, mesmo num jogo de arraial, as figuras dos adversários é desencadear um ritual mágico onde se mata simbolicamente as pessoas alvo. É apelar ao fundo inconsciente e tenebroso que existe em cada um de nós, é dar-lhe possibilidade de se tornar público. Um espírito liberal, enraizado nos valores da razão e do Iluminismo, detestaria este tipo manipulação das forças tenebrosas existentes nos seres humanos. Isso, porém, pressupunha que em Portugal existisse um espírito liberal. Não há.

domingo, 13 de junho de 2021

Nocturnos 62

Milton Greene, Marilyn Monroe “The Black sitting”, 1956
Como se levada por uma ânsia de luz, ela tenta libertar-se do peso da escuridão. Dá um passo, mais outro e ainda um terceiro. Logo a tentação lhe inclina o olhar que, habituado à noite, se volta para trás e arrasta com ele todo o corpo para o lugar de onde acabara de sair.

sexta-feira, 11 de junho de 2021

A Garrafa Vazia 62

Willem de Kooning, 24 dibujos con los ojos cerrados, 1966
Bebo o vinho azedo
da paixão
de cada hora.

O corpo estremece
ao sabor
do vento da irrisão.

Nem pródigo sou
como filho
bastardo de mim.

Ergo do chão o copo
e deixo cair
a garrafa vazia.

Junho de 2021

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Simulacros e simulações (24)

Ho Fan, Pattern, 1956

Um homem caminha preso à existência. Leva a vida às costas. Ela vai adormecida no fundo da cesta, sem dar por ele, aquele que lhe dispensa, em cada dia, todas as suas horas. Na parede, o homem nem repara, desenha-se, numa simulação geométrica, um mapa de luzes e trevas. É essa carta que guia, mesmo na sua ignorância, a existência onde o homem que caminha se prende com a vida às costas.

segunda-feira, 7 de junho de 2021

O progresso moral da humanidade (2)

John Gutmann, Artillery on Market Street, San Francisco, 1934
Durante anos, a espécie pode sentir-se feliz por se eximir aos trabalhos da guerra. O sangue enjoou-a, a dor tolheu-lhe o entusiasmo. Com o passar dos anos, a memória do horror dissolve-se, o enjoo passa e volta o velho entusiasmo de quem se extasia perante as marchas militares e o canto dos feitos de guerra. Exige então o sangue que em tempos a enjoara e o desejo de aniquilar o outro é o único que lhe parece ter sentido. A memória do mal é sempre um escudo precário para o desvario dos instintos.

sábado, 5 de junho de 2021

Os ingleses, o PSD, o Brasil e a senhora Merkel


A invasão inglesa. Depois da impotência no controlo nos festejos dos adeptos sportinguistas, tivemos agora direito à invasão inglesa, motivada também pelo futebol. Adeptos do Chelsea e do Manchester City acharam por bem eximir-se ao cumprimento das regras a que os cafres estão sujeitos. As autoridades, por seu turno, decidiram apostar na falta de comparência. Não me refiro à polícia, claro. Refiro-me aos responsáveis políticos. Talvez tenham tido medo de pôr em causa a mais velha aliança do mundo ou então recearam um novo ultimato inglês. Se foi um destes casos, só podemos louvar o talento político do Ministro da Administração Interna, caso tenhamos um.

A zanga do PSD. Decorreu mais um congresso do Chega, um partido político dirigido por um candidato a pastor evangélico. Consta que o espectáculo não foi edificante. O mais notável foi a zanga do PSD. Durante os dias de congresso, o PSD e Rui Rio foram bombos da festa. Como quem não se sente não é filho de boa gente, o PSD sentiu-se, zangou-se e não foi ao encerramento do congresso. Ora, o PSD anda tão embevecido com a nova maravilha que ainda não notou que o grande inimigo do Chega é o próprio PSD. O partido de Ventura não tem qualquer capacidade para penetrar no eleitorado de esquerda. Como o CDS é uma sombra fantasmática do que foi, resta ao Chega tentar devorar o PSD, para liquidar a direita democrática. Costa ri seráfico, mas o riso de Costa é tão idiota quanto a normalização do Chega empreendida pelo PSD.

Talvez esteja a acordar. Refiro-me ao Brasil. Depois de terem eleito Bolsonaro, um político completamente impreparado e que vive num universo paralelo, dominado pelas mais extraordinárias fantasias, os brasileiros começam a perceber o preço da brincadeira. A gestão da pandemia é apenas o caso mais notório de um descalabro com consequências nacionais e internacionais, devido ao peso que o Brasil tem no mundo, bem como a floresta da Amazónia, uma das vítimas do bolsonarismo.

Um problema para a Europa. Em breve, Angela Merkel abandonará o cargo de Chanceler. De todos os políticos democráticos do mundo ocidental, ela é a mais consistente, a mais estruturada, mas também a mais humilde e sóbria. Ela é, por outro lado, um exemplo de líder que acredita nos valores democráticos. Nunca tergiversou sobre eles, nunca se aliou com o diabo – isto é, a extrema-direita – por uma questão de poder. Nunca abandonou os princípios, mesmo quando isso poderia ter consequências para o seu poder. Aqueles que acreditam na democracia liberal e no projecto europeu vão ter muitas saudades da senhora Merkel.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Baixos padrões


Segundo o Público, Dominic Cummings, antigo conselheiro de Boris Johnson, terá afirmado, referindo-se à pandemia de COVID-19: “A verdade é que os ministros de topo, os funcionários de topo e os conselheiros de topo, como eu, ficaram desastrosamente aquém dos padrões que a população tem o direito de exigir ao seu Governo durante uma crise desta natureza. Quando a população mais precisou de nós, o Governo falhou”. A declaração de Cummings alerta para um facto curioso que está a ocorrer nas democracias ocidentais. Ao mesmo tempo que cresce o escrutínio dos governos, devido às redes sociais, cresce uma espécie de complacência com as más decisões, os erros ou a cegueira dos governos. Os governos aprenderam a lidar com o ruído dessa opinião pública e esta, apesar da sua virulência palavrosa, foi apanhada numa rede que lhe tolhe o espírito crítico.

As palavras de Dominic Cummings sublinham outra questão. A governação deve estar a cargo de uma elite. Democrática, no seu acesso, mas uma elite. Quem governa deve pautar-se por elevados padrões, submeter-se a uma apertada disciplina e a uma grande exigência no cumprimento das suas tarefas de governação. Há ‘padrões que a população tem o direito de exigir do seu governo’. Isto parece ter sido esquecido tanto por governantes, como por governados. Generalizou-se a ideia de que a governação e os altos cargos do funcionalismo pertencem aos medíocres, desde que sejam hábeis manobradores dos eleitorados ou se acolitem sob o guarda-chuva de um manobrador eleito.

Uma leitura apressada poderá julgar que o problema terá a ver com o regime democrático. Haverá quem ache que um regime autoritário traria um mais alto padrão de elites governamentais. Na verdade, aquilo a que estamos a assistir é um problema que toca as democracias, mas não torna as soluções autoritárias melhores. O que se passa com a democracia e o crescimento dos baixões padrões de governação estará relacionado com o fenómeno da polarização política que se tem desenhado nas democracias ocidentais, devido ao crescimento do populismo de cariz autoritário. Os eleitores deixaram-se capturar por uma lógica tribal e avaliam as governações apenas pelo facto de serem ou não da sua tribo política. Tudo aos da sua tribo é perdoado, nenhum mérito, por maior que seja, é reconhecido a políticos provenientes da tribo inimiga. O resultado, para além da crescente tensão, é o da proliferação da mediocridade e os baixos padrões que os governantes têm a oferecer às suas populações. Nas situações de catástrofe, tudo isso se torna dolorosamente visível.

terça-feira, 1 de junho de 2021

A Garrafa Vazia 61

Caspar David Friedrich, A Mountain Peak with Drifting Clouds, 1835
Canto, a voz rouca,
o ritmo pausado,
não a desdita
mas o fausto,
o ressoar da derrota.

Canto pelas ruas,
cabeça caída,
o andar manco
de quem vive
na escarpa da desordem.

Maio de 2021