sexta-feira, 8 de maio de 2020

Frivolidades e extrema-direita

Franz Josef Kline, Red Clown, 1947

No episódio Ventura – Quaresma há qualquer coisa que deve preocupar todos aqueles que querem viver numa comunidade decente, onde se respeitem os princípios do Estado de direito, os da vida civilizada e os direitos humanos.  Esta preocupação é polifacetada, pois o que começa a desenrolar-se aos nossos olhos incide em diversos aspectos, não se resumindo apenas à performance política do deputado do Chega.

Em primeiro lugar, o conjunto de temas que Ventura traz para a esfera pública era até há pouco tempo inimaginável que saíssem da conversa de café ou de arenga numa viagem de táxi. Tanto a direita como a esquerda têm tido linhas vermelhas que muito raramente ultrapassam, as quais contribuem para uma vida política pacífica e, felizmente, pouco polarizada. A aparente inconsistência de Ventura, o facto de haver no seu percurso grandes incoerências, conduz a uma certa sobranceria das forças democráticas, que parece não terem aprendido nada com o Brexit, a eleição de Trump e a de Bolsonaro.

Em segundo lugar, Ventura explora a avidez da comunicação social, das televisões antes do mais, por aquilo que provoca audiências. Até uma conhecida estação de rádio julgou ser moralmente lícito colocar em votação o apoio à proposta de Ventura sobre o confinamento de ciganos. Poucos são os órgãos de comunicação social que estão verdadeiramente empenhados na defesa do regime democrático. Aproveitam as liberdades para, por qualquer meio, mesmo os mais abjectos moralmente, vender um produto. Propostas políticas sérias são coisas chatas, de que ninguém quer saber. Atoardas perigosas geram audiências, consolidam as empresas, geram dividendos. Tudo na comunicação social está estruturado para favorecer o tipo de intervenção fácil e escandalosa de André Ventura. Este não se faz rogado em produzir escândalos.

Em terceiro lugar, a existência de uma plateia acolhedora das diatribes do deputado da extrema-direita. Esta plateia é constituída por pessoas que, por norma, têm fraca consciência política, compromisso afectivo reduzido com a democracia, ressentimento perante as elites políticas, fácil acolhimento dos temas que são explorados pelo deputado Ventura. Esta plateia reforça-se como grupo tanto pela influência disruptiva da  comunicação social como pelas redes sociais, onde se organiza enquanto comunidade e reforça laços ideológicos. Aí o apolitismo transforma-se em campo fértil de opções políticas antidemocráticas e irracionais.  

Em quarto-lugar, o que mais me preocupa, a frivolidade com que os partidos e políticos democráticos estão, da direita à esquerda, a tratar o assunto. Alguns exemplos. O CDS parece deixar-se atrair pelo Chega. Há tempos não afastados, Rui Rio não descortinava no discurso de Ventura nada que lembrasse a extrema-direita. As pessoas da esquerda ficam excitadíssimas com proclamações, petições, slogans, palavras de ordem e coisas do género. O cúmulo da frivolidade é a trivela de António Costa. As pessoas batem palmas, mas há um problema que subsiste e esse não é André Ventura.

Trata-se da existência da plateia referida anteriormente, que não se sente representada politicamente, que não está racional nem afectivamente comprometida com a democracia, que vê as coisas como Ventura diz que são, apesar deste saber que não são assim, e cuja dimensão não se conhece muito bem, mas que se intui não ser pequena e poder crescer, como cresceu a de Bolsonaro ou a de Trump. Este não é um assunto para slogans, palavras de ordem, ditos jocosos e outras frioleiras do género. Trata-se da integração de um conjunto significativo de portugueses na ordem democrática, de os partidos políticos democráticos, à direita e à esquerda, encontrarem caminhos para os fazer sentir representados. Caso a frivolidade da abordagem subsista, ainda vamos ter uma triste surpresa.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Nocturnos 11

Ana Peters, Negro Marfil, 1993
Um punhado de pedras negras desaba sobre o dia, traz com ele o crepúsculo e logo a noite. Nela, enquanto o mundo escurece, os corpos perdem peso e levitam. Sonâmbulos, erram pelo próprio sonho, de treva em treva, até que a aurora com o seu clarim de luz anuncia a madrugada.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Saber e poder


Um velho lugar-comum diz que saber é poder. O conjunto de facécias, a propósito da pandemia do COVID-9, vindas de Donald Trump e de Jair Bolsonaro, torna evidente uma outra coisa, poder é saber. O saber científico torna-se irrelevante, quando não motivo de chacota, e a enunciação feita a partir do poder, por mais perigosa e contraditória que seja, torna-se saber. O presidente é que sabe, sublinha a claque. A claque, note-se, é composta por largas fatias do eleitorado. Esta experiência em dois grandes países pertencentes ao mundo ocidental atinge tanto o poder como o saber.

Quanto ao poder, as democracias funcionam muito bem se as suas normas informais são respeitadas pelas partes, se a sua natureza representativa e liberal é escrupulosamente observada. Fragilizam-se com facilidade, até se tornarem caricaturas perigosas, quando essas regras informais são implodidas por demagogos. As democracias enfrentam, neste momento, um desafio dos mais decisivos. Elas podem morrer nas mãos de tiranos e de elites obscenas, sob o aplauso de claques ululantes. Os regimes democráticos precisam de uma vacina que os imunize contra o poder contagiante do vírus da demagogia.

Também a ciência passa por um momento terrível. Refiro-me à intervenção do poder político, como nos casos já referidos, para desconsiderar as conclusões científicas e impor medidas ao arrepio do recomendado pelo conhecimento. Isto não é novidade, mas pensava-se que em democracia a autonomia da ciência seria respeitada, que o poder político evitaria entrar em choque com o saber científico. Havia precedentes. O decretar político do criacionismo como teoria científica ou a negação do impacto da acção humana na degradação ambiental do planeta. Agora, com a pandemia, podemos estar numa nova fase da escalada do poder para controlar a ciência e negá-la como lugar da verdade.

Durante muito tempo, o mundo ocidental ufanou-se de ser o lugar da civilização. Aliava a democracia política, a prosperidade, a relativa igualdade entre cidadãos e um saber científico livre e respeitado. O século XXI não lhe tem sido propício. Uma crescente desigualdade, ataques, cada vez mais fortes, à democracia dentro dos países democráticos e agora a própria ameaça à ciência e à sua autonomia. Imaginou-se que regressar a um tempo em que fanáticos controlavam aquilo que se podia saber era um delírio de mentes pessimistas, começamos a ter evidências de que não é assim e que a vida civilizada pode acabar. É muito perigoso quando o poder acha  que é nele que está o lugar do saber e da verdade.

[A minha crónica de Maio em A Barca]

sábado, 2 de maio de 2020

25 de Abril de 2020


A celebração do 25 de Abril deste ano foi, do ponto de vista simbólico, a mais importante de sempre. Tem múltiplos aspectos a merecer realce. Em primeiro lugar a controvérsia lançada por quem, do ponto de vista político, queria que as celebrações não se realizassem. Mostra que há sectores na direita que têm dificuldade em lidar com a data. A explicação não é difícil e não tem que ver com a data, mas com o facto de a direita portuguesa, com honrosas mas raras excepções, ter estado em bloco do lado da ditadura. Quando o regime cai em 1974, havia esquerdas oposicionistas mas não havia direitas oposicionistas. Uma parte da direita nunca se curou do seu colaboracionismo com a ditadura.

No entanto, durante estas décadas, assistimos à estruturação de uma direita democrática, de tipo ocidental, e ela revelou-se claramente neste 25 de Abril. A posição inequívoca de Rui Rio, do PSD e de Marcelo de Rebelo de Sousa mostraram, para quem tivesse dúvidas, que existe uma direita que, na sequência de Sá Carneiro, afirma claramente os valores políticos que triunfaram com o 25 de Abril. Enquanto o CDS se deixou enredar na teia da extrema-direita, o PSD e o Presidente da República foram decisivos para o carácter nacional da celebração do 25 de Abril.

Quando se vivem momentos excepcionais, aquilo que emerge é o fundamental. E o fundamental foi o que se viu no parlamento. Por muito que isso seja doloroso para uma parte da esquerda social, a essência do 25 de Abril não reside num sonho revolucionário destruído, mas na democracia liberal que se construiu. A sessão na Assembleia da República foi um tributo aos capitães de Abril, mas foi essencialmente um tributo, exigido por parte substantiva da direita e de toda a esquerda, à democracia parlamentar, ao regime onde existe alternância no poder e em que os actores políticos não são inimigos a eliminar mas adversários que participam na disputa legal pelo poder. Foi isto que se comemorou na Assembleia.

Para concluir vale a pena sublinhar outro facto. Houve uma tentativa de mobilizar os sentimentos religiosos dos portugueses contra a realização da sessão no parlamento. A presença do Cardeal-Patriarca de Lisboa na sessão foi um sinal decisivo de qual a posição da Igreja Católica. Mostrou que a Igreja não deu cobertura à campanha contra o 25 de Abril, contra as instituições democráticas e, acima de tudo, tornou patente que não existe nenhuma questão religiosa em Portugal. As instituições religiosas e as instituições democráticas vivem, apesar de separadas, em respeito mútuo, tal como se exige numa democracia liberal.

[A minha crónica no Jornal Torrejano online]

quinta-feira, 30 de abril de 2020

A Casa Esquecida 11

Pier Luigi Lavagnino, Estate, 1963

Soa o clarim. Os impérios não se conquistam
na garganta estrangulada, na sombra da lua,
no murmúrio da renúncia. Um território voraz
arde arrebatado, um caos planetário prospera
no torpor da caliça, nas paredes que desabam.
De sussurro em sussurro crescem-te as rugas
e nas ruínas, uma memória de vidro e água,
a casa de sombra a arder no fogo do Inverno.

(1981)

terça-feira, 28 de abril de 2020

A risibilidade no poder

Edvard Munch, Junto al lecho de muerte, 1895
Há muito que não se via no palco da política um espectáculo tão confrangedor como aquele que é posto em cena por Jair Bolsonaro, no Brasil, e Donald Trump, nos EUA. Por norma, aqueles que ocupam as mais altas magistraturas das nações tentam ostentar, mesmo se pouco dotados, a gravitas que deve ser a marca do homem de Estado. Bolsonaro e Trump não querem saber da gravitas para nada. Intuíram desde o início que tentar ostentá-la era-lhes impossível, não estava de acordo com a sua natureza. Mostram-se ridículos, com declarações ridículas, com posições risíveis. Isso trouxe-lhes uma vantagem. Aparentam autenticidade e uma aproximação a uma parte substancial do eleitorado que os vê como pessoas comuns, que se ri com as suas facécias e até está disposta a seguir as suas sugestões, por mais inverosímeis ou perigosas que sejam. Resta saber até onde os eleitorados destes países estão dispostos a suportar a perigosa comédia em que vivem. Resta saber, também, até que ponto os europeus - onde se incluem os portugueses - estão dispostos a evitar que facetos desta estirpe cheguem ao poder e nos mergulhem no caos e na dor que descobrimos no Brasil e nos EUA.

domingo, 26 de abril de 2020

Nocturnos 10

Bert Hardy, Two prostitutes talking to a client on a Barcelona street corner, 1951
É possível que toda a transacção comercial, esse longo exercício de compra e venda, tenha sido, num tempo arcaico de que perdemos a memória, clandestino, que a mudança de propriedade ou a troca de favores fosse uma ofensa tão grave que só o silêncio da noite as pudesse acobertar. Não haverá comércio que por natureza não seja nocturno.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Cópias degradadas

Ilse Bing, Three men on steps by the Seine, 1931
Não fora o inusitado das vestes, e dir-se-ia que estávamos perante uma fotografia do nosso quotidiano e não de uma cena com quase noventa anos. O homem sentado no degrau inferior parece estar concentrado no monitor de um portátil. Todos os presentes guardam entre si uma distância recomendável, como se o mundo tivesse sido atingido por um vírus contagioso, e o polícia assegura que não haja aproximações que infrinjam a distância de segurança. Assim como as coisas do mundo sensível são, segundo Platão, cópias imperfeitas das coisas do mundo inteligível, também a nossa presente infelicidade será cópia degradada de outros momentos menos infelizes que, ao passarem, se tornaram em puras e perfeitas ideias platónicas. 

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Alma Pátria 61: Corina Freire, Teodoro não vás ao sonoro



Hoje o Alma Pátria faz uma visita a uma gravação de 1931, na qual a soprano Corina Freire (sobre a cantora, ver texto aqui) canta um êxito de revista, Teodoro não vás ao sonoro. O sonoro não era mais do que a incorporação nos filmes de música e da voz, do som. Quase um século depois é incompreensível a ausência de som numa película, mas quando o cinema sonoro surgiu e começou a substituir o cinema mudo, houve uma grande reacção contra a novidade. Consta que em Portugal essa reacção foi enorme. É muito curioso ler um artigo de 4 de Abril de 1930, no Diário de Lisboa, sobre essa reacção (ver aqui). O tema Teodoro não vás ao sonoro é o maior êxito de Corina Freire e um sinal irónico da tentação humana – e portuguesa, claro – de parar o tempo através da negação da sua passagem.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

A Casa Esquecida 10

Robert Motherwell, Suite lírica, 1965

O meu coração é um general vencido
na luz da noite, na água da tua língua.
Pura constelação de estrelas cadentes,
buraco negro onde floresce o miosótis.

Rios de sílabas e sangue nas paredes,
a janela aberta para o ocre da tarde,
a resina verde soprada dos pinhais.
O meu coração é um general vencido.

(1981)

sábado, 18 de abril de 2020

Desconfiança e afastamento


Num ensaio, A pandemia e o capitalismo numérico, no Público de Domingo de Páscoa, o filósofo José Gil afirma que, durante todo este tempo de confinamento, “não se conceberam nem novos valores éticos, nem novos programas económicos ou práticas políticas”.  Deixo de lado a economia e a política e centro-me na ética. Dois valores morais estruturantes da vida em comunidade são a proximidade – por exemplo, no sentido dado na expressão amor ao próximo – e a confiança. Esta é um valor estrutural em todas as sociedades e, por maioria de razões numa sociedade fundada na economia de mercado. O respeito, senão o amor, ao próximo, apesar da crescente afirmação de egoísmos viscerais e agressivos, continuava a ser um valor e a proximidade física entre seres humanos era vista como forma de expressar e realizar esse valor.

De um momento para o outro, a confiança deu lugar à desconfiança relativamente aos outros e a si próprio. Será que o vizinho que posso encontrar no elevador estará contaminado? Será que, ao ter de ir à rua, transporto para casa o vírus? A confiança espontânea que havia nas inter-relações entre conhecidos e na relação consigo próprio desapareceu. Viseiras, luvas, lavagem de mãos, desinfecção permanente, tudo isso são sinais de que a confiança se tornou impossível. Qualquer um agora pode ser o portador da minha morte e eu a de qualquer um. A proximidade tornou-se um valor negativo. Estar próximo do outro é poder fazer-lhe mal ou receber o mal que dele pode vir. O respeito, senão o amor, exprime-se pela distância, por uma dinâmica de afastamento, não pela proximidade e pela partilha do espaço entre pessoas, cujos corpos se tornaram universalmente indesejáveis, numa irónica facécia ao deus Eros.

Pode ser verdade que, como pretende José Gil, não se conceberam novos valores éticos, mas a metamorfose sofrida nestes dias pelos pares confiança/desconfiança e próximo/afastado são reveladores de que podemos estar na iminência de uma mutação ética. Começará na sociedade, onde as regras da moralidade comum se estão já adaptar às novas exigências. Tudo dependerá do tempo que se leve a solucionar o problema. Se a situação se prolongar, se novos hábitos vierem a instalar-se para que possamos sobreviver, podemos estar  perante uma novidade ética. A desconfiança e o afastamento tornar-se-ão deveres morais e a nova forma de habitar o mundo. Como se poderá estruturar a vida em comunidade, desde a família ao espaço público, num ambiente em que se deve cultivar a desconfiança e o afastamento, essa é a grande incógnita.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Roberto Rossellini, Roma, Cidade Aberta


Roberto Rossellini começou a filmar Roma, Cidade Aberta em 1944, logo a seguir à expulsão dos alemães da capital italiana. No centro da intriga está, como um efectivo tributo ao espírito da época e ao heroísmo dos que se opuseram ao fascismo e ao nazismo, a resistência italiana e a cruel perseguição dos ocupantes alemães, aliada à pusilânime colaboração de parte dos italianos. O filme é uma obra central na definição do que se convencionou chamar, no âmbito do cinema, o neo-realismo italiano e faz parte do conjunto de filmes de intervenção antinazi, cujo obra mais conhecida é Casablanca (1942), de Michael Curtiz.

A trama narrativa do filme põe em jogo o conflito de vida ou morte entre duas crenças inabaláveis. De um lado encontram-se os que defendem a superioridade ariana com uma convicção que começava a abrir brechas e do outro a convicção da justeza e superioridade moral dos resistentes à ocupação. Apesar do filme pretender ser uma aproximação à vida real das classes populares e ser, de certa forma, um documentário dessa vida, as personagens centrais não deixam de ser idealizações do herói, os resistentes, e do vilão, os ocupantes ou os colaboracionistas, por convicção ou por degradação moral. De um lado a superioridade moral; do outro a perversidade e a baixeza morais. As personagens surgem, deste modo, planas, estereotipadas, sem que se dê conta de uma vida interior complexa, marcada pela dúvida, pela hesitação, pela incerteza.

O filme retrata o modus operandi tanto da resistência como dos ocupantes alemães, uma espécie de jogo do gato e do rato. A resistência opera dentro dos bairros populares, mesmo que os seus dirigentes provenham de outra camada social. É lá que encontra o apoio e o ambiente propício para se ocultar. Os alemães, por seu turno, exploram a fraqueza moral daqueles – neste caso de duas mulheres – que, provenientes das classes populares, anseiam pertencer ao mundo dos ricos, ainda que seja através de opções morais ignóbeis. A isso aliam uma violência sem limite e sem pruridos morais.

Para além da questão central, o combate entre ocupantes e resistência, e de uma visão ideológica sobre as classes sociais, o filme mostra como na resistência se juntava o Partido Comunista e a Igreja Católica. Os dois heróis da resistência são um engenheiro comunista e um padre católico. Há uma clara preocupação de evidenciar e reforçar essa unidade, escondendo tudo o que separava os dois campos, separação essa que vai ser estruturante na política italiana do pós-guerra, na qual democratas-cristãos e comunistas se tornam as grandes forças políticas em Itália durante décadas, mas em lados opostos da barricada. Apesar das personagens centrais terem sido reduzidas a tipos idealizados, o filme continua a ser um documento interessante para perceber aquela época, com os valores políticos e a visão do mundo da altura.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Beatitudes (24) Fantasia

Andreas Feininger, A man in Arabic dress, smoking a water-cooled pipe, is comfortably sitting on a magic carpet. 1954
Talvez a beatitude não seja uma fantasia, mas por certo esta será única porta que nos conduz àquela. A felicidade é uma filha legítima da imaginação e esta compraz-se apenas no impossível.

domingo, 12 de abril de 2020

Ensaio sobre a luz (81)

Wolf Suschitzky, Sunday morning, Oldham, 1946
A luz ressurecta ilumina a manhã de domingo. Nela um homem caminha pelas ruas vazias, vê a sua sombra projectada no empedrado que cobre o chão e confia, na ingenuidade dos tempos amenos, que tudo é como sempre foi, como se a luz iluminasse apenas a certeza que nasce dos velhos hábitos.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

François Ozon, Frantz


No filme de 2018, o cineasta francês explora os dramas pessoais trazidos pela primeira Grande Guerra, tendo por pano de fundo o nacionalismo que desencadeara o conflito e que, terminado este, não declinara, apesar da extraordinária carnificina a que tinha conduzido. Frantz é um jovem soldado alemão morto por um soldado francês, Adrien, tão jovem quanto ele. Ambos partilhavam um destino ambíguo. Eram pacifistas e foram levados para a guerra pela pressão do ambiente social e da própria família, pela coacção de um nacionalismo agressivo que habitava o espírito da época. É a hipersensibilidade de Adrien, um violinista da Orquestra de Paris e filho família, que desencadeia a trama narrativa, ao sentir necessidade de se fazer perdoar pela família do alemão que matou numa trincheira. É aqui, nesse instante onde a vida e a morte de dois soldados se decidiram, que está a raiz de toda a equivocidade que percorre o filme.

O soldado francês em vez de considerar o alemão como um inimigo abatido, deixa-o transformar-se, aos seus olhos, numa pessoa a quem assassinou. Na trincheira, perante o alemão morto, dá-se uma metamorfose na consciência de Adrien. De inimigo e ameaça real à sua existência, o alemão transforma-se num outro eu a quem Adrien tirou a vida. A alteração do estatuto ontológico de Frantz na consciência do francês tem um efeito perturbador. Encontra nos bolsos do morto o rasto duma vida agora sem continuação, uma carta a enviar à namorada. Acabada a guerra, o confronto com a morte do outro não deixa de o abalar e, como forma de catarse, decide partir para a terra de Frantz com o objectivo de pedir perdão. Um dos elementos fundamentais na construção da personagem de Adrien é a ambiguidade das suas motivações, nunca ficando claro aquilo que o move, se a dor dos outros – pais e namorada de Frantz – se a sua consciência infeliz, incapaz de lidar com o facto de a guerra ser o lugar onde as pessoas matam para não morrer, onde não há conciliação possível no momento do combate.

A relação que Adrien acaba por estabelecer tanto com os pais de Frantz como com Ann, a namorada, acaba por se tornar, também ela, equívoca. A fragilidade moral do francês arrasta-o para uma história falsa e através dela ganha a confiança e a amizade dos pais do soldado alemão. Quando Ann descobre a verdade é ela que impede a sua revelação aos que deveriam ter sido seus sogros. Alimenta uma versão edulcorada da realidade devido a um suposto direito de mentir por amor à humanidade, para parafrasear o título de um célebre texto de Kant. A partir daí, o equívoco e a mentira entrelaçam-se, passando Adrien a ser visto como um possível noivo de Ann e substituto de Frantz. A viagem que Ann faz a França, para consumar essa substituição de Frantz por Adrien, é um exercício de descoberta. A descoberta, por Ann, da pusilanimidade do francês, da sua situação de comprometido apenas por convenção familiar, e, também, a descoberta de si mesma, da sua força e da própria vida que renasce dentro dela. O filme de Ozon é uma reflexão sobre a ambiguidade das motivações e o problema da verdade e da mentira morais, em que Adrien se afunda na mentira a si ao desejar expor a verdade e em que Ann, apesar de manter uma ficção para os sogros, descobre a sua força e a sua própria verdade, libertando-se do passado e da guerra.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

A Casa Esquecida 9

Nicolas de Staël, Desnudo acostado, 1955

Um corpo desliza na falésia doutro.
As mãos correm musgos e sedas,
líquenes polvilhados de cal,
a tília a transbordar de silêncios.

Um cântico nasce-te nos dedos.
Ecoa como um fruto desfolhado
na mágoa vesperal da boca,
na sombra da sombra ao meio-dia.

(1981)

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Ensaio sobre a luz (80)

René Burri, Former Summer Palace. Dead lotus flowers on the Kunming Lake. Beijing, China, 1964
Raios de sol descem difusos sobre as águas, fazem das árvores fantasmas perdidos no mundo, iluminam a geometria dos lótus abandonados ao cansaço da morte. O tempo suspende a viagem e uma vida ressurecta aguarda a hora em que a clara luz triunfe sobre a melancolia da névoa e a tristeza da cinza.

sábado, 4 de abril de 2020

Uma comunidade de seres racionais


A senhora Thatcher terá escrito, num livro de memórias sobre o tempo em que foi primeira-ministra, que “não existe essa coisa de sociedade, o que há e sempre haverá são indivíduos”. A sobranceria e a pesporrência com que a frase foi multiplicada pareciam ter a força suficiente para fazer de um desabafo meramente ideológico uma verdade inquestionada. Aparentemente, a frase visava atingir as ideias socialistas. Na verdade, põe em questão toda uma longa tradição, a tradição ocidental, que se reconhece na palavra de Aristóteles de que o homem é um animal político, isto é, um animal que vive em comunidade. Paradoxalmente, é neste momento tenebroso, em que parte da população se vê obrigada a proteger-se da vida em comum, que se torna manifesta a razão de Aristóteles e a desrazão da senhora Thatcher e dos ultraliberais.

Somos indivíduos, mas o que nos vale isso se estamos separados da comunidade? Estamos a descobrir que o que dá sentido às nossas vidas não são apenas os projectos individuais, os sucessos, o contentamento por termos atingidos os objectivos. Sem uma comunidade real que nos dê o fundo da nossa existência e que, em última instância, seja o objectivo dos nossos esforços, a nossa individualidade é risível. Mais, sem uma comunidade real que responda enquanto comunidade, seremos sempre muito mais frágeis e vulneráveis. Não sabemos, nesta hora, se a resposta que a comunidade está a dar à pandemia será coroada pelo êxito que todos desejamos, mas parece claro que, se cada um agisse em conformidade com o seu ser individual, a desgraça seria indescritível. A esperança nasce da resposta colectiva assumida por cada um de nós.

Isto não significa que os indivíduos não existam ou que devam estar subjugados à comunidade, como aconteceu nas diversas experiências totalitárias que marcaram o século XX. Em sociedades complexas como aquelas em que vivemos, toda a vida deve ser a busca de uma harmonização entre os interesses comuns, os interesses da sociedade tomada como um todo, e os interesses individuais. Ambos são importante e ambos merecem respeito. O que devemos evitar é que os herdeiros ideológicos da senhora Thatcher destruam os laços comunitários. O que devemos evitar é que novas utopias colectivistas, como os nacionalismos, destruam a autonomia individual. Aquilo que o actual estado sanitário mostra é que precisamos de ser uma comunidade de indivíduos autónomos, capazes de cuidar de si e da comunidade. A actual pandemia terá muitas coisas para nos ensinar. A importância de uma comunidade de seres racionais não será a menor dessas coisas.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Razão e Ciência


De súbito, calou-se todo o argumentário anticientífico sobre as vacinas. Perante a pandemia associada ao COVID 19, anseia-se que a ciência responda com brevidade e encontre uma vacine que possa ajudar a humanidade a viver com o novo perigo. Os movimentos anticientíficos têm crescido nos últimos tempos e são uma ameaça real à vida dos seres humanos. Enquanto as coisas ficam em patetices como a terra plana, é possível rir. Quando, porém, tocam em assuntos relacionados com a vida e a morte, não há riso que valha. Nestes movimentos contra a ciência podem existir, entre outras, motivações associadas a um regresso a uma imaginária pureza da ordem natural e motivações religiosas, que vêem na ciência uma afronta ao divino ou que julgam que uma fé profunda bastará para lidar com os males do mundo.

A ordem natural como medida daquilo que é correcto ou incorrecto fazer é uma perspectiva muito em voga nos círculos new age. Assenta na negação dos perigos que a própria natureza esconde para os seres humanos e faz uma leitura da humanidade como sendo apenas uma espécie entre outras. Foi o facto, porém, do homem ter tido a capacidade de se distanciar da natureza e ter criado um mundo artificial a partir dessa natureza que tornou possível a persistência da humanidade sobre a Terra. Desse mundo artificial fazem parte as técnicas, os saberes científicos, os valores e as próprias religiões. Tudo isso foi uma estratégia de afirmação e defesa da humanidade perante uma natureza muito longe de lhe ser benévola.

Certas correntes religiosas julgam que os homens apenas devem confiar na fé, mesmo em assuntos que não se relacionem com questões de religião. A ciência seria então um desafio à ordem e à vontade divinas. No entanto, nem todas as religiões têm esta perigosa posição e a Igreja Católica, por exemplo, há muito que descobriu, ou sempre soube, que fé e razão se devem conjugar e que as descobertas científicas, produtos da razão natural dos homens, devem ser tidas em consideração. Considera mesmo como pecado grave os homens desprezarem a informação científica, aventurando-se na existência sem a tomar em consideração. Pecado pois, ao desprezar o conhecimento trazido pela razão dada ao homem por Deus, estão a desafiá-Lo a provar a sua omnipotência para os salvar daquilo em que estão metidos.

Nesta hora terrível que estamos a viver, é tempo de perceber que não devemos desprezar o que a razão e a ciência produzem para ajudar a humanidade a habitar com mais segurança este planeta. Todo o fanatismo – naturalista ou fideísta – é um perigo para a existência da humanidade.

[A minha crónica de Abril em A Barca]

terça-feira, 31 de março de 2020

Ensaio sobre a luz (79)

Robert Frank, Mallorca, 1950
A vida sóbria, despida de excessos, talvez do necessário, reverbera quando incansável a luz do sol se encontra com a brancura desmedida da cal.

domingo, 29 de março de 2020

A Casa Esquecida 8

Manuel Gil Pérez, Formas dinámicas espaciales, 1957

Oiço uma música de água no algeroz,
o som arcaico nos sulcos da memória,
dor doendo na placenta do coração.
É uma casa de cantaria sobre o sul,
a esmeralda enterrando-se na carne,
o fremir das planícies ao moverem-se
de incêndio em incêndio, esse amor
soletrado no sulco do meu sangue.

(1981)

sexta-feira, 27 de março de 2020

Desejo de pastor

Loomis Dean, The grand strip of Las Vegas lighting up, 1952
No Público de hoje, António Guerreiro dedica um artigo, A epidemia do tédio, à situação de isolamento em que se encontra parte da população. O que me interessa no artigo não é tanto o tédio que nasce do confinamento ou deste ser um confinamento no tempo, mas uma passagem sobre a vocação pastoril dos media naquilo que diz respeito à cultura. É verdade que a comunicação social tem abundado em sugestões e indicações sobre coisas a ler, ver e ouvir para matar o tempo. O que me interessa é a oposição que o autor faz entre essa vocação de pastores, assumida pelos órgãos de comunicação social, e o ousa saber! kantiano, imagem do espírito crítico e do Iluminismo.

Talvez tenha existido um momento em que alguém possa ter pensado numa humanidade constituída por indivíduos que, ao ousar saber, desenvolveriam o seu espírito crítico e com as luzes da sua razão haveriam de gerir, firmes na singularidade conquistada e livres do rebanho, a sua vida, sem que alguém os pastoreasse, dizendo-lhes o que fazer e como viver. O que talvez tenha acontecido, porém, é que a generalidade dos que fecharam os ouvidos ao pastor e abandonaram o rebanho se tresmalhou e voga agora na mais pura errância. A singularização do ser humano terá produzido muito menos espíritos críticos do que espíritos errantes, verdadeiramente alienados, mais alienados, aliás, do que quando, na sua menoridade inquestionada, se entregavam nas mãos dos pastores.

O facto dos media assumirem a função do pastorado é apenas um sinal sobre o desejo que há, na generalidade daqueles que andam perdidos, em encontrar pastores que os protejam de si mesmos. No campo político, o desejo do pastor elegeu, em países como os EUA ou o Brasil, gente que nenhum espírito crítico formado na escola das Luzes pode aceitar ou consegue compreender. São pastores loucos? São, mas são pastores e, por isso, preferíveis aos políticos formados na escola crítica do Iluminismo. Mesmo na Europa o anseio por pastores cresce paulatinamente, enquanto a confiança nos espíritos críticos vai diminuindo. Depois, os exemplos vindos dos estados autoritários, onde pastores de mão firme regulam o rebanho, começam a ser olhados com benevolência. Há muito que a discussão sobre a emancipação entre liberais e socialistas terá perdido sentido. A questão é se a ideia de emancipação nascida nas luzes se adapta à humanidade, se esta pela sua natureza não estará, enquanto for humanidade, confinada a ser um rebanho, cuja sorte depende dos pastores que lhe calha.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Sonhos numa noite de Verão 20

Charles Clifford, Cathedral, Torre del Oro and Guadalquivir River, Seville, Spain, 1862
Ouvia o rumorejar das águas ao serem sulcadas pelo casco, um barulho ao longe, uma promessa de irrealidade que a consciência não conseguia fixar. O calor da noite não desmentia o Verão feroz que assola aquelas paragens. Como uma memória muito antiga, assaltava-me o nome do rio. Guadalquivir, Guadalquivir. Sentia o peso da história e as vezes que ali naveguei. Depois, as águas incendiaram-se e em pleno rio as embarcações combatiam-se, com um zelo inesperado e um poder de fogo improvável para barcos daquela dimensão. O meu foi atingido e vi-me a nadar num leito em chamas. Acordei ao chegar à margem, um raio de sol entrava no quarto e da janela do hotel via as águas serenas do Guadalquivir a deslizarem na paz da manhã.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Uma nova semântica

George Platt Lynes, Crossed Arms, 1941
Nunca foi tão importante para aqueles que estão, de algum modo, no teatro de operações do combate à pandemia que os outros se mantenham em casa. Para estes, estar de braços cruzados é uma forma de acção, a mais importante das acções. Cruzar os braços e lavar as mãos tornaram-se sinais com sentidos opostos aos que estávamos habituados. Os tempos são tão extraordinárias que a própria semântica está a ser abalada e invertida. Cruzam-se os braços e lavam-se as mãos não se porque se seja indiferente, mas porque não se é. Ao cruzarem-se os braços não se desiste, mas persiste-se, à espera que a velha semântica recupere os seus direitos e restabeleça os sinais na antiga ordem de significação. 

sábado, 21 de março de 2020

Três efeitos virais


POLÍTICA E ECONOMIA. De um momento para o outro todo um modo de compreender a política se alterou. Por influência das duas principais constelações ideológicas nascidas do Iluminismo – o liberalismo e o marxismo – a política tinha, paulatinamente, sucumbido aos imperativos da economia. Sem ameaças no horizonte, os homens pensam nos seus interesses, nos negócios que promovem ou na escassez de que se sentem vítimas na distribuição do bolo produtivo. Na verdade, as eleições ganhavam-se ou perdiam-se devido às conjunturas económicas e a qualidade das políticas tinha como núcleo central a economia. Agora, ninguém pensa na economia, na distribuição de rendimentos, seja no que for. Toda a gente reza para que a gestão política seja eficaz na oposição à ameaça viral. Primeiro vem a política, depois a economia, como deveria acontecer sempre. Quanto tempo vamos levar para esquecer esta dura lição?

HOBBES E LOCKE. Duas narrativas modernas alimentam as explicações do laço político que une as pessoas em comunidades dotados de Estado. Por um lado, a de Thomas Hobbes. Os homens associam-se num Estado, fundamentalmente, para poderem viver em segurança, sacrificando a esta tudo. Por outro, a de John Locke. O Estado existe para defender os nossos direitos naturais e assegurar uma arbitragem justa nos conflitos. Enquanto a vida corre sem problemas, a explicação de Locke parece imbatível. O que o coronavírus mostra, porém, é outra coisa. A segurança hobbesiana em primeiro lugar. Não que, neste momento, estejamos à beira da guerra de todos contra todos, mas estamos em guerra com uma ameaça em que todos podem ser os seus portadores. Todos somos suspeitos e, de certa maneira, lobos uns dos outros, apesar da solidariedade inegável que tem percorrido o país.

DEMOCRACIA E AUTORITARISMO. O que se está a passar é um teste de stress para todos os regimes políticos que têm de lidar com a situação. As democracias, pela sua própria natureza, são mais atreitas a problemas se este combate à insegurança sanitária correr mal. A Itália parece perdida, muitos dos países europeus apresentam sintomas de confusão e as duas mais sólidas democracias liberais não têm à sua frente nem um Churchill nem um Roosevelt. É possível que os regimes democráticos estejam num combate decisivo pela sua própria vida, eles que estão já infectadas pelo vírus do autoritarismo. Para além da tragédia humana, haveria uma outra tragédia civilizacional se a política voltasse ao primeiro lugar, mas assente na herança de Hobbes e no despedimento da democracia política por maus serviços.

quinta-feira, 19 de março de 2020

A Casa Esquecida 7

Fernando Lerín, Sin título, 1984

As batalhas vêm na orfandade da hora,
ornadas a vento e terra, os exércitos
cobertos de suor, o bruaá do combate,
o sangue a cerzir o contorno das faces.

Trincheiras de urze na lavanda da noite,
o vendaval dos dias, o amor hidráulico
a cambalear por campos de sargaço,
arqueado ao peso plúmbeo das paredes.

(1981)

terça-feira, 17 de março de 2020

Beatitudes (23) Trivialidades

Artur Pastor, Cais das Colunas, Lisboa, 1950-69
De súbito, descobre-se a maior das beatitudes no que há de mais trivial. Ir à rua, apanhar sol, olhar as águas, sentir a brisa a deslizar na pele, falar com amigos e estranhos, como se nada estivesse em suspenso e a realidade não se tivesse tornado num espaço doméstico de concentração. 

domingo, 15 de março de 2020

O homem do saco

Francesc Català-Roca, El hombre del saco, 1950
Nos países ibéricos e nos seus prolongamentos sul-americanos desenvolveu-se uma mitologia em torno do homem do saco ou do velho do saco. Este teria a missão de apanhar crianças mal educadas e desobedientes e levá-las com os mais indizíveis propósitos. Hoje precisávamos dessa figura tenebrosa e solitária, não para recolher meninos mal educados e desobedientes, já nos habituámos a eles, mas para apanhar aquilo que nos atormenta. Se ele com o seu saco pudesse recolher o que Pandora deixou fugir da sua caixa, todos ficaríamos gratos e ele poderia mesmo transformar a sua imagem infernal numa de querubim celeste.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Nocturnos 9

André Kertész, Melancholic Tulip, 1939
Tomada pelo pavor da noite, dobrada pelo medo das trevas, a túlipa inclina-se melancólica sobre a sua própria morte, esperando a luz da madrugada que, ao vencer os terrores da escuridão, lhe devolverá a vida.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Descrições fenomenológicas 50. A oblata

Modesto Llamas Rojamaril, ¿Hacia dónde?, 1998
Atravessado por longas rachas, o estuque luta ainda por se manter pegado à parede. Nele, manchas de humidade desenham mapas de países extravagantes, terras lendárias levadas para os confins dos oceanos, continentes inteiros engolidos pelo sopro do esquecimento, atlântidas suspensas na imaginação de filósofos ainda tocados por êxtases e delírios. O rodapé alto, talvez de uns vinte centímetros, apresenta o rebordo superior desbastado pelo caruncho e a ruína desce, cavando pequenos vales e lagos minúsculos, em direcção ao soalho, também ele tomado por um destino irremediável. Aqui florestas de folhas secas agitam-se se o vento entra pela janela desconjuntada. Vêem-se já pequenos montes de caliça, restos do estuque caído tecto, onde ainda se percebem os traços das figuras que o decoravam. Encostada à parede, uma mulher inclina o corpo para a frente. Os cabelos caem-lhe, a blusa abre-se e os seios brancos saltam e ficam suspensos do peito. Ela fica em posição instável, mas não se endireita. Parece olhar fixamente para o ventre oculto sob uma roupa que contrasta com o ambiente. Os braços abrem-se em arco e toda aquela figuração parece ser uma performance, um happening infeliz de uma artista tomada pela vertigem que se escondo dentro do corpo. Oblíquo, um feixe de luz desenha uma barra cintilante que une a mão direita à perna esquerda, ateando a saia. Os pés nus, de unhas pintadas num vermelho vívido, assentam sobre as folhas mortas e parecem fazer um esforça desmedido para evitar a queda do corpo para a frente. Passados longos minutos, a mulher ergue lentamente o tronco, enquanto une os braço ao corpo e encosta a cabeça à parede. Tem os olhos fechados, respira sem sofreguidão e os mamilos parecem querer perfurar a roupa. O rosto é agora plenamente visível e há nele pequenos reflexos de luz, um brilho trazido pela beleza, uma vontade imperiosa de reinar sobre o mundo. Toda ela estremece, abre os olhos e, pisando as folhas mortas no soalho, dirige-se para a porta, também em ruína, para sair do palco onde imaginou o altar em que se entregava em oblação aos olhos de quem a quisesse ver.

segunda-feira, 9 de março de 2020

A Casa Esquecida 6

Gerardo Rueda, Verde, 1961

São dias de maré. As planícies a arder na loucura,
o veredicto trazido pela cambraia das estações.
Inútil a cara sobre o lençol, os músculos abertos
para a praia juncada pelas algas do esquecimento.
Como será a luz das tuas mãos na luz de Setembro?

O coração estará longe, perdido na poalha do dia,
entre aniversários, amigos de copo na mão, gente
sem a urgência de chegar ou partir, sem a ânsia
de uma carta ou das canções que te ouvia
se cantavas debaixo de um céu de cinza e gaivotas.

Esqueço-me da verdade no desvario da sombra
que há nos cabelos ao caírem-te pelos ombros.
Esqueço-me do vinho a transbordar no copo vazio
de um corpo ferido pela harmonia de outro.
Esqueço-me do mar no sonho dos teus segredos.

(1981)

sábado, 7 de março de 2020

Um vírus abre uma fresta


Nos acontecimentos ligados à emergência do coronavírus, podemos dizer que há duas realidades ligadas acidentalmente. A primeira diz respeito à eventual pandemia, à facilidade do contágio que proporciona um mundo aberto e no qual toda gente viaja para todo o lado. Ligam-se a ela todas as preocupações profilácticas, as medidas de tratamento, a procura de vacinas, etc. No entanto, com a propagação do vírus e o combate à epidemia, uma outra realidade emergiu. Já diversas vezes sublinhado, um dos efeitos colaterais mais interessantes da emergência da doença é a drástica diminuição da poluição na China. O modo habitual de vida foi suspenso e as medidas para evitar o contágio vieram mostrar alguma coisa de que estávamos esquecidos.

A questão central nem será a da qualidade ambiental, mas a do próprio modo de vida em que o mundo se precipitou, marcado pela intensa mobilidade das pessoas e a sua contínua mobilização produtiva e consumidora. O fenómeno do novo nomadismo, estudado há muito na Sociologia, recebe um constante incremento pelo aumento da velocidade dos transportes e pela diminuição contínua do seu custo. Seja por turismo ou por trabalho, demasiada gente move-se todos os dias entre as diversas partes do mundo. Esta mobilidade de grandes massas está escorada na mobilização cada vez mais intensa das pessoas para a produção, onde produzem cada vez mais e a ritmos sempre mais frenéticos, e no consumo, o qual acompanha em crescimento e ritmo a produção. A vida dos seres humanos, na época em que vivemos, parece então circunscrita por uma santíssima trindade. Produção, consumo e viagem, que faz de espírito santo.

O coronavírus abriu uma fresta – na China, em Itália, por exemplo – que permite olhar para um outro mundo onde a produção e o consumo se tornaram mais lentos e a viagem foi colocada em suspenso. A fresta aberta permite que se veja o que há de insensato no modo vida para o qual nos arrastamos e deixamos arrastar. Poluição que desaparece dos céus, cidades que se tornam humanas pela ausência da massa de turistas, consumos que diminuem, produções que se descobrem supérfluas. É evidente que a fresta não vai durar para sempre e mal ela se feche, voltaremos ao mesmo. Produziremos mais, consumiremos mais e viajaremos sem descanso, até ao próximo acidente. Há muito que os homens deixaram de ter mão na máquina infernal que montaram. Talvez a fresta acidental seja um aviso e um convite à mudança de vida, mas é muito duvidoso que oiçamos o aviso e aceitemos o convite.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Ensaio sobre a luz (78)

Philippe Halsman, Jean Cocteau. “Dream of a Poet”. USA, New York City, 1949
Sempre que uma dada luz mostra certas coisas, esconde outras. Então é preciso tornar-se cego para que outra luz desça e ilumine aquilo que a primeira esconde. Logo é imperioso cegar a própria cegueira, para que uma nova luz mostre o que as anteriores ocultaram. Não há fim para aquilo que espera ser visto.

terça-feira, 3 de março de 2020

Ladj Ly, Os Miseráveis


Se há imagem que relacionamos com o nacionalismo é a da bandeira nacional a ondular, de preferência multiplicada e transportada pelas multidões. O início do filme de Ladj Ly, um francês de origem maliana, é um intenso manifesto nacionalista. Crianças e adultos transportam a bandeira de França, concentram-se em fervor patriótico, cantam em exaltação a Marselhesa e, posteriormente como se fossem um tsunami, dirigem-se para o Arco do Triunfo, onde a glória de França, acabada de se sagrar campeã do mundo de futebol, é motivo de uma grande jornada patriótica.

Que pessoas, porém, são aquelas que vemos exaltadas? Descendentes das velhas estirpes francas e galo-romanas? Não, aqueles nacionalistas franceses são negros e árabes, haverá outros, claro, mas o que a câmara mostra são aqueles. Os minutos iniciais do filme são uma reivindicação de pertença à nação por parte de pessoas que são francesas de direito mas cuja relação de facto com os franceses de origem europeia é, no mínimo, problemática.

Depois da exaltação nacionalista a trama narrativa mergulha directamente no centro de um mundo problemático, um dos subúrbios de Paris, Montfermeil. É nele que habitam muitos dos negros e árabes que comemoraram a vitória de França no campeonato mundial. Da exaltação patriótica passa-se agora à dura realidade e à difícil relação da polícia com aquela comunidade. O tema central é o da violência da polícia, violência que o próprio realizador, quando jovem, terá filmado em alturas de grande conflito.

A tensão opõe a polícia a bandos de jovens. No entanto, Ladj Ly, morador daquele bairro, deixa ver a vida social que o anima. Os negócios escuros que proliferam, a presença forte do Islão – ele é muçulmano – com matizes diferenciadas, conflitos com outras etnias – aliás o que desencadeia a narrativa é o roubo de um leão bebé num circo propriedade de ciganos por um dos miúdos negros daquela comunidade – e todo um mundo miserável, de uma arquitectura horrível e onde cresce uma juventude desocupado e sem horizontes.

O filme tem uma forte componente de intervenção social e de tomada de posição. No entanto, nem os polícias nem os jovens, as duas partes do conflito, são tratados a preto e branco. E nenhuma das partes está numa situação fácil nem parece saber lidar com essa situação, com a excepção de um dos elementos da Brigada Anti-Crime, Stéphane Ruiz, vindo naquela altura da Normandia. Este mais do que o polícia bom encarna o olhar exterior, descomprometido com o conflito, embora comprometido com valores de respeito pela humanidade do outro e códigos de imparcialidade.

Ladj Ly não oferece ao espectador um panfleto, mas uma reflexão sobre a condição humana numa comunidade onde a miséria – uma miséria que desde o século XIX e o tempo de Victor Hugo sempre ali existiu – é o ambiente onde aqueles homens, pois estamos perante um filme em que só quase entram homens, manifestam a sua humanidade mutilada. Mutilação fruto de um reconhecimento que nunca chega por parte de uma nação que é a deles, que eles vitoriam, mas que os encerra naquilo que se poderia chamar um campo de concentração de portas abertas. Estão presos pelo poderoso íman da miséria.

domingo, 1 de março de 2020

Odioso futebol


Cresci num ambiente onde se gostava de futebol e também eu, seguindo a tradição da família do meu pai, cultivei um grande interesse pelo jogo. Não por praticá-lo, pois nunca tive qualquer habilidade para o desporto, futebol ou outro. Lia os jornais desportivos, acompanhava os relatos na rádio, via os jogos, vibrava com as vitórias do clube do coração. Lembro-me de uma vez, na faculdade, a professora de Ética ter ficado espantada quando lhe disse que tinha faltado à sua aula para ver um jogo do Benfica. Isso, porém, foi há muito. Este gosto não o transmiti aos meus filhos. Na verdade, não fiz nada para o deixar como herança.

Hoje em dia, as vitórias e as derrotas do meu clube deixam-me indiferente. Há em mim uma certa tristeza por isso. O futebol era uma fantasia vinda da infância, uma ilusão sobre heróis que se superavam para derrotarem outros heróis. Curiosamente, guardo na memória muitos nomes de heróis adversários que são tão grandes para mim como os do meu clube. São todos, porém, jogadores antigos, que começam a desaparecer e que talvez tenham também eles vergonha daquilo em que o futebol se tornou.

O caso do jogador Marega em Guimarães veio apenas reforçar as razões que me afastaram desse prazer que era o futebol. Dizia-se que o desporto era uma escola de virtudes. Talvez fosse, mas o futebol parece-me que há muito não é coisa virtuosa. Os insultos racistas são apenas um dos seus lados tenebrosos, talvez o mais inumano. No futebol profissional, e não sei se no outro contaminado por este, o fair-play não existe. Adversários e equipas de arbitragem são tratados como coisas, que devem ser constantemente insultados e vaiados se o jogo não corre de feição. As regras da cordialidade e da civilidade foram proscritas dos campos de futebol. Isso, porém, não é o pior.

A suspeição constante sobre os resultados, a ideia de que nenhum troféu é vencido pelo mérito desportivo, as palavras incendiárias dos dirigentes, os ataques dos treinadores, o rancor dos comentaristas afiliados nos clubes, tudo isso cria uma atmosfera tenebrosa, uma espécie de estado de natureza hobbesiano, onde impera a guerra de todos contra todos, uma guerra até contra os jogadores ou dirigentes do próprio clube. Um conflito onde há violência verbal e física, com mortos pelo caminho. Tudo isto envolvido em muito dinheiro, numa indústria que para ganhar cada vez mais não hesita em explorar o que há de mais baixo nos seres humanos. Uma escola de virtudes? Só se as virtudes forem confundidas com o vício. O racismo nos campos de futebol é cereja em cima do bolo.

[A minha crónica em A Barca]