sexta-feira, 9 de março de 2012

Poema 28 - A súbita claridade da manhã


A súbita claridade da manhã,
O ócio de um sol impenitente,
Os dias seguindo-se aos dias,
Essa alucinação vinda da infância.

A dança do teu coração vem,
Rumor de cinza, sombra de orvalho,
O desejo de morrer nos dias
Em que o sol te lembra os meus braços.

Nas ruas fermenta a solidão,
As árvores lêvedas inclinam-se
E rasgam avenidas de sombra.

Esperam que a manhã desagúe
No mar imenso das tuas mãos,
Suadas, água e ânsia nocturnas.

Forças Armadas


A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.


O general Ramalho Eanes, em entrevista à Antena 1, toca num dos aspectos mais sensíveis da área da governação, as Forças Armadas. O antigo Presidente da República sublinha que o país tem de definir se quer ter ou não Forças Armadas, e se sim para quê. A questão centra-se no problema do financiamento. O tema é dos que suscita mais ressentimento e um dos que se presta a equívocos absurdos.

Só por leviandade se pode pensar que Portugal pode viver sem Forças Armadas. Um dos argumentos contra a existência das Forças Armadas centra-se no facto de Portugal estar na União Europeia e de não possuir inimigos; mesmo as antigas pretensões anexionistas espanholas teriam passado à história. Tudo isto é verdade, mas não justifica a tese do fim das Forças Armadas.

Em primeiro lugar, a própria União Europeia está a ser atravessada por convulsões que podem conduzir à ruptura e à divisão. A partir desse momento uma nova guerra intra-europeia ou anti-europeia torna-se possível, se não mesmo provável. Vão longe os dias em que a União Europeia era um lugar de paz e estabilidade. Hoje tornou-se um palco de afirmação de pequenas potências, como a Alemanha, que ainda acalentam pretensões – ilusórias, claro – a ter uma papel decisivo na geoestratégia global.

Em segundo lugar, Portugal não tem apenas uma fronteira com Espanha. Tem uma outra com o mundo muçulmano. Neste momento são boas as relações de Portugal com o norte de África, mas não sabemos durante quanto tempo isso continuará a ser possível. Nada garante que em Marrocos ou na Argélia a situação política não se deteriore e não surjam regimes políticos extremistas que tenham pretensões de destabilizar a Península Ibérica. Há movimentos no mundo muçulmano que reivindicam a Península Ibérica como território islâmico. Hoje são minoritários, mas a História muda.

Em terceiro lugar, nada garante que as actuais relações com Espanha se mantenham. Uma desintegração da União Europeia conjugada com movimentos nacionalistas no País Basco, Catalunha e Galiza pode criar condições para que, em Castela – parece ridículo, mas a História é o que é –, despontem movimentos anexionistas e a ideia de uma grande Ibéria sob a batuta do exército espanhol.  Em História, o que é hoje verdade pode não o ser amanhã.

As Forças Armadas são uma instituição fundamental para Portugal. Para tal, é necessário que estejam integradas em sistemas de defesa colectivos, como a NATO, e que o país faça o esforço económico que isso impõe. Não brinquemos com coisas sérias, a crise não justifica todos os disparates.

quinta-feira, 8 de março de 2012

A partícula de Deus e o financiamento


O bosão de Higgs é, por enquanto, uma mera ideia teórica, derivada da necessidade, segundo o modelo padrão da física de partículas, da existência de uma partícula que desse massa às outras. Parece que, como noticia o Público, começa a tomar corpo a possibilidade de demonstrar empiricamente a sua existência. Os mais recentes indícios provêm dos EUA, do acelerador de partículas Tevatron. O que me interessa na notícia, mais que o indício da existência da partícula de Deus, é a informação, que já não é nova, do encerramento em Setembro passado do Tevatron, por falta de verbas. 

O problema não está apenas no facto de a investigação pura, sem fins comerciais aparentes, poder ser demasiado cara. Está no desinteresse que este tipo de investigação pode ter aos olhos do poder político e de outras entidades financiadoras. A crescente avaliação do saber pela sua rentabilidade económica pode vir a pôr em causa aquilo que se tornou o eixo central do Ocidente, o interesse pelo conhecimento teórico da realidade. Ora este interesse pelo conhecimento puro constitui uma das disposições essenciais da racionalidade humana. Não se trata de mera curiosidade ou uma ocupação para mentes brilhantes e ociosas. Neste tipo de investigação realiza-se ainda uma parte do destino humano. Financiá-lo de forma racional é um imperativo que deve sobrepor-se a outros imperativos de ordem meramente económica. Esta atitude americana, consubstanciada no fecho do Tevatron, é indício de quê? 


Carson McCullers, A Balada do Café Triste


As metamorfoses do Self (Si-mesmo), talvez toda a literatura não trate de outra questão, talvez a única coisa que esteja em jogo nas narrativas seja a tentativa de capturar uma identidade. Foi Milan Kundera, salvo erro, que fez o curto-circuito que mostrou, no âmbito da cultura europeia, a existência de dois projectos, praticamente contemporâneos, de processamento da identidade. Por um lado, aquele que se estriba no cogito cartesiano, onde a subjectividade se mostra como fundamento de todo o conhecimento, mas uma subjectividade puramente racional, de carácter pontual e vazia. O sujeito cartesiano, na ânsia da evidência racional, despe-se de toda a biografia e resume-se a uma razão pura. Por outro, o D. Quixote, de Miguel de Cervantes, onde o Self (no caso, o de D. Quixote) se entrega a todos os desvarios e equívocos, mas são estes que permitem preencher uma identidade, uma identidade que se transforma ao longo da narrativa.

A Balada do Café Triste, da escritora norte-americana Carson McCullers (1917-1967), é mais um episódio, como o de qualquer narrativa literária do Ocidente moderno, dessa longa tradição escorada, em última análise e apesar das múltiplas formas que tem tomado, no Quixote. A narrativa pode resumir-se como uma investigação sobre o modo como o amor e a traição desencadeiam as metamorfoses do Self da personagem principal do texto, Miss Amelia Evans. Metamorfoses estas que são acompanhadas e observadas pelos habitantes da pequena povoação do Sul dos EUA, onde decorre a acção. A população funciona praticamente como o coro da tragédia grega, pautando a acção e comentando o desenrolar dos acontecimentos.

O carácter solitário, rude, avarento e belicoso de Miss Amelia, a mulher mais rica da zona, é subitamente adoçado pela chegada de um nebuloso primo - parentesco nunca verdadeiramente confirmado -, o primo Lymon, um corcunda frágil, pequeno e insinuante, de espírito empreendedor. Para espanto da população, Miss Amelia não só não contestou as pretensões de parentesco de Lymon, como o recebeu em sua casa. A partir desse momento, a sua disposição de espírito torna-se mais suave e alegre, como se a chegada daquele corcunda tivesse o efeito de revelar a Miss Amelia uma parte de si que até aí todos desconheciam, inclusive ela própria. O resultado dessa metamorfose, provocada pelo amor, é a abertura do Café, um estabelecimento animado pela presença de Lymon e onde a população encontrou, ao contrário do que diz o título do conto, um lugar de alegria na desolação que era a vida de todos.

A súbita e inesperada chegada do rufia Marvin Macy, antigo marido de Miss Amelia, que ela suportou apenas por dez dias, veio alterar a situação que parecia estabelizada há vários anos já. Tendo estado preso durante muito tempo numa penitenciária de Atalanta, mal chegou exerceu sobre o primo Lymon um nefasto fascínio. Esse fascínio conduziu, primeiramente, a um equívoco triângulo amoroso, onde Miss Amelia e Marvin Macy disputam a atenção, ou o amor, do corcunda. Por fim, ambos se confrontam numa luta de boxe, no café, assistida pela povoação em peso. A vitória de Marvin Macy só se tornou possível pela intervenção do corcunda. A humilhação de Miss Amelia fica completa pelo desaparecimento do ex-marido acompanhado pelo primo Lymon.

A traição de Lymon desencadeou uma derradeira metamorfose identitária em Miss Amelia, onde o antigo vigor e doçura desapareceram, como se a identidade se dissolvesse e se preparasse para se extinguir, para se tornar um resíduo pontual que lembra, como se fosse um negativo fotográfico, a identidade pontual e vazia da filosofia cartesiana, como se toda a biografia não fosse mais que o prelúdio da sua própria extinção, uma extinção lenta, triste e dolorosa, sob os olhos do coro trágico da população daquele nenhures do sul dos Estados Unidos.

quarta-feira, 7 de março de 2012

O exorcismo pela arte

Júlio Pomar - da série Os Tigres

Milhares de anos de religião, de moral e de leis e, no entanto, ainda precisamos do exorcismo trazido pela arte. Mandamentos, imperativos e códigos penais têm a missão de esconder o animal que somos. Vivem da esperança de que o medo o faça regredir ou, no mínimo, o contenha naqueles limites que o tornem aceitável. A arte tem a vantagem de mostrar. Essa visão é um exercício de exorcismo, devido ao confronto do olhar consigo mesmo. Este quadro de Júlio Pomar, por exemplo, funciona como um espelho. Olho e vejo e o animal que há em mim. Os tigres magníficos - seja o da floresta nocturna do poema de Blake, seja o dos quadro de Pomar - são tigres humanos, emanações vindas da profundeza da nossa alma, retratos do espírito, umas vezes, outras meros ideais reguladores das nossas ambições. O exorcismo proporcionado pela arte não visa, todavia, expulsar para longe de nós, como se fora um espírito imundo, o animal. Pelo contrário, o seu objectivo é colocá-lo à nossa frente e ao nosso lado. Só assim podemos aprender a viver com ele. De certa forma, todo o quadro, e por extensão toda a obra de arte, é um espelho onde vejo de mim aquilo que nenhum espelho pode mostrar, como ensina de forma tão explícita a pintura de René Magritte. É o contrário da fonte onde Narciso se viu; o exorcismo trazido pela arte é um exercício de desconstrução de si. A arte não serve para me cultivar ou para me tornar mais interessante, serve para me ensinar a morrer, mostrando-me no que não me quero ver.

terça-feira, 6 de março de 2012

Poema 27 - A noite vergou os ramos ao seu peso

A noite verga os ramos ao seu peso
E as árvores, exaustas, escurecem,
Perdidas entre traços de luz,
Que se desprendem de ermos solitários.

O silêncio troa nos teus ouvidos,
Desce-te pelo corpo,
Procura na discórdia da pulsação
Um lugar para sentir a voz do medo.

Eu, também olho surpreso as trevas,
Mas respiro a plena solidão vazia
Que nasce da seiva cantante da tua voz.

Uma onda de musgo cobre as ruas,
E os teus dedos são ramos dobrados
Pela noite que desce do meu coração.

Ressentimento e desqualificação


O general Eanes, em entrevista à Antena 1, coloca a necessidade de o país decidir se quer ter Forças Armadas ou não. Pessoalmente, sou favorável à existência da instituição militar. O meu próximo artigo no Jornal Torrejano será sobre o assunto. A leitura da caixa de comentários do Público é, como sempre, muito instrutiva. Ressentimento contra os militares e/ou desqualificação da sua missão são recorrentes. Este tipo de sondagem, digamos assim, vale o que vale, mas não deixa de exprimir um certo estado de espírito. 

A verdade, porém, é que mesmo um país periférico (se é que num mundo globalizado há lugar para a dicotomia centro/periferia) precisa de assegurar a sua defesa, incluindo a do território. Há duas ideias que me parecem extravagantes. Por um lado, a ideia do Estado-nação estar a caminho de desaparecer. Parece-me ser uma notícia um pouco precipitada, tendo em consideração a situação geopolítica. Por outro, a ideia de que hoje em dia ninguém faz guerra por questões territoriais. Basta o contra-exemplo do conflito israelo-palestiniano para mostrar a falsidade da presunção. Do ponto de vista económico, o território perdeu importância; do ponto de vista político, o território contínua a ser um conceito central. Nada garante que amanhã guerras pelo território (e pela água que nele possa haver) não farão parte do quotidiano dos seres humanos. 

As palavras do General Ramalho Eanes fazem todo o sentido. Chamam a atenção para a questão da Defesa e das Forças Armadas. Esta questão não é das menores, pelo contrário. O problema da Defesa é uma das questões centrais da governação, mesmo em tempo de crise. Não é assunto para ressentimentos sociais ou para desqualificação do papel dos militares.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Um destino petrificado


Este artigo do Público sobre questões de saúde revela um sentimento de impotência que cresce desmesurado em Portugal e, porventura, na Europa. No fundo, para a generalidade das pessoas, o seu destino está determinado pelo topos social onde nasceu. Quem é pelo menos tão velho quanto eu já passou por momentos sociais em que isso não parecia ser assim. Na sequência do 25 de Abril, cresceu durante algum tempo, bem para lá do 25 de Novembro de 1975, um certo espírito igualitarista, o qual desfazia, em aparência, as fatalidades do nascimento. Nesses tempos, apesar de tudo, os mal-nascidos socialmente (e esses eram uma larguíssima maioria) sentiam menos o lugar onde tinham nascido ou, o que também acontecia, orgulhavam-se desse topos. Esse espírito igualitário subsistiu na vida social durante muito tempo, embora já no início dos anos 80 se notasse um grande investimento das elites sociais na diferenciação. A fábula igualitária estava a entrar em decadência.

A entrada para a União Europeia, porém, veio trazer uma compensação para a perda do referencial igualitário. A nova narrativa centrava-se na meritocracia. Com a abertura das fronteiras e a entrada de grandes fluxos de capital, pensámos menos em igualdade e mais numa imaterial igualdade de oportunidades. A diferença entre pessoas pessoas existiria, mas estaria fundada no mérito individual, na capacidade de trabalho, no reconhecimento que o esforço receberia da sociedade. Esta nova fábula, pois sempre se tratou de uma fábula, não resistiu às primeiras rabanadas de vento. Os mais sensíveis, ou mais inteligentes, perceberam de imediato que, por detrás da ideologia do mérito, estavam os velhos fantasmas do pedigree social. E esses fantasmas não eram tão imateriais quanto um fantasma deve ser.

Lentamente, desde o início dos anos 90, a percepção da possibilidade de mobilidade social começou a desfazer-se, a velha topologia social voltava, e voltava reforçada e rancorosa, desejosa de fazer pagar as ilusões daqueles que um dia foram embalados pelo sonho igualitário ou pelo meritocrático. A experiência social dos últimos anos tem sido decisiva. As estruturas sociais estão petrificadas, a mobilidade social é inexistente (as excepções apenas confirmam a regra) e as gerações que sonharam em ter uma vida melhor que a dos seus pais a única coisa que aspiram, neste momento, é que os pais continuem a dar-lhes de comer. Um dos resultados da crise foi trazer para a direcção do país um discurso político que acompanha as medidas de austeridade com uma moralização da pobreza generalizada e a silenciosa glorificação de uma estratificação social imutável. A liberdade transformou-se em destino, um destino marcado pelo lugar social onde se nasce. Não por acaso, nestes anos o fado recuperou o seu estatuto de canção nacional. Como diz o título do artigo do Público, do nascimento à morte o que conta é a classe social. Um fado.


domingo, 4 de março de 2012

Rússia, o espírito e a matéria


Vale a pena ler este artigo do Público, de Paulo Moura. Está lá tudo. Está lá a corrupção endémica, cuja matriz se encontrava já no regime soviético, mas que se desenvolveu livremente na era pós-comunista. Está lá também a força e a fragilidade da economia russa, bem como os problemas demográficos e o crescente nacionalismo. Mas está lá outra coisa a que se deve dar atenção. Para perceber essa outra coisa vale a pena fazer um contraste. Num artigo, também do Público, sobre o livro de Henry Miller O Colosso de Maroussi, Edmund Kelley afirma que "Quando saí da Segunda Guerra Mundial, descobri, gradualmente, uma tradição humanista pela qual me apaixonei. Queria apresentá-la ao mundo pelo ensino: como um homem pode transcender-se ao acreditar na literatura e na cultura. Depois, comecei a pensar se essa ideia estaria a sobreviver. E julgo que perdemos isso."

Esta importância de uma certa tradição veiculada pela literatura e pela cultura está praticamente moribunda no Ocidente. Para lá de alguns cultores, hoje em dia essa tradição é frequentemente alvo de escárnio e maldizer. Se adicionarmos a isso a erosão completa de qualquer conhecimento histórico e um desprezo generalizado pela religião, temos o retrato espiritual do homem ocidental, onde se inclui o homem português. O artigo de Paulo Moura mostra outra coisa na Rússia. Mostra uma forte classe média emergente, crente no trabalho e no mérito pessoal. Contudo, estas crenças estão fortemente estribadas no acesso à cultura e, fundamentalmente, aos grandes clássicos da literatura russa. Estes são lidos avidamente. A isto junta-se o interesse pela história e uma atenção especial ao cristianismo ortodoxo. É esta classe média emergente que vai ter hoje um papel determinante na eleição de Putin.

Talvez o mais interessante de tudo isto esteja na conexão entre o desenvolvimento espiritual e o desenvolvimento económico. No mundo ocidental, tudo foi reduzido à questão económica. Por exemplo, a generalidade da classe média portuguesa - ou do que ainda dela resta - é de uma ignorância confrangedora. Um exemplo interessantíssimo foi a decisão do actual governo português de transformar o Ministério da Cultura numa mera Secretaria de Estado. Isto diz tudo da percepção que as elites têm do papel da cultura no desenvolvimento da sociedade. Ora a cultura, nomeadamente a literatura, não é um mero exercício de entretenimento. Ela contribui para a criação de uma identidade e para a formação do assentimento que nos diz que vale a pena vivermos uns com os outros. Se os europeus conhecessem a sua grande literatura, se as classes médias europeias passeassem por Pessoa, Joyce, Proust, Kafka, Broch, Mann, Musil, Cervantes, Goethe, Racine, etc., etc., como as russas passeiam por Tólstoi, Tchékhov, Dostoiévky, etc. talvez não estivéssemos na triste e difícil situação em que nos encontramos. Os homens não são apenas máquinas para fazer dinheiro. Mesmo para isso, contudo, eles precisam de um incentivo que vai muito para além da avidez natural, precisam que o espírito dê um sentido aceitável a essa avidez material. 


sábado, 3 de março de 2012

Poema 26 - As tardes de sábado guardo-as para meditar


As tardes de sábado guardo-as para meditar
Sobre a vida enviesada pelo tempo.
A cada um o seu jardim
E eu prefiro estar sentado e quieto.

Nada sei de flores e estações do ano
Nem quero aprender o ritmo da vida
Ao som da tesoura de poda.
Durmo sentado e sonho com belas raparigas

E depois acordo espantado.
Lá fora chove e o dia está frio e cinzento
E eu, sisudo e quieto, desfio as horas

À espera que chegue o negrume da noite.
Da janela, avisto jardins e jardineiros
À procura da vida nas ervas de um canteiro.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Filosofia e não ciência


Este artigo do Público, que refere o polémico After-birth abortion: why should the baby live?, já aqui analisado, labora num erro crucial, erro esse replicado por muitos comentários de leitores mais ou menos indignados. O artigo, contrariamente ao que diz o Público, não tem qualquer carácter científico. Podemos recorrer à velha distinção kantiana entre pensar e conhecer. A ciência produz conhecimento, a filosofia pensa determinado tipo de problemas. O artigo de Giubilini e Minerva não fornece qualquer tipo de conhecimento sobre o mundo empírico, apenas discute se é moralmente aceitável o infanticídio. Estamos no âmbito da filosofia moral. 

Em vez da distinção kantiana, podemos usar o critério de demarcação de Popper para determinar que tipo de enunciados são científicos ou não. A tese deverá poder ser falsificável, isto é, deverá poder ser testável empiricamente para ver se ela é refutada ou se resiste, e durante quanto tempo, às tentativas de  falsificação (demonstração de que é falsa). Ora a tese dos autores do artigo (o aborto pós-nascimento deverá ser permissível em todos os casos, sem excepção, em que o aborto é permitido) não permite elaborar qualquer teste empírico. Este enunciado não tem qualquer natureza científica. A sua justificação e a sua refutação passam apenas pelo domínio da argumentação e não do teste empírico. 

O uso da designação de "artigo científico" induz os leitores em erro, cobrindo com o manto da ciência - algo que se refere à forma como a realidade funciona - aquilo que apenas pertence ao campo do debate de ideias, neste caso das ideias morais. Ao fazer isso, acaba por ocultar o debate que subjaz ao artigo em causa. E por repelente que possa ser a tese dos autores - e para mim é -, os argumentos merecem atenção, não tanto por poderem justificar o after-birth abortion, mas porque obrigam a pensar os motivos do aborto e os critérios que justificam a interrupção do processo de desenvolvimento de uma vida humana, bem como os critérios que demarcam a altura em que essa interrupção é permitida moralmente (o que não é a mesma coisa que a permissão legal) e quando deixa de o ser (embora os autores não o façam no artigo). 


Pensar e dirigir


A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Existem muitas causas que ajudam a explicar a situação na qual vivemos. Excesso de consumo, esbanjamento de recursos, investimentos desadequados, corrupção política, eleitoralismo, problemas de formação, baixa produtividade, etc. Se quisermos compreender não apenas a superfície da situação mas aquilo que permitiu o acumular dos erros, teremos de encontrar outro tipo de explicações. Que atitudes estão na base de tudo isto?

Em primeiro lugar, a ausência de espírito crítico. A sociedade portuguesa é avessa à discussão crítica, ao confronto de ideias, ao conflito de pontos de vista. Na vida das instituições (públicas e privadas) o exercício crítico, o debate de ideias, o conflito sobre os caminhos a tomar praticamente não existem. As instituições portuguesas são verdadeiros túmulos. O silêncio é de ouro e quem ambiciona subir, ou apenas deseja não ser enxotado porta fora, não levanta ondas. Não levantar ondas é o ideal regulador da acção do português.

Isto implica que empresas privadas e instituições públicas definhem. Os erros acumulam-se, constituem-se em hábitos, formam verdadeiras tradições. O silêncio que as chefias, por uma questão de autodefesa, cultivam e a que as pessoas, também por autodefesa, se submetem significa uma demissão de pensar e uma ausência efectiva de compromisso com a instituição. Num mundo em que a economia se fundamenta no conhecimento, em Portugal cultiva-se o silêncio das igrejas e a paz dos cemitérios.

Em segundo lugar, e em conexão com a ausência de pensamento crítico, temos lideranças frágeis. Se as pessoas não são levadas a pensar criticamente, como forma de melhorar o desempenho da instituição ou da empresa a que pertencem, isso está intimamente ligado à qualidade das lideranças. Genericamente, Portugal não tem líderes, mas chefes que têm medo da discussão, do debate e do confronto de ideias. As chefias em Portugal vivem no terror de que a sua incapacidade se torne óbvia e, por isso, não só evitam suscitar qualquer tipo de pensamento crítico dentro do seu feudo, como o reprimem, caso ele surja. Não percebem que o papel de uma liderança é tirar partido, para a organização, do conflito de ideias, dos pontos de vista descentrados e desviantes.

A péssima preparação técnica das lideranças destrói a imaginação, exclui o pensamento crítico e afoga empresas e instituições na pura rotina até que se tornem obsoletas e um peso morto para a sociedade, a qual lentamente se foi tornando ela própria um enorme peso morto.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Lev Tolstói, A Morte de Ivan Illitch


Podemos ler um livro de múltiplas maneiras. Uma delas é mobilizar aquilo que se sabe da psicologia e dos traços ideológicos do autor para dar um sentido à leitura, para legitimar essa leitura, dando-lhe uma certa tonalidade verídica. Entre os múltiplos pecados que cobrem a minha alma está o de nunca me interessar pela biografia dos autores. Quando leio as suas obras leio apenas as suas obras e não quero saber da sua vida. Sou um leitor egoísta, pois procuro numa obra aquilo que ela me faz pensar e não a projecção mimética de quem a escreveu, até porque não acredito que a arte seja projecção mimética seja do que e de quem for. Eu não quero encontrar o autor, quero descobrir-me a mim através da provocação que uma obra me lança. Descobrir-me significa não tanto construir a minha pretensa identidade - coisa que duvido que tenha - mas destruir as construções ilusórios que faço dela. 

Vladimir Nabukov, alguém com uma autoridade literária infinitamente maior que a minha, diz que a A Morte de Ivan Illitch trata "não da Morte de Ivan mas da Vida de Ivan." E este dizer está escorado naquilo que Nabukov sabe ser o pensamento de Tolstói, a preocupação deste com o destino do homem espiritual. Diz Nabukov:  «De acordo com  Tolstói , o homem mortal, o homem pessoal, o homem individua, o homem físico, vai pelo seu caminho físico para o caixote do lixo da natureza; de acordo com Tólstoi, o homem espiritual regressa à região sem nuvens do amor divino universal, um lugar de felicidade neutra tão caro aos místicos orientais.» Será assim, mas nada disso me ajuda a compreender a novela em causa.

Qual o papel da morte em A Morte de Ivan Illitch? Obviamente, que a morte, através da sua delegada a doença, tem a função de ir destruindo o corpo físico de Ivan Illitch. A minha leitura, porém, situa-se numa outra perspectiva. A morte tem, na novela, a dupla função de separação e de individuação. Quando ela surge no horizonte da existência de Ivan Illitch gera um processo de separação com a realidade habitual, com a vida familiar, as relações de amizade e os compromissos de trabalho. Esta separação que, num processo relativamente longo e marcado pela agonia final, a morte opera não significa uma etapa de indiferenciação e de dissolução dos limites do indivíduo.

Pelo contrário, ao separar da vida habitual, a morte (deveria escrever a Morte) vai constituir Ivan Illitch num indivíduo. A morte é aquilo a que os filósofos medievais - não se referindo a ela - chamam princípio de individuação. O que se assiste é, a partir do momento em que Ivan Illitch suspeita que está condenado, à operação da sua verdadeira singularização. O texto é muito curioso a este respeito. Narra como Ivan Illitch, transferido para S. Petersburgo, está entusiasmado com a decoração que ele próprio faz da sua casa, como ele a acha singular. Mas esta percepção da personagem não é corroborada pelo narrador, que evidencia que aquele tipo de decoração é idêntico ao de todas as casas das pessoas da mesma classe social. Na verdade, Ivan Illitch é como todos os Procuradores, é mais um na massa do estrato social a que pertence, com gostos e idiossincrasias idênticos. São o sofrimento físico provocado pela dor e o sofrimento moral motivado pela impotência perante a morte que o confrontam com a sua singularidade e o mostram não como um mero elemento da espécie ou da casta social mas como ser singular e irrepetível. O texto narra longamente como a morte se vai insinuando no horizonte da existência de Ivan Illitch e como ela o leva a questionar a própria vida que, com tanto êxito, tinha levado até ali. Este questionamento das antigas assumpções, as quais estavam de acordo com aquilo que era socialmente correcto, faz parte de processo de singularização e de individuação da personagem, o qual não teria sido possível sem o papel operador da morte.

O que o texto me revela - a mim leitor que não quer saber do pensamento do autor - é o papel da morte como operador da nossa individualidade. A vida é um puro magma indiferenciado. É a morte que, ao operar sobre ela, ao trabalhá-la, ao exercer o seu papel de negação, vai extraindo desse magma indiferenciado um indivíduo, um ser singular e irrepetível. Não me torno indivíduo pela forma como vivo a vida, mas pela forma como a morte opera sobre mim, questionando-me, limitando-me e separando-me desse magma a que chamamos vida.

A Brasileira de Coimbra


Não é preciso um novo motivo para ir a Coimbra. Não estudei em Coimbra nem gosto da chamada tradição académica que por lá impera, apesar de gostar de fado de Coimbra, mas é sempre um prazer ir até à cidade do Mondego, uma das cidades portugueses de que mais gosto. A reabertura de A Brasileira é apenas mais um motivo para ir até lá, um excelente motivo. Será bom que o negócio corra bem, para que o velho café não torne a fechar. A Brasileira de Coimbra faz parte de uma série de cafés que são património cultural dos portugueses.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Aborto pós-nascimento


Neste artigo do The Telegraph, de que tive conhecimento aqui, Stephen Adams dá conta de um outro artigo publicado no Journal of Medical Ethics por Alberto Giubilini e Francesca Minerva, onde estes argumentam a favor do direito dos pais em matar os filhos recém-nascidos, sejam eles deficientes ou não. O argumento de Giubilini e Minerva funda-se, embora o The Telegraph não o refira explicitamente, na distinção aristotélica entre ser em acto e ser em potência. Os recém-nascidos não são pessoas em acto e, por isso, não possuem direito moral à vida. São apenas pessoas em potência, mas ainda não são sujeitos que possam reivindicar um direito moral à vida. Deste ponto de vista, os recém-nascidos não são diferentes dos fetos. Estes também são apenas pessoas em potência. Aliás, os autores em vez de usarem a expressão habitual de infanticídio usam a designação de aborto pós-nascimento.

Por escandalosa que seja a argumentação para a nossa consciência, ela deve ser discutida. Recordemos que o infanticídio foi uma prática comum, no mínimo tolerada, em todo o mundo. No império romano, parece ter sido uma prática amplamente difundida. Ao artigo, levantaria duas objecções. Em primeiro lugar, o princípio que conduz os autores à conclusão a que chegam não implica essa conclusão. A distinção aristotélica entre pessoa em acto (aquele que é capaz de reivindicar o estatuto) e pessoa em potência pode conduzir à conclusão contrária. Todos os seres que, potencialmente, têm o poder de, no futuro, se apresentarem como sujeitos morais com direito à vida possuem o direito a viver e o seu assassínio é um crime. Este argumento, porém, tem um defeito. Trata-se daqueles seres humanos que, por uma patologia, não têm agora nem no futuro capacidade de reivindicar o seu estatuto moral de pessoa. Esses não estariam defendidos por esta argumentação e a sua execução seria permitida moralmente.

Em segundo lugar, o direito à vida só deverá ser assegurado a quem tem o poder de afirmar-se como sujeito moral e reivindicar o estatuto de pessoa? Se assim for, qual é a altura em que um neo-nato humano pode ser considerado pessoa e sujeito moral? O erro desta argumentação (um erro suposto a partir da leitura do artigo do The Telegraph e não do próprio artigo dos autores) está na consideração do estatuto de pessoa a partir da capacidade de reivindicação desses estatuto por parte do sujeito. Ora, um estatuto diz respeito ao reconhecimento por parte dos outros. O recém-nascido não tem capacidade de exigir para si o direito moral à vida, mas os outros - isto é, a sociedade - reconhece esse estatuto e confere-lho. O erro da argumentação está na focalização do estatuto de pessoa no indivíduo esquecendo que todo o estatuto resulta da interacção entre indivíduos no espaço e no tempo. Eu tenho o estatuto de pessoa porque a comunidade mo reconhece. Eu só posso reivindicar o estatuto de pessoa porque há, por parte dos outros, uma pressuposição e uma disposição para que tal aconteça. É evidente que a minha posição levanta imensos problemas à questão da moralidade do aborto.

P.S. - Referência ao artigo também no Público. Contrariamente ao que diz o Público, o artigo não é científico, mas um artigo no âmbito da ética, logo de natureza filosófica. Não há qualquer ciência que nos possa dizer se é moralmente errado ou certo o infanticídio. 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Patologias da alma


Comprei a edição completa, julgo, dos trabalhos do GAC Vozes na Luta. Tenho ainda os LP's originais bem como a cassete, também original, do A cantiga é uma arma, um autêntico programa. Comprei por uma espécie de tributo ao que fui no passado. Para dizer a verdade, porém, acho tudo aquilo absolutamente insuportável. Não me refiro à música, muita dela, no âmbito da música popular a que pertence, de excelente qualidade, feita por pessoas de talento. Refiro-me às letras, verdadeiros panfletos de péssimo gosto. Que cegueira seria a minha e a de muitos como eu para dar qualquer crédito àquele tipo de coisas? O meu problema nem sequer é político mas estético. Há textos de um insuportável mau gosto. Da minha parte, não se trata de renegar o passado ou escondê-lo, nunca o fiz. Trata-se mais de um exercício de desconfiança sobre a minha pessoa. Será possível confiar em alguém que na flor da sua juventude gostava de coisas como as cantadas pelo GAC Vozes na Luta? De que patologia era a minha pobre alma presa? Agora que tenho toda a obra em CD, vou arrumá-la na estante e esperar que chegue a hora, se chegar, em que o meu estado de senilidade me permita tornar a ouvi-la. O que falta saber, contudo, é se as minhas actuais inclinações estéticas serão muito melhores que as de outrora.  

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Nós e os nossos primos Neandertais


Acho sempre fascinante este tipo de artigos sobre outras espécies humanas que não a nossa. Segundo um estudo agora publicado, feito a partir da análise do ADN de 13 Neandertais, quando a nossa espécie encontrou a dos Neandertais, há menos de 50 000 anos, estes já eram sobreviventes de um fenómeno que quase tinha ceifado a espécie. Tanto quanto tenho conhecimento - mas sei muito pouco do assunto - não existe na literatura oral, mesmo se depois passada a escrito, nenhuma narrativa desse longínquo encontro. Não faço ideia quanto tempo um dado fenómeno pode permanecer, em forma de tradição, na memória colectiva de uma comunidade humana. Este artigo pode apontar uma espécie de solução do meu enigma. O contacto ter sido esporádico devido aos Neandertais estarem em vias de extinção e o seu equipamento genético não lhe dar plasticidade suficiente para fazer frente às alterações climáticas ocorridas. Daí não haver memória do incidente. Por outro lado, um confronto militar, digamos assim, entre o Homem Sapiens Sapiens e o Homem do Neandertal, com a vitória dos primeiros e o desaparecimento dos segundos, teria condições  para deixar um traço que persistisse ao longo de dezenas de milhares de anos? Há, por outro lado, as notícias (provenientes da ciência) de que as duas espécies se cruzaram. Não temos notícias de guerra mas parece que há provas de amor inter-específico. Seja como for, gosto de imaginar que a nossa espécie não foi a única espécie humana que habitou o planeta. Isto pode ser lido como um exercício de narcisismo de um Sapiens Sapiens (a nossa espécie é tão bem equipada que sobreviveu às outras) ou como um aviso: até uma espécie humana pode desaparecer sem quase deixar rasto.

Justiça e sensatez


A absolvição do juiz Baltazar Garzón, no caso onde era acusado de prevaricação por ter investigado crimes cometidos durante o franquismo abrangidos pela amnistia de 1977, não anula a tensão surda que ainda existe em Espanha na sequência da guerra civil de 36-39 do século passado. A extrema-direita, agora que os compêndios de História lhe são desfavoráveis, tentou julgar a História na figura de um dos juízes que a tem protagonizado. Os familiares das vítimas do franquismo vieram para a rua em apoio de Garzón. O Supremo Tribunal, ao absolver o juiz, mostrou, porém, que a querela entre republicanos e nacionalistas, apesar de ainda forte, começa a perder sentido político no presente. A Espanha está mais preocupada com o futuro, se o tem, do que com o passado que teve. Uma condenação de Garzón abriria uma conflitualidade dentro da sociedade que a maioria dos espanhóis quer esquecida. Foi um exercício de justiça e de sensatez política.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Erland Josephson


Morreu hoje o actor Erland Josephson. Foi um dos actores preferidos de Ingmar Bergman e podemos também vê-lo em dois filmes de Andrei Tarkovsky. Foi também escritor (teatro, contos e poesia). A última vez que o vi, ainda um excepcional actor, foi no filme de Ingmar Bergman, Saraband, no papel de Johan. O Público elenca alguns dos filmes, todos obras primas, de Bergman interpretados por Erland Josephson: A Hora do Lobo (1968), Lágrimas e Suspiros (1972), Cenas da Vida Conjugal (1973). A Flauta Mágica (1975), Sonata de Outono (1978), Fanny e Alexandre (1982) e Saraband (2003). Hoje é um dia triste para quem gosta de cinema, fundamentalmente de cinema europeu. Erland Josephson mereceria, numa televisão de serviço público, um ciclo que permitisse rever a sua vasta obra.

Ivan Turguénev, O Primeiro Amor


O Primeiro Amor (1869) é uma das últimas obras do escritor russo Ivan Turguénev. Fará ainda sentido ler uma obra cujo ambiente social e modo de vida nada têm a ver com os nossos? Esta pergunta não se dirige ao carácter clássico da obra (vale a pena ainda ler os clássicos?), mas ao tema sobre o qual ela é construída, o primeiro amor. Serão ainda analogáveis as experiências dos primeiros amores actuais com aquela que é descrita no conto de Turguénev?

De certa maneira, a experiência do primeiro amor, no livro de Turguénev, é, ao mesmo tempo, a do último, um exercício de destruição da vocação romântica do coração. Nesta obra há uma leve reminiscência do Banquete de Platão, onde os vários convivas decidem fazer um discurso em honra do deus Eros. No caso do livro do escritor russo, depois de uma festa (supõe-se), ficam apenas três convivas. O anfitrião propõe que cada um faça a narrativa do seu primeiro amor. Chegam à conclusão que só Vladímir Petróvitch tem uma experiência que vale a pena ser contada. Ele, porém, recusa-se a narrá-la oralmente. Propõe-se escrevê-la e, posteriormente, lê-la aos amigos. A narrativa, também uma confissão, que o leitor tem à sua disposição é então o escrito onde Vladímir Petrovítch narra o seu primeiro amor.

Na casa de campo que a família ocupava, Vladímir, então com 16 anos, descobriu por vizinha Zinaída Kassékin, uma jovem princesa, cuja família estava empobrecida. Zinaída possuía, como a Penélope da Odisseia de Homero, uma corte de pretendentes, homens mais velhos e instalados na vida. A esta corte juntou-se o jovem Vladímir. Zinaída, inconstante, coquette, irreverente, entretinha-se no exercício de uma certa malevolência relativamente aos pretendentes, manipulando-os e mostrando-os no seu ridículo. A Vladímir, que se foi apaixonando intensamente por ela, tratava com condescendência inerente à diferença de idades. Há um momento, porém, em que todos os pretendentes percebem que o coração de Zinaída está tomado por alguém fora do grupo de pretendentes. 

A meio da narrativa, Vladímir conta duas conversas que simbolizam o núcleo central da intriga, são duas revelações do carácter das personagens envolvidas. Numa delas, o pai diz a Vladímir: "Apanha o que puderes da vida, mas não te deixes aprisionar; pertencer a si próprio - é essa toda a graça da vida". E quando o filho lhe falou em liberdade, o pai perguntou-lhe: "Mas sabes o que pode dar liberdade ao homem?", e, perante a pergunta do filho, respondeu: "A sua própria vontade, que também lhe dará o poder; o poder que é melhor do que a liberdade. Aprende a desejar e serás livre, e mandarás." Esta apologia, tão antikantiana, de uma vontade inclinada pelo desejo, marca já a presença de Schopenhauer e anuncia, de certa forma, Nietzsche. O importante, porém, é notar este desejo de domínio, este ser livre de prisões, esta independência muito diferente da autonomia da vontade, uma independência que vive da realização impassível do desejo e da vontade de poder e não da abstenção racional dos prazeres do mundo.

Por outro lado, uma  das confissões que Zinaída faz ao jovem Vladímir é fulcral para perceber o que está em jogo no amor: "Não, não posso gostar de alguém para quem olhe de cima para baixo. Preciso de alguém que me leve de vencida... Mas não hei-de encontrar ninguém assim, Deus é misericordioso! Não cairei nas mãos de ninguém, nunca!" O amor é sentido como uma fatalidade, como uma imperiosa e desejada submissão da mulher ao homem, mas não a qualquer homem. Só àquele que souber olhá-la de cima para baixo. O amor exige a mais pura desigualdade, e não é senão a realização de uma fatalidade.

O desenrolar da intriga conduz a um final psicanalítico avant la lettre. Vladímir descobre, depois do grupo de pretendentes ter constatado que a jovem princesa estava apaixonada, que o seu rival efectivo é o próprio pai. Foi a ele que Zinaída se submeteu e se entregou. Entregou-se a quem tinha por lema ser livre de todo o compromisso, aquele cuja vontade era mais forte que qualquer resistência. Na parte final da narrativa, o jovem Vladímir tem, sem que seja visto, a lição definitiva sobre o amor: "Zinaída endireitou as costas e estendeu a mão... Bruscamente, produziu-se aos meus olhos uma coisa inverosímil: o meu pai levantou o chicote, com que sacudia o pó da sua sobrecasaca, e ouviu-se uma chicotada brusca no braço nu de Zinaída. Foi a custo que me contive, que não soltei um grito; Zinaída estremeceu, olhou em silêncio para o meu pai e, levando lentamente o braço aos lábios, beijou o vermelhão que o chicote deixara. O meu pai arremessou o chicote para o lado e, subindo apressadamente os degraus, irrompeu dentro de casa. Zinaída virou-se e, com os braços estendidos e a cabeça dobrada para trás, afastou-se da janela..."

O primeiro amor de Vladímir não foi o seu amor por Zinaída, mas o amor do seu pai por ela, foi a lição de que o amor não passa de um jogo de poder e submissão, de uma vontade de poder e de um desejo de ser vencida, foi a revelação de uma moral em contradição com o espírito dominante do cristianismo, bem como dos movimentos emancipatórios da época e posteriores. Quarentão, aquando da escrita da narrativa, Vladímir Petróvitch continuava um solteirão. Esta é uma lição de amor para todos os tempos, mas não para todos os homens e mulheres. Destina-se apenas àqueles para quem o amor se pode interpretar literalmente como amor fati. E hoje em dia, numa época de igualdade e de ciência iluminada, quem crê num amor destinado?

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Os Cinco fazem 70 anos


Isto de estar com dor de garganta e um pouco febril é uma óptima desculpa para andar a flâner por aqui e por ali, sem nenhum objectivo pré-determinado. Nessas deambulações, encontrei no A Terceira Noite, de Rui Bebiano, uma nota sobre o septuagésimo aniversário do primeiro livro dos cinco, Os Cinco na Ilha do Tesouro. Como muita gente da minha geração (e de gerações anteriores e posteriores) li avidamente as aventuras dos Cinco. Era um tempo em que não havia praticamente televisão e, durante as férias e não só, havia um tempo infinito para ler. Os Cinco fazem parte dos livros da minha vida, embora não tenham sido os primeiros livros de texto corrido que li. E marcaram-me de tal maneira que, numa época onde a colecção Uma Aventura, de Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães, dominava o mercado, insisti para que os meus filhos lessem em primeiro lugar os Cinco. O meu filho teve inclusive um belo Castro Laboreiro a que deu o nome de Tim. Setenta anos são muitos anos, mas a Ana, a Zé, o David, o Júlio e o Tim pertencem à esfera do Olimpo, são deuses sobre os quais  Cronos não tem império.

Poema 25 - A saga deste Inverno sem chuva


A saga deste Inverno sem chuva
Cobre o horizonte amarelo dos campos.
Algumas aves planam no céu tranquilo
E ao longe crepitam os primeiros fogos.

Olho da janela o incêndio da tarde,
Enquanto o coração pulsa inebriado
Pela recordação das tuas mãos incertas,
Exaustas, entregues ao capricho do vento.

Tudo crepita na luz do anoitecer.
As ruas transfiguradas cobrem-se de faúlhas,
São jardins onde as estrelas se demoram

Para que não venha tão cedo a manhã.
Acordado, na noite sem destino, espero
A hora em que me venhas adormecer.

Ideias destiladas


O Partido Socialista tem agora um Laboratório de Ideias, para o qual tem vindo a convidar certas personalidades com prestígio na sociedade civil. Estes exercícios (a que os partidos gostam de recorrer) sempre me pareceram ociosos. Servem para evidenciar quem aceita (por exemplo, o Prof. Júlio Pedrosa) ou quem rejeita (o Prof. Manuel Carrilho), mas do ponto de vista prático tudo isto não passa de pura irrelevância. No entanto, serve para mostrar uma coisa. Os partidos, mesmo os do arco do poder, conhecem mal o país, não sabem minimamente o que fazer e, o mais sintomático do espírito do tempo, não têm quaisquer princípios que os guiem na acção política. Por isso sentem-se coagidos a este tipo de festividades. Estas, dignas de verdadeiros escuteiros, podem ajudar a conquistar o poder (o sonho do qualquer líder da oposição), embora em Portugal o poder não se conquiste. Cai nas mãos de quem o apanha por má conduta da governação anterior. Pressinto já o frémito que perpassa pelo país à espera das ideias que tão eminente laboratório há-de destilar. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Iluminismo e Facebook


Em Elogio da Sombra, de Junichirō Tanizaki, um ensaio de 1933 (de que espero falar aqui um dia destes), referia que o que diferenciava o Oriente do Ocidente era a questão da sombra e da luz. Os ocidentais estão sempre preocupados com a luz, com o acto de iluminar e de eliminar a sombra, enquanto os orientais, nomeadamente os japoneses, acentuam a dimensão de sombra, de velamento em que vivem. Isto vem a propósito desta notícia do Público, que nos explica, a partir de um estudo da Microsoft, que um perfil do Facebook pode dizer mais aos empregadores do que um entrevista. O iluminismo enraizou-se de tal maneira no mundo ocidental que não há recanto que não seja iluminado.  Não é que os orientais não usem o Facebook. A questão está em que ele foi inventado por ocidentais e não por orientais. 

As entrevistas para obtenção de emprego são prolongamentos do iluminismo, onde o entrevistador tenta lançar luz (a luz de uma razão calculadora) sobre o carácter do entrevistado. A notícia, porém, permite perceber outra coisa para além da superior eficácio do perfil do Facebook relativamente às entrevistas tradicionais. Permite compreender que todos nós, ocidentais, de alguma forma nos oferecemos à luz. A sombra, mesmo a nossa própria sombra, repugna-nos. O Facebook, rede social que uso, é uma forma de me dar à luz, sem nunca ter pensado muito no assunto. Prestar-se a ser iluminado é uma pulsão tão forte, num ocidental, como iluminar os outros e o mundo que nos rodeia. É evidente que fica por pensar o verdadeiro significado desta nossa propensão para a luz, bem como o temor da sombra.



José Afonso


A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Fez ontem 25 anos que morreu José Afonso. Vale ainda a pena reflectir sobre a música do mais importante cantor português de intervenção. Divido a reflexão em duas partes. Uma relativa aos aspectos menos interventivos da sua obra. Outra focada na música de intervenção.

São as canções de José Afonso menos comprometidas com a intervenção política que mais me interessam e agradam. No entanto, seríamos ingénuos se olhássemos para esse cancioneiro desprovido de qualquer valor político. Pelo contrário, ele remete para a recuperação da música popular portuguesa, fornece um fio de ligação à nossa identidade, recriando-a e reinventando-a. Há, no século XX, três figuras essenciais da nossa música popular. Amália Rodrigues, José Afonso e Carlos Paredes. Neles, podemos escutarmo-nos enquanto povo, enquanto comunidade de destino. Nesta área, José Afonso, como Amália e Paredes, é absolutamente extraordinário. A generalidade dos álbuns feitos antes do 25 de Abril remetem para a raiz mais funda da nossa cultura. São um exercício puro de patriotismo.

A parte que menos gosto na obra de José Afonso é a de intervenção. Aparentemente é datada. No entanto, se ouvirmos canções como “Coro dos Tribunais”, “Vampiros” ou “Como se Faz um Canalha” percebemos que há ali qualquer coisa de universal. Chacais, vampiros e canalhas são produzidos continuamente e a grande velocidade, na generalidade das situações sociais. Não tenho qualquer ilusão sobre um regime político em que a esquerda governasse sem oposição de direita e no qual a economia de mercado fosse destruída. Não faltariam aí, como não falta na vida político-social de hoje, chacais, vampiros e canalhas. Por isso, não partilho da utopia política de José Afonso. Mas a pureza que ele pôs no seu canto e na forma como se entregou à política são importantes fontes de inspiração para a mobilização popular contra o radicalismo e fanatismo dos actuais senhores do mundo.

A vida social, de forma crua, não é mais que o confronto entre forças opostas. O importante seria que as elites políticas tentassem gerar equilíbrios sociais, contribuindo para a paz pública e a coesão das comunidades. Sabemos que, desde a vitória do eixo Thatcher-Reagan, os políticos ocidentais defendem apenas uma parte da sociedade, a mais pequena e a mais poderosa, em detrimento da imensa maioria. Ora é importante que esta imensa maioria se faça ouvir para obrigar a novos reequilíbrios. A música de José Afonso, desse ponto de vista, continua a ser profundamente inspiradora.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Pensar no fio da navalha


Recebi hoje o meu exemplar, saído há dias em França, do livro de Alain Badiou sobre a República de Platão. Traduzo os dois primeiros parágrafos.

Isto durou seis anos.
Mas porquê? Porquê este trabalho quase maníaco a partir de Platão? Porque é dele que nós hoje temos, prioritariamente, necessidade, por uma razão precisa: ele originou a convicção que governar-nos no mundo supõe que algum tipo de acesso ao absoluto nos seja aberto. Não porque um Deus veraz nos inclina para isso (Descartes), nem porque somos nós mesmo figuras historiais do tornar-se-sujeito desse Absoluto (Hegel assim como Heidegger), mas por que o sensível, que nos tece, participa, para além da corporalidade individual e da retórica colectiva, das construção das verdades eternas. [Alain Badiou (2012). La République de Platon. Paris: Fayard] 

É natural que um filósofo de extracção marxista, como Alain Badiou, se interesse por Platão e pela questão precisa que justifica este livro, a da necessidade, para o governo dos homens, do reconhecimento de verdades eternas, que sejam o padrão pelo qual confrontamos as governações humanas e a justiça dessas governações. No fundo, Marx ainda se inscreve numa longa tradição que se inicia em Platão. A perspectiva de Platão foi construída em debate e contradição com o relativismo céptico dos sofistas, com a ideia de inexistência de um padrão absoluto de medida que permitisse aferir da justiça ou injustiça do governo dos homens. Hoje em dia, as teorias contratualistas de orientação liberal, acabam por reactivar a perspectiva sofista, reduzindo tudo à célebre divisa de Protágoras: O homem é a medida de todas as coisas.

E para mim onde está o interesse de Platão, interesse que me levou a comprar o livro de Badiou? Está numa necessidade funda do meu próprio ser. Está na necessidade de casar o meu cepticismo e a minha necessidade de absoluto. De certa maneira, sou um céptico que se revolta contra o seu cepticismo. Tudo o que é humano me provoca um profundo cepticismo. A finitude, os limites e a perversão dos homens há muito que me retiraram qualquer ilusão sobre a bondade absoluta dos seus actos. Há, no entanto, qualquer coisa que mitiga este cepticismo, a possibilidade de abertura para o absoluto, para as verdades eternas. Dito de outra maneira, para Deus. E é esta abertura que me interessa. Ela significa uma possibilidade - uma possibilidade precária - de moderar a injustiça entre os homens. 

O marxismo perdeu demasiado tempo a desmontar a ilusão da religião (ópio do povo) e de Deus. Devido à sua natureza de cristianismo de pés para o ar, o marxismo não percebeu o essencial. Para que haja justiça entre os homens é preciso Deus (ou o Absoluto ou a verdade eterna), esse padrão absoluto pelo qual julgo as acções humanas. Mesmo que Deus não exista, Ele precisa de ser inventado e reinventado. Esta reinvenção é sempre um exercício de cepticismo e de revisibilidade. Cepticismo sobre a imagem de Deus criada e revisão que conduza a uma nova imagem, numa dialéctica infinita de cepticismo e necessidade de absoluto. É preciso pensar no fio da navalha, sem se afundar num cepticismo justificador de todas as barbaridades nem num dogmatismo sem freio. É aqui, pelo menos para mim, que a Filosofia faz sentido. Só no fio da navalha o pensamento se torna decisivo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Três visitas ao admirável mundo novo


Uma das coisas que me fazem ser leitor do Público é a atenção dada à ciência. Agora, na edição online, na página inicial tenho links para três notícias diferentes. São sempre notícias que me reconfortam, mesmo se algumas me deixam em pânico. Não é o caso de hoje. Os desenhos acima referem-se a uma descoberta de arqueólogos brasileiros da gravura mais antiga do novo-mundo. Informam que é um corpo antropomórfico esguio datado de há 9500 a 10 400 anos. Teria sido produzida por grupos de recolectores-caçadores. A hipótese é que seja uma manifestação simbólica ligada à fertilidade. Nós temos a Senhora do Ó e eles teriam aquela imagem. 


Esta planta que vê aqui tem 30 000 anos e foi ressuscitada por cientistas russos. Conseguiram fazer crescer uma flor a partir de material vegetal congelado há 30 000 anos e que tinha sido guardado em buracos por pequenos mamíferos da época. Aqui estamos mais avançados que no Brasil. Ali descobrem-se símbolos, mas na Rússia ressuscitam-se seres.


Para acabar, o telescópio Hubble descobriu um novo tipo de planeta com mais água do que a Terra, e fica só a 40 anos-luz. Aborrecida é a temperatura estimada à superfície, uns 230º. O mais surpreendente é a possível existência de materiais exóticos, tais como gelo quente e água superfluida. Isto deve-se à conjugação de elevadas temperaturas com elevadas pressões. Um verdadeiro admirável mundo novo. Quando a água arrefecer, talvez lá possamos ir tomar banho.

Como se vê, a actividade científica não pára e o conhecimento aumenta todos os dias, movido por um glorioso e abnegado exército de cientistas. Sentado no meu escritório sinto-me reconfortado. Não sei bem porquê, mas sinto. Por vezes, passa-me pela cabeça que a generalidade do conhecimento produzido é inútil e que não passa de um exercício da hybris humana. E toda hybris é uma insubmissão e uma violação dos direitos dos deuses que se paga bem caro, como sabiam os tragediógrafos gregos. Depois, lembro-me que vivo num mundo cristão, e que o Deus do Novo Testamento é infinitamente misericordioso e que perdoará tudo isto. O reconforto desce sobre mim e adormeço, bocejando.

Bendita seria uma Quaresma anual


Começa hoje o tempo de Quaresma. Quando era novo, achava o tempo de Quaresma uma depressão. Depois, tornou-se-me indiferente, com a agradável particularidade de anunciar e cumprir umas sensatas férias pascais. Hoje em dia, a Quaresma tem, aos meus olhos, imensas virtualidades. Foi um crime tê-la votado - mesmo entre muitos e muitos cristãos - ao desdém e ao abandono. Diria mesmo que foi um crime ambiental.

O ano é marcado pelas festividades do Natal e Ano Novo, do Carnaval (felizmente acabado ontem) e as recém eternas férias de Verão. Tudo (o Natal tornou-se o que se sabe) momentos de exterioridade, de exibição mundana, de irreflexão. Tempos de excesso. Não de um excesso dionisíaco, mas de um excesso pindérico feito de prendas inúteis, reveillons absurdos, desfiles carnavalescos que nos dão vontade de chorar, e de obscenos dias de praia, onde corpos que deveriam estar tapados, desde a planta dos pés aos cabelos, julgam ter o dever de partilhar o seu à vontade com os olhos dos incautos que passam por uma praia. Como se vê, tudo poluição. Pior que as chuvas ácidas ou uma maré negra. 

Ora a Quaresma é um tempo de sacrifício e de conversão espiritual. As igrejas cristãs propõem penitência, meditação, jejum, esmola, oração durante os quarenta dias de Quaresma. Faz todo o sentido. Devíamos todos fazer penitência pela sociedade que criámos, pelos hábitos idiotas que adoptámos, pelas pretensões risíveis dos nossos egos. Fundamentalmente, deveríamos fazer penitência por permitir que a estupidez tome conta do mundo. A estupidez não é um pecado, mas a complacência com ela é um dos piores e de irremissibilidade mais difícil. Por outro lado, andamos todos sobre-alimentados, mesmo em época de crise como esta, as pessoas, para além do sexo, não pensam noutra coisa senão em comer. O jejum parece-me uma medida ecológica e económica. Poupa o ambiente, faz bem à saúde, e se não faz bem à economia também não fará mal (pois se nem os economistas sabem o que faz bem ou mal à economia, como seria eu a saber?). A esmola é um exercício virtuoso. Aprendi-o com o meu pai, que não era religioso, mas que raramente se furtava, nesses tempos em que havia pobres de pedir, a esse dever de consciência de dar alguma coisa a quem o interpelasse. Tem a vantagem de ser também uma virtude social, pois é uma forma de distribuir rendimentos. Eu sei que o Estado tem o dever disto e daquilo, eu sei. Mas se o Estado não o faz alguém tem de o fazer.

Aquilo que me agrada mais é a ideia de meditação e oração, fundamentalmente se a oração for silenciosa, ou então realizada nos lugares reservados para o efeito. Se Portugal inteiro meditasse e orasse, quantas palavras idiotas nos seriam poupadas? Quantas decisões desastrosas das mentes brilhantes que nos governam não chegariam sequer a cintilar nos neurónios de pessoas como Passos Coelho ou Miguel Relvas, para não falar do Vítor e do Álvaro. Meditação e oração seriam um exercício de defesa do meio ambiente, fariam parte de uma ascese da palavra que pusesse fim à verborreia reinante. Seriam a anunciação do paraíso na Terra. Como é que uma pessoa como eu, que não caminha para novo, pode deixar de amar os tempos de Quaresma? 

Sim, o Natal pode ser quando um homem quiser, mas a Quaresma, meu Deus, deveria ser obrigatória todo o ano. Por uma questão ecológica.



Poema 24 - Quarta-feira de Cinzas


As flores trazidas pela manhã secaram.
São agora uma antecipação de cinza,
O restolho que cobre a face,
A breve memória de um jardim.

Não há nelas o sortilégio da música,
Nem o aveludado de uma pele,
Que se guarda na memória
A vida inteira.

Do perfume que a terra lhes deu,
A casa não reteve vestígio.
Ao júbilo sucede a nostalgia,

E depois chega a hora do vento,
E tudo se desvanece,
Quando o lobo crocita na madrugada.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Preparação cultural do exército


Os EUA, com a longa experiência de invasões a que se têm dedicado desde o fim da II Guerra Mundial, já tinham tido tempo de aprender. Hoje em dia, as guerras não são apenas questão de força militar, são também jogo comunicacional, que tem por pano de fundo a História e a Cultura. Assim sendo, seria útil que os militares americanos, desde os soldados aos generais, para além da preparação militar e estratégica, tivessem aulas de História e de Antropologia Cultural. Eu sei que homens que são homens não ligam a esses coisas menores da história e das culturas dos povos, mas talvez evitassem pedidos de desculpa como este. Nós sabemos que o mundo muçulmano é muito susceptível com os seus símbolos religiosos (embora o mesmo não se passe com os símbolos religiosos dos outros), mas parece que os soldados americanos ainda não perceberam o assunto. Queimar cópias do Alcorão (e não o Corão como grafa o Público), mesmo que estejam no lixo, não é recomendável para captar a indiferença (a simpatia, essa é impossível) de muçulmanos ocupados. Portanto, ou os EUA se deixam de invadir países por tudo e por nada, ou preparam as suas tropas do ponto de vista cultural. Não faltarão historiadores e antropólogos no desemprego.

Memória, uma agência de falsificação


Há dias, ouvi no programa de Joel Costa, Questões de Moral (Antena 2), uma história de Buñuel que liguei, de imediato, a uma experiência minha. Parece que Luis Buñuel contou, várias vezes, aos amigos o casamento pela Igreja do intelectual marxista Paul Nizan. O casamento teria sido em Saint-Germain-des-Prés, e Buñuel descrevia o altar, a música, o padre, os convidados, entre eles Jean-Paul Sartre, que teria sido o padrinho. Um dia chegou à conclusão que aquela memória era falsa. Toda esta história incongruente, da qual Buñuel possuía vívida imagem, nunca acontecera, não sabendo o cineasta explicar como formou tão clara memória do facto não acontecido.

Também eu possuo uma memória vívida de uns dos meus bisavós maternos, uma memória que os coloca lado a lado à soleira de uma porta. Mas olhando para a idade que eu tinha quando eles morreram, eu não posso ter esta imagem idílica. O problema maior não reside na falsidade da memória, da sua infinita capacidade de falsear o acontecido. Todos sabemos isso. O problema maior está na nossa identidade. A identidade, essa instância conservadora do nosso eu, é, fundamentalmente, construída pelas redes memoriais que vamos erguendo. São elas, as redes memoriais, que permitem conservar, na consciência e na representação social perante os outros, os traços que afirmam e conservam a nossa identidade.

Se descobrimos, porém, que a memória é uma agência de falsificação de documentos, então o mais certo é que a nossa identidade seja falsa, não havendo Bilhete de Identidade ou, na versão mais actual, Cartão de Cidadão que nos salve. A identidade não passará de uma instância de conservação construída de forma a produzir uma ficção congruente. Isso significa, em primeiro lugar, que o conservadorismo, essa forma de prolongamento de uma identidade no tempo, não passa de um exercício ficcional fabricado sobre falsificações da realidade e que todo o nosso esforço identitário é sempre uma inovação de quem pretendemos ser, com a aparência de que há uma linha de continuidade temporal. Em segundo lugar, tudo isto significa que cada vez que nós olhamos para o que somos, para essa identidade que conserva o nosso ego, devemos seguir o conselho, dado pelo escritor romântico inglês Samuel Taylor Coleridge, de suspender a descrença, o que significa aceitar como verdadeiras as premissas de uma ficção, mesmo que sejam impossíveis ou contraditórias.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Carne em laboratório


Um projecto holandês visa a produção de carne em laboratório a partir de células estaminais de um certo animal. O artigo do Público descreve os possíveis benefícios: diminuir as terras ocupadas pela agricultura, diminuir o abate de animais, diminuir as emissões de gás metano para a atmosfera, controlar laboratorialmente a carne produzida para que ele apresente determinadas qualidades benéficas para a saúde. O projecto está ainda em fase embrionária, embora já tenham sido produzidos pequenos pedaços de músculo. 

Pode-se questionar a qualidade do sabor da carne  assim produzida ou o significado metafísico deste processo de engenharia genética. Tudo isso pode ser interessante, mas há algo que é menos visível e que talvez seja mais pertinente pensar. Está ligado à relação dos processos científicos ou técnico-científicos com a ordem social e política. Talvez o essencial seja perceber o carácter puramente mitológico da autonomia das esferas da ciência e da política. Cada novo território que o acto de descoberta científica - e de invenção técnico-científica - traz é um território que, em última análise, vai ficar sob a jurisdição da regulação política (ou da ausência dessa regulação, o que não deixa de ser um acto político). Os actos científicos são, por essência e ao rasgar novos territórios para a regulação política, actos políticos.

Há contudo uma outra questão que é interessante e pouco pensada, apesar de aparentemente conhecida. O impacto da ciência sobre a sociedade e o poder. Se lermos os comentadores políticos, nunca é pensado, quando se reflecte sobre o o poder e as suas mutações, o papel da ciência e das técnicas dela derivadas sobre o próprio poder. Mas imaginemos que este projecto holandês tem sucesso científico e técnico e, posteriormente, valor industrial. A reconfiguração da gestão da população torna-se de imediato necessária. O próprio poder é confrontado e condicionado pelo novo dado proveniente da ciência. O que cabe compreender é como a própria ciência acaba por transformar as problemáticas do poder. Um outro passo, porém, é ainda mais importante. Como é que o impacto da ciência transforma as tecnologias do poder, para falar à maneira de Michel Foucault.

Tirésias - a cegueira do presente


Tirésias é um famoso profeta e adivinho de Tebas. Famoso pelas suas intervenções junto de Ulisses, na Odisseia, ou pelo seu papel de agente de revelação na tragédia de Sófocles, Édipo Tirano. Tinha a particularidade de ser cego. Como em quase tudo, as fontes do mito de Tirésias não coincidem. Umas indicam que ficou cego porque viu Palas Atena a banhar-se numa fonte. O sentido desta versão é claro: Os homens não suportam ver a divindade tal como ela é, daí a cegueira ter atingido Tirésias. Outras fontes indicam uma história um pouco mais complexa. Tendo sido chamado a arbitrar uma disputa entre Zeus e a sua mulher, Hera, (disputavam sobre quem teria mais prazer no amor sexual, defendendo cada um dos deuses que era o outro o que extraía mais prazer do amor) Tirésias - que tinha sido mulher durante sete anos e possuía uma perspectiva que abarcava os dois pontos de vista - disse que se dividisse o prazer dado pelo amor erótico em dez partes, nove caberiam à mulher e uma ao homem. Hera, derrotada, cegou-o. Zeus, compungido, deu-lhe a capacidade de previsão.

Prever significa, literalmente, ver antes, invadir o território do futuro, tornar próximo o distante. O núcleo central do mito de Tirésias reside na tensão entre a cegueira para o presente, para aquilo que se dá na sua presença imediata, e a capacidade de ver para além do que está presente. A condição para que se preveja o futuro é o corte com o fascínio que o presente exerce sobre a consciência. Édipo, atormentado com o que vem do passado, foge e, em Tebas, embrenha-se no presente. O presente, no seu esplendor, fascina-o. Preso nesse fascínio, como todos nós, Édipo é impotente para prever o futuro. Pagou, quando o futuro se tornou presente, duramente o fascínio da presença. 

É o que acontece a todos nós. Neste nós inclui-se aqueles que dirigem os destinos de uma comunidade. É preciso não esquecer que Édipo era o tirano (ou rei, conforme as traduções) de Tebas. Na acção governativa, os políticos têm os olhos bem abertos para o que é presente (dão-lhe o nome de problemas). Mas esse estar de olhos abertos significa estar fascinado com o que se manifesta, significa estar cego para aquilo que o anjo da história prepara no além. As tragédias de Édipo ou de Agámemnon seriam evitadas se eles fossem cegos para o presente e penetrassem, como Tirésias, no território do futuro. Mas não era essa a sua condição. Também, hoje em dia, os governantes, de olhos tão abertos para o presente, não pressentem a tragédia que o futuro tem para trazer. Antes fossem cegos.