segunda-feira, 31 de julho de 2023

Nocturnos 105

Adriano de Sousa Lopes, Noite no canal (aqui)
Noite escrita com águas escuras, noite tinta com o sangue negro do carvão, noite tecida como uma paisagem aberta para amantes solitários. Nos céus, as estrelas organizam-se segundo uma gramática astral, para formarem constelações unidas pela sintaxe da luz. Depois, enchem a terra com sombras, o vestígio luminoso que toca as águas com sangue negro dos amantes presos na solidão.

sábado, 29 de julho de 2023

Cardílio (24 sonetos) 20

Cópia romana de estátua grega, amazona ferida

Naquele tempo, vinhas por atalhos,

Castanheiros na estrada debruçados,

Laivos de cinza e luz em flores tardias,

Tocadas pela sombra das colinas.

 

Na leveza dos dias que acres corriam,

Nas horas cintilantes em que a chuva

Na terra desabava, sopravam ventos

Sobre o rasto dos campos abandonados.

 

Era o tempo dos mortos, das vielas

Incendiadas, horas perseguidas

Pelo orvalho azul da madrugada.

 

Entre a melancolia da erva-canária,

Entre as pedras perdidas do passado,

Ergues-te como um sonho esquecido.


2007

 

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Simulacros e simulações (53)

Alberto Carneiro, Árvore Jogo-Lúdico em Sete Imagens Espelhada, 1974 (aqui)

A nostalgia é um sentimento que se constrói no devir de uma comunidade, onde uma tradição se foi enraizando ao longo das gerações e se tornou uma segundo natureza, natureza naturada pelo tempo e pela repetição. Quando se destrói um elemento de uma paisagem que parecia eterna, a nostalgia manifesta-se simulando fora do contexto aquilo que teve sentido e que, arrancado ao lugar a que pertencia, dele foi privado.

terça-feira, 25 de julho de 2023

O poder e o político

James Ensor, Demons teasing me, 1895
 
Uma das coisas mais caricatas que corre inflamada pelas bocas é a acusação de que certo político só se interessa pelo poder. António Costa foi um dos acusados, aquando da geringonça, agora é Pedro Sanchez, em Espanha, por não viabilizar um governo do Partido Popular e estar a tentar encontrar uma solução política para a governação. Esta acusação é tão estúpida como acusar os mamíferos recém-nascidos de mamarem. Na verdade, não passa de uma estratégia patética para alcançar o poder de quem não tem as condições necessárias – por exemplo, o apoio maioritário no parlamento – para o ocupar. Os políticos, digam-no ou não, movem-se sempre pelo poder, só este lhes dá sentido. Um político que renuncie ao poder deixa de ser um político. Veja-se o caso de António Guterres. Sem o poder ou sem a expectativa de o vir a alcançar, um político vale zero, por mais princípios que proclame ou por mais loas morais que entoe ou lhe entoem. Isto significa que vale tudo em política? Significa isso mesmo, como a história o mostra. Vale tudo numa democracia e num estado de direito para alcançar o poder? Sim, desde que esteja de acordo com a constituição e as regras do Estado de direito, o que significa já uma enorme limitação das manobras possíveis para alcançar e manter o poder. Quem quer a glória dos altares vai para o convento, não entra na política. Quem quer dar lições de moral escreve tratados de ética e não entra na política. A única coisa que, verdadeiramente, motiva um político é o poder, pois sem ele nenhuma ideia, magnífica que seja, tem realização. Isto vale tanto para os políticos de esquerda como de direita, tanto para os do centro como para os dos extremos, tanto para os democráticos como para os autoritários. 

domingo, 23 de julho de 2023

Ensaio sobre a luz (104)

J.H. Field, April, 1903

Perdida na floresta, a luz descobre-se reflectida nas águas do rio. Flutua como uma promessa, resguarda-se como um segredo. Se uns olhos poisam sobre ela, resplandece como a aurora ao anunciar o novo dia.

sexta-feira, 21 de julho de 2023

Fora de controlo


Imagine-se um qualquer fenómeno adictivo. Por exemplo, o consumo de drogas. O que acontece, aos que ficam presos na adicção, é que a princípio pensavam estar perante meras experiências e que, quando quisessem, pôr-lhes-iam fim. A verdade, porém, é que a partir de certa altura é a droga que controla a vontade da pessoa e não o contrário. Esta experiência da vida dos indivíduos encontra um paralelo na vida das comunidades. Existem certos fenómenos que parecem estar sob o controlo humano, mas que a partir de um certo momento ganham autonomia e, como uma adicção, acabam por subjugar esses mesmos seres humanos.

As alterações climáticas são um caso em que se vê a presença deste padrão. Por um lado, parece cada vez mais claro que essas alterações induzidas pela actividade humana estão fora de controlo humano. O clima sempre esteve fora do domínio dos homens, mas os efeitos da intervenção humana tornaram essa situação ainda mais problemática. Por outro lado, os comportamentos humanos que induzem às alterações climáticas entraram também na situação de adicção. A humanidade não consegue ter mão no seu desejo insaciável de consumo. Não há político que, para ganhar eleições, não prometa maior crescimento económico e a possibilidade de aumentar o consumo.

Um outro fenómeno que começa a estar fora de controlo é o crescimento da extrema-direita e da direita radical. Começou como um voto de protesto, uma espécie de brincadeira para assustar os partidos institucionais, mas os eleitores, muito cedo ficaram fascinados por aquilo que há de mais irracional e bárbaro nesses programas. A opção por políticas perigosas está, neste momento, a passar a fronteira que separa uma opção de uma adicção. Partes substanciais dos eleitorados das democracias ocidentais deixam-se fascinar por retóricas simplistas que escondem as piores tempestades. A continuar assim, e nada indica o contrário, não tarda e chegaremos ao momento em que o crescimento da extrema-direita estará fora de controlo.

As grandes catástrofes da história humana têm esta marca. Começam de modo insignificante, os acontecimentos parecem ser dirigidos por seres humanos, mas, a partir de certa altura, esses acontecimentos ganham autonomia e desabam sobre os homens do modo incontrolado, como se fossem um castigo pela sua insensatez. É o que parece estar a acontecer. Seja na questão climática, seja na questão política, os sinais são os piores, indicando que, até pelo efeito da conjugação dos dois fenómenos, o descontrolo da situação será total e que só podemos esperar o pior. 

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Cardílio (24 sonetos) 19

Anónimo romano, Fresco de Aquiles en Skyros

A sentença feroz do deus, Cardílio,

Em ti se abateu. És caduca árvore

Que as folhas não reténs, ardósia frágil

Que ao vento se derrama. Nem a chama

 

Das horas te ilumina, nem as ervas

Do seco chão se curvam na voragem

De teus pés, tão despidos na planície,

Que para última casa então te deram.

 

Tribunal inflexível te julgou

No fulgor da manhã. Rude destino

Os deuses declinaram em teu rosto.

 

Nada escutas e nada sabes, pálido

Guerreiro de batalhas desvairadas,

Vencido viajante doutros mundos.


2007

 

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Nuvens negras sobre a Europa

Fernando Calhau, Sem Título #802 #803 #804 (Night Works – Out Door Situation 5), 1971

A memória histórica tem limites, e estes são muito mais severos do que aquilo que seria desejável. O que se está a passar na Alemanha deveria preocupar não apenas os alemães, mas todos os que defendem uma vida pacífica e civilizada, num regime democrático e num Estado de direito. Esta notícia (aqui), onde é contada a perseguição sentida por professores no estado de Brandemburgo, é apenas um pequeno sinal da tempestade que se está a formar. Nas três últimas sondagens, publicadas na Alemanha, dias 14 e 15 de Julho, a AfD (Alternative für Deustchland), um partido da extrema-direita com influências nazis, obtém 20% das intenções de voto, sendo neste momento o segundo partido alemão, a seguir à CDU (centro-direita). Se este dado é, por si mesmo, preocupante, a preocupação intensifica-se quando se sabe que o maior partido austríaco é o FPÖ (Freiheitliche Partei Österreichs), também de extrema-direita, com intenções de voto na casa dos 30%, e  que Marine Le Pen tem grandes possibilidades de se tornar a próxima presidente de França. O que se poderá esperar, num futuro que poderá não ser muito longínquo, de uma Alemanha (e Áustria) e França dominadas pela extrema-direita nacionalista? Rapidamente, a questão da luta contra os imigrantes, o principal motor da ascensão destas forças políticas, dará lugar aos velhos ódios franco-alemães e ao ressentimento de dois derrotados da segunda guerra mundial, pois se a Alemanha perdeu a guerra e a França se sentou na mesa dos vencedores, a realidade é que também os franceses foram derrotados e humilhados pelos alemães. Conforme a memória histórica se vai diluindo com a morte das gerações que viveram a tragédia dos anos 30 e 40 do século passado, mais forte se tornará o desejo de vingança.

sábado, 15 de julho de 2023

O progresso moral da humanidade (11)

David Hume Kennerly, A Lone Soldier, Vietnam, 1972
A solidão do militar de arma em riste é um sinal, na paisagem devastada, de uma perda muito maior do que a companhia dos seus camaradas de guerra. Naquele deambular de um estranho numa terra estranha, descobre-se que a ideia de uma hospitalidade universal, base de uma paz perpétua entre as nações, não é apenas uma ideia ilusória, mas também um ideal esquecido, caso alguma vez os seres humanos lhe tenham dado atenção. Na terra inóspita, o soldado caminha preso ao medo do inimigo, subjugado ao esquecimento da fraternidade que os une, sentindo-se, sem o dizer a si mesmo, como Caim em busca de Abel.

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Comentários (10)

Wassily Kandinsky, Painting with houses, 1909

Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo
Herberto Helder

Outrora, essa marca de um tempo antigo, muito mais antigo e, por isso, muito mais novo, o poder decorreria de uma evidência. Dessa evidência, retirava ele, então, a sua firmeza silenciosa. Trazia consigo a marca da morte e esta tem o poder de calar as vozes que, sem a sua presença, se desatam num carrossel vertiginoso, onde as palavras se atropelam para sair das bocas. Em cada casa haveria, nesses dias que nem a memória recorda, um poder despótico. Pequeno, se a casa era modesta. Enorme, se a casa era um palácio. Nos alicerces de cada morada, encontrava o poder a solidez da sua firmeza. Então, transbordava pela rua e esta era um palco para o espectáculo com que cada poder, pequeno que fosse, se manifestava, como pura evidência, aos olhos dos transeuntes perdidos na viagem. 

terça-feira, 11 de julho de 2023

Nocturnos 104

Heinrich Wilhelm Müller, Hamburgo, 1900
Velada a luz do dia, as águas tornam-se música sob o império da noite. Sobre elas, deslizam pequenos barcos como poemas cantados. Quem olha de longe deixa-se contaminar pelo encanto da paisagem e, em certas horas, ouve, como uma velha canção, o declinar da poesia da viagem no fundo musical das águas tomadas pela sombra.

domingo, 9 de julho de 2023

Cardílio (24 sonetos) 18

Afresco da Villa di Livia, Palazzo Massimo alle Terme, Roma (detalhe)

O olhar perdido nestas ruínas busca,

Em desespero animal, o que a vida

Deixou, no seu cansado e fugaz passar.

A efémera violeta, a rosa branca,


A erva rala, o Verão já devorado.

No fulgor das colinas, na oliveira

Por musgo maculada, crescem pálidas

Anémonas, sombrias ervas de Outono.

 

Onde está a viva chama, o fatigado

Olhar logo descai, procura a doce

E suave pena, a dor tanto lhe dói.

 

Aqui riram infâncias, vozes últimas,

Que ruíram fulminadas pelos pássaros

De fogo no alumínio azul da cal.


2007

sexta-feira, 7 de julho de 2023

O melhor regime e a obscuridade do fenómeno político


Os acontecimentos em França são mais um sinal de que a democracia liberal corre graves riscos na Europa. O que se tem passado será capitalizado pela extrema-direita. Por toda a Europa, mas não só, surgem nuvens negras que ameaçam as democracias. Em 1992, Francis Fukuyama publica The End of History and the Last Man. O fim da história não se refere ao fim dos conflitos políticos e das transformações sociais, como se propalou, mas ao facto de não conseguirmos perspectivar um regime político melhor. A democracia liberal, com a combinação de Estado de direito, liberdades individuais e prosperidade, seria o futuro para todos os povos. A interrogação filosófica sobre a natureza do melhor regime político – concluir-se-ia – estava definitivamente encerrada.

Talvez nos anos 90 do século passado e no início do novo milénio isso fosse uma evidência para a generalidade dos cidadãos dos países democráticos e para muitos que, noutros regimes, ansiavam por uma democracia liberal. Hoje aquilo que era uma evidência generalizada deixou de o ser. Não apenas cresceram, com apoio popular, novos regimes autoritários, como nos próprios países democráticos a evidência da superioridade das democracias liberais é cada vez menor. Largos sectores escolhem políticos e programas iliberais, a militância radical cresce e tem presença avassaladora nas redes sociais, exibindo uma agressividade retórica impensável ainda há pouco. A questão filosófica sobre o melhor regime, questão que animou o pensamento de Platão e Aristóteles, e que no final do século passado parecia resolvida, exige que se volte a ela.

O problema, todavia, não pode ser enfrentado com um retorno ao debate tal como ocorreu na Antiguidade, onde se questionava se o melhor regime era a monarquia, a aristocracia ou a democracia. Também não bastará modernizar a questão e discutir sobre se o melhor regime é a democracia liberal, a democracia iliberal, o regime autoritário, o regime totalitário, etc. Antes da questão do melhor regime, está uma bem mais radical sobre o que é esse campo da acção humana a que se dá o nome de “político”. Muitas vezes a discussão sobre o melhor regime assume que sabe o que é o “político”, mas este é, apesar da sua omnipresença, um fenómeno obscuro e difícil de captar na sua natureza. Sem o seu esclarecimento, qualquer tentativa de definição do melhor regime está condenada. Esse esclarecimento, por outro lado, ajudará a compreender as razões por que a evidência da superioridade das democracias liberais está a desaparecer e por que os seus defensores parecem perdidos.

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Beatitudes (61) Imaginação e memória

Constant Puyo, Im Schilf, 1903
É possível que a razão não seja a faculdade mais indicada para produzir uma vida feliz. Também o instinto pode conduzir os seres humanos para sendas de errância e perdição. Restam a imaginação e a memória como caminho para a beatitude. Mergulhar na natureza e deixar a imaginação correr num suave devaneio, onde o passado se vai inventando, momento a momento, numa memória que se descobre onde nada existia. Então, o coração bate impelido pela brisa suave da manhã, para tornar o presente tão desejável quanto a reminiscência do passado que se acabou de fantasiar.

segunda-feira, 3 de julho de 2023

Simulacros e simulações (52)

Harold Edgerton, Stroboscopic Motion Study of Cat Jumping Over Piano Bench, 1938

Um gato salta sobre um banco, simula nos nossos olhos a sua unidade, de tal modo que dizemos: ágil e belo como só um gato sabe ser. E em tudo o que os olhos observam não se detecta o simulacro que esconde que um gato nunca é um gato, mas uma sobreposição infinita de felinos que simulam a sua unidade, levando-nos a pensar no quão autêntica é a sua singularidade.

sábado, 1 de julho de 2023

Do futebol à política


É possível que o futebol moderno tenha sido, no início, um jogo de gentlemen, onde a competição estava escorada em regras de convivência civilizada. A expansão para lá do lugar de origem e a sua transformação no mais popular desporto do mundo contribuíram para que as normas de civilidade se tenham perdido. Tornou-se, com o passar dos anos, um lugar de expressão hiperbólica de sentimentos e paixões, o sítio onde se manifestam – por vezes, até à morte – rivalidades que, ao observar o comportamento dos adeptos, parecem inultrapassáveis. Basta ver um programa desportivo numa televisão, para perceber que, no mundo do futebol, a racionalidade é uma moeda de pouquíssimo ou nenhum valor.

Enquanto este quadro se restringe ao futebol, apesar de representar já uma ameaça à civilidade necessária, a situação não é dramática. O problema é que este quadro se tornou o modelo do debate político. Este visa, em última análise, discutir o que é o bem comum e o caminho para o realizar, avaliar se as políticas públicas são as mais adequadas. Ora, aquilo a que se tem assistido, cada vez com mais frequência, é a uma discussão, nos órgãos de comunicação social tradicionais e nas redes sociais, ao nível do futebol. Os actores políticos e comentaristas discutem a política com a mesma paixão com que se discute um jogo entre dois grandes rivais. As questões estão ao nível das que envolvem o futebol. O golo foi fora-de-jogo? Quantos penalties ficaram por marcar? E aquele que foi marcado foi mesmo penalty? A capacidade de análise racional das peripécias políticas é tão grande quanto a dos comentadores do futebol adeptos de um clube. Nula.

Este quadro mental tem pelo menos duas consequências funestas. A primeira diz respeito ao desaparecimento do debate público dos grandes problemas que afectam o país e as pessoas. O que se discute são casos mais ou menos irrelevantes, mas nada relacionado com aquilo que é fundamental. A política fica reduzida a episódios que são comentados com exaltação e irracionalidade, como se fossem decisivos, tal como um penalty por marcar. A segunda diz respeito às regras da convivência civilizada entre projectos políticos concorrentes. A exaltação futebolística transportada para a vida política exacerba rivalidades e dá passos decisivos para transformar adversários políticos, que confrontam projectos, em inimigos, arrastando o país para uma lógica política interna marcada pela polarização amigo/inimigo. Este caminho é o pior possível. Não resolve nenhum problema e, em última instância, conduz uma comunidade para as portas da guerra civil.

terça-feira, 20 de junho de 2023

Simulacros e simulações (51)

José Bellosillo, Esperanza, 1982

Não da luz nem da transparência. Não do orgulho ou da humildade. A esperança nasce da simulação dos futuros possíveis, brota de um jogo de composição em que se transforma, com a lentidão das coisas decisivas, o olhar num simulacro de futuro e este na realidade que o coração retém como o santuário onde termina a sua peregrinação.

domingo, 18 de junho de 2023

Cardílio (24 sonetos) 17

Anónimo romano - Afresco encontrado em Pompeia

Seriam hábeis amantes os que nesta
Casa amaram? E no grito dessa noite,
Deixariam os homens a sua língua
Perder-se nos recantos fatigados,

Na relva crespa, esparsa das mulheres?
Que incêndios os fizeram tão felizes?
Oiço nesse horizonte gritos breves
E puros, oiço a morte, em silêncio,

Percutir na penosa e dura pedra
Da vida, oiço os sinos das aldeias
Por vir, depois de ti, pobre Cardílio.

De ti que só a ruína do amor salvou
Do eterno esquecimento. Canta, pois,
De Avita o sangue no Orco tenebroso.

2007

sexta-feira, 16 de junho de 2023

Os cartazes dos professores

Os cartazes empunhados por alguns professores, no dia 10 de Junho, onde o primeiro-ministro António Costa é retratado com nariz de porco, lápis cravados nos olhos e uma hiperbolização dos seus traços indianos, levantou uma enorme controvérsia. Vale a pena analisar o acontecimento a partir de três perspectivas.

1. A liberdade de expressão. Os cartazes cruzam várias referências. Por um lado, há uma quase citação gráfica da obra de Georges Orwell, O Triunfo dos Porcos, por outro, há uma inscrição do cartaz na área da caricatura. Uma questão que se pode debater é se o cartaz é racista. Ele representa uma crítica ao primeiro-ministro por ser primeiro-ministro ou porque, além de ser primeiro-ministro, tem parte das suas origens na Índia? É plausível que o cartaz possa ser interpretado como um acto racista. Os comportamentos racistas devem ser perseguidos pela justiça. Contudo, neste caso, isso seria errado. Estamos numa zona de fronteira entre a crítica política e a ofensa pessoal de péssimo gosto. O direito à liberdade de expressão deve prevalecer.

2. Os interesses dos professores. Será que os cartazes reforçaram a posição dos professores no amargo conflito que travam com o governo? Não, claramente não. Por dois motivos complementares. Em primeiro lugar, a ofensa gratuita, mesmo apresentada como crítica, tem má imprensa e pior recepção na comunidade. Em segundo, porque os professores não podem ostentar certo tipo de comportamentos. Deles espera-se, mesmo quando maltratados pelas governações, uma posição mais discreta e civilizada, mesmo que firme nas suas reivindicações. Por desesperada que seja a situação de muitos professores, e é, há uma coisa que não podem perder, essa coisa é a imagem de dignidade inerente à sua função. Fez bem a FENPROF em demarcar-se de imediato.

3. A saúde da democracia. Este acontecimento insere-se num movimento em que as regras de civilidade parecem estar em recuo. Por detrás dessa onda, no qual este episódio é uma mera gota, está um processo em curso que, alimentado por sectores políticos inimigos da democracia liberal, aproveita todas as situações para corroer as instituições e a convivência democrática. Isto significa, literalmente, transformar adversários políticos em inimigos, os quais podem ser tratados como se não fossem pessoas morais (é o que simboliza o cartaz). Isto não é novo. A novidade reside na quantidade de situações destas, que começam no parlamento, são intensificadas nas redes sociais e acabam por se exibir nas ruas. São tempos difíceis para a convivência democrática.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Comentários (9)

Claude Gellée, Ulysses Returns Chryseis to Her Father, 1644

Estarei sempre do lado dos troianos, reafirmando
a pergunta essencial: que procuram os gregos?
Que querem eles sob o pretexto  da devolução de Helena?
Luís Quintais

Será diferente aquilo que as hostes de Agamémnon e Menalau, filhos de Atreu, procuraram em Tróia daquilo que procurou Sócrates, séculos depois, em Atenas? Talvez a guerra, naqueles dias em que os inimigos se olhavam nos olhos, fosse uma forma de sabedoria, ou, melhor, um método de questionamento sobre si, sobre a sua verdade, o confronto com a sua alma, com a sua natureza. No fundo da consciência dos heróis gregos, existiria, quem sabe, uma difusa sensação de que Helena não era outra senão a própria Sophia que habitava dentro de cada um e que, no esforço imposto pela retórica do combate, se procurava, de forma tão decisiva quanto Sócrates a procurou nas suas deambulações pela cidade de Atenas, e que o conduziu, como a muitos dos heróis gregos em Tróia, à morte. 

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Ensaio sobre a luz (103)

Fernando Calhau, sem título, 1978

Romper as trevas como uma mão abre um cortina. Deixar que a luz caia e, de súbito, um corpo se manifeste, para se tornar objecto de desejo, o ponto para onde, tremente, o olhar se dirige. Romper as trevas como se rompesse o grande lençol da ausência.

sábado, 10 de junho de 2023

A persistência da memória (24)

Alfred Stieglitz, Scurrying Home, 1895
Um ramo da árvore do passado cai diante de mim, interrompe-me o caminho, desvia-me os olhos dos perigos do presente ou das ânsias do futuro para os degraus do grande hotel do passado. Este chega em ondas, numa maré viva, cheia de imagens que crescem e se dissolvem na areia da atenção. Quantas vezes vi aquelas mulheres a caminharem apressadas para o lugar que as esperava, quantas vezes entrei naquela igreja para me resguardar do calor do dia ou do ruído da vida? Elas deslizam na floresta da eternidade. Entram numa memória e saem para outra, perfilam-se no horizonte como estátuas que o tempo não derrubará, imagens presas no altar de uma igreja perdida no caminho.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Nocturnos 103

Georges Rouault, Paisage de noche, 1897

O peso da escuridão solta-se sobre a terra, abrindo clareiras de mistério nos matagais do segredo. Ali, viandantes incógnitos trilham caminhos em busca da glória dos abandonados e da coragem dos vencidos. A noite dissolve os contornos de cada coisa, para que esta transborde os seus limites e se torne naquilo que não é.

terça-feira, 6 de junho de 2023

Cardílio (24 sonetos) 16

Anónimo romano, A Poetisa

Lucernas, vidros, ânforas, pedaços

De vida esquecidos entre malvas,

Na poeira do campo, na memória

Tragada pelo tempo, no silêncio

 

Bravio de tanta morte. Nesta casa,

Habitaram mulheres, e ferozes

Dedos delas fizeram doce e terna

Habitação. Que nome seria o seu?

 

Procuro-o na cerâmica dos dias,

No mármore das noites, no Inverno

Do teu rosto aceso e sem nome.

 

Na planície, sinistras mãos vazias

Erram entre o cascalho abandonado.

Cantam como os loucos cantar sabem.


2007

domingo, 4 de junho de 2023

A moral e o medo


No Público online de 28 de Maio, há uma entrevista interessante a Mohan Mohan, antigo gestor da Procter & Gamble, uma multinacional detentora de inúmeros marcas bem conhecidas dos consumidores portugueses. A entrevista tem um curioso título: Se os gestores fossem movidos por valores, não teríamos a crise que enfrentamos hoje. O título é interessante porque reconhece explicitamente que a actual crise se deve às opções dos que têm poder de decisão económica. Mais à frente faz o mesmo reconhecimento relativamente à crise do subprime de 2008 nos EUA, que desencadeou, a partir de 2011, as crises das dívidas soberanas na Europa do Sul, entre elas a portuguesa. O interesse da entrevista deriva ainda de outra coisa, do reconhecimento de que os gestores, por norma, não são movidos por valores morais.

A dado passo, é perguntado o seguinte: Acredita que os valores dos gestores constituem a parte mais importante para se evitar fenómenos como o de 2008, mais do que a regulação e a supervisão? A resposta pode resumir-se no Absolutamente. É evidente que se todos os gestores se pautassem por valores morais irrepreensíveis, muitos dos males que acontecem à humanidade não aconteceriam. Todavia, não há nada de mais equívoco do que julgar que a moral tem poder para resolver este tipo de problemas que atormentam a vida de grande parte da população mundial. Contrariamente ao que é sugerido pelas entrevistadoras, é falso que os valores morais tenham mais capacidade para evitar crises económicas catastróficas do que a regulação e a supervisão, isto é, a política e o direito.

A moral liga-se à consciência de cada um e, como todos sabemos, a sanção da nossa consciência é um fraco elemento dissuasor de comportamentos eticamente reprováveis e juridicamente criminosos. O que se passa no mundo é que os interesses económicos colonizaram a política, e esta tornou-se, em nome do livre mercado, complacente com regras económicas que conduzem aos desastres financeiros que arrastam milhões de pessoas para a miséria. A economia emancipou-se da moral e submeteu a política e, através dela, o direito. A solução não está num apelo aos valores e à consciência moral dos gestores, mas a uma independência da política em relação à economia, à existência de regras estritas de regulação e supervisão, e de penalidades jurídicas dissuasoras de comportamentos perigosos. Talvez daí, do medo, os gestores ganhem consciência moral. Sem isso, pessoas e países estarão sempre expostas ao arbítrio de quem manda no dinheiro. Não é só a moral que deve influenciar a criação do direito. Também o direito pode e deve fomentar a moralidade.

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Naturalizar as alterações climáticas


Entre diversos acontecimentos notáveis, o século XVIII europeu foi abalado, já na segunda metade, por dois que lançaram não pouca confusão nos espíritos da época. Em 1755, o Terramoto de Lisboa. Em 1789, a Revolução Francesa. O sismo de Lisboa não abalou apenas o território português. Abalou consciências e crenças por toda a Europa culta. Gerou-se uma grande perplexidade em torno da religião. Como poderia Deus, sumamente bom, omnisciente e omnipotente, ter permitido aquela desgraça, ainda por cima numa cidade católica? O desconcerto da natureza deu energia à crítica iluminista da religião, acelerou o interesse pela ciência como explicação dos fenómenos naturais, abriu uma brecha na consciência europeia por onde a religião começou um longo processo de evaporação.

O abalo não foi menor na Revolução Francesa, 34 anos depois. A ordem política instalada cai como caiu parte substancial da cidade de Lisboa. Uma das reacções mais interessantes foi a do mais encarniçado inimigo da Revolução, o conde Joseph de Maistre. O interesse da sua reacção advém de ela combinar uma mistura de teologia e de naturalismo. A Revolução seria um castigo de Deus por os franceses se terem pervertido nas águas do Iluminismo. Contudo, as forças desencadeadas pelo acontecimento, a partir de certa altura, já não são conduzidas pelos homens, diz Maistre. Pelo contrário, é a Revolução que conduz e utiliza os homens no seu afã destrutivo. A Revolução é vista como uma força da natureza que, tal como aconteceu no Terramoto de Lisboa, destrói aquilo por onde passa. Esta naturalização das forças desencadeadas pelo homem tornou-se um modelo interpretativo que contínua activo.

Observem-se as alterações climáticas, a forma como os seres humanos as desencadearam, tal como desencadearam a Revolução Francesa. Apesar dos alertas institucionais e do esforço militante, paulatinamente, na consciência do homem comum, instala-se uma muda convicção. Perante o que está a acontecer podemos fazer tanto quanto puderam fazer as vítimas do sismo de 1755. Já não se pensa, como pensou Maistre, em castigo divino, mas como ele naturaliza-se aquilo que teve origem nas decisões e acções humanas. O que podemos fazer perante uma natureza que se está a tornar, a cada dia, mais hostil? Nada, é a resposta que se dá no segredo da consciência. A natureza é omnipotente, mas não sumamente boa, tal como o Terramoto de Lisboa mostrou. Isto é uma desresponsabilização perante a necessidade de alterar o estilo de vida, e essa desresponsabilização decorre da naturalização das acções humanas. Terá um corolário darwinista: os mais adaptados às novas circunstâncias sobreviverão, os outros perecerão.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Cadernos do esquecimento 52 Prioridades

Marcel Duchamp, La partida de ajedrez, 1910

Poder-se-ia começar com uma fenomenologia do esquecimento, com a descrição do fenómeno nas suas múltiplas manifestações, mas seria uma perda de tempo. Elabore-se de imediato uma taxionomia. Temos os esquecimentos passivos e os activos. Os passivos são aqueles que sofremos contra a nossa vontade. As coisas apagam-se ou, no melhor dos casos, ocultam-se, sem que haja uma intervenção da nossa parte. Quando a amnésia é activa não se pense, porém, que existe uma deliberação para esquecer alguma coisa. Isso não funcionaria. Pelo contrário, qualquer deliberação em vez de conduzir ao esquecimento levaria a uma inflação da memória. O esquecimento activo resulta de uma imersão de tal modo intensa numa certa actividade que o resto desaparece do campo de consciência. Os jogadores de Xadrez estão tão presos ao combate que travam que o próprio  amor é abandonado na orla do campo de batalha. O esquecimento passivo dá-nos uma visão do nosso ser biológico, o activo mostra as prioridades que orientam uma vida.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Comentários (8)

Alberto Capmany, A Poesia, 1980

Vindo o momento, tudo aquilo que separou
ciência e poesia deixará
de existir sobre a terra.
Hélia Correia

A poesia será o lugar definitivo da esperança. Esta será uma esperança poética e funda-se na recusa de um divórcio irreparável. Os poetas sonham com o paraíso perdido de uma unidade ancestral, pegam na palavra como um instrumento usado na arqueologia, para escavar o terreno em busca dessa hora na qual tudo se fundia na unidade. Pode, porém, uma mãe sonhar com a hora em que ela e o seu filho formavam uma unidade indistinta? Os cientistas caminham sem parar por dentro do campo da separação. Fazem-no porque essa é natureza das coisas. Fazem-no porque são filhos que resistem ao apelo de voltar para o útero materno. Fazem-no porque o mundo é um lugar de múltiplos discursos que, como galáxias, se afastam sem parar uns dos outros.

sábado, 27 de maio de 2023

Beatitudes (60) Véu da ignorância

William Anckorn, Rêve d'Enfant, 1894
Os sonhos de criança são o reflexo de um mundo onde as possibilidades, as mais inesperadas, parecem estar em aberto. Tudo o que então é desejável paira no coração como necessário, e é isso que torna aqueles dias um tempo de beatitude, onde se caminho pelo paraíso, mesmo se alguém, ao alimentar sonhos e quimeras, saiba que entre o desejável e o necessário há um contencioso sem fim. O silêncio de quem sabe é um tributo aos sonhos que teve na infância e que chegou a hora de os deixar correr na fantasia de quem ainda não deve marcar encontro com a realidade despida do véu da ignorância.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Cardílio (24 sonetos) 15

Anónimo romano, La primavera derramando flores (Strabies)

Conto teus dedos um a um, pois são
Sílica, pedra roxa, várzeas calmas
Abertas sobre a foz, onde um rio puro,
De água clara, por mim em fogo chama.

Vozes de pedra, casas de minério,
Silêncios de ambrósia do céu caem
Sobre o vendaval vindo da serra,
Sobre a luz da tua sombra solitária.

Deixa vir os relâmpagos, a lua
Fria e mineral. Cantem a luz árida
Das estrelas no sonho descobertas.

Se te toquei no ventre e um incêndio
Alastrou, então deixa que esta mão
Como uma parra em teu seio leve caia.

 

2007

terça-feira, 23 de maio de 2023

Simulacros e simulações (50)

Yoriyasu Masuda, Passado, presente e futuro. Clima, 1994-96

O tempo com as suas dimensões humanas, demasiado humanas, essa ordenação que vai do anterior para o posterior, não passa de um simulacro. O enigma antevê-se na pergunta: simulacro de quê, o que simula a duração? Não a eternidade, como se chegou a pensar, mas algo para o qual não temos nome, nem poder para descortinar. No palco que se esconde por detrás da cortina do tempo representa-se uma peça que os nossos olhos jamais verão e a nossa razão nunca saberá se é uma comédia ou uma tragédia.

domingo, 21 de maio de 2023

Ensaio sobre a luz (102)

Emil Nolde, Marisma con molino de viento, 1936

O peso da luz dissolve lentamente a muralha de nuvens e desenha um alfabeto de sombras lancinantes sobre as águas do pântano. Tudo se suspende na paisagem e a vida, por instantes, hesita entre o passado e o futuro. Então um pássaro canta ao longe, a reverberação cresce em intensidade e tudo o que existe retoma o nome esquecido e a viagem adiada.

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Semipresidencialismo?


Portugal, desde 1976, vive num regime semipresidencial. Em linhas gerais, estamos perante um regime em que tanto o Presidente da República, de modo directo, como o governo, de modo indirecto, dependem do sufrágio popular. Consta que a opção por este tipo de regime se deveu a dois medos, o do parlamentarismo, encarnado na primeira república, e o do presidencialismo, como porta aberta para uma nova ditadura. A constituição pretendeu, desse modo, um regime de equilíbrios, de pesos e contrapesos, onde o Presidente da República acabaria por ter um papel central na estabilidade da vida política. Será que a história, destes anos de regime semipresidencial, confirma esse papel estabilizador do Presidente da República?

Na verdade, encontramos na figura do Presidente da República um elemento desestabilizador da governação. Com Eanes, foram os governos de iniciativa presidencial e a criação de um partido – o PRD – com o seu patrocínio. Mário Soares dissolveu o parlamento enquanto havia uma maioria que poderia suportar um governo. No segundo mandato, agiu quase como chefe da oposição a Cavaco Silva e à maioria existente na Assembleia da República. Jorge Sampaio, talvez o Presidente menos tentado em intervir na governação, dissolveu a Assembleia da República, enquanto havia uma maioria capaz de suportar o governo. Cavaco Silva foi um problema para os governos de Sócrates e tentou limitar a formação do primeiro governo de António Costa. Marcelo Rebelo de Sousa, por seu turno, tem tentado imiscuir-se na área governativa e não se tem inibido de afirmar, como ameaça, que os seus poderes de dissolução da Assembleia estão intactos, apesar de existir uma maioria absoluta.

Os Presidentes da República, quase sem excepção, têm tentado, contra as suas competências, intervir na governação do país. A ideia de que os Presidentes são cooperadores com os governos é uma ilusão. Se não são da sua área, assim que sentem força, tentam desestabilizá-los, de modo mais ou menos sub-reptício, e preparar o caminho para que os seus tomem as rédeas da governação. Todo o drama das relações entre Costa e Marcelo se inscreve neste quadro. O actual Presidente está em linha com a generalidades dos anteriores. Ora, tendo em conta a experiência dos últimos quase cinquenta anos de semipresidencialismo, talvez devesse equacionar-se uma mudança de regime em direcção a uma república parlamentar, com um PR meramente cerimonial, e com um parlamento onde os governos só pudessem ser derrubados através de uma moção de censura construtiva. Temos já tempo suficiente de democracia para não temer o parlamentarismo.

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Nocturnos 102

Júlio Pomar, Cena na Praia, 1959

Existem praias nocturnas, onde a noite desce em manchas de escuridão sobre o ouro das areias. Ali juntam-se aqueles que não suportam o fulgor do dia e entregam-se a grandes libações em honra dos deuses do obscurecimento. Quando chega a aurora, tudo se dissipa, restando apenas a monotonia das areias batidas pelas ondas e o grasnar das gaivotas.

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Cardílio (24 sonetos) 14

Anónimo romano, Cabeça de uma bacante, bêbada e assustada, Vila dos Mistério (Pompeia)

Sinto o vento no rosto e na mão trago
Um trevo iluminado pelo sangue
Que do teu corpo ávido então cai,
Como um cão que cantasse em Setembro.

Que frio aroma férvido é o teu?
O perfume do azeite, o verde mênstruo
Em meu olhar se prende, flor de pétalas
Sôfregas ou roseira amarga e lúgubre.

Penumbra em que repousas a cabeça,
Véu de branda loucura, lua deserta
Onde escondo o fantasma que me habita.

Na treva dos teus passos, eu te sigo,
Cansado de sonhar deuses, esferas,
Sombras de vento ou cálices de pólen.

2007

 

sábado, 13 de maio de 2023

A persistência da memória (23)

E. J. Brooking, Changing Pastures, 1906

Era um tempo mais lento. Visto a partir do agora em que se vive, poder-se-ia dizer que tudo se dilatava, os segundos, os minutos, as horas, os dias. O ritmo dos acontecimentos obedecia à batuta de um maestro sem pressa, concentrado no prazer de reter cada instante para dele desfrutar, encontrando os segredos que ali se podiam ocultar. Os rebanhos, conduzidos por um pastor imortal, cruzavam os caminhos vazios, entregues à romaria da lentidão, sabendo, com uma ciência arcaica, que chegariam ao destino. E tudo isso se inscreveu, silenciosa e secretamente, numa memória que cada um traz consigo, mesmo que o não saiba. É uma memória feita da lentidão das pedras e do aroma das sombras que o crepúsculo anuncia.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Comentários (7)

Maurice Denis, Paradise, 1912

certos paraísos perderam o brilho é agora
outro o receio que acolhes (...)
João Luís Barreto Guimarães

O destino de todos os paraísos é empalidecer, deixar que a cintilação, com que se apresentavam aos olhos atónitos e temerosos dos fiéis, se vá perdendo com o passar do tempo. Este é o inimigo mais poderoso de um paraíso, talvez porque os paraísos pertençam à esfera da eternidade, e o tempo é como a poeira que suja os vidros mais transparentes daquilo que está além dele. Ou então os jardins do Éden são criações humanas e como estas estão condenados à palidez, ao livor da existência, até que a lividez anuncie a sua morte, como se proclamasse o fim de um universo.